sábado, 20 de junho de 2015

ENTREVISTA: LEO CHERMONT (STROBO)

Se você for a um show da banda paraense Strobo, prepare-se: pode virar músico por uma noite. Arthur Kunz (bateria e programações) e Leo Chermont (guitarras e efeitos) estão divulgando por aí o terceiro CD, ‘Mamãe Quero Ser Pop’, e  têm o hábito de convidar uma  pessoa da plateia para tocar um teclado chamado Strobox. Vale dar uma escutada nos discos da dupla, todos disponibilizados em seu site oficial, e que trazem um som entre o rock e o eletrônico, só com músicas instrumentais e títulos como Nonsense, Quando se perde a inocência, Ostentação, Bizarro Dance Club.

Bati um papo com Leo, um dos strobos, há algumas semanas, quando o grupo-dupla veio lançar o novo CD no Solar do Botafogo. Na época saiu matéria no O Dia, como você vê abaixo. A íntegra da conversa está aí.


O repertório de vocês é instrumental, mas as músicas têm nomes bem engraçados, parecem que contam histórias... Como esses nomes surgem? Durante o processo de composição eles vão mudando. Teve muita músicas que começou com um nome e partiu para outro. Amazônia bang bang, por exemplo, foi inspirada no Amazonas e pensamos nela como se fosse um roteiro de filme. É engraçado porque muitas das nossas músicas aparecem realmente em trilhas. Estamos fazendo isso cada vez mais.

O repertório de vocês é bem próprio para isso... Tem muito documentário ou curta-metragem de Belém usando músicas nossas, alguns comerciais... Outro dia esbarramos com Pop Guiana sendo usada numa matéria do Esporte Espetacular sobre o Zico, contando a história dele. É engraçado ver a música tomando um rumo desses. Nenhum de nós dois tem tino para cantar. Meu negócio sempre foi ser sideman de várias bandas. E também não fazemos "música instrumental para músico, não estamos tocando para músicos que querem ser virtuosos. A gente faz música para tocar na noite, em festa, em inferninho, em festival de rock, de música eletrônica...

O som de vocês se tornou mais eletrônico com o passar do tempo. Sim. A gente sempre tá se autoproduzindo, se autotestando. O primeiro disco tinha muita coisa na linhagem de rock and roll dos anos 70, até em timbres de bateria, com reverbs. Nesse novo disco, quisemos fazer boas linhas de guitarra, gravamos a bateria com microfone para não ter som de sala. Tentamos deixar a bateria com som de eletrônico e procuramos deixar cada vez mais as guitarras com som de sintetizador. Em muita música, é a guitarra que tá fazendo a melodia, mas o cara pode pensar que é um sintetizador. Fizemos muitos testes porque para chegar nesse timbre é complicado. É como querer descaracterizar um instrumento.


E como é apresentar isso ao vivo? A gente reformula algumas coisas. Mas somos sempre eu e o Arthur. A gente está tentando tocar cada vez mais ao vivo e ter menos coisas eletrônicas. Na real, duas pessoas tentando fazer tudo é foda. Muitas bandas que conheço que fazem som eletrônico não se impõem a ele.  Nós o temos como um terceiro elemento, que se impõe sobre o som. Tem músicas que tocamos sem retorno, sem clique e bases. Tem músicas em que não programamos o baixo num midi. Levamos um sintetizador de baixo e tocamos na mão. Queremos que isso vá para dentro da música, não que saia de uma linha de baixo que já veio preconcebida.

E vocês gravam por conta própria? Sim. Temos bons computadores, placa de som e bons microfones. Conseguimos tirar um som no estúdio do Arthur que é em Belém, num porão da loja de doces da mãe dele. É um porão, com teto baixo, a mãe dele vende doces e salgados lá... e a gente quebra tudo no porão. Eu mesmo estou voltando pro meu estúdio antigo em Belém.


O disco novo se chama Mamãe quero ser pop. De onde veio esse nome? É alguma brincadeira de vocês que surgiu durante a gravação? A gente sacaneava muita gente em Belém que queria parecer londrino. Cara, Belém, num calor dos infernos, aquele caos ali, uma cidade que cresceu no caos... Começamos a brincar com esse nome, que nada mais é que uma sacaneada nuns amigos nossos de lá. A gente até falava para alguns deles: "Esse teu som aí é londrino...". Mas o engraçado é que serve para a gente também. No ano passado fomos indicados como Revelação do Prêmio Multishow e pensamos: "A gente vai concorrer com Anitta, Clarice Falcão e Karol Conká., E fazemos som instrumental, não tem cantor... Como a gente conseguiu entrar nessa?". A gente nunca pensou que fosse ser pop, nesse contexto, com essas pessoas. Mas ao mesmo tempo estamos fazendo uma música mais pop, os músicos instrumentais não levam a gente a sério, falam "pô, esse som aí é só fuleiragem". Mas não estamos nem aí para isso. Estamos abrindo caminhos.

Vocês criaram um teclado que permite até a quem não é músico tocar com vocês. Fala um pouco disso. Ah, é o Strobox. Ele está em várias fases de testes. O irmão do Arthur, o Thiago, que o criou, é o nosso Professor Pardal. É um geniozinho, se você tem problema no pedal ele vai lá e dá um jeito. Sempre experimentou coisas novas e começamos a ter a ideia de fazermos algo juntos. Quando surgiu o projeto do show, tínhamos que ter interação com o público. Pensamos em criar um aplicativo de celular, que o cara baixa e tal... Mas a nossa ideia era mesmo fazer algo que possibilitasse às pessoas a possibilidade de fazer um som com a gente. Esse já é o Strobox 3. O primeiro era em cima de várias escalas em mi. Qualquer coisa que o cara fosse improvisando já dava. Convidávamos as pessoas para subir ao palco com a gente e a ideia era que o cara não fosse músico. Num show chegou a subir no palco uma menina que era estudante de nutrição. O segundo veio já com um batida pré-programada, como se fosse um bpm pronto. Nunca dá para saber como vai sair, é um experimento.. Queremos gravar o próximo disco com esses instrumentos do Thiago, alternando pedais. O Strobo é uma banda pequenina mas por fora, tem muita gente que acredita na gente. Gente que faz os vídeos, etc.
Vocês também investem numa imagem bem gozadora, com clipes em que aparecem de sunga... É, no de Nonsense o Arthur aparece de sunga e eu de collant, no de Minimal o Arthur é um zumbi... A gente já tinha alguns clipes posando de rockstar e resolvemos nos expor mais ao ridículo. É legal ver os amigos rindo da gente. A gente é sério no som mas na vida pessoal somos pessoas tranquilas, não estamos preocupados em ter uma estética sonora ou de imagem formatada. E é chato fazer clipe sempre com cara de mau.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

