quinta-feira, 28 de maio de 2015

TOM ZÉ

Fica só como registro: hoje rola show com Tom Zé no Sesc Tijuca e o Sesc inaugura temporada 2015 do seu circuito de música. Fiz essa materica aqui para O Dia. Consegui extrair respostas bem curtas (!) e elucidativas (!!) de Tom Zé num papo por e-mail.


quarta-feira, 20 de maio de 2015

CHILLENO

Enquanto muita gente aprende a desenhar em casa, o funkeiro Chilleno, criado na Penha, Zona Norte do Rio ("numa família que não tinha nada", como diz), aprendeu a dançar, a dirigir clipes, produzir músicas, tocar violão e cavaquinho. Tudo em casa e sem nem ter computador para usar o YouTube. Usava de favor o de uma amiga. O cara é uma figura bem interessante. Fiz essa matéria pequena com ele para O Dia - ele está fazendo sucesso com Ela vai causar.




GUIA DAS SÉRIES

Gostei de cara de um livro que recebi aqui, o Guia das séries, das jornalistas Priscilla Harumi e Vana Medeiros. Como sou apaixonado por almanaques, quis fazer matéria logo logo. O livro resume, disseca e conta curiosidades de mais de cem séries conhecidas. E também analisa abacaxis que foram levados ao ar, spin-offs, etc etc. Hoje saiu matéria no O Dia. Curta aí.


segunda-feira, 18 de maio de 2015

MARCATTI EM BIOGRAFIA

Vísceras, vômito, suco gástrico, fezes, cadáveres em decomposição... Dá para ficar (dependendo do caso) bastante chocado com a obra do quadrinista paulistano Marcatti. Que ganha sua primeira biografia, escrita pelo amigo Pedro de Luna. Fiz matéria sobre o livro para O Dia.


TULIPA RUIZ

Nada demais, só conversei um pouco com Tulipa Ruiz sobre seu terceiro disco, Dancê.


THALES ROBERTO

Um papo com o cantor gospel Thalles Roberto sobre seu primeiro disco secular. E, juro por Deus, o disco até que é bem legal.


LILA

Lila, vocalista do bloco Fogo e Paixão, lança seu primeiro CD, tem shows agendados, etc. Fiz essa matéria para O Dia com ela.


terça-feira, 12 de maio de 2015

DEZ FATOS SOBRE A VOLTA DO CAMISA DE VÊNUS

Assisti ao começo da turnê do grupo, que retorna com formação completamente desfigurada em seus 35 anos. Da formação original, ficam Marcelo Nova (voz) e Robério Santana (baixo). A turma que vai para o acompanhamento já estava na banda solo do cantor: seu filho Drake Nova (guitarra solo), Celio Glouster (bateria) e Leandro Dalle (guitarra). O primeiro show rolou no Circo Voador e depois a turma segue para Fortaleza, com show na sexta-feira.

Uma parte do que eu vi foi isso aí.

- Bota pra fudê, música inédita incluída no fraqússimo disco ao vivo Plugado, de 1995, abriu o show. Ali soou legal e tinha até a ver, até para puxar o "bota pra fudê" do público.

- O adventista continua atual e é uma espécie de Ouro de tolo da banda. Vale ouvir e reouvir muitas vezes - especialmente pela previsão do "eu acredito no Partido Trabalhista". A letra, que costuma ser mudada em alguns shows por Marcelo Nova, ficou intacta. Em 1982, nos primeiros shows, eles cantavam "eu acredito em Moraes Moreira". Em 2006, quando voltaram para shows pingados (trazendo o superguitarrista Luis Carlini de acréscimo), incluíram um "eu acredito no Big Brother Brasil".

- Quando eu tinha uns 11, 12 anos e escutava o Batalhões de estranhos (1985), segundo disco da banda, costumava pular a balada Rostos e aeroportos, que achava chatíssima. Continuo achando. Não entendi a inclusão dessa música no repertório do show.

- Acho o disco Correndo o risco (1987) meio equivocado, mas negar que Só o fim e Simca Chambord, ambas incluídas no set list, são boas não rola. Eu particularmente não incluria A ferro e fogo (canção pela qual Marcelo Nova tem certo apreço, tanto que já disse isso em entrevistas) e Deus me dê grana, bem pentelhas. E elas estavam no show.

- Foi bem irônico Marcelo Nova ter substituído o "ô sua puta!" do fim de Silvia por "meu amor, eu te amo". Eu gostaria de ter ouvido os palavrões de músicas como esta e My way cantados por ele - Marcelo deixou para o público cantar.

