domingo, 29 de junho de 2014

QUARENTA MÚSICAS QUE VOCÊ TEM QUE OUVIR

Isso aí é o que eu ando ouvindo nos fones quando estou caminhando ou andando de ônibus.

Na verdade é uma seleção com mais de cem músicas, mas como estou periodicamente fazendo listas de quarenta itens, segue mais essa.

Tem um monte de lados B misturados a lados A e coisas que provavelmente você vai achar batidas. E muitas coisas lá de fora que acho um absurdo nem serem tão ouvidas por aqui.

Ouve aí. É o que eu acho que você deve ouvir.


"SONG OF THE VIKING" - TODD RUNDGREN. Quase uma miniópera, do clássico Something/Anything?, disco duplo de Rundgren lançado em 1972.

"LIFE ON MARS?" - DAVID BOWIE. Um dos clássicos de Hunky dory, quarto disco de Bowie, lançado em 1971. O clipe dessa música fez muita gente passar a amar Bowie. A versão original trazia cenas tiradas da plateia de shows do cantor, e chegou a ser exibida em programas de TV no Brasil nos anos 70.

"CHILD OF THE MOON" - ROLLING STONES. O psicodélico e romântico lado B do single Jumpin' Jack Flash, lançado em 1968 e esquecido até pelos maiores fãs da banda - muita gente só o conheceu em 1988, quando saiu a caixa The London Years. Na época ganhou até um enigmático clipe.

"JUNIOR'S EYES" - BLACK SABBATH. Desconfie de quem acha Never say die (1978), último álbum de inéditas com Ozzy Osbourne até o ano passado, um álbum fraco. Ainda mais depois da audição dessa música.


"BONZO´S MONTREUX" - LED ZEPPELIN. Lado Z da banda britânica - um solo de bateria de John Bonham, gravado em 1976, retrabalhado depois pelo guitarrista Jimmy Page para lançamento no póstumo Coda (1982).

"TIME BETWEEN" - THE BYRDS. Um dos melhores momentos da obra-prima Younger than yesterday (1967).

"LIGHT OF LOVE" - T. REX. O Supergrass do hit Alright chupou o que pôde daqui, e misturou com referências do próprio T. Rex, de David Bowie e coisas parecidas.

"ME PERCO NESSE TEMPO" - MERCENÁRIAS. O mais próximo que a banda feminina paulistana dos anos 80 chegou de um hit. Lançada em 1986 na estreia Cadê as armas?, foi regravada depois pelo Ira! em 7 (1995).



"PÊNDULO" - EGBERTO GISMONTI. Clássico soul-pop instrumental de Sonho 70 (1970), segundo disco de Gismonti - bem diferente de quase tudo o que ele faria depois. De tão facilmente curtível, virou até tema da novela global Pigmalião 70.

"MESMO DISTANTE" - IRA!. Título apropriadíssimo. O grupo paulistano ia longe demais (longe demais mesmo) para os padrões do rock brasileiro. E continua lá longe até hoje, entre a psicodelia e os sons hispânicos e clássicos. O encarte do álbum Psicoacústica (1988) informava que Edgard tocava "guitarra fantasma".

"SONS OF 1984" - TODD RUNDGREN. Do duplo Todd (1974), um curioso (e belíssimo) gospel que não fala em Deus.

"EQUATORIAL" - LÔ BORGES. Clássico hippie da ala jovem do Clube da Esquina (é parceria de Lô, Beto Guedes e Marcio Borges, então pós-adolescentes). Foi feito no começo dos anos 70, mas só relembrado por Lô no fim da década em seu disco A via-láctea, de 1979, em versão neoprogressiva.



"MOTORWAY TO ROSWELL" - PIXIES. O grupo americano esquece a fórmula loud-quiet-loud para soar baladeiro, amoroso e nostálgico do começo ao fim. É do bom Trompe le monde (1991).

"YO NO CREO PERO" - RITA LEE E TUTTI FRUTTI. Jazz-glam-progressivo com poucos versos e uma das guitarras mais belas já gravadas pelo heroi Luis Carlini. Do misterioso Atrás do porto tem uma cidade (1974).

"MEU AMIGO PEDRO" - RAUL SEIXAS. Belíssima música em que Raul (e Paulo Coelho) narra sua relação com o irmão certinho Plínio.

"WONDERFUL" - BEACH BOYS. Pop de câmara lançado no LP Smiley smile (1967), cuja letra mexe com a dualidade sexo-religião.


"CAT SCRATCH FEVER" - TED NUGENT. O guitarrista americano, conhecido por suas declarações politicamente incorretas e por seu hábito de caçar (inclusive em áreas não apropriadas ao esporte) não está disputando um campeonato de quem é mais gente fina, legal, ético e boa praça. Ele quer simplesmente que você ouça a guitarra dele.

"ILHA DO QUARTZO AZUL" - TUCA. Uma das melhores canções do misterioso Dracula I love you (1974), terceiro álbum da cantora.

"TRUE FAITH" - NEW ORDER. Então prestes a vir ao Brasil pela primeira vez (estiveram aqui em 1989), os britânicos fazem uma pérola das pistas e da união pop-rock-dance. Até em baile funk isso aí tocou.

"TOUCH ME" - DOORS. O grupo de Jim Morrison soava grandiloquente, nostálgico e triste, com belos vocais e arranjos de orquestra.


"ESTE ANO" - PLEBE RUDE. O disco Mais raiva do que medo (1993), quarto da Plebe Rude, é até melhor que a estreia O concreto já rachou (1985). E gerou aquela que deve ser sua melhor música.

"TV EYE" - STOOGES. Rock bom é sobre tesão e ódio - e amor, e tudo isso junto e misturado. O melhor exemplo está aqui. De normal já basta a vida.

"STEPPIN OUT" - JOE JACKSON. Uma simples canção sobre como é legal dar uma volta na cidade à noite. E provavelmente a única música que você e mais uma porrada de gente conhece desse músico inglês, que vai do punk aos clássicos.

"IT'S MY LIFE" - TALK TALK. Essa banda inglesa poderia não ter gravado mais nada, que já teria marcado época só com esse single de 1983. Fizeram muitos fãs e continuam a fazer, só pelo fato de não se interessarem em reativar a banda para shows oportunistas de "retorno".


"ADORATIONS" - KILLING JOKE. A música de abertura de Brighter than a thousand suns (1986), disco que foi um momento de paz na carreira do KJ, inicialmente em fase pós-punk, mas já preparados para abraçar sons bem mais pesados.

"RED" - KING CRIMSON. O disco mais pesado do grupo progressivo foi Red (1974), quando a banda foi transmutada em power trio.

