sexta-feira, 28 de novembro de 2014

TITÃS - RAIMUNDOS

Um papo com Digão (Raimundos) e Sergio Britto (Titãs) sobre o show que as duas bandas vão fazer amanhã no Citibank Hall.

CAMINHOS CRUZADOS NO ROCK NACIONAL
Responsáveis pelo lançamento do primeiro disco dos Raimundos em 1994, Titãs dividem palco com banda brasiliense neste sábado no Citibank Hall
Publicado em O Dia em 25 de novembro de 2014

Em 1994, recém-saídos de Brasília e em busca de fama — no que eram ajudados pelos Titãs e pelo produtor Carlos Eduardo Miranda, donos do selo Banguela —, os Raimundos estavam na lista de convidados de uma festa no apartamento do casal Tony Bellotto e Malu Mader, cheia de estrelas globais. As duas bandas se reencontram neste sábado ao dividir o palco do Citibank Hall, na Barra: os Raimundos divulgando Cantigas de roda, os Titãs na turnê do recente Nheengatu. E as recordações da tal festa alegram o guitarrista da banda brasiliense, Digão, até hoje. 

“Véio, éramos crianças num parque de diversões. Lembro da (atriz) Betty Lago lá, da gente zoando o (ator) Taumaturgo Ferreira”, lembra. A festa estendeu-se para os shows da banda. “A Marinara Costa e a Regininha Poltergeist (modelos) foram nos visitar no camarim. Achamos que não era com a gente e falamos: ‘Olha, o camarim dos Titãs é ali’.”

Vinte anos após o primeiro disco, Raimundos, as duas bandas mantêm a admiração mútua. “Os Titãs nos lançaram. A gente abria shows deles e pensava: ‘Olha que f..., são os Titãs!”, conta Digão. “As bandas brasileiras cantavam em inglês por causa do Sepultura e os Raimundos, não. Quando selecionamos bandas para lançar, na época, todo mundo gostou do humor deles ”, lembra Sergio Britto, dos Titãs.

Os dois anos em que os Titãs foram donos de selo e lançaram bandas como Raimundos, Mundo Livre S/A e Maskavo Roots ganham um documentário em 2015, Sem dentes — Banguela Records e a turma de 1994, dirigido pelo jornalista Ricardo Alexandre. “A ideia é usar o selo como parábola para contar um momento de renovação do rock brasileiro”, conta Ricardo. Um período do qual Digão se lembra bem. “Acho que só os Engenheiros do Hawaii faziam sucesso na época”, brinca. “Antes do Banguela, chegamos a ir bater um papo na Sony e o diretor artístico queria mudar nosso som todo e dar aula de dicção para o Rodolfo (ex-vocalista). Fomos embora”.

Hoje os Titãs, reduzidos a quatro (na época eram sete) e os Raimundos, com formação mudada (sobraram só Digão e o baixista Canisso), estão de bem. Mas os Titãs não ficaram nada satisfeitos quando o grupo deixou o Banguela e assinou com a multinacional que distribuía o selo, a Warner. O relacionamento entre as duas bandas esfriou por um bom tempo. “A gente queria gravar com produtor gringo. O Banguela ofereceu pouco dinheiro para o segundo disco. Hoje conversamos com os Titãs sobre isso e eles até falam que, se fosse com eles, teriam feito a mesma coisa. Mas na época foi chato”, lembra Digão.

Já Britto conta que os Titãs viram que não dava para assoviar e chupar cana. “O selo começou a tomar tempo demais da gente. E só a Warner lucrava. O Banguela não dava dinheiro. Queríamos era fazer uma ponte com o som que gostávamos”, conta o titã, que anos após Rodolfo se converter à fé evangélica e deixar os Raimundos, reencontrou o vocalista. “Ele continua o mesmo cara, só quis fazer da vida dele outra coisa. E ele não tentou me converter, nem acho que faria isso!”, diz.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

CRIOLO

O rapper Criolo vai se apresentar nesta sexta na Fundição Progresso. Segue aí um papo com ele, que saiu hoje no jornal O Dia.

A PALAVRA DE CRIOLO
Rapper lança disco na Fundição Progresso na sexta. "Se o Brasil melhorou? Quando você sai na rua, tem gente comendo no lixo!"

Publicado em O Dia em 20 de novembro de 2014

Cara séria, conversas profundas, papos filosóficos. O rapper paulistano Criolo (que apresenta o novo disco Convoque seu Buda ao público carioca nesta sexta-feira, na Fundição Progresso) vai fundo em seu lado mais sisudo em entrevistas e no palco. “Ué, mas eu sou um cara descontraído”, garante, dirigindo-se ao repórter. “Se um dia formos amigos e você me convidar para sua festa de aniversário, vou te abraçar e falar: ‘Vem cá, vamos rir um pouco’. Mas me descontraio quando estou com minha família, meus amigos, vendo o jogo do Corinthians.” 

O lado, digamos, “profundo” do rapper (que é Kleber Cavalcante Gomes na certidão de nascimento) veio mais ainda à tona há alguns meses, quando uma entrevista sua ao programa Espelho, apresentado pelo ator Lázaro Ramos no Canal Brasil, ganhou enorme popularidade nas redes sociais. Ao ser perguntado sobre “ascensão da Classe C”, o cantor filosofou que “é tipo leite que a gente comprava, leite tipo C, aí tinha um tipo A, da fazenda… A gente já ficou numa caixinha de novo, entendeu?” 

“Achei isso positivo. Mostrou a criatividade do brasileiro, que conseguiu esse recorte na entrevista (o vídeo com os melhores momentos foi editado e colocado no YouTube). Quando um dia revisitar o Lázaro, que é meu amigo, vou procurar melhorar o meu modo de me comunicar”, conta Criolo, que pegou trechos de sua fala e pôs em Cartão de visita, do novo disco. “Mas sou o que sou, sou o que estou falando aqui com você. Aprendi a partir disso que posso melhorar, mas cada um tem sua razão, sua visão sobre as coisas. Quem me perguntou sobre isso foi o Lázaro. Seria chato responder uma coisa que ninguém me perguntou.Você faz uma construção a partir disso e divide seu olhar com o outro.”

O Buda de Convoque seu Buda (cuja faixa-título fala em “mudar o mundo do sofá da sala, postar no Insta/e se a maconha for da boa que se foda a ideologia”), diz Criolo, não é o da religião. “É uma intenção de não esquecer algo positivo que você gera. Sobre colocar sua energia em algo que você queira dividir com os outros. A gente leva uma vida muito dura, são muitas coisas que levam a gente a situações-limite. Chego até a desacreditar um pouco da humanidade”, afirma. Perguntado sobre se o Brasil tem melhorado nos últimos anos, ele diz não ter “condições intelectuais de responder isso” e prefere falar como filho de benzedeira e de metalúrgico. “Se o senhor andar pelas ruas da sua cidade, vai ver gente comendo comida do lixo. Acho que isso já te responde.” 

Desde o lançamento de Nó na orelha (2011), seu segundo disco, o cantor se tornou mais que um rapper — virou um astro da MPB, com direito a turnês com Milton Nascimento, shows com Ney Matogrosso (que gravou uma canção sua) e Caetano Veloso. “É algo natural. Se é música feita no Brasil e por brasileiros, como ser diferente? E eles foram pessoas especiais, que se tornaram meus amigos”, conta Criolo.

Ele se sentiu particularmente tocado quando, dois dias antes de iniciar a turnê com Milton Nascimento, Linha de frente, o veterano cantor lhe pediu que cantasse Morro velho, composta por Milton nos anos 60 — e que fala sobre dois garotos, um filho de fazendeiro e um filho de capataz, que crescem juntos na fazenda. “Não perguntei a ele por que ele queria que eu cantasse isso. Nem precisava falar, já estava no olho dele.” 


Comandante de batalhas de MCs em São Paulo antes da fama nacional, Criolo chega aos 39 anos vendo amigos como Projota, Rashid e Emicida ganhando fama e já gravando CDs e EPs.  “Tenho todo mundo da minha geração impresso em mim. Se for falar de antigos companheiros meus que morreram, então, a gente vai levar um bom tempo aqui conversando.” Para o rapper, os principais artistas da sua família são seus pais. “Imagina passar 40 anos dentro da metalurgia numa cidade como São Paulo, como ele passou. Tem que ter muito foco e muita disciplina. E minha mãe lutou pelas artes na periferia de São Paulo, sem se deixar levar por ‘nãos’ e coisas ruins.”