- A nova formação toca bem, sim. Talvez um pouco melhor do que o esperado para quem tinha o "bota pra fudê" entalado na garganta. O lado ruim é que a sujeira dos arranjos originais foi embora por completo. 

- Quando cantou Silvia, Marcelo afirmou que se ele e Robério tivessem feito a canção hoje seriam "crucificados nos Arcos da Lapa": "Hoje tem essa coisa insuportável do politicamente correto, que acabou com o sentido de crítica e ironia no convívio social. Hoje todos tem verdades irrefutáveis na internet"- me disse coisa parecida numa entrevista que fiz com ele para O Dia, também. 

- Músicas das quais senti falta, embora sabia que jamais rolariam: Lobo expiatório, O país do futuro, Dogmas tecnofacistas, Meu primo Zé (que até foi um hit), Rotina, Controle total.

- Drake Nova, filho de 22 anos de Marcelo Nova, toca muito bem. Não dá pra negar. Dá uma cara meio blues, meio hard rock demais para certas canções, mas a guitarra dele funciona bem em todas elas. Ainda assim, a sujeira da formação original faz falta, bla bla bla bla bla

- No fundo o Camisa de Vênus que faz falta é o dessa época aqui. Mas legal a banda voltar.

ENTREVISTA: FÁBIO JR

Então.

Na semana passada, rolou uma disputa entre várias mulheres do O Dia e do Brasil Econômico pela capa do Caderno D. O motivo: essa entrevista que fiz com Fábio Jr e que foi capa do jornal. A matéria que foi publicada no O Dia você confere aí do lado. A íntegra segue abaixo.

Aos detratores, segue o aviso de que Fábio está lançando um bom disco de inéditas, com uma sonoridade entre soul, r&b e rock, bem mais próxima dos seus primeiros álbuns. Vale abrir os ouvidos e dar uma escutada. E leia o papo aí embaixo.


Fábio, por que tanto tempo sem lançar um disco de inéditas? O último foi de 2004, né? Poxa, "dom"... Eu acabei embarcando em outros projetos. Saíram discos como o Fábio Jr. e elas, com duetos com cantoras, a última turnê durou três anos... Teve DVD, muita coisa. Quando comecei a compor foi quase como uma catarse, botei tudo para fora.

Não sei se concorda, mas o disco veio com um som que lembra os seus primeiros álbuns, aquela coisa mais ligada ao soul e ao rock. Isso foi intencional? Totalmente intencional. Alguns arranjos, alguma pegada, a voz tá meio sujinha, na cara. Os instrumentos estão nessa linha. Tem a ver com isso. Foi algo que veio do Dudu Borges e do Silvera. O Silvera tem muito essa pegada black. Já escutou o primeiro disco dele?

Não ouvi, não. É totalmente Marvin Gaye, Stevie Wonder. O cara canta que é um absurdo. Ouve só.

Tem alguma coisa que o Fábio Jr goste de ouvir em casa e as pessoas nem imaginem? Bom... de brasileiro eu adoro Roberto Carlos, Renato Teixeira, Tim Maia, Cassiano, Silvera! Adoro moda de viola também...

Mas tem algo bizarro? Você curte heavy metal, por exemplo? Não, não... Um cara que eu gosto muito é o John Mayer, conhece? Acho um gênio. O Felipe (Fiuk) que me apresentou. O cara deve ter dois cérebros, um para tocar e outro para cantar. É absurdo como ele consegue fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

Você acaba de gravar uma música com a sua filha Cleo Pires. E esse papo de que vocês não se davam? Sim, ficou esse papo aí, mas... poxa, isso acontece em toda família, uai! Lembra daqueles versos? "Filhos, se não tê-los como sabê-los?" (cita o Poema enjoadinho, de Vinicius de Moraes). E eu tenho alguns filhos, né? Mas modéstia a parte, eu mando bem nesse negócio de filho...

Certo. Como rolou essa história de vocês cantarem juntos? Ela tava na Bahia filmando o Qualquer gato vira-lata 2 e iam criar um personagem que era o pai dela no filme. Ia ser uma aparição pequena e tal. Ela perguntou ao diretor se eu não poderia fazer o tal pai. Ele: "Bom, se você acha que seu pai vai topar, qual o problema?" Aí ela me ligou e topei na hora. A música veio logo depois disso. Mostrei para ela e falei: "Filhota, olha aqui o que eu escrevi pra você", e convidei.