"WHITE NOISE MAKER" - FRANK BLACK. A homenagem de Frank ao produtor malucão Joe Meek (1929-1967). Está no segundo disco do cantor, Teenager of the year (1994).

"FIRST KISS ON MARS" - STONE TEMPLE PILOTS. Scott Weiland tenta ser David Bowie em meio à argamassa surf-paz-e-amor dos STP, pop como quase nunca foram.




"PARALYSIS" - SCOTT WEILAND. Em carreira solo no disco "Happy" in galoshes (2008), o cantor dos STP inspira-se na obra de Roy Orbison.

"OCTOPUS'S GARDEN" - BEATLES. George Harrison deu lá sua ajuda, mas oficialmente é um raro momento de Ringo Starr como compositor nos Beatles. É do Abbey Road (1969).

"DIA DE PAZ" - ERASMO CARLOS. Rara parceria de Antonio Adolfo e Jorge Mautner, gravada no LP Banda dos contentes (1976).

"KITSCH ZONA SUL" - RONALDO RESEDÁ. Um dos cinco maiores clássicos da disco music brasileira - e uma das primeiras canções a levar a assinatura de Lincoln Olivetti como compositor, e não apenas como arranjador.


"DESLIGA O MUNDO" - PAINEL DE CONTROLE. Disco-rock inspiradíssimo na levada de Listen to the music, dos Dobbie Brothers. E excelente.

"CRIOULA" - MORAES MOREIRA. Um audiogame (isso mesmo) em que a diversão é adivinhar quem está tocando guitarra: se é Armandinho Macêdo ou Pepeu Gomes, ambos participando da faixa. Hard rock baiano do disco Alto falante (1978).

"REGINA" - RONNIE VON. Só quem conhece a trilha da novela global A próxima atração (1970) foi apresentado a esse lado B de uma obra (a fase psicodélica do cantor) que já é lado B por natureza. 


"BLACK METAL" - VENOM. Nunca é tarde para ter uma adolescência feliz, digamos assim.



"YOU BETTER, YOU BET" - THE WHO. Não, os dois discos do Who gravados com Kenny Jones na bateria, entre 1981 e 1982, não eram nada ruins. Face dances, de 1981, era até muito bom. E tem esse hit.

"LESS THAN A FEELING" - HOODOO GURUS. O grupo australiano de surf music sempre foi considerado pop demais para poder figurar entre os alternativos - ainda mais nos anos 90. Mas tematizaram o futuro do rock e a busca por uma música para chamar de sua como quase nenhuma outra banda. É do bom Crank, de 1993.

"WHAT TO DO" - VANUSA. Não deve ser plágio de Sabbath bloddy sabbath, música do Black Sabbath lançada no fim de 1973 - o quarto disco da cantora provavelmente foi lançado alguns meses antes. Mas que é igual, é.


"SO IT GOES" - NICK LOWE. Primeiro single do cantor britânico e primeiro single do selo Stiff.

TODAS AS LISTAS DE QUARENTA:

- quarenta discos de 1974 parte um dois
- quarenta micromúsicas
- quarenta momentos em que a macumba virou pop
- quarenta músicas que você tem que ouvir parte um e dois
- quarenta melhores momentos de Hermes & Renato
- quarenta fatos sobre o Abba
- quarenta discos de 1984 parte um dois
- quarenta fatos sobre o Menudo.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

AMAZÔNIA, GIGANTES DO SAMBA, CINEFOOT

Saiu isso aí hoje no Guia Show e Lazer do O Dia.

Se você deparar com o filme Amazônia, produção franco-brasileira que acaba de entrar em cartaz nos cinemas, não perca. É um bom programa para você levar seu filho (a). Corre só o risco de você ter que aturar a criançada pedindo um macaco-prego (isso mesmo, um macaco-prego) de presente, como bichinho de estimação.

O filme fala das aventuras de um macaco-prego chamado Castanha, que vive na cidade grande, é enviado de avião para um circo e, após um acidente, cai na Amazônia. Lá, ele tem que aprender depressinha a viver em seu habitat natural - mesmo não tendo muitas lembranças de como era morar na floresta.

Amazônia está sendo exibido em 3D e tem imagens belíssimas da floresta, bem legais para crianças e para adultos. A dublagem de Lucio Mauro Filho é bem simpática e torna o bichinho ainda mais carismático do que ele já é. E por ser um filme metade produzido no Brasil, metade na França, aproveita muito da experiência dos documentaristas europeus com filmes "de natureza".

Falei também sobre a tour do festival Cinefoot, que vem para o Rio neste fim de semana. E bati um papo com Alexandre Pires, do Só Pra Contrariar, e Luís Carlos, do Raça Negra, sobre a turnê conjunta das duas bandas, que passa hoje e amanhã pelo Rio.




quinta-feira, 26 de junho de 2014

AMAZÔNIA

Uma das raras matérias sobre cinema que andei fazendo pra O Dia. Bati um papo com Lúcio Mauro Filho sobre sua dublagem no longa Amazônia - que é quase um documentário para crianças sobre a floresta amazônica.


LÚCIO MAURO FILHO E ISABELLE DRUMMOND DUBLAM AMAZÔNIA
Filme estreia nos cinemas nesta quinta-feira
Publicado em O Dia em 25 de junho de 2014

Os filhos do ator Lúcio Mauro Filho puderam finalmente assistir ao longa Amazônia, dublado pelo pai, numa sessão especial nesta semana. Antes, Lúcio tinha mostrado a eles apenas 15 minutos do filme, e os viu encantados com as cenas. “Como é em 3D, as imagens da floresta saltam aos olhos. Adorei dublar o Castanha (macaco-prego que é protagonista do filme). Ele é muito carismático”, alegra-se o ator.

Produzido pela brasileira Gullane em parceria com a francesa Biloba, Amazônia mostra as aventuras de Castanha, macaco-prego que vive na cidade e é mandado de avião para um circo. Após um acidente, ele vai parar na Amazônia e tem que aprender a viver em seu habitat natural. Encontra outros macacos-prego e vive um romance proibido com a fêmea Gaia (dublada por Isabelle Drummond).

O diretor é o documentarista francês Thierry Ragobert. “Os franceses são especializados em grandes filmes de natureza, desde o Jacques Cousteau, e tivemos um intercâmbio enorme”, diz o coprodutor Fabiano Gullane, que passou mais de três anos na floresta com a equipe, usando animais selvagens como atores.

“Fizemos tudo de modo a não causar estresse a eles”, conta. “Usamos seis macacos-prego para fazer o Castanha. Um deles era mais carismático e fazia cenas de closes, outro comia o tempo todo e foi usado nas cenas em que ele se alimentava. E por aí foi.”

