segunda-feira, 31 de março de 2014

REVOLUÇÃO É O CARALHO

Por enquanto não tenho nada de muito interessante a dizer sobre os 50 anos do golpe militar. Só mesmo isso:

1) Sim, foi um golpe. Não foi "revolução".

2) Como disse meu amigo Carlos Eduardo Lima no Facebook: não tente defender. É indefensável.

Aqui, você tem uma lista de vários filmes (disponíveis no YouTube) para entender o golpe de 64.

Entrevistei o jornalista Marcus Veras sobre o livro
Qualquer maneira de amar - Um romance à sombra da ditadura, que ele lança hoje na Livraria Blooks em Botafogo. Saiu em O Dia. Leia ao lado. E leia o livro.

sexta-feira, 28 de março de 2014

MAIS THE DOORS, MENOS LEGIÃO, POR FAVOR

Doors em 1971, sem Renat... digo, sem Jim
Quem conheceu os Doors de perto, diz que a banda tinha lá seus problemas.

Diferenças de personalidade, problemas de convivência, relacionamento. Não devia ser das coisas mais fáceis do mundo aturar Jim Morrison bêbado ou doidão. Serguei (o próprio) diz que esteve numa festa em que Jim queria obrigar Janis Joplin a fazer sexo oral nele - ao que a cantora respondeu com uma garrafada.

Nosso mais velho roqueiro vivo ainda contou que alguém disse a ele, nesse mesmo convescote, para parar de rir de boca aberta, ou então o vocalista dos Doors ia lhe enfiar um sunshine (tipo de LSD) boca adentro.


Não sei se dá para acreditar no que Serguei diz - e relatos de ex-companheiros de banda apontam para o fato de que Jim era aquele bêbado ressacado moral típico, que saía ligando para todos os amigos no dia seguinte para pedir desculpas e perguntar se tinha feito merda nas festas. Mas da mesma forma, todo mundo é unânime em apontar uma coisa com relação aos Doors: coisas que poderiam minar gravemente relacionamentos entre seus integrantes nunca causaram problemas lá dentro.

Na capa do primeiro disco dos Doors, o vocalista aparece em situação de destaque em relação ao trio Ray Manzarek, Robbie Krieger e John Densmore. Nenhuma crise de ego em relação a isso: todos os integrantes sabiam que a banda tinha uma cara, e que Jim era o cara indicado para isso.

Todas as músicas de praticamente todos os discos do grupo - exceto o bom The soft parade (1969), dividido entre Robbie e Jim - eram creditadas aos quatro músicos, assim como acontece no U2 ou no R.E.M. Não sei como isso funciona na prática, se os mesmos 50% de direitos autorais que minaram a relação entre Marcelo Yuka e o Rappa poderiam acabar com a amizade entre Jim e os outros três. Provavelmente não é assim lá fora. E sempre foi assim e parecia dar certo.


Legião Urbana para mim é isso aí
Da mesma forma, quem conheceu os integrantes do grupo de perto sabe que Jim evitava fazer certos tipos de comentários em entrevistas para não deixar os colegas de banda putos ou melindrados.

Conhece-se muito o lado doidão dele e provavelmente conhece-se bem pouco o lado amigo e fiel do vocalista dos Doors. Diz a lenda que quando Jim foi preso por suposta "exibição indecente" num show em Miami, sumiu do mapa por uns tempos e os amigos da banda foram junto com ele. Manzarek, Krieger e Densmore também não gostaram da imagem que o filme The Doors, de Oliver Stone, passou do líder da banda. "Isso aí provoca um estrago na imagem do cara que eu conheci, que era um poeta", reclamou Manzarek. Nem preciso completar, mas vou completar: o filme foi visto, da maneira como foi feito, por quem quis. Ninguém proibiu. Quem tiver tempo, que pesquise aí o quanto os ex-colegas de Jim tiveram que engolir a ideia de um filme sobre o cantor à força. Isso talvez explique muita coisa.


