segunda-feira, 21 de abril de 2014

ENTREVISTA: FABIO MASSARI

Engraçado: lá pelas tantas, enquanto conversava por telefone com Fabio Massari para O Dia, é que me dei conta de uma coisa. Minhas aparições no rádio, no programa Acorde, que divido com o amigo Leandro Souto Maior na Roquette Pinto (94.1 FM, aos sabados, 16h) são de certa forma inspiradas pelo tom de voz do apresentador-escritor-radialista, que esta lançando pela Edições Ideal seu livro Mondo Massari. São quase 500 páginas de entrevistas lançadas originalmente em rádio e TV, e de matérias publicadas em revistas como a Rolling Stone e portais como o Yahoo.

O livro tem entrevistas com bandas que você nunca havia ouvido falar e provavelmente vai correr atrás assim que ler a conversa. E algumas com artistas que são referências para Massari, como Tom Verlaine (Television), John Doe (X) e Jonathan Richman (ex-Modern Lovers), além do grupo alemão Faust. Vale muito ler e vale muito mais ainda reler, pôr o livro na mesa de cabeceira e usar como guia. O rock nunca mais vai ser igual ao dos anos 60, 70 e 80? Não vai nem com reza forte, mas tem muita gente por ai produzindo sons legais. Basta procurar.

A conversa com Fabio foi publicada no jornal em 23 de fevereiro de 2014. Voce lê o que saiu no Caderno D aí em cima. Ou neste link. Mas aí embaixo, você curte todo o papo, sem cortes e com direito a muitas curiosidades particulares minhas.

Alias, Massari tambem falou com Katia Lessa sobre o livro. E com Carlos Eduardo Lima. E com André Barcinski. E com Abonico Smith. Cai dentro aí e boa viagem.

Como surgiu o livro novo? Bom, meu segundo livro, que se chamou Emissões noturnas, reunia as entrevistas do meu programa na rádio 89 FM. Em Mondo Massari quis fazer uma espécie de parente desse livro com reportagens e com entrevistas do meu programa da Oi FM, o Etc. Eu estava pensando em reunir um material que produzi e que tivesse a marca Mondo Massari, digamos assim - a coluna da Rolling Stone, a do Yahoo. No meio do processo, me lembrei que o Etc quase se chamou Mondo Massari. Quando acertei com a Oi FM eles chegaram a me perguntar se eu gostaria de usar o nome Mondo Massari. Mas eu já tinha assumido compromisso comigo mesmo de que usaria o nome Etc quando tivesse um programa de radio, por ser uma referência ao Jack Nicholson (no filme O dia dos loucos, de 1972, o ator fez um personagem que apresentava um programa de rádio com esse nome). Usando essa licença de que o Etc quase se chamou Mondo Massari, e mantendo tanto o registro televisivo quanto o radiofônico, montei a coletânea desse jeito.

Das entrevistas do Etc que estão no livro, qual você classificaria como a mais memorável? A do Jonathan Richman é especial. Ela se transformou num evento. Houve uma imposição dele de que fizéssemos só duas ou três perguntas. Ele avisou na verdade, antes de chegar na rádio, que ele até responderia duas ou três perguntas, mas estava ali para fazer um som. A gente aceitou, até falei que "olha, se ele vier e fizer mesmo um som para mim, estou satisfeito". Eles pediram para a gente montar um set de bateria. A gente montou um set completo que absolutamente não foi utilizado, porque o baterista nem ligou para a bateria montada e ficou o tempo todo com uma caixa na mão. O Jonathan acabou mesmo foi fazendo uma espécie de performance. Chegou falando em italiano e espanhol, sempre com um violão na mão. Ele demonstrou uma simpatia curiosa, digamos - em alguns momentos ele parecia que estava irritado, mas fazia parte do ato. Numa hora ele reclamou quando alguém puxou uma câmera de vídeo para fazer fotos e tal...

Mas ele acabou respondendo às perguntas...  Sim, respondeu duas ou três perguntas. E depois levou o evento pro estacionamento! Fiquei sabendo depois que ele, esperando o carro chegar, ficou fazendo um som por uns 15 minutos com um violão para quem passava ali pela Vila Olímpia. Uma entrevista que foi um marco para mim foi a do John Doe (X), pela minha predileção pela banda e pela possibilidade de poder conversar com ele. Foi o melhor esquema possível para uma entrevista de rádio - foi no hotel, na hora marcada, eu e o artista sem nenhuma mediação. Dá uma tranquilidade legal para o artista. Outra que foi um marco e que sempre cito foi com a banda alemã Faust. Me pareceu que eles estavam muito interessados no exercício da entrevista. Dá para notar isso, porque às vezes a pessoa está disposta, mas fica aquela coisa protocolar... Eu cheguei lá e o cara tava meio dormindo, acordou, aí pediu uma cerveja. Deu uma descontraída no ambiente.

Você chegou a ir no show do Jonathan? Fui. Na real foi uma extensão daquela conversa. O Sesc Pompeia não estava exatamente cheio. Ele cativou imediatamente as pessoas com a simpatia dele. Falava ao vivo várias línguas, dava umas broncas nas pessoas. Um cara me falou que foi ao show dele em San Francisco (Califórnia) e que era a mesma coisa. Uma outra curiosidade sobre o Jonathan é que no final do papo ele me deu um cartão pessoal dele e disse "quando você for a San Francisco, vai lá ver meus móveis". Além de músico, ele é marceneiro vintage!

Tem alguma coisa que você curta e que você acredite que as pessoas que seguem seu trabalho não façam a minima ideia que você goste? O livro dá uma ideia do meu interesse. Mas as pessoas não têm ideia de que meu gosto é plural. Eu gosto muito de black metal, metal extremo da Noruega. Satyricon, Mayhem. Se eu vou no show do Mayhem ou do Opeth, logo aparecem umas pessoas me perguntando o que estou fazendo lá (rindo). E elas se surpreendem positivamente. Tem quem me pergunte se gosto de sons brasileiros. Gosto de muita coisa! Sou fã de Raul Seixas, Zé Ramalho. Foi uma parte que acabou aparecendo mais tardiamente no meu trabalho na MTV, porque durante muito tempo eu era só o cara do Lado B. Mas também entrevistei Wanderleia, Angela Ro Ro, o próprio Zé Ramalho. Isso destruiu um pouco essa imagem do cara que não lida com sons brasileiros, acho. Tentei abordar isso também em algumas colunas do Yahoo.

O que você acredita que tenha te transformado em jornalista musical? Estou meio em busca desses epicentros e muito envolvido com um projeto de livro que gira em torno do ano de 1984. Ele deve se chamar 84 mesmo, só. Foi um ano muito importante na minha vida, porque parei de fazer faculdade de engenharia e fui fazer faculdade de rádio e TV. E passei o ano inteiro na Inglaterra, com 19 para 20 anos. Fui lá para tirar o diploma de inglês - eu até tinha feito inglês aqui, aquele de escola, mas enfim, era uma desculpa para estar lá. Fiquei morando e trabalhando lá, vivendo com uns ingleses. Em 1983 eu já tinha viajado para a Itália, já estava envolvido de alguma maneira nesse universo dos discos e dos shows. Eu já sabia que de alguma maneira meu caminho não era a engenharia. Daí falei que isso era o que eu queria fazer da vida. Nem sabia exatamente o quê, mas os sons, os discos,.os shows... de alguma maneira o caminho era o jornalismo que trata desse assunto. Essa viagem de 1984 foi marcante nesse sentido. Eu já colecionava e fazia minhas listas, já me interessava.

Quantos idiomas você fala? Falo italiano, inglês... espanhol eu engano. Faço umas traduções do islandês, mas são mais para dar uma vibe.

Como você tem tempo para ouvir tanta música e se dedicar a tanta coisa? O que o Fabio Massari faz quando não está envolvido com música ou jornalismo? Faço a mesma coisa! Quando eu estou fazendo uma coisa, faço outra junto, seja mexendo com sons, projetinhos ou livros. Essa é minha vida!