E ela aceitou de cara? Não, não. Disse: "Ah, pai, não, você sempre pega no meu pé". Mas a Cleo canta pra caramba, cara, senão não iria ficar no pé dela. Ela disse que iria até o estúdio, mas que era para deixar ela, dependia do que ela quisesse fazer na hora. Sabe como é, bate aquela inspiração, aquela intuição... E ela: "Só de você ter escrito isso, já amei. Te amo pra sempre!"

Mas você pegava no pé dela por que? Ah, porque desde bem cedo já via que ela cantava bem. Lembro dela cantando Mariah Carey, Whitney Houston. Ficava ela e a Wanessa Camargo no sítio, as duas bem pequenas, cantando. Era um troço impressionante, mas ela dizia que não queria cantar porque me via longe de casa todos os fins de semana e não queria o mesmo para ela. Eu falava para ela não desperdiçar o dom que Deus deu para ela.

Recentemente alguns trabalhos que você fez como ator voltaram à TV: Pedra sobre pedra, Água viva... Acompanhou alguma coisa? Ih, eu adoro televisão, sou noveleiro. Assisto até à TV Senado, que tem uns musicais e tal.

Sério? TV Senado? É, rapaz. E essas reprises aí foram bem no meu horário. Meia-noite, uma e meia da manhã... Chegando do show dá pra assistir. Vi algumas coisas.

Aliás, você chegou a fazer windsurf, como seu personagem em Água viva? Nada. Aquilo era uma laser, na verdade. Uma espécie de vela... Fiz aula pra caramba e ficava lá posando de atleta magrelo.

E o Jorge Tadeu? Muita gente ainda te chama pelo nome dele, imagino (era o personagem dele em Pedra sobre pedra). As pessoas lembram mais, ainda mais agora, com a reprise. Lembro que a novela foi um puta encontro legal. Não é sempre que isso dá certo: elenco, produção, direção, harmonia entre todo mundo. Pô, nasci virado pra lua... Às vezes me perguntam porque não faço mais novela. Fiz o Tal filho, tal pai com o Fiuk e agora filmei com a Cleo. Eu faria novela de novo, sim. Adoro atuar, mas acabo emendando um trabalho no outro e fico sem tempo. Isso absorve muito e eu acabo embarcando.

Muitas músicas do disco falam de um amor que tá chegando. A Maria Fernanda (atual namorada de Fábio) serviu de inspiração para o disco? Pô, pra caramba. Se você pegar O que você quiser... (canta) "Puta mulher bacana/Que cabeça boa/Não é só um corpo/Ali mora uma pessoa". Foi pra ela. Tem outras no disco que foram totalmente inspiradas nela. Esse verso de "ali mora uma pessoa" veio por causa da Cleo, um lance que aconteceu uma vez. Arrumei uma namorada, apresentei pra ela e aquela coisa. Puxei ela no canto e perguntei: "E aí, filhota, o que achou?". E ela: "Pai, ali não mora ninguém! Ai pai, você entra em cada roubada..." E essa frase ficou. Puta sacada dela, né?.

Mas você acha que depois de tanto tempo, seis casamentos... Seu radar pra roubadas já está 100% bom? Não. Nada. Eu me envolvo demais, faço 50 músicas para a mulher que está comigo. Mas dei uma acalmada. Melhorei um pouco o radar e hoje a gente já reconhece mesmo quando se dá mal. Às vezes tenho que ouvir dos meus filhos: "Pois é, né pai? Puta roubada aquela..." Mas criançada, aviso: o papai tá mais tranquilo. Todo mundo sente no palco que tô feliz pra caramba.

Em Amém amor você conta a história da sua vida. Como foi falar disso? Resumi a ópera lá. A música é curtinha, falo das minhas cagadas, até a hora de conquistar a grande vitória, que é ser feliz com meus filhos. Falo das ex-mulheres... Os fãs sabem como a gente tá, eu sempre fui uma bandeira.


A música pela qual você é mais conhecido como compositor, Pai, é bastante confessional. Sim, é engraçado que só lembram dela. Virei meio que compositor de uma música só. Sabia que na época as pessoas não acreditavam na música? "Pô, isso tem cinco minutos, não vai tocar em rádio, não vai tocar em lugar nenhum!". E é a música mais importante da minha vida.