FREDDIE MERCURY EM BIOGRAFIA

Um ídolo nato, um celebridade nata, um sujeito que em troca da fama oferecia dedicação intensa à arte, à música e ao universo dos espetáculos - o contrário de qualquer estrelinha vazia e fútil. Um grande entertainer (essa foto ao lado, achada na internet, resume o carisma do homem). Um cara verdadeiramente amigo dos amigos. Ou o outro lado, que exibia um sujeito inseguro, ególatra, reservado, cruel, cheio de conflitos pessoais.

Freddie Mercury - A Biografia
, da escritora escocesa Laura Jackson, acaba de sair no Brasil pela Record e, na mediação entre as duas facetas do cantor, dá a entender que nem todo mundo está preparado para fama demais e sucesso demais. Nem mesmo um cara que hipnotizou 250 mil pessoas no Rock In Rio em 1985 sem fazer força.


Laura abre o livro indo direto ao passado de Freddie e em sua infância em Zanzibar, onde nasceu - seu nome verdadeiro era Farrokh Bulsara.  Redescobre um Freddie criança e adolescente, alucinado com os mercadores de Mumbai, praticante de pingue-pongue e criado por pais seguidores de uma religião, o zoroastrismo, que repudiava veementemente a homossexualidade. 

Sobre os primeiros anos de carreira de Freddie e do Queen, eu não fazia a menor ideia de que o cantor, lá pelos 20 anos (e antes até de conhecer o guitarrista Brian May) era fanático por Jimi Hendrix e costumava copiar até suas roupas. Nem de que, lá no início do Queen, o grupo abriu shows do Mott The Hoople. Nessa época, chegaram a ter uma treta curiosa com ninguém menos que o Aerosmith. O grupo de Steven Tyler, também iniciante, tinha sido igualmente escalado para abrir um show do Mott e nenhuma das duas bandas queria ser a primeira a tocar. Outra influência que Freddie teve foi de um dos mais renegados álbuns da história do rock, a ópera-rock S.F. Sorrow (1967), da banda britânica The Pretty Things. Segundo Laura, era um dos dez únicos álbuns que Mercury deixava guardados em seu quarto na época da faculdade.

Depoimentos de astros que tocaram com o Queen não faltam. Bruce Dickinson, vocalista do Iron Maiden, relembra a época em que ambas as bandas, colegas de gravadora, tocaram no Rock In Rio, em 1985 - e dá um depoimento de fã sobre a sensação que teve ao assistir ao Queen na Cidade do Rock. Scott Gorham, guitarrista do Thin Lizzy, recorda uma turnê que fez com a banda em 1977 e diz que seu grupo, então "completamente homofóbico", precisou arejar a mente para lidar não apenas com Freddie como também com o público gay de San Francisco, California. 

Em outra ocasião, Mercury teve um confronto engraçado com outro gay (futuramente) assumido do rock, o vocalista do Judas Priest, Rob Halford. Como Mercury adotara a certa altura um visual de motoqueiro, Halford desafiou-o a pilotar uma motocicleta no circuito de Brands Hatch. O cantor do Queen disse que topava, desde que Halford aceitasse dançar com o Royal Ballet. O metaleiro achou melhor deixar a discussão para lá.

Como era se de esperar, o livro relata detalhadamente a vida sexual do astro e seus vários relacionamentos. O astro chegou a ser casado com uma mulher, Mary Austin, que continuou sua amiga e acabou herdando boa parte de seu patrimônio. Relembra também as festas do Queen, repletas de strippers, fumaça de gelo seco, cobras, brinquedos de parques de diversões e outras coisas de assombrar. Freddie era uma diva, difícil de lidar e o livro mostra que a personalidade forte do astro foi temperada com o aumento da fama e o consumo de cocaína. Certa vez, irritado com problemas numa turnê, Mercury chegou a espatifar um espelho enorme na cabeça de um assistente. Depois obrigou-o a arrumar uma vassoura para varrer os cacos.

Escapando do vício detalhismo-pelo-detalhismo e editando bem a vida do roqueiro, o livro de Laura tem alguns (poucos) pecados. Um deles é que não há muitas fofocas sobre a apresentação do cantor com o Queen no Rock In Rio (e existem várias) e o tema ocupa só cinco páginas. Para quem se interessa por assuntos de tablóide, não, o suposto "namorado brasileiro de Freddie Mercury" (um sujeito chamado Dennis Winits, revelado por uma entrevista à revista Bizz nos anos 90) não está entre os entrevistados, nem chega a ser citado.

RENATO RUSSO VIVE

Sai o primeiro livro assinado por Renato Russo: um diário que mostra o período que o cantor da Legião Urbana, morto em 1996, passou internado numa clínica de reabilitação. Essas e outras novidades envolvendo o nome do roqueiro são adiantadas por Giuliano Manfredini, seu filho e herdeiro, nesse papo com O Dia.




