terça-feira, 30 de setembro de 2014

QUARENTA (+1) DISCOS DE 1984 - PARTE II

Fiz outro dia uma lista de quarenta discos de 1984, aqui.

E graças aos pedidos dos amigos e leitores Samuel Sales de Oliveira, Carlos Eduardo Lima, Emmanuel do Valle, Mario Dias, Alfonso Moscato, Robson Paulin, Renato Vieira, Fátima Alegria, Figurótico Pineschi, André Leão, Renato Biao, Fred Dutra e Jorge Malcher vão aí mais quarenta. Divirtam-se. 1973 foi foda, 1974 foi muito bom e 1984 foi igualmente legal.


"COULDN'T STAND THE WEATHER" - STEVIE RAY VAUGHAN & DOUBLE TROUBLE (Epic). O blues estava salvo, e era possível começar tocando num bar esfumaçado, para uma galera interessada, e ser descoberto por um produtor antenado e por uma gravadora bacana - desde que você fosse um herói da guitarra como Steve Ray Vaughan, autor de excelentes composições e com autoconfiança suficiente para encarar até uma versão de Voodoo child, de Jimi Hendrix.

"CAFE BLEU" - STYLE COUNCIL (Polydor). Tido como um grupo de new bossa, blue eyed soul, pop adulto e várias outras denominações, o Style era criação de Paul Weller, guitarrista do Jam, e Mick Talbot, tecladista dos Dexys Midnight Runners. E mesmo com toda a sofisticação musical, era bem mais cáustico que o punk do Jam, graças a músicas como Dropping bombs in the Whitehouse e My ever changing moods.

"DIAMOND LIFE" - SADE (Epic). Um dos grandes marcos do pop adulto dos anos 80 - tão "adulto" que chegou a ser chamado de sophisti-pop em algumas resenhas e reportagens. Se você sempre ouviu Smooth operator no rádio e não sabia de que disco era, ela é a faixa de abertura - e ainda tem Your love is king.

"PURPLE RAIN" - PRINCE (Warner). When doves cry e Let's go crazy estão aqui. E como se não bastasse, tem a faixa-título, que quase todo mundo que ligou um rádio entre 1983 e 1984 ouviu. Purple rain era a trilha de um filme estrelado pelo próprio Prince, que uns viram, muitos detestaram e hoje virou um cult para cinéfilos e fãs do artista.

"VALOTTE" - JULIAN LENNON (Charisma). O filho mais velho de John Lennon estreou solo com um disco bacana e um excelente single, Too late for goodbyes, que ganhou participação do gaitista de jazz Toots Thielemans e um clipe dirigido por Sam Peckinpah. Ganhou narizes torcidos de alguns críticos, normal. E muitos deles guardariam ainda mais munição para o disco subsequente de Lennon, The secret value of daydreaming (1986). Expectativas e desilusões (e, reza a lenda, um embargo promovido por Yoko Ono) acabaram fazendo com que o garoto que inspirou Lucy in the sky with diamonds preferisse se dedicar mais a esculpir e fotografar do que à música.

"BLITZ 3" - BLITZ (EMI). A pimenteira da Blitz começou a secar quando a gravadora insistiu por uma nova Você não soube me amar para o segundo álbum, Rádio atividade (1983). O terceiro e, na prática, último disco do grupo atualizava o repertório com Dali de Salvador, Eugênio, Táxi, Cresci mamãe cresci e com Egotrip - que, digamos, lembrava muito Eu me amo, do Ultraje A Rigor, e acabou trazendo fama para o grupo paulistano. Mas trazia indícios fortes de que o lado engraçado da banda tinha perdido a validade.

"FULLGÁS" - MARINA LIMA (Philips). Nomes como Leo Jaime e Lobão já apareciam nos créditos dos discos de Marina (ainda sem o "Lima") desde 1981. Mas em Fullgás ela passa a falar como uma legítima representante do pop-rock brasileiro, com fortes composições próprias e letras que marcariam época. Aqui você encontra Fullgás (claro), Pra sempre e mais um dia, Nosso estiloPé na tábua (versão em português de Ordinary pain, de Stevie Wonder).

"TREASURE" - COCTEAU TWINS (4AD). O terceiro disco do grupo escocês, se avaliado seu impacto na história do rock e na crítica musical da época - a brasileira inclusive, já que chegou a sair aqui em vinil - pede resenhas pedantes e prolixas e adjetivos como "etéreo" e "celestial" (o nada comedido Melody Maker descreveu o grupo como "a voz de Deus", só para se ter uma ideia). Avaliado como produto pop, é uma das melhores surpresas musicais dos anos 80, com suas canções trazendo nomes próprios nos títulos (Lorelei, Beatrix, Persephone e vai por aí).

"TENTE MUDAR O AMANHÃ" - CÓLERA (Ataque Frontal). Clássico do punk brasileiro dos anos 80, o primeiro álbum do grupo liderado por Edson Pozzi Lopes, o popular Redson (1962-2011) faz lembrar da era Reagan, da corrida armamentista e da polarização EUA/URSS em músicas como AmnésiaDuas ogivasAmanhãBurgo - alienaçãoPasseata.

"DON'T BREAK THE OATH" - MERCYFUL FATE (RoadRunner). Metal-satânico-progressivo de arrepiar os cabelos no segundo disco do grupo liderado pelo performático King Diamond. A dangerous meeting, Welcome princess of hell, Come to the sabbath e a quilométrica The oath são alguns dos destaques. Depois disso, King Diamond passaria a se dedicar ao grupo que leva seu nome. Ouça e durma com as luzes do quarto acesas.

"SWOON" - PREFAB SPROUT (Kitchenware). A estreia do grupo de Paddy McAllon, um ano antes do hit básico When love breaks down e do disco Steve McQueen. No primeiro disco, o Prefab Sprout era bem mais rascunhado, dado a delírios cabeça (boa parte do disco é tomada por temas intrincados de jazz-rock-pop) e a vocais um tanto insanos. Cue fanfareGreen Isaac e a quase bossa Cruel são algumas das melhores.

"GIVE MY REGARDS TO BROAD STREET" - PAUL MCCARTNEY (Parlophone). Divide opiniões. O disco do hit No more lonely nights é tido por alguns fãs como o projeto mais inútil no qual Paul McCartney se meteu. É a trilha do filme Give my regards to Broad Street, dirigido por Peter Webb, e que satisfazia o desejo do ex-beatle de voltar a atuar, como fez nos tempos de sua ex-banda. O longa foi um baita fracasso, mas sobrou a trilha, adorada por muitos. Foi produzida por George Martin e, além do single inédito, é repleta de regravações dos Beatles e da própria carreira solo de Paul.

"SPARKLE IN THE RAIN" - SIMPLE MINDS (Virgin). Trazendo Up on the catwalk e Waterfront, foi o disco que inscreveu, pelo menos por alguns anos, o Simple Minds no universo da música pop e no inconsciente coletivo roqueiro. Para vários fãs antigos, ficou um gosto amargo ao verificar que o grupo seguia uma trilha "rock arena" que já tinha dado sucesso ao U2 - e anos depois lançaria as bases para o Coldplay.

"SHOUT" - DEVO (Warner). O synth pop estava na crista da onda quando o Devo decidiu gravar seu quarto disco, do começo ao fim, usando apenas o sintetizador Fairlight CMI. O lado irônico do grupo venceu a corrida - o álbum inteiro parecia uma grande paródia do pop sintetizado, na qual cabiam de canções próprias como Here to go até a releitura de Are you experienced?, de Jimi Hendrix. O resultado ruim fez cravar a dispensa do Devo pela Warner.

"LET IT BE" - REPLACEMENTS (Twin Tone). Ligados ao hardcore e ao punk, o trio americano Replacements se viu pela primeira vez lidando com melodias mais pop e acessíveis, num disco que costuma ser associado ao pós-punk. Costuma ser colocado ao lado de Murmur (1983), do R.E.M, como disco-base do rock alternativo americano dos anos 80. E, por caso, Peter Buck, guitarrista da banda, faz um solo de guitarra em I will dare.

"WHOSE SIDE ARE YOU ON" - MATT BIANCO (Warner). Esse trio britânico que tinha em sua formação uma cantora de nome bem complicado (a polonesa Basia Trzetrzelewska, que depois iniciou carreira solo) trafegava na mesma linha de pop adulto comum lá por 1983-1984 (Aztec Camera, Prefab Sprout) mas trazendo um acento latino-bossa nova que marcou época. A faixa-título toca até hoje em algumas rádios


"RATTLESNAKES" - LLOYD COLE & THE COMMOTIONS (Polydor). Apenas uma lembrança de uma época em que o pop-rock não tinha necessidade alguma de parecer descolado e antenado, como se tivesse sido feito apenas para o consumo de designers e antecipadores de tendências em geral. Unindo o melhor de David Bowie, Roxy Music, Bob Dylan e soul music, o britânico Lloyd fez muita gente sonhar ao som de músicas como Perfect skin e Are you ready to be heartbroken?.