Quando você percebe que uma música está se tornando um grande hit particular para você? Não sei se tem uma regra para isso. Eu estou sempre me entusiasmando com muita coisa. Me surpreendo sempre com coisas diferentes. A descoberta ou redescoberta de algum tipo de clássico pode trazer revelações nossas, tipo "que coisa incrível, nunca ouvi nada parecido".

Quantos discos você compra ou baixa por mês? E como é sua relação com o vinil? Sua coleção era bem grande nos anos 90, vi uma matéria uma vez... Eu nem tenho essa contabilidade, acho que parei de fazer isso há muito tempo. Nunca foi do meu interesse fazer volume, não quero ter tantos mil discos. Uma coleção é uma evolução. A minha vem desde os 10 anos, com o primeiro disco dos Secos & Molhados, meu primeiro disco do Alice Cooper, do Elvis Presley... De lá para cá, ela foi crescendo de acordo com meus interesses, Nunca fui aquele cara que compra todos os discos de determinada banda só para ter a coleção todinha de uma banda. Eu baixo muita coisa, compro muita coisa, especialmente vinil, mais do que CD. Gosto de comprar muitas coisas em cassete - tem revistas que têm colunas sobre lançamentos em cassete, selos de bandas de noise que lançam álbuns em cassete. Eu até já tentei arriscar uma contabilidade de quantos discos do Frank Zappa eu tenho. Uma discografia oficial deve ter uns 90 discos... Mas coleciono bastante.

Você nas entrevistas do Mondo Massari costuma inserir umas perguntas sobre o Frank Zappa, se o entrevistado gosta dele... E alguns até te perguntam sobre como foi entrevistar o Zappa em 1992 (em matéria que saiu publicada na revista Bizz). É, de maneira muito informal e brincalhona eu sempre tendo deixar essa informação no ar... Mas é na medida em que eu acho que tem a ver, que o entrevistado pode ter alguma coisa para me dizer. Em muitas oportunidades isso acontece. O cara do Faust se impressionou, perguntou como ele era. O Tom Verlaine (Television) me disse que seria legal fazer uma cover de Help me, I'm a rock...

Essa entrevista do Zappa que saiu na Bizz é lembrada até hoje pelos fãs do seu trabalho e pelos fãs dele, né? Sim. Originalmente ela foi feita para um programa meu de rádio. Eu até me lembrei dessa entrevista outro dia... Ao longo dos anos, sempre me preparei muito para as entrevistas, fazia uma pautinha. Não uma pauta engessada, mas uma palavra-chave, pelo menos, para não dar vacilo na hora H. No caso do Zappa, eu estava no comecinho das minhas atividades, tinha uns 26 anos, trabalhava profissionalmente há uns 3 ou 4 anos. Eu era inexperiente, mas ainda assim me sentia preparado. Mas ao mesmo tempo eu estava tão emocionado de saber que iria falar com o Zappa, um cara que eu idolatrava, que eu nem consegui fazer pauta. Ficava olhando para os meus discos, para o meu material, e falava: "E agora? Vou fazer isso como?" (risos). Eu talvez não repetisse isso hoje em dia e me surpreendo com o resultado.

Numa hora do papo pareceu que o Zappa ficou meio puto porque você perguntou dos discos piratas dele, da série Beat the boots (que "oficializava" álbuns piratas)... 
Não, não, mas ele sabidamente era um cara que não gostava de discos piratas. Ele encampou esse projeto de oficialização, botou um especialista lá para selecionar alguns mais legais. É um pacotão de 15 discos muito legais, mas nem resolveu muita coisa porque os colecionadores queriam o pirata e o oficial (risos). O Zappa também não é dos entrevistados mais fáceis. Mas de qualquer jeito me tratou muito bem, reconheceu que tinha lá um cara jovem, entusisasmado e tal.

Quais são as lembranças do encontro com ele? Lembro de ter ficado no jardim esperando ele chegar. O Zappa dormia de dia e trabalhava de noite. Na hora do papo, vejo a alguns metros de mim a mulher dele, a Gail, empurrando o Zappa escada acima para ir para o local da entrevista (risos). Ele estava com um jeito meio caricato de quem tinha acabado de acordar: cabeça meio baixa, braços caídos. Ele provavelmente foi acordado às 2, 3 da tarde para me receber. Depois entrevistei o Dweezil, filho dele. Aliás tinha um músico checo hospedado na casa do Zappa, o Michael Kocab, e ele botou o secretário dele para me ligar no dia seguinte, para onde eu estava hospedado, porque queria que eu entrevistasse esse músico.

E você foi? Voltei no dia seguinte, falei com o músico, mas nem vi o Zappa. Ele era bem ligado à cultura checa, o Vaclav Havel (ex-presidente da República Checa e da antiga Checoslováquia) era fã dele e chegou a chamá-lo para ser ministro da cultura do país, mas não rolou. Ele chamava o Lou Reed para ir fazer foto no palácio (risos). Reza a lenda que os discos mais contrabandeados do ocidente por lá eram os do Velvet Underground e os do Mothers Of Invention, e que o Lou Reed e o Frank Zappa foram muito importantes para uma geração que no fim dos anos 90 libertaria o país, enfim.


Você falou do Tom Verlaine. Como foi falar com ele? Ele foi um daqueles caras que chegaram com aviso prévio: "Olha, o cara não gosta que falem sobre punk rock". Ele é um cara muito tímido. Achei que fosse ser um papo monossilábico. Ele estava mais quietão, na dele, só que teve um momento na entrevista em que eu falei de rádio e ele lembrou da época em que o pai dele ouvia uns programas de jazz. A partir daí ele se soltou. No fim do papo, falamos de punk, mas foi porque mostrei para ele a capa da edição brasileira em vinil do LP Marquee moon (estreia do Television, banda de Verlaine, de 1977), que tinha num canto escrito justamente "punk rock" (risos).

Como ele ficou quando viu isso? Ele ficou chocado, porque não era um adesivo, estava impresso. Aí falei: "Agora você vai ter que autografar o disco!". Ele assinou, mas botou um "no!" na frente do "punk rock".


Fabio, como você viu essa modificação na MTV? Minha relação com eles sempre foi muito bem resolvida. Tenho respeito pela MTV, trabalhei doze anos lá. Foi o lugar que estabeleceu minha marca. Acho que no fim de tudo é business, foi o fim de um negócio e pronto. Ainda que a gente possa discutir como era a estação nos últimos anos, ela fechou não por um tipo de inabilidade artística ou editorial, mas porque acabou o business. No fim das contas é algo meio natural. O que teve de diferente é que a gente se despediu de um canal de TV, e que estão tentando fazer um outro tipo de negócio com a mesma marca. Para a gente pode avaliar essa MTV nova, tem que dar tempo ao tempo.

Onde as pessoas podem te ver e ouvir agora? Você pensa em algo para rádio e TV? Eu tô só me dedicando aos livros. Tenho um projetinho a longo prazo com a Ideal no sentido de que até o fim do ano saiam mais coisas com a minha marca. Talvez edite coisas para lá. Tem o 84, tem um projeto que deve sair até o fim do primeiro semestre em quadrinhos e que posso te dizer que se baseia numa entrevista que fiz. Posso também fazer algo em rádio, mas TV nem é algo que eu tenha tanta interesse hoje.

A FORÇA DE MARCELO YUKA

Passamos, o fotógrafo Andre Luiz Mello e eu, uma tarde-noite na casa de Marcelo Yuka na Tijuca. A residência fica no alto de uma ladeira e tem três andares. Chega a ser preocupante imaginar um cadeirante vivendo lá - a casa foi comprada bem antes de ele sofrer o acidente que o deixou paraplégico. Mas Marcelo Yuka, um cara que não é lá muito dado a fugir de lutas, prefere assim. Diz que lembra de cada plantinha que levou para a casa, que cuidou bastante do espaço. E mantém lá sua estação de trabalho: o estúdio no qual grava seu primeiro disco solo, que pode sair a qualquer momento. O amigo Bruno Levinson, que escreveu com ele a autobiografia Não se preocupe comigo, já percebeu que o disco precisa sair logo e se ofereceu para dar uma ajuda na produção. Yuka, responsável por uma das obras mais perturbadoras da música pop e do rock nacionais recentes (as letras que compos para o Rappa e o único disco do F.UR.T.O, sua banda) ameaça a volta. E o verbo "ameaçar", no caso de um sujeito como ele, deve ser levado a sério.