Após a morte de Jim, o trio restante não teve problema algum em gravar dois discos, pelo mesmo selo da banda, Elektra, sem o cantor. Other voices (1971) e Full circle (1972) estão bem longe de ser uma boa merda, como se fala por aí. Só falta magia. E têm lá seu fã-clube.

A banda também voltou ao estúdio para pôr bases instrumentais em recitais de poesia de Morrison (em An american prayer, de 1978) e acompanhou de perto lançamentos retrospectivos da banda, caixas de relançmentos e discos ao vivo. Numa dessas vezes, foram perguntar ao saudoso Ray Manzarek se ele não achava que lançar uma caixa com gravações raras dos Doors não seria um grave oportunismo e uma concessão mercadológica. Ele só respondeu: "Sim, mas se você acha realmente isso, compre discos das Spice Girls e da Christina Aguilera.".

Jim Morrison não deixou filhos, tinha pouco contato com os pais e sua última mulher morreria pouco depois dele. Provavelmente isso ajudou a causar menos problemas na hora de explorar seu legado do que causaria a um artista que deixou viúva, filhos, parentes sedentos por grana, etc. Não vou ter tempo de explorar o manancial de processos e aporrinhações que provavelmente devem ter envolvido os nomes Doors e Jim Morrison - Krieger e Manzarek chegaram a brigar com o batera Densmore por causa do uso do nome da banda, há alguns anos. Mas de modo geral tudo ali parece ter sido resolvido com total respeito à soma das partes - que é o que forma de verdade um grupo conhecido, e não apenas o talento e as idiossincrasias do seu frontman. Por mais que o frontman seja MESMO um cara de linha de frente, tão de linha de frente que os outros três sejam... os outros três.

O trio restante dos Doors também subiu no palco algumas vezes com vocalistas substituindo o titular morto. Vale dizer que, de modo geral, deram a chance a gente que tem talento vocal, entranhas, cara de pau justificável e conceito musical afinado com o de Morrison: Scott Weiland, Eddie Vedder, Ian Astbury. De modo geral, ao que parece (ao que parece, faço questão de frisar) as escolhas de quem comeu grama e bebeu champanhe com Morrison e esteve do lado dele em momentos críticos foram bastante respeitadas durante várias décadas. E continuam sendo. E devem continuar assim.

Acho que esse exemplo dos Doors é o que eu prefiro dizer sobre essa história toda que envolve Legião Urbana, Renato Russo, a perda dos direitos do nome por parte de Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, e o fato de o site www.legiaourbana.com.br apontar para o novo site oficial de Russo.

Que cada banda, seja de rock, de pagode ou de funk, possa ter um pouco mais de Jim Morrison e The Doors em suas vidas, na hora de escolher os colegas de banda, assinar contratos, fazer parcerias e atrair amigos verdadeiros.

E que cada banda tenha um pouco mais de  Roupa Nova, mais Paralamas do Sucesso, mais U2 e mais R.E.M. também.

quinta-feira, 27 de março de 2014

E AÍ, BUCHECHA? BELEZA?

Buchecha, esse cara tímido, conquistador, pai de família e que ainda faz música boa. O funkeiro acaba de lançar um disco, na minha opinião, bem legal, Adesivo. E bateu um papo comigo para O Dia.

Leia o link original aqui no portal do jornal.



BUCHECHA ESTÁ MAIS APIMENTADO EM SEU NOVO CD, ADESIVO
Álbum traz letras 'quentes' como a de Baile em Miami, com o americano Flo Rida. Cantor volta ao funk melody que fazia ao lado do parceiro Claudinho
Publicado em 13 de fevereiro de 2014 em O Dia.

Na época do primeiro álbum solo, MC Buchecha (2003), chegaram a dizer que Buchecha havia virado evangélico e pastor protestante, por causa de músicas como Laços (“hoje ninguém mais namora e o tapinha/é o convite mais ativo pro motel”). “Não é verdade, não. Mas leio muito a Bíblia e admiro muito as histórias que estão lá”, diz.