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

DADI EM LIVRO

Dadi lançou livro de memórias. E bateu um papo comigo para O Dia

MEMÓRIAS DO VOVÔ-GAROTO
Dadi relembra música e vida pessoal em livro
Publicado em O Dia em 19 de novembro de 2014


Músico de vários discos clássicos da MPB, conhecido por seu trabalho com os Novos Baianos e A Cor do Som, o baixista, compositor, cantor, guitarrista e agora avô (de Nina, 1 ano) Dadi, 62, não para quieto. Faz o maior barulho conversando com O DIA sobre o livro de memórias Meu caminho é chão e céu (Ed. Record, 176 págs., R$ 30), que lança segunda-feira na livraria Argumento, no Leblon. “Tô na cozinha fazendo uma lentilha e um arroz”, anuncia, ao celular, enquanto abre armários e separa material.

No livro, Dadi (Eduardo Magalhães de Carvalho, na certidão de nascimento) relembra histórias musicais e casos engraçados vividos com suas bandas e os músicos com quem trabalhou. Entre eles, Jorge Ben Jor, Erasmo Carlos, Rita Lee, Marisa Monte. O polivalente Dadi revela que o excesso de boas oportunidades já o levou a aceitar muitas coisas para fazer ao mesmo tempo.

“Sou desorganizado e organizado ao mesmo tempo. Não tenho agenda, vou pela cabeça. Por ser músico, me acostumei a decorar tudo. Mas tem horas em que espero que o destino resolva. E dá certo”, brinca ele, lembrando no livro as várias horas de padecimento que sofreu após aceitar fazer um show com Marisa Monte e Philip Glass em Nova York e descobrir que seu passaporte estava vencido (e, sim, ele conseguiu viajar).

Os períodos de dureza na época dos Novos Baianos (seu baixo está no clássico Acabou chorare, de 1972) tomam boa parte do livro. “Na época, eu tinha 19 anos, nem me preocupava com grana. Acho até que eles pensavam que eu era rico”, graceja. Numa ocasião, ganhou um carro da banda e depois descobriu que, por ter aceitado o “presente”, precisava pagar as parcelas do veículo.

“Não havia retorno financeiro. O pouco que entrava era para a comida. Mas a vida era mais fácil”, conta. Curiosidades do começo do rock brasileiro não faltam: num show do grupo, Pepeu Gomes (guitarrista) provocou risos nos colegas e no público ao rasgar suas calças no palco, durante um animado solo de guitarra “Ele ficou com o ‘saco’ aparecendo”, comenta.

Dedicado à irmã Heloísa Carvalho Tapajós (morta este ano), Meu caminho é chão e céu traz várias passagens ao lado de Jorge Ben, com quem tocou ao sair dos Novos Baianos e ao lado de quem ainda se apresenta, quando dá. Lembra que, ao vê-lo com um cigarro de maconha numa festa, Jorge prometeu ao pai do músico que iria “salvá-lo”.

“Quando escuto Jorge da Capadócia, tenho vontade de mandar fazer uma camiseta: ‘Eu sou o baixista da gravação original dessa música!’”, escreve. Recorda também o auge da Cor do Som, banda com a qual lotou ginásios, mas diz ter visto bem menos grana do que merecia. “A gente era como aquele porquinho da história dos Três porquinhos, o que construiu a casa de palha”, brinca.

Pai de Daniel, 35, e André, 33, ambos músicos, hoje Dadi larga tudo para ficar com a neta. “É a coisa mais maravilhosa do mundo. Na minha família tem homem para tudo quanto é canto, foi muito legal ter vindo uma menina”, conta ele, que é casado com Leila, sua namorada de adolescência, há quase quatro décadas. A receita para manter o casamento durante todo esse tempo? “Saber entender o outro. Mas a gente se desentende por causa da minha irresponsabilidade financeira. Às vezes eu ‘viajo’ um pouco”, confessa.

NEM A MORTE NOS SEPARA

Rolou ontem o lançamento de Nem a morte nos separa, corajoso romance em que o jornalista Ricardo Gonzalez fala sobre a luta de seu filho contra o câncer e sua morte, em 2010. Fiz a matéria abaixo para O Dia.

PARA AMAR AS PESSOAS COMO SE NÃO HOUVESSE AMANHÃ
Em livro, o jornalista Ricardo Gonzalez detalha a morte do filho
Publicado por O Dia em 18 de novembro de 2014

"Eu sempre falava para meu filho: ‘Rafa, eu só vou te dizer o que cada opção sua vai te causar. Mas a escolha é sua. E fique tranquilo, porque se der errado eu vou estar sempre por perto pra te apoiar e resolver’. E aí surge uma situação que eu não podia resolver”, diz o jornalista Ricardo Gonzalez.

Ele conta as histórias vividas ao lado de seu filho Rafael — morto em 2010, aos 21 anos, de câncer linfático — no livro Nem a morte nos separa (Ed. Mauad, 252 págs., R$ 54), que lança hoje às 18h na livraria Argumento, no Leblon. Mesmo relembrando detalhadamente a luta contra a doença e a morte de Rafa, Ricardo procurou manter leveza e humor no relato.

“O livro não é o tempo todo pesado. Fica claro em várias passagens que Rafael era um menino bem-humorado, que se permitia rir das nossas mazelas”, conta o autor, editor de texto do canal SporTV. “Minha ideia foi homenageá-lo e convidar os pais para que passem a ter seus filhos como prioridades na vida. Um dia, eles podem não estar aqui”.

Durante o tratamento de Rafael, toda a família viu de perto o pouco investimento dado à saúde no Brasil. “Ficou clara a falta de centros de referência. Vi hospitais com salas de espera lotadas já às 8h. Nem às 20h teriam dado conta! Mas não é um livro-denúncia. Nem citei os lugares nos quais Rafael se tratou”, conta Ricardo. O autor optou por não usar a primeira pessoa ao narrar a história. “Fiz um romance baseado em fatos reais”.

Ricardo conta que a maturidade de Rafael, mesmo nos momentos mais graves, surpreendeu a todos. “Para ele, nada tinha peso excessivo. Em vários momentos, ele é que me tranquilizava. E deveria ser o contrário”, conta. “Ele sempre me dizia que nós o havíamos preparado para qualquer coisa. Inclusive para o que aconteceu.”

terça-feira, 18 de novembro de 2014

NEGRO É LINDO

Vários eventos chegando por aí que lembram o mês da consciência negra.

Matéria minha que saiu domingo no jornal O Dia (alguns eventos dessa matéria já rolaram - confira o link original do texto aqui).

NEGRO É LINDO
Eventos em homenagem ao mês da Consciência Negra celebram a cultura de origem afro e todos os tons e sons que vêm das misturas

Publicado em O Dia em 16 de novembro de 2014

O grito forte dos Palmares corre terra, céus e mares — como dizia o clássico Kizomba, a festa da raça, samba de 1988 da Unidos de Vila Isabel em homenagem ao líder negro Zumbi, cuja morte é lembrada quinta-feira, Dia da Consciência Negra. A cultura que vem da África mistura-se com as de outros países e encontra solo fértil no Rio, numa festa da inclusão que culmina no dia 20, mas dura todo o mês, com uma série de peças, filmes, shows e debates que ocupam a cidade. 

“Aqui, a cultura afrodescendente vai a todo lugar e passa por todo tipo de mistura”, festeja o sambista Marquinhos de Oswaldo Cruz. Ele leva hoje a Feira das Yabás pela primeira vez à Cidade das Artes, na Barra da Tijuca, para celebrar a gastronomia e a cultura de origem afro. “Lá em Madureira e Oswaldo Cruz, onde fui criado, a população era predominantemente negra. Mas convivíamos com outros grupos que lá eram minorias: judeus, portugueses, italianos. O samba Quitandeiro, do Paulo da Portela e Monarco, falava de macarronada!”

Arlindo Cruz sentencia que só o dia 20 é pouco para a cultura negra. “Ela tem que ser comemorada todos os dias! Quando se combate cada ato de racismo ou de intolerância religiosa”, diz o sambista. No próximo domingo, ele festeja a data na Quinta da Boa Vista, às 17h, e depois segue para o seu Centro Cultural, em Realengo, para cantar com o filho Arlindo Neto e celebrar os 199 anos do bairro. “O Brasil é um país misturado. Temos que ter uma consciência mestiça!”, exclama.