Poetas - vá lá - do rock, o Brasil teve muitos. Renato Russo, Cazuza, Raul Seixas. Yuka é caso raro de letrista que conseguiu (e consegue) combinar poesia, romantismo e denuncia. Chega a dar nervoso o fato de que músicas como
Tribunal de rua e Me deixa, mais de dez anos apos seu lançamento, ainda soem atuais. Não se preocupe comigo, o livro, deixa entrever um pouco do que vem por aí. Vivendo e trabalhando em tempos pós-manifestações e acompanhado de amigos como Marcelo Freixo e Orlando Zaccone, Yuka arrisca soar mais combativo do que sempre foi.


Como diz Levinson, o importante é que todo mundo possa ter um pouco de Marcelo Yuka em suas vidas. Eu só posso concordar.

Bati um papo com Yuka para o jornal
O Dia no mês passado. Confira aí. Sempre achei que se relesse algo que apurei-entrevistei-escrevi e não parecesse com nada do que eu tivesse feito, é porque estaria muito bom. Isso aí não parece que fui eu que fiz. Muito legal.



PRESTES A LANCAR UM CD, MARCELO YUKA FALA DE AMOR, SEXO E DA SAÍDA DO RAPPA
Músico, que pretende atravessar a Baía de Guanabara numa canoa havaiana adaptada, fala ainda sobre sua militância em autobiografia
Publicado em O Dia em 18 de março de 2014

‘O Facebook é maravilhoso para mim, porque lá faço minhas militâncias, até procuro enfermeiro. Mas o mais engraçado é que sou bastante assediado pelas mulheres lá! E o ataque é soviético!”, brinca o músico Marcelo Yuka. Ele acaba de lançar o livro de memórias Não se preocupe comigo (Ed. Primeira Pessoa/Sextante, 240 págs., R$ 29,90), em parceria com o escritor e produtor Bruno Levinson. Baleado em 2000 numa tentativa de assalto na Tijuca — e cadeirante desde então —, o músico fala abertamente sobre amor e sexo na livro, de uma forma que espantou até o coautor Levinson. 

“Nunca tinha visto um cadeirante falar sobre isso da forma que ele falou”, diz o produtor. Yuka chegou a alertá-lo de que não seria um trabalho fácil. “Ele achava que eu não ia aguentar, que era barra pesada. No livro tem momentos tristes, como os tiros, a ocasião em que ele pensou em se matar. E já aconteceu de eu sair daqui (da casa de Yuka) transtornado com as coisas que ele me falava. Mas disse que se ele queria assim, estávamos juntos. Acho um absurdo ele ter dificuldade financeira, precisar brigar com o plano de saúde para ter um tratamento digno.”

“O livro é o projeto mais, digamos, egoísta no qual me envolvi e essa parte em que falo de sexo e amor é que tem mais cara de ‘serviço’”, conta. Yuka diz que não foi fácil se adaptar à nova realidade. “Quando me tornei cadeirante, peguei não só todos os estereótipos negativos ligados a isso, como também estava sob o período de choque medular. Nessa época, não sentia nada. Só bem depois vi que era possível e prazeroso fazer sexo. E as mulheres que toparam ficar comigo nessas condições me mostraram um amor revolucionário.”

A autobiografia — cujo título foi tirado do único hit de sua banda pós-Rappa, F.UR.T.O — revela os namoros de Yuka com mulheres famosas, como a promoter Alicinha Cavalcanti (“ela é uma mulher fascinante”) e a apresentadora de TV e atriz Chris Couto. Yuka diz que, atualmente, anda pensando em se casar.

“Estou aberto a isso. Mas acho que sempre estive. Quando meu irmão se casou, meu pai até falou para ele: ‘Casa mesmo, casar é bem legal. Eu mesmo já me casei dez vezes!’”, brinca. Yuka confessa já ter se interessado e se desinteressado por várias mulheres. “Olha, eu lembro que vi uma vez o filme Lua de fel (do Roman Polanski) e lá tem aquele personagem que sacaneia a mulher e fica na cadeira de rodas. E recebe o troco dela. Eu pensava: ‘C..., isso pode acontecer comigo.’ Hoje, cuido para que a coisa seja mais forte do que fugaz.”

Levinson e Yuka começaram o livro — escrito na primeira pessoa, como se fosse um longo depoimento do músico — há cinco anos. “Vinha aqui conversar com ele e também ia nas palestras dele, em visitas a presídios”, conta Levinson. Os dois se conhecem desde os anos 90, o que facilitou na hora de colher informações.

“O Yuka é uma pessoa muito generosa. E é um cara que tem um humor muito peculiar, se sacaneia o tempo todo”, diz Levinson. A intimidade entre os amigos de duas décadas é total. “Eu sacaneio bastante o Yuka, às vezes chego aqui e falo: ‘Pô, levanta dessa cadeira’, ou ‘Yuka, você tá com um tênis lindo. Me dá aí, pô. Você nem tá usando!’ Maltrato-o, às vezes!” 

Ele conta que gostaria muito que o livro virasse um filme. “Tem tudo ali que o cinema gosta: tiros, sexo, música. Mas acho que o principal é que todo mundo possa ter mais um pouco de Yuka em suas vidas. Fico feliz de ver uma garotada como o (grupo de rap) Cone Crew Diretoria, que nem viu o Yuka no Rappa, fazendo um clipe com ele (o de Pronto pra tomar o poder).”

Além de lançar o livro, Yuka finaliza seu primeiro CD solo, planeja uma exposição com as pinturas que faz (e espalha por toda sua casa) e se exercita para fazer em dezembro uma travessia pela Baía de Guanabara, numa canoa havaiana adaptada. “A costa marítima brasileira não é inclusiva”, denuncia. “Tem projetos para que cadeirantes possam ir à praia, mas eles funcionam até determinado horário. Pô, praia tem botão de ligar e desligar? Se eu quiser ir à Prainha (na Zona Oeste), que não tem projeto, não posso? E o direito de ir e vir?” 


No livro de memórias, Yuka dá sua visão sobre a saída do Rappa. ‘Peguei pesado, mas é minha história e tenho direito de contá-la’, diz

O dia a dia de Yuka tem sido ocupado, entre outras coisas, pela preparação do seu primeiro álbum solo, ainda sem data para sair — com participações de Marisa Monte, João Barone, Seu Jorge, Cibelle e Papatinho (do Cone Crew Diretoria). Jorge Ben Jor, cuja música Jorge da Capadócia serviu como oração para Yuka ao levar os tiros, acaba de topar fazer uma participação.

“Eu trabalho durante horas e durmo muito pouco, mas é que é um esforço muito grande para eu ficar focado”, diz Yuka, confessando que a agenda, muitas vezes, o livra da depressão. “Trabalho muito por causa disso e também porque é difícil viver de cultura no Brasil. Imagina sendo um baterista que tem um braço e meio só?”

Além de ir fundo nas aventuras de infância de Yuka, quando morou entre Campo Grande (Zona Oeste do Rio) e Angra dos Reis, e atendeu pelo apelido de Lombriga (“aprendi a me sacanear antes que me sacaneassem, era minha defesa”, diz), Não se preocupe comigo vai fundo nas tensões e mágoas que envolveram sua saída do Rappa, pouco após os tiros. Diz ter sido demitido e lembra que na época estava “na cadeira de rodas, chorando, gritando de dor, deprimido. O que aconteceu foi maldade”, escreveu.

“Talvez eu tenha pego pesado em alguns momentos, mas é minha história, tenho que me expor. E tenho o direito de contá-la”, diz o músico. Levinson nem chegou a falar com os ex-colegas de banda do baterista. “Não dá para eu ir pedir autorização para todo mundo que é personagem da vida do Yuka.”