"DOUBLE NICKELS ON THE DIME" - MINUTEMEN (SST). O terceiro (e duplo) disco do grupo americano fazia seu punk de-protesto-e-de-canções-curtais visitar estilos como jazz e country, e cair dentro de experimentalismos musicais. Trazia releituras, irônicas ou não, de Van Halen, Creedence Clearwater Revival e Steely Dan, parceria com Henry Rollins (Storm in my house) e o inconformismo pop de Protest song for Michael Jackson to sing.

"CENAS DO PRÓXIMO CAPÍTULO" - BELCHIOR (Paraíso/Continental). Recém-saído da Warner, Belchior toma as rédeas de seu próprio trabalho ao lado de amigos como o compositor e advogado Jorge Mello. Abre com Raul Seixas (Ouro de tolo), fecha com Luiz Gonzaga (Forró no escuro) e recheia com o experimentalismo rock de Ploft, Onde jaz meu coração, Beijo molhado e Rock romance de um robô goliardo.

"THE LAST IN LINE" - DIO (Vertigo). Quarentão e em plena forma, o baixinho Ronnie James Dio punha nas lojas o segundo disco da banda que levava seu nome. The last in line, We rock e Evil eyes marcaram época.

"LOVE AT FIRST STING" - SCORPIONS (Mercury). O disco que trouxe a banda alemã ao Rock In Rio original, de 1985, e o marco pop da carreira do grupo, com hits como Rock you like a hurricane, Bad boys running wild e, oh Deus, Still loving you. Para o bem ou para o mal, o disco que fez a banda conquistar mais e mais fãs, de todas as idades.

"DEEP PURPLE" - PERFECT STRANGERS (Polydor). De volta após nove anos e com Ian Gillan (que andou pelo Black Sabbath um ano antes e deixou lá um disco, o bom Born again) no vocal, o Deep Purple aprontou uma bela surpresa para seus fãs, com um disco corretinho, bacana e pesado. E a faixa-título ainda dava uma bela chupada em Kashmir, dos rivais Led Zeppelin,

"GAGABIRÔ" - JOÃO BOSCO (Barclay). Tem Papel machê, que virou tema de novela, canção de show de voz e violão e de rodinha de fogueira emepebística - e praticamente ofuscou o álbum. Mas é também o disco de grandes sons como Bate um balaio ou Rockson do pandeiro, Pret-à-porter de Tafetá, Ima dos ais, O retorno de Jedai e outras músicas com ginga até nos títulos - Aldir Blanc ainda escreve boa parte das letras. Tem também uma inusitada parceria com Belchior, Senhora dos Amazonas.

"SHE'S SO UNUSUAL" - CINDY LAUPER (Portrait). Na época, críticos vislumbravam muitos anos de carreira para a pós-hippie Cindy e pouco tempo de vida útil para a devassa Madonna. Não foi bem isso que aconteceu, como é público e notório. Cindy, enfim, está aí até hoje, mas só chegou de verdade à perfeição pop em seu álbum de estreia, que mais parece uma coletânea. São sete entre dez hits, trazendo desde a ode à masturbação She bop até aquelas mesmas que você conhece: Girls just wanna to have fun e Time after time.


"BURACO NEGRO" - ERASMO CARLOS (Polydor). Pronto: Erasmão era parte do rock brasileiro dos anos 80, também. Trazendo Liminha (baixo) e Marcelo Sussekind (guitarra), entre outros músicos, marcou época com rocks e baladas como Esse imenso fliperama, Turma da Tijuca e Indigo Blue (de Gilberto Gil), deixou vir as criancinhas com Sementes do amanhã (Gonzaguinha) e deu o que falar com a pilantragem Close.

"AGE OF CONSENT" - BRONSKI BEAT (London). Synthpop de altíssima qualidade e teor político fortíssimo. O grupo de Steve Bronski, Larry Steinbachek and Jimmy Somerville falava de homofobia, amor para ambos os sexos, relacionamentos GLBT, questionamentos bíblicos e ainda punha lenha na fogueira reclamando da "idade consentida" para relacionamentos  gays (a homossexualidade era considerada um crime na Inglaterra até 1967).

"E A VIDA CONTINUA" - RITCHIE (Epic/CBS). Tinha que continuar. Após o sucesso de Voo de coração (1983) e de Menina veneno, conseguir vender as mesmas 700 mil cópias da estreia seria uma missão quase impossível para o inglês naturalizado brasileiro. Não deu, mas é o disco de Mulher invisível, da tecno-rumbinha Só pra o vento, de Bad boy (parceria de Ritchie com Lobão, que tocou no álbum) e da bossinha Gisella. Muito agradável de se ouvir,

"COVER" - TOM VERLAINE (Virgin). Para muitos, o melhor disco solo do ex-cantor e guitarrista do Television, que negava o punk (ele até hoje detesta o rótulo) indo do rock básico ao pop sintetizado da época.

"NO REMORSE" - MOTÖRHEAD (Bronze). Após milhares de mudanças na formação e turnês concorridas e tumultuadas, o grupo de Lemmy Kilmister encerrava seu contrato com o selo Bronze com uma coletânea dupla, lançada à revelia. Entre hits, inclui lados B como Too late, too late, e seis inéditas, incluída após muita insistência da parte do grupo.

"SONHO REAL" - LÔ BORGES (Barclay). Lançador bissexto de discos na época, Lô deixava a EMI por uns tempos e lançava seu único álbum pela Barclay, quase todo composto ao lado do irmão Marcio Borges e de Murilo Antunes e Ronaldo Bastos. Sonho real, a faixa-título, foi um dos destaques,

"TUBARÕES VOADORES" - ARRIGO BARNABÉ (Barclay). Sangue e porrada impressos em vinil e em quadrinhos - o encarte trazia a história Tubarões voadores, escrita e desenhada por Luis Gê. Atenderam o chamado da vanguarda paulista pop Rita Lee (aparição em Kid Supérfluo, consumidor implacável), Paulinho da Viola (voz no samba A Europa curvou-se ante o Brasil e parceria em Crotalus terrificus), Roberto Riberti (parceria em Mística) e Eduardo Gudin (em Lenda).

"BREAK!" - BLACK JUNIORS (Young/RGE). O hit Mas que linda estás marcou a infância e adolescência de vários rappers - e chegou às lojas num reposicionamento dos produtos black no mercado, tanto aqui quanto fora do Brasil. Formado por quatro adolescentes paulistas que trabalhavam como feirantes, o Black Juniors tinha Mister Sam (criador de Gretchen) como mentor e produtor, e gravou um LP e alguns compactos. Anunciaram uma volta em 2013.

"EDEN" - EVERYTHING BUT THE GIRL (Blanco y Negro). E o pop se sofisticou mesmo em 1984 - Aztec Camera, Matt Bianco, Style Council e vários outros atenderam ao chamado, e um dos nomes que mais fez sucesso no período foi o grupo liderado por Tracey Thorn, com suas canções acessíveis e elaboradas, repleta de influências de bossa nova. Em seu debute, emplacavam faixas como Each and every one.

"ALL OVER THE PLACE" - BANGLES (Columbia). Pouco antes do estouro com Walk like an egyptian, as meninas americanas eram um tantinho mais roqueiras e menos dadas a empastelar o som com teclados. Em seu primeiro disco, emplacavam numa boa Hero takes a fall, More than meets the eye e duas covers, Going down to Liverpool (de Katrina & The Waves) e Live (Emmit Rhodes).

"BON JOVI" - BON JOVI (Mercury). Começou aí. Ou até antes, dada a determinação do roqueiro ítalo-americano Jon Bongiovi (ou Bon Jovi, como passou a se denominar depois), que, poucos anos antes do debute, montava e desmontava bandas, gravava jingles e aceitava qualquer tipo de serviço no estúdio do primão Tony Bongiovi, o afamado Power Station. O grande hit foi Runaway, mas ainda tinha She don't know me, Roulette, Burning for love e outras que merecem ser ouvidas. E o melhor viria depois.

"STONEAGE ROMEOS" - HOODOO GURUS (Big Time). Vindos da cena punk australiana, os Gurus aprimoraram seu gosto por canções um tanto bipolares - os álbuns misturavam temas ensolarados (que foram dando a cara pública do grupo) e coisas meio sinistras, tudo quase sempre com letras críticas. Um som que passou a se chamar surf music e não fez adeptos apenas entre os surfistas. Aqui, os destaques são Leilani, Zanzibar, Tojo e I want you back.


"LUCAS" - MARCO ANTONIO ARAÚJO (Strawberry Fields). Egresso da mesma turma que deu origem ao Som Imaginário (Poison, parceria sua com Zé Rodrix, foi gravada pelo grupo em 1970) o mineiro Marco Antonio aprimorava seu som progressivo e meditativo em seu quarto disco, que trazia os 16 minutos de Lembranças ocupando todo o lado A, mais LucasCaipira e a homenagem Para Jimmy Page. Marco morreu de aneurisma cerebral em 1986.