KIM LÍRIO

Você tem achado o rock nacional desunido? Kim Lírio, revelado pelo programa The Voice Brasil, da Rede Globo, tem achado, e explica que gostaria de unir a classe. Foi o que ele me falou nesse papinho para o jornal O Dia.


segunda-feira, 15 de junho de 2015

PLAYBACK: UM DEPOIMENTO, POR BENI BORJA

O texto abaixo é extenso, histórico (em minha opinião) e vale a conferida por qualquer um que ame música e se interesse pela história da música pop brasileira. Ex-baterista do Kid Abelha, hoje produtor, Beni Borja (foto) mandou para o meu blog com exclusividade algumas das suas recordações da época em que o Kid voava de clube em clube no subúrbio fazendo playbacks para o Cassino do Chacrinha. Muitos não gostavam, ele se divertia dublando as atuações de estúdio - e mostra o quanto é difícil bancar o inocente num meio que não é para inocentes.

A partir daqui é tudo Beni.

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Na altura do Viaduto de Madureira o silêncio escuro do carro é bruscamente interrompido pelo assunto de sempre: 

-  Por que não fazemos mais shows ao vivo? 

Uma voz responde, do banco de trás:  


- Nós não fazemos mais shows ao vivo, porque o Beni gosta de fazer playback. 


No estado de torpor em que eu estava, em vez de morder a isca (e pela enésima vez repetir a mesma explicação sobre as dificuldades de produção e a falta de demanda que nos impediam de tocar mais vezes ao vivo, argumentação já muito conhecida, mas nunca inteiramente aceita) simplesmente respondi: 


- É, deve ser isso mesmo.  


Mas era um fato. Para desgosto dos meus colegas de banda, e desprezo dos músicos em geral, eu gostava mesmo de fazer “playbacks”.


“Playback”, ou melhor na forma realmente falada, “pleibéqui” era uma performance canhestra de mímica de três ou quatro músicas, falsa como uma nota de três reais, que fazíamos nos bailes do subúrbio do Rio. 


Admito que era um espetáculo patético. Nós, de corpo presente, na frente de milhares de espectadores, reproduzindo as pantomimas dos programas de auditório da televisão. 


Mas eu gostava, e para desespero dos outros Abelhas, apreciava ainda mais escandalizar a vanguarda revolucionária do rock caboclo fazendo a apologia dos “pleibéquis”.


Me divertia a indignação dos amigos, que desejavam com sofreguidão o reconhecimento das suas aptidões instrumentais pelo meio musical, enquanto eu, traidor da causa roqueira, desfilava os meus argumentos em defesa do que parecia inteiramente indefensável. 


Meu discurso em defesa do “pleibéqui” não era só uma provocação aos colegas, eu realmente acreditava que não havia nada de desonesto com o público na nossa performance. Os frequentadores dos bailes estavam bem acostumados a essa encenação, era mesmo isso o que eles esperavam. 


O acordo era tácito, mas era claro, nós fingíamos que tocávamos e cantávamos e o público fingia que acreditava.   


Além disso, me parecia muito mais relevante levar a nossa música numa gravação, para milhares de pessoas nos subúrbios, do que pregar tocando ao vivo para algumas centenas de convertidos no Circo Voador ou no Morro da Urca.  


A indignação dos colegas alcançava picos ainda mais altos de cólera, quando eu ousadamente falava do negócio que fazíamos com a produção do programa do Chacrinha, de “trocar” alguns dos “pleibéquis” por apresentações nos programas do Velho Guerreiro.

Quando os jovens revolucionários furiosos me confrontavam com o absurdo que era eu compactuar com a imoralidade do “jabá” (o termo usado no meio do entretenimento, desde tempos imemoriais, para descrever o negócio de pagar para ter sua música executada na mídia), em êxtase, eu jogava na cara deles a sua hipocrisia de ignorarem o fato, amplamente conhecido, de que as suas próprias gravadoras e empresários pagavam para que as suas músicas fossem tocadas nas rádios e eles fossem convidados para os programas de TV.  


Se o jabá era inevitável, e todos sabíamos que era, eu preferia conhecê-lo, saber de todos seus detalhes pútridos e falar dessa extorsão da forma mais clara e aberta possível, em vez da conivência silenciosa deles, que terceirizavam o serviço sujo, se passando por limpinhos enquanto chafurdavam no lamaçal que era o mundo do entretenimento.         

Com essa argumentação final acachapante, os soldados do rock invariavelmente partiam para a sua última linha de defesa, que era questionar minha sanidade mental, uma possibilidade que afinal não podia ser inteiramente desconsiderada. 


Caberia aqui uma digressão sobre como a institucionalização do “jabá” desgraçou a mídia no Brasil, como boa parte dos shows de artistas pop atuais são “pleibéquis” mal disfarçados e outros episódios e considerações, que provariam que a história veio a me dar razão, mas tratemos disso em outra ocasião. 

Hoje penso que o que incomodava mais no pleibéqui, além da futilidade da nossa destreza instrumental, é que nele ficava absolutamente evidente o nosso papel de atração absolutamente secundária. Nossas apresentações eram milimetricamente configuradas para não atrapalhar o essencial. Éramos somente um respiro no baile, a presença de uma sub-celebridade musical da tevê para dar um toque de glamour num evento proletário. Uma dura constatação do papel decorativo que nos caberia como artistas pop.  

Certo é que minha atração pelos “pleibéquis” não era uma tara doentia por fazer micagens num palco tocando uma bateria imaginária, nem tampouco, como diziam os meus detratores, o encantamento com o dinheiro vivo, que recebíamos em pacotes de notas antes de subir no palco e repartíamos no caminho de casa. 

O que me levava a insanidade de defender aquele teatro do absurdo, era o fato de que a nossa constrangedora atuação nos “pleibéquis” nos concedia entrada, pela porta da frente com tapete vermelho, ao selvagem e misterioso submundo dos bailes.     

A nossa peregrinação a cada fim de semana pelos clubes de subúrbio, era uma oportunidade única e fascinante de conhecer “in loco” uma realidade da qual nós só tínhamos notícias esparsas. Uma pesquisa sociológica de primeira grandeza, um curso prático intensivo na realidade da vida na cidade de São Sebastião.  