O filme saiu na França sem diálogos, só com a música. “Cada país que o dublou valorizou um detalhe. Na Alemanha, o texto valorizou a questão científica . No Brasil, contamos a história original do filme, incluindo o romance entre o Castanha e a Gaia”, conta Fabiano.

Experiente em dublagens (que fez em desenhos como Kung Fu Panda), Lúcio teve o desafio de fazer as vozes sem ouvir nenhum diálogo. “Só tinha as músicas e as cenas. Depois, até achei que ganhei mais liberdade, porque o grande problema de qualquer dublagem é a sincronização, e isso nem tive.”

Lúcio teve muitas recordações de infância fazendo o filme: “Estive diversas vezes na Floresta, desde a infância. Fiquei muito honrado de participar do projeto.”

quarta-feira, 25 de junho de 2014

MICHAEL JACKSON

Cinco anos sem Michael Jackson - vai aí uma data quase redonda (meio redonda) para a alegria dos jornalistas.

Quando eu trabalhava no
Jornal do Brasil escrevi essa reportagem com os músicos brasileiros que chegaram a dividir estúdios ou qualquer tipo de trabalho com o rei do pop. Na época, 2008, Michael estava fazendo 50 anos. Djavan, Ivan Lins e Moogie Canázio (engenheiro de som) deram seus depoimentos. Lembro que o do Ivan veio por e-mail e foi um texto bem maior que isso. Cheguei a sugerir que fosse publicado na íntegra, mas não rolou.

Ficou faltando o depoimento do Paulinho da Costa, superpercussionista brasileiro que mora nos EUA e tocou com Michael em vários discos - pôs até cuícas em
Wanna be startin' something, abertura do clássico Thriller (1982). Passei um bom tempo no pé dele, cheguei a abordá-lo de maneira bastante afobada (e ele foi bem simpático, graças a Deus) no camarim do show da cantora Diana Krall no Vivo Rio, naquela época. Mas ele preferiu não falar.


Leia o link quase original dessa matéria (é de quando ela foi replicada pelo Terra) aqui.

BRASILEIROS RECORDAM CONTATO COM O ÍDOLO MICHAEL JACKSON
Publicado pelo Jornal do Brasil em 29 de agosto de 2008

Desde o lançamento de Off the wall, disco que inaugurou a carreira discográfica de Michael Jackson na Sony, músicos brasileiros freqüentam o estúdio do cantor. O mais freqüente deles é o percussionista carioca Paulinho da Costa, que mora em Los Angeles desde o começo dos anos 70, participou de todos os álbuns do cantor desde 1979 e a jornalistas costuma dizer que na gravação do multipremiado Thriller encontrou o cantor "seguro e relaxado", além de bastante simpático.

O mesmo discurso tem o engenheiro de áudio brasileiro radicado nos Estados Unidos Antonio Moogie Canázio, que, no começo dos anos 90, fazia a engenharia de gravação do disco Brasileiro, de Sergio Mendes (1992), e acabou sendo convidado pelo então produtor de Jackson, Bruce Swedien, para cuidar de algumas músicas de Dangerous, lançado pouco antes - que tinha sucessos como Black or white e Remember the time.


"Durante as sessões, Jackson foi extremamente dedicado ao trabalho. É um detalhe até antagônico, se você levar em conta todo o sucesso e todo o poder dele", recorda ao Jornal do Brasil, por telefone, de Los Angeles, afirmando que seu ídolo mesmo, na época, era o produtor Swedien.

"Ele comandou uma equipe muito boa, bastante unida e com tempo e espaço para experimentar e pesquisar coisas novas, mesmo dentro de um trabalho pop".

Outro brasileiro que fez sessões com Jackson foi Laudir de Oliveira, então percussionista do grupo pop americano Chicago. Laudir tocou no álbum Destiny (1978), um dos últimos dos Jacksons com o irmão mais novo, e acabou sendo testemunha de um momento de ruptura na história do cantor, que pouco depois faria sucesso solo.

"Não tinha pressão, mas havia expectativa quanto a ele, tanto que o grupo passou a ser produzido pelo Quincy Jones, que depois seria produtor dele", diz Oliveira, impressionado com o gap entre o Jackson de outrora e o atual.

"O cara que eu conheci em 1978 não era esse aí, não. Ele era um cara humilde, tímido, que pedia opinião de todo mundo. Nunca imaginaria que ele iria querer virar branco ou algo do tipo".

Se Laudir, da Costa e Canázio estiveram juntos de Jackson em momentos que foram cruciais para o cantor, dois compositores e cantores brasileiros acumulam histórias em que as relações com o rei do pop poderiam ter modificado suas vidas profissionais.

Djavan, por exemplo, recebeu, em 1986, um pedido do então produtor de Jackson, Quincy Jones, para que fizesse uma música para o próximo álbum do cantor, que seria Bad (1987).

Na época, Djavan e Jones estavam relacionados profissionalmente: o compositor tinha algumas de suas canções editadas pela empresa do produtor, nos Estados Unidos. O autor de Oceano mandou a melodia, que receberia letra do próprio Jackson, mas com atraso.

"O Jones havia me pedido com oito meses de antecedência, imaginando que faria a música em um mês, mas só enviei no fim da produção do disco. E era uma música pop, mas muito rebuscada, inadequada para ele", diz Djavan, que é fã de Thriller, clássico de Jackson, que considera um álbum revolucionário.

"É imbatível. O Michael tem a noção de como fazer pop e não ser banal", acredita o músico.

Apesar do contato profissional não ter rendido nada, Djavan pôde conhecer o cantor, quando precisou ir a Los Angeles encontrar Jones. Na época, ele mixava Bad no estúdio Sunset Sound.

"Ele estava num quarto do estúdio, vendo desenho animado num televisor pequeno, rindo bastante. E estava pintado de vermelho, como um apache", recorda.

Djavan lembra também um detalhe que chamou muito sua atenção: "Jackson lembra um passarinho assustado, que fica olhando nervosamente para os lados e, quando uma pessoa o encara, vira o olhar".

Ivan Lins foi outro brasileiro a quase ser gravado por Jackson, e justamente em Thriller. Divergências entre o cantor, seu parceiro Vitor Martins e um dos advogados do produtor Quincy Jones impediram que Um novo tempo entrasse no álbum, com letra em inglês feita por Rod Temperton.

"O advogado quis nos dar uma rasteira e passamos oito meses brigando. Nem sabemos se ouviu a música", diz o cantor, que conhecera Jackson pessoalmente em 1981 numa situação inusitada: o rei do pop era um dos convidados de uma feijoada em homenagem a Lins, na casa de Quincy Jones em Los Angeles.

