sexta-feira, 30 de maio de 2014

A FARRA DO CIRCO - O FILME

O filme A farra do Circo enfoca o período 1982-1986 do Circo Voador e está em exibição todos os dias na Fundição Progresso, além dos cinemas.

O filme traz a época em que Perfeito Fortuna era um dos comandantes da lona voadora. Maria Juçá, que lançou recentemente o livro Circo Voador - A nave, anuncia também sua versão cinematográfica da história. Conversei com os dois e com os diretores do filme.

Importante: Fortuna falou de Juçá, Juçá respondeu Fortuna. O livro dela (um relato excelente, por sinal) continua à venda. O filme dele continua passando. Ninguém mandou ninguém calar a boca, nem tirou nada (livro e filme) de circulação. E depois Roberto Carlos que é o "rei".

Do lado do textinho acima, você ainda confere a matéria que Leandro Souto Maior fez com a atriz que está interpretando Cássia Eller num musical. O link original está aqui.


FILME A FARRA DO CIRCO ESTREIA COM BÊNÇÃO DE PERFEITO FORTUNA
Longa traz Circo Voador entre 1982 e 1986 e será exibido na Fundição Progresso
Publicado em O Dia em 29 de maio de 2014

A exibição para convidados do filme A farra do Circo anteontem, na Fundição Progresso, não serviu para reconciliar os ex-amigos Perfeito Fortuna (um dos criadores do Circo Voador, cujos quatro primeiros anos são relatados no filme) e Maria Juçá (diretora do Circo). Brigados desde os anos 80, os dois mostram visões diferentes sobre seus períodos à frente da lona. O filme de Roberto Berliner e Pedro Bronz enfoca os quatro primeiros anos do Circo e deixa Juçá de fora.

Fortuna afirma não ter lido Circo Voador — A nave, livro no qual Juçá conta sua história sobre o espaço e dá puxões de orelha públicos nele. “Nem me interessei. Ela se apropriou de uma história e é isso. Apenas sigo minha direção”, responde Fortuna.

Juçá, que prepara sua versão cinematográfica da história com o filme A nave, dirigido por Tainá Menezes, assistiu à Farra e o considera “uma versão legal e honesta daquela época do Circo. Mas não me apropriei de nada. Conto ali a minha versão. Até desapropriei, na realidade. Botei outras pessoas para contarem suas versões. O Perfeito é que se apropriou do Circo e entregou a casa falida, como conto no livro”, devolve Juçá, dizendo não ter sido convidada para o lançamento na Fundição.

Berliner começou a filmar o Circo em 1982, quando a lona era no Arpoador. “Eu fazia parte de um dos grupos de teatro e comecei a achar aquilo interessante. O filme tem planos longos, não tem narração, pega um pedaço pequeno do material”, relata. Ele e Bronz já haviam dirigido Herbert de perto, sobre Herbert Vianna, dos Paralamas. “Conheci o Herbert nessa época, no Circo”, diz o diretor.

Imagens raras de shows de Paralamas do Sucesso, Celso Blues Boy, Barão Vermelho e até do grupo de teatro Asdrúbal Trouxe o Trombone — lançando o LP A farra da Terra, de 1983 — estão lá. O encerramento do longa se dá com a viagem do Circo para a Copa do México, em 1986, interrompida abruptamente pela desistência da Coca-Cola mexicana de patrocinar a delegação. “Mostramos uma época em que o espírito era mais horizontal do que vertical”, afirma Bronz.

Além dos cinemas, Fortuna afirma que o filme será exibido diariamente na Fundição, às 19h.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

LAUDIR DE OLIVEIRA

Bati um papo com o lendário percussionista Laudir de Oliveira há algumas semanas, quando ele fez um show no Rio de Janeiro.
Curtam aí a conversa. Evidentemente a matéria só serve de registro histórico porque o show já rolou...


LAUDIR DE OLIVEIRA FAZ SHOW E CONTA SUA HISTÓRIA NA PERCUSSÃO EM AUTOBIOGRAFIA
Publicação feita com o jornalista Washington Araújo está prevista para o segundo semestre
Publicado em O Dia em 14 de maio de 2014

Ex-percussionista da banda pop Chicago, o carioca Laudir de Oliveira, 74 anos, mora em Ramos com a mulher e nem sabe onde estão os discos de ouro que ganhou com o grupo, além de um Grammy. “Quando voltei ao Brasil, deixei lá. Já devem ter leiloado tudo”, brinca o músico. Ele comemora cinco décadas de percussão preparando uma autobiografia (feita com o jornalista Washington Araújo e prevista para o segundo semestre). E toca sexta-feira no festival Cais do Porto Musical, que comemora 20 anos do Centro Cultural Ação da Cidadania.

Ele e os colegas Carlos Negreiros, Jovi Joviniano e Murilo O’Reilly fazem o show Canto negro, só com músicas de matriz africana, às 20h. No mesmo dia, às 19h, Nei Lopes faz a palestra Os primeiros escravos africanos: música e religião. O festival abre na quinta, às 15h, com Negreiros ministrando uma oficina de percussão para alunos da rede pública.

“Além de tocar, vou cantar em iorubá e banto”, diz Laudir, que roda o mundo desde os anos 60, quando excursionou com o grupo folclórico Mercedes Batista e com o grupo afro-brasileiro Brasiliana, do qual foi também dançarino e diretor da companhia. “Eu arrumava hotel, fazia pagamentos. Eu sabia bem dos ritmos do candomblé, mas nem pensava em ser músico, nunca fui educado para isso”, exagera.

Em 1969, ganhou o batismo pop: tocou no álbum de estreia do americano Joe Cocker, With a little help from my friends. “Lembro que vi tanta droga e hippies cabeludos que quase saí correndo do estúdio”, brinca.

Depois disso, excursionou com Sergio Mendes e, em 1973, viria o Chicago, no qual ficou até 1981. “Quando vieram ao Brasil em 2010, toquei com eles. Os músicos que sobraram lá nem se falam”, diz. Em meio às turnês, tocou em Destiny, disco de 1978 dos The Jacksons. “O Michael Jackson, nessa época, era só um garoto normal, humilde. Depois que voltei dos EUA, ele até contratou minha empregada, que era testemunha de Jeová como ele”, conta.

terça-feira, 27 de maio de 2014

RUBENS LIMA JR

Um papo com Rubens Lima Jr sobre a peça The Book of Mormon, que ele dirige, e que levou do palco da Uni-Rio (onde dá aulas) para a Cidade das Artes.

Saiu em O Dia. Link original aqui.

PEÇA "THE BOOK OF MORMON" EMPLACA SEGUNDA SEMANA NA BARRA
Encenada na Broadway em 2011, a peça fala sobre dois jovens missionários mórmons enviados à África

O teatro musical sempre fez a cabeça do diretor Rubens Lima Jr. “Meu primeiro trabalho como professor, em 1980, O tambor do Tereré, já era musical infantil”, recorda. Ele leva seus conhecimentos para as aulas de interpretação que ministra na Uni-Rio, das quais sempre saem releituras de sucesso. Como a encenação de Tommy, de Pete Townshend (The Who). E, agora, a de The Book Of Mormon, de Trey Parker e Matt Stone, criadores da animação South Park, que emplaca a segunda semana na Cidade das Artes, de amanhã a domingo, com entrada franca.

Encenada na Broadway em 2011, a peça fala sobre dois jovens missionários mórmons enviados à África. A encenação de Rubens lotara a Sala Paschoal Carlos Magno da Uni-Rio em 2013, atraindo celebridades para a plateia, como Fernanda Montenegro. “Em termos de teatro de pesquisa em escola, tivemos um reconhecimento inesperado: críticas em jornais, a imprensa acompanhando”, afirma ele, indo para o sétimo ano de trabalho na Uni-Rio. “Não temos a estrutura de uma Broadway ou de um teatro londrino, mas seguimos batalhando.”

As peças de Rubens revelam artistas para outros musicais e programas de TV. “O Victor Maia, nosso coreógrafo, já está no Caldeirão do Huck. A Larissa Landim, protagonista da peça, fez participação no remake da novela Gabriela. E todos foram convidados a fazer cadastros na Rede Globo”, conta. “A tendência é que eu perca, com muita felicidade, todos esses alunos para o mercado. E o Brasil é o terceiro maior produtor de teatro musical do mundo.”