Ninguém com um mínimo interesse por música popular, nascido em meados do século 20 no Rio de Janeiro, poderia ignorar o movimento dos bailes. Do Baile da Pesada de Big Boy em Botafogo, no fim dos anos 60, até o surgimento, das equipes de som especializadas em soul e funk americano nos clubes do subúrbio, uma década depois, os bailes foram o caldeirão que cozinhou em fogo lento a cultura “black” norte-americana para o nosso banquete antropofágico de cada dia. 

Circular naquele universo, onde a pobreza andava de mãos dadas com a vanguarda, onde tive a generosa acolhida de figuras lendárias como Mr. Funky Santos, DJ Paulão, Cidinho Cambalhota e Ademir Lemos entre tantos outros artífices do que viria ser a real revolução sonora na música brasileira, valia muito mais do que qualquer vexame.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

ENTREVISTA: TULIPA RUIZ

Fiz uma entrevista há algumas semanas com a Tulipa Ruiz para O Dia. Achei o papo na íntegra e coloquei aí. Hoje, sexta (12) tem show dela no Circo Voador, lançando o novo disco, Dancê - que à primeira vista, pode soar como o mais dançante dela, mas esconde outras referências e inovações no seu trabalho.

A primeira impressão que um disco com o nome de Dancê pode causar é que está mais dançante. Quais foram as inspirações? Teve o compacto de remixes que você lançou ano passado... Essa coisa da dança foi a primeira intuição que eu tive. Quando cheguei para compor as músicas com o Gustavo (irmão e guitarrista) ficamos 15 dias numa praia pensando nelas. Me reuni com a banda e tive mais 15 dias para desenvolver as músicas que começamos. O disco foi mesmo criado com a ideia de criar música para dançar. A partir da exposição desse meu desejo, as músicas foram pensadas num ritmo mais acelerado. Mas é um lance meio primitivo, não penso necessariamente numa dança com uma coreografia específica. Penso mais numa dança em que você está em casa sozinho de olho fechado, sente essa musicalidade e começa a dançar. É um universo muito amplo, a gente pode ir de Sarajane a Pina Bausch (rindo). Uma dança mais abstrata. Não é algo que tenha a ver com dance music.

Engraçado você falar da Sarajane, porque senti algo meio baiano no som do disco...  É mesmo? Superlegal você falar isso. Se tem algo baiano aí é mesmo a influência da guitarra do Pepeu Gomes. Tem Bahia sim, inclusive no encontro do Felipe Cordeiro (guitarrista paraense) e do pai dele Manoel Cordeiro (idem) com meu pai Luiz Chagas em Virou (música composta também por Tulipa e pelo irmão Gustavo). Queria muito promover esse encontro do meu pai, que é um cara super paulistano, com o pai dele, que é super paraense. Como daria essa pororoca? (rindo). A gente acabou indo para a a Bahia na música. Se você quiser dançar um arrocha, cabe ali.

Tafetá tem a participação do João Donato e ficou bem a cara dele... Quando o Gustavo me mandou essa música, pensava só no Donato. A letra acabou virando a descrição do Donato. Eu já tinha tocado com ele algumas vezes e sempre rolou uma empatia, sou admiradora O nome Dancê veio dele. A gente já tinha pensado em alguns nomes, normalmente a gente vai escolhendo, vou mostrando para os amigos... E enquanto não sei o nome do disco não consigo começar o projeto gráfico. Quando estávamos gravando a música, falei pro Donato: "E se a gente fizer um dancê no meio?". Ele respondeu: "Maravilha, vamos fazer o dancê no meio!", e a gente foi passando a usar a palavra, até que nos demos conta de que tinha um título ali.

Proporcional brinca com os tamanhos de roupas, G, P, GG... O que você tá achando do crescimento da moda plus size? Absurdamente incrível. Engraçado que essa coisa do padrão é tão "despadronizada". Eu tenho uma marca de roupas, a Brocal, e a grade de roupa tem P, M, G. Só que o P não é o mesmo para todas as pessoas. Tem quem seja P em cima e G embaixo, cintura P  e busto G. Vimos que a exploração disso dá infinitas possibilidades.

O encarte do disco apresenta as letras de forma pouco usual, quase como se fosse poemas, com versos separados por pontos...  Veio mesmo do livro, de apresentar cada letra como se fosse um capítulo. Quando comecei a pensar no projeto gráfico, fui atrás de alguém que tivesse uma certa elegância gráfica, um compromisso gráfico. Cheguei na Cosac Naify, que é uma editora que eu sempre gostei, e na Tereza Bettinardi. Consegui chegar onde queria, mas só fiquei satisfeita mesmo com as letras quando elas me foram lidas em voz alta. Mas sabe que eu tinha mesmo a ideia de que a capa fosse feita pelo (desenhista e roteirista de quadrinhos) Robert Crumb?

Não conseguiu? A minha pré-ideia era o Crumb, Achava que ele fosse me ver e querer me desenhar e que nem cobraria (risos). Chegar no Crumb era meio como ter o Jimi Hendrix no disco. Fui atrás pela editora dele no Brasil, mas quando chegou na secretária dele, ela me respondeu: "Querida, o Crumb não trabalha mais". Ele está no Sul da França vivendo uma vida totalmente diferente. Fui para o plano B e acabou sendo mais divertido para mim. Mas quem sabe ele não faz um flyer para o meu show? Bom, teria que procurá-lo de um jeito mais informal...

Você costuma deixar seus discos para download ou streaming gratuito no seu site. Considera que já desapegou do formato CD? Eu tenho escutado pouquíssimo CD em casa. Tenho um superfone e ouço música no celular em streaming. O CD virou souvenir. Eu sempre vou facilitar o acesso à minha música. Há alguns anos as pessoas preferiam baixar e hoje é no streaming, que é onde o artista até ganha dinheiro. No download eu não ganhava nada. 