Você já parou para se ver como uma espécie de personagem da cultura pop nacional? Quando se pensa em você, as pessoas já pensam no galã, no cara que se casou várias vezes... Sim, sim, tanto que a gente tá aqui falando desse assunto... Cara, tem gente que se casa setenta vezes. A gente tem que é ser feliz. Nem todos os meus namoros precisavam ter virado casamento, mas fui feliz em cada relacionamento. Bom, alguns até a página 3, ou a página 7... Mas tem que vivenciar mesmo a experiência. Não aguento ficar sozinho. Fico vendo se está legal, se estão me tratando bem, me mimando bastante...

E tá sendo assim com a namorada nova?  Pô, é como a gente fala: o relacionamento entre a gente é "de verdade e divertido". A Maria Fernanda é assim. Ela é muito inteligente, senso de humor incrível, rápida no gatilho. Nós dois juntos parece que são umas 50 pessoas, é a maior festa. Precisa ver.

Como foi participar da bancada do Superstar ano passado? Rapaz, no começo foi terrível. 'Dom', é uma coisa que era até da minha praia, mas você fica ali sentado para uma coisa que parece mais aqueles circos da Roma antiga... Aí eu ficava que nem Nero dando sinal de positivo ou negativo e matavam um cara! E eu via os caras ali ralando. Eu sei o que é isso, passei por isso. Comecei a cantar com doze anos, fui fazer sucesso com 25, 26 anos. É muita ralação e aí você ter que julgar se uma banda é boa ou ruim... É muita responsa. Mas depois fui pegando uma vertente mais divertida e leve, fui pesquisando sobre as bandas. Li muito sobre elas. Mas no começo fiquei em conflito, pensei se deveria continuar ou não.

Brincavam muito com você por causa do "autoral" (Fábio vivia pedindo às bandas que apresentassem material do próprio punho, usando a palavra). Pegavam no meu pé toda hora, né? Mas eu enchia mesmo o saco com essa coisa de ter que ser autoral. Tinha que ser. Os caras já chegaram na Globo, por que iam ficar tocando músicas dos outros?

De onde veio esse seu hábito de chamar os interlocutores de "dom"? O Toni Tornado faz isso também. Você aprendeu com ele?
Não, não... Eu adoro o (escritor americano) Richard Bach e tirei esse "dom" do Donald Shimoda, personagem do livro Ilusões - Aventuras de um messias indeciso. Considero o Richard Bach o maior nome da literatura e esse livro me marcou muito. Conheci o Toni Tornado só em 1985, na novela Roque Santeiro, e já falava "dom" desde os anos 70. 

PÉRICLES

Péricles está lançando novo disco, Feito pra durar, por um selo bem menor que a grandalhona Som Livre, pela qual era contratado, a FVA Music. O selo é uma criação da Inovashow, empresa que cuida da carreira dele e de seu brother Thiaguinho. Daí podemos dizer que se trata de um lançamento independente de um grande nome do pagode.

Tá na capa do O Dia de hoje.




quinta-feira, 7 de maio de 2015

PRÊMIO DA MÚSICA BRASILEIRA

Saiu hoje no O Dia: uma matéria sobre os indicados do Prêmio da (e não "de", como saiu publicado) Música Brasileira, que vai para sua 26ª edição em 2015. E que tem homenagem à Maria Bethânia.


ANA CAROLINA

Essa entrevista com Ana Carolina, que lança seu novo CD/DVD #AC ao vivo, foi capa do Caderno D do O Dia no domingo passado.

Ficou bem legal e acredito que mostre o que ela pensa preservando suas palavras e tocando em temas complexos sem fazer sensacionalismo. Obtive retorno positivo de alguns fãs dela.

Curta aí.


ENTREVISTA: MARCELO NOVA

Hoje é difícil imaginar, mas uma música que - à maneira do antigo apresentador televisivo Gil Gomes - falava de um estupro seguido de assassinato já foi hit nas FMs e aposta de gravadora. Era o Camisa de Vênus com Bete Morreu.

Se uma banda hoje em dia lança um som desses, vai tomar pedrada. E muita. Era coisa dos psicodélicos anos 80, em que a liberdade de expressão era muito levada em conta, mesmo que se confundisse às vezes com liberdade de chocar ou de ofender. E em que talvez as pessoas não se assustassem tanto com as coisas, mesmo porque retratar uma realidade (coisa que o jornal faz todo dia) é bem diferente de gostar dela ou querer fazer parte dela. O Camisa também falou sobre playboys imbecis que batiam nas namoradas (Ana Beatriz Jackson), transformou uma piada machista digna de Costinha em música (Sílvia, cuja letra foi inspirada pela peça Dois perdidos numa noite suja, de Plínio Marcos, e cuja melodia chupava Sorrow, rockinho gravado pelos McCoys e por David Bowie). E fez uma espécie de Ouro de tolo (a do Raul Seixas) punk dos anos 80, O adventista, pregando que nem Freud aguentaria mais uma sessão de psicanálise, entre outros temas.