Anteriormente, Rubens já levara aos palcos Cambaio, baseado no disco de Edu Lobo e Chico Buarque. E Tommy, originado do disco do Who de 1969. Na hora de traduzir os versos de Pete Townshend, sempre complicados, mantiveram a fidelidade. “O Alexandre Amorim, professor da Uerj, faz as traduções. Queremos que as letras tenham certa brasilidade, certa fluência. É um desafio bem grande.”

SAMBA NO MUNICIPAL

O Dia visitou os ensaios do show do 25º Prêmio da Música Brasileira, que em 2014 homenageou o samba. Foi tudo lá no estúdio Floresta, no Cosme Velho. Confira aí (link original aqui).

Isso foi antes, claro, de surgir aquela foto do Dudu Nobre com um fuzil na mão - senão isso teria sido perguntado...

O DIA MOSTRA BASTIDORES DO ESPETÁCULO DO 25º PRÊMIO DA MÚSICA BRASILEIRA
Dudu Nobre, Arlindo Cruz, Xande de Pilares e Rildo Hora abrem o estúdio para acompanharmos os ensaios para os shows da edição de 2014 da premiação
Publicado em 13 de maio de 2014 em O Dia

Alto e dono de um registro de voz grave e imponente, o maestro Rildo Hora é daquelas pessoas que, mesmo primando pela discrição, chamam a atenção por onde passam. Baixinhos perto de Rildo, Xande de Pilares e Dudu Nobre ouvem atentamente as dicas do maestro sobre os vocais de um dos maiores clássicos do samba, É luxo só.

A canção de Ary Barroso e Luiz Peixoto é uma das músicas que a dupla ensaia no estúdio Floresta, no Cosme Velho, para a 25ª edição do Prêmio da Música Brasileira, que acontece amanhã no Theatro Municipal do Rio de Janeiro (com direito a mais dois shows por lá na quinta e na sexta). Dudu e Xande trançam vozes com a do maestro, que tira dúvidas dos dois nas letras e os ajuda a entrar no clima da música que já foi gravada por Elizeth Cardoso e Gal Costa.

A nova edição é a primeira em que um gênero musical — o samba — é homenageado, e não um artista. A comemoração tem consultoria de Beth Carvalho e reúne nomes como Baby do Brasil, Maria Bethânia e Paulinho da Viola, lembrando clássicos do estilo. Nomes como Xande de Pilares, Arlindo Cruz, Dudu Nobre, Almir Guineto, Zeca Pagodinho e até a internacional Angélique Kidjo sobem ao palco, em duos ou trios. Além dos dois shows do Rio, a turnê passa por São Luís (MA), dia 20; Belém (PA), dia 22; Parauapebas (PA), dia 25; Belo Horizonte (MG), dia 28; Vitória (ES), dia 31; e Corumbá (MS), dia 3 de junho.

O repertório traz lembranças a Dudu e Xande. “Eu e Dudu cantamos agora no ensaio Me deixa em paz (Monsueto) e essa música me traz lembranças da época em que a gente levava as meninas para dançar de rosto colado nos bailes. Hoje ninguém mais dança assim, né?”, brinca Xande, hoje um ex-Revelação, que cantou Do jeito que a vida quer, de Benito di Paula, no ensaio. “É uma música em homenagem ao (sambista) Ataulfo Alves (1909-1969). O grande prêmio que o samba recebeu foi ser homenageado nessa premiação. É a prova de que todos aqueles sambistas que foram perseguidos pela polícia estavam certos.”

No ensaio, Dudu Nobre soltou a voz em Do fundo do nosso quintal, do Fundo de Quintal, e em músicas que ele mesmo compôs para Zeca Pagodinho, como Vou botar seu nome na macumba e Quem é ela. “Algumas músicas eu nem me lembrava mais! O bom é que o repertório sai daquele lugar comum das músicas que sempre são cantadas”, alegra-se.

Arlindo Cruz, mestre dos dois, chega mais tarde e é reverenciado pelos músicos presentes — gente como Lula Galvão (violão), Jorge Helder (baixo) e os percussionistas Pretinho da Serrinha, Adilson Didao, Nene Brown e Jorge Quininho. Músicas como Vai vadiar (do repertório de Zeca Pagodinho) e Pedi ao céu (do repertório de Beth Carvalho) estão previstas para serem cantadas por ele. Arlindo é daqueles que vê um sambista em cada músico brasileiro.

“Nem que ele seja roqueiro ou erudito, todo músico brasileiro um dia vai cantar um samba, pô. Todo mundo tem um samba na trilha sonora da vida”, teoriza. “E tem mais: o samba vai começar um novo ciclo. Esse ano é o samba 1, e ano que vem tem o samba 2”, brinca, profético, lembrando as entrevistas viajantes de Tim Maia.

Em meio aos ensaios, Xande continua seguindo a agenda do seu ex-grupo Revelação, e se prepara para cantar solo. “Eu cantava sozinho quando trabalhava na noite. Mas a princípio dá medo, porque não é a mesma coisa. O importante é dar continuidade ao trabalho e botar a mão na massa. E isso a gente sabe fazer porque aprendemos juntos!”, conta ele, saudando a entrada de Almirzinho, filho de Almir Guineto, para os vocais do grupo. Os dois são amigos.

“Quando ele fazia o pagode na Barraca do Louro, no Salgueiro, eu o substituí lá”, recorda. “Quando estivemos no Carnaval de Salvador, ele estava no trio com a gente e ia para o meu lugar quando eu precisava ir ao banheiro. Almirzinho tem história com o Revelação e não está lá à toa. Vai tirar a onda dele.”

quinta-feira, 22 de maio de 2014

QUARENTA MICROMÚSICAS

É possível fazer música boa em pouquíssimo tempo de duração?

O recurso de usar vinhetas já foi levado a sério por algumas bandas de rock na hora de compor discos mais experimentais, brincalhões e/ou elaborados - como Tommy, do The Who, ou Abbey Road, dos Beatles. Em outros casos, como nas curtas faixas da estreia dos Secos & Molhados, já mostrou que é possível criar miniobras de arte com pouco mais ou pouco menos de um minuto.

Já no caso de bandas punk ou de hardcore, o lance chega a tangenciar o ultraje. Há grupos que têm o maior prazer em lançar LPs de quinze minutos, com quinze faixas ou até mais - e bandas como os Minutemen, especialistas em canções curtíssimas.

Como peguei mania de fazer listas de quarenta itens (leia as outras aqui, aqui e aqui) seguem aí quarenta músicas que você pode gravar num CD-R e ouvir em menos de quarenta minutos.
"YOU SUFFER" - NAPALM DEATH. O encerramento do LP Scum, estreia da banda britânica de grindcore, dura exatos 0:01. O mais engraçado é que a canção (eita) chegou a ser lançada como single.

"A LAMBADA" - CASSETA & PLANETA. Quatro segundos de música composta por H. Shibata (brincadeira com o médico legista Harry Shibata, que declarava como suicídios mortes de militantes políticos durante tortura no regime militar) e tocada pela dupla "Bussulivan e Brassadas" para o primeiro LP da trupe, Preto com um buraco no meio (1989). Na época era engraçado (baixe o disco aqui).

"BLOCKHEAD" - D.R.I. Antes de se tornar uma banda crossover, o grupo punk americano compunha canções de menos de um minuto e encaixava, às vezes, 15 faixas num só lado. Essa aqui, do Dirty Rotten LP (1983) ameaça uma baladinha metal e depois cai na roda de pogo, em 0:55.

"TELEPHONE CONVERSATION" - MOTHERS OF INVENTION. Quarenta e oito segundos de um papo telefônico bizarro tirado de We're only in it for the money (1968), de Frank Zappa.


"SONG FOR EL SALVADOR" - MINUTEMEN. O próprio nome dessa banda americana de hardcore já entrega que sua especialidade são músicas com menos de um minuto. E também eram mestres em fazer álbuns que duravam no máximo 20 minutos, com nove músicas em cada lado. Na estreia The punch line (1983) gravaram esse tema instrumental de 33 segundos.

"A FACE DO DESTRUIDOR" - TITÃS. O que na demo original disco Cabeça dinossauro (1986) era um hardcore simples - e inédito em se tratando de rock brasileiro mainstream - ganhou impacto com fitas rodadas ao contrário e riffs de teclado. Quarenta segundos.