MERITOCRACIA

Uma das raras explicações que eu aceito sobre o assunto está na letra de Men of good fortune, de Lou Reed. 



quinta-feira, 11 de junho de 2015

PRONTO. TÁ NA HORA DE TIRAR AQUELE SEU VELHO PROJETO DE BIOGRAFIA DA GAVETA

Não tem desculpa. Além de as biografias não-autorizadas já terem sido liberadas pelo STF, o mercado provavelmente vai estar aquecido e as editoras vão invadir as livrarias com biografias sobre tudo quanto é nome. Isso sendo - como é do meu estilo - bem otimista.

A prova disso é que, só hoje, quatro amigos já me falaram de livros que pretendem fazer, ou insinuaram que gostariam de lançar. É algo muito bom para o mercado de livros e para os jornalistas, que só veem noticia ruim sobre sua profissão todos os dias.


Viajando um pouco mais, imagino que muitos futuros biografados também se animem e saiam da toca. Como assim? Simples: muitas pessoas não se animavam a ter livros lançados sobre suas vidas porque sabiam que fariam revelações demais. E como a história de uma pessoa não é só dela (passa pelos vários relacionamentos que estabeleceu ao longo de sua vida) as trajetórias de outras pessoas também estariam ali, podia dar merda, recolheriam os livros, etc etc. Mas acabou a mordaça chapa-branca. Ao que parece.

Se rolar mesmo o "boom das biografias" (como brincou outro dia no Facebook o amigo Marcos Lauro, editor da Billboard) vai ter é muita reputação sendo salva pelos livros. Muito artista que mal queria saber do assunto pedindo pelo amor de Deus para que algum jornalista vá lá fazer a biografia dele. Muita gente nula tentando ser salva do ostracismo alegando que foi censurada na ditadura militar. Ok, muito produto ruim chegando no mercado ao lado de muita coisa boa. Mas isso é normal. Mais: não há nada nas livrarias sobre nomes como Pelé, o ex-presidente Médici, Xuxa. Nada de várias visões sobre o mesmo personagem, nada conflitante. E agora isso pode rolar.

Imagino pelo menos dois grandes lançamentos chegando às lojas nos próximos meses. Tem uma biografia sobre Raul Seixas que já está sendo feita há seis anos e que nenhuma editora quer lançar, porque a família dele já resolveu proibir. Uma amiga minha jornalista prepara há vários anos a biografia de um conhecido astro nordestino na MPB, autorizadíssima por ele - mas as editoras cagam de medo de serem processadas por algum amigo dele, indignado com as revelações do livro. Há muitas outras, muita coisa vetada e, claro, espera-se para qualquer momento o relançamento de Roberto Carlos em detalhes, de Paulo Cesar Araújo, com novas informações. Isso fora tudo o que já foi proibido ou recolhido - dê um Google para se assustar com o número de livros sustados por biografados ou herdeiros.

Eu tenho 40 anos, vivi um pouco o fim da ditadura e as Diretas Já na infância. E, bem menos que muitos amigos mais velhos, vi um monte de máscaras caírem, uma pá de reservas morais humanas agindo como vendilhões - e me desiludi muito, politicamente falando. Sei o quanto essa vitória das biografias se relaciona com minha profissão e, confesso, deu uma levantada na minha autoestima profissional. Deve ter acontecido o mesmo com vários amigos. A quem comemorou a liberação das biografias não-autorizadas, sugiro não cair de boca e ficar de olho. Vem muita coisa boa aí. Vem merda aí também. O pesquisador musical Marcelo Froes já cantou a pedra óbvia: "Surge uma nova era para advogados de marcas & patentes. Agora os famosos biografáveis vão correr pro INPI". 

No mais, que as coisas vão mudar a partir de agora, ninguém duvida. E espero que isso seja o início de um debate bem legal entre biógrafos e futuros biografados -  e que todos os jornalistas estejam sempre dispostos a falar sobre o trabalho que dá escrever histórias dos outros e o quanto isso faz a alegria de muitos leitores. Não é coisa de vagabundo, nem de fofoqueiro, nem de artista frustrado não. E para muita gente que conheço, vale mais do que dinheiro.

(acrescentando uma boa frase do especialista em soul music Zeca Azevedo: "Na boa, hoje é mais importante fazer biografia de Marco Feliciano e Eduardo Cunha do que de Roberto Carlos").

quarta-feira, 10 de junho de 2015

PLAYBACK: ELES TAMBÉM FIZERAM, VOCÊ TAMBÉM PODE

O ex-baixista do Hojerizah, Marcelo Larrosa, que hoje mora em Aracaju e trabalha com design gráfico e rádios online, comentou outro dia no Facebook: "Tenho uma coisa muito feia para confessar: eu fazia playback no Bolinha".

Não só no Clube do Bolinha. Bem antes do Superstar usar esse tipo de expediente para facilitar a produção e pré-produção do programa - e assim conseguir ir ao ar todo fim de semana sem maiores atropelos - o baixista da banda de Pros que estão em casa também frequentava os palcos de atrações como o Programa Raul Gil e o Clube da Criança, da Xuxa, na Rede Manchete. Olha só o grupo, em meio a um estranho festival de jogadores de iôiô (!), no programa da então pré-rainha dos baixinhos. Era, à época, uma banda tão iniciante quanto o Scalene.



A verdade é que o desenvolvimento do pop-rock nacional deve muito ao playback. Ok, deve também ao satírico Perdidos na noite, de Fausto Silva, apresentado na Record e depois na Band, onde era possível tocar ao vivo. Mas quem queria aparecer de verdade, cheio de radicalidade ou não, dublava as próprias canções na televisão. Recentemente o canal Viva, ao reprisar o Cassino do Chacrinha e o Globo de Ouro, redescobriu várias dessas apresentações.

