sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

RHOSSI DO PAVILHÃO 9, SOLO

Bati um papo com Rhossi, vocalista do Pavilhão 9, para O Dia, sobre seu primeiro álbum solo.

O Pavilhão é, para mim, uma das melhores bandas dos anos 90 - Cadeia nacional é um dos meus clássicos do pop brasileiro da década. Confira a conversa aí embaixo (e ao lado).


VOCALISTA DO PAVILHÃO 9, RHOSSI SOLTA A RIMA NO PRIMEIRO CD SOLO
Em AHoraÉAgora, o rapper paulista recorda sua trajetória de altos e baixos
Publicado em O Dia em 19/01/2014

Rhossi, 40 anos, é um rapper infiltrado no rock nacional. Ou, quem sabe, um roqueiro com alma hip hop. “O skate foi a porta de abertura. Ouvia Ramones, Nirvana, Beastie Boys, Led Zeppelin, mas já curtia break”, recorda o vocalista do Pavilhão 9. Misturando rimas e som pesado em seu veterano grupo, larga o metal e cai dentro do rap em seu primeiro álbum solo, #AHoraÉAgora

No disco, Rhossi recorda o passado no subúrbio paulistano em músicas como Família. Fala de relacionamentos em Elas querem, eles querem e adota um discurso de incentivo em raps como Não desista do sonho e a faixa-título. “O rap é uma válvula de escape, né? Na minha vida foi assim. Ele é responsável por mudar a vida de muita gente, dar oportunidades”, recorda, anos após ter passado pelas adversidades que relata na faixa Altos e baixos

“No Pavilhão 9, na época do disco Se Deus vier, que venha armado (1999), tivemos problemas. A banda estava desmotivada, chegamos a pensar em desistir e procurar empregos”, conta Rhossi. “Lançar a carreira solo também é complicado. Tem fã que quer que o trabalho novo seja igual ao antigo, rolam cobranças. Mas tive mais altos que baixos.”

Além do rap-metal de discos como Cadeia nacional (1997), o Pavilhão se tornou célebre pela máscara de hóquei (substituída depois por uma touca ninja) usada por Rhossi no palco. “Era uma brincadeira, mas provocou tanto que decidimos adotar”, lembra o rapper, que parou de usar máscara ao abrir a noite do heavy metal no Rock in Rio 3, em 2001, com o Pavilhão. 

“Quando os black blocs apareceram nas manifestações, teve gente que falou ‘olha o Pavilhão 9 ali!’”, brinca. “Mas acho que violência e depredação de patrimônio público não levam a nada".

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

MARCIO ANTONUCCI E HELCIO AGUIRRA: R.I.P. ATRASADO

Na minha timeline do Facebook, que é cheia de músicos e jornalistas - e de pessoas mais ou menos ligadas em nomes nem sempre tão lembrados da música - foram duas mortes muito sentidas. Não dá nem para dizer que pouca gente nas redes sociais sentiu as partidas de Marcio Antonucci, da dupla Os Vips (no dia 20 de janeiro, de infecção generalizada) e de Helcio Aguirra, guitarrista do grupo de hard rock Golpe de Estado (no dia seguinte, por hipertensão arterial sistêmica).

Os Vips eram uma dupla da jovem guarda, formada por Marcio e seu irmão Ronald. Tiveram um grande sucesso com uma música feita para eles especialmente por Roberto e Erasmo Carlos, A volta

Não conheço muito da discografia da dupla. Não conheço nada, na real - nunca tive um disco deles. Bastou uma canção para que, quando eu era criança, eles entrassem no meu variado radar musical. É Cada segundo, uma canção de cor beatle feita por Antonio Carlos & Jocafi (sim, os próprios, de hits como Você abusou), gravada pelos Vips na trilha da novela O primeiro amor, da Rede Globo de 1972. 

Provavelmente tocou muito na novela, provavelmente tocou muito em rádio. Numa época bastante sombria do país e da música brasileira, provavelmente tocou muita gente com uma letra que recorria a imagens urbanas (quase no mesmo estilo "letra-câmera-na-mão" dos Beatles pós-1965) para falar sobre um desencontro amoroso, narrado sem mágoa. Coisa rara no Brasil, esse país que, como se já não sofresse o suficiente, ainda cultua o sofrimento. Ponto para a bela versão dos Vips e para os próprios Antonio Carlos & Jocafi, que gostavam da música - ela virou até faixa título de seu disco de 1972.

Nunca falei com Marcio. Vi uma vez, faz muito tempo, uma reportagem no Video show em que ele, já alçado à condição de produtor musical da Rede Globo, mostrava sua coleção de discos, repleta de álbuns dos anos 60, com montes de raridades - entre elas piratas dos Beatles, que hoje valem uma nota em sebos, ainda que vários possam ser baixados em MP3. 