"BRAINEATERS" - MISFITS. Com Glenn Danzig nos vocais, a banda punk encerrou Walk among us (1982) com 58 segundos de miniterror baseados no clássico The brain eaters (1958), de Bruno VeSota.

"COSMIC CHRISTMAS" - ROLLING STONES. A vinheta de 0:41 que surgia logo após Sing this all together (See what happens) em Their satanic majesties request (1967). Isso que você ouve aí, distorcidíssimo, são os votos de feliz Natal e próspero ano novo da banda britânica.


"EMBRYO" - BLACK SABBATH. Uma das primeiras tentativas de incluir um som mais acústico no repertório do grupo inglês - na verdade, trinta segundos do guitarrista Toni Iommi dedilhando uma cítara. É do Master of reality (1971), terceiro álbum dos pais do heavy metal.

"HER MAJESTY" - BEATLES. O verdadeiro canto de cisne dos Beatles dura 23 segundos e encerra Abbey road (1970).

"CAMINHOS II" - RAUL SEIXAS. Vinheta do álbum Novo aeon (1975) e continuação do forró-rock Caminhos. Creditada a Raul, Paulo Coelho e Eládio Gilbraz, que foi colega do cantor baiano no grupo Raulzito e Os Panteras e aparece fazendo a segunda voz na música.

"QUE VERGONHA" - RATOS DE PORÃO. No disco Crucificados pelo sistema (1984), o Ratos gravou essa música do grupo paulista Olho Seco.



"SAMBA DO AVIÃO" - OS MULHERES NEGRAS. Em Música e ciência (1989), André Abujamra e Mauricio Pereira brincavam com a repetição de acordes e refrões que rola em sucessos pop criando uma tal de "micromusik" - o disco era repleto de música bem curtinhas. Uma delas era essa versão maluca do clássico de Tom Jobim, com Mauricio cantando e imitando instrumentos com a boca.

"WILD HONEY PIE" -  BEATLES. Uma das maluquices que os Beatles colocaram no Álbum branco (1968). Dura apenas 52 segundos e traz apenas Paul McCartney cantando e fazendo experimentações de estúdio.

"LOVELY LINDA" - PAUL McCARTNEY. A minibaladinha que abria McCartney, estreia solo de Paul, em 1970.

"OI, TUDO BEM" - GAROTOS PODRES. A primeira música do disco Canções para ninar (1993) é popular a ponto de ter aparecido em vários "about me" de pessoas na época do auge do Orkut.


"YEAH" - KYUSS. Faixa de encerramento de um clássico do stoner rock, o disco Blues for the read sun (1992). Sete segundos de... "yeah".

"BOSSA" - PLANET HEMP. Trinta e quatro segundos de bossa nova, do segundo disco do Planet Hemp, Os cães ladram mas a caravana não para (1997), produzido por Mario Caldato. O álbum representou a descoberta dos grooves históricos da MPB pelo grupo.

"ROBERTA" - KLEIDERMAN. O projeto de Sergio Britto e Branco Mello (Titãs) gravou seu único disco em 1994, Con el mundo a mis pies. Entre as faixas, essa curta (cinquenta e oito segundos) homenagem à baterista Roberta Parisi, que acompanhava a dupla.

"SOLAR PANEL ASSES" - LOCUST. Do clássico grind Plague soundscapes (2003): vinte e seis segundos de tudo desabando.



"ÀS VEZES O DIABO É MAIS GENTE BOA QUE DEUS" - MUKEKA DI RATO. Banda punk capixaba. Em uma música de 48 segundos do disco Acabar com você (2001), recomendam: "Às vezes o Diabo é mais gente boa que Deus/seja amigo do Diabo, mantenha o xaveco com Deus".

"APESAR DE TUDO É MUITO LEVE" - WALTER FRANCO. Bossa nova meditativa de nove segundos, do álbum Revolver (1975).

"CADEMAR" - TOM ZÉ. Quarenta e seis segundos de normalidade num dos discos mais criativos e malucos de Tom Zé, Todos os olhos (1973).

"EXTRA EXTRA" - THE WHO. Em Tommy (1969), o personagem principal, já convertido no mago do pinball, conseguia a cura milagrosa e passava a ouvir, falar e enxergar. Trinta e cinco segundos.


"LITTLE ROOM" - WHITE STRIPES. Boogie só de voz e percussão, com 55 segundos, do disco White blood cells (2001).

"SYSTEM" - CRASS. Cinquenta e oito segundos de ska violento, da mais hippie das bandas punks.

"MATEUS ENTER" - CHICO SCIENCE E NAÇÃO ZUMBI. A introdução do disco Afrociberdelia (1997), com seus 33 indispensáveis segundos. Foi citada pelo Planet Hemp em Hemp family, do álbum Os cães ladram mas a caravana não para (1997)

"PETECA" - MERDA. Ícones do punk rock nacional recente, os capixabas do Merda continuam fazendo canções mínimas em discos mais novos, como essa música de 49 segundos do álbum Índio cocalero (2012).


"CHANGE OF IDEAS" - BAD RELIGION. Cinco anos antes do estouro com Stranger than fiction (1994), essa longeva banda punk americana abria um de seus mehores discos, No control (1989), com 56 segundos de protesto. Ao ler o encarte, a primeira coisa que vem à cabeça é "será que o vocalista (Greg Graffin) vai conseguir encaixar tudo isso em uma música de menos de um minuto?". E ele consegue.

"ELIZABETH MY DEAR" - STONE ROSES. Entrou raspando: com 59 segundos, faltou um segundo para ficar de fora desta lista. Baladinha curtíssima da estreia do grupo britânico, Stone roses (1989).

"AS ANDORINHAS" - SECOS & MOLHADOS. Com 56 segundos, a maior prova de que dá para fazer músicas muito bonitas em menos de um minuto. E deve ter dado trabalho pra fazer.

"CASBAH ROCK" - UNDERTONES. Rockzinho de 47 segundos que fechava o primeiro álbum dessa banda punk irlandesa, The Undertones (1979). Nessa versão ao vivo, ele é acrescido de um pouco mais de tempo: dez segundos.

"RED TAPE" - CIRCLE JERKS. Cinquenta e oito segundos de protesto contra impostos abusivos. É a faixa de encerramento do primeiro disco dessa banda americana de hardcore, Group sex (1980), repleto de músicas tão breves e demolidoras quanto essa - o álbum comprime 14 músicas em 15 minutos.

"MY MUMMY'S DEAD" - JOHN LENNON. Tristíssima canção de 49 segundos que encerrava John Lennon/Plastic Ono Band, estreia solo de John Lennon (1970).

"DON'T SIT DOWN" - DAVID BOWIE. Vinhetinha boba de 43 segundos que David Bowie gravou em seu álbum David Bowie (1969). Quando o disco foi reposto nas lojas com o nome Space oddity (a partir de 1972), a música ressurgiu colada a Unwashed and somewhat slightly dazed, que a precede. E chegou a ser suprimida de algumas reedições.


"IT'S JOHNNY'S BIRTHDAY" - GEORGE HARRISON. 
Brincadeirinha do beatle quieto, gravada no triplo All things must pass (1970) e que era uma homenagem ao amigo John Lennon, que completava 30 anos naquele ano.



"MEANT FOR YOU" - BEACH BOYS. Tristíssima e lindíssima canção de 40 segundos do álbum Friends, de 1968.

"VIETNAM SERENADE" - CONFLICT. Quarenta e nove segundos de berraria, gravada ao vivo no EP Live at Centro Iberico (1982). O Conflict era formado por anarco-punks ingleses.

"SHORT SONGS" - DEAD KENNEDYS. "Eu gosto de canções curtas/eu gosto de canções curtas/eu gosto de canções curtas (repete até enjoar)". Trinta e um segundos de sons punks, do disco Live at The Deaf Club (gravado em 1979 e lançado em 2004).

"FIVE PERCENT FOR NOTHING" - YES. A contribuição solo do baterista Bill Bruford para o quarto álbum do Yes, Fragile (1971). Trinta e sete segundos.