Em meio ao livro, Levinson lidava com o dia a dia de Yuka, sempre acompanhado por enfermeiros — ele tem paralisia nas pernas e movimentos prejudicados no braço esquerdo, e vive numa casa de três andares na Tijuca. “Nunca quis me desfazer da casa, mas minha movimentação fica limitada aqui”, diz o músico, que constrói, com dificuldades, um elevador na residência. “Passei o Carnaval trabalhando. Às vezes, viro a noite no estúdio (que fica em casa) e só vou dormir às duas da tarde.”

segunda-feira, 14 de abril de 2014

O LIVRO DE FABIANA KARLA

Bati um papo há alguns meses com a atriz Fabiana Karla sobre o livro O rapto do Galo, sua estreia como autora infantil. Leia aí.

O original da materia esta aqui.



FABIANA KARLA ESTREIA COMO AUTORA INFANTIL
Livro O rapto do galo fala de personagens do Carnaval do Recife, terra da atriz, que recentemente interpretou a Perséfone na novela Amor à Vida.
Publicado em O Dia em 19 de fevereiro de 2014

Fabiana Karla, a Perséfone da recém-terminada novela Amor À Vida, sempre teve um grande público infantil. Que ela, mãe de três filhos (Beatriz, Laura e Samuel), acreditava estar deixando de lado.

“É uma herança que tenho do Zorra total. Toda vez que ando na rua, tem uma mãe levando o filho para pedir autógrafo. Eu queria fazer uma peça infantil, mas estava sem tempo”, lamenta. O clique de que deveria fazer algo voltado para as crianças veio após participar de Par ou Ímpar, CD infantil da dupla Kleiton & Kledir, na música Trova do guri e da guria. Foi aí que nasceu o primeiro livro da atriz, o infantil O rapto do Galo (Ed. Rocco, 32 págs., R$ 39,50).

“Estava numa fase bem voltada para isso. Depois, conversando com um primo que é cineasta, ouvi dele a sugestão de fazer um livro infantil que falasse da minha infância, do Galo da Madrugada, que é um dos blocos mais tradicionais do Recife. Eu sempre gostei de ler desde criança e as minhas melhores viagens foram para dentro do universo de livros. Sempre li muito Monteiro Lobato e Mauricio de Sousa. Tudo isso me abriu muitas gavetas”, diz Fabiana.

Ela nasceu em Pernambuco há 38 anos e escreveu todo o livro justamente durante uma viagem de avião para sua terra natal. Na infância, brincou muito no Galo. “O bloco tem um galo enorme que abre o desfile. Sem ele, não tem Carnaval. Minha ideia era deixar algo para as crianças que falasse de um pedacinho da minha cultura”, conta.

Em O rapto do Galo, o sumiço do boneco faz com que o Carnaval seja suspenso. No decorrer da história, surgem lugares conhecidos da folia, como a Ponte Duarte Coelho e personagens como os Bonecos de Olinda, os caboclos de lança, os cirandeiros e o Papa-Figo — uma criatura que come os fígados das crianças e que é uma lenda aterrorizante em Pernambuco. “Mas coloquei isso no texto de modo que não assustasse os leitores”, esclarece Fabiana.

As ilustrações, feitas pela olindense Rosinha Campos — ganhadora de vários prêmios Jabuti com ilustrações de livros infantis —, e a estrutura do livro o deixam parecido com um cordel, repleto de xilogravuras e versos rimados. “A Rosinha foi uma escolha da editora. Quando vi que era outra pernambucana e que ela conhecia de Carnaval como ninguém, adorei. Nem queria me atrever a fazer um cordel, mas optei por fazer tudo com rimas”, lembra Fabiana.

A primeira pessoa a ler, ou melhor, a ouvir todo o livro foi a escritora Thalita Rebouças. “Pensei: se ela gostar, vai dar certo. E ela foi extremamente generosa”, conta a atriz. “A Fabiana me ligou e leu todo o livro para mim no telefone mesmo. Quando ele terminou, eu já estava chorando de tanto que me emocionei com a história”, lembra Thalita, que intermediou a publicação de O rapto do Galo com a editora Rocco. “Toda a delicadeza que ela tem na hora de atuar, ela levou para o livro.”

Um livro, três filhos, nove meses de trabalho pesado em Amor À Vida e ainda por cima o Zorra total, que Fabiana não largou. Por sinal, ela diz ter sentido um nó na garganta com o fim de Amor À Vida. “A Perséfone foi especial para mim. E foi veículo de muitos temas importantes, como o bullying e as modelos plus-size. Nem sabia que eu tinha tantas emoções para emprestar para ela”.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

MARIA RITA

Bati um papo com a simpática e adorável (sim, ela é) Maria Rita para O Dia, sobre seu disco novo. Leia aí (o link original da matéria está aqui).


MARIA RITA RETOMA O SAMBA EM NOVO ÁLBUM
Coração a batucar por muito pouco não foi um disco com ‘a acidez do rock’
Publicado em O Dia em 26 de março de 2014

Algumas decisões de Maria Rita não têm sido fáceis. Não foi tranquilo optar por rever o repertório da mãe Elis Regina em Redescobrir, DVD de 2011, nascido de um projeto da Nivea, Viva Elis. “Seria muito óbvio fazer isso. Oportunismo barato não faz minha cabeça. O convite veio no momento certo, mas encarei como uma homenagem e não me referi a ela como Elis no palco, só como mãe. Quis cuidar dela, como você cuida de uma mãe quando ela fica mais velha”, conta a cantora, que retoma a trilha do álbum ‘Samba Meu’, de 2007, em mais um CD dedicado ao estilo, Coração a batucar.

A volta ao batuque traz também as lembranças difíceis do fim da turnê de Samba meu, que ainda gerou um DVD ao vivo. “Foi um trauma. Em algumas cidades, eles não queriam mais o show do disco, pois já tínhamos passado por elas quatro, cinco vezes. Pela demanda, surgiu um show de violão e voz que gerou o Elo (quarto disco)”, recorda, nada saudosa.

Incrivelmente, foi o Rock in Rio, em cujo palco ela cantou no ano passado, que a fez retornar ao samba. “Sugeri cantar músicas do Gonzaguinha, mas não fui com uma formação tradicional de samba”, recorda ela, que convidou o jazzístico Jota Moraes para os arranjos do disco novo. “Algumas músicas têm sonoridade de samba dos anos 50. É eclético, mas não é samba disfarçado.”

Ela revela que a revolta do rock paira sobre o novo disco. “Cheguei a pensar em fazer um disco com essa acidez do rock. Algo mais indignado, de botar tudo para fora”, diz. “Vi um DVD do Metallica e o vocalista (James Hetfield) usava um microfone antigo, de rádio. Perguntei para meu diretor técnico como eu conseguia um daqueles e ele: ‘Não acredito que você tá vendo isso, Maria Rita!’”, diverte-se. A acidez vazou para sambas como Saco cheio (do repertório de Almir Guineto).

Recuperada de uma cirurgia umbilical (por causa de uma diástase muscular) a mãe de Antonio, 9 anos, e Alice, 1 ano (de seu atual casamento, com Davi Moraes), revela que ainda não foi ver Elis — A musical. “Estava produzindo o disco e não tive tempo. Mas sei que está em ótimas mãos”, conta. Ela não tem muitas lembranças da mãe, que perdeu aos 5 anos. “Tenho só sensações. Uma vez descrevi para o meu pai a casa em que a gente morava e ele: ‘Não é possível que você lembre disso!’ Fui ao velório dela e achava que ela estivesse dormindo. A única coisa que me falaram foi que ela teve problema no coração. Falava para pararem de falar, para não a acordarem.”

Ela não se abalou com a declaração do novelista Aguinaldo Silva — que disse que “cortaria os pulsos” se a tivesse na abertura de Falso brilhante, sua próxima novela. “Vou falar o quê? ‘Goste de mim, pelo amor de Deus?’”

quarta-feira, 9 de abril de 2014

TUCA, "DRACULA I LOVE YOU"

Comecei o ano de 2014 com uma lista de 40 discos lançados em 1974. Foi uma forma de, digamos, me auto-homenagear - já que chego aos 40 em novembro deste ano. E foi o início de uma série de listas às quais, por pura falta de tempo, nao dei continuidade. Neste mês ainda, prometo (estou de férias, o que facilita) que sobem mais duas.

Tem outros discos interessantíssimos lançados em 1974 que não estão lá. E estarão numa próxima.