Devia ser uma curtição ir na casa dele, ouvir os discos e ainda bater um papo sobre tudo o que estava rolando no toca-discos. E sobre as primeiras décadas da nossa cultura pop - da qual Marcio fez parte, numa época em que parecia mais fácil e mais evidente a ideia de ser tocado pela música.

Toda vez que assisto a uma premiação como o Grammy, a primeira coisa que me vem na cabeça é o que aconteceria se o Brasil não fosse o Brasil. Se música fosse matéria de escola desde cedo, se fazer música pop sempre tivesse sido uma saída viável por aqui, e repleta de tradição. Se... 

E se Os Vips fossem os Everly Brothers? Se a jovem guarda desfrutasse de um status que permitisse uma continuação do fazer pop num país que, durante um bom tempo, não fazia nem ideia do que era isso? No Rio há, vivo e andando de carro pela Urca, um dos maiores ídolos pop do mundo - e a ficha parece só ter caído para o Brasil quando o monstro, crescido demais, se achou muito maior que seu próprio país. A ponto de censurar livros sobre sua vida, seguindo uma estranha lógica infantil cuja base é "só eu posso escrever a respeito de mim mesmo", e que se assemelha mais às patetices de Dave Clark e Joe Meek (googla aí). 

Não deu, infelizmente. Os Vips são aqueles caras de A volta, os tais que tocaram corações com a ensolarada Cada segundo, os que tiveram vários sucessos nos anos 60 mas deram uma sumida nos anos 70. Rolou a separação, procuraram outros caminhos, os discos originais demoraram muito até serem redescobertos em CD. Mereciam talvez uma box set, já que o destino dos Vips não foi ser nossos Everly Brothers. Pena.




O livro que estou terminando de revisar com o amigo Leandro Souto Maior, Heróis da guitarra brasileira, e que sai pela editora Irmãos Vitale em breve, não deixou de prestar atenção a Hélcio Aguirra, um dos grandes nomes da nossa guitarra.

Fundou a banda de hard rock Golpe de Estado nos anos 80. Antes, tocava heavy metal com letras em português numa banda bem interessante, o Harppia (do quase-hit Salem). Tudo numa época em que o heavy metal era a tribo urbana que interessava, mais ou menos no período do Rock In Rio, que esfregou as guitarras pesadas e as indumentárias de couro na cara das donas de casa.

O disco do Harppia e os dois primeiros do Golpe saíram pelo selo indie paulistano Baratos Afins. E eram dos raros lançamentos da gravadora que poderiam ter saído sem problema algum por uma multinacional. Forçando a barra, segundo disco do Golpe, de 1988, era um disco comercial. E isso era muito bom. Abriu portas para o grupo em rádios, criou espaço para que tivessem seu único hit de verdade (Caso sério, com intro progressiva, letra romântica e refrão com DNA rocker anos 70). 

O Golpe de Estado enfrentou barras. O vocalista Catalau, rocker de primeira, na ativa desde os anos 70 - escreveu letras para o Casa das Máquinas quando adolescente - teve problemas com a bebida. Deixou a banda. Hoje é cantor gospel e pastor.

Hélcio seguiu a estranha sina de herói da guitarra num país em que herói é aquele que não teve tempo de fugir - e guitarra, enfim, é o que menos se ouve por aqui. Sósia de Tony Iommi, do Black Sabbath, deve ter vivido mais como um grande batalhador da guitarra e da música. O tempo vai fazer justiça para o Golpe. Pode ser sob a forma de uma box set com os CDs da banda, ou de novos lançamentos (li por aí que vinha um DVD). E que Helcio seja sempre lembrado como um dos nomes que fizeram muitos garotos sonharem em ter um guitarra e criar grandes riffs.

P.S: Lembrando que 2014 já chegou triste, levando Nelson Ned, Roy Cicala (produtor de John Lennon), Pete Seeger, entre outros. Tenho o que falar sobre Nelson e sobre Pete Seeger, em alguns dias.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

ÁLVARO GRIBEL / JAZZ E BLUES NA TENDA CCBB

Bati um papo com Álvaro Gribel, cantor e compositor que nasceu em Minas, criou-se no Espírito Santo e hoje vive em São Paulo, mas que foi inspirado por um bairro de Niterói (RJ) na hora de fazer seu segundo disco, que se chama São Francisco. Ele lança o álbum no sábado no Solar de Botafogo. Saiu em O Dia na segunda.




Outra que saiu em O Dia, mas hoje, é sobre os shows de jazz e blues que começam nesta quinta na Tenda CCBB. Não vou perder de jeito nenhum o tributo a Celso Blues Boy. E tem vários outros bem legais.