O cantor volta repaginado e mais apimentado em seu quarto disco solo, Adesivo, em músicas como Pegador, Baile em Miami (“geme gostoso no ouvido e faz o chão tremer”, com participação do rapper Flo Rida), Mo Mo Mo (“gentil, fogosa, sabe seduzir/apetitosa, quero te invadir”). Ainda tem Gamou, que fala em uma mulher que estava “a fim e cheia de tesão” e ganha participação do pornográfico Mr. Catra na versão remix. 

“A gente sempre tem que seguir tendências”, conta o funkeiro, sempre risonho, ao telefone. “O primeiro disco era legal, produzido pelo DJ Memê, mas não emplacou por causa desse tom (conservador).” Os dois filhos, Clauci Julio, 14, e Giulie, 10, ajudaram nessa renovação.]

“Clauci fez algumas músicas. Em Pensamentos voam, o Clauci canta, com o nome de Buchechinha. Foi uma música que ele fez para a namoradinha dele”, diz Buchecha. “A Giulie, por exemplo, nem ouve música infantil. Ela e o Clauci curtem meu som, o da Anitta, o do Bruno Mars. Esses cantores não têm letra ingênua e têm um certo sex appeal. Trouxe isso para o meu trabalho”, completa o cantor, que, em algumas fotos de divulgação, adota um visual igual ao de Bruno, com chapéu.

Doze anos após a morte do parceiro Claudinho, ele mantém a pegada de hits como Só love e Nosso sonho em músicas como o single Frutilly (cujo ritmo é marcado por um violão) e na faixa-título (com um “se o destino vaticinar”, que lembra o velho hábito do funkeiro de pinçar palavras inusitadas no dicionário). Na mesma Frutilly também tem um verso, digamos, de duplo sentido: “pega o lulu e aumenta o som, vamos dançar”. Opa, como assim, Buchecha? Pega o lulu?

“Não, não, sem maldade! Isso é uma homenagem ao Lulu Santos, que é o meu maior ídolo!”, diz, gargalhando. “Essa música é sobre uma época de vacas magras, quando eu tinha uma namoradinha e a gente só tinha dinheiro para comprar um picolé e um saco de pipocas. Na época, eu era servente de obras e ajudava minha mãe e minha tia com o salário. Eu era tão tímido que, para você ter uma ideia, foi minha primeira namorada que me pediu em namoro. A segunda, também.”

Buchecha fala sério: a letra depois cita Dancin’ days, clássico das Frenéticas regravado pelo cantor nos anos 90. “Nem tive essa intenção. Até perguntaram para mim numa rádio se era duplo sentido, mas nem era. É verdade que o apelido do Lulu já é complicado, né? Você fala que ‘gosta do Lulu’ e as pessoas já vêm com maldade”, graceja.

Funkeiro pop na época em que Anitta ainda (literalmente) engatinhava, Buchecha curte a nova geração do estilo, apesar de achar que “o funk perdeu um pouco aquela essência do melody”. Cita a própria cantora de ‘Show das Poderosas’ e Naldo Benny como bons exemplos.

“A Anitta é muito bonita de olhar, é supersexy. Naldo é um cara que tudo o que põe a mão vira hit. Até mesmo esse funk ostentação é legal, como o MC Guimê. Antes, o funk falava mais de comunidades. Eles levaram isso para uma linguagem que todo mundo pode entender”, analisa. “Isso, ajudamos a conseguir lá atrás, e muita gente até me pergunta se não sou um ‘vovô realizado’. Pô, já vou fazer 40 anos, né?”

Ainda assim, o funkeiro tira um barato da ostentação das novas gerações em Cor sim, cor não, do disco novo. A letra fala de um cara que “bancou o camarote, mas esquece da mulher”. Essa galera nova não está deixando o romantismo de lado, Buchecha?

“Sem dúvida. O cara chega lá se achando porque está cheio de amigos, comprando bebidas caras... Mas tem que dar atenção é para a mulher dele, né?”, diz. “Essa música é quase um Berreco 2 (hit de Claudinho & Buchecha). O rei do camarote mesmo é o cara que vai com a mulher e dá toda a atenção para ela, vai lá para curtir com ela.”