O grupo volta para uma turnê de 35 anos em condições discutíveis. No palco, da formação original, tem só Marcelo Nova (vocal) e Robério Santana (baixo). Karl Hummel (guitarra) e Gustavo Mullem (guitarra solo) andavam envolvidos com uma turnê do grupo sem Nova e foram impedidos pelo vocalista de continuar. O que a volta da banda tem a oferecer (junto com a execução de canções cáusticas e eternamente criticadas pela turma politicamente correta) talvez seja mais a colocação de pulgas em orelhas estratégicas do que o retorno a tempos musicais que não têm mais como voltar. Seja como for, curta aí a íntegra do papo que bati com Marcelo Nova para o jornal O Dia, e que saiu publicado essa semana. 


Como surgiu a possibilidade dessa turnê? Bom, tudo começou com o Airton Valadão (empresário, responsável também pelo retorno do Ira!). Ele me ligou e me disse: "São 35 anos do Camisa de Vênus! Vamos fazer uma turnê?" Cara, eu estava tão desligado dessa data que falei "porra, você tem razão, são 35 anos! Cacete, como eu tô velho!". E aí nós tivemos algumas reuniões. O Robério foi a primeira pessoa que convidei para montar o Camisa de Vênus lá em 1980 e ele achou interessante o convite do Valadão. Tem uma boa parte dessas canções que não canto há muito tempo, até mesmo nos meus shows solo. Eu penso que com 63 anos me dou ao direito de revisitar minha obra, Tenho 18 álbuns gravados de 1983 para cá. Eu e Robério nos divertimos muito ensaiando as músicas, relembrando coisas. Acho que o ideal é que esse show seja uma festa e que a gente se divirta..

Na época você e Robério trabalhavam juntos numa rádio, certo? Não, eu é que trabalhava na rádio Aratu, e ele na TV Aratu. Mas nos conhecemos e descobrimos que rock era algo que tínhamos em comum...O que não é comum é minha formação. Eu fui um menino deslocado, cresci sozinho, sem irmãos para dividir as brincadeiras (em entrevistas, Marcelo disse que tinha só uma irmã 12 anos mais velha, que na época era fã de bossa nova). Eu gostava de ler  e os outros meninos gostavam de jogar bola. Eles gostavam de ir à praia e eu gostava de ficar em casa ouvindo Animals, Rolling Stones, Beatles, e aquelas bandas inglesas dos anos 60. Por outro lado essa relativa introspecção me conduziu para a literatura. Só que isso só veio tomar uma forma consciente quando comecei a escrever meus primeiros textos. Quando comecei a colocar o que tinha para dizer em letras de música. É importante falar que até o Camisa eu não tinha nenhuma experiência musical. 

Nada? Lembro que uma vez vi um documentário antigo sobre o Camisa, disponível no YouTube, em que você dizia mesmo que o critério para escolher gente para tocar no grupo era que não fossem "músicos" na acepção da palavra... Eu não sabia nenhum acorde de guitarra, não sabia tocar guitarra. Isso às vezes era interessante, porque começamos a pegar referências de outras coisas e fui aprendendo a compor. Eu nunca nem tinha subido num palco na vida! A primeira vez foi com o Camisa, numa casa de shows na qual cabiam 800 pessoas e tinha gente do lado de fora que não conseguiu entrar. Essa foi nossa estreia na cena musical. E o nome chamou muita atenção de cara. Me parecia realmente inadequada essa coisa de me cercar de músicos que tivessem uma trajetória formal, ou de me cercar do que havia de melhor tecnologicamente e virtuosisticamente, ainda mais para uma banda chamada Camisa de Vênus. O idealizador da banda não sabia um acorde! E a ideia da música baiana era na época - e é até hoje - exaltar os valores místicos da Bahia, como se tudo tivesse o toque de Midas, de transformar tudo em ouro. Sempre me ressenti de nunca ouvir alguém que viesse antes de mim e dissesse "não, isso não é verdade".