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

HERB ALPERT

Todo ano eu prometo a mim mesmo que vou assistir à premiação do Grammy do começo ao fim. Em alguns anos da minha vida, já consegui. Ou tive mesmo que cobrir, seja para blog, seja para jornal ou até para redes sociais. No ano passado, vi pouco da premiação. Neste ano, vi mais um pouco, lutando contra o sono.

Valia esperar para ver Stevie Wonder, Pharrell Williams e Nile Rodgers confirmando que o Daft Punk lançou o single mais brilhante do pop em 2013 - não tinha para ninguém diante de Get lucky, até quem concorreu na categoria "single do ano" deve ter torcido pela dupla. Carole King e Sara Bareilles emocionaram. O encontro de Paul McCartney e Ringo Starr deixou todo mundo contente. E vai por aí, enquanto eu lutava contra o sono e aproveitava as apresentações mais bodeantes para escrever, falar com amigos pelo Facebook e tirar uma soneca.

Minha grande surpresa do Grammy não veio pela TV. Veio no dia seguinte, lendo as listas de vencedores e descobrindo que o célebre trumpetista americano Herb Alpert tinha ganho um prêmio, na categoria álbum pop instrumental. Ele lançou o album Steppin' out no ano passado. 

Não, o disco não tem nenhuma versão da canção do britânico Joe Jackson, de mesmo nome. Tem 16 faixas, entre clássicos do pop-jazz, pérolas do adult oriented radio e músicas que são gemas preciosas para o próprio Herb, como The lonely bull, gravada por ele em seu primeiro disco. Traz também os vocais de sua mulher Lani Hall, cantora que já fez parte de um dos orgulhos da gravadora de Herp, a A&M: Sergio Mendes & Brasil 66. Com o niteroiense Sergio, ela gravou álbuns como Equinox, de 1966. E Stillness, de 1971, que misturava o mundo de Gilberto Gil (O viramundo, de sua fase pré-tropicalista) ao idealismo do Buffalo Springfield (For what it's worth). 

O sambinha de gringo, meio deslocado, sambando feito Principe Charles, deve muito a Alpert. E isso é bom, já que sem isso, nada de Break on through, dos Doors, nada de You are the sunshine of my life, do Stevie Wonder. Nada de European son, do Velvet Underground. Nada nem de Mutantes ou de Wilson Simonal - Chris Montez, contratado de Alpert para o selo A&M (pelo qual lançou Call me e The more I see you, seus grandes hits), ajudou a moldar o som que aqui ganhou o nome de "pilantragem".


Alpert tem muita coisa boa no currículo. Teve os álbuns com o Tijuana Brass, numa época em que discos de orquestras com modelos gatas na capa eram o padrão, inclusive no Brasil. Decerto você pelo menos já viu o desfrutável layout de Whipped cream & other delights, de 1965. Tem hits classudos como This guy's in love with you. Tem Warm, disco de 1969 no qual relia O mar é meu chão, de Dori Caymmi e Nelson Motta, Zazueira, de Jorge Ben e Sá Marina, de Antonio Adolfo e Tiberio Gaspar - que virou Pretty world

Em 1979 reempacotou-se como artista pop adulto no bom Rise, cuja faixa título, clássico da música de elevador, esteve até em trilha de novela. Um ano antes, gravara um LP inteiro ao lado do músico sulafricano Hugh Masekela, com o nome dos dois no título. Vale comprar em CD ou vinil e ouvir até decorar cada minuto de músicas como Happy Hanna, Ring bell, African summer. Limite das águas, tema instrumental de Edu Lobo, foi regravada com o título Lobo.

Não ouvi ainda o disco novo do Alpert. Não achei para baixar, pode ser que eu compre, nenhuma gravadora me mandou - o amigo Carlos Eduardo Lima acaba de me informar que se trata de um disco ruim, que ele até deletou do seu computador. É possível que seja um álbum fraco, como têm sido alguns do que o ex-protegido de Alpert, Sergio Mendes, vem lançando, repletos de hits de apelo fácil e convidados de pouca imaginação.

Ouvirei quando encontrar pela frente. Mas Herb está aí, a discografia do Tijuana Brass ainda é imprescindível em boas discotecas ou MP3tecas, Rise é o tipo da música que você ouve e sabe que conhece de algum canto. Faltou falar que a A&M, selo de Alpert e Jerry Moss, conta um pedaço bem interessante da história da música mundial, que inclui Peter Frampton, Police, George Harrison, Sting e até Sex Pistols. E o cara ganhou um Grammy numa época em que se fala tanto que a música a ser valorizada é a pior possível. Bom, nem tanto.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

THIAGUINHO

Um papo com Thiaguinho que saiu na capa do Caderno D de O Dia outro dia. A matéria é sobre a abertura da temporada de shows que ele faz no Clube Monte Líbano, durante o começo do ano.