"Ele brincava com as filhas do Jones, completamente alheio. Fui apresentado a ele e Jackson só me estendeu a mão, sem levantar. A (cantora) Patti Austin me disse que ele era um mosca-morta e que, quando tinha que entrar no palco, precisavam empurrá-lo", lembra Lins.

QUARENTA MICOS E HISTÓRIAS ESTRANHAS DE ARTISTAS

Preste atenção agora: você também já pagou mico. Já ficou bêbado e falou merda, já fez cagada pública, se bobear já se envolveu em brigas, já passou dos limites, já disse coisas das quais se arrependeu amargamente, já foi injusto e quem sabe até desleal. Micos todo mundo paga. Não dá para julgar ninguém pelas bostas que faz em determinado momento. Ou melhor, até dá sim - dependendo da bosta e de com quem se faz. Mas nem é o caso aqui.

Fazer merda nunca deixou de estar na moda. Pode servir de lição, de exemplo. Recentemente, Roberto Carlos fez, James Hetfield (Metallica) fez. Raul Seixas já pagou micos fenomenais, Elvis Costello tem um a lhe perseguir até hoje. Ozzy Osbourne é mais conhecido, por muita gente, pelos king kongs que paga do que por sua música. Conheça abaixo quarenta exemplos de cagadas feitas por gente ligada ao universo pop que, entra ano e sai ano, ninguém esquece. Sem julgamento, sem crueldade porque, ora bolas, se você ainda não fez merda, um dia ainda vai fazer. Como esses caras aí embaixo.



METALLICA. No fim dos anos 90, a banda de heavy metal estava com sangue nos olhos e bolso coçando. Processou a loja virtual Amazon.com pela venda de um disco pirata, meteu o estilista Pierre Cardin na justiça por conta de um smoking Metallica e chegou para cima da grife de lingeries Victoria's Secret por causa do uso do "Metallica" no nome de numa série de batons (!). Mas é por causa do processo contra o Napster que o quarteto tem até hoje que responder a perguntas capciosas em entrevistas e adular os fãs com shows-surpresa e lançamentos exclusivos. No começo de 2000, o grupo descobriu que uma música nova chamada I disappear tocava em rádios, após ser baixada pelo site. Os quatro entraram numa brabíssima disputa judicial e ganharam fama de banda que processava os fãs - já que haviam feito um levantamento de nomes de usuários do Napster que downloadearam a canção. Fãs quebraram CDs, juraram ódio eterno aos ex-ídolos e o estrago feito na imagem do grupo determinou muitos dos passos do Metallica desde então.

JAMES HETFIELD. O vocalista do Metallica sempre caçou. Nos anos 90, chegou a afirmar que cortou o cordão umbilical de sua filha sem maiores traumas porque está "acostumado a ver sangue de animais". A dedicação ao (discutível) esporte só agora lhe trouxe dores de cabeça, devido ao vazamento da história de que ele narraria uma série do History Channel sobre a caça a ursos, The hunt ("A caçada"). Junto da notícia, uma foto sua portando um rifle, ao lado de um urso morto. Apesar de uma campanha na web com mais de 20 mil assinaturas pedindo que o Metallica fosse eliminado do line-up do festival britânico de Glastonbury, o grupo vai se apresentar e até lançou música nova, Lords of the summer - First pass vacation.

ROBERTO CARLOS. Movido exclusivamente por grana, Roberto mandou tirar de circulação o livro Roberto Carlos em detalhes, do jornalista Paulo César de Araújo. Obriga até hoje a Sony - dizem - a não reeditar seu primeiro álbum, Louco por você (1962) e, comenta-se, já teria tentado eliminar de sua discografia seu homônimo segundo disco, lançado no ano seguinte. Implicou com o livro Jovem guarda, moda, música e juventude, escrito por Maíra Zimmermann, e que nem é uma biografia sua - nesse caso, as tentativas para tirá-lo das livrarias foram infrutíferas. E quando você acha que ele já não pode fazer mais nada para estragar mais sua imagem, ele aparece na propaganda da Friboi ("Me chocou porque sempre vi o Roberto como um cara sensível à causa animal", me disse Paulo César).

ELVIS COSTELLO. A história cabulosíssima de que o cantor londrino teria soltado frases racistas sobre os cantores Ray Charles e James Brown numa festa o persegue até hoje. Em 1979, bebaço, conversando com Stephen Stills e Bonnie Bramlett, ele teria classificado Brown como "crioulo rebolativo" e Ray como "um crioulo ignorante e cego". Na época, convocou uma coletiva para se explicar. Afirmou que estava bêbado, que deveria ter ficado atento às palavras e concluído seu pensamento antes de ele vazar para a imprensa (por obras de Bonnie). Em 2013, entrevistado para a rádio Okayplayer, disse que "na minha juventude eu era arrogante. E achei que estava apenas sendo irônico. Quando falei isso, aconteceu uma verdadeira briga de bar".

DAVID CASSIDY. O pré-Justin Bieber. Símbolo sexual da sitcom americana The Partridge Family (no Brasil, Família Dó-Ré-Mi), Cassidy nunca se conformou com o sucesso pop numa série "familiar" que passava na TV. Iniciou uma carreira solo sob tons bem menos brandos e mais próximos do hard rock a partir de 1972. No mesmo ano, deu uma desastrada entrevista à Rolling Stone falando sobre experiências com drogas e sexo - um escândalo que o fez perder contratos e dar adeus ao sucesso como ídolo adolescente. Mas ele ainda conseguiria vários hits, como I write the songs. Em 2013, foi pego no bafômetro.

CARLINHOS BROWN: Talvez a caxirola - uma espécie de caxixi de plástico, criado pelo músico para ser o instrumento oficial da Copa de 2014 - irritasse bem menos que a vuvuzela. Mas depois que torcedores do Bahia, após uma derrota para o Vitória em abril do ano passado, atiraram em campo o instrumento (distribuído a todos numa espécie de "estreia oficial" da caxirola), deu merda. Apesar de contar com o entusiasmo da própria presidente Dilma Rousseff, o instrumento acabou inicialmente vetado nos estádios pelos quais passaria a competição, sob a alegação de que não era seguro. Hoje a caxirola está liberada e pode ser encontrada até nas lojas oficiais da Fifa, segundo nota liberada pela empresa fabricante. Mas o sonho da criação da "vuvuzela brasileira" decididamente não deu certo para o percussionista.