Andei catando algumas que achei interessantes. Entre grupos novos, apostinhas de gravadora e gente já consagrada, olha o que aparece.

PICASSOS FALSOS NO CASSINO DO CHACRINHA: A banda co-irmã do Hojerizah lança o hit Quadrinhos no programa do Velho Guerreiro, esbanjando timidez, destoando quase completamente do clima da atração e tentando manter forço, força e fé mesmo com uma chacrete seminua rebolando a poucos centímetros de distância.



LEGIÃO URBANA NO CASSINO DO CHACRINHA: Diz a história do rock brasileiro que Chacrinha gostou de Renato Russo logo de cara, já que sua voz lembrava a de Jerry Adriani. A Legião mostra Ainda é cedo no programa e, no começo da apresentação, rola até a rápida imagem de dois garotos, aparentando não mais que 10 anos de idade, tentando dançar igual a Russo.



PLEBE RUDE NO CASSINO DO CHACRINHA: Hilário. Chacrinha oferece a "jaca da Vera Fischer" (Russo, fantasiado de gladiador, entrega o prêmio) e a banda invade o palco com posições trocadas para apresentar a nacionalista e esquerdista Nunca fomos tão brasileiros. Jander Bilaphra, originalmente guitarrista, dubla a bateria e usa uma maravilhosa camisa da banda punk Cólera. O curioso é que a versão é diferente da incluída no LP de mesmo nome da Plebe Rude (1987) e tem uma longa introdução instrumental.



CASCAVELLETES NO MILK SHAKE: Fugindo um pouco do Chacrinha, a desbocadíssima banda gaúcha dos anos 80 se apresenta no programa da então estrelinha teen Angélica dublando uma canção chamada... Eu quis comer você. Destaque para o palco imitando o jogo Genius e para o vocalista Flavio Basso fazendo a maior questão de informar o nome da música à apresentadora.



RATOS DE PORÃO NO MILK SHAKE. O grupo punk, que em 1988 dizia que "preferia morrer do que ir ao Chacrinha", rendeu-se à agenda de divulgação da gravadora Eldorado para vender mais discos, e foi divulgar Anarkophobia (1991) no Viva a Noite, de Gugu Liberato, e no Milk Shake, de Angélica. A apresentação no programa na loirinha é a mais engraçada, com integrantes trocando de papéis (João Gordo empunha a guitarra e Jão, o guitarrista, pula com microfone na mão e camisa do Lard) e interagindo com os personagens do programa, fantasiados de Branca de Neve e os Sete Anões. Chega a ser psicodélico, ainda mais porque a música é a depressiva e suicida Sofrer.


RAIMUNDOS NO XUXA HITS. A nova (cof cof) geração do playback: Raimundos no programa da Rainha dos Baixinhos em 1999, já consagrados como uma das maiores bandas do Brasil, cantando I saw you saying e, em seguida, Ilariê ("a primeira música que tocamos ao vivo", informa o guitarrista Digão), em meio à segunda geração de Paquitas e aos rapazes do You Can Dance.



TNT NO GLOBO DE OURO. O apresentador Cesar Filho e suas acompanhantes (Isabela Garcia, Claudia Raia e Claudia Abreu eram as mais assíduas) parecem ter influenciado muito o estilo "engraçaralho pra cadinho" de Evaristo Costa e Sandra Annenberg no Jornal Hoje. Entre risadas, o então apresentador do Globo de Ouro, à frente do programa em 1988, avisa que vai "detonar" a banda gaúcha TNT, que dubla o belo clássico A irmã do Doctor Robert.




UPDATE: O Marcelo Larrosa publicou o texto no Facebook dele e ainda escreveu lá algumas recordações da época dele no Clube do Bolinha:

"Mas porque eu citei o Clube do Bolinha e não outro programa qualquer? Porque era ótimo!!! Tirando o fato que você ficava lá umas 5 horas (no barato) para gravar 3 minutos de programa, o resto era bacana. Isso porque ao contrário de outros, gravados dentro das próprias emissoras, ele era feito no Teatro Záccaro, enorme. E aí morava toda diferença.

Na TV, em todas, você ficava num camarim, pequeno geralmente, impossibilitado de se locomover. Todos acessos internos bloqueados, seguranças, nada para se ver ou fazer, a não ser bater papo com três caras que eu já via todos dias, há anos.

No Zaccaro não havia espaço para tantos artistas em um camarim, assim ficávamos todos juntos, De Elza Soares a Tinoco, de Roupa Nova a Hojerizah. Só isso já valia a viagem. Parecia que a produção marcava com todo mundo na mesma hora, um erro, ou talvez nem fosse assim mas os constantes atrasos nas gravações acabava formando uma 'fila de entrada' no palco, cada empresário metido a rei dando seu esporro particular na pobre produtora para seu artista entrar logo, porque já está ali a tantas horas e isso é um absurdo e mi mi mi. Isso tudo dentro de...um banheiro !!! Sim, o camarim gigante tinha toda pinta de uma sauna gigante desligada, toda de azulejos, ou brancolejos, como queiram. Conforto zero. Níveis de stress altíssimo entre as estrelas.

Mas nós, que éramos macacos novos, nem esquentávamos. Primeiro: botequim. Ali havia possibilidade de sair à rua. Ahhh...e como nós saíamos. Segundo: um teatro daquele tamanho, segundo andar com cadeiras confortáveis, vazio, sono e mé nas ideias, dormíamos. Daqui a pouco um acordava, ia lá embaixo, perguntava para o empresário como estava a fila, se fosse logo chamava os outros. Se não fosse logo, botequim de novo.
E assim, como mineiros vendo o mar pela primeira vez, a gente se divertia muito."

terça-feira, 9 de junho de 2015

E AÍ, SE SENTIU ENGANADO?