"VENGEANCE" - NEW MODEL ARMY (Abstract). A mescla de punk, heavy metal (o Sepultura sempre gostou) e folk malcriado do grupo britânico rendeu um hit que você com certeza conhece, 51st state - que não está neste disco, sua estreia. Aqui você ouve outras canções tão ferozes quanto essa, incluindo os protestos de Christian militia, Vengeance e Small town England. Bom de recordar.

"THE PROS AND CONS OF HITCH-HIKING" - ROGER WATERS (Columbia). O primeiro disco solo de Roger Waters - uma viagem interessante sobre os descaminhos de um homem de meia-idade que faz uma viagem de carro - quase foi um álbum do Pink Floyd. O vocalista mostrou, em 1977, o conceito do disco para seus colegas e todos preferiram se concentrar no álbum que se tornaria The wall (1979). Para muitos, a única coisa realmente boa que Roger fez sem recorrer ao nome de seu ex-grupo.

"THE RED HOT CHILI PEPPERS" - THE RED HOT CHILI PEPPERS (EMI). Bem antes de se tornarem modelos de vida rocker e desencapamento total para uma série de grupos novos, os RHCP eram uma banda estranha, com uma cara meio entre o suíngue do funk e o não-suíngue do pós-punk, produzidos por um cara, numa análise futura, nada tem a ver com o som deles (Andy Gill, da banda punk engajada Gang Of Four). Mas já tinha pérolas lá, como True men don't kill coyotes, Get up and jump e Out in L.A.

BÔNUS


"LEGIÃO URBANA" - LEGIÃO URBANA (EMI). Lançado quase secretamente em 2 de janeiro de 1985, o primeiro álbum da banda brasiliense vinha com o ano "1984" impresso no selo original - a EMI dos anos 70 e 80 privilegiava o período de gravação e mixagem para datar seus produtos. De Será a Por enquanto, passando por SoldadosGeração Coca Cola e Petróleo do futuro, uma história que você já conhece de trás para frente, claro.


TODAS AS LISTAS DE QUARENTA:

- quarenta discos de 1974 parte um dois
- quarenta micromúsicas
- quarenta momentos em que a macumba virou pop
- quarenta músicas que você tem que ouvir parte um e dois
- quarenta melhores momentos de Hermes & Renato
- quarenta fatos sobre o Abba
- quarenta discos de 1984 parte um dois
- quarenta fatos sobre o Menudo.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

TRANSCARIOCA

Matéria que eu e a lenda viva Pedro Landim fizemos sobre o roteiro cultural e gastronômico que se criou em volta da Transcarioca, aqui no Rio.

Foi capa e página central (não achei o PDF desta página central) do O Dia há alguns meses.



RT TRANSCARIOCA COMEÇA A FUNCIONAR COM UMA ROTA CHEIA DE ATRAÇÕES
Um roteiro de diversão em 39 quilômetros visita ritmos como rock, funk e charme, além de teatros, lonas, shoppings e parques, com direito a petiscos nos melhores botecos do Rio
Texto e reportagem de Pedro Landim e Ricardo Schott
Publicado por O Dia em 1º de junho de 2014

Vai partir o expresso cultural, e pouco mais de meia hora separa a música clássica da Cidade das Artes, no Terminal Alvorada, do samba de raiz no Cacique de Ramos, homenageado em nome de estação. No rastro do BRT Transcarioca, um roteiro de diversão em 39 quilômetros visita ritmos como rock, funk e charme, além de teatros, lonas, shoppings e parques, com direito a petiscos nos melhores botecos do Rio. O corredor viário que começa amanhã a funcionar — e terá seu trajeto completo até o fim da semana — aproxima os artistas da cidade e exalta a cultura suburbana.

“É como no samba que fiz com o Arlindo Cruz: ‘Em cada esquina um pagode, um bar’. Madureira é um bairro boêmio e cultural, com duas escolas de samba. Uma obra desse porte vai animar, trazer o pessoal”, opina o sambista Mauro Diniz, que cresceu na Portela. Filho do baluarte Monarco, Mauro mora na Barra e diz que espera reduzir o sofrimento em todas as muitas vezes que precisa ir ao Aeroporto Internacional, no trajeto que é o mesmo da nova estrada.

E a cantora Mart’nália, que circula por todas as regiões do Rio e na sexta-feira gravou seu DVD no Imperator — a supercasa de shows do Méier, acessível através de linhas alimentadoras do BRT —, comemora a possibilidade maior de locomoção e a promessa de trânsito desafogado. “Todo mundo no Rio gosta de ficar no seu próprio lugar, e agora, com esse intercâmbio, isso pode mudar. A coisa fica mais democrática, mais misturada, de acordo com o momento em que vivemos”, diz a cantora.

Se na canção Pé do meu samba, que deu título a CD de Mart’nália, a Festa da Penha está citada, o bairro da Zona Norte poderá ser revitalizado com atrações à beira do asfalto na Transcarioca, como o tradicional Parque Shanghai e brinquedos como a montanha-russa e o espelho mágico. Tudo aos pés da Igreja da Penha, de tantas orações e promessas.

Seguindo a Avenida Brás de Pina, cortada pela via expressa, fica ali perto o bar Original do Brás, bicampeão carioca do concurso Comida di Buteco e autor do oportuno petisco Rolê pelo Subúrbio: bife rolê com molho de cerveja escura em cestinha crocante de fubá.

“O pessoal freta van para vir para cá de vários lugares. Com o ônibus especial partindo da Barra, vai melhorar para todo mundo”, afirma Zé Carlos Garcia, dono do botequim.

Regiões importantes na cultura popular, Madureira e Oswaldo Cruz brilham no percurso com o Viaduto Negrão de Lima, a ‘capital’ dos bailes de charme, a Feira das Yabás — atração do próximo domingo na Praça Paulo da Portela — e as quadras de Império Serrano e Portela, onde, no sábado, vai rolar feijoada com o grupo Sururu na Roda. A Estação Madureira do BRT, por sinal, ganhou o nome de Manacéia (1921-1995), compositor da Velha Guarda da escola.

Principal ponto comercial da região, o Mercadão de Madureira vive dias em que Copa do Mundo e festa junina se misturam nas quase 600 lojas, por onde passam cerca de 80 mil pessoas por dia. A Transcarioca está na boca de lojistas e frequentadores, que esperam ver o trânsito fluindo na região.

Como o casal formado pelo funcionário público Claudio Rampazio, 51, e a militar Angélica, 50, moradores da Praça Seca que deverão encurtar pela metade o caminho para o Mercadão. “Adoramos o Mercadão, mas o trajeto é complicado, e muito difícil para estacionar. O objetivo agora é vir mais aqui”, disse Angélica, buscando artigos de enxoval para uma sobrinha.

A lista de artistas homenageados pela obra passa pelo Mergulhão Clara Nunes, em Campinho, o Terminal Aroldo Melodia, que festeja o bamba da União da Ilha, no Fundão, e viadutos como Silas de Oliveira, em Madureira, e Renatinho Partideiro, em Ramos.

A ideia de aplaudir Renatinho, o melhor versador do Cacique, foi de Bira Presidente, comandante do bloco e da roda que lota a cada domingo a quadra histórica que empresta seu nome à estação de Olaria. “Levamos quatro mil pessoas para lá no fim de semana, somos tombados como patrimônio e agora viramos estação”, comemora Bira. O Trem do Samba ficou pequeno. Vem aí o BRT dos ritmos de uma cidade inteira.

CAMINHOS ALTERNATIVOS  Dailson Sabino, o DJ Terror, diz que ainda não pensou no que a Transcarioca vai trazer de bom para seu bar de rock em Brás de Pina, o Subúrbio Alternativo. Mas acha que vem coisa boa aí. "A galera que mora em Jacarepaguá vem bastante aqui e vai passar a vir mais, por exemplo. Muita gente deixa de vir porque não tem transporte e vai passar a frequentar mais", diz Terror. O Subúrbio funciona de quinta a domingo e traz montes de bandas autorais e de cover, de rock e heavy metal. No dia 7, o Black Dog, celebrado cover do Led Zeppelin, está lá. É na Rua Iguaeriba 155, Brás de Pina (7812-6748).

No entorno, tem mais rock. Em Jacarepaguá, o Revolution Pub funciona de terça a quinta, de 18h à 1h e, de sexta a domingo, de 18h às 2h, com shows no fim de semana. É na Rua Comendante Rubens Silva 448, Freguesia (3592-5001). Ali por perto, um evento que promete volta triunfal é o CDD Rock Baile, programando shows de bandas de punk, hardcore, heavy metal e vários outros estilos roqueiros na Cidade de Deus, no Clube Coroado de Jacarepaguá, na Rua da Luz s/nº. Parodiando o Rock In Rio, o CDD criou em uma de suas edições os palcos "mundo" e "imundo". "Vamos só esperar a Copa passar", diz o produtor Murilo Freitas.

"AINDA É CEDO", DA LEGIÃO URBANA COM... THE CARTOONS?