LATINO. O portal R7 fez recentemente um bom apanhado de situações do funkeiro na linha "passei dos limites". Ele já postou no Instagram uma foto sua de sunga, bebendo champanhe num iate. Já levou um tombo na frente de mais de 30 mil pessoas quando cantava o hit Renata ingrata. No começo da carreira, foi atacado por fãs em Belo Horizonte e saiu, digamos, meio rasgado. E não apenas na roupa. "O local estava muito cheio - onde cabiam duas mil pessoas tinham três mil. Na época eu usava calças de tactel. E na saída do show, uma menina com umas unhas bem grandes me pegou por trás. Hoje eu uso cueca, mas na época não usava. A menina segurou minha bunda e o segurança me puxou. Rasgou a calça e o saco juntos. Levei oito pontos", disse o cantor a Silvio Essinger no livro Batidão - Uma história do funk. Deve ter doído...

JOHN LENNON. Entre 1973 e 1974, Yoko Ono ficou de saco cheio de "ser odiada por estar com Lennon e de ele ser odiado por estar comigo", e das inconstâncias da personalidade do marido. Deu-lhe um temporário pé na bunda. Começava a chamada fase "lost weekend" do ex-beatle. Ao mesmo tempo que John reatava amizades (até com Paul McCartney, com quem chegou a encontrar-se em estúdio e a ameaçar um trabalho em dupla), entupia-se de drogas e álcool. Foi expulso do estúdio da gravadora A&M, junto com toda a equipe que fazia o disco que seria Rock n roll (1975), após alguém quebrar uma garrafa de bebida na mesa de som. E foi chutado do badalado clube Troubadour junto com o amigo Harry Nilsson após importunar repetidamente o número dos comediantes Smothers Brothers, que se apresentavam no palco.


MICK JAGGER. Como diz aquela velha canção dos Rolling Stones, "você não pode ter tudo o que você quer". Ainda mais se Mick Jagger estiver na arquibancada torcendo por você. O cantor ficou com fama de pé-frio no futebol após a Copa do Mundo de 2010, já que todas as seleções para as quais foi torcer in loco foram eliminadas. Inglaterra e Brasil foram sacadas da competição com Jagger vibrando no estádio, bem como os Estados Unidos - a cuja derrota para a seleção de Gana ele assistiu ao lado do ex-presidente americano Bill Clinton. Recentemente, declarou torcer para Portugal antes do jogo contra a Alemanha. Foi assistir ao jogo e, claro, a seleção lusa perdeu.

CAETANO VELOSO X MTV. Na história da relação do baiano com o canal há duas histórias de fazer ruborizar até os fãs mais fieis do cantor. Após repetidas falhas de som no VMB 2004, rolou o famoso piti "vergonha na cara, emetevê! Bota essa porra pra funcionar!". E para quem se recorda (não achei vídeos disso no YouTube) tem a entrevista de Caetano ao Gordo a go-go, de João Gordo, durante a qual o cantor diz orgulhar-se de ter trazido as guitarras para o Brasil, dá murros na mesa do apresentador e solta a pérola: "Se hoje existe Sepultura, agradeçam a mim!!".

U2 NO LIVE AID. Há controvérsias sobre a histórica apresentação da banda irlandesa no festival criado por Bob Geldof, em 1985. Foi inegavelmente o show que mostrou o U2 para o mundo, meses após a banda quase ter entrado no line-up do primeiro Rock In Rio (Roberto Medina disse ter desistido do U2 devido à indelicadeza de seus empresários). Para muitos fãs de primeira hora, foi uma aparição, digamos, sui generis do vocalista Bono Vox, com vários quilos a mais e um mullet já caindo de moda. Enquanto você decide, assista aí ao show.

SHABBA RANKS. Sucesso nos anos 90 com hits como Mr. Loverman, o jamaicano Rexton Rawlston Fernando Gordon (é seu nome verdadeiro) teve mais que um minuto de fama. Foi contratado pela poderosa Sony Music, vendeu muitos discos, levou a remotíssima cultura do raggamuffin para as paradas e deixou sua marca na trilha do blockbuster A Família Addams 2 com uma versão rap/reggae de Family affair, de Sly & The Family Stone, entre outros feitos de ouro. Sem dar bola para os novos tempos politicamente corretos e seguindo os preceitos de uma espécie de onda gangsta a surgir no reggae jamaicano, Ranks lançou algumas letras homofóbicas em seus discos. E queimou geral o filme com declarações como "homossexualismo é uma doença, é um procedimento maligno. Porque Deus Todo-Poderoso, Ele mesmo confessa, odeia homossexuais. Na Jamaica, se um cara assim é encontrado em nossa comunidade, a gente apedreja ele até matar". Shabba, vale dizer, anda sumido desde 1999 - em 2013 disse estar preparando um álbum novo.

NICO. Ao ser perguntada sobre o motivo de seu namoro com o judeu Lou Reed nunca ter engatado, a cantora alemã não mediu palavras: "Lou nunca gostou de verdade de mim por causa do que meu povo fez com o dele". A declaração bizarra da cantora repercutiria mal por vários anos, até que ela decidisse fazer algo pior: disse a um repórter da Melody Maker que não gostava de negros. O fato causou sua dispensa da gravadora Island, fundada na Jamaica e que tinha Bob Marley como top de linha. "Eles (Island) levaram para o lado pessoal, apesar de serem de uma raça diferente. Bob Marley não parece um negro, tem feições de gente branca. Eu não gosto das feições. Eles são como animais, canibais, não é?", teria falado ao jornalista Lester Bangs. Jesus...

BOB DYLAN. O cantor americano já está longe de ser um dos caras mais bem-humorados do mundo. Imagina após o que aconteceu com ele no Grammy 1998. Ao cantar (aparentando extrema má vontade) Love sick, teve o palco invadido por um sujeito chamado Michael Portnoy que, sem camisa e com o peito pintado com a expressão "soy bomb", começou a fazer uma coreografia das mais bizarras. Alguns músicos da banda de Bob até riram, mas o cantor não conseguiu esconder a raiva. O multitarefa Portnoy é compositor, músico (manteve bandas como XAR e Little Tapedecks), comediante, artista plástico, performer e poeta - o tal do "soy bomb" era uma espécie de micropoema de uma linha só. Mas roubar a cena no show de Dylan não o deixou tão mais famoso assim.

NIRVANA. "Tudo o que sobe, desce", já pregavam os Fevers no tema de abertura da novela global Elas por elas, em 1981. O baixista do Nirvana, Krist Novoselic, parece não ter ouvido a canção do veterano grupo carioca - ou pelo menos não ter estudado Física no colégio. No Vídeo Music Awards de 1992, durante a apresentação de seu grupo, resolveu incrementar seu número jogando o baixo para cima. O problema todo aconteceu na hora de aparar a queda do instrumento... (veja aqui).