Buchecha continua com o dicionário do lado para compor e pescar palavras diferentes — o hábito já lhe rendeu elogios inimagináveis. “Uma vez, encontrei um advogado que fez comentários sobre o verso ‘se o destino adjudicar’, de Nosso sonho”, recorda. “Nem sabia disso, mas ‘adjudicar’ é um termo jurídico. Ninguém usa normalmente. Isso acabou trazendo uma grande diferença para o meu trabalho com o Claudinho.”

Buchecha está “com alguém”, como fala, mas prefere não revelar nomes. “Tô feliz, mas tô casado é com o dicionário, que fica lá sempre do lado da minha cama”, brinca ele, que até hoje se considera um cara tímido. “Depois a carreira me ajudou e acho que fiquei mais ‘sem vergonha’, vamos dizer assim. Mas ainda fico inseguro, tímido. A voz vai enrolando. Os gestos de amor é que suprem isso.”

quarta-feira, 26 de março de 2014

MICHAEL SULLIVAN

O que mais existe por aí é gente admitindo que, sim, o jabá existe. Dizendo que ele aparece sob a forma de "ações de promoção", mas que ele está lá, nada disfarçado e rondando. Bom, lançando CD, Michael Sullivan, com décadas de experiência no mercado, acredita que o hábito de pagar a radialistas e donos de emissoras por execução de determinadas músicas (sim, o jabá) NÃO existe. O que existe é uma "promoção do departamento de marketing".

Enquanto você pensa sobre o assunto, confira essa entrevista que ele me deu para o jornal
O Dia. Ele vai além e lembra que, nos anos 70, viu um chefe de marketing da antiga CBS (hoje Sony) desesperado, chutando cadeiras, porque a verba destinada a um LP de Roberto Carlos era pouca. "Sem essa verba, ninguém vende, nem o Rei. Não dá para se fazer nada. O cara era um dos maiores divulgadores do Brasil, mas estava sem saber o que fazer, tipo 'o que é que eu faço agora com esse dinheiro?"", disse, em trecho não aproveitado da matéria.

Leia o link original, no portal do
O Dia, aqui.


O COMPOSITOR DO POVO
Michael Sullivan lança novo CD com convidados e diz que ‘jabá não existe’
Publicado em O Dia no dia 9 de março de 2014


Com mais de quatro décadas de experiência no mercado musical, Michael Sullivan diz que não existe jabá. “O que existe é promoção do departamento de marketing, que tem uma verba porque o disco é um produto”, relata o cantor e compositor, repassando sua carreira com convidados no CD Mais forte que o tempo. “Rádio não tem preço. Ou então todo mundo que fosse rico faria sucesso”, acredita. 

A obra que Sullivan construiu com o parceiro Paulo Massadas nos anos 80 e 90 (“terminamos a parceria sem brigar, em 1994”, diz) já foi vista como brega, de apelo fácil, comercial. “O disco novo é uma resposta a tudo que vivi. Sobrevivi às críticas. O tempo mostrou que minhas músicas são amadas pelo povo. E ele me elegeu. Nunca me vendi.”

A resposta de Sullivan em Mais forte que o tempo é trazer 17 canções suas (boa parte delas feitas com Massadas) regravadas com Adriana Calcanhotto (Me dê motivo), Ney Matogrosso (Amor perfeito), Fernanda Takai (Fui eu) e outros. Mais: Alice Caymmi solta a voz em Abandonada. E já foi convidada por Sullivan para trabalhar com ele. “Ela é maravilhosa. Quero colocar o show dela, Dorivália, em disco. Estamos compondo juntos e ela gosta muito do meu lado black. Tenho o lado soul e o lado rock dentro do meu trabalho.”

