segunda-feira, 16 de maio de 2016

MAIS UMA DO ROBERTO





O acidente de trem que decepou a perna de Roberto Carlos aconteceu, tem testemunhas, muitos anos depois ele convidou a pessoa que o salvou para ser seu padrinho de batismo (filho de pai kardecista, o Rei só foi batizado na Igreja Católica aos 20 anos), mas ele prefere não tocar no assunto. Assunto esse que já é público faz tempo, ocupa várias páginas do definitivo Roberto Carlos em detalhes, de Paulo Cesar Araújo (o livro vetado por ele). Mas de vez em quando volta à tona, como na notinha publicada ontem pela coluna Gente Boa, do jornal O Globo: ele foi convidado para participar da cerimônia de abertura dos jogos Paralímpicos, mas recusou.  


A notinha não deixa claro o motivo da recusa - se foi por não querer e pronto, se for por ter um compromisso na mesma data, etc.  Não sei se o convite se deu há pouco tempo (concordando com o que comentou um amigo meu jornalista, eu achava que esse tipo de programação fosse decidida com mais de um ano de antecedência).  De qualquer jeito, como qualquer pessoa sabe, é um trauma violento para Roberto Carlos lidar com a própria história, justamente por ele tê-la tirado de circulação algumas vezes. Implicou até com uma dissertação de mestrado sobre moda na Jovem Guarda e que virou livro. Tentou tirá-lo de circulação, alguns anos depois de impedir que o livro de Paulo Cesar continuasse nas livrarias. 


É um grande problema para Roberto lidar com temas como censura e liberdade de expressão também, como já ficou claro. 
Para Roberto, sua história só tem validade se for contada por ele próprio e acabou. E mesmo que ele resolva contá-la, tudo é bastante complicado - veja só essa matéria aqui que fiz para O Dia sobre o lançamento de sua fotobiografia, um livro enorme, caríssimo e que traz apenas imagens (todas históricas) com trechos de letras de canções. O Rei se convidou para coeditar o livro e não liberou que fossem preparados textos sobre ele (o que faria todo o processo demorar mais ainda, e o livro demorou sete anos para ser finalizado). 


Falando especificamente do tal acidente que tirou a perna de Roberto, vá lá que é direito dele lidar com esse tema da maneira que bem entender. O corpo é dele, as regras são dele. Virou um acordo não-escrito entre artista e jornalistas - sua equipe não pede para que o jornalista não pergunte, mas imagino que o primeiro jornalista a abordar o acidente numa dessas coletivas de fim de ano (ai) seja imediatamente desqualificado e perca a palavra. Por isso fico imaginando até o que aconteceria com o coleguinha que resolvesse pedir o microfone, se apresentasse e soltasse: "Roberto, sendo você o maior ícone pop vivo da MPB, não acha que caso resolvesse assumir-se como deficiente físico e falar sobre o assunto, seria bastante útil para que houvesse melhorias nas condições dos cadeirantes e usuários de próteses no Brasil? O quanto esse assunto mexe com você e o que você, que lidou com essa condição e reuniu forças para se tornar o rei da música brasileira, acha que poderia fazer para ajudar?".

Acredito que nem Deus imagina que um dia o Roberto abra o verbo e fale tudo não apenas sobre isso, mas sobre como foi ser um garoto de classe média baixa, nascido numa cidade do interior, deficiente desde a infância, com um talento monstruoso, e que lutou durante toda a vida até chegar onde chegou. Seria talvez o maior livro de autoajuda, a maior palestra motivacional que nunca aconteceu. E provavelmente nunca vai rolar. É mais fácil dizer "não", implicar com jornalistas e escritores, viver cercado e contar com o silêncio de artistas até mesmo quando se manda censurar e recolher livros.

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