TODAS AS LISTAS DE QUARENTA:

- quarenta discos de 1974 parte um dois
- quarenta micromúsicas
- quarenta momentos em que a macumba virou pop
- quarenta músicas que você tem que ouvir parte um e dois
- quarenta melhores momentos de Hermes & Renato
- quarenta fatos sobre o Abba
- quarenta discos de 1984 parte um dois
- quarenta fatos sobre o Menudo.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

GÓ GÓ BOYS

Um papo com a turma do grupo vocal Gó Gó Boys, que faz show nesse fim de semana e imita guitarras, baixo, bateria, teclados, metais e tudo o que você puder imaginar usando as próprias vozes (leia o link original do jornal O Dia aqui).


GRUPO GÓ GÓ BOYS LANÇA SEU CD DE ESTREIA
No repertório, 11 músicas autorais em que todos os instrumentos são reproduzidos no gogó, pelos cinco
Publicado em O Dia em 21 de maio de 2013

A história dos Gó Gó Boys começa com um pedal de guitarra. “Escutamos o efeito que um oitavador (tipo de pedal) provocava e resolvemos fazer o mesmo com a garganta. E partimos para outros instrumentos”, relembra Fabiano Lacombe. Ele e os amigos Cicero Melo, Marcelo Rezende, Marcio Pizzi e Rafael Pissurno lançam o CD Gó Gó Boys sábado domingo, no Solar de Botafogo. E, nos dias 1º e 8, na Sala Baden Powell, em Copacabana. No repertório, 11 músicas autorais em que todos os instrumentos são reproduzidos no gogó, pelos cinco.

“No show, tem também releituras e muita coisa que não é só música. Cantamos o tema dos Muppets e tem toda uma encenação”, conta Fabiano. “Dois dos Gó Gó Boys têm um estúdio, daí temos tempo para experimentar coisas novas. No disco, é tudo voz, mas usamos muitos pedais de efeito .”

À maneira de grupos como os paulistas Premeditando o Breque e Língua de Trapo, e roqueiros como Blitz e Ultraje A Rigor (todos citados por Fabiano como influências), o Gó Gó Boys une humor e música, em letras e melodias. “Também adoramos grupos vocais americanos. O Cícero fez curso de percussão vocal nos Estados Unidos”, conta Lacombe.

No disco, fazem uma salada de rock, samba, dance music e até baião, em canções como A mais acessada da rede (que traz várias tags na letra) e a balada ...É pra você. “Brincamos com nós mesmos em músicas como Nada (que fala de um personagem preguiçoso) e Quem diria. Nessa, falamos de como é chegar aos 30 e não conseguir largar a década de 80. Estamos na eterna juventude”, diz.

Antes do Gó Gó Boys, Cicero, Fabiano Lacombe, Pissurno e Pizzi participaram do grupo Bombando, que também imitava instrumentos com a voz. Um hit da época era a versão em inglês de Fogo e paixão, do repertório de Wando. “Mas paramos de cantar essa porque um ex-colega do Bombando pediu para não usarmos o material do grupo”, diz Lacombe. Ainda assim, rolam sátiras: Single ladies, de Beyoncé, virou Docinho de leite. “E a gente ainda faz a mesma coreografia dela no clipe”, diverte-se o vocalista.

O CORINGA DO CINEMA

Um papo com Matheus Trunk, criador da revista Zingu! (faltou falar isso no texto) sobre o livro que ele escreveu. O coringa do cinema conta a história de um dos maiores faz-tudo da telona no Brasil, Virgílio Roveda, que foi fiel escudeiro de Zé do Caixão por muitos anos.
Leia o link original aqui.

LIVRO RECORDA HISTÓRIAS DA BOCA DO LIXO E CONTA VIDA DE PARCEIRO DE ZÉ DO CAIXÃO
Jornalista Matheus Trunk conta a história de Virgilio Roveda, o Gaúcho, no livro O coringa do cinema
Publicado em O Dia em 21 de maio de 2014

Personagem importantíssimo do cinema paulista, Virgilio Roveda, o Gaúcho, já fez tudo na sétima arte. Foi figurante, assistente de câmera, iluminador, diretor de fotografia. E fiel escudeiro do diretor José Mojica Marins, criador do personagem Zé do Caixão, em filmes como O estranho mundo de Zé do Caixão e Esta noite encarnarei no teu cadáver. “Ele dorme e acorda falando em cinema. E trabalha de forma brilhante”, conta o jornalista Matheus Trunk, que, pesquisando as produções da Boca do Lixo (meca do cinema marginal paulistano dos anos 60 e 70) deparou com a história de Gaúcho. E decidiu contá-la no livro O coringa do cinema (Editora Giostri, 162 págs., R$ 40).

“No Brasil tem sempre gente que faz cinema para aparecer ou namorar atrizes. O Gaúcho trabalhou durante anos ganhando pouco ou, às vezes, até nada. E fazia o que precisasse. Ele chegou a dormir no caixão que o Mojica usava nos filmes do Zé do Caixão”, brinca Trunk. Aos 68, Roveda ainda trabalha e em 2012 dirigiu e produziu Tempestade no arrabalde. “Tudo mudou muito, hoje tem essa coisa de edital, a equipe técnica de um filme é bem maior. Ele tenta se adaptar, mas tem cineastas do tempo dele que não se adaptaram”. Um insólito faroeste dirigido por Mojica em 1972, D’Gajão mata para vingar, foi rodado por ele e Gaúcho em 25 dias. “Eram 100, 150 tomadas num dia”, lembra Gaúcho, que trabalhou em faroestes, eróticos, infantis e documentários.

Boa parte do livro fala justamente sobre os tempos de ingenuidade. Durante a produção de Paixão de um homem, filme estrelado por Waldik Soriano (1972), a equipe, Gaúcho inclusive, foi obrigada a comer caixas e mais caixas de gelatina por causa da desinformação de um produtor. “Pediram ao tal produtor que comprasse gelatina industrial, que serve para fazer alterações na luz. E ele comprou uma quantidade enorme de gelatina comestível. Tinha gente que não aguentava mais comer aquilo”, brinca o escritor, preparando para breve outro livro, Dossiê Boca — Personagens e histórias do cinema paulista.

terça-feira, 20 de maio de 2014

TULIPA RUIZ

Um papo rápido com Tulipa Ruiz sobre a pequena turnê que ela vai fazer pelos Sescs do Rio.

Saiu hoje em
O Dia.


TULIPA RUIZ DESBRAVA CIRCUITO DE SHOWS PELO RIO DE JANEIRO
Cantora abre pequena turnê pelos Sescs do estado, e anuncia tour pela Europa, EP de remixes e loja virtual de roupas
Publicado em O Dia em 20 de maio de 2014

O circuito de shows no Sesc é fortíssimo em São Paulo, mas em terras fluminenses ainda é incipiente. Tulipa Ruiz sobe hoje no palco do Sesc Ginástico e se prepara para, em meio a shows na Europa, desbravar outras filiais da rede no estado do Rio, como a de São João de Meriti (dia 30), Madureira (23 de agosto) e São Gonçalo (31 de agosto). “Estou bem curiosa para ver como vai funcionar no Rio. São Paulo tem uma relação bem legal com os Sescs”, diz Tulipa.

A cantora paulista só deve lançar disco novo em 2015. O que não a impede de continuar produzindo música. Recentemente, ela soltou a faixa Megalomania para download no seu site. Em junho lança o EP Tulipa remixes, com músicas recriadas por Daniel Ganjaman (Víbora) e Rica Amabis (Aqui, com participação de BNegão).

“Pensei que as músicas pudessem ganhar um olhar de fora. E eles são pessoas bastante presentes. O Ganja tocou em meus discos e eu gravei com o Instituto, do Rica”, afirma a cantora. Em agosto, ela solta na rede uma loja virtual em parceria com sua empresária, Brocal. O endereço vai vender roupas com desenhos feitos pela própria Tulipa.

Há mais material por ser lançado. “Fiz uma música com o (guitarrista paraense) Felipe Cordeiro há um mês e não sei o que fazer com ela ainda”, conta. A canção pode ser colocada também em seu site. “Como aconteceu com Megalomania, que é uma música de entressafra, nem pertence ao próximo disco. A turnê vai se desenrolando e você produz coisas que não necessariamente fazem parte do seu próximo trabalho. Hoje entendo melhor por que os artistas lançavam compactos”, diz.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

MICK WALL, AC/DC

Bati um papo com Mick Wall, biógrafo de bandas como Metallica e Guns N Roses. Ele acaba de lançar sua versão da história do AC/DC e não achou a mínima graça de haver no Brasil um grupo de artistas querendo impedir o lançamento de biografias não-autorizadas...