Nos anos 70, era comum haver artistas brasileiros cantando em inglês. Foi nesse contexto que saiu seu primeiro hit, My life, de 1976 — regravado por ele com Sandy no novo álbum. “Faço shows em Miami e sempre pedem essa música. Na época, chegou a vender 5 milhões de compactos”, estima o cantor, nascido em Pernambuco. Foi graças a essa música que Ivanilton de Souza Lima, seu nome verdadeiro, adotou o Michael Sullivan, “uma homenagem ao Michael Jackson. Abri uma lista telefônica de Nova York e tinha lá o nome Michael Sullivan.”

Autor de clássicos infantis dos anos 80, Sullivan prepara um musical para crianças, ainda sem nome, para setembro. “Vai sair um grupo infantil disso. Vou voltar ao passado. Nos anos 80, o que eu mais fazia era escolher Paquitas para a Xuxa.”

JULIANA AREIAS/BIANCA CHAMI

Entrevistas com duas novas cantoras, Juliana Areias e Bianca Chami, para O Dia.





terça-feira, 25 de março de 2014

TEM QUEM EXECRE

quem gosta dos Beatles e não ouve a fase psicodélica (sim, há fãs xiitas que curtem apenas do Please please me ao Revolver).

E tem muita, mas muita gente que acha que você não gosta de Pink Floyd se não curte a fase inicial, psicodélica e underground, da banda. Não estou entre essas pessoas, mas particularmente The piper of the gates of dawn (1967) e A saucerful of secrets (1968) mudaram minha vida quase tanto quanto The dark side of the moon (1973), disco-relato do Pink Floyd enquanto bandona, na linha "gigantes caminham sobre a Terra".

Vão aí duas boas lembranças da fase inicial do Pink Floyd.

A beleza de Syd Barrett, no fim de 1967, à frente do grupo, cantando Jugband blues - que só seria gravada pela banda em A saucerful of secrets e seria a única canção sua registrada lá. Veja aqui.

Um Pink Floyd ainda indeciso musicalmente, com todo clima progressivo e justo a que tem direito - e já com David Gilmour nos vocais e na guitarra e sem Syd - se apresentando num bizarro talk show psicodélico da TV francesa. Aparentemente, The piper ainda estava no cardápio como prato principal - as canções de Saucerful que aparecem, como Let there be more light. Veja aqui.

E na foto acima, você confere um raro registro do Pink Floyd como quinteto - entre o primeiro o segundo disco, Barrett e Gilmour dividiram espaço no grupo.

R.I.P. CANARINHO

Se você ainda achava que havia algum motivo para rir com A praça é nossa, provavelmente esse motivo foi embora na última sexta-feira, com a morte do humorista Canarinho, aos 86 anos.

A última vez que dei uma checada no programa, há poucos anos, fiquei meio horrorizado. O SBT, que sempre foi partidário de um humor antigo (nos anos 80, brigava pela audiência com programas como Apertura e Reapertura, ambos brincando com o Abertura, apresentado por Glauber Rocha na TV Tupi), parecia tentar se atualizar com o que havia de mais imbecil na stand-up comedy. E mesmo as piadas velhas já não funcionavam mais. Boa parte dos atores clássicos, que faziam quadros com timing de humorista de rádio, já havia morrido. Não havia muito do que rir. Mas Canarinho estava lá, fazendo aquele famoso quadro do cara que conversa ao telefone e atrapalhava o papo de um sujeito, bem mais avantajado fisicamente que ele, na praça.

Era uma fórmula absurdamente simples e que basicamente dava certo pelo timing da dupla - e pelas frases engraçadas disparadas por ele. E pelo fato de que Canarinho, que interpretava a si próprio, representava o brasileiro baixinho que trollava o playboy valentão. Mais popular, impossível. Neste vídeo, o humorista, que andava afastado do programa por causa de problemas de saúde, volta em boa forma, em todos os sentidos.

Assim que pipocou na internet a notícia da morte de Canarinho, alguém lembrou de postar esse link com uma entrevista do ator à Revista Zingu!, do jornalista Matheus Trunk. Pouca gente devia saber ou se ligar nisso, mas ele não era só aquele cara  da Praça. Era um ator com vários anos de carreira, vários filmes e peças e experiência também como cantor - aliás, iniciou a vida nas artes cantando.