Um dos álbuns brasileiros lançados naquele ano permanece um mistério para muita gente. Já esteve próximo de ser relançado algumas vezes. Mas provavelmente vai demorar muito para sair em formato digital decente (em MP3 pirata, ele ja circula ha tempos), ou CD, ou vinil novo.

Lançada na época dos festivais da canção, a cantora paulistana Tuca (nascida Valeniza Zagni de Castro em 1944 e morta em 1978) vinha com sambas e sons mais ou menos brasileiros em seus dois primeiros discos, Meu eu (1965) e Tuca (1968). Mas nunca havia soado tão pop e tão estranha quanto em seu terceiro disco, Dracula I love you, lançado pela Som Livre em 1974.

Intenso e desesperador em letras e música, Dracula soa quase como um equivalente feminino de Lóki, de Arnaldo Baptista, que saiu naquele mesmo ano. O som mistura folk, pop agridoce à moda dos anos 70, rock, soul, musica francesa, psicodelia e orquestrações dignas de trilhas de cinema, em músicas como Girl, É uma lástima, Sorvete, Oui je suis heureuse. Ilha do quartzo azul, quase a sonorização de um paraíso perdido, ou da vida ao lado de um amor que foi embora, arrisca ser um dos mais belos e intensos momentos da musica pop brasileira daquele periodo. Tempo glacial é um rock com conduções orquestrais delicadas e uma força vocal difícil de ser ouvida em cantoras da época.


Dracula I love you surgiu numa época em que Tuca vivia na França e havia acabado de colaborar com Nara Leão em seu disco do exilio, Dez anos depois, e com a cantora francesa Françoise Hardy em seu clássico La question (1971).

Nesse último caso, a  influência de uma no trabalho da outra foi definitiva. Tuca compôs com Françoise quase todo o repertório de
La question, tocou violão e fez arranjos. Ao contrario do hábito comum entre compositores, que apenas ensinam rapidinho as músicas ao cantor e dão no pé, Tuca visitou bastante Françoise durante a preparação do disco, repassando com ela todo o repertorio inúmeras vezes. Muito da sonoridade fofa, intensa e triste de La question pode ser ouvida nas músicas de Dracula I love you.

Mistério é o que não falta ao lugar em que Dracula I love you foi gravado: o célebre Château d'Hérouville, construído na Franca, perto de Paris, no século 18. A construção serviu de moradia para o compositor clássico Chopin. O pintor Vincent Van Gogh foi enterrado lá. Em 1971, o Greateful Dead, de ferias forçadas na França (por conta de um festival no qual iriam tocar e acabou não rolando) aproveitou a existência de um estúdio de 16 canais na casa (e que havia sido construído pelo compositor Michel Magne, que adquirira a propriedade) para fazer um show gratuito para a comunidade local. Elton John gravou lá Honky chateau, em 1972. David Bowie gravou lá Pin Ups (1973) e Low (1977), e tanto ele quanto os produtores Tony Visconti e Brian Eno disseram terem visto fantasmas na casa. Em 2013, o Chateau estava sendo vendido.

A tristeza das letras de Dracula I love you tinha razão e nome. Em sua autobiografia, Françoise revela que lá por 1971, Tuca vinha curtindo uma paixão não-correspondida pela atriz italiana Lea Massari. Durante uma viagem de Tuca e Françoise para a Córsega, após as gravações de La question, a primeira passava as madrugadas conversando com a amiga francesa sobre a atriz. "Essas lamentações sempre terminavam em lágrimas, porque a bela atriz italiana não era lésbica e dividia sua vida com um piloto de avião. Tuca tinha um cheiro muito forte do qual nenhuma ducha conseguia livrá-la, e isso era um grande complexo para ela. Evidentemente, a relação dela com o corpo era complicada. Sinto muito por não ter perguntado mais sobre a infância e a relação dela com a mãe”, escreveu Françoise (leia mais aqui)

Entre os nomes citados na ficha técnica estao os de Mario de Castro, compositor gravado por nomes como Luli, Erasmo Carlos e Angela Ro Ro, e que dividiu composições com Tuca. Ela fez os arranjos com os jazzistas franceses Christian Chevalier e François Cahen (que foi integrante da banda jazz-prog-esotérica Magma). A fotógrafa Marisa Alvarez Lima fez os cliques de capa e contracapa da cantora. Em 2005 entrevistei o criador da gravadora Som Livre, João Araújo, e ele disse ter lembranças de esse disco ter saído também na França. Nunca consegui confirmar isso.

Ao que parece, as chances de Dracula sair em novo formato são pequenas. O DJ Zé Pedro tentou relançá-lo recentemente pelo seu selo Joia Moderna e não conseguiu, por causa da dificuldade de localizar parentes de Tuca. A cantora morreu, conta-se, após perder muito peso devido a um regime feito de forma irresponsável. A unica canção sua a ser reeditada em CD nesses últimos anos foi a delicada Berceuse, da trilha da novela O espigão (1974). Dracula I love you foi o última disco de Tuca. De modo geral, sabe-se bem pouco a respeito dela e de sua música. Um verdadeiro fantasma musical do nosso pop, que hoje pode ser ouvido só em MP3 piratas e no YouTube.

REYNALDO GIANECCHINI

Um papinho que bati com Reynaldo Gianecchini e que saiu na revista Já É Domingo, do jornal O Dia, mês passado. A foto da capa é de Maíra Coelho.

O link original está aqui.




REYNALDO GIANECCHINI FALA SOBRE DOENCA, CRISE CONJUGAL E MORTE
Na novela Em família, seu personagem Cadu vai ter uma cardiopatia e terá que fazer um transplante
Publicado na revista Ja E Domingo, do jornal O Dia, em 8 de marco de 2014

A barra vai pesar para Reynaldo Gianecchini. Pelo menos na TV e no teatro. Na vida real, ele está acostumado à superação de obstáculos, como quando se curou de um câncer linfático em 2011 e ainda viu seu pai, que adquirira um tumor na mesma época, morrer em seus braços em outubro de 2012. Agora, na novela Em família, seu personagem Cadu vai ter uma cardiopatia e terá que fazer um transplante. E na peça A toca do coelho, em cartaz no Teatro Leblon, na pele de Paulo Corbett, ele vai perder um filho e passar por uma crise conjugal.

Os problemas de saúde de Cadu já vão ao ar amanhã na novela. Após jogar bola na praia com o filho, Ivan (Vitor Figueiredo), o cozinheiro desmaia. Anteriormente, quando a trama começou, havia a possibilidade de Cadu desenvolver um tumor, o que não preocupou Gianecchini. “Seja lá qual fosse o problema, sei que o Maneco (autor da história) falaria do assunto de uma forma bonita. E não tenho problema de reviver essas situações, de falar disso. Encarei tudo com leveza. E a doença pode ser um trampolim, algo que leve você a dar uma volta boa na vida”, conta, sempre positivo.


O Paulo Corbett de A toca do coelho, diz Gianecchini, lida com a perda de forma completamente diferente da que ele lidou. O ator, mesmo assim, enxerga paralelos entre o que ele viveu e o que seu personagem está enfrentando todas as semanas no palco. “A perda sempre te leva a um vazio, a um questionamento sobre como se vive a vida. Fatalmente dá para esbarrar com um monte de coisas e levar para o personagem”, diz. Mesmo não tendo filhos, ele conta que não teve dificuldades para se colocar no lugar de um pai ao fazer a peça. “Consigo imaginar todas as mudanças que uma pessoa faz na vida para ter um filho e a sensação de que desapareceu tudo.”

Ao final da novela e da temporada da peça — que prossegue até 8 de junho no Rio —, o ator estará Ph.D. em questões familiares e dilemas de casal. Nas duas pontas (novela e teatro), Gianecchini lida com problemas conjugais. Em família traz um casamento que vai se tornando cada vez mais sem graça para Cadu e para Clara (Giovanna Antonelli), e ela é assediada constantemente pela fotógrafa Marina (Tainá Muller). Já em A toca, o casal Paulo e Beca (Maria Fernanda Cândido) tem sua dinâmica familiar modificada por causa da morte do filho. Se Cadu pode perder a mulher, a opção do casal de A toca do coelho é passar por cima dos problemas e optar pelo amor.