Daí veio Controle total, que só está no primeiro compacto da banda. Isso! E acho que até hoje é o único texto de um artista baiano depreciando a cidade de Salvador do ponto de vista cultural, estético e musical. Isso nos deu uma independência em relação ao modismo, em relação ao que estava sendo feito na época. As coisas começaram a acontecer muito rapidamente em Salvador, porque a banda destoava de tudo que estava sendo feito lá. Ficou uma cisão entre quem adorava e odiava a banda. Para mim foi muito gratificante saber que uma canção de três minutos que eu escrevia era capaz de levar artistas e críticos a discutirem veementemente através das páginas de um jornal. Na época não tinha nem internet, né?

Não tinha nem uma cena punk na Bahia na época, ou de bandas parecidas? Não, nada. O Camisa tinha algumas peculiaridades... Além dessa limitação de não sermos músicos, que no fim das contas virou uma característica, de não ter muito fru-fru. As músicas, a coisa da performance, o grito do "bota pra fuder" que me acompanha até hoje. As pessoas gritam isso pra mim quando eu estou atravessando a rua. E na época tinha as bandas de São Paulo, de Brasília, o rock meio pop do Rio e os "baianos do Camisa de Vênus", que de baianos não tinham nada no sentido literal. Nós éramos sempre os azarões, não tínhamos um grande aparato de produção, de investimento. Ainda por cima, quando lançamos Viva! (1986), ele virou disco de ouro com praticamente todas as músicas censuradas.

Não teve uma história de que você ficou vendo o disco ser apreendido nas lojas e se ofereceu para ser preso? Eu estava numa loja chamada Hi Fi e os censores chegaram na loja e apreenderam os discos do Camisa. Cara, eu só fiquei olhando, né? Eu sendo preso sem ir para a jaula. Mas teve uma hora que cheguei pro cara e falei, em tom irônico: "Não seria mais lógico você me prender? Quem tá no disco sou eu, as coisas que estão dando problemas foram ditas por mim!"

Vi um show do Camisa de Vênus no Circo Voador por volta de 2008 em que você cantou O Adventista e mudou um verso para "eu acredito/no Big Brother Brasil". Atualizou outras letras? Não, não tenho nem esse objetivo. Gosto muito de improvisar e às vezes essas coisas surgem. Em algumas músicas funciona bem e em outras não. E ter que ficar atualizando, revendo... Eu tenho 18 discos gravados. Em 2011 lancei um DVD e um álbum duplo gravado ao vivo. Em 2012 lancei um Blu-Ray. Em 2013 lancei o 12 fêmeas, um disco de músicas inéditas. Nos últimos anos tenho trabalhado incessantemente. Essa possibilidade de voltar a um passado muito distante, se for uma nostalgia, melhor que a gente faça disso uma diversão. Eu já sou avô, cara, tenho uma netinha. Quero é me divertir. Pra você ver: fiz uma turnê ano passado de 25 anos do disco A panela do diabo (gravado em 1989 com Raul Seixas). Não fiz nada quando o disco tinha dez anos, nada com 15, com 20... De repente, 25! Pensei: "Ou eu faço agora, ou só no crematório!". Prefiro agora!

Tem muita coisa que o Camisa fez, como Bete morreu, que soam politicamente incorreta. Não falta um botão de ironia para as pessoas entenderem certas coisas? Bom, a internet trouxe alguns elementos à tona, alguns elementos interessantes... Mas por outro lado virou um tribunal do semianalfabetismo. Com toda essa história de interação de classes tão distintas, de repente você tá é cercado por uma avalanche de frases e de afirmações de gente que possui a verdade na mão e quer enfiá-la pela sua garganta adentro a qualquer custo, com uma virulência impressionante. Esse tipo de atitude, onde porque você tem computador você tem voz, e sua opinião é de importância vital para a sobrevivência do país, sabe? Paralelo a isso, estamos pouco a pouco perdendo o sentido da ironia, o sabor do sarcasmo. Isso desapareceu do convívio social. Ficou uma tacanhice.


E as origens do Camisa. Você é fã do Mott The Hoople. O glam rock foi inspiração da banda? Não, não, minhas influências vieram mais da tradição do rock (nem tanto, já que o Camisa chupou um título de disco do Roxy Music, Viva!, e copiou descaradamente Sorrow, dos MacCoys, gravada por David Bowie, para Silvia). Adoro o Mott, Ian Hunter é um grande compositor, subestimado. Depois me interessou a coisa dos Sex Pistols, do Clash, tinha um imediatismo ali que me interessava. Vi que podia aprender a tocar guitarra, a dar o recado. Nunca fui punk de carteirinha, nos discos do Camisa tinha piano, sax, baladas... Mas parti dali. Ao mesmo tempo que nosso som tinha Johnny Rotten, tinha Walter Franco e Jards Macalé, ou Adelino Moreira, um compositor do qual gosto bastante pelo teor de dramaticidade que ele empregava nas composições.