Minha geração deve se lembrar que, bem antes do SBT, Canarinho interpretou o animado Malazarte, que fazia uma dupla rodo-e-pano-de-chão com Zé Carneiro (Tonico Pereira) no Sítio do Picapau Amarelo. Além de aparecerem no programa, gravaram uma música no LP Sítio do Picapau Amarelo volume 2, Tema de Malazarte e Zé Carneiro. Ao contrário do primeiro volume, esse nunca saiu em CD. Tem para ouvir aqui. O próprio Canarinho é coautor da canção.

A primeira coisa que me veio à mente quando soube da morte de Canarinho é que esse humor das antigas, herdado do rádio, está acabando. Era um clima diferente, um timing diferente, que ensinava um pouco a gente a rir de nós mesmos, e mostrava o quanto o mundo pode ser ridículo se visto pelo olhar do superior, do opressor.

Quem se decidir a trabalhar com humor nos próximos anos se arrisca a ter como modelo só um Danilo Gentili ou um Rafinha Bastos. Ou humoristas que passam a vida vendendo "humor inteligente" e preconceito e bravata disfarçados de "piada politicamente incorreta" - e que já surgem aos borbotões por aí. Provavelmente ninguém vai querer ser um Canarinho, um Ronald Golias, um Lilico do Bumbo. Ou um Carlos Leite ou um Rony Rios (o cara que fazia a Velha Surda). Que pelo menos o YouTube sirva como um museu disso tudo. E como fonte de inspiração.

sexta-feira, 14 de março de 2014

ARROUT!

O amigo e grande mestre do jornalismo Pedro Landim trabalha comigo no jornal O Dia, cobrindo gastronomia. E tem uma vida que, acredito, renderia um grande livro de memórias. Ele é filho do poeta Cacaso, ex-ator infantil (foi o ator principal do filme Cavalinho azul, baseado na obra de Maria Clara Machado e que teve participação de ninguém menos que Erasmo Carlos). Diz o Pedro que, certa vez, já adulto, foi entrevistar o Erasmo e, lá pelo fim do papo, se apresentou como aquele menino que fez com ele o Cavalinho azul. O Tremendão chorou.

Eu e o Leandro Souto Maior estamos numa disputa para ver quem vai escrever as memórias do nosso amigo Pedro. Enquanto ele não libera sua trajetória para nós, basta dizer que, enquanto ele goza de merecidas férias, sou eu que estou cobrindo restaurantes aqui no O Dia, para o Guia Show & Lazer. Estreei hoje falando das comemorações e bebemorações envolvendo a festa de São Patrício, padroeiro da Irlanda. Leia aí.

E para ler mais do Pedro Landim, conheça o site que ele edita sobre gastronomia, o Boca no Mundo.

sexta-feira, 7 de março de 2014

ROBERT STIGWOOD, RSO E U2

Caiu na rede nesta sexta uma carta que o "sr. Hewson" - Bono Vox, vocalista do U2, você bem sabe - recebeu em 1979 do selo britânico RSO. O grupo havia enviado uma demo para a gravadora, que tinha luminares como Bee Gees em fase disco music e Eric Clapton. Provavelmente mais ligada no tipo de rock e música pop que já dava certo naquele período e sem dar importância nenhuma a guitar bands na ponta dos cascos, a gravadora não deu a mínima para o que tinha nas mãos. Respondeu com um documento curto e educado, agradecendo a fita e dizendo que não era o que eles estavam procurando.


Nem é a melhor e mais divertida dispensa cega praticada por uma gravadora a um artista que, dentro em pouco, estaria frequentando as paradas. Em 1964 a EMI britânica recebeu alguns acetatos de um grupelho chamado The High Numbers, que iniciava carreira. Ouviu, ouviu, ouviu e achou por bem não arriscar. O produtor do grupo, Kit Lambert, recebeu uma carta em que se lia "não conseguimos decidir se o grupo tem algo a oferecer ou não". Alguns meses depois o grupo mudaria de nome para The Who. Aparentemente, Pete Townshend, líder da banda, ficou ofendidíssimo com a dispensa - a carta aparece em meio à memorabília whooligan que o grupo colocou no encarte de Live at Leeds (1970). Veja aí abaixo.