“Não faço ideia de como o Cadu encara isso. Mas possivelmente ele não é um cara muito aberto, digamos”. Ele prefere não adivinhar como seria passar pela mesma situação. “É o tipo da coisa que você tem que viver para saber.”

Gianecchini se diz “um cara família”, que está sempre do lado da mãe e das irmãs. “Na vida real, eu me envolvo bastante com essas questões. Gosto de acompanhar, de aconselhar, estar perto, pegar pela mão. Mas continuo sem vontade de ter filho! Bom, nada é tão exato assim. Pode ser que um dia eu acorde com vontade, né?”, brinca.

E não vão faltar candidatas, porque o tom grisalho do cabelo, assumido pelo ator, tem atraído as mulheres. “Impressionante como as mulheres gostaram do meu cabelo assim. Se eu soubesse que ia fazer tanto sucesso, tinha deixado antes. E o engraçado é que ninguém me deixa mais pintar o cabelo”, brinca o ator. “Solteiríssimo”, como afirma, ele só não se anima a fazer como o Cadu de Em família e aprender as artes da culinária. “Não sei cozinhar nem tenho muito tesão nisso. Acho que tenho mais prazer em comer”, brinca.


LEVE DRAMA

Com Reynaldo Gianecchini, Maria Fernanda Cândido, Selma Egrei, Simone Zucato e Felipe Hitze no elenco, e direção de Dan Stulbach, A toca do coelho vem de uma temporada muito bem-sucedida em São Paulo. Escrita pelo americano David Lindsay-Abaire e grande sucesso na Broadway, não se trata de um mero drama — apesar de trazer no roteiro uma morte e problemas conjugais.

“No Rio, parece que só funcionam as comédias, né? Mas nossa peça tem tanto potencial que não ficamos pensando nisso. A peça tem momentos tristes, mas em 80% do tempo as pessoas riem pra caramba. Ou vão do riso para o choro em segundos”, diz Gianecchini.

A toca marca a estreia do ator Dan Stulbach na direção. E é a primeira vez que Maria Fernanda Cândido e Gianecchini trabalham juntos desde a novela Esperança, de 2002. 


“A gente se gosta muito e sempre acompanhou o trabalho um do outro. E foi ótimo trabalhar com o Dan, que é exigente, mas afetuoso com todos”, diz Maria Fernanda. “E eu quero repetir a experiência com eles e com outros colegas. Agora, entendo porque diretor tem uma certa inveja do ator”, brinca Stulbach.

Giane e Maria Fernanda Candido estão na campanha Saia Já do Foco, contra o uso de celular no teatro. “Cara, me desconcentra muito”, reclama o ator. Stulbach endossa: “Uma vez, estava na plateia e tinha uma menina transmitindo tudo o que estava acontecendo no palco pelo celular. Pô, assiste à peça!”, diz, aos risos.

terça-feira, 8 de abril de 2014

LEIA NA CAMISA DO KIM THAYIL

O Lollapalooza Brasil versão 2014 acabou e uma pergunta ficou.

O que estava escrito afinal na camisa do guitarrista do Soundgarden, Kim Thayil? Que banda de black metal era aquela?

A foto ao lado foi tirada de um portal (acho que o UOL) e postada no Facebook. E mostra o que estava escrito lá.



Aparentemente não se trata do nome de uma banda nova, e sim de uma camisa da loja virtual Actual Pain, que tem base em Seattle e é especializada em camisetas, mixtapes e badulaques ligados ao universo do black metal e a uma ou outra coisa bizarra - ocultismo, por exemplo.

Algumas camisetas vendidas lá, para a alegria da turma de preto e da corpse paint, trazem o T de Actual como se fosse uma cruz invertida. Em outras, o nome da loja aparece dividindo espaço com pentagramas, demônios e cruzes normais. Aparentemente o modelo que Kim vestia durante o show não está mais a venda - vasculhei o portal e não o encontrei.


A Actual Pain atende a lojistas de varios lugares do mundo, incluindo Canadá, Japão, Suécia e Rússia. Por enquanto só não vende no Brasil, o que é uma questão de tempo. Fiquei imaginando se, para um próximo CD, Anitta decide largar as camisas dos Ramones e do AC/DC de lado para usar modelitos black metal da Actual Pain. Ainda não sei o que dizer ou pensar disso.

Não vi o Lollapalooza in loco, acompanhei pela TV, mas me arrisco a dizer que o Soundgarden arrasou mais do que quase todas as bandas que se apresentaram lá. Só pedrada musical, com direito a raridades do Ultramega OK (primeiro disco, de 1986) e um Chris Cornell audivelmente baleado, mas no total esforço. Em forma aos 50 anos (tenho dez anos a menos e vinte vezes mais barriga) e com uma carteira recheadas de sucessos da era grunge. Os sucessos de Superunknown, de 1994, emocionaram.

Tem algumas datas redondas do Soundgarden por aí, esperando para serem comemoradas. Vinte anos do Superunknown, cinquenta anos de Cornell... e trinta anos de banda. O Soundgarden começou em 1984. O grupo gramou no mercado independente, com pouco prestígio e pouca grana, até virar bandona anos depois.

Vários anos depois de seu começo, ainda vale muito ouvir o Soundgarden. E ouvir como se fosse uma banda nova, que ainda esta aí, gravando, se apresentando e fazendo cabeças. Ver os caras tocando no Lollapalooza valeu para quem encosta nos trinta anos como uma aula de história do Brasil ministrada por Dom Pedro I.

TUDO POR UM FURO

Nao sei se o filme Tudo por um furo, de Adam McKay, está em cartaz ainda. Sei que ri MUITO quando o vi na cabine.

Recheado de piadas politicamente incorretas - nas quais o cara que faz a piada é que se dá muito mal e prova sua imbecilidade, digamos assim - o filme volta na virada dos anos 70 para os 80 para contar a historia de um obtuso âncora de TV, Ron Burgundy (Will Ferrell) que é convidado a apresentar um programa no primeiro canal de noticias 24 horas no ar da historia da televisao.

A genese de programas como o Cidade Alerta e o Aqui agora estao aí. O cara toma conta da telinha mostrando aquilo que muita gente chama de showrnalismo - bizarrices, uso de drogas, esportes, lugares pitorescos dos Estados Unidos. Numa das cenas, Ron e um de seus chapas experimentam crack na frente das câmeras. Em outra, sem nada para mostrar, passam todo o programa exibindo uma cena de perseguição de carros pelas estradas dos EUA.

Fiz a resenha do filme há algumas semanas para O Dia. Tá aí. Vale procurar o filme para ver.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

JOSE WILKER ERA FODA

O melhor de José Wilker era nas telas de cinema e de TV - e, diz quem viu, no teatro. Mas legal de verdade devia ser assistir a José Wilker, que morreu neste sábado, sendo ele mesmo.

Todo mundo que foi amigo de José Wilker ou trabalhou ao lado dele tem pelo menos uma historia engraçado para contar a seu respeito. Uma vez, numa entrevista para o programa Panico, no rádio, Fabio Jr disse que, durante um passeio ao lado de Wilker em Paris (para onde tinham ido promover o clássico do cinema brasileiro Bye bye Brasil), resolveu azarar uma francesa, mas não sabia falar nada em francês para se aproximar dela. O ator lhe ensinou umas frases, Fabio foi lá e... levou um tapa na cara. Caiu como um patinho, claro - a tal frase era algo como "oi, quero comer você".

Numa outra ocasião, em uma entrevista, Wilker disse que, na epoca de Roque Santeiro, era constantemente importunado por pessoas que achavam que ele era mesmo o personagem da novela - e que fazia milagres e curava pessoas. Uma vez foi abordado por uma mãe com seu filho, que ja foi logo dizendo "Olha só quem está aqui, é o Roque Santeiro! Faz uma mágica pro meu filho!". Wilker, segundo ele proprio, pôs a mão na cabeça do garoto e disse: "Vire bosta"!