Peraí, o que é isso? Ainda é cedo, da Legião Urbana, em versão diferente? Como assim? Ouça aí.

O vídeo do link acima surgiu nas timelines de alguns amigos no fim de semana e traz a versão do grupo escocês The Cartoons para a canção Love is the drug, do Roxy Music, lançada pela gravadora Stiletto em 1983. E não é que a introdução é bem parecida com a do hit da Legião, gravado em seu primeiro disco?

Será que Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá ouviram esse disco e se deixaram inspirar por ele para arranjar a música? Sendo que, na boa, isso é que estar  atualizado: Ainda é cedo foi composta por Renato Russo, Dado Villa Lobos, Marcelo Bonfá e Ico Ouro Preto justamente em 1983. A versão original da Legião, gravada em demo naquele mesmo ano, tinha as mesmas linhas de baixo e um pouco mais de barulho. Ouça aqui

The Cartoons lançou aparentemente, apenas dois singles pela Stiletto, sem o êxito imaginado. O primeiro tinha Gee George (não achei essa música no Youtube) e a versão de Love is the drug. O outro vídeo do grupo disponível no Youtube tem Once the victor - música de som pop-chique realmente comparável ao Roxy Music. Fora isso quase nenhuma info sobre o grupo, que era formado por Michael Price (bateria), Brian McCann (vocais) e Robert Bookless (baixo), e trazia "o infame" James King na guitarra fantasma e na produção.

Quem quiser saber de mais detalhes sobre a banda, aparentemente é só bater um papo com o próprio Robert Bookless, que disponibilizou os singles de seu ex-grupo no YouTube e pode ser achado pelo sistema de mensagens do portal.

domingo, 28 de setembro de 2014

BOTIKA

Um ano após briga com o prefeito do Rio Eduardo Paes, Botika lança CD. Bati um papo com ele para O Dia.



UM DISCO PARA ESFRIAR A CABEÇA
Após ganhar as manchetes com briga com o prefeito, cantor Botika lança o primeiro CD
Publicado em O Dia em 25/09/2014 

O cantor Botika chegou às páginas dos jornais no ano passado por uma situação inusitada: foi agredido pelo prefeito Eduardo Paes após tê-lo ofendido na porta do restaurante Yumê, no Horto. “Hoje isso não tem consequência alguma e passo pelos problemas que todo mundo passa”, conta ele, que volta a ser notícia com o lançamento do primeiro disco solo, Picolé da cabeça.

Mas ele admite que não se ilude muito com o disquinho prateado. “Hoje CD é igual a frisbee (discos de brinquedo para jogar na praia), né? Gostei de ter lançado e pretendo lançar outros CDs, porque é legal ter um encarte. Mas eu mesmo não sou um comprador. Hoje penso em ter um toca-discos em casa para comprar vinil, que vejo como um objeto de arte”, diz o cantor, que mostra o repertório do álbum amanhã no evento A.Nota, do Oi Futuro de Ipanema.

Participante de vários projetos coletivos, Botika compôs o material do primeiro disco praticamente sozinho — só Mundo de Marlboro, feita com a ex-mulher Carolina Biachi, e Pipoca, feita em cima de poema de Bruna Beber, são parcerias. Produzidas por Bernardo Palmeira, as dez músicas quase ganharam produção de Otto.

“Não rolou, por conflito de agendas, mas ele foi um cara que me incentivou muito, que me deu pilha de experimentar gravar solo”, conta Botika, cheio de rascunhos de músicas guardados em casa. “Passei um bom tempo usando um gravador de cassete mesmo.” 

No show, Botika mantém o aspecto coletivo, convidando os amigos Pedro Rocha, Amora Pêra, Qinho e Nana Carneiro da Cunha para subir ao palco. É o mesmo clima do projeto multimídia Aplique de carne, ao qual vem se dedicando, e que surgiu de um bate-papo entre ele e os amigos Alexandre Vogler, Guga Ferraz e Paulo Tiefenthaler (do programa Larica total, do Canal Brasil). “É o trabalho mais louco no qual eu já entrei. Surgiu de uma conversa de bar em que falávamos de uma mulher cujos grandes lábios não paravam de crescer”, brinca.

sábado, 27 de setembro de 2014

SAULO E XANDDY (HARMONIA DO SAMBA)

Fica o registro do papo que bati com Xanddy, do Harmonia do Samba, e com Saulo (ex-Banda Eva), sobre o show deles na semana passada no Barra Music.

Saiu no O Dia.

BARRA MUSIC RECEBE SUCESSOS DO AXÉ DOS ANOS 90
Saulo e Harmonia do Samba são atrações do evento Rio Axé
Publicado em O Dia em 18/09/2014

Com exceção de poucos e pontuais hits, o axé está fora das paradas de sucesso atuais. A nostalgia do estilo, no entanto, não para de lotar estádios e casas de shows. “O público anda com saudades da música dos anos 90, do axé e do pagode. E, naquela época, as músicas eram melhores mesmo”, aponta Xanddy, vocalista do grupo Harmonia do Samba, de volta ao Rio hoje para o evento Rio Axé, no Barra Music. Saulo, divulgando seu primeiro DVD fora da Banda Eva, Saulo ao vivo, toca na mesma noite, com participação do cantor Tomate. 

O Harmonia completou duas décadas em 2013 com o DVD Harmonia 20 anos e retorna com novas canções como Quebrou a cara e Harmonia Futebol Clube. “O povo adora as atuais, mas quer ouvir Vem neném. E é uma turma nova. Nem sei como eles ficaram conhecendo essas músicas!”, brinca Xanddy, ansioso para conferir Saulo no show. “Eu, ele e Tomate devemos fazer alguma brincadeira juntos. O Tomate é um grande puxador de trio. E é um cara rock’n’roll. Só falta se jogar do palco!”

Novato na carreira solo, Saulo (que dispensou o “Fernandes” do nome artístico), vem com as músicas novas, mas também se diz um cara “da nostalgia”. “No meu show tem muitas músicas históricas do axé, coisas do Olodum. Tem uma falta de cuidado com o texto que depois pegou algumas músicas novas. O pessoal passou a se ligar muito no comercial”, diz ele, que, como ex-cantor da Banda Eva, quebrou a hegemonia de vocalistas mulheres no grupo. “Foi lá que eu aprendi a puxar Carnaval, a ter liderança sobre um trio. Imagina fazer isso durante sete horas seguidas?”

O Harmonia se apresenta bastante no Rio em projetos como A melhor segunda-feira do mundo. E continua viajando bastante pelo país. “Hoje todos somos pais de família e as prioridades mudaram bastante”, conta Xanddy, casado há treze anos com Carla Perez. “Nossos filhos já nasceram debaixo desse fogo cruzado e já se habituaram a isso. A gente tenta se organizar . Depois do Carnaval, sempre tiro férias, por exemplo.”

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

PITTY EM "CRONOGRAFIA"

Entrevista com Pitty sobre Cronografia: Uma trajetória em fotos, livro de imagens (e texto) sobre toda a sua carreira, que ela acaba de lançar. Saiu em O Dia.



CRONOGRAFIA CONTA A HISTÓRIA DE PITTY EM LIVRO
Livro traz imagens de infância e de antigas bandas da cantora
Publicado em O Dia em 25 de setembro de 2014

Pitty já havia tido a ideia de contar sua história em fotos — e em texto, escrito por ela própria — há seis anos. “Só tinha visto livros como esses feitos por bandas gringas, e achava que era uma linguagem diferente”, lembra ela, lançando Cronografia: Uma trajetória em fotos (Ed. Ideal, 164 págs., R$ 64,90). Além de imagens de bastidores feitas após 2003, quando começou sua carreira solo, há imagens de infância e de suas antigas bandas da Bahia, Shes e Inkoma, ambas dos anos 90.

A rockstar Pitty já teve problemas de adaptação no colégio (quando mudou-se de Salvador para Porto Seguro no meio do ano letivo e teve dificuldades para se enturmar), fez curso de modelo (uma foto do livro entrega) e, enquanto fazia hardcore com o Inkoma, tocava bateria na Shes, só de mulheres. “Tínhamos que montar os shows, colar os cartazes, fazer capinha de xerox para as fitas”, lembra. A cantora é amiga dos ex-colegas das duas bandas e recorreu a eles para conseguir material para o livro. “Algumas fotos estavam comigo (ela mora em São Paulo desde a década passada), mas falei com eles e com fotógrafos da época”, conta Pitty. 

Em Cronografia ela lembra também que cantou pela primeira vez na infância, num show de calouros. E que na adolescência, gravava fitas dos amigos (de bandas como AC/DC e Guns N’ Roses) sem nem saber como eram as caras dos músicos. “A imagem só veio depois, com a MTV (em 1990). Mas eu nem tinha TV a cabo, nem internet, nem revistas. Só fui saber como era o Angus Young (guitarrista do AC/DC) muito tempo depois”, conta no livro.