Leia o link original aqui.



AUTOR DE BIOGRAFIAS DE LED ZEPPELIN E METALLICA LANÇA LIVRO SOBRE O AC/DC
Polêmico, jornalista inglês Mick Wall dispara: "Procure Saber? Isso é uma babaquice"
Publicado em O Dia em 15/05/2014
Matéria de Ricardo Schott, com colaboração de Leandro Souto Maior


"Procure saber? Isso é uma babaquice”, indigna-se o jornalista inglês casca-grossa Mick Wall, responsável por biografias de Led Zeppelin, Metallica e agora lançando no Brasil AC/DC — A biografia (Globo Livros, 456 págs., R$ 49,90).

Avisado de que no ano passado floresceu um movimento de estrelas brasileiras da música que colocou em pauta a proibição de biografias não-autorizadas (leia no destaque abaixo), ele diz não entender por que artistas querem ser vistos como seres humanos perfeitos. “Por acaso eles têm as mesmas atitudes a respeito de livros sobre futebol, ou sobre a guerra ou sobre a pobreza?”, vocifera. “Não entendo por que é que artistas são mimados do jeito que são e acham que com eles tem que ser diferente. A verdade é uma só. E quem acha que ela tem que ser suprimida é inimigo dos artistas reais, que deveriam estar mais preocupados em falar sobre liberdade”.


AC/DC — A biografia, diz Wall, traz a verdade por trás de uma das instituições mais sólidas do rock ‘n’ roll, formada em 1973 na Austrália pelos irmãos escoceses Angus (guitarra solo) e Malcolm Young (guitarra base). Ele diz que nenhum dos integrantes chegou a responder qualquer dos seus contatos telefônicos para o livro. “Se você ler a biografia, vai ver que esse é o modo de eles lidarem com seus problemas. Ou você está do lado deles ou sequer existe para eles”, resume.

Ele ressalta que seu livro é bem diferente de outra bio do AC/DC já lançada no Brasil, A História do AC/DC — Let there be rock, da jornalista Susan Masino, que basicamente tece loas sobre a banda.

“Essa biografia dela é um livro de fã. Ela comprou a ideia de que eles são caras gente boa, baseados no tempo breve em que esteve com eles, e pronto. Meu livro, ao contrário, foi feito para caras crescidos que já não acreditam mais em Papai Noel”, ironiza. “Os irmãos Young são um clã, não ligam para nada que esteja fora do círculo deles. Nem mesmo para os outros integrantes da banda, nem mesmo para o (vocalista morto em 1980) Bon Scott. Eles não se tornaram uma das maiores bandas do mundo por acidente. Como a música deles, eles são durões, têm a sabedoria das ruas e não fogem de briga”.

O fato de rodear atentamente a vida, as histórias e os segredos de cada artista que biografa já trouxe problemas anteriores a Mick. Ao escrever Metallica — A Biografia, disponível no Brasil também pela Globo Livros, teve problemas com o vocalista e guitarrista James Hetfield. Em 1991, publicou a não-autorizada Guns ‘N’ Roses — The most dangerous band in the world, sobre o grupo. O vocalista Axl Rose respondeu em Get in the ring, música do álbum Use your illusion (1991), citando nominalmente Wall e chamando-o para a briga. Você já chegou a se encontrar com Axl depois disso, Wall?

“Pelo amor de Deus, me perguntam sobre isso há vinte anos... Olha, não estou nem aí para Axl. Sinto-me da mesma forma que os ex-integrantes do Guns ‘N’ Roses quando Axl decidiu que não queria mais tocar com eles. Esse cara é um otário”, dispara.


BIÓGRAFOS COMEMORAM Na semana passada, a Câmara dos Deputados aprovou projeto de lei que libera a publicação de biografias não-autorizadas, sem a necessidade de licença prévia dos biografados — registre-se que o texto ainda precisa ser avaliado pelo Senado. A discussão ganhou os holofotes depois que nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Djavan e Chico Buarque, unidos no grupo Procure Saber, declararam que defendiam a necessidade de autorização para a publicação de obras biográficas, alegando que é necessário preservar o direito à intimidade.

“Espero que finalmente possamos trabalhar em paz”, torce Denilson Monteiro, autor de Dez! Nota dez! Eu sou Carlos Imperial e A bossa do Lobo: Ronaldo Bôscoli. “É uma luta grande, cujo maior prazer é entregar um documento sobre uma personalidade que teve relevância na história. Minha biografia sobre Ronaldo Bôscoli foi fonte para Felipe Camargo e Tuca Andrada em ‘Elis, a Musical’, e a filha de Ronaldo, Mariana Bôscoli, disse que seus filhos agora têm um livro no qual saberiam quem foi o avô”.

A jornalista Christina Fuscaldo, que finaliza um livro (autorizado) sobre Zé Ramalho, completa: “Os artistas precisam entender que cada biografia será a leitura do autor da historia dele, e ele tem o direito de lançar a versão dele. Se a história for mal contada, quem paga mico sou eu”.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

BIBLIOTECA PARQUE ESTADUAL

Fiz essa capinha hoje para o Guia Show e Lazer do jornal O Dia. Passei a tarde de quarta na Biblioteca Parque Estadual, no Centro, com o amigo fotógrafo João Laet. Saiu isso aí.

Se for lá, imprima e leve como um guia. O texto original tá aqui.


BIBLIOTECA PARQUE ESTADUAL TRAZ DIVERSÃO E ARTE PARA TODAS AS IDADES
O DIA passou uma tarde no local e conheceu um oásis de cultura, entretenimento e arte, instalado num prédio histórico, em meio à agitação do Centro do Rio de Janeiro
Publicado em 16/05/2014

Adolescentes com uniforme de escola pública conversam animadamente no café. Enquanto isso, uma turma espera sua vez na sala multimídia, onde muita gente assiste a filmes e seriados em DVD e Blu-Ray. Do outro lado, uma turma recosta-se em espreguiçadeiras, enquanto dois adolescentes passeiam segurando skates, a caminho de mais uma aventura pelas ruas do Rio. E muitas pessoas carregam livros e material de estudo debaixo do braço — algumas delas com fones nos ouvidos. Pode acreditar: esse clima de total encontro entre casa e rua, diversão e arte, é o de uma biblioteca pública.


Reinaugurada em março após seis anos de obras, a antiga Biblioteca Pública do Estado do Rio agora é a novíssima Biblioteca Parque Estadual. E traz um mundo de diversões gratuitas para toda a família. No fim de semana, além da exposição em homenagem a Vinicius de Moraes que marcou sua reinauguração, há contação de histórias para crianças, comida e papo no Café Literário e muitos filmes na sala multimídia, ao alcance de todos. “Estou surpreso com a grandeza de tudo isso aqui”, exclama o escritor Ruy Castro, que fez uma palestra na biblioteca na quarta-feira. “Imagina, você atravessa a Central do Brasil e já está aqui. O Rio precisa de mais lugares assim. Ninguém é obrigado a ir para Copacabana ou Ipanema em busca de nada.”

Aberto em 15 de março de 1873, o espaço sempre se confundiu com a geografia central do Rio. Mas agora quer trazer a rua para dentro. “Trouxemos a Saara (centro de compras da região), pois temos uma porta que se abre para lá. Além da Central, estamos perto do Campo de Santana. E, ao contrário do que se espera de uma biblioteca, aqui é tudo aberto, tudo claro”, diz a coordenadora de acervo e leitura da superintendência de leitura e conhecimento Vera Schroeder. As bibliotecas parque, como polos de informação, cultura e lazer, já estão em Manguinhos, em Niterói, na Rocinha e devem chegar em breve ao Alemão.

O espaço ainda está esperando por novos livros. “Noventa por cento do nosso material foi comprado, não veio de doações. E muita coisa está sendo catalogada”, conta Vera. Mas a quantidade de material já assusta. A atenção das crianças e adolescentes está garantida com os muitos quadrinhos, livros infantis e infantojuvenis, que já chamaram a atenção da escritora Patricia Barboza, autora da série As mais, lançada pela Record. “Cresci lendo Mauricio de Sousa e Monteiro Lobato, e estou impressionadíssima. Espero que as editoras também façam doações!”, diz.