Wilker interpreta o personagem José Wilker, digamos assim, nesta entrevista que o ator deu a ninguém menos que Silvio Santos e a turma do Show de Calouros (!) em 1986. Na época, Silvio decidira reformular o programa e convidava atores (inclusive da concorrência) e políticos para darem animadas entrevistas para os jurados. Wilker foi lá lançar o filme O homem da capa preta, no qual interpretava o controvertido político Tenório Cavalcante. Distribuiu beijos - inclusive para o próprio Silvio - e dividiu um momento digno de programa humorístico com Sergio Mallandro, com quem sai abraçado do palco. 


Se Wilker brilhou em novelas como Roque Santeiro, que ja saíam boas do script e era transformadas em ouro pelos atores, vale lembrar que, muitas vezes, deu graça a cenas chatas e textos problemáticos. Em O bofe, novela da Rede Globo de 1972, o autor Braulio Pedroso foi afastado devido ao fracasso da trama - e substituído por Lauro Cesar Muniz. Puto com a substituição, Wilker pediu para matarem seu personagem, Bandeira. E, já que nao havia nenhuma razão aparente para a morte, sugeriu que ele morresse de rir (e, sim, foi atendido).

Wilker não era exatamente um humorista - era um ator que tinha timing e um humor, às vezes, misto de infantil e adulto. Quem viu Roque Santeiro lembra bem da famosa cena, de poucos segundos, em que aparecia uma discussão entre ele, Roque (Wilker) e Sinhozinho Malta (Lima Duarte), e que terminava com Roque/Wilker anunciando que iria fazer xixi. E, sim, é de morrer de rir - veja aqui. Era um personagem, mas dava a impressão de que era ele mesmo, digamos assim.

Nunca entrevistei José Wilker. A única vez em que estive com ele foi nos anos 90, numa situação absolutamente corriqueira. Estava comprando três CDs na falecida Grammophone, do Shopping da Gavea, enquanto ele estava na minha frente com vários DVDs (novidade na época) e uma dezena de CDs de trilhas sonoras de filmes. O vendedor vira-se para ele na hora do pagamento e diz "Ih, o sistema caiu. Vai demorar um pouco, ok?". Wilker murmura um tudo bem, olha para mim e diz "Pô, que merda, né?" Devo ter respondido um "é..."
 tímido e nem consegui (e nem tentaria) puxar papo.

José Wilker, ao contrário de muitos outros atores, não era só um grande ator, daqueles que emprestam talento, carisma e etc a qualquer personagem. Era o herói de muita gente, de muitos fãs e de muitos colegas. Era mais do que apaixonado pelo seu trabalho e por tudo o que dizia respeito a ele. Antes de morrer, sabe-se lá se seguindo o velho clichê das premonições, doou vários filmes para o arquivo da Rede Globo - foi o que disseram o RJ TV e o Jornal Nacional.

Com a saída de cena de Wilker, vai embora muito da ironia, da gozação e da atitude "Dick Vigarista" que ainda restava na teledramaturgia brasileira. Enfim, que merda.

NIVEA VIVA O SAMBA


Fiz (aliás, fizemos, eu e Leandro Souto Maior) matéria sobre o show Nivea: Viva o samba, que reuniu sambistas em apresentação gratuita. 

Já rolou, fica como registro.

SHOW GRATUITO REÚNE ROBERTA SÁ, DIOGO NOGUEIRA, ALCIONE E MARTINHO DA VILA
Dois veteranos do samba se unem a dois nomes da nova geração, em show que acontece domingo, na Praia de Copacabana
De Leandro Souto Maior e Ricardo Schott
Publicado em O Dia em 21/03/2014

Incrível: o samba estava ficando meio de fora do repertório — e do dia a dia — de um dos mais recentes nomes do estilo. A bela Roberta Sá surgiu sambista no álbum Braseiro, de 2005, e vinha ficando mais pop após Segunda pele
, de 2011. “Só que aí eu separei vários sambas para escutar no meu iPod e, depois disso, veio o convite para dividir o palco com esses bambas”, diz a cantora, referindo-se a Martinho da Vila, Alcione e Diogo Nogueira. Com essa turma, Roberta bota a Praia de Copacabana para sambar com show feriado neste domingo, em mais uma edição do projeto Nivea Viva

A marca de cosméticos já namorou o samba nos dois primeiros anos do projeto. Em 2011, a homenageada foi Elis Regina, com show de sua filha Maria Rita. No ano passado, Vanessa da Mata relembrou a música de Tom Jobim. Desta vez, o evento Nivea Viva o Samba adianta os 100 anos do estilo (comemorados só em 2016) com um encontro de gerações.

“Estão surgindo aí uma porção de novos talentos, novos canários”, comemora Martinho, que teve alguns de seus clássicos incluídos no repertório. Alcione, cujos sucessos Meu ébano, Não deixe o samba morrer e Rio antigo estão no setlist, concorda.“É verdade. Diogo e Roberta estão vindo com responsabilidade, assim como Maria Rita, Mart’Nália. Dela, por exemplo, gosto bastante porque ela é percussionista e ainda tem o DNA do Martinho. Esse pessoal veio para ficar.”

Diogo, filho do célebre João Nogueira, mantém as tradições familiares compondo para a Portela, tantas vezes homenageada por seu pai e por Clara Nunes, amiga da família. “Não faço samba para outras escolas, sempre fiz para lá”, conta ele, que apresenta músicas como Sou eu (feita por Chico Buarque e Ivan Lins especialmente para ele cantar, e que ele relê com Martinho) e temas do pai, como Além do espelho.

Roberta comemora a chegada de mais mulheres no mundo do samba, como instrumentistas e compositoras. “A mulher também está na bateria das escolas, uma coisa que nem se pensava antigamente que poderia acontecer. A gente ainda não tem uma mestre de bateria, mas eu vou estar viva para ver isso acontecer, uma mulher na Avenida regendo aquela massa sonora!”, sonha. Em Nivea Viva O Samba, ela recorda Clara Nunes e seu sucesso Conto de areia. E seu primeiro solo no show vale como declaração de princípios: Eu sambo mesmo, de Janet de Almeida.

Dirigido por Monique Gardenberg e roteirizado por Hugo Sukman, o show inicia com um grande hino das rodas: A voz do morro, de Zé Kéti. Prossegue com lembranças de “todo mundo que já se entendeu com o samba”, como diz Monique. Dorival Caymmi (Um vestido de bolero), Noel Rosa (Com que roupa?), Cartola (O mundo é um moinho), Gonzaguinha (O que é, o que é?), Ary Barroso (Isto aqui o que é?) e Arlindo Cruz (Meu lugar) são distribuídos ao longo da apresentação.

Uma surpresa para as fãs é Diogo Nogueira dando uma de ator — num filme em preto e branco que é exibido quando Roberta Sá canta E o mundo não se acabou, de Assis Valente, e no qual ele é um dos malandros que disputam a personagem da atriz Maria Flor. Além da mistura de cinema e música, Diogo aprova outras mesclas. De samba com funk e rock, por exemplo. “Quando a música é boa e bem feita e dá para juntar os diferentes elementos e ter uma harmonia gostosa e divertida. Tudo vale a pena!” 

EXCURSÃO DE BAMBAS O Nivea Viva o Samba adianta em dois anos o centenário do estilo — que lembra o registro do primeiro samba oficial, Pelo telefone, de Donga, em 1916. E comemora os 100 anos da chegada da marca alemã de cosméticos ao Brasil. A dupla comemoração ao som de samba atraiu 70 mil pessoas em Porto Alegre no último domingo e chega à Avenida Atlântica, na esquina da Rua Princesa Isabel, em Copa, neste domingo, às 17h. Depois, segue para Brasília (6 de abril), Recife (13), Salvador (27) e São Paulo (25 de maio).





sexta-feira, 4 de abril de 2014

CHOCOLATE NO GLOBO REPÓRTER



Ele já foi censurado. Já foi um programa inovador, que deu espaço para cineastas e jornalistas e viajou pelo Brasil mostrando cantos bem sofridos do país. Passou pelas mãos de gente que renovou o telejornalismo. Sobreviveu mais de 40 anos mesmo com mudanças de horário, redesenhos, pouca audiência, pouco caso da estação que o transmite. Mas chegou até aqui.