Não é só o samba que batuca na festa. Na Lapa, um dos berços do ritmo, eventos black trazem o funk-rock do nigeriano Keziah Jones (ao Circo Voador, dia 19) e o reggae da lenda viva Bunny Wailer, com abertura do Cidade Negra (à Fundição Progresso, dia 20). E todo tipo de música enraizada na África pode ser inscrita na 3ª edição do Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro-Brasileiras, realizado pelo Centro de Apoio ao Desenvolvimento Osvaldo dos Santos Neves (Cadon).

O cinema negro ganha duas grandes mostras. Zózimo Bulbul — Uma alma carioca traz fotos e filmes do cineasta e ator (1937-2013) de terça até 18 de janeiro no Centro Cultural Justiça Federal. E 24 filmes de 12 países africanos surgem na tela da Caixa Cultural no ciclo Uhuru — Mostra de cinema africano pós-independência, em cartaz até o próximo domingo. A inclusão também está na TV Brasil de segunda a sexta às 23h, com a novela angolana Windeck, que acaba de estrear e é pioneira na importação da teledramaturgia africana.

Além disso, há verdadeiras aulas de história negra rolando pelo Rio. O Grupo Cultural Jongo da Serrinha traz o show Vida ao jongo na quinta, no Teatro Carlos Gomes. E até 29 de novembro é encenada, no Centro Cultural Ação da Cidadania, a peça André Rebouças, o engenheiro negro da liberdade, de José Miguel da Trindade e André Luiz Câmara. “O carioca sabe que o túnel que une as zonas Sul e Norte homenageia André e seu irmão Antônio. Mas não conhece a história deles”, diz Trindade. 

DO LIXÃO AO OSCAR

Um papinho com o fabuloso Tião Santos, catador que virou consultor ambiental e tem sua vida contada em livro.


A VIDA EXTRAORDINÁRIA DE TIÃO SANTOS CONTADA EM LIVRO
Publicado em O Dia em 16 de novembro de 2014

O catador, palestrante e consultor ambiental Tião Santos passou por um verdadeiro exorcismo pessoal ao fazer o livro Tião — Do lixão ao Oscar (Ed. Leya, 256 págs., R$ 29,90). Relembrou os riscos que correu ao crescer no lixão de Jardim Gramacho (Duque de Caxias), a morte do irmão e a violência doméstica vinda do pai, a quem acabou perdoando e de quem se tornou muito próximo. 

“Fazer o livro valeu por dois anos e meio de terapia”, brinca. “Achei que já tivesse enterrado velhos problemas. Eu nem gosto muito de falar sobre meu pai, é algo que me deixa triste. Hoje, vivo isso tudo e gostaria de estar vivendo com ele.” 

O livro mostra o histórico de Tião, a época em que era uma criança vivendo em meio ao lixo (“cheguei a pegar tuberculose”, diz) e o momento em que sua família percebeu que poderia ganhar dinheiro com o material descartado pelos outros. Seu trabalho à frente da Associação dos Catadores tornou-se público quando apareceu no filme Lixo extraordinário, de Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley, que mostrava o trabalho desenvolvido pelo artista plástico Vik Muniz em Jardim Gramacho e foi indicado em 2011 ao Oscar de Melhor Documentário. Hoje, Tião trabalha com consultoria sobre coleta seletiva e prossegue como presidente da associação, mesmo após o lixão ter sido desativado.

“Se fizer faculdade, vou ser para sempre um catador que se formou. Isso nunca vai ser apagado da minha vida”, diz ele, até hoje driblando preconceitos. “O catador é visto por todo mundo como o ‘homem do saco’, o cara que leva as crianças embora. Hoje, vou dar palestras e não tenho a aparência que se espera de um catador. E ele é um profissional que tem que ser visto como um protagonista da coleta seletiva. Não existe esse tipo de visão no Brasil.”

No livro, Tião lembra das vezes em que foi passado para trás por empresários. Também cobra promessas que teriam sido feitas pelo prefeito do Rio, Eduardo Paes, como a de que seria instalada uma agência de desenvolvimento em Gramacho, para dar conta de questões pós-aterro. 

“Falar o que se pensa é sempre complicado”, diz. “Pago um preço muito alto por isso. Tenho grandes amigos dentro da prefeitura e eles sabem que minha luta é a de uma categoria. Há mais de um milhão de pessoas que vivem da reciclagem e sofrem preconceito por isso.”

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

A BIOGRAFIA DO MONOBLOCO

O jornal O Dia deu antes e gostou: o Monobloco comemora 15 anos com biografia, relembrando causos engraçados, sucessos, fracassos, o carnaval carioca antes e depois deles... e um certo pezinho lááá em São Paulo. Confira aí.


QUE BLOCO É ESSE?
Com biografia, Monobloco abre as comemorações de 15 anos do grupo e lembra que, no começo, enfrentou plateias vazias
Publicado no O Dia em 11 de novembro de 2014

Quem vê o Monobloco arrastando multidões nos Carnavais nem imagina, mas o começo do bloco foi duro. “Quando eles fizeram a primeira festa, no Clube Malagueta, em São Cristóvão, não foi ninguém”, conta o jornalista e percussionista Leo Morel, que repassa a história da turma na biografia Monobloco — 15 anos (Editora Azougue, 300 págs., R$ 50). E recorda que, incrivelmente, o embrião do bloco surgiu em São Paulo. “É porque o Pedro Luís e a Parede (fundadores) tinham criado uma oficina de percussão no Sesc Vila Mariana. Deu tão certo que resolveram fazer no Rio”. 

O jogo começou a virar quando outro bloco mais antigo, o Suvaco do Cristo, deixou de fazer ensaios no Clube Condomínio, localizado no distante Horto, para lá do Jardim Botânico. “E o Monobloco foi convidado para a vaga deles. Já era um lugar pouco usual, né?”, brinca Leo, que estava na plateia e nem lembra direito como foi parar lá. “Herbert Vianna (Paralamas do Sucesso), que até hoje é padrinho deles, fez uma participação e o local lotou. Ninguém sabia se era um show dos Paralamas, do Suvaco do Cristo, do Monobloco”. Dessa vez deu certo: duas mil pessoas se divertiram na festa. “E ainda tinham mais duas mil lá fora que não conseguiram entrar”, lembra o jornalista.

Os 15 anos do Monobloco serão comemorados no ano que vem, mas Leo — que costuma engrossar a bateria do bloco no Carnaval — já adianta a biografia para dezembro. O jornalista fez mais de 50 entrevistas, com músicos que passaram pelo bloco e amigos como Elza Soares, Lenine e Fernanda Abreu.

Leo explica no livro o quanto o Carnaval carioca deve ao Monobloco. “Ele misturou samba com Tim Maia, Jorge Ben Jor, Paralamas e atraiu jovens que nem gostavam do estilo. Eles passaram a querer tocar na bateria. Isso parece natural, mas é um fenômeno recente”, conta. “Antes, muitos blocos contratavam percussionistas de escolas de samba para os desfiles. O Monobloco criou a própria bateria e os próprios mestres. E foi aí que surgiram esses blocos que têm uma proposta mais pop”. 

Pedro Luís, orgulhosíssimo, fez o prefácio do livro. “O Leo contextualizou tudo historicamente e pré-historicamente. Deu nomes aos bois tanto quanto foi possível. E a boiada é grande!”, brinca. Grande, não — enorme. Num Carnaval, o bloco pode ter 200 integrantes.

“O bloco desfilava na Gávea, aí a Gávea ficou pequena para eles. Foi para Copacabana e Copa ficou pequena!”, espanta-se Leo. No Centro, onde desfilam, arrastaram 450 mil pessoas em 2014. “Eles divulgam um horário e chegam antes para despistar. No Carnaval, preciso chegar às 6h, 7h para passar o som”.

Nas turnês, a turma é mais compacta e gira em torno de 30 músicos. Mesmo assim, sobra trabalho. “Não é como um trio de jazz, né?”, zoa Leo, lembrando que o bloco funciona como uma empresa e os músicos que tocam no Carnaval têm até seguro.

Quando começaram as turnês internacionais, as histórias engraçadas aumentaram. “No começo, nem todos os músicos falavam inglês. Na primeira turnê pela Inglaterra, eles chegaram com os instrumentos, aquela multidão, e todo mundo estranhou. Deixaram o mestre (de bateria) Maurão esperando numa sala e ele estava morrendo de fome. Começou a berrar em português: ‘Meu irmão, tô com fome! Me dá comida’”, brinca. 