Aliás, em algum momento o Adelino comentou a versão que vocês fizeram de Negue? Olha, nunca nem soube.


Como está sendo tocar com seu filho no Camisa? Olha, é ótimo. Quando a herança é apenas genética não tem significado. Mas o Drake já demonstrava interesse aos 15, 16 anos, por timbres de guitarra, diferentes formas de abordar um instrumento musical. Essa preocupação que ele demonstrava já me surpreendeu de cara, porque um garoto nessa idade quer é tocar como o Joe Satriani. E aí ele foi evoluindo e aos 17 anos já tocava comigo profissionalmente. Ele até fala: "Porra, pai, tô fodido. Daqui a 20 anos só vou ouvir artista que já morreu!". Ele se interessa por guitarristas como Rory Gallagher, Leslie West e Robin Trower! São nomes que nem fazem parte do panteão, não estamos falando de Jimmy Page e Toni Iommi, que já são mais comuns, entende? E isso vem deixando o papaizinho aqui bem orgulhoso...

Dizem por aí que está vindo uma biografia sua, escrita pelo André Barcinski. É verdade? Eu e Barcinski conversamos sobre isso há bastante tempo. Somos amigos, conversamos até não só sobre essa biografia ou sobre a possibilidade de fazer uma biografia, temos vários outros assuntos... Sempre falamos e sempre adiamos! Nunca foi um trabalho, vamos dizer, prioritário, "vamos agora trabalhar na biografia"...

segunda-feira, 4 de maio de 2015

FABIO FONSECA, ED MOTTA E MANUEL

Então.

Assim que estourou o caso Ed Motta - preciso mesmo te lembrar o que é? - eu sinceramente nem pensava em fazer uma matéria a respeito. Ed não iria mesmo falar e eu tinha outros afazeres. Foi aí que me lembrei de uma coisa. quantas pessoas já resolveram bater um papo com Fabio Fonseca (co-autor de Manuel) e perguntar a ele o que ele acha da suposta repulsa de Ed Motta à sua música, que foi um dos primeiros hits do cantor?

Eu sou bem fã de Fabio e das produções dele, que incluem os primeiros momentos de Fernanda Abreu em carreira solo, o primeiro disco de Gabriel O Pensador e um disco primoroso lançado por ele em 1992, Fabio Fonseca & friends: Tradução simultânea. Era o disco de A mulher de 15 metros, com participação de Luiz Melodia, que chegou a tocar no rádio. Tinha a pré-funkeira teen Nanda Rossi em Vida vira vida. Marina Lima cantando Os ladrões de Bagdá. João Donato estreando em discos pop, fazendo arranjos de cordas. Esse disco saiu em CD na época, depois sumiu do mercado e nunca mais foi relançado. E é um retrato cantado e tocado do pop carioca como ele deveria ser.

E também sou muito fã de reportagens que mostram, digamos assim, "como funciona" um determinado hit. Como ele foi feito, quais foram as inspirações, em que condições ele foi escrito, se os autores sentiram o cheiro de sucesso assim que puseram o ponto final na letra ou o último acorde. Muitas músicas legais balançaram as estruturas da gravação de um disco assim que foram apresentadas e Manuel parece ter sido uma delas. Foi parar nas rádios ao lado de outros sucessos do primeiro disco de Ed, Ed Motta & Conexão Japeri (1988), como A rua e Vamos dançar e lhe marcou a carreira, provavelmente por lembrar mais o som de seu tio Tim Maia do que ele talvez gostasse.

Decidi procurar Fabio pelo Facebook e a resposta foi positiva. Ele, claro, não estava inicialmente muito à vontade para falar do assunto. Já tinha sido avisado de que Manuel, que compusera com Marcia Serejo, tinha virado assunto nacional de uma hora para a outra. Minha ideia não era fazer chacota de Ed com a entrevista - e com a matéria que você lê aí, ao lado, publicada na capa de domingo do Caderno D logo após a história chegar às redes sociais. Queria mais era saber como ele via aquilo tudo, como a música tinha sido feita e em que contexto.

