segunda-feira, 21 de julho de 2014

O MELHOR DISCO DO ROCK BRASILEIRO DOS ANOS 90 FAZ VINTE ANOS

Você sabia?

Errou quem pensou em qualquer coisa dos Raimundos, do Charlie Brown Jr (há quem valorize), da Nação Zumbi, do Planet Hemp. Ou em alguma sobra dos anos 80 que vigorou nos 90. Nada disso, pelo menos no aparelho de som daqui de casa.

O melhor disco de rock brasileiro daquela década é de uma banda que, para muitos, soou como uma forma de capitalizar em cima da febre de reggae "conceitual" deflagrada pelo Skank - e bem antes do Rappa conhecer o sucesso de verdade.

A estreia da banda brasiliense Maskavo Roots tinha tudo para ser um dos lançamentos mais vendidos do selo Banguela. Dirigido pelos Titãs e pelo produtor Carlos Eduardo Miranda, despejou nas lojas álbuns dos Raimundos, Mundo Livre S/A e outras bandas.  A estreia desse septeto que unia reggae, hard rock, metal e hardcore (e nunca se considerou uma banda de reggae, como afirmaram nesse papo com a MTV) estava entre os lançamentos. Foi gravado em 1994 e teve seu lançamento adiado pro comecinho de 1995. Mas a gente adianta as coisas aqui.

O disco não passou despercebido. Quem assistia à MTV na época lembra bem de A tempestade, reggae com riffs e solos pesados de guitarra, alegrinho mas prestes a atacar, com letra visionária e alegre. Falava de uma desgraça natural que assolava a terra mas passava, com versos formidáveis como "havia novo gás pra crowd da parada/é o sol que toma conta do planeta/e manda avisar que seu povo não precisa mais chorar". O clipe, que você viu na época, é esse aqui, gravado na piscina de ondas do Parque da Cidade, em Brasília. E aí que Maskavo Roots, o disco e a banda, lembram uma época em que havia interesse genuíno em bandas novas - e as bandas novas pareciam realmente novas.

Maskavo Roots não tinha só isso. Tinha os riffs de órgão da divertida Don Genaro (sobre um cara que comeu até morrer e "explodiu numa banda de jornal"), mais um reggae cheio de riffs e letra "de natureza" (Chá preto), reggae + rock + samba (Quinta), ska punk (Blond problem, Besta mole). Escotilha era um irresistível reggae + rock + soul marítimo, astral lá em cima ("a garota é o travesseiro/fevereiro custando a passar/e o farol bem de longe avisa/lá vem o coral"). Ganhou um criativo clipe também.

Tinha também a hipnótica 45, sobre um pacato rapaz transformado em pistoleiro quando provocado ("eu te mostro então a 45/que te faz dançar quando é preciso"). Música para ouvir em alta rotação, duas, três, quatro, cinco vezes seguidas. Sem encanação, sem politicamente correto ou incorreto, sem rótulos aprisionadores.

O Maskavo não esquentou lugar no Banguela. O selo também não esquentaria lugar. O grupo assinou contrato com o superempresário Manoel Poladian, mas o estouro da banda foi sendo protelado até que nada acontecesse.

A vocalista Joana Lewis chamou a atenção não apenas pelos vocais - chegou a fazer um ensaio brejeiro para a revista Bizz. Hoje usa o nome Joana Duah e canta MPB. Com a debandada geral dos integrantes, aliás, cada um buscou projetos diferentes e alguns fugiram das misturas com reggae. Marcelo Vourakis (vocalista) passou pelo punk Os Cabeloduro e pelo roqueiro Supergalo, supergrupo que reunia ex-Raimundos e ex-Rumbora na formação. O guitarrista Pinduca foi fazer rock no Prot(o). O baterista Txotxa foi tocar na Plebe Rude, anos depois.

O grupo lançaria mais dois discos com o nome Maskavo Roots (o independente Melodia que eu conheço, de 1997, e Se não guenta por que veio?, de 1998, pela Sony). Nessa mudança de gravadora, deu para quase-estourar outro quase-hit, Djorous. Mas logo o grupo mudaria boa parte de sua formação e reduziria o nome para Maskavo. Ficaria bem mais próximo do reggae de raiz, zero de influências de rock - o forró-reggae Asas, claro, você conhece. Era audivelmente bem melhor antes. Só o guitarrista Prata continua na banda.

Em 2009 a formação de Maskavo Roots se reuniria para um show no festival brasiliense Porão do Rock - por questões contratuais, usaram o codinome M. Roots. Luciano Branco, do portal Rock Brasília, cobriu o show e escreveu isso aqui. Deu vontade de estar lá.

Eu não sei se convenci alguém a achar que esse disco (que há uns dez anos ganhou edição remasterizada) é melhor que muita coisa feita no Brasil e lançada na época. Só digo que gostaria de ser convidado para todas as festas em que esse disco rolar e em que rolarem comemorações de 20 anos dessas músicas. Cada vez que alguém toca Escotilha, Tempestade, 45 e outras dessas músicas em alto volume, transporta o rock brasileiro para uma época bem mais risonha e franca, plena de criatividade, bom humor e alto astral. E nem faz tanto tempo assim.

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