BATERIA JOVEM Monobloco — 15 anos ainda está sendo concluído e está em pré-venda. Leo pede que quem tiver fotos raras do bloco, o procure. Ele e a editora Azougue estão fazendo um crowdfunding (www.catarse.me/pt/Monobloco) para ajudar nos custos de produção e distribuição. “O livro tem muitas fotos, muito material clicado por vários fotógrafos que acompanharam o bloco pelo Brasil”, conta o autor.

O Monobloco ainda planeja comemorações ao longo de 2015 para celebrar os 15 anos, mas nada certo ainda. Por enquanto, a agenda do bloco inclui eventos como os shows de Réveillon — a turma se divide em duas e toca ao mesmo tempo em Manaus (AM) e no Recife (PE). A partir do dia 30 de janeiro, ocupa a Fundição Progresso todas as sextas até o Carnaval. No dia 22 de fevereiro, domingo de Carnaval, acontece o grande desfile pelo Centro do Rio. “É o grande cartão de visitas do Monobloco. Muita gente tem a primeira oportunidade de conferir o som deles gratuitamente ali”, alegra-se Leo.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

NELSON MOTTA

Bati um papo outro dia com Nelson Motta, que foi publicado no O Dia. Os assuntos eram o recente lançamento do CD Nelson 70, a série de televisão com os bastidores do disco, o livro As sete vidas de Nelson Motta (lançado ontem e repassando sua vida em meio a produção, TV, música e jornalismo). E mais algumas novidades que ele foi me contando no decorrer do papo, e que tornaram a matéria bem diferente de outras publicadas em outros jornais pelo Brasil afora. Como acontece com quase todo bom entrevistado, Nelson Motta tem um assunto diferente a tratar com quem o entrevista, e sempre solta aspas muito boas.

Cultura pop, timidez (apesar de ter conquistado tudo que conquistou, ele se considera um cara tímido e até brincou com isso durante a conversa), política, tecnobrega, Dancin Days (a novela) e MP3 também fizeram parte da conversa - que, pelo menos para mim, ficou tão legal que resolvi reproduzi-la na íntegra abaixo.


Muitos assuntos ultimamente, certo?
NELSON MOTTA
Sim, sim... Tá sendo uma grande felicidade comemorar 70 anos com novas produções e ao mesmo tempo com retrospectivas. Chegas aos 70 anos já é um privilégio, né? Imagina chegar com saúde? Em todas essas atividades que eu fiz sempre tem essa atração pelo novo, pelas novidades pelas mudanças. Isso se mantém em todas as fases da minha vida. Como também o sentimento de dividir com as pessoas as coisas que noticio, que descubro. Na minha carreira de jornalista, sempre preferi jogar luz em artistas obscuros, coisas impopulares, músicos difíceis... mais do que cair de porrada em shows ou discos de medalhões. Vi muitos críticos que achavam que iam crescer na profissão fazendo isso, e muitos deles sumiram completamente. Acho que os mais equilibrados continuam aí.

Já em política você é um camarada bastante crítico...
E você vai ficando cada vez mais crítico com o passar dos anos. Minha experiência também... O que minha geração viveu na ditadura, de ter participado da redemocratrização, dos piores momentos, plano Collor, governo Sarney... Nossa geração foi submetida a essas coisas. E quanto menos paixão partidária ou ideológica você tiver, mais crítico se torna da realidade política brasileira neste momento. Tenho horror a partidos políticos, a torcidas organizadas, a seitas religiosas. Isso tudo acaba tendo muito pouco a ver com o objeto. As pessoas acabam buscando uma expressão coletiva para não terem a responsabilidade individual de se construir e pensar por si próprias.

É uma lição que muita gente não aprende. 
Sim, sim. O Brasil é um país fantástico, que sobreviveu a isso tudo. É preciso depender menos do governo. Hoje com a internet, com a tecnologia da informação, não se precisa do governo para nada. Cada um pode fazer seu disco, seu jornal, sua revista, seu canal de televisão. Hoje tem cada vez menos desculpa para fazer as coisas. Minha geração era dependente politicamente, tecnologicamente, socialmente. Para nós é um refresco, é como se a gente corresse com pesos de 20 quilos nas costas (risos) e agora a gente vai correr só 5 mil metros.

Onde você ouve música hoje?
Ouço muito pouco vinil. Eu tenho iPod. Caminho pela praia uma hora de manhã e vou ouvindo as coisas que me interessam. No mais, ouço online, no laptop mesmo. É onde eu mais ouço música.

Mas você guarda vinis?
Guardo só o que tinha de melhor. No iPod eu tiro duas músicas, boto mais duas, ouço aleatório... Aí bate uma música esquisita e pum! Gosto de brincar com isso. Tenho lá de tudo: Miles Davis, tecnobrega, João Donato, João Gilberto, Miles Davis, Baiana System. E coisas que ouço há cinquenta anos.

O que você achou do resultado final do CD Nelson 70? Você mesmo produziu tudo, certo?
Foi uma grande alegria quando me propuseram isso e foi muito maior do que eu esperava. Fui escolhendo as músicas e os intérpretes e dei liberdade. Não interferi em nada. Cada um produziu como quis. Era o que eu queria do disco: versões diferentes para as músicas, algumas delas terrivelmente conhecidas, como Como uma onda (parceria com Lulu Santos, gravada por ele) e Dancin days (com Ruban Barra, gravada pelas Frenéticas e, nos anos 90, por Lulu)- da qual é bem difícil fazer uma versão nova.

A Gabi Amarantos releu essa música e deu uma cara tecnobrega, bem diferente...
Sim, ela conseguiu fazer uma música com esse mesmo espírito dançante da discoteca. Achei sensacional. Era impossível fazer melhor do que a gravação original, claro, mas ela fez bem diferente. Como uma onda foi uma das últimas a serem resolvidas. Todo mundo já gravou essa música. Mas foi aí que me ocorreu o Jorge Drexler, que é muito meu amigo e tinha me pedido para fazer a apresentação do disco internacional dele. Ele disse que adorava essa música, que sempre se emocionava, e ela tinha feito um grande sucesso na terra dele, o Uruguai.. Como ele ia fazer show em Montevidéo, e eu ia encontrá-lo lá, aproveitei para gravar com ele num estúdio. Quando ela a cantou num show dele, vi que boa parte da galera cantava com ele. Mas talveza a maior alegria do disco tenha sido quando a Marisa Monte quis participar como intérprete, o que é um luxo para qualquer compositor. Ela veio como uma música nova, 25 anos depois de eu ter produzido o primeiro disco dela. E é uma belíssima música (Nós e o tempo, parceria entre Nelson, Marisa e Cesar Mendes). A letra é sobre esses 25 anos de convivência. Sempre fomos amigos.

O Leo Cavalcanti, um dos convidados do Nelson 70, diz que Certas coisas (parceria com Lulu, gravada por ele e, no CD, por Lenine) o ajudou bastante numa época em que ele passou por um luto na vida, em que havia perdido uma pessoa... Você já foi surpreendido com pessoas te falando de uma leitura, ou de um uso pessoal bem diferente para uma canção sua?
Olha, de Como uma onda muita gente fala. E é legal porque as pessoas dizem que é uma música que serve para momentos de alegria e de tristeza. É um hino de dor e de alegria ao mesmo tempo. Quando a pessoa está feliz, que ela aproveite bastante aquilo, porque pode passar - cada valorização do momento ajuda na permanência disso. Esse uso é o que dá vida à música, quando a pessoa se apropria dela e usa com seus sentimentos. Isso é o que justifica o trabalho de um compositor. A maior alegria que um compositor pode ter é quando uma música não lhe pertence mais.

Uma música acaba ajudando as pessoas...
Essas músicas, na verdade, são filosofia barata, no bom sentido. Pode botar isso entre aspas ou sem, como você preferir. É uma visão filosófica sem pretensão e numa linguagem pop. Eu tenho várias músicas assim. Eu e vários letristas fazemos isso. É uma constante.. Isso não torna a letra de música uma arte menor, a torna mais completa, mais integrada. O cotidiano das pessoas rem hoje música em todo lugar, ela fica mais vulgarizada também. O silêncio está cada vez menos presente por causa de tanta música, da melhor e da pior. Nos anos 60 a música ambicionava uma mudança social mais importante, era trilha de movimentos sociais. Hoje ela virou uma commodity.