A biblioteca tem também o Teatro Alcione Araújo, por enquanto usado para shows, e o Auditório Darcy Ribeiro, para o qual já estão sendo planejados debates. E o Lugar do Ócio, no qual o visitante pode recostar-se numa cadeira para ler, ouvir música, observar um monumento de Waltércio Caldas que fica em frente ou simplesmente não fazer nada. “Toda biblioteca é o lugar do ‘não pode’. Nos concentramos nas possibilidades. Você pode vir aqui pegar livros e pode trazer seus próprios livros para ler”, convida Vera. Um restaurante está sendo planejado para o terceiro andar.

Há também uma área para portadores de necessidades especiais. O comerciante Salim Kalaoun, 67, dono de lojas na Saara, é deficiente visual e costuma ir lá às tardes para conferir os audiolivros digitais. Ajudado pelos atendentes Thiago de Paula e Gisele Alves, aproveitou para conhecer toda a área. “Quem criou esse espaço está de parabéns!”, alegra-se. Na seção, há também uma impressora que produz textos em braile e máquinas que auxiliam a leitura de cadeirantes.

Moradores da Saúde, os amigos João Pedro Ramos, 17, Lohanna Martins, 16, e Regiane Fernandes, 14, já usam a biblioteca para ler e marcar encontros com amigos. “É bem perto de casa”, dizem, quase em coro, João e Lohanna — Regiane, quietinha, concentra-se na leitura de Fala sério, mãe, de Thalita Rebouças.

VINICIUS NO RECOMEÇO  A nova fase da biblioteca traz a exposição 100 Anos — Vinicius de Moraes, em dois lugares. Logo na entrada, à esquerda, o visitante passa pela escultura-livro, que forma as iniciais VM — em meio a elas, alto-falantes que trazem a voz do próprio Vinicius lendo poemas. Após a área delimitada por elas, é possível ver capas de discos, assistir a vídeos, ouvir músicas, ver fotos raras e até levar para casa um papel trazendo uma reprodução de manuscrito (ou texto batido à máquina) do poeta. No prédio anexo, a instalação audiovisual Meu tempo é quando, com mais vídeos, músicas e muitas almofadas pelo chão. Quer aproveitar o domingo para relaxar vendo o melhor do Poetinha? Lá pode.

Na última quarta-feira, os amigos Julio de Mello, 25, e Caroline Mattos, 30, nem esquentaram para a greve de ônibus e saíram de Nova Iguaçu para conhecer o espaço e a exposição. “Amamos bossa nova!”, diz Carol. “Que bom que vocês estão fazendo essa matéria, porque ouvimos falar bem pouco dessa biblioteca. Biblioteca Parque no Esquenta já!”, exclama Julio. E aí, Regina Casé?

E NO FIM DE SEMANA?  A família toda pode curtir a Biblioteca Parque. A exposição do Vinicius fica lá até 15 de junho, de terça a domingo. Amanhã, das 11h30 às 15h30, as crianças entram também no universo do Poetinha, com contação de histórias baseada no livro infantil Arca de Noé. E às 11h, no Café Literário, tem lançamento do livro infantojuvenil Pilar em Machu Picchu, da escritora e roteirista Flávia Lins e Silva. Aproveite também os livros e os filmes da sala audiovisual.

QUARENTA (+1) MÚSICAS ASSUSTADORAS

É de dar medo, muito medo. Enquanto tem muita gente por aí que se dedica a preencher o mundo com sons fofinhos, tem uma outra galera que passa o tempo compondo músicas com o objetivo único de assustar. Provocar medo, pavor ou simples tensão - ou até nojo, sei lá. Ou depressão. Ou sentimentos nada nobres. Não se trata de uma mania recente e, digamos, nos anos 60 e 70 era até mais comum haver gente escrevendo canções só para dar medo. Até porque, tanto aqui quanto em outros países, parecia mesmo que o mundo dava medo.

Voltei à minha mania de fazer listas de 40 itens (tô fazendo 40 anos esse ano, enfim) compilando 40 músicas que servem para deixar qualquer ser humano em estado de alerta. Ou quem sabe cagando de medo e cheio de vontade de dormir de luzes acesas. Não é o tipo de música para você escutar hoje, em casa, sozinho - aliás talvez seja o tipo de som para você ouvir enquanto corre na praia ou precisa estar totalmente ligado numa tarefa. Confira, ouça tudo no YouTube, baixe, mas não leve as letras a sério. Nem morra tanto de medo assim.

(As músicas com *, sou obrigado a confessar que só ouvi uma única vez na vida e não pretendo ouvir de novo)




"REVOLUTION 9" - BEATLES. "Você precisa perder o medo da música", já cantaram os Titãs. No caso da sombria colagem sonora que John Lennon soltou no Álbum branco (1968), fica complicado: o que mais tem por aí é gente que há anos, trata o disco duplo dos Beatles como se a última música fosse Cry baby cry, que vem antes dessa. O que Lennon chamou "a imagem de uma revolução, mas usando sons" consiste em nove minutos de manipulação de tapes, risadas estranhas, fitas rodadas ao contrário, diálogos tirados do arquivo de sons da EMI, etc. Crie seu filho ouvindo Beatles mas não o deixe ouvir isso na infância.

"BLACK SABBATH" - BLACK SABBATH. A era de paz e amor parecia definitivamente enterrada quando o Black Sabbath soltou seu primeiro disco, homônimo, em 1970. A faixa-título, um dos sons mais assustadores da história do rock, contava uma história de terror e medo sobre vultos negros e ritos estranhos, ao som do trítono, intervalo musical dissonante tido como o "som do diabo". E avisava para quem ainda não havia entendido, fosse na Inglaterra, fosse no Brasil: "As pessoas seguem mortas de medo/pessoal, é melhor correr e tomar cuidado".

"SATANIC MASS" - COVEN *. Misturando psicodelia e satanismo baixaria, o grupo americano estreava com o LP Witchcraft destroy minds ans reaps souls em 1969 lançando uma espécie de beat-heavy-metal - liderado pela loura sinistra Jinx Dawson. Para encerrar o álbum, a banda não viu nada demais em produzir uma missa negra de treze minutos no estúdio e ocupar quase todo o lado B de seu debute com ela. Sim, medonho.


"LUCIFER RISING THEME" - JIMMY PAGE *. Atendendo a um pedido do diretor Kenneth Anger, o guitarrista do Led Zeppelin compôs a trilha desse filme que ele começou a fazer em 1966 e concluiu em 1972. Mas não entregou a trilha pronta a Anger, que preferiu usar temas compostos pelo músico Bobby Beausoleil, que foi integrante da banda psicodélica Love (e estava preso por assassinato na ocasião). A trilha feita por Page contém elementos que apareceriam na música do Led em discos como Physical graffiti (1975), sob uma aura de morbidez e ocultismo. Circulou por décadas em lançamentos piratas e só foi lançada oficialmente em 2012. Não ouça antes de dormir.


"CAMBRIDGE 1969" - JOHN LENNON & YOKO ONO *. Vinte e seis minutos de vocais agudos, gritos, choros e lamentos em geral, acompanhados de microfonias e barulhos mil. Isso era o lado A de Unfinished music 2: Life with the lions, segundo disco do casal Johnandyoko (como eles costumavam se apresentar) lançado em 1969. A tensão da música reflete a época: Yoko tivera um aborto espontâneo e Lennon seguia em brigas com os futuros ex-colegas dos Beatles.

"DISSERTAÇÃO DO PAPA SOBRE O CRIME SEGUIDA DE ORGIA" - TITÃS. Berrada e declamada por Branco Mello com várias microfonações, a música faz parte de Titanomaquia (1993), disco "grunge" do grupo paulista. A letra tem trechos retirados de uma obra do Marquês de Sade e detalha como a pena de morte acontece ao redor do mundo. Tenso.