O material recente inclui fotos tanto de sua carreira solo quanto do Agridoce (projeto seu com o guitarrista Martin). Em algumas imagens, aparece seu ex-baixista Joe, que saiu brigado da sua banda, em meio a um processo.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

JULIO IGLESIAS

Julio Iglesias liga para o meu telefone e já vai falando: "Aloooou, Ricardo! Como estás? Ricardo... Xót, é isso? De que país é seu sobrenome?". Respondo que é da Alemanha e ele diz que ama a Alemanha. E me pergunta minha idade (quarenta anos - 39, na verdade, mas é uma questão de meses). "Ah, ótimo! Quando você era pequeno, eu já cantava no seu país, sabia? Mande um beijo para sua mãe, ela me adora. As mães me adoram!"

Isso é Julio Iglesias, em bom portunhol, em uma conversa comigo para O Dia. O maior cantor romântico da história da música mundial conquistou mais de 3 mil mulheres (ele nega), vendeu mais de 300 milhões de discos e, apesar de alegar ser esta sua última turnê, já se despediu outras vezes e desistiu. Após os shows no Brasil, ainda prossegue para mais uma bateria de shows na Austrália e um especial de TV nos EUA. "Como parar se não me deixam parar?", indaga.

Leia o texto aí. Jornalismo não é só isso - tem coisas mais complicadas e difíceis - mas é o tipo da coisa que, no meio da tempestade, faz você respirar aliviado.



JULIO IGLESIAS, O ETERNO APAIXONADO
Última tour do espanhol chega ao Rio
Publicado em O Dia 25 de setembro de 2014

Com mais de 300 milhões de discos vendidos, o espanhol Julio Iglesias, que canta no Citibank Hall amanhã (em meio à sua alegada turnê de despedida), é, talvez, o maior cantor romântico de todos os tempos. E, conta-se, já teria conquistado mais de três mil mulheres — número negado por ele.

“Não, não, nem acho que ‘conquista’ seja uma palavra bonita. O mais bonito do amor é o ato de amar. Amei muito e aprendi do amor a viver mais a vida”, derrama-se romanticamente o astro em conversa por telefone com O DIA, após inverter o papel e fazer várias perguntas ao repórter. “Quantos anos você tem? De que país vem seu sobrenome? Você é casado e não tem filhos? Precisa praticar mais, hein?”, zoa, tão simples quanto um popstar pode ser.

Julio, aliás, convidou a novinha Paula Fernandes para dividir o palco com ele amanhã no Citibank Hall. “Ela tem uma voz maravilhosa e é uma mulher muito bonita, por dentro e por fora”, elogia, sem perder tempo. Mas como assim, Julio? Há algo mais entre vocês além do encontro musical? “Ah, não, ela é como minha filha. Não vou namorá-la”, brinca o pai de oito filhos — dentre eles, os cantores Enrique Iglesias e Julio Iglesias Jr.

O cantor acaba de passar por Brasília e São Paulo (no último fim de semana, com participação de Luiza Possi). Após o Rio, vai para Balneário Camboriú (sábado, 27 de setembro), Curitiba (1 de outubro e 8 de outubro), Porto Alegre (3 de outubro), Passo Fundo (4 de outubro),Ribeirão Preto (11 de outubro), Santos (16 de outubro) e Jaguariúna (18 de outubro). No roteiro dos shows, sucessos como Devaneios, Coração apaixonado, Manuela e Crazy (da novela A viagem, atualmente sendo reprisada pelo Canal Viva).

Em plena forma aos 71 anos — o que atribui ao fato de nadar e pegar sol todos os dias — ele não sente a idade. “Hoje canto bem melhor. Sou um dos crooners que cantam ‘para dentro’, como Nat King Cole, Elvis Presley, Roberto Carlos, Frank Sinatra. É como encontrar a alma da música”, diz.

Julio anuncia o fim, mas sua agenda não para — e vale lembrar que ele já foi visto se despedindo em outras ocasiões. “Ainda vou fazer 14 concertos na Austrália e um especial para a TV americana. Como parar se as pessoas não me deixam parar?”, graceja o cantor, que, na juventude, foi jogador de futebol, e de seu time do coração, o Real Madrid (parou após um grave acidente de automóvel). “Hoje jogo com a cabeça, não com os pés. Uma vez, conheci um jogador que tinha o meu nome, em minha homenagem. Ele se chamava Julio Iglesias, acredita? Era um goleiro muito bom.”

"ISOLADOS", COM BRUNO GAGLIASSO

Minha resenha do filme Isolados, com Bruno Gagliasso e Regiane Alves. Saiu semana passada no Guia Show & Lazer, do O Dia. Tinha esquecido de postar.

É um thriller psicológico brasileiro... Não, volte aqui! Não fuja!




BEBEL GILBERTO

Um papo rápido com Bebel Gilberto, que faz show amanhã aqui no Rio, após um ano de ausência da cidade.

Tô longe de ser fã dela, mas particularmente curti o disco novo,
Tudo. Leiam aí.


APÓS AUSÊNCIA DE UM ANO, BEBEL GILBERTO VOLTA AO RIO
Cantora lança Tudo no Theatro Net
Publicado em O Dia em 21 de setembro de 2014

De volta ao Brasil para um show nesta quarta no Theatro Net (onde lança seu novo disco, Tudo), Bebel Gilberto homenageou o país e o Rio de Janeiro no DVD Live in Rio, lançado no ano passado. Mas tem tido pouco tempo para voltar — estava sem vir ao Brasil desde setembro do ano passado. Não chegou nem a acompanhar os preparos do musical Cazuza — Pro dia nascer feliz, que conta a vida do cantor carioca (1958-1990) e inclui como personagens todos os seus grandes amigos — inclusive ela própria.

“Estava fazendo o Tudo justamente na época em que a peça começou. Não acompanhei nada”, conta, em conversa com O DIA, de Nova York. Ao contrário do que se afirma, ela não pediu que fossem feitas modificações na personagem Bebel. “Não aconteceu nada disso, nem tenho a menor ideia do que foi o espetáculo. Podem ter dito isso, mas enfim, quem conta um conto, aumenta um ponto’.”

Em Tudo, ela diz pela primeira vez ter conseguido aproveitar tudo o que vem aprendendo há anos em estúdio com seus pais (João Gilberto e Miúcha).

“Lembro do meu pai gravando o disco da capa branca (João Gilberto, de 1973), de como era o clima do estúdio”, recorda ela. “Acho até que sou uma ‘nova velha’ por causa disso. Quando comecei a gravar, fazia meus discos, às vezes, em um ano. Tudo foi consolidado em praticamente um mês em Los Angeles. Tive que ser extremamente organizada e concentrada para não deixar o tempo atropelar a gravação.”

O fato de Tudo ser um disco que fala basicamente de sonhos acabou levando Bebel a recordar uma música dos primeiros anos de carreira de seu pai, Vivo sonhando (Tom Jobim). “Foi uma sugestão do DJ Zé Pedro. Adorava a versão da Astrud Gilberto (cantora e primeira mulher do seu pai) para a música. Ela cantava essa canção em inglês e em português.”

Tudo tem parcerias de Bebel com Pedro Baby (Areia), Adriana Calcanhotto (Tudo), o percussionista brasileiro radicado em Nova York Mauro Refosco (It's all over now) e, após algumas tentativas, Seu Jorge (em Novas ideias). “Nos conhecemos quando eu ainda estava no Brasil e sempre tentávamos fazer algo juntos, mas nunca chegava ao fim. Ele estava trabalhando com o Mario Caldato, que é o produtor do meu disco, e sempre ia ao estúdio em que eu estava gravando fazer uma visita”, lembra Bebel.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

PAPO COM ROSS LYNCH (R5)

Entrevista com Ross Lynch, do grupo R5, que toca no Citibank Hall. Curtam aí, fãs da banda (roqueiros, caiam fora daqui!!).

Saiu no jornal
O Dia, onde trabalho.


BANDA R5 MOSTRA SEU POP ADOLESCENTE NO CITIBANK HALL
Grupo se popularizou em séries como Austin & Ally
Publicado em O Dia em 23/09/2014

Quando crianças, os irmãos Riker, Rydel, Rocky e Ross Lynch faziam apresentações para a família na garagem de casa, no Colorado (EUA), cobrando um dólar de entrada. O sonho de infância virou banda de verdade, o R5 — com o acréscimo do amigo Ellington Ratliff. E o grupo toca em São Paulo (4 de outubro) e no Rio (dia 5, no Citibank Hall). 

“Nem foi algo que partiu de influência da nossa família. Gostamos de música desde crianças e fomos atrás”, conta Ross, por telefone, para O DIA, aproveitando para mandar uma mensagem para as fãs brasileiras. “Amamos vocês e mal podemos esperar para nos encontrarmos no show!”

O R5 ficou popular primeiramente pela TV, antes até do nome R5 existir. Os integrantes apareciam em comerciais desde pequenos. Na telinha, também fizeram participações em programas como o show de dança So you think you can dance. Ross, o mais popular do grupo, é o rockstar da sitcom Austin & Ally, do Disney Channel — interpreta Austin, canta o tema de abertura (Can't do it without you) e é envolvido em boatos de namoros com sua colega Laura Marano, a Ally (a dupla sempre desmente tudo).