BLAZE BAILEY. Presente no Iron Maiden entre 1994 e 1999, o vocalista britânico não foi muito bem aceito pelo público do grupo, por - afirmava-se - não alcançar no palco a mesma extensão vocal que conseguia no estúdio. Discute-se até hoje se Bailey foi tratado com injustiça ou não, mas a verdade é que não deu certo. Em 1996, durante o show de lançamento do álbum The X factor no Chile, Bailey (com a ajuda do líder-baixista Steve Harris) caiu na asneira de acertar contas com um fã que cuspia nele. "As imagens que vazaram no YouTube deixam tudo fora de contexto, porque na verdade eram seis fãs cuspindo na gente", disse Bailey.

RAUL SEIXAS. Em 12 de novembro de 1979, o Jornal da República publicava uma reportagem de Valério Meinel chamada O sangrento código do comércio de drogas. Numa época em que o assunto ainda era bem pouco investigado, a matéria falava sobre um universo de crimes que "nunca são desvendados pela polícia" e cuja repercussão "não ultrapassa o local onde fica a boca de fumo", ainda sob o signo do assassinato da atriz Claudia Lessin Rodrigues, dois anos antes. Um dos crimes abordados era a morte do traficante argentino Hugo Angel Amorrotu, que havia levado tiros após tentar bater em traficantes (José Orestes e os irmãos Paulo Cesar e Wilson, diz o texto) que lhe teriam levado uma carga de cocaína "batizada" com açúcar. Hugo era um dos caratecas argentinos contratados por ninguém menos que Raul Seixas para integrar sua equipe de seguranças, e o assassinato dele aconteceu justamente no apartamento em que o cantor morava na época, na Rua Assis Brasil, em Copacabana - o que já serviu para colocar o artista (então em baixa e lançando um disco fraco, Por quem os sinos dobram) nas capas de alguns jornais popularescos da época.

JIM MORRISON. Pouco antes de morrer, o chapado vocalista dos Doors foi procurado por uma espécie de ONG anti-drogas, Do It Now, que queria porque queria que o cantor gravasse um spot no estilo "just say no" para eles. Tanto quiseram, que conseguiram. Morrison topou e abriu a primeira tentativa de gravação com a frase : "Alô, seus babacas que estão ouvindo rádio em vez de fazer dever de casa. Aqui é o Jim Morrison", prosseguindo depois com pérolas como "alô, amigos, não tomem anfetaminas. Fumem maconha, pelo amor de Jesus Cristo" (você acompanha a história toda aqui). E o mico ficou mesmo é com a tal da Do It Now.

MC5. Banda-encrenca do rock americano dos anos 60/70, o MC5 - você deve saber - fez muito, mas muito barulho com seu disco de estreia, Kick out the jams (1969), que trazia a frase "kick out the jams, motherfuckers!" logo na abertura da faixa-título. A Hudson, maior cadeia de lojas de discos do estado de Michigan, recusou-se a vender o álbum. A resposta da banda foi publicar um anúncio num jornal alternativo de Detroit com a frase "Foda-se Hudson". O problema foi terem esquecido de avisar à sua gravadora, Elektra, que colocariam o nome da empresa no anúncio. Foram demitidos por telefone pelo próprio presidente da firma, Jac Holzman.

"HOLLYWOOD BABYLON". O cineasta maldito Kenneth Anger sabe, ou inventa que sabe, de mil micos e histórias estranhas dos artistas de Hollywood. Tanto que colocou todos os que conhecia (ou que supostamente conseguiu inventar) em seus livros Hollywood Babylon, cujos dois volumes saíram em 1959 e 1984. Anger pegou pesado em revelações, fictícias ou não: a atriz do cinema mudo Clara Bow teria feito sexo com todo o time da UFC, Rodolfo Valentino teria tido um caso com o ator mexicano Ramon Novarro... O cineasta diz também que Ramon, que foi assassinado, teria na verdade morrido engasgado com um pênis de borracha em formato art-déco. Muitos dos casos citados eram pura especulação. Kenneth promete há anos um terceiro volume, que, diz ele, trataria de atores como Tom Cruise e da brigada hollywoodiana que segue a Cientologia. E, de fato, chegou a sair um Hollywood Babylon vol. 3 nos anos 90, mas sem nenhuma participação do ocultista Anger - que prometeu jogar uma praga nos autores.

CHORÃO X CAMELO. Discute-se até hoje quem teria pago mico legítimo naquela briga em que o falecido vocalista do Charlie Brown Jr. deu um soco e uma cabeçada no ex-Los Hermanos Marcelo Camelo. A verdade é que quem tem noções mínimas de polidez e civilidade não sai socando outros por causa de opiniões ou recriminações. Mas Chorão (cujo caso foi considerado "culpa concorrente" pelo juiz que o julgou - dado o fato de Marcelo ter supostamente feito várias declarações desfavoráveis ao vocalista e à sua banda, todas clipadas) andou contando o seu lado da história (aqui e aqui). Sua versão envolve até desentendimentos anteriores com o barbudo. A versão de Camelo está aqui.

JIMI HENDRIX. No livro Are you experienced?, em que detalha sua história ao lado de Jimi Hendrix, o baixista Noel Redding recorda que o frontman do trio chamou Jesus de Genésio durante um show no Madison Square Garden, em Nova York, em janeiro de 1970. Tomou um ácido (que lhe foi dado em péssima hora pelo empresário e suposto vilão Mike Jeffery) e perdeu a linha em pleno show. Perguntou para uma garota na plateia se ela estava menstruada ("posso ver através de suas roupas", teria falado) e abandonou o palco logo na segunda música.

CHUCK BERRY. Nos anos 90, além de lenda do rock, Berry era dono de restaurantes nos Estados Unidos e vivia de forma razoavelmente tranquila. Só que continuava com hábitos nada recomendáveis. Um dia, obedecendo sabe-se lá a que instintos, decidiu instalar câmeras nos banheiros femininos de seus restaurantes. Foi descoberto, processado por mais de 60 clientes mulheres e perdeu mais de US$ 12 milhões nessa brincadeira. Em entrevistas, desculpou-se dizendo que não sabia de câmera nenhuma. Inocente...

RICK JAMES. Um dos inspiradores do batidão que gerou o funk carioca, o americano Rick já aprontava das suas antes da fama. Em 1966, montou um grupo que quase gravou para a Motown, Mynah Birds, e que tinha até Neil Young (o próprio) como guitarrista. Só que Rick era desertor da marinha e ninguém sabia disso - foi preso e o grupo precisou dar um tempo forçado. Em 1993, doidão de drogas, fez mais do que pagar micos. Cometeu dois crimes hediondos. Saindo com uma menina chamada Frances Alley, suspeitou que ela estivesse roubando suas drogas. Em represália, a estuprou por seis dias seguidos e a violentou com um cachimbo quente de crack. Logo em seguida, sequestrou a executiva do mundo da música Mary Sauger e a espancou durante 20 horas. James morreu em 2004 por causa de problemas pulmonares e cardíacos.