Fabio, que mora hoje nos EUA e trabalha com design e desenvolvimento de teclados, me esclareceu algumas dúvidas que sempre tive. Manuel, o personagem da música, nunca existiu. E, principalmente, não foi inspirado pela vinheta O grão-mestre varonil ("Manueeeel/o maior homem do mundo/homem sábio e profundo") gravada por Tim Maia no Tim Maia Racional 1 (1975). "Eu nem sequer conhecia o disco Racional naquela época", afirmou. Ed Motta gravou a música porque quis, sem obrigatoriedades - não foi um hit que a gravadora lhe empurrou goela abaixo. 

E se alguém quer saber minha opinião sobre a história toda do Ed, não tenho apenas uma opinião, tenho várias: 1) "Toca Manuel!" vai virar o novo "toca Raul". Ed conseguiu isso e Fabio, que se sentiu lisonjeado pela lembrança à sua música, agradece; 2) Deixa o Ed falar, pelo amor de Deus. As opiniões dele sobre como o público brasileiro, acostumado aos sertanejos e pagodeiros dos brazilian days da vida, se comporta em shows lá fora, nem estão erradas. Músicos brasileiros que fazem shows fora do Brasil, mesmo discordando da maneira como Ed expôs suas opiniões, reconhecem que é um problema grave; 3) Como bem disse um amigo (e eu concordo), Ed Motta domina a arte de parecer errado mesmo estando certo. Se emitiu opiniões com as quais não é difícil concordar e tem todo o direito de, numa turnê internacional, não querer ser importunado com brados de "toca Manueeeeel" (Caetano Veloso, por muito menos que isso, já deu chiliques no palco), temperou a discussão com observações um tanto preconceituosas. Chamar o público de "pedreiro" ofendeu o público e os pedreiros, por exemplo.

E ao lado segue a matéria que fiz para O Dia com Fabio Fonseca, autor de Manuel. A anatomia de um hit que, no fundo, fala de todos nós. Talvez por isso as declarações de Ed tenham atingido tanta gente. A arte é do grande André Hippertt.

sábado, 2 de maio de 2015

MC MELODY

Bati um papo com o pai da MC Melody, menina de oito anos que virou notícia na semana passada - e a bem da verdade já vinha sendo comentada por aí há alguns tempos - por cantar funk com letras e coreografias bem adultas. A menina fala em mulheres recalcadas numa letras e mal sabe pronunciar a palavra "recalcada" direito (fala "recocada"). E vai por aí o teatro de horrores.

No caso do meu texto, ouvi o pai, MC Belinho, pagodeiro e produtor de shows convertido em funkeiro após trabalhar com o MC Daleste, e também bati um papo sobre o assunto com Fernando Scarpa, psicanalista que é colunista do O Dia. E que ajudou a levantar uma lebre bem interessante de caça às bruxas. Sim, o pai da menina precisava de um susto desses, ninguém duvida. Pegar uma menina de oito anos de idade, colocá-la para cantar funk (e rebolar num palco, coisa que ele me garantiu que só aconteceu uma única vez) e vesti-la com sutiã de bojo não está certo sob aspecto nenhum, nem pela ótica do "é ela quem quer, não estou obrigando". Mas o fato é que o Conselho Tutelar e o Ministério Público já têm tarefas mais importantes a cumprir (a prostituição infantil acontece em plena luz do dia em várias cidades do Brasil) para passar a eleger pais de funkeiros menores de idade como inimigos número 1 da família brasileira. Só espero que não surja nenhum delegado ou político herói dessa história toda. O Brasil não precisa disso.

O caso gerou outras reportagens bem interessantes e equilibradas. O amigo Helder Maldonado foi bater um papo com o pai da criança (e com outras pessoas envolvidas) para o portal R7. O jornalista André Forastieri fez um papel de advogado do diabo (boa frase: "se você vê Melody dançando e fica excitado, quem tem problema é você, não ela"), em seu blog também no R7. Como acredito que jornalistas só devem dar respostas após fazerem todas as perguntas, que bom que o caso foi visto com equilíbrio e disposição para a análise por vários colegas.

Além do pai, tentei falar também com a própria menina ao telefone. Apesar de inicialmente ter agendado uma entrevista com ela por intermédio dele, todas as vezes em que tentei ligar, o telefone não atendia ou estava fora de área. Seja como for, confira o texto ao lado.




RIO BANDA FEST

Rolou hoje o Rio Banda Fest, festival de bandas independentes que a essa altura já escolheu bandas para tocarem na finalíssima, no Circo Voador, e concorrerem a R$ 10 mil. Veja as finalistas aí embaixo.











E agora, segue aí a matéria que fiz durante a semana anunciando o festival - tá aí só pra contar mesmo.