“É tanto trabalho que não faço muita coisa além de atuar e escrever música, hoje em dia”, diz Ross, ainda espantado com o que alguns fãs são capazes de fazer para atrair a atenção do R5. “Uma vez, estávamos numa autoestrada e o pai de uma fã buzinou e fez gestos para que parássemos para uma foto. Como estávamos indo para um ensaio, fizemos mais gestos para que eles nos seguissem até o estúdio. Tiramos a foto lá!”

O grande hit do grupo, com mais de 12 milhões de views, é (I can’t) Forget about you, mas o repertório do show traz também — em meio aos gritinhos das adolescentes — as músicas do novo EP, Heart made up on you. As preferências musicais dos rapazes (e da garota Rydel), todos entre 18 e 22 anos, incluem artistas da época dos seus pais e avós (Beatles, Elvis Presley, Rolling Stones). Ultimamente, andam ouvindo Prince.

“É o que ouvimos mais. Mas imagino uma coisa bem ligada ao Queen e aos Stones no próximo disco”, anuncia Ross. Queen, por sinal, é influência de dez entre dez das bandas recentes — gente como fun., Muse e vários grupos emo. “Pois é, o Freddie Mercury era um grande vocalista, e ia além da música. Adoramos.”

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

ROLLING STONES - BIOGRAFIA DEFINITIVA

Um papo com Christopher Sandford, que escreveu uma biografia "definitiva" dos Rolling Stones. E que acaba de sair no Brasil pela Record.

OS FORA DA LEI
Biografia esmiuça brigas, deslealdades e abusos de drogas dos Rolling Stones
Publicado em O Dia em 7 de setembro de 2014

Com shows confirmados no Brasil em 2015, os Rolling Stones venceram o tempo, os excessos, os altos e baixos do rock. E também não estão sujeitos às leis deste planeta. Boa parte de The Rolling Stones — A biografia definitiva (Ed. Record, 532 págs., R$ 50), de Christopher Sandford, é tomada por prisões, uso abusivo de drogas, mentiras contadas para policiais e juízes, armas de fogo, amizades com traficantes, traições, deslealdades, cenas de pugilato entre os integrantes e até entre eles e suas mulheres. Uma história de crueldades e pequenos (e grandes) crimes que não interrompeu a trajetória do grupo e a máquina de composição de Mick Jagger (voz) e Keith Richards (guitarra).

“No começo da carreira, os Stones eram focados em vencer, não importava como”, lembra Sandford em entrevista ao DIA. “Em abril de 1963, eles tiraram o pianista Ian Stewart da banda porque ele era comum demais para os padrões deles. E ele era um dos membros fundadores! Ian nunca reclamou disso, só disse que, se visse Andrew Oldham (primeiro empresário do grupo) envolto em chamas, nem sequer faria xixi nele para apagar o incêndio.” 

O autor já havia biografado anteriormente Mick e Keith e conhece bem o lado sombrio do grupo. “Eles fecharam os olhos para as tragédias de vários amigos próximos. Poderiam ter feito mais para ajudar Brian Jones (primeiro guitarrista da banda, morto em 1969 afogado na piscina de casa, após vários problemas com drogas), por exemplo. O saxofonista Bobby Keys, depois de uma turnê lotada de drogas em 1973, foi chutado do grupo com direito a um ‘nunca mais volte aqui!’. Mick Taylor (guitarrista que substituiu Brian) foi destratado e nunca teve reconhecimento. Pode ser uma experiência trágica fazer parte do círculo dos Stones, disso não há dúvidas.” 

No livro, Keith Richards surge ameaçando pessoas com armas, intimidando jornalistas e agredindo fisicamente o guitarrista Ron Wood. O clima pesado atingiu também familiares dos músicos. Christopher revela que, durante os anos 80, o irmão de Mick, Chris Jagger, após tentar as carreiras de ator e cantor sem sucesso, chegou a virar motorista de táxi — e falava para todos que sua família “não tinha a obrigação” de sustentá-lo. 

O problemático Brian Jones vivia nessa dualidade claro-escuro. Christopher fez várias entrevistas com o caseiro do Stone morto, Frank Thorogood, acusado de tê-lo assassinado. E aposta em morte acidental. 

“Brian era um cara polido e educado, mas a fama subiu à sua cabeça de uma forma bem mais negativa. Ele abusou das drogas, do álcool e das outras distrações, e abandonou suas ambições criativas. Dizem que Mick e Keith o proibiram de compor, mas ele nunca o fez de maneira significativa”, conta Sandford.

Ele entrevistou também os pais de Mick Jagger. E a ex-mulher de Keith Richards, Anita Pallenberg, que, dizem os boatos, teve um caso tórrido com Jagger durante as filmagens de Performance (1968), em que ela e Mick atuaram, com direito a muitas cenas de sexo. “E Keith passou uma noite com Marianne Faithfull, então mulher de Jagger, nessa época. Um filme sobre Performance seria mais interessante do que ele próprio”, graceja. Só para registro: após o filme, diz o livro, os dois casais passaram o Natal juntos. 


Sandford, que também biografou o cineasta Roman Polanski, diz ter acompanhado as brincadeiras recentes feitas com Jagger, chamado de pé-frio durante duas Copas do Mundo, já que todas as seleções para as quais torceu foram eliminadas das competições. E revela que o stone está longe de ser fã de futebol. “Ele é apaixonado por críquete. Seu pai me disse que sempre quis que ele fosse jogador profissional de críquete ou, se tudo desse errado, um político. Quem sabe ainda não esteja em tempo, pelo menos para a segunda opção?”, brinca.

QUARENTA DISCOS DE 1984

De 1994 todo mundo já falou.

De 1974, acredito que também - eu mesmo já falei duas vezes, em duas listas diferentes (aqui e aqui).

E 1984? O que teve de bom? Vamos lá?

"THE SMITHS" - THE SMITHS (Rough Trade). A estreia do grupo de Manchester causa polêmica entre fãs até hoje - muitos preferem as BBC Sessions do quarteto, da mesma época. Bobagem diante de canções maravilhosas como Reel around the fountain, What diference does it make?Hand in glove e outras. Gerou também um disco-fantasma, vindo das primeiras produções (depois descartadas) da banda com Troy Tate - e que pode ser ouvido em versões piratas ou aqui.

"OCEAN RAIN" - ECHO & THE BUNNYMEN (Korova). Ian McCulloch, vocalista do grupo de Liverpool, não é um dos sujeitos mais humildes da classe artística - tanto que já afirmou que esse álbum, produzido por eles e por Gil Norton (que anos depois comandaria discos dos Pixies e dos Foo Fighters), era o "melhor disco já feito". Se não é o melhor, está entre eles, e conseguiu sucesso equivalente à dedicação do quarteto. É o álbum de The killing moon, e ainda tem Seven seasSilverMy kingdom e outras belezas.

"KNIFE" - AZTEC CAMERA (Sire). Aquilo que hoje em dia todo fã de Ed Motta já conhece, o tal do AOR ("adult oriented rock", ou "radio"). Mas que em 1984 era só música para todo mundo ouvir e gostar, com  os pés no soul e no rock, sem deixar de lado a nostalgia pelo pop dos anos 60. O grupo, praticamente levado nas costas pelo inglês Roddy Frame, tornou-se conhecido mais pela releitura acústica de Jump, do Van Halen - mas aqui é "apenas" a banda de Still on fireJust like the USA, The backdoor to heaven The birth of the true.

"O PASSO DO LUI" - OS PARALAMAS DO SUCESSO (EMI-Odeon). Selvagem? foi o disco que redefiniu a obra do trio carioca. Mas o segundo álbum do grupo de Herbert, Bi e Barone é o que você vai querer ouvir na hora de recordar os anos 80 ao som de canções memoráveis. E é o disco que verdadeiramente traz lembranças juvenis a quem tinha entre 10 e 20 anos em 1984 - ÓculosMe ligaRomance idealAssaltaram a gramática, está tudo lá.



"TITÃS" - TITÃS (WEA). Não é um disco ruim, como os próprios integrantes da banda já fizeram muita gente acreditar. Não é um discão como o Cabeça dinossauro (1986) mas, que surpresa, parece até bem mais moderninho que o punk dez anos atrasado do terceiro disco. A estreia do (então) octeto paulistano une rock, punk, brega, new wave, guitarras entre jovem guarda, calipso e Mark Knopfler (sim, parece Chimbinha) e tem canções de emocionar, como a oração pop Sonífera ilhaToda corDemais e Querem meu sangue.

"SEU ESPIÃO" - KID ABELHA (Warner). Liminha, Herbert Vianna e Lulu Santos (com guitarra e voz audíveis na faixa-título) deram lá seus auxílios, ok. Mas o Kid Abelha - ainda com Leoni - vinha com uma leva de canções tão perfeita que seu primeiro álbum virou quase uma coletânea. É o disco de Fixação, Como eu quero, Por que não eu?, e do rock adolescente-adulto de Nada tanto assim e Hoje eu não vou.