PHIL SPECTOR. O corte (oi?) de cabelo bizarro usado por Phil durante o julgamento por assassinato pelo qual passou na década passada (veja imagem aqui) já é, digamos, mico a dar com pau. Mas o hábito do produtor de praticamente torturar os músicos com os quais gravava (mantendo-os presos no estúdio em sessões que se estendiam por dias inteiros) e de apontar pistolas para os artistas que produzia (John Lennon e Ramones foram vítimas) colabora para que ele entre em qualquer lista de famosos com comportamentos bem esquisitos. Durante a gravação do controverso álbum de 1977 de Leonard Cohen, Death of a ladies' man, apontou uma besta (espécie de arma medieval) para o cantor. O crime de Cohen? Ir ao estúdio dar sugestões para a mixagem mesmo após Spector ter proibido sua presença por lá.

JERRY LEE LEWIS. Para os Estados Unidos de 1958, o casamento do rockstar Jerry, então com 22 anos, com sua prima de 13, Myra, foi mais que um grande mico. Foi um abuso quase criminoso, visto que o cantor e pianista foi parar na lista negra das rádios, levou boicote de todo o meio musical e teve uma turnê cancelada. Só em meados dos anos 60 ele foi recuperando a fama. Myra escreveu em sua biografia (transformada em 1989 no filme Great balls of fire) que sofreu muita violência doméstica quando casada com Lewis, inclusive na frente dos filhos do casal. Após o fim do casamento com Lewis, ela casou-se de novo e tornou-se corretora de imóveis.

CHICO BUARQUE. O cantor de Futuros amantes, Olhos nos olhos, Ela faz cinema e outros clássicos reveladores da alma feminina manteve uma postura igualmente reveladora quando pipocou na mídia a polêmica do grupo Procure Saber, que reunia uma porrada de artistas encabeçados pela empresária Paula Lavigne. Num bizarro artigo para o jornal O Globo, acusou o jornalista Paulo César de Araújo de não tê-lo entrevistado para a pesquisa que gerou o livro proibido Roberto Carlos em detalhes - coisa que Paulo desmentiria no dia seguinte com um vídeo da entrevista. Rolou também uma discussão a respeito de aspas pinçadas por Paulo de uma suposta entrevista que Chico teria/não teria dado nos anos 70 ao extinto jornal Última Hora - o assunto ocupa algumas páginas do livro O réu e o Rei. Seja como for, o ato de Chico repercutiu muito mal, até por seu passado de resistência à ditadura e pela maneira como o Procure Saber já vinha aparecendo nos jornais.

GILBERTO GIL. O cantor baiano tem um currículo artístico à prova de micos. Até o período em que se meteu com política, nos anos 80, visando à prefeitura de Salvador, costuma passar batido. Atender ao pedido da amiga Elis Regina para participar de uma suspeitísisma passeata contra a guitarra elétrica, em 1967 - e que na verdade era uma armação da então poderosa Rede Record para promover o programa Frente única da Música Popular Brasileira - talvez tenha sido o maior dos seus vexames, visto que seu disco de 1968, Gilberto Gil, traria guitarras em praticamente todas as músicas.

ELIS REGINA. "Por seus erros, por se descontrolar, por se desentender com os outros e consigo própria, Elis descobriu ao longo da vida o direito de mudar de ideia", diz a apresentação da biografia Furacão Elis, no próprio site da autora do livro, Regina Echeverria. Ocorridas numa era em que o posicionamento político era cobrado de maneira bem veemente e residia nos detalhes, essas mudanças de trajetória botaram a cantora em maus lençóis. Poucos anos após participar da passeata contra a guitarra elétrica, gravava até Beatles em Ela, de 1971. Em 1972, participou do show da Olimpíada do Exército (obrigada pelos militares, como sempre disse) e foi enterrada por Henfil no cemitério do personagem Cabôco Mamadô - ouviu cobranças por causa disso durante muito tempo. Hoje, fica a impressão de que o grande mico foi mesmo do clima de patrulhamento dos anos 70, e não de Elis.

GLENN DANZIG. Mauzão, fortão, tatuado e cascudo, o baixinho vocalista da banda de heavy metal Danzig passou por isso em 2004. Levou um baita soco do cantor do grupo de metal North Side Kings, Danny Marianino, após uma discussão de bastidores. Como havia uma câmera gravando toda a cena, Danzig decidiu não reagir, temendo processo. "Vários amigos meus perderam dinheiro com isso, dando porrada nos outros e sendo processados. Um amigo trabalhou com o Guns n Roses e disse que quando o Duff McKagan (ex-baixista) ia aos clubes, sempre teria um cara que o provocava, e que tinha um amigo com uma câmera. No dia seguinte, se ele reagisse, processo de um milhão de dólares a caminho", disse o baixote ao Blabbermouth. Marianino, por sua vez, recebeu milhares de e-mails odiosos de fãs do Danzig, além de muito cyberbullying. Tanto que decidiu publicar um livro sobre a experiência, Don't ever punch a rockstar - A collection of hate mail & other crazy rumours.

FRANK BLACK. Lançado em 2006, o DVD Loud quiet loud era um documentário sobre a turnê de "volta" da banda, dois anos antes. Com exceção do guitarrista Joey Santiago, que se mantinha sereno, todo mundo do quarteto teve seu momento de piração. A baixista Kim Deal precisava ser cuidada pelos pais e pela irmã gêmea para não sucumbir ao álcool e às drogas. O baterista David Lovering (que, antes da volta da banda, sustentava-se com shows de mágica e catação de objetos de metal na praia) começou a se entupir de remédios legais no meio da tour. O mico (voluntário) ficou com o líder Black Francis/Frank Black, que deixou-se filmar em situações nada gloriosas: demonstrando extrema má vontade para acertar detalhes do novo disco solo com um produtor, fazendo uma bateria de entrevistas por telefone na cama do hotel usando apenas cuecas, repetindo frases de auto-ajuda antes de dormir no ônibus de excursão, virando a cara para não cumprimentar fãs, etc.

TIM MAIA. A infância e adolescência passadas na "universidade das ruas" da Tijuca pode até ter dado vivência ao cantor, que disse ter aprendido cedo tudo sobre "roubos, drogas, seringas" e ser diplomado em "dor de corno e sofrências". Pessoas que conheceram o Tim pré-fama dizem que o futuro astro do soul e da MPB costumava ser acometido de medos bem estranhos - amigos costumavam fingir que iam se atirar do trem ou cortar o pescoço com uma faca só para pôr medo no cagão Tim Maia. No livro Noites tropicais, de Nelson Motta, o artista aparece recusando-se a subir no bondinho para um show no Morro da Urca ("só entro nessa porra com anestesia geral", disse). Em Vale tudo, bio do cantor também assinada por Nelson, Tim obriga um motorista que vai pegá-lo em casa para um compromisso a não passar dos 40 km por hora. Bem...