Perdeu valor para muita gente...
Ela perdeu relevância. Tem outras formas de expressão interessantes hoje em dia. Até mesmo a própria música com imagem, mesmo que a base continue sendo canção: música e letra.

Quando foi que você percebeu que tinha talento para pesquisar e entender cultura pop?
Olha, nunca foi uma atitude,,, Eu diria que foi mais um jeito de estar na vida, desde que eu comecei, graças a meus pais. Eu tive uma boa formação musical, literária, por parte da minha família. Uma boa formação de cinema, também. E muita liberdade. Sempre fui estimulado a nunca ter preconceito cabeça aberta. Meu pais gostavam de novidades. Conheci a bossa nova por eles, eles eram bem jovens quando nasci, tinham vinte e poucos anos.. Depois com a ditadura... a restrição faz você ter ainda mais curiosidade pelo proibido. Sempre viajei muito, conheci outras culturas. Amo o Brasil pela sua diversidade e originalidade, pelo seu tamanho, mas nunca tive essa mania de atribuir tudo de ruim ao estrangeiro, "ah, os portugueses, os americanos". Isso atrasa. O que interessa é as pessoas assumirem suas responsabilidades. O Brasil tem lá seu lado provinciano, paroquial. Isso tá entranhado no Brasil, que é um país que tem ilhas de grande avanço e de grande atraso. Um arquipélago com todas essas ilhas. Agora interligadas.

Bom, recentemente tivemos vários políticos ultraconservadores sendo eleitos...
Isso não me surpreende. Na nossa geração tivemos a ilusão de que o Brasil, por ser um país novo, poderia criar novas formas de civilização, de convívio pela tolerância religiosa, pela diversidade étnica. É ilusão. Tem que romper muita coisa para fazer o novo e a gente ainda poderia ter uma terceira via. Tinha também aquela via da União Soviética comunista, que, claro, era uma ilusão de juventude. A verdade é que o Brasil é muito conservador e a eleição desses candidatos é a expressão disso. Essa turma que antigamente se chamava de extrema-direita. Esses conceitos de esquerda e direita hoje são relativos, mas é uma expressão do conservadorismo brasileiro. Faz só um plebiscito sobre pena de morte, aborto, maioridade penal, pra ver no que dá? Temos expressões progressistas, mas os núcleos da sociedade brasileira são basicamente conservadores.

Você sempre teve muitos amigos. Como vai sua vida social hoje? Sai muito?
Pouquíssimo! Continuo tendo muitos amigos, mas vejo pouco. Tenho e-mail, Facebook, acompanho a vida deles. É mais seletivo também. Gosto mais de ficar em casa, fui vivendo minha vida de acordo com o biológico. Eu vivi muito na noite desde garoto, indo para as boates de jazz e bossa nova. Até os 40 anos eu vivi da noite e vivi da noite. Tive cinco, seis casas noturnas, dormia às 7h. Depois o organismo foi pedindo que eu parasse, até porque vivi isso muito intensamente e já estava de bom tamanho. Passei a viver as manhãs, o dia, a acordar cedo. Virei escritor, passei a trabalhar em casa, fiz dez livros, roteiros de TV, de musicais. Um privilégio é escolher o que vou fazer. Ao mesmo tempo que tenho uma vida social menos intensa, tenho uma vida familiar mais intensa. Três filhas, três netos - um neto de 18 anos, o Joaquim. Saio muito com minha família, viajo, é um colchão de afeto que eu tenho. É fundamental, é a base de tudo.

E esse seu neto de 18 anos? Quem é mais ligado no novo, você ou ele?
O Joaquim tá sempre perguntando, interessado. Ele vai fazer vestibular para Direito. É filho da milhe filha Joana, a mais velha. Ele é interessado em novidades e é muito centradi. Há algum tempo sabe que quer ser advogado. Mando textos para ele, a gente conversa muito pelo Whatsapp. Ele se interessa por política, economia, pelo mundo no qual ele vai viver e trabalhar. Eu acabo aprendendo muito com ele também.

Você sempre disse que é uma pessoa tímida. Como uma pessoa tímida conquista tudo o que você conquistou?
Ah, isso é complicado... Para ir a grandes eventos, muitas vezes tive que engolir a timidez. Isso fora tempos de bastante loucura e irresponsabilidade também. Mas à medida que eu fui ficando mais maduro e mais consciente passou a ser até mais difícil administrar isso, sabia? Meu amigos sabem que eu não gosto de coisa com muita gente. Prefeiro conversar individualmente com várias pessoas e depois juntar tudo. Até porque teho um espírito agregador, meus amigos até me chamam de "harmonizer" (harmonizador). "Ah, fulana de tal tá preocupada aí com alguma coisa... chama lá o 'harmonizer'" (risos).

Na TV é tranquilo?
Acho que ir para a TV e falar na frente de uma câmera é tranquilo (logo depois, ao posar para as fotos de O Dia, feitas por Bruno de Lima, Nelson disse que um grande desafio ao aparecer na TV ou tirar fotos sentado era não fazer "mão de padre" - com as palmas abertas para a frente - ou "mão de xoxota" - com indicadores e polegares aproximados). Basicamente o câmera tá ali na sua frente e acabou. O que me apavora mesmo é público, é fazer uma palestra para 500, 600 pessoas. Fico nervoso mesmo. Acho que é de família. Meu avô, Cândido Motta Filho, que escreveu vários livros, escreveu um chamado Ensaio sobre a timidez. Era tímido também (risos). Eu detesto multidão, gritaria, bate-boca, barraco... Tenho horror a essas coisas. Prefiro engolir um sapo do que enfrentar um barraco.

Bom, então não acredito que você vá se animar com essa onda recente de brigas por redes sociais...
Comigo não há a mais remota possibilidade! Isso foi uma decisão que tomei logo que houve a redemocratização. Tivemos essa luta toda, daí começou uma brigalhada danada por causa de eleições, discussões políticas... Pensei: 'Nunca vou perder um amigo por causa de eleições, ou por causa de discussão política'. Tenho amgios conservadores, de extrema-esquerda. Já votei no Fernando Gabeira, no Carlos Minc, fiz campanha para o Mário Covas, um amplo espectro. Tem amigos com os quais você não vai discutir, porque já sabe o temperamento da pessoa e vê que não vale a pena. Sou amigo do José de Abreu (ator e militante do PT). Para quê vou discutir política com ele?. Temos 1.800 assuntos para conversar. E outra: já desisti de convencer qualquer pessoa de qualquer coisa. Se me perguntarem, falo o que acho. Se você aceitar, ótimo. Se não, tudo bem. Não quero convencer ninguém e quero que respeitem minhas convicções e minhas mudanças de opinião. Estou em transformação permanente. Sempre me perguntam: 'Você não achava isso?'. Não acho mais! (risos). Essa dinâmica tem que ser acompanhada, várias coisas aconteceram, não penso mais assim. Ou então você vai ficar vendo a vida pelo retrovisor..

Dancin' days foi reprisada recentemente pelo canal Viva. Você acompanhou a reprise?
Não, não. Eu dei umas palestras para a turma da novela Boogie Oogie para contar como era a época. Hoje tudo o que dizem do funk, diziam na época da disco music. As pessoas sempre têm essa reação às novidades. Aliás, um dos meus próximos projetos musicais de teatro é contar a história das Frenéticas e do Frenetic Dancin' Days. Já tá lá o Simonal, sendo ensaiado.

Você escreveu o Simonal também, né? (S'imbora - O musical)
Escrevi com a Patricia Andrade. É diferente porque é um musical bem dramático, tem uma história dramática, é quase uma tragédia individual humana (risos). É bem mais ambicioso do que foi o Tim, que era um personagem mais bagaceiro. Com a Patricia vou escrever também outro musical sobre o Festival Internacional da Canção de 1967, aquele que é considerado o "festival dos festivais". Quando acontecer o musical, vão ser reencenadas as doze músicas do evento, tal como na época, com arranjos originais, etc. No fim do espetáculo o apresentador fala para a plateia do teatro: "Dessa vez não vai ser o júri que vai escolher o vencedor, mas sim a plateia. Liguem seus celulares!".