"RAÇA HUMANA" - GILBERTO GIL (Warner). O mais próximo que Gil chegou de ter "uma fase new wave" (digamos), mas sem largar a mescla de ritmos brasileiros e rock que o consagrou. É o álbum que tem Tempo rei, Pessoa nefasta, Rock do segurança, o funk A mão da limpeza (talvez a melhor música sobre preconceito racial composta no Brasil). Ritchie, que começava a entrar na geladeira da CBS (hoje Sony), ganha dedicatória no encarte e faz vocais petergabriélicos em Tempo rei.

"FOREVER YOUNG" - ALPHAVILLE (Atlantic). Longevidade não é posto: o grupo alemão de rock e synthpop Alphaville formou-se em 1982 e existe até hoje. Mesmo assim, todo mundo só se recorda mesmo é do seu primeiro álbum e da faixa-título - de todo jeito, uma das músicas mais emotivas já construídas em cima de riffs gélidos de teclados. O álbum ainda teve outros singles muito bacanas, como Sounds like a melody e (The) Jet set. Quem lembra?


"POWERSLAVE" - IRON MAIDEN (EMI). Quinto disco do grupo londrino e a consagração de Bruce Dickinson como cantor e homem-de-cena do Iron. Só clássicos, como a faixa-título, Aces high, Flash of the blade (em que o personagem central era "São Jorge ou Davi e sempre matava a besta") e a quilométrica Rime of the ancient mariner. E, só para completar, foi o disco que o trouxe o grupo ao Brasil pela primeira vez, no Rock In Rio original.

"WELCOME TO THE PLEASUREDOME" - FRANKIE GOES TO HOLLYWOOD (ZTT/Island). Você mal deve lembrar, mas esse grupo moderninho dos anos 80 veio de Liverpool, originado de uma certa cena punk que havia lá. De Relax, Two tribes e Power of love, claro, você lembra - tocam até hoje em festas por aí. Todas estão nesse corajoso álbum duplo de estreia.

"RONALDO FOI PRA GUERRA" - LOBÃO & OS RONALDOS (RCA). O retrato de uma época em Corações psicodélicos, Rio do delírio, Ronaldo foi pra guerra e Tô a à toa Tókio, logo após Lobão ter sido colocado e retirado da geladeira pela gravadora - e realizado seu alegado sonho de fazer parte de uma banda. Psicodélico demais para ser "só" rock dos anos 80 e new wave.

"RECKONING" - R.E.M. (I.R.S.). O grupo americano já começava a chamar a atenção a ponto de a gravadora I.R.S. mandar recados para o estúdio avisando que queria um segundo álbum mais "comercial". Antes que algum executivo do selo resolvesse aparecer de surpresa no estúdio, o quarteto decidiu acabar o álbum em tempo recorde. Com músicas como 7 chinese bros e o hit So. Central Rain (I'm sorry) a banda passava no teste do segundo disco.


"THE UNFORGETTABLE FIRE" - U2 (Island). Produzido por Brian Eno, o U2 vinha com disposição para experimentações de estúdio e sonoridades que todo mundo define como "etéreas" e "atmosféricas", em meio a sessões de gravação no quartel-general da chamada new age music, o Windmill Lane Studios, na Irlanda. Tem Pride (In the name of love), Bad e A sort of homecoming.

"AT WAR WITH SATAN" - VENOM (Combat). Você vai se amedrontar com os vinte minutos da faixa título, que conta a história de uma secular batalha entre o céu e o inferno (obviamente vencida pelo lado negro da força). Vai bater cabeça com músicas como Genocide e Cry wolf e dar risada da última música do álbum, a autoexplicativa Aaaaaarrghh. A tentativa do Venom de passar um verniz sério e conceitual em seu black metal fez até a imprensa fora do eixo metálico se interessar pela banda, e lhes abriu novos horizontes. Ouça levando a sério ou não.

"MAIOR ABANDONADO" - BARÃO VERMELHO (Opus Columbia). O rock brasileiro não estava tão atrasado assim. O Barão Vermelho se deixava influenciar pelos veteranos Rolling Stones - mas eram os Stones dos anos 80, mais antenados e coloridos, mesclados ainda com a batida meio reta, meio suingada do The Police. Maior abandonado, a música, tinha o riff fodão que o rock brasileiro necessitava há anos. E rolava o mesmo clima em outras músicas indispensáveis, como Baby suporte, Por que a gente é assim? e Bete balanço.

"VOLUNTÁRIOS DA PÁTRIA" - VOLUNTÁRIOS DA PÁTRIA (Baratos Afins). Um dos primeiros passos do supergrupo formado por vários nomões do rock paulistano (gente como Thomas Pappon, futuro Fellini, e Nasi, futuro Ira!) foi desistir completamente de lançar seu primeiro álbum por uma gravadora. Entre mortos e feridos, gravaram as oito faixas sem perspectiva de lançá-las, até que a loja paulista Baratos Afins decidiu colocar a mescla de punk, pós-punk, socialismo e ironia destrutiva (tem uma música chamada Nazi über alles) do grupo à venda.

"CADÁVER PEGA FOGO DURANTE O VELÓRIO" - FERNANDO PELLON E CONVIDADOS (Vento de Raio). Cercado de amigos como Paulinho Lêmos, Sinval Silva, Cristina Buarque e Rafael Rabello, o compositor e cantor Fernando - hoje geólogo da Petrobras - adiantou a podreira musical de Rogério Skylab em vários anos. E num disco de samba tradicional, preso na censura por um ano e que fala de câncer (Porta afora), suicídio (Com todas as letras), morte nas esquinas (Carne no jantar), dores de amores (Tal como Nazareth), encerrando com um samba-enredo fúnebre (Flores de plástico ao amanhecer). Se você não conhece, conheça já.

"RIDE THE LIGHTINING" - METALLICA (Megaforce). O baterista Lars Ulrich mata dois coelhos com uma só cajadada e sugere ao grupo gravar o segundo álbum na sua terra, a Dinamarca - onde encontrariam estúdios baratos e ele poderia visitar parentes. Foi de lá que saíram clássicos do thrash metal como For whom the bells tolls, Fight fire with fire, Creeping death e belezas como The call of Kthulu e Fade to black.

"METRÔ LINHA 743" - RAUL SEIXAS (Som Livre). Reposicionado no mercado após os dois episódios do infantil Plunct, plact, zuuum, Raul voltou pela gravadora das Organizações Globo com um LP predominantemente acústico, alguns candidatos a hit (a faixa-título, Meu piano, Mas I love you), duas regravações sem graça (Eu sou egoísta e O trem das sete) e, na despedida da ditadura militar, uma gozação antimilitarista, Mamãe eu não queria, imediatamente censurada. Deu errado a ponto de muitos fãs de Raul nem saberem que esse disco existe. E Raul, então em alegado rehab, voltou a beber.

"1984" - VAN HALEN (Warner). O fim de uma era: após conseguir suas maiores vendagens com 1984, o Van Halen ficaria bastante ferido. David Lee Roth saiu do grupo para trilhar uma carreira de cantor de rock farofa que deu meio certo (ok, o cara pôs Steve Vai na mídia e ainda gravou uma versão bacaninha de California girls, dos Beach Boys) e uma trilha paralela de ator definitivamente cagada. Com músicas como Panama, Jump e Hot for teacher, é o disco que muitos fãs de ocasião têm em casa. Hoje David, você deve saber, está de volta ao grupo.


"NEW SENSATIONS" - LOU REED (RCA). A Rolling Stone chegou a dizer que se tratava do melhor disco em que Lou Reed se envolvia desde Loaded (1970), do Velvet Underground. A imagem da capa, com Lou brincando de videogame, demonstra um clima bem mais arejado que o de álbuns anteriores. E só por ter I love you Susanne, é mesmo - mas tem a marginália de My friend George e a gozação de (bom, talvez aquela capa com ele brincando de videogame não seja tão inocente assim...) My red joystick.

"WORD OF MOUTH" - KINKS (Arista). Praticamente uma exclusividade do rock inglês desde os anos 60 (uma briga violenta no palco, durante a primeira turnê americana da banda, os baniu dos Estados Unidos por alguns anos), os Kinks ainda viviam um período de grande sucesso nos primeiros 80. Em Word of mouth, conseguiram um de seus maiores hitsb da época, Do it again, que virou até nome de um filme sobre a banda em 2010.

"BORN IN THE USA" - BRUCE SPRINGSTEEN (CBS). Apenas uma ilusão de ótica: você que só prestou atenção em Bruce após o single-clipe coletivo We are the world, pensa que esse álbum saiu em 1985. Saiu em 4 de junho do ano anterior, após passar por mais de dois anos de elaboração em estúdios e mil discussões entre Springsteen e seu empresário Jon Landau, que queria um single vendedor para o disco. E antes mesmo da faixa-título alcançar as paradas, a vez foi de Dancing in the dark, que esteve até em trilha de novela no Brasil (Amor com amor se paga, Globo, 1984).