Leia mesmo se odiar Thiaguinho.



THIAGUINHO ABRE TEMPORADA DE SUA RODA DE SAMBA NO CLUBE MONTE LÍBANO
Cantor vai receber os amigos Preta Gil, Mr. Catra e Péricles, entre outros
Publicado em O Dia em 13/01/2014

Thiaguinho tem muitos amigos. Um deles é o craque Neymar, que considera como um irmão. “Temos um lema juntos, que ele tatuou na perna: ‘ousadia e alegria’”, conta. E, na música, os brothers do pagodeiro são inúmeros: o parceiro Rodriguinho (agora de volta aos Travessos), o ex-colega de Exaltasamba Péricles e muitos outros. Vários deles vão estar entre os convidados da roda de samba que o cantor estreia hoje no Clube Monte Líbano, no Leblon, e que vai até o fim de fevereiro.

Na estreia, um time para lá de variado: o amigo Péricles, Preta Gil e Mr. Catra. “Pericão é meu ídolo, além de amigo. É um grande prazer cantar com ele, seja no palco ou fora dele”, derrete-se Thiaguinho.

Péricles devolve o elogio: “A nossa amizade e entendimento parece que vêm de outras vidas, pois conversamos apenas no olhar, resultado de muito entrosamento.” Preta e Catra também são seus grandes amigos — a filha de Gilberto Gil vai sempre a seus shows e mantém uma amizade com sua noiva, a atriz Fernanda Souza.

O repertório do show é definido na hora. “Vou pegar meu banjo e sair tocando”, garante o anfitrião. “Sei que haverá músicas do EP Mais e mais, mas vai rolar também o que estiver na minha cabeça no momento”, conta. No evento, cuja temporada era para ter começado na segunda-feira passada (“precisamos adiar”, diz, sem dar mais detalhes), Thiaguinho atende também a pedidos da plateia. “Eu e os convidados nem planejamos ainda o que cada um vai cantar. Vai ser tudo no improviso.”

Thiaguinho é herdeiro da geração dos anos 90 do pagode — que vem sendo redescoberta a partir de regravações e de shows comemorativos. “Fui formado por essa galera e, quando quero relembrar algo, é por ali que eu vou!”, exclama o pagodeiro, prometendo recordar ao longo do projeto músicas de grupos como Só Pra Contrariar, Soweto, Raça Negra e outros.

O EP Mais e mais, com seis músicas, é só um aperitivo dos próximos planos do cantor. “Sai um CD completo ainda este ano. Como estou sempre compondo, queria mostrar algumas novidades para a galera e soltei o EP”, explica. Em meio à extensa agenda de shows, Thiaguinho ainda trata da saúde — em agosto, foi diagnosticado com tuberculose pleural, após vários dias sentindo dor. “Já estou concluindo o tratamento”, relata.

Perto de completar 31 anos (em março), Thiaguinho se prepara, devagar, para oficializar a união com Fernanda Souza. “Vamos nos casar no início de 2015. Ainda falta um tempinho e estamos nos organizando”, conta o sambista. Ele também vai acompanhar a volta seu grande amigo, parceiro e produtor, Rodriguinho, aos Travessos. “Sempre quero estar por perto de tudo o que for relacionado a ele".

ELIAS NOGUEIRA

Quando eu comecei a escrever sobre música, em 2002, 2003, o Elias Nogueira já era uma referência em jornalismo musical. As entrevistas que ele fazia para o International Magazine eram memoráveis: duas horas de papo, muitas vezes publicadas sem corte (ou com poucos cortes) e passando por assuntos variados - não só sobre música.

Bom de papo, Elias deve ter influenciado muita gente a optar pelo caminho do jornalismo. Eu fui bastante influenciado por ele e pelas conversas que o via tendo ao lado de nomes como Marcelo Froes e Marcos Petrillo no
International - jornal no qual cheguei a escrever.

Outro dia, o Elias veio aqui no
O Dia dizendo que tinha uma surpresa para mim. Fui recebê-lo e era uma cópia do seu primeiro livro, Conversando com Elias, uma coletânea de suas melhores entrevistas para o International e para outros veículos. Nem pensei duas vezes: sentei com ele num canto e ele me falou bastante sobre sua estreia literária, indpensável para quem quiser conhecer mais sobre o método de arrancar respostas bacanas de entrevistados da área de música aqui no Brasil (é tarefa árdua).

Saiu aqui em O Dia. Leia aí e compre o livro, cujo lançamento rola em 17 de fevereiro na Livraria Bolívar, em Copacabana (se você está no Facebook - e sim, você está - confirme sua ida no lançamento e saiba mais aqui).