Você se sentiu enganado pelos Sex Pistols quando viu o cartão de crédito lançado pela Virgin com o logotipo da banda? Bom, acho que nem eu, nem você, nem ninguém. Eu particularmente mal sabia que o nome 'Sex Pistols' ainda poderia servir para vender alguma coisa, ou que a velha piada da "grande farsa do rock", quando contada mais uma vez, ainda teria alguma graça. Mas é sempre bom relembrar os Sex Pistols.

Na verdade são dois cartões, como mostra a New Musical Express. Um deles com a logo do único LP lançado pela banda,Never mind the bollocks - Here's the Sex Pistols (1977) e o outro com a capa do single Anarchy in the UK. Nada demais quando vindo de uma banda originalmente montada por um empresário esperto (Malcolm McLaren) com quatro moleques frequentadores de uma butique londrina chamada Sex - alguns deles, totalmente duros, costumavam afanar as roupas da loja.

De novo: tudo tranquilo, ainda mais quando vindo de uma banda especializada em táticas de choque cultural-estético e provocações à larga. Logo ao assinarem o contrato com a EMI para lançar o single Anarchy in the UK, correram para o prédio da empresa para tirar uma foto igual à dos Beatles na capa do álbum Please please me (1963). Olha aí a foto.
























Pouco após o lançamento do single, o grupo, cercado de asseclas, repetiu variações em torno da palavra "fuck" no programa de TV de Bill Grundy (para o qual a EMI os havia mandado em substitução ao Queen, que não pôde ir) e foi expulso da companhia. Olha aí o vídeo. A gatinha à direita, para quem Grundy lança umas gracinhas, é Siouxsie.


















Depois, diz a história, a banda assinou com a A&M, pela qual lançaria God save the queen. Não durariam muito: arrumariam uma baita briga nas próprias dependências da gravadora e, numa festa dias depois, o vocalista Johnny Rotten ameaçaria de morte um notável da A&M. A quase novata Virgin contratou a banda, lançou vários singles e depois o Never mind the bollocks - Here's the Sex Pistols. Entre clássicos como God save the queen, Anarchy in the UK e vários outros, surgia lá, no finzinho do disco, EMI, uma desomenagem da banda à histórica gravadora pela qual foi chutada. No final da canção, a frase "hello EMI, goodbye A&M" e um peido. 

















Tido como um empresário de visão, Richard Branson, criador da Virgin, mudou bastante o foco da sua empresa com o passar dos anos. A gravadora - que descendia de uma loja criada por Branson e o sócio Nik Powell, especializada em itens como discos de rock alemão e comida vegetariana - começou pondo nas lojas discos bizarros como Tubular bells, de Mike Oldfield (1973). O álbum se tornaria mais conhecido como a trilha sonora de O exorcista, de William Friedkin. 


















Lar melhor para os Sex Pistols não haveria, pois Branson sempre curtiu novidades e desafios. Anos depois, cofres cheios, a Virgin contrataria vários nomes já estabelecidos da música e investiria em sons mais pop, criando até uma divisão country. Hoje, o selo Virgin batiza até uma enorme empresa de aviação. Sobre o assunto, Branson costuma dizer que, quando era jovem, se fosse trabalhar numa loja de roupas, ouviria de algum vendedor que as pessoas sempre vão precisar de chapéus, e que quando ele começou no negócio de música, diziam a mesma coisa dos discos - enfim. Uma história engraçada sobre o selo: com um pé fora dos Rolling Stones, o guitarrista Keith Richard assinou contrato com a Virgin em 1988 para lançar seu primeiro solo, Talk is cheap, e fez piada ao explicar a repórteres porque escolheu gravar lá. "Uma gravadora com um nome desses eu não poderia deixar passar em branco".

Vá lá que o release de imprensa e as matérias publicadas por aí somam frases que dão para rir ou chorar, mas que são até bem verdadeiras. A Virgin Money, lançadora dos cartões, exorta: "É a hora dos consumidores colocarem um pouco de rebeldia no bolso". Diretora da empreitada, Michele Greene disse que, olha só, os capitalistas precisam aprender com os punks. Ok, não foi bem isso que ela disse, mas foi quase. "Os Sex Pistols desafiaram as convenções e os modos estabelecidos de pensamento - é como nós fazemos hoje ao procurar sacudir os bancos britânicos". E, ok, para botar um pouco mais de lenha na fogueira, o The Guardian afirma: o tal cartão cobra juros de 18,9%. Vai nessa quem quer.

Seja lá o que signifique para você o fato de uma banda punk se tornar parte de um negócio de cartão de crédito, a enganação e a trapaça, em certas doses, sempre fizeram parte do mundo do rock e da música pop. Melhor se sentir enganado ao esbarrar em fanáticos religiosos, políticos, PMs, cagadores de regra contumazes, patrulheiros de facebook, reservas morais de direita ou de esquerda, blogs nitidamente auxiiliados por partidos políticos e que mesmo assim sobrevivem de crowdfunding, etc. Mas vai da cabeça de cada um.

Fechando, peguem aí No one is innocent, com metade dos Sex Pistols (Paul Cook e Steve Jones) no Rio ao lado do ladrão inglês Ronald Biggs.





KLEITON & KLEDIR

Estou vendo bem pouca repercussão do disco Com todas as letras, o mais recente da dupla gaúcha Kleiton e Kledir, no qual eles fazem diversas parcerias com escritores gaúchos. É de longe o melhor disco de música brasileira lançado até agora em 2015. Melhor até que Gal estratosférica, de Gal Costa, que geral vem comentando.

Tudo começou com um texto deixado a Kledir pelo amigo escritor gaúcho Caio Fernando Abreu - e que virou uma música no novo disco, Lixo e purpurina. Foi o ponto de partida para que os dois, que nas horas vagas atacam também nas letras (Kleiton lança o primeiro romance em breve), chamarem o escritor e pesquisador Luis Augusto Fischer para dar uma ajuda e, agora em trio, convocarem nomes como Daniel Galera, Luis Fernando Veríssimo e Martha Medeiros para, alguns deles pela primeira vez na vida, escreverem letras de música. Letras de verdade, nada de poeminhas que viram letras ou textões retrabalhados para serem encaixados na melodia.