"IN THE SIGN OF EVIL" - SODOM (Devil's Game). A primeira onda de black metal tinha, entre outros, os ingleses do Venom e os alemães do Sodom - que depois se tornaram uma banda popular e cheia de influências do punk, e existem até hoje. No começo, falavam de ocultismo e guerra, em músicas como Outbreak of evil, Sepulchral voice e Burst command til war.

"THE TOP" - THE CURE  (Fiction). Quase um disco solo do líder Robert Smith, feito após uma briga física com o baixista Simon Gallup, que sairia do grupo. Tocando praticamente tudo, Smith conduziu a banda para um lado mais psicodélico, bem diferente até do que o Cure faria depois, em discos como The head on the door (1985). O hit foi The caterpillar.

"LEGEND: THE BEST OF" - BOB MARLEY AND THE WAILERS (Island). O primeiro grande best-of do cantor lançado após sua morte vendeu horrores e fez o reggae renascer mundialmente. O portal de curiosidades pop Dangerous Minds acusa o disco de mostrar um Bob Marley "reembalado para brancos, sem o seu lado militante". Nem tanto: No woman no cry, Get up stand up e Buffalo soldier estão lá e não são exatamente canções açucaradas e alienadas. Mas enfim, é um álbum mais pródigo em clássicos pop, de Could you be loved a Is this love.


"TUDO AZUL" - LULU SANTOS (Warner). O melhor disco de Lulu na primeira fase da sua carreira. Não teve grandes vendagens, mas imortalizou a faixa-título, Tão bem, O último romântico e Lua de mel. O melhor lado B da história do cantor-guitarrista, Ano novo lunar, também está aí. No ano seguinte, viria a asfixia de Normal (1985) e uma outra fase, com Lulu (1987), de grandes vendagens e ainda mais hits.

"CRUCIFICADOS PELO SISTEMA" - RATOS DE PORÃO (Punk Rock). Os RxDxPx foram a primeira banda punk da América Latina a gravar um LP inteiro seu. Crucificados, estreia do grupo (João Gordo, vocal; Mingau, que hoje está no Ultraje A Rigor, na guitarra; Jabá no baixo; Jão, bateria), saiu sem tanto alarde assim. Brigas entre punks de São Paulo e do ABC paulista acabaram fazendo com que o álbum sequer tivesse show de lançamento. Hoje é um clássico, com direito a regravação do grupo anos depois, com outra formação (Sistemados pelo crucifa, de 2000).


"CREATURES OF INFLUENCE" - INFORMATION SOCIETY (Twin Tone). Você sabia que o Information Society, orgulho pop dos anos 90/00, gravou seu primeiro disco em 1984? Gravou sim, e nem os integrantes da banda são lá muito fãs do álbum ("é horrível!", chegaram a afirmar em entrevistas). No entanto foi de lá que saiu o primeiro hit do grupo, Running, que costuma estar no setlist da banda até hoje.

"ZEN ARCADE" - HÜSKER DÜ (SST). Quando o punk começou a ficar, com o perdão da palavra, progressivo. Em seu segundo disco (duplo), o Hüsker falava de um jovem que sofria abusos em casa e se defrontava com a crueldade do mundo. Músicas como Pink turns to blue, Broken home, broken heart e a quilométrica Reoccurring dreams lançaram as bases para o Green Day faturar com o conceitual American idiot (2006).


"UNDER WRAPS" - JETHRO TULL (Chrysalis). Está longe de ser o disco mais fraco do Jethro, como muitos fãs o classificam - a sonoridade meio eletrônica do álbum espantou muita gente. Repleto de letras sobre espionagem e perseguição (obsessão do líder Ian Anderson, na época), tem as boas Lap of luxury, Radio free Moscow e o hit pop e acústico Under wraps 2. Depois disso, o grupo gravaria um álbum com a London Symphony Orchestra (A classic case, de 1985) e interromperia os discos por dois anos.

"MY WAR" - BLACK FLAG (SST). A banda que, segundo testemunhas, mais influenciou o rock de Seattle - após fazer shows por lá nos anos 80. Em seu segundo LP, com Henry Rollins à frente, largavam os hardcores curtos para aterrorizar com faixas longas e lentas, entre o punk e o metal. My war, Beat my head against the wall e Nothing left inside são impressionantes e perturbadoras. Guerra na mente e no aparelho de som.


"POR AQUELAS QUE FORAM BEM AMADAS" - ZÉ RAMALHO (CBS). O disco "de rock" de Zé Ramalho foi roqueiro até em sua elaboração, com direito a farras, drogas, bebida e muito hedonismo em hotéis durante as turnês. Traz novidades como a parceria de Ramalho com Jards Macalé (Mulheres, cantada com Wanderléia e Zezé Motta), Paisagem da flor desesperada (de Ismael Semente Proibida, ex-baterista do grupo recifense Ave Sangria), O tolo na colina (versão em português de The fool on the hill, dos Beatles, por Ramalho e Erasmo Carlos). E a capa concebida por Zé do Caixão.


"SOME GREAT REWARD" - DEPECHE MODE (Mute). O quarto disco do Depeche Mode - uma banda de rock, mais até do que synthpop, pelo estilo de vida e pelo apuro rocker que sempre deu às suas canções - causava controvérsia por causa do single Master and servant, sobre sadomasoquismo. E falava sobre paz em People are people, com seu discurso pró-tolerância e diversidade.

"VELÔ" - CAETANO VELOSO (Philips). A tentativa de Caetano de criar uma "fase rock" (ou vá lá, "new wave") em seu trabalho, à base de alguns equívocos - sai o tom meio hippie urbano das produções com A Outra Banda Da Terra e entra uma turma que incluía até músicos que já haviam tocado com Arrigo Barnabé. Podres poderes foi amada e odiada em igual proporção e foi o hit do disco. Nine out of ten, de Transa (1972), reaparece. Comeu ganhou regravações também de Erasmo Carlos e até do grupo Magazine, de Kid Vinil - essa, foi parar na abertura da novela A gata comeu (1985). O quereres e Língua, essa com Elza Soares, são as melhores.


"CHICO BUARQUE" - CHICO BUARQUE (Barclay). Para muitos, o último grande momento de Chico até hoje. Vai passar virou um dos vários hinos das Diretas Já e um quase-título do disco. Mano a mano, parceria com João Bosco, podia virar filme. Samba do grande amor virou hit de rodinhas emepebísticas de violão - até hoje é, aliás. E ainda tem Pelas tabelas, Suburbano coraçãoBrejo da Cruz, quase jazz-nordestino-pop.

"THIS IS SPINAL TAP" - SPINAL TAP (Polydor). O rock com senso de humor. A gozação com o cenário do hard rock anos 70/80 e com todos os exageros e megalomanias envolvendo bandas, artistas e empresários tanto foi influenciada pela história do rock como influenciou novas bandas - o Soundgarden gravou Big bottom. Ainda tem Tonight I'm gonna rock you tonight, America, Cups and cakes, (Listen to the) Flower people. E em 1992, justamente no auge do rock de Seattle, voltaram com outro disco, Break like the wind.

"THREE OF A PERFECT PAIR" - KING CRIMSON (Virgin). O último disco do King Crimson na década de 80 - em 1994 sairia Vrooom - prossegue o reposicionamento da banda para a geração new wave, sem deixar de lado conceitos antigos, já que tem até uma música chamada Larks tongues in aspic III (mesmo nome do álbum do grupo de 1973). Faz parte de uma trilogia que incluía também Discipline (1981) e Beat (1982) e que marcava a volta de Robert Fripp e sua turma num período em que o som progressivo precisava mesmo de uma volta digna.

"ROUPA NOVA" - ROUPA NOVA (RCA). Criado à sombra das bandas de bailes cariocas dos anos 70 e do pop mineiro (e dos jingles radiofônicos), o Roupa Nova se populariza de vez ao mudar de gravadora. Vai parar na abertura da novela Um sonho a mais com Whisky a go go e toca em todos os cantos e rádios do Brasil com Tímida, Não dá e, especialmente, Chuva de prata. E ainda tem Top top, dos Mutantes, em versão anos 80.


"THE WORKS" - QUEEN (EMI). Tem quem odeie. Afinal, é o disco de Radio Ga Ga e I want to break free, domínio total dos sintetizadores e das batidas eletrônicas na sonoridade de uma banda que se orgulhava de cagar solenemente para tudo isso, nos seus primeiros discos. O difícil é resistir justamente ao apelo dessas duas músicas aí, e de It's a hard life e Hammer to fall.



TODAS AS LISTAS DE QUARENTA:

- quarenta discos de 1974 parte um dois
- quarenta micromúsicas
- quarenta momentos em que a macumba virou pop
- quarenta músicas que você tem que ouvir parte um e dois
- quarenta melhores momentos de Hermes & Renato
- quarenta fatos sobre o Abba
- quarenta discos de 1984 parte um dois
- quarenta fatos sobre o Menudo.