DUAS DÉCADAS E MEIA DE CONVERSAS MUSICAIS
O jornalista Elias Nogueira reúne 24 das suas melhores entrevistas em livro
Publicado em O Dia em 20 de janeiro de 2014

Após 25 anos de atividade como jornalista cultural, Elias Nogueira, 56, resolveu imortalizar seu material. “Fiz várias entrevistas, boa parte delas com duas horas de duração, com vários artistas, publicadas em vários jornais. Não queria que isso tudo se perdesse e, aconselhado por amigos, decidi colocar em livro”, conta ele, que estreia com Conversando com Elias — Entrevistas históricas com personalidades do meio musical (ed. AMCGuedes, 190 págs, R$ 45).

Algumas das 24 entrevistas saíram em veículos já extintos, como o jornal de música International Magazine, que Elias ajudou a fundar. “Lá, fiz a última entrevista com o (sambista) Bezerra da Silva (1927-2005). Ele revelou tudo sobre a carreira dele, foi a conversa mais completa que ele teve com um repórter. Falou de detalhes do início da carreira, problemas com as gravadoras”, conta Elias.

O papo está no livro, bem como uma das últimas conversas com o músico Zé Rodrix (1947-2009). E uma extensa conversa com os Titãs, pouco antes da morte do guitarrista Marcelo Fromer, em 2001. Nomes como Marcelo Nova (Camisa de Venus), Jards Macalé, Armandinho (A Cor do Som), Martinho da Vila, Marcelo D2 e Ney Matogrosso estão também em Conversando com Elias.

Dinho Leme, baterista dos Mutantes, dá sua primeira entrevista em anos, depois do retorno do grupo, em 2005. Uma das conversas que mais se destacam no livro é a de Marcelo Yuka. Ele havia acabado de levar os tiros que o deixaram paraplégico, e já estava fora do Rappa, gravando solo.

“Não falamos só de música. Falamos do Rio, da violência”, recorda. “O papo foi na casa dele, na Tijuca. Ele estava muito abalado e muito decepcionado com tudo o que havia acontecido, até chorou durante a conversa. Eu o considero um poeta do rock tão importante quanto Cazuza e Renato Russo.”

Elias só lamenta nunca ter conversado com um dos Beatles. “Mas fiz questão de dedicar meu livro a John, Paul, George e Ringo, porque eles foram minha entrada na música. Eles é que me fizeram ser jornalista. Se não fosse isso, seria professor de História”, conta.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

A PRAIA É SUA!

 Fiz a matéria abaixo com a amiga Karina Maia sobre as atrações à beira-mar que rolam neste fim de semana. Saiu hoje no Guia Show & Lazer do O Dia.

Tem Emanuelle Araújo e Toni Costa em Ipanema, e mais shows de Leoni, Marcelinho da Lua, Criadores de Acaso e Arlindo Neto também na beira da praia.

Imprima aí e leve como um guia para curtir a praia no finde.

SHOW DE TONI COSTA E EMANUELLE ARAÚJO É UMA DAS ATRAÇÕES À BEIRA-MAR
Praia é a estrela da estação e está cheinha de atrações gratuitas para quem quer aproveitar as delícias da orla até depois da lua aparecer
Por Karina Maia e Ricardo Schott
Publicado em O Dia em 24 de janeiro de 2014


Do Leme ao Pontal, não há nada igual: além da paisagem natural, do espelho d’água e da beleza dos frequentadores, as praias cariocas estão repletas de eventos gratuitos. Um deles diz respeito a uma data comemorativa: o Dia Nacional da Bossa Nova, festejado amanhã com um show no Parque Garota de Ipanema. A cantora e atriz Emanuelle Araújo e o violonista Toni Costa relembram o melhor do estilo musical às 17h30 — destacando sucessos de Tom Jobim, que completaria 87 anos na data.

“Muita gente já releu o repertório dele, então vamos dar nossa cara para músicas como Garota de Ipanema e Wave”, diz Toni Costa. “O mar já está nas letras das músicas do Tom, e estaremos perto do lugar que inspirou muitas dessas canções”, alegra-se Emanuelle.

Tem mais show em Ipanema, no mesmo esquema banquinho e violão. Ou melhor, dois banquinhos, violão e guitarra. Leoni, junto com o amigo Gustavo Corsi (da banda Picassos Falsos) recorda seu repertório em formato intimista ali em frente à Rua Vinicius de Moraes, às 18h.

“Vai ser bem descompromissado. O Leo Jaime fez semana passada e foi de bermuda, chinelo. Dá para pegar uma galera que vê você cantando e fala ‘pô, nem sabia que essa música era dele’”, brinca Leoni. Nomes como Arlindo Neto e o DJ Marcelinho Da Lua estão no mesmo horário em outras areias do Rio. E, no domingo, tem mais show na Praia de Ipanema com o grupo Criadores de Acaso.