Mas vá lá: nem sempre a culpa é da gravadora que não tem visão das coisas. Você contrataria, se fosse dono de selo, Roberto Carlos com voz chinfrim, imitando João Gilberto? Foi o que o futuro Rei tentou fazer, sem o menor sucesso, no começo dos anos 60. Conseguiu só gravar um 78 RPM na Polydor, que anos depois seria reeditado pela gravadora para aproveitar o sucesso dele. Daria para aturar David Bowie ainda em indefinição de carreira, sem saber se queria fazer stand-up comedy ou imitar Bob Dylan?

Vale colocar que, oh Deus, até dá para entender o que se passava na cabeça da RSO, gravadora idealizada pelo empresário Robert Stigwood em 1973. Após vários anos sendo distribuída por companhias como Atlantic e Polydor, o selo havia se estabelecido como indie, sem atravessadores, em 1978. Egresso do mundo do cinema e trazendo várias trilhas sonoras de sucesso em seu catálogo (a de Os embalos de sábado a noite é uma das mais bem sucedidas), Stigwood não apostava baixo e não parecia ter perfil de empresário que comprava em baixa para lucrar em alta. E enfrentava problemas naquela época, com o fracasso da versão cinematográfica do álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, lançada em 1978. Em 1980, os Bee Gees processariam a RSO e sairiam fora temporariamente do selo.

Aparentemente os valores da RSO eram bastante ligados àquela coisa grandiosa dos anos 60/70, enfim. Algo bem distante da sonoridade quase pós-punk do começo do U2. Stigwood conhecia os Bee Gees desde a época em que era um dos diretores da NEMS, empresa criada por Brian Epstein, empresário dos Beatles. Olha aqui um papo com os irmãos Gibb na Rolling Stone, pouco antes da trilha de Os embalos de sábado a noite ser concluída. E aqui vai uma parte do catálogo do selo. Já pensou o Boy do U2 - estreia da banda, lançada pela Island Records, que sempre apostou em coisas novas e em algumas maluquices - em meio a esses discos?

Forçando um pouco e sendo até bastante racional, dá para dizer que faltou à RSO uma certa visão de futuro - a gravadora fechou em 1983, no comecinho da era do CD, e boa parte do seu catálogo foi reeditado pela Polydor. Em 1980, a divisão de filmes da gravadora havia tinha feito o longa Times Square, prejudicado pelas intervenções do próprio chefão da empresa. A trilha sonora trazia um som mais de época, com vários grupos novos ou recentes (incluindo Pretenders, Talking Heads e XTC).

Stigwood chega aos 80 anos em abril e continua na ativa, trabalhando com musicais no teatro e no cinema - uma de suas produções foi Evita, naquela versão com a Madonna, em 1997. Dá até para dizer que se tivesse assinado com o U2, teria conseguido virar o jogo nas pendengas da RSO. Será mesmo?

E aqui, você confere (em inglês) um papo entre dois homens de disco das antigas, em 1973: Stigwood e Ahmet Ertegun, da histórica Atlantic Records. Vale a recordação.

RODRIGUINHO E TRAVESSOS

Um papo com Rodriguinho e Os Travessos sobre a volta dele para o grupo.

Parece que vão sair CD, DVD e turnê.

Leia mesmo se odiar todo mundo que está nesta matéria (e sinceramente recomendo não odiar ninguém - das coisas que você pode sentir por uma música ruim ou uma banda salafrária, ódio é a pior).

Aqui você confere o link dessa matéria em O Dia.