KISS. Muitos fãs do grupo americano hão de concordar: a fase em que o quarteto passou a se apresentar sem máscara, em busca de maior reconhecimento de seu som e do peso de suas músicas, foi um baita vexame. O primeiro show da turnê de cara limpa foi, ora pois, em Portugal, em outubro de 1983, quando lançavam o disco Lick it up. Isso durou até 1996, quando voltaram com o line-up dos bons tempos, as roupas de couro (igualmente abandonadas na nova fase) e as maquiagens. De cara limpa, brotaram hits esparsos e álbuns meio mais ou menos, como Crazy nights (1988) e Hot in the shade (1989, do hit Forever).

PLAYBACK. O recurso é usado largamente em grande apresentações de alguns anos para cá: Madonna, Chris Brown, Britney Spears, Shakira e Katy Perry já foram flagrados lutando para sincronizar os movimentos labiais com as vozes que rolavam no fundo - com resultados que vão do desastroso ao engraçadíssimo. No universo do rock, os Red Hot Chili Peppers levaram pedradas de fãs e não-fãs quando confessaram que apenas os vocais de Anthony Kiedis não eram dublados no show da banda no SuperBowl, em fevereiro. "A NFL (Liga de Futebol Americano) não queria ter um som ruim, isso não estava em discussão", argumentou o baixista Flea, por escrito. No mundo do rap, uma falha técnica deixou 50 Cent sem palavras (e sem ação) durante seu show no BET Awards, em 2007.

DINHO OURO-PRETO. Reconhecido pelo próprio cantor, o show do Capital Inicial no último Rock In Rio foi um baita mico. Abusando do "cara" e do "véio" que usa a toda hora, tropeçou num discurso contra o deputado Natan Donadon - julgado pela câmara, mas com mandato mantido - e ainda pôs um nariz de palhaço. "Pelo nervosismo, pensei: 'Putz, isso começou errado. Não devia nem ter começado. Devia ter dito outra coisa'", disse ao UOL. Bom, discursos estranhos no Superstar e notas boas dadas a bandas horrorosas à parte...

BJORK. "Bem vinda a Bangkok". Bastou ouvir essa frase para a cantora islandesa atacar a repórter de TV Julie Kaufman, que a esperava no aeroporto da capital da Tailândia. Pulou em cima da jornalista, puxando seus cabelos e rasgando sua roupa. Bjork, visivelmente estressada na ocasião (e acompanhada pelo filho), pediu desculpas por seu comportamento mas alegou estar "sendo perseguida" pela jornalista há quatro dias. Em 2008 atacou o fotógrafo Glenn Jeffrey, do New Zealand Herald e rasgou sua camisa, quando ele a clicava após sua chegada no aeroporto de Auckland, Nova Zelândia.

ELVIS PRESLEY. O rei do rock não se considerava um junkie - todas as drogas que usava eram legais e conseguidas com prescrição médica (de procedência para lá de duvidosa). Mas sete anos antes desses mesmos medicamentos lhe tirarem a vida, ele se ofereceu para ajudar na luta anti-drogas do governo Nixon, e, como é público e notório, encontrou-se com o presidente. Mais: disse também que poderia "influenciar o movimento hippie a deixar as drogas". Mais ainda: memorandos da época documentam que Presley afirmou durante o encontro que "os Beatles eram uma força antiamericana. Vieram a este país, ganharam dinheiro e voltaram para a Inglaterra promovendo um tema antiamericano" (as drogas e a contracultura, satanizadas pelo governo Nixon). Lançado em 1997, o filme Elvis meets Nixon, de Allan Arkush, trata disso.

YOU TUBE. Aparentemente o portal está em vias de cometer um mico fenomenal e histórico com a possível exclusão de gravadoras independentes caso elas não aceitem as condições do novo serviço de streaming da empresa. Além disso, boa parte das grandes gravadoras e emissoras de TV já vêm tirando vídeos do ar e deixando mais pobre o que era para ser um espaço livre.

LEGIÃO URBANA. De acordo com uma pesquisa feita pelo Fantástico após a matéria a respeito da briga entre a dupla Dado-Bonfá e o herdeiro de Renato Russo, seu filho Giuliano Manfredini, 97% dos telespectadores dão razão aos ex-companheiros de Renato na disputa por direitos envolvendo o nome Legião Urbana. Quem está certo, discute-se na justiça. Mas é um grande mico existir um site da banda sem que haja participação dos ex-integrantes - com a vida dos dois sendo contada lá. E, enquanto isso, Por enquanto surge na propaganda da cerveja Brahma, vexame maior ainda em se tratando de um grupo cujo líder já deu esporro em dois músicos que puxavam palmas da plateia, berrando que "essa é uma banda séria, não admito isso!".

OZZY OSBOURNE. Doidão milenar e homem à prova de constrangimentos (é só dar uma lida rápida na autobiografia Eu sou Ozzy para ter certeza disso), o ex-atual-Black Sabbath cometeu um crime em 1988 que quase o fez incinerar a própria carreira, de forma bastante séria. Ozzy tentou estrangular sua mulher Sharon Osbourne. "Ele foi para a cama. Eu estava descendo as escadas. Ele desceu de pijama, sentou-se bem à minha frente e disse: ‘Chegamos a uma conclusão’", relatou a empresária. "Eu fiquei bem sarcástica e disse: ‘É mesmo? Que decisão é essa?’ e ele disse: ‘Sinto muito, mas achamos que você tem que morrer. Não há outra opção’. Eu o mandei calar a boca e ele pulou sobre mim, agarrou meu pescoço”. Sharon apertou um botão para chamar a polícia. Ozzy escapou e foi preso alguns dias depois, fora de órbita - ao acordar na prisão, não fazia a menor ideia do que havia feito para estar lá. Foi perdoado e teve sua queixa retirada pela mulher, com quem está até hoje.

TODAS AS LISTAS DE QUARENTA:

- quarenta discos de 1974 parte um dois
- quarenta micromúsicas
- quarenta momentos em que a macumba virou pop
- quarenta músicas que você tem que ouvir parte um e dois
- quarenta melhores momentos de Hermes & Renato
- quarenta fatos sobre o Abba
- quarenta discos de 1984 parte um dois
- quarenta fatos sobre o Menudo.