Além dos shows, tem as festas na Praia do Leme, como a no quiosque Pizza inCone. A Breakz aporta por lá no domingo prometendo “intervenções sonoras e diversão gratuita”, como diz a produtora Rebeca Duarte. “Nosso som é diversificado e abraça bem a cultura de rua. A Praia do Leme já é um novo point e ficamos felizes em fazer parte disso”, conta. Bem perto dali, a Pedra do Leme recebe amanhã a festa Disritmia, repleta de música brasileira feita para dançar. 

DIVERSÃO À BEIRA-MAR

BREAKZ DE VERÃO 
A festa, que rola em um quiosque na Praia do Leme, é animada pelas intervenções sonoras de Pedro Piu e SkullB. Na edição  de domingo, Ruby Yoo é a DJ convidada. Pizza in Cone. 
Avenida Atlântica (Perto da Pedra do Leme). Dom, das 17h às 22h. Grátis.

CARIOQUICES 
Depois de pegar uma praia ou curtir um piquenique no Aterro do Flamengo, uma boa pedida para um esticada é a mostra do coletivo fotográfico Rio Cidade Aberta. Nela, estão registrados o modo de viver dos cariocas em 28 imagens. Monumento Estácio de Sá. Avenida Infante Dom Henrique s/nº, Aterro do Flamengo. De terça a domingo, das 9h às 17h. Até 8 de fevereiro.

DISRITMIA 
Com vista para o mar, sob a brisa da Praia do Leme, a DJ Lili Prohmann e o VJ AnimaFoto comandam o repertório sonoro — música brasileira para balançar o esqueleto. Pedra do Leme. Avenida Atlântica s/nº. Amanhã, das 16h20 às 22h. Grátis.

EMANUELLE ARAÚJO E TONI COSTA 
Armados de banquinho e violão, a atriz/cantora e o violonista celebram o Dia Nacional da bossa nova em show do projeto Parabéns en-cantos do Rio. No repertório, clássicos como 
Chega de saudade e Garota de Ipanema. Parque Garota de Ipanema, Arpoador. Amanhã, às 17h30.

FESTIVAL BONECOS NO PARQUE 
Especialmente para a garotada, todos os fins de semana tem espetáculo com marionetes e palhaços. Integram o projeto 36 companhias. Amanhã e domingo é dia de Ver e ouvir, um show-concerto do violinista Jerzy Milewskia e a pianista Aleida Schweitzer, com bonecos produzidos e manipulados por Mr. Bruno. Teatro Municipal de Marionetes Carlos Werneck de Carvalho. Parque do Flamengo. Praia do Flamengo, na altura do nº 300 (2273-1497). Amanhã e domingo, às 11h. Grátis. Até 26 de outubro. 

JÔ LUTÉRIO 
A cantora mostra seu som no projeto Jovens Tardes. Quiosque Globo. Praia de Copacabana, na altura da Rua Miguel Lemos. Hoje, às 19h.


MOVIMENTO ARTÍSTICO DA PRAIA VERMELHA 
Comemorando 16 anos, a ONG reúne músicos voluntários para tocar repertório de choro, MPB e samba de raiz. O encontro já virou tradição no local. Praia Vermelha, em frente ao Monumento a Chopin. Hoje, às 21h30. Grátis.

ORQUESTRA VOADORA 
A trupe carnavalesca já começou os seus tradicionais ensaios abertos, que atraem uma multidão. O bloco toca versões instrumentais de trilhas sonoras clássicas do cinema e da música brasileira. Jardim do Museu de Arte Moderna (MAM). Dom, a partir das 18h. Grátis.

TIM VERÃO 
Shows ao pôr do sol animam os sábados da orla em clima de pós-praia. Para os que curtem choro, Hamilton de Holanda toca em Copacabana (em frente à Rua Constante Ramos). No Leblon (Posto 11), quem comanda a festa é Rodrigo Sha, com seu pop-jazz, enquanto lá perto, em Ipanema (em frente à Rua Vinicius de Moraes), Leoni sobe ao palco. Já a Praia da Barra (em frente à Praça do Ó) une a turma do samba com Arlindo Neto e sua banda. Amanhã, a partir das 18h. Até 8 de fevereiro.

VERÃO RIO 

Amanhã, a Festa do Vinil comemora os seus cinco anos com bolachões do rock ao funk, dos anos 70 aos 90. Domingo é a vez da banda Criadores de Acaso apresentar o som do CD Tempo de voar e sucessos de Cazuza, Rita Lee e Raul Seixas, entre outros astros. Praia de Ipanema (Posto 10). Amanhã e domingo, a partir das 18h30. Grátis.


quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

FUZZCAS!

Então.