Isso tudo sai quando?
O do Simonal é em janeiro de 2015. O do festival fica para o segundo semestre. Deve se chamar Uma noite em 67, como o documentário (de Renato Terra e Ricardo Calil).

E o que você achou do filme do Tim Maia?
Adorei o trailer do Tim, fui até numa filmagem, mas não assisti ainda ao filme. Tem ali o Cauã Reymond, que faz um amigo do Tim... Foi uma grande pena, porque me disseram que o Cauã ia fazer o meu papel, mas era mentira (risos).

Finalizando, o que você considera ter aprendido com seu pai? (o advogado Nelson Candido Motta, morto em janeiro aos 92 anos)
Meu pai era um cara de uma ética rigorosa e de gragde generosidade e tolerância. O que eu mais aprendi com ele foi essa virtude, de aceitar as diferenças, de tolerar o erro do outro, de tentar entender as coisas. Ele tinha isso naturalmente, exerceu a vida inteira na família, no trabalho, na vida cotidiana. Mostrava isso através de exemplos. Isso é algo que me faz ter muita gratidão por ele. Era também um homem muito generoso. Ele sempre me dizia que quem recebeu mais, tem que dar mais. Eu não fiz nada para merecer minha inteligência, ou minha sensibilidade ou meus dons adivinhatórios, seja o que for, né? Ele tinha um regra de vida em que ele dizia o seguinte: "Qualquer pessoa que cruzou o seu caminho e pediu a sua ajuda, você tem que ajudar. Antes de perguntar qualquer coisa". Eu fui muito ajudado, mas quanto mais eu dei, mas eu recebi. Muitas vezes foi coisa imediata, tipo ajudar um amigo que precisava de dinheiro ou estava para ser despejado, num momento em que eu nem estava podendo. Dois dias depois aparece um dinheiro meu de direitos autorais que estva bloqueado há dez anos (risos). Tento passar isso para as minhas filhas.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

MOSTRA DE CINEMA E DIREITOS HUMANOS NO HEMISFÉRIO SUL

Uma matéria pequena que fiz sobre a 9ª Mostra Cinema e Direitos Humanos no Hemisfério Sul. Saiu em O Dia.

CINEMA E DIREITOS HUMANOS EM FESTIVAL NO CCBB
Mostra tem 41 filmes do Hemisfério Sul
Publicado por O Dia em 12 de novembro de 2014


A 9ª Mostra Cinema e Direitos Humanos no Hemisfério Sul, em turnê pelo Brasil até 3 de dezembro, aporta hoje no Centro Cultural Banco do Brasil. Com 41 filmes que propõem reflexões sobre igualdade e inclusão, o evento também tem lembranças cinematográficas dos 50 anos do Golpe Militar e uma homenagem à cineasta Lucia Murat, diretora de filmes como Que bom te ver viva, sobre mulheres que sofreram torturas durante a ditadura. 

“Nós tomamos o cuidado de criar um festival inclusivo”, ressalta o coordenador Rafael de Luna Freire. “Disponibilizamos audiodescrição e legendas. E também abrimos o leque para filmes não apenas da América Latina, mas também do Hemisfério Sul. Há longas e curtas da Jordânia e do Egito no festival. Buscamos ver o que há de diálogo entre esses países, em suas produções.”

Com entrada franca, a mostra traz clássicos brasileiros como Cabra marcado para morrer, de Eduardo Coutinho, ao lado de novidades nacionais como O mercado de notícias, de Jorge Furtado (sobre as questões atuais ligadas à profissão de jornalista) e Hoje eu quero voltar sozinho, de Daniel Ribeiro (de temática LGBT). Dentre os estrangeiros, vários curtas e alguns longas, como o mexicano La jaula de oro, de Diego Queimada-Díez.

O festival traz uma mostra competitiva, um ciclo de filmes lembrando o golpe (‘Memória e Verdade’), a homenagem à Lucia Murat e, como novidade, a sessão ‘Inventar com a Diferença’, com curtas-metragem — ou ‘filmes-carta’, como classifica a produção — realizados por alunos de escolas públicas de todo o país (confira toda a programação em www.mostracinemaedireitoshumanos.sdh.gov.br.

“A ideia é que os filmes mostrem a interação das crianças com o ambiente, como se fosse um exercício”, relata Freire, orgulhoso em particular da mostra com os filmes de Lucia, que inclui Doces poderes (1997), Uma longa viagem (2011) e Brava gente brasileira (2000). “Ela está em plena atividade, sempre enfocando a temática social e o feminino.”

Lucia comemora o fato de o festival passar por todas as capitais, além do Distrito Federal. “Só assim para que se possa brigar com os fundamentalismos das mais diversas espécies”, conta Lucia. “O Brasil é um país muito dividido. O que acontece na Zona Sul do Rio não tem a ver com o que acontece no interior do Maranhão. É importante que se levem esses temas para outras classes sociais e outros lugares”, diz a cineasta.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

QUARENTA MAUS MOMENTOS DE ARTISTAS LEGAIS

Há alguns anos, tive um chefe que costumava reclamar quando alguém usava o termo "caos" para definir tudo que aparecesse pela frente. "Quando o caos começar de verdade, vocês não vão saber mais o que é 'caos'", dizia.

Ele também reclamava, com toda razão, quando alguém dava três estrelas ou um "excelente" para qualquer disco que achasse legal, na hora de fazer uma resenha de CD. Achava que poderíamos estar banalizando o termo "excelente" ou a cotação máxima para álbuns.

Levando em conta que artistas picaretas e salafrários surgem por aí aos borbotões, e sempre fazendo álbuns pavorosos, dá até vontade de propor uma não-banalização do termo "ruim". Ainda mais porque qualquer artista muito bom pode passar por safras horrendas de composição, não conseguir fazer nada que preste e, para cumprir contrato, ou por puro desejo de manter a máquina funcionando, não resolver parar de gravar. 

Então vamos lá: para não misturar alhos com bugalhos e não colocar discos de gente legal no mesmo escaninho de gente pavorosa, seguem aí quarenta momentos nada inspirados de gente MUITO boa. Ou será que você gosta desses discos?



"LET IT BE... NAKED" - BEATLES (Apple, 2003). Let it be (1970), último lançamento dos Beatles, é traumatizante para vários fãs, já que o grupo já tinha encerrado atividades quando ele saiu. A versão naked, uma ideia de jerico de Paul McCartney, acreditando que o produtor-arranjador Phil Spector estragara o disco com camadas de cordas, dá uma sensação de ausência ao trazer remexido o material já consagrado do grupo. Até há alguns anos, era o "filho feio" da discografia dos Beatles, o item menos vendido dentre os álbuns.

"MÚSICA CALMA PARA PESSOAS NERVOSAS" - IRA! (Warner, 1993). Parece uma coletânea de sobras de estúdio e demos. E praticamente é. Discos de encerramento de contrato costumam ser feitos "naquela base", mas o Ira! exagerou. Gravação-mixagem horrenda, letras beirando a debilidade, músicas autoindulgentes, excesso de covers. O quase metal Arrastão e a versão blues para Balada triste, do repertório de Agostinho dos Santos, são as que dão para o gasto.

"SACOS PLÁSTICOS" - TITÃS (Arsenal, 2009). Pouca coisa, quase nada, sobra no único disco dos Titãs produzido por Rick Bonadio. Canções fracas, vocais lembrando vagamente as bandas emo produzidas pelo chefe das gravações (em Antes de você, cujas vozes Paulo Miklos garante ter feito sob seus próprios cuidados num estúdio na Bahia), cordas gravadas na meca country Nashville e tentativas inócuas de trazer de volta as eletronices introduzidas em Jesus não tem dentes no país dos banguelas (1987). Decepcionante.

"DIRTY WORK" - ROLLING STONES (Rolling Stones Records, 1986). Muitos críticos que meteram o pau no bom She's the boss, estreia solo de Mick Jagger (1985), foram extremamente complacentes com o retorno dos Stones após três anos sem novos álbuns. Se Undercover (1983) já tinha decepcionado, Dirty work esfregava todo o estresse interno da banda na cara de seu público: o baterista Charlie Watts viciara-se em heroína, Mick Jagger e Keith Richards mal se falavam, o vocalista se recusou a sair em turnê com a banda... O resultado não poderia ter saído pior.