SORRIA, ELES ESTÃO VOLTANDO
Uma formação clássica do pagode retorna com DVD e CD de inéditas para breve: Rodriguinho anuncia volta aos Travessos e grupo prepara turnê
Publicado em O Dia em 4 de fevereiro de 2014

O pagode dos anos 90 — e o do começo da década passada — está de volta. Péricles gravou músicas da época no DVD Nos Arcos da Lapa. Os Morenos comemoram 20 anos. Os cantores Chrigor, Salgadinho e Marcio Art — que fizeram sucesso à frente, respectivamente, do Exaltasamba, Katinguelê e do Art Popular — montaram o grupo Amigos do Pagode 90. E Rodriguinho, mesmo ocupado com sua carreira solo, retorna para celebrar duas décadas com os Travessos. O cantor e o grupo preparam em estúdio um disco novo. Em agosto, tem turnê comemorativa, que deve gerar um DVD, a ser gravado em setembro. 

“Os Travessos tinham um público infantil muito grande, que não podia comparecer aos shows naquela época. Agora, essa galera vai poder curtir”, alegra-se Rodriguinho. O grupo, após sua saída, passou a trazer Filipe Duarte, ex-integrante da boy band Br’Oz, à frente. “A gente vai dividir o palco. Vai ser uma honra e um prazer para mim”, diz Filipe. Rodriguinho afirma que deixou o grupo sem que houvesse traumas para ambas as partes. “Depois que eu saí, continuamos mantendo contato. Sempre fomos muito amigos, mesmo que a gente nem tenha tempo de se ver muito”.

O CD que o grupo está gravando deve seguir a tendência do mercado e ter apenas seis músicas. O repertório do DVD ainda está sendo escolhido, mas vai ser quase impossível fugir dos grandes sucessos que Os Travessos tiveram nos anos 90 — como Tô te filmando e Quando a gente ama.

“Acredito que o público sinta falta da quantidade de bandas de pagode em evidência que havia naquela época. O espaço na mídia para a música era maior e acho que diminuiu com a queda das gravadoras. O espaço está aumentando de novo, agora”, diz o percussionista Chorão. Ele, por sinal, começou a fazer sucesso quase ao mesmo tempo que seu xará vocalista do Charlie Brown Jr., morto no ano passado. “Nunca rolou nenhuma confusão com fãs e imprensa, pois nossos públicos são bem diferentes. Mas quando o Chorão morreu, tinha uma galera na porta de casa querendo saber se tinha acontecido alguma coisa comigo”.

Formado em 1993 na Zona Leste de São Paulo, os Travessos — cujos integrantes vieram dos grupos infanto-juvenis Toca do Coelho e Muleke Travesso — hoje têm, além de Chorão, Rodriguinho e Filipe, o baixista Edi e o percussionista Rodrigão. Um golpe para a banda foi a perda do tecladista Fabinho Mello, morto em 2007, dois anos após deixar o grupo.

“O Fabinho foi um dos fundadores da banda. Foi do Toca do Coelho e do Muleke. Era um cara que tinha um coração muito bom. E era talentoso demais, cantava, compunha, produzia. Na época de Muleke Travesso, ensaiávamos na garagem da casa dele. Depois jogávamos bola e íamos para o show. Ele faz parte de toda essa história e todas essas conquistas. O Fabinho é uma pessoa que faz muita falta!”, conta Chorão.

No ano passado, Rodriguinho passou por uma breve polêmica envolvendo a cantora Anitta — ele a cumprimentou com um beijo e, disse sua produtora, a funkeira teria feito uma careta porque o cantor estava com o rosto suado. O cantor postou uma mensagem no Twitter dizendo que Anitta não era meiga, mas era muito abusada (referência à Meiga e abusada, música da morena).

“Sou impulsivo, postei e depois tirei. Foi apenas um mal-entendido e já está tudo certo”, diz o cantor, que tentara uma participação dela em seu CD solo, mas foi impedido pela gravadora da moça. “Admiro o trabalho dela e desejo muito sucesso”.


quinta-feira, 6 de março de 2014

UM POUCO DO MEU CARNAVAL

Enquanto você ficou se divertindo, eu fiquei trabalhando - e vá lá, foi divertido. Essas são as minhas matérias de carnaval que saíram em O Dia.