Na sexta tem Fuzzcas no Studio RJ, lançando o primeiro CD de verdade,
Feliz dia de hoje.

Participei muito da gestação desse disco. Vi ensaios, acompanhei mudanças em arranjos, a luta para admitirem um novo baixista. Ouvi músicas em versão demo, vi vários shows. Fico feliz em poder dizer: esse disco é meu também. E mais feliz ainda por poder ouvir uma banda nacional (e carioca) de rock de verdade, sem ranço, caretice ou os vícios emepebísticos-indies-hipsters que estão por aí dando medo em quem só quer acompanhar o que sai de novo no estilo.

Fiz inclusive o release do álbum, que já rola por aí e está na mão de todos os jornalistas que receberam o disco.  Peço a você um minuto da sua atenção para ler o texto. E mais um tempinho pra, depois, ouvir o CD - ele pode ser comprado e baixado aqui.


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O rock nacional atual pode ser um pouco – aliás MUITO – mais do que um som para universitários ou para adolescentes. Pode ser um som que atraia homens, mulheres, crianças, adolescentes e até os exigentes amantes do rock clássico. “Tudo por uma música que, antes de tudo, seja atemporal”, dizem, quase em uníssono, Carol Lima (voz), Leandro Souto Maior (guitarra), Fabiano Parracho (baixo) e Lucas Leão (bateria). Eles são o Fuzzcas, banda que já tem (e, por favor, isso sem trocadilho) estrada, vem se reinventando após seu primeiro EP e estreia em CD com Feliz dia de hoje.

Atemporal é a palavra. O nome fusca já é algo que, à primeira vista, pode ter uma cara meio antiga – remete aos anos 60, 70, ao desaparecimento do carro mais popular do Brasil do mercado, nos anos 80, e às suas voltas. Não, não, nada disso. O ronco das velhas baratinhas é a melodia preferida de um monte de fãs (são muitos!) que veem na resistência do motor do Fusca algo cada vez mais moderno. Seu visual simplificado nunca sairá de moda – e como boa figura pop que é, pode sempre ser reinventada, repaginada, reposicionada, modernizada, etc. Bingo: o som dos Fuzzcas (que escolheram seu nome brincando com o Fusca e com o pedal de distorção fuzz) aponta para o rock dos anos 50 ao da década atual.

Oferecem peso e melodia em canções como Acorde mais cedo e Bad girl. Partem para Celly Campello em Tic tac do amor; e Novos Baianos em Vamos brincar de roda. Comovem no folk-rock cantarolável e assoviável Se a saudade bater. Dramatizam (calma, é tudo no melhor dos sentidos) em Valsa triste.

Deixe o sol entrar nas suas caixas de som! Fique experimentado: sinta Fuzzcas.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

TONI ROCKEIRO

Na semana passada rolou um show no Saloon 79 em homenagem ao aniversário de Toni Rockeiro. Guitarrista-lenda do blues carioca e fundador do Barão Vermelho, ele passou maus bocados em 2013, no fim do ano. Comemorou a sobrevida entre amigos no palco da casa de shows carioca.

Bati um papo com Toni. E saiu no
O Dia. Fica como registro, já que o show já aconteceu.


FUNDADOR DO BARÃO VERMELHO FAZ SHOW AO LADO DE NOMES DO ROCK E DO BLUES
Recuperado depois de sofrer um AVC, Toni Rockeiro comemora seu aniversário e recebe Guto Goffi e Big Gilson no palco
Publicado em O Dia em 16/01/2014

No fim do ano passado, o guitarrista Antonio Marinho Ferreira, ou Toni Rockeiro, teve um AVC. “Foi um susto, que passou”, alivia-se o músico, um dos fundadores do Barão Vermelho, antes mesmo da dupla Frejat e Cazuza tomar a linha de frente. Fazendo 58 anos, ele comemora o fato de estar vivo e seu aniversário com vários convidados no Saloon 79, em Botafogo.

Antes do derrame, Toni já vinha apresentando sintomas. “Ele tinha confusão mental”, diz a mulher, a cantora Claudia Sette. “Numa noite, pôs sangue pelo nariz. Toni precisava tomar remédios e parou, descontrolou tudo. Dias depois, acordou dando um grito horrível e teve o AVC. Foi uma sorte que tenha sobrevivido. Em 2013, já perdemos um grande cantor, que era o Ricardo Werther. Imagina tudo acabar assim?”

Até o Barão, ele batalhava como músico de blues. Filho da zona cinzenta entre os anos 70 e 80, ele frequentava o Circo Voador, como músico e plateia, desde sua fundação. Para o Barão, foi convidado em 1981, pelo tecladista Mauricio Barros. Na época, pela iniciativa de um amigo desenhista, virou personagem de quadrinhos.