"PRIMITIVE COOL" - MICK JAGGER (Columbia, 1987). O cantor dos Stones não quis fazer turnê para promover Dirty work porque preferiu divulgar seu segundo disco solo. Se a capa já é horrível, nem queira ouvir o álbum, que deu munição a todos os críticos que não ouviram e não gostaram do disco de estreia. As vendas foram tão desastrosas que Mick preferiu excursionar apenas na Austrália e no Japão. Nesse último, fez shows especiais com várias canções dos Stones no set list.

"POR QUEM OS SINOS DOBRAM" - RAUL SEIXAS (Warner, 1979). Resfolegando e devendo um disco para a Warner, Raul compôs quase tudo nesse álbum ao lado de um parceiro misterioso, Oscar Rasmussem, com quem dividia apartamento em Copacabana. Letras sem sentido, músicas ruins (o reggae Ide a mim, dada e o blues Na rodoviária parecem gozação com os fãs) e, pairando desastrosamente no ar, uma queda para a autoindulgência e a autodestruição.

"POP" - U2 (Island, 1997). No fim das contas, o que sobra de um dos discos mais controvertidos do U2 daria um bom EP, que incluiria músicas como Discothéque, Staring at the sun, Playboy mansion e poucas outras. Quem se assustou com as discussões sobre o novo disco do grupo, Songs of innocence, distribuído compulsoriamente no iTunes, talvez recorde: crítica e público receberam muito mal as inovações eletrônicas de Pop, que teve um up comercial logo no início e depois parou de vender.

"IN THROUGH THE OUTDOOR" - LED ZEPPELIN (Swan Song, 1979). A Ultimate classic rock fez um ranking dos álbuns do Led Zeppelin e pôs o último álbum do grupo em último lugar. O excesso de sintetizadores e o clima pop do hit All of my love (dedicado pelo vocalista Robert Plant a seu filho morto, Karac) causaram tristeza a muitos fãs, que ficaram crentes de que o Led, sumido desde 1976, voltara comercializado.


"WAITING FOR THE SIRENS CALL" - NEW ORDER (London, 2005). A melhor contribuição desse disco ao mundo foi ter inspirado o capista de , disco de Caetano Veloso. Por aí você já vê. Dos CDs lançados pelo grupo na década passada, é o que mais dá pinta de que a tecladista Gillian Gilbert faz falta. Krafty, o single, é bonitinha mas (bem) ordinária.

"BORN AGAIN" - BLACK SABBATH (Vertigo, 1983). O veterano grupo de metal tem com certeza discos bem piores que seu único álbum lançado com Ian Gillan (Deep Purple) no vocal. Quem conhece o Sabbath entende a dureza que é ouvir os discos gravados com o cantorTony Martin à frente. O guitarrista Tony Iommi diz, no entanto, não gostar nem um pouco do álbum de 1983. "Nossa formação em Born again foi feita só no papel, puramente por advogados (eram Iommi, o baterista Bill Ward, o baixista Geezer Butler e Gillan). Ian é um grande cantor, mas ele vem de um background completamente diferente e teve muita dificuldade de cantar nosso material", conta. "Não gosto de muitas das músicas desse álbum e a produção foi bem ruim, para ser honesto".

"O INFERNO É FOGO" - LOBÃO (RCA, 1991). O cantor cumpriu contrato com a antiga RCA, hoje Sony, com uma viagem na maionese. Matou a família e foi ao cinema desce bem. O resto já chegou às lojas com a data de validade vencida: Jesus não tem drogas no país dos caretas, O inferno é fogo, Que língua falo euPresidente Mauricinho. O letrista Bernardo Vilhena, banido dos discos do cantor a partir de então (aparece apenas em Viver ou não, parceria com Lobão e Ivo Meirelles) fazia falta.

"CHINESE DEMOCRACY" - GUNS N ROSES (Geffen, 2008). Dispensa maiores comentários. Ouça aqui.



"INTO THE UNKNOWN" - BAD RELIGION (Epitaph,  1983), O segundo disco da banda americana sofreria tanto bullying dos fãs (e dos próprios músicos, com o tempo) que ficou fora de catálogo até 2010. Conhecidos pelo seu hardcore-de-skatista, os rapazes decidiram, sabe-se lá por que cargas d'água, fazer um álbum de rock progressivo, com músicas enormes, climas viajantes e muitos teclados. O trauma da péssima recepção bateu tão forte que a banda acabou e só voltou em 1985.

"METAL MACHINE MUSIC" - LOU REED (RCA, 1975). Sobre esse disco duplo lançado apenas para zoar com a então gravadora de Reed, você já leu o suficiente. Ouça aqui.

"SUBTERRANEAN JUNGLE" - RAMONES (Sire, 1983). Todo disco dos Ramones é igual, dizem os detratores. Menos Subterranean jungle, que desmente o outro velho dito popular, esse espalhado pelos fãs do grupo, de que os álbuns do quarteto americano podem ser bons até quando são ruins. Salva-se pouco, e até o hit Psycho therapy não está entre os dez melhores singles da banda.

"GUILHERME ARANTES" - GUILHERME ARANTES (Warner, 1979). Tem Êxtase, talvez a primeira música brasileira a ser tocada quase inteiramente num sintetizador. E tem a quase-disco Biônica, que tocou um pouco em rádio. O resto é dispensável e um tanto constrangedor.

"CUT THE CRAP" - CLASH (Epic, 1985). Joe Strummer (voz, guitarra) e Paul Simonon (baixo, voz) convidaram outros músicos para substituir o baterista Topper Headon e o cantor e guitarrista Mick Jones. E fizeram um disco que, além de ser considerado o pior álbum do Clash, ganha fácil um alto posto na lista dos piores discos do mundo. Strummer achou que resolveria o buraco deixado pelo multitarefa Jones compondo todo o material ao lado do empresário Bernie Rhodes. Deu ruim.

"RE-LOAD" - METALLICA (Vertigo, 1997). Com raras exceções, disco não é filme para ter "parte dois". É feio, pega mal e dá a entender que o artista está em crise criativa. Se Load já havia assustado vários fãs por causa do novo visual do Metallica (que abandonara os cabelos compridos em prol de uma aparência meio hipster), sua continuação dava medo. Não tinha nada do "lado bom" do anterior. E o que poderia soar bem no ouvido, lembrava um peido do passado - como em Memory remains e na autoexplicativa The unforgiven II. O baixista Jason Newsted, que já costeava o alambrado há tempos, após vários anos de bullying e desprestígio, aproveitou para se mandar.

"THANK YOU" - DURAN DURAN (EMI, 1995). O diário irlandês Irish Times classificou esse álbum de covers do DD como "o pior disco da história da música gravada". O resultado é tão constrangedor que chega a ser engraçado em vários momentos, como nas bizarras versões de Thank you, do Led Zeppelin, e de 911 is a joke, do Public Enemy. É o Duran Duran agradecendo a audiência e a paciência dos fãs.

"A FOREIGN SOUND" - CAETANO VELOSO (Universal, 2004). Um verdadeiro teste de fidelidade até mesmo para o fã mais empedernido de Caetano. Mas o pior é para os admiradores individuais de cada artista estrangeiro regravado por ele nesse álbum, primeira tentativa recente de atingir um público mais "indie" (o que ele conseguiria com , do ano seguinte). O pior do disco é o que ficou mais famoso, a versão mole de Come as you are, do Nirvana.



"SLAVES AND MASTERS" - DEEP PURPLE (RCA/BMG, 1990). Gravado com Joe Lynn Turner (Rainbow) no vocal, esse disco leva bosta feito Geni em sites de fãs do grupo e em portais como Metal Inside. Teve vendagens bem caídas e recepção fria de público e crítica, muito embora canções como King of dreams tenham tocado no rádio, inclusive no Brasil. Em breve, rolaria entra-e-sai geral: volta Ian Gillan e o guitarrista Ritchie Blackmore abandona o grupo de vez.

"GONE TROPPO" - GEORGE HARRISON (Dark Horse/Warner, 1983). De saco cheio do universo da música, George Harrison cumpriu seu contrato com a Warner com... um disco típico de cumprimento de contrato. A Rolling Stone o desprezou em poucas linhas, dizendo que o ex-beatle tinha virado mais um produtor de cinema do que uma músico, e que o álbum novo não vinha para mudar o cenário.