Quem pôde ver o kit que chegou para jornalistas - que vai para o site da banda - viu também que a dupla, numa era em que a música sai do CD e vira streaming, decidiu inovar nas artes gráficas. Convidaram vários artistas para realizar interpretações caligráficas de todas as letras do álbum. Ficou bem legal.

Confira o papo com a dupla aí ao lado, como saiu no O Dia pouco antes de eu entrar de férias.




segunda-feira, 8 de junho de 2015

ALGUÉM TINHA ALGUMA DÚVIDA DE QUE O SUPERSTAR NÃO É TOTALMENTE AO VIVO?

E mais: será que playback, mesmo que não 100% deixado às claras como playback, é tão deletério assim?

Acredito que boa parte das pessoas que acompanha música na TV ao vivo desde os anos 80 - época do Cassino do Chacrinha - já tem uma vaga ideia de que um programa com música 100% ao vivo em que tudo é transmitido em tempo real envolveria muito mais atropelos e erros do que o que já foi mostrado pelo Superstar na televisão.

Ontem, aconteceu o que geral viu na abertura da apresentação da banda Versalle, quando uma trilha de fundo entrou errada no início da canção do grupo, após a contagem regressiva. Suspeitas levantadas, muita gente reclamando no Facebook dizendo que o programa é "uma fraude", muitas bandas aproveitando para destilar ressentimento, etc (se você não viu, tem o trecho exato aqui). Revelou o que muita gente mais ligada já sabe: os vocalistas dos grupos cantam em cima de bases pré-gravadas. Daí a, bem, indignação.

Foi uma bobeada feia, mas diria que o menor dos problemas dessa edição do Superstar, que venho tentando acompanhar (não vejo sempre), seria o playback. Diria inclusive que o pop-rock brasileiro, via Chacrinha e até Planeta Xuxa/Xou da Xuxa, deve bastante ao playback. Acho mais problemáticas essas sete coisas aí embaixo.

1) O júri tem pelo menos dois jurados que não disseram a que vieram, Sandy e Thiaguinho. A ex-cantora teen nunca fez parte de uma banda, pelo menos não que eu saiba. O ex-Exaltasamba não sabe o que dizer (o melhor e mais experiente é Paulo Ricardo e, sim, ele vai bem no papel e não poderia dar uma de jurado "do contra").

2) A plateia tem vários convidados especiais que não dão a menor dúvida de terem sido chamados às pressas para estar lá. Samuel Rosa, do Skank, e Paulinho, do Roupa Nova, foram alguns dos de ontem, e pareciam um tanto constrangidos. No caso de Samuel, imagino a situação que deve ter sido avaliar a dupla Lucas & Orelha, cuja Não vou te esperar parece seguir os passos trilhados pelo próprio Skank nos anos 90. Vale lembrar que o Skank está há tempos devendo um novo hit de verdade.

3) Sim, Fernanda Lima, gatíssima e carismática, não está exatamente esbanjando simpatia apresentando o programa. E quase sempre parece descontar a (provável) aporrinhação nos jurados, em especial em Sandy.

4) Sim, o Superstar deveria limar bandas experientes. Particularmente me deu certa vergonha ver por lá o Tianastácia, banda que já participou de um Rock In Rio, foi aposta de gravadora, teve um hit que volta e meia reaparece nas rádios (a boa Cabrobró) e que gravou recentemente um disco produzido por Liminha, Love love - cuja faixa-título andou pela trilha do filme Mato sem cachorro, com Bruno Gagliasso e Leandra Leal.  Um sintoma total de falta de critérios.

Talvez, para evitar esse tipo de confusão, o foco devesse estar apenas em grupos realmente novos (o que, infelizmente até para bandas de amigos meus - torci para várias delas - inclui tempo de formação) e sem hits auditados de forma tradicional. Ou seja: apenas bandas que não tocaram de jeito algum em rádio na programação normal. E que não foram apostas de gravadoras. O que, ok, abriria a porteira para grupos que conseguiram sucesso de forma não-tradicional, com hits de YouTube, refrãos divulgados pelo Snapchat, clipes divulgados pelas redes sociais na base do "não sei o que aconteceu, fizemos o vídeo e no dia seguinte todo mundo compartilhou" (sei). E, claro, faria com que mais gente vociferasse nas redes sociais pedindo revisão de critérios. Bom, ninguém disse que seria fácil.

5) Talvez seja uma questão de orçamento baixo, mas ninguém fica sabendo se bandas e padrinhos encontraram-se verdade para trocar toques e impressões. As bandas não ficam confinadas e levam uma vida quase "normal" após os domingos, o que já seria interessante para pequenas reportagens e vídeos sobre cada uma delas (para exibição na TV e não apenas no GShow). Esse tipo de coisa até o Fama, que foi apresentado pela Globo há alguns anos e teve Thiaguinho como um dos participantes, resolvia de maneira mais eficaz. Ou o Geleia do Rock, apresentado por Beto Lee no Multishow.

6) E, sim, tocar cover deveria ser algo que não deveria sequer ser levado em consideração. Sobre isso, vale citar o que me disse ninguém menos que o ex-jurado Fábio Jr., maior defensor do "autoral": "Pô, o cara já ta na Globo! Por que vai tocar músicas dos outros?" Básico.

7) Teve muita gente falando mal nas redes sociais também da qualidade (supostamente ruim) das bandas. Isso não é problema do programa. Minhas preferidas do Superstar dessa edição foram Reverse e Facção Caipira, e a primeira talvez nem entrasse no critério de tempo de carreira que coloquei acima. Scalene e Versalle, citadas por muitos, não me animaram até o momento. Que a escalada à fama das bandas escolhidas por essa edição seja proveitosa e estimule mais e melhores grupos autorais a sair das suas tocas.