"ATEM" - TANGERINE DREAM *. Atem, o quarto disco da banda alemã de rock progressivo e eletrônico, saiu em 1973. Tem cara de bad trip, misturando climas meditativos e sons assustadores, especialmente na faixa-título, que ocupa todo o lado A do LP original. Apesar do susto, foi o disco que conquistou de vez o DJ John Peel, da BBC, e que escancarou as portas do mercado americano e britânico - os próximos álbuns sairiam pela Virgin. Mas é o tipo de som que faz qualquer um passar a dormir com as luzes acesas.

"CLARISSE" - LEGIÃO URBANA. Poucos acordes, clima deprê ao extremo, Renato Russo quase chorando ao vocal, dez minutos de duração. Clarisse chega a assustar de tão triste, com seu clima mórbido e sua letra que fala de uma garota que está trancada no banheiro "e faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete". Foi banida pelo cantor do álbum A tempestade (1996) por medo "de uma onda de suicídios" e vazou nos outtakes de Uma outra estação (1997), último disco de inéditas da banda, lançado após a morte de Renato.


"SUICIDE NOTE PT 2" - PANTERA. "Não vale a pena o tempo de tentar/reconstruir uma vida podre/vou dar um fim aos problemas sem encarar nada/foda-se você, fodam-se todos vocês". No esporrento e quase experimental disco The great southern trendkill (1997) o Pantera era a voz do desespero e do fim da linha em meio a gritos, chiados, guitarras apitando e muito barulho.

"DE CONVERSA" - CAETANO VELOSO*. Gritos, grunhidos, falas sobrepostas e nenhuma letra aparente - só na hora em que surgem uns trechos de Cravo e canela, de Milton Nascimento. A viagem experimental de Caetano abria o estranhíssimo álbum Araçá azul (1973) após uma vinheta da convidada Edith do Prato. E tratava de assustar e expulsar os ouvintes que tentassem achar ali o Caetano dos discos anteriores. Música medonha do Brasil.

"PODRIDÃO" - TOLERÂNCIA ZERO. Formado no interior do estado de São Paulo, o Tolerância Zero gravou um único disco em 1999, com o clássico da grosseria musical Ninguém presta. No fim do álbum, o quase rap Podridão acrescentava um pouco de ódio e (vá lá) terror urbano à história, em meio a teclados sinistros, narração soturna e, do meio para o final, uma torrente de barulhos. Para criar (muita) tensão.

"FRANKIE TEARDROP" - SUICIDE*. Um pacato pai de família, beirando a pobreza, vai para casa e mata a esposa e os filhos. E depois se mata. Er... o nada recomendável ato de Frankie é narrado minuto a minuto com sussurros seguidos de berros ríspidos (sem aviso prévio), programação eletrônica, riff de teclado a encher o saco e clima psicótico. Está no primeiro disco, lançado em 1977, do duo eletrônico formado por Alan Vega e Martin Rev. De dar medo mesmo.


"NO FUNDO DO POÇO" - WALTER FRANCO. Música experimental e pós-psicodelia davam o tom da estreia do cantor paulistano, Ou não (1973). No fundo do poço já havia surgido em versão quase samba na abertura da novela O hospital (TV Tupi, 1971). Aqui ressurge como bad trip estereofônica, com ruídos e vozes intermitentes e um clima que sugere como seriam os discos do doidão Daminhão Experiença se fossem gravados com uma produção de verdade. 

"WUTHERING HEIGHTS" - KATE BUSH. Inspirado no clássico livro O morro dos ventos uivantes, de Emily Bronte, o hit de 1977 da cantora britânica - incluído em seu primeiro disco, The kick inside, lançado no ano seguinte - pôs pânico em muitas criancinhas na segunda metade dos anos 70, graças aos seus vocais fantasmagóricos, lembrando uma versão pagã do Markito (aquele imitador que batia ponto no programa do Ratinho). Come tudo senão vou chamar a Kate Bush!

"DAZED AND CONFUSED" - LED ZEPPELIN. Composta por um tal Jake Holmes e surrupiada na cara dura por Jimmy Page para os New Yardbirds - e depois, você sabe, para o Led Zeppelin - Dazed até que merece figurar nessa lista, graças ao solo de guitarra com arco de violino que Page incluiu na versão do duplo The song remains the same (1976). Belo, intenso e, para muitos, assustador.

"HEY, FOXYMOPHANDLEMAMA, THAT'S ME (STUPID MOP)" - PEARL JAM. Revolution 9 da banda americana. Fecha o terceiro disco, Vitalogy (1994), e traz na letra diálogos e frases que Eddie Vedder, o vocalista, tirou de um programa de TV sobre pacientes de um hospital psiquiátrico. Tudo narrado em meio a uma argamassa mórbida e torturante de ruídos. Tem quem ouça esse disco a todo momento mas pule essa música. Compreensível.


"MATANDO GUEROS" - BRUJERIA. "Matar um garoto branco/vingança para o nosso povo/aceite as leis do diabo". Diante de uma letra dessas, pouco dá para dizer. O grupo americano, com origens no México, é uma das coisas mais bizarras e amedrontadoras que o metal extremo já legou, com suas letras falando sobre temas amenos como satanismo, narcotráfico e assassinato de jovens americanos.

"I REMEMBER NOTHING" - JOY DIVISION. Seis minutos de clima deprê e mórbido, um ruído estranho no fundo, vidros quebrando e a sensação de que alguma coisa bem estranha está para acontecer - e nada acontece. A última música da estreia do grupo britânico, Unknown pleasures (1979) soa como um estranho e raivoso pedido de socorro ("violento, a mão dele destroça a cadeira/reage e desmaia em desespero/preso numa jaula e rendido muito cedo/eu em meu mundo particular, aquele cara que você conheceu").

"GALLONS OF RUBBING ALCOHOL FLOW THROUGH THE STRIP" - NIRVANAMúsica-bônus de In utero (1993), gravada pelo Nirvana quando da vinda do grupo ao Brasil, no estúdio Companhia dos Técnicos, em Copacabana. Jam bêbada repleta de berros e solos doidões de guitarra, um sinal desesperador de que havia alguma coisa estranha por acontecer. E aconteceu.

"L.A. BLUES" - STOOGES. Dorgas, mano. A última música do segundo disco do grupo de Iggy Pop, Funhouse (1970) comprimia em quatro minutos doses de cocaína, heroína, barulho, confusão, sexo, violência e sentimentos nada nobres, num improviso de estúdio que lembrava um jazz psicodélico e experimental. E pouco lembrava blues.

"BOOKS OF MOSES" - ALEXANDER "SKIP" SPENCE - O músico canadense, que fez parte do Jefferson Airplane e do Moby Grape, lançou Oar, seu único disco solo, em 1969. Sofria de esquizofrenia, abusava do LSD e havia sido internado após destruir um quarto de hotel com um machado de incêndio. Books of Moses é um dos temas mais enlouquecedores do álbum, á beira do desespero.


"JANITOR OF LUNACY" - NICO. A música de abertura de Desertshore (1970), terceiro disco da ex-chanteuse do Velvet Underground, foi feita com o pensamento em Brian Jones, ex-guitarrista morto dos Rolling Stones. Bom, é o item mais ameno desta lista. Você pode escolher entre achar a canção muito bonita ou em achar um tanto torturante escutar quatro minutos de vocais gélidos e música desritmada, produzida num harmônio.

"ESTILO DE VIDA MISERÁVEL" - RATOS DE PORÃO. Faz parte de Carniceria tropical (1997), o disco mais violento e desesperado do grupo punk paulistano. Abre com um trecho do filme Pixote, de Hector Babenco, e prossegue com uma base apocalítica de guitarra, baixo, bateria e urros, gravados por João Gordo com a boca cheia de bolo.

"THE LITANIES OF SATAN" - DIAMANDA GALAS *.
 Dezessete minutos de música avant-garde que lembram tudo: tapes ao contrário, uma missa negra, uma versão operística de Revolution 9 (Beatles). Definida por críticos como "terror vocal", Diamanda estreou com esse disco assustador, de 1982, cuja faixa-título põe tons amedrontadores numa poesia de Charles Baudelaire. Tenha medo, muito medo. E também de outros discos dela, como Diamanda Galás, de 1984.