"HOT SPACE" - QUEEN (EMI, 1982). É o disco de Under pressure, feita com David Bowie - enfim, vamos respeitar. Os fãs mais radicais é que não ficaram muito satisfeitos com o fato de o Queen, que já se orgulhou de não usar sintetizadores, incorporar cada vez mais elementos de R&B, disco e música pop de rádio. As dançantes Body language e Dancer estão aqui. Las palabras de amor, pesadelo brega de muitos antigos admiradores, também.


"LULU" - METALLICA E LOU REED (Vertigo, 2012). O disco que uniu o grupo de metal ao cantor americano causou reações muito bizarras. Tão bizarras que espalhou-se que Lou Reed estaria com medo de ser agredido na rua pelos fãs do Metallica. O irônico Pitchfork classificou-o como "audacioso e entediante". Lou Reed preferiu responder dizendo que "não tinha mais fãs. Depois de Metal machine music (1975), onde eles foram parar?".


"NEVER LET ME DOWN" - DAVID BOWIE (EMI, 1987). Virou clichê dizer que o título desse disco acabou acontecendo ao contrário. Enquanto Bowie pedia a alguém (no caso, sua assistente pessoal Coco Schwab) que não o decepcionasse, seus fãs é que ficaram bem deprimidos com esse álbum. O cantor respondeu às críticas negativas dizendo que o álbum havia vendido bem (o que era verdade). Mas nada compensava a audição de canções fracas como a faixa-título, Day-in, day-out, Time will crawl e outras.

"GIL E MILTON" - GILBERTO GIL E MILTON NASCIMENTO (Warner, 2001). No que dá o encontro de dois monstros da MPB? No caso aqui, deu foi em monstruosidade mesmo. Um disco ruim, com poucas músicas a se salvar, chatices inacreditáveis (Dinamarca, que tocou em rádio), coisas decididamente vergonhosas (tem uma música chamada Lar hospitalar) e a "incrível" participação de Sandy & Junior em Duas sanfonas.

"BARCELONA - FREDDIE MERCURY E MONTSERRAT CABBALET (Polydor, 1988). É o famoso "pode, mas não deve". Freddie Mercury, diva até a medula e grande fã de climas operísticos, até poderia lançar um álbum de ópera brega ao lado de Montserrat - hits do Queen como Bohemian rhapsody o credenciariam para isso, pois. Mas não deveria. O vocalista do grupo britânico acabou indo longe demais.

"NATION" - SEPULTURA (Roadrunner, 2001). No segundo disco gravado com Derrick Green no vocal, o Sepultura ressurgiu parecendo ter gasto todas as suas fichas no álbum anterior, Nation (1998). A safra ruim foi esfregada na cara dos fãs por intermédio de riffs fracos e de músicas sem nenhum potencial.


"BACK TO THE EGG" - PAUL MC CARTNEY & WINGS (Parlophone, 1979). Na raspa do tacho de seu grupo pós-Beatles, Paul tenta parecer "moderno" e inclui tons new wave e punk em seu som. A crítica não perdoou e saiu dizendo que o disco era "um dos álbuns mais preguiçosos da história do rock".

"SQUEEZE" - VELVET UNDERGROUND (Polydor, 1973). Disposto a não abandonar de jeito algum o nome "Velvet Underground", o empresário do grupo, Steve Sesnick, não viu problema nenhum que saísse um disco da banda sem nenhum de seus integrantes originais na formação. Restaram apenas o multiinstrumentista Doug Yule (que entrara em 1970 para substituir John Cale no baixo) e um punhado de canções tolas. E, lógico, a ira dos ex-Velvet Cale, Lou Reed e Nico.  

"ROCK IN A HARD PLACE" - AEROSMITH (Columbia, 1982). O guitarrista Joe Perry saiu da banda. O vocalista Steven Tyler ficou por lá, doidaralhaço. Com Jimmy Crespo e Rick Dufay nas guitarras, e o próprio Tyler na produção, é tão ruim que chega a valer como curiosidade.

"TIM MAIA" - TIM MAIA (Som Livre, 1977). Gravado sob encomenda do produtor Guto Graça Mello, o único disco de Tim Maia para a gravadora global vale pelo papo-cabeça do texto da contracapa, pelo samba-rock de Não esquente a cabeça, e só.



"ZIPPER CATCHES SKIN" - ALICE COOPER (Warner, 1982). Só os fãs muito radicais de Alice dão algum valor a esse disco. E alguns admiradores de longa data mal sabem que ele existe. Doidão de álcool e cocaína, Alice compôs (teoricamente), produziu e gravou esse disco fraco numa de suas fases mais sarjeteiras. Em entrevistas, diz não conseguir se lembrar de nada do que fez no álbum.

"ANIMALIZE" - KISS (Mercury, 1984). Gene Simmons estava tentando virar ator (fez uma bomba cinematográfica com Tom Selleck, Fora de controle e, dizem, teve um rolo com Sonia Braga). Deixou toda a batata quente do segundo disco da fase sem-máscara nas mãos de Paul Stanley, que precisou se virar com a produção e com o material (fraco) deixado pelo linguarudo.

"MONOCHROME" - HELMET (Warcon, 2006). O grupo noventista do guitarrista Page Hamilton tinha voltado com o bom Size matters (2004). E deixou entrar areia no disco seguinte. Quem falava que todos os discos e músicas do Helmet são iguais ganhou mais munição com esse álbum, cheio de canções bobas e vocais mais esgoelados do que de costume. A vinheta Howl, que traz um péssimo e irritante solo de guitarra, serve como um resumo do álbum.

'THE ULTIMATE SIN" - OZZY OSBOURNE (Epic, 1985). A coisa mais notável a respeito desse disco de Ozzy, lançado após sua vinda para o primeiro Rock In Rio, era que a imprensa brasileira não chegava a um consenso sobre como escrever seu nome. Saíam publicados The ultimate cyn, The ultimate cine, Ultimate sin (sem o "the"). O resultado saiu tão fraco, tão sem foco e tão sem noção que o próprio Ozzy já disse detestar a produção do álbum - e ele nunca mais nem foi relançado.



"BURGUESIA" - CAZUZA (PolyGram, 1989). Quase nas últimas, Renato Russo fez de A tempestade (1996), último disco da Legião Urbana, um álbum tristíssimo, depressivo, mas bom. Praticamente no mesmo estado, Cazuza não conseguiu o mesmo com seu último registro. Quem cuidava do cantor na época deixou-o tomar conta sozinho da produção de um disco duplo, que acabou repleto de canções (compreensivelmente) feitas às pressas e ganhando gravação/mixagem horrendas.

"ZOMBIE BIRDHOUSE" - IGGY POP (Animal, 1982). A carreira de Iggy parecia acabada na época em que saiu esse disco, talvez o seu álbum mais fraco, em que punkices se misturavam a estranhas tentativas de blues e folk. O melhor é a história por trás dele: Iggy foi ao Haiti fazer fotos para a capa do álbum, se entupiu de drogas legais, gastou os últimos trocados da viagem num inferninho, meteu-se com magia negra e foi até perseguido pelos Tonton Macoute.

"ONE TRUE PASSION" - REVENGE (Capitol, 1990). A banda do baixista Peter Hook, ex-New Order, veio dar um show no Brasil nessa época, quase simultaneamente ao lançamento do primeiro disco - hoje isso é comum, mas na época era absolutamente novo. Tocou para poucos, despertou algumas atenções e levou escovadas da crítica por causa do primeiro disco, tido como fraco. É menos ruim do que aquela resenha que você leu na Bizz fazia supor, mas é bem lamentável se comparado a seu grupo original.


"SGT PEPPERS LONELY HEARTS CLUB BAND - TRILHA SONORA" - VÁRIOS ARTISTAS (RSO, 1978). Olha, já se falou tanto, mas tanto dessa trilha e desse filme, que vale apenas ouvir. Esse link aqui traz um texto bem completo sobre o disco que traz uma constelação de nomões (gente como Bee Gees, Peter Frampton e Aerosmith), cada um vivendo seu inferno pessoal, estragando canções dos Beatles e queimando o próprio filme. E raspando o crédito do produtor Robert Stigwood até o final.






TODAS AS LISTAS DE QUARENTA:

- quarenta discos de 1974 parte um dois
- quarenta micromúsicas
- quarenta momentos em que a macumba virou pop
- quarenta músicas que você tem que ouvir parte um e dois
- quarenta melhores momentos de Hermes & Renato
- quarenta fatos sobre o Abba
- quarenta discos de 1984 parte um dois
- quarenta fatos sobre o Menudo.