E tudo que o Globo Repórter tem a oferecer na semana do aniversário do Golpe Militar é um programa sobre... chocolate.

Bem...

quinta-feira, 3 de abril de 2014

UM FUTURO MELHOR NO PAINEL DO SIMCA CHAMBORD

Se eu fosse escolher uma, uma única música, para falar um pouco a respeito do que foi o período imediatamente pré-1964 no Brasil,  talvez escolhesse esse clássico dos anos 80 (isso mesmo, dos anos 80) abaixo.




Simca chambord, do Camisa de Vênus, talvez tenha sido a primeira música do rock dos anos 80 - mais até do que os longos discursos da Legião Urbana - a falar de maneira direta e objetiva sobre o que era o Brasil antes da ditadura. E o que ele passou a ser depois. É, na minha opinião, um dos cinco melhores rocks compostos em língua portuguesa. E é bem pouco lembrado.

Marcelo Nova, um cara que manda muito bem quando quer, disse certa vez que a escolha pelo Simca Chambord como título (e tema) da música foi mais um aceno às reminiscências do grupo - formado, em sua maioria, por músicos alguns anos mais velhos do que a geração do rock daquela época. Não, o Simca não foi tirado do mercado porque a ditadura assim o quis. Ele foi tirado do mercado porque vivia dando defeito e tinha uma mecânica muito da salafrária  - havia quem o comparasse com o personagem principal de O belo Antonio, interpretado pelo italiano Marcello Mastroianni, um cara bonitão e pegador que, na real, era impotente. O carro entra mais como o representante do fim de uma era de sonhos - de carrões, noitadas intermináveis, cuba libre, juventude transviada cabocla, etc. O que veio depois dava medo. E dura até hoje, com figuras estrategicamente dispostas para garantir que tudo continue exatamente como estava.

Por mais que Simca Chambord seja uma musica bem alegre, dá uma certa dor no coracão quando chega o verso “o presidente João Goulart um dia falou na TV/que a gente ia ter muita grana/pra fazer o que bem entender”. Uma história que dá pra entender em parte aqui, numa entrevista inédita de Jango que só foi divulgada recentemente. Ou na série de reportagens que o jornal O Dia vem publicando diariamente a respeito dos 50 anos do golpe. Ou nessa pesquisa que só foi divulgada agora, a respeito da (grande) aprovação popular do governo Jango. O Brasil, como escreveu outro dia Marcelo Rubens Paiva, é um país que passou por uma ditadura que vivia falando em ameaça comunista, sendo que nem de longe ele correu o risco de se tornar um país comunista.

O clipe de Simca Chambord é, digamos, um tapa na cara de qualquer pessoa que tenha o hábito de falar mal de outro período muito pouco estudado na historia da música, que são os clipes pré MTV, do Fantástico - sim, ele foi exibido no show da vida. Cada integrante do Camisa de Vênus faz uma figura ligada à ditadura militar. Um espião, um operário, um professor, um jornalista, um militar, etc. Marcelo Nova, curiosamente um sujeito cuja relação com a imprensa musical nunca foi lá essas maravilhas, e o jornalista que cobre as prisões, a passeata dos cem mil (com direito a reproducao da famosa cena em que Wladmir Palmeira discursa num poste - e sim, rola uma confusão rápida entre 1964 e 1968), a partida de Jango para o exílio.

A tradução rock n roll de um período que poderia ter sido luminoso e feliz esta aí, enfim. E natural que ele apareca gingando feito Elvis numa época em que todo mundo queria ser moderninho. Confira acima.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

INFORMATION SOCIETY

O Information Society, aquela banda que nos anos 80 tocava em boates da moda e em bailes funk, e que excursionou pelo Brasil mais que o Faith No More, o Jimmy Cliff, o Billy Paul e o Paul McCartney juntos, voltou recentemente para o Rio, para fazer um show no Circo Voador nos dez anos da Festa Ploc - comandada pelo amigo Luciano Vianna.

Nunca morri de amores pelo som do Information - na epoca, gostava do pop eletronico do Depeche Mode, do Human League e do New Order, que ja vinham de bem antes, e considerava o InSoc um peido de todas essas bandas. Acho que o que tinha de legal ali era o fato de que, nessa epoca, esse tipo de som virou musica para as massas. Lembro de ir certa vez no She-Ra's, boate que ficava nos rincoes de Sao Goncalo (sim, periferia da periferia do Rio, depois da Zona Norte de Niteroi) e todo mundo lotar a pista aos primeiros acordes de What's on your mind, um dos primeiros hits deles. E todo mundo berrando  “vai tomar no c...” no meio de Running.

Abaixo, um papo que bati com Paul Robb, do Information, quando a banda veio tocar no Rio ha um mes. Curta ai (e, sim, meu teclado esta desconfigurado).


ANOS 80 DE VOLTA, SOB A LONA
Festa Ploc completa dez anos e comemora com Information Society sexta, no Circo Voador
Publicado em O Dia em 13 de marco de 2014


Bandas como Legião Urbana tocando no rádio, volta do Ira! (que estava separado desde o fim da década passada), filmes como Lagoa azul e Curtindo a vida adoidado fazendo o maior sucesso na Sessão da Tarde, Titãs gravando disco novo... E lá vêm os anos 80 de volta. A Festa Ploc, evento que relembra a época, comemora dez anos trazendo um sucesso internacional da década, o grupo de pop eletrônico Information Society. 

O trio americano formado por Paul Robb (teclados), James Cassidy (baixo) e Kurt Harland (vocais) traz amanhã para o Circo Voador inéditas do próximo disco, _Hello, world e hits como Running, Repetition e What’s on your mind. E não estão nem aí para as novas modas da música: os anos 80 são o lugar deles.

“É a década que nos formou. Todas as nossas canções favoritas são dos anos 80. Foi uma época especial para a música. Os artistas eram livres para experimentar e soltar novos sons”, alegra-se Robb. “Havia uma animação com música nova que nem existe mais hoje. Atualmente, tudo fica obsoleto assim que é lançado.”

Criador da Festa Ploc, Luciano Vianna, o DJ Dom LV, estende a comemoração pelos próximos meses. Em abril, o cantor britânico Rick Astley se apresenta em outra edição do evento, no Vivo Rio, e traz de volta hits como Never gonna give you up e Cry for help.

“Além dele, nosso projeto é trazer o Erasure e os Pet Shop Boys até o fim do ano. E sonhamos montar um grande festival dedicado aos anos 80, o maior da América Latina”, idealiza. Em julho, tem gravação do terceiro DVD do evento, no Circo Voador, com a Banda Ploc, montada especialmente para tocar nesses eventos, e vários convidados.

“A festa está atraindo um público cada vez mais jovem, de 21, 22 anos”, conta LV. “Tocamos para uma turma que não gosta de funk nem de pagode, nem se identifica com aquela coisa do flashback, de ir para uma festa dançar Village People.”

Dos anos 80 para cá, o Information mudou. Cada integrante precisou sair em algum momento, ou para cuidar da família ou para desenvolver novos projetos. “_Hello, world é o primeiro disco desde 1992 com os três fundadores”, diz Robb.

Popularíssimos no Brasil nos anos 80/90, eles excursionaram bastante por aqui no período. “Quando perguntam em que lugares do Brasil estivemos, sempre esperam ouvir Rio, São Paulo. Talvez Curitiba e Belo Horizonte”, conta. “Aí mencionamos que fomos a Belém (PA), São José dos Campos (SP), Florianópolis (SC), Mariana (MG), Aracaju (SE) e ficam todos surpresos. Conhecemos mais do Brasil que muitos brasileiros, acho”, conta o tecladista.

O grupo acabou conquistando fãs entre funkeiros — a ponto do hit Running ganhar um adendo em português no refrão (um sonoro “vai tomar no c...”) do público dos bailes. “Adoramos freestyle (gênero que é um dos pais do nosso funk) e baile funk. Não dá para negar que essa música é um hino disso aí”, diz Robb.

Uma notícia chata para os fãs: Kurt, que nos anos 80 e 90 alegrava plateias se apresentando só de patins, largou o artefato. “Mas, ainda assim, tudo pode acontecer nos nossos shows”, garante Robb.