"CINTA CITA" - JORGE ANTUNES *. Compositor ligado à música experimental e aos sons eletrônicos, Jorge lançou em 1975 o álbum Música eletrônica, pelo selo Mangione Discos. E inaugurou a era dos sons não-acústicos no Brasil, com alguma badalação na mídia e poucas vendagens. O resultado final é, digamos, um tanto incômodo (no bom sentido) e quase psicodélico, lembrando trilhas de documentários brasileiros dos anos 70 (leia mais sobre esse disco aqui).

"INTERLUDES WITH LUDES" - THEM CROOKED VULTURES.
O supergrupo formado por Josh Homme (Queens of Stone Age, voz e guitarra), John Paul Jones (Led Zeppelin, baixo) e David Grohl (Foo Fighters, bateria) lançou seu primeiro álbum em 2009. Entre um hard rock maníaco e outro, soltaram essa espécie de samba de terror, com melodia desesperadora e letra narrando uma bad trip persecutória.

"SYSYPHUS (PARTS 1-4)" - PINK FLOYD.
 Quando o grupo britânico de rock progressivo ainda não havia saído totalmente da sombra do ex-líder Syd Barrett, acreditava fazer "música de vanguarda". Uma fórmula que deu supercerto em A saucerful of secrets (1968), mais ou menos certo na trilha do filme More (1969), chegou ao ápice em Atom heart mother (1970) e, bem, testou paciências no LP de estúdio do duplo Ummagumma (1969). Você escolhe entre achar o álbum uma obra-prima ou não (tem quem ache). Sysyphus, composta e tocada pelo tecladista Richard Wright (e só por ele), com sua quatro partes que surpreendem e dão lá seus sustos, é a mais perfeita trilha para a história daquele personagem grego que carregava uma imensa bola até o topo da colina, só para vê-la rolar para baixo e ter que levá-la de novo.

"FOME" - DAMINHÃO EXPERIENÇA. É para rir, mas pode incomodar e assustar. O maior hit do cantor carioca virou quase uma canção de rodinha de violão, cantada por fãs ("amooor, é ilusão/casei com mulher de segunda mão/fiquei na solidão"). Se na jovem guarda as rimas eram de "assim" com "mim", o louco Daminhão inova rimando "cabacinho" com "coraçãozinho" e "carinho". Nada fofinho.


"AFTER CEASE TO EXIST" - THROBBLING GRISTLE *. Todo o lado B do LP The second anual report (1977), estreia do grupo eletrônico-psicodélico-psicótico liderado pelo músico e ocultista Genesis P. Orridge era ocupado por essa, digamos, música. Vinte e um minutos de barulhos estranhos e ruídos no estilo monstro-no-armário. Dá para colocar qualquer um maluco, ou com insônia. Há quem diga que isso é o verdadeiro punk.

"RHUMBA" - ZÉ RODRIX. Tema instrumental e policial composto pelo cantor-compositor-escritor carioca para o violento filme O esquadrão da morte (1975), dirigido por Carlos Imperial. Dá a impressão de que alguma coisa terrível e muito violenta que está para acontecer (link para baixar o disco aqui).

"I HEAR A NEW WORLD" - JOE MEEK AND THE BLUE MEN.
 Tem algo muito errado com essa música. Após segundos de silêncio, entram ruídos estranhos e um vocal distorcido, criando uma espécie de música pop do espaço, anos antes da psicodelia tomar as paradas de sucesso - a canção é de 1960. O produtor Joe Meek, que lançou essa faixa no EP I hear a new world, sofria de transtorno bipolar, era maluco por ocultismo e pela ideia de gravar vozes do outro mundo (chegou a instalar gravadores em tumbas) e se suicidou em 1967, após matar a dona de seu apartamento.

"TODOS HIPNOTIZADOS" - OLHO SECO. Uma das mais fortes e violentas gravações do punk paulistano, levada adiante por microfonias, ruídos, berros e por uma letra falando em punhaladas pelas costas. A gravaçao original está nas faixas bônus da raríssima versão CD da coletânea Grito suburbano (1982). Dá um medinho. E o Olho Seco ainda está por aí.

"BENEDITO" - BEMÔNIO. Um grupo carioca que faz uma espécie de ambient music aterrorizante. Lançado em formato digital em 2013, o disco Santo traz apenas temas instrumentais, todos com nomes de santos - Benedito vai crescendo entre ruídos intermitentes e loops de orações (ouça toda a discografia do grupo aqui).



"SONG OF CLIFFORD" - PATTY WATERS *. Gemidos, sussurros, barulhos e silêncio (de dar mais medo que todos os itens citados) numa das músicas mais malucas do álbum College tour (1966). Tida como uma cantora de "jazz de vanguarda", Patty já foi citada por Diamanda Galás e Patti Smith como grande influência. Bom, por aí dá para entender muita coisa...

"SPEAK" - SWANS. Banda pós-punk americana a meio caminho do som ruidoso dos grupos da coletânea No New York (1978) e da barulheira-que-toca-em-rádio do Sonic Youth - criador do SY, o guitarrista Thurston Moore chegou a ser um Swan. O primeiro EP, de 1982, era bem tenso, com músicas como Speak e Take advantage.

"MURDER" - HELMET. Essa banda americana calcada no experimentalismo guitarrístico já ganhou status de "novo Nirvana" no auge do grunge - e foi contratada pela Interscope a peso de ouro. Antes do sucesso encerraram seu primeiro disco, Strap it on (1990), com essa pérola da distorção, do barulho e do ódio, cuja letra fala em coisas amenas como hábitos mórbidos, espancamentos até a morte e assassinatos.

"STIGMATA" - MINISTRY. A visão de mundo de Allen Jourgensen, líder do veterano grupo de metal industrial, é um delírio aterrador movido a drogas pesadíssimas. Stigmata foi lançada em 1988 no disco The land of rape and honey, que marcou a virada do som eletrônico para o peso violento. A versão do disco ao vivo In case you didn't feel like showing up acrescenta todo um universo de blasfêmias e intolerância à história.



"ANYTHING JESUS DOES, I DO BETTER" - LOCUST. Estranho o suficiente para incluir um tecladista, o grupo californiano de grindcore pode ganhar o clichê sem problema algum: é a mais perfeita trilha sonora para o fim do mundo. O disco Plague soundscapes (2003) traz várias minipancadarias - maior parte delas com menos de um minuto e quase todas com títulos enormes. Uma delas é essa aí.

"22 GOING ON 23" - BUTTHOLE SURFERS. A banda texana não fica atrás do Ministry em terrmos de autodestruição e comportamento desencapado - o líder Gibby Haines é inclusive velho chapa de Allen Jourgensen. Acrescentam um pouco mais de bom humor e ironia à receita, mas os climas aterrorizantes volta e meia batem ponto ali, como em 22 going on 23, com levada bizarra e um papo bizarro entre duas pessoas como "letra".


"TURNING VIOLENT" - FLAMING LIPS. A veterana banda psicodélica sempre teve paixão por climas assustadores e, ao mesmo tempo, belos. Em um de seus singles mais recentes, Turning violent, passam quase todo o tempo tocando silenciosamente - até que dão um belo dum susto nos ouvintes. Curta aí. Vale o susto.




BÔNUS: "SOM" - PERSONA (1975) *. Na minha humilde opinião, um dos discos mais assustadores que já ouvi - e foi feito no Brasil. O projeto que se esconde por trás do nome "Persona" inclui músicos do Tutti-Frutti, banda que acompanhava Rita Lee. O álbum era a trilha sonora de uma obra de arte criada pelo artista plástico Roberto Campadello: um espelho no qual duas pessoas podiam fundir suas próprias imagens, ao olhar para eles, provocando experiências sensoriais (saiba mais disso aqui).

Quando o espelho foi comercializado, o disco foi lançado encartado nele, trazendo onze músicas compostas por Campadello e pelo guitarrista Luis Carlini. No som, melodias sombrias, clima de bad trip, locuções estranhas e conversas paralelas no fundo de algumas músicas (confira todas as imagens de capa, contracapa e encartes aqui).


TODAS AS LISTAS DE QUARENTA:

- quarenta discos de 1974 parte um dois
- quarenta micromúsicas
- quarenta momentos em que a macumba virou pop
- quarenta músicas que você tem que ouvir parte um e dois
- quarenta melhores momentos de Hermes & Renato
- quarenta fatos sobre o Abba
- quarenta discos de 1984 parte um dois
- quarenta fatos sobre o Menudo.