Ele fez uma série chamada Toni, o Roqueiro Infernal, publicada na revista Sobrenatural, da editora Vecchi. “Devo ser o único personagem de quadrinhos vivo!”, brinca Toni. “Tanto que o Maurício, (que era) meu vizinho no Rio Comprido, falou: ‘Você é o roqueiro infernal, cara! Vamos montar a melhor banda de rock do Brasil!’ Depois, o Frejat entrou na minha vaga”, recorda ele, que saiu da banda por conta própria.

“O Toni era mais do blues do que do rock. O Maurício tinha verdadeira idolatria por ele. Ele era uma lenda no Rio Comprido”, lembra Goffi, que toca no show ao lado de nomes como o guitarrista Big Gilson e o compositor Paulo Zdan, parceiro do soulman Cassiano.

Toni passou a tocar na noite após sair do Barão. “Durante muito tempo, trabalhei em banco de madrugada. Fugia para dar canja nos bares e voltava”, diverte-se. Conheceu Claudia há seis anos, quando cantavam num bar. Com ela e a enteada Hanna Sette, tocou em família no Rock in Rio 4, em 2011, na Rock Street.

“Eu estava sumido na época, ninguém tinha meu telefone. O Bruce Henry (produtor da Rock Street) e o Cecelo Frony (guitarrista) me acharam e tocamos todos os dias lá”, recorda Tony, empunhando sua guitarra Gibson Les Paul, que já tem “40 anos e foi de Duanne Almann, dos Allman Brothers”.

O músico se diz desanimado com o Rio. “Virou um enorme baile funk”, reclama. Sua mulher, no comando da festa, prefere não pensar nisso. “O importante é que vamos reunir músicos que nunca se encontram. Hoje muitos deles estão em casa, já com uma certa idade, tomando remédios. Vamos fazer algo juntos!”

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

1973

Então, só para avisar. É nesta quinta o lançamento de 1973 - O ano que reinventou a MPB. Na Livraria da Travessa do Leblon, às 19h.

É a hora de descobrir, com um tempinho de atraso, como 1973 é o ano que não terminou - pelo menos para a música popular brasileira. Tem tudo para ser um dos livros mais memoráveis sobre a história recente da MPB. E eu estou nessa.



Abaixo, Célio Albuquerque, o organizador do livro, com o pequeno exército de colaboradores do livro que trabalha em O Dia. Saiu na coluna do Fernando Molica.



segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

"BEATLES EM TUDO", O LIVRO

O link original dessa matéria do O Dia foi repassado, retuitado, etc. Tá aqui.
Segue aí o link do meu blog, com o print da matéria como ela foi para o jornal O Dia, em duas partes. É sobre o livro Beatles em tudo, escrito pelo publicitário João Resende, que prova por A +B que o quarteto de Liverpool se relaciona a todo e qualquer assunto. Tudo mesmo - até animais invertebrados, xadrez, política da América Latina etc.

Um excelente presente para todo e qualquer beatlemaníaco. Leia aí e compre o livro.


PUBLICITÁRIO LANÇA LIVRO PROVANDO QUE A HISTÓRIA DOS BEATLES SE RELACIONA A TUDO
"Há relações dos Beatles com arquitetura, física, psicologia, medicina e até esportes radicais e xadrez”, garante o publicitário João Resende, autor do livro Beatles em tudo
Publicado em O Dia em nove de janeiro de 2014


Por mais que você nem desconfie, praticamente todos os temas que você puder imaginar se relacionam com uma certa banda de Liverpool, cujo reinado não caiu até hoje — e provavelmente nunca vai cair. “Há relações dos Beatles com arquitetura, física, psicologia, medicina e até esportes radicais e xadrez”, garante o publicitário João Resende, autor do livro Beatles em tudo — Curiosidades inéditas sobre a maior banda da história (Editora Zás, 262 págs., R$ 35). 

Criador, com vários amigos que conheceu na internet, do blog Beatles College (beatlescollege.wordpress.com), ele foi reunindo durante seis anos várias informações, muitas delas raríssimas, sobre o grupo. O que era para ser apenas uma central de jovens beatlemaníacos (“a gente começou a se comunicar ainda na época do Orkut!”, recorda ele) acabou se transformando numa fonte de detalhes sobre a banda e sobre as carreiras solo dos ex-integrantes.

Um post em especial ajuda a garantir as duas mil visitas diárias que o blog tem. É a série A história dos Beatles contada pelo jornal Meia Hora, que usa a linguagem descontraída do tabloide publicado pelo grupo EJESA (responsável também pelo) para narrar a trajetória da banda.

“Até hoje, tem muitos acessos. Nesta semana mesmo, todo mundo começou a postar nas redes sociais”, relata João, que é fã do jornal. “Sempre me diverti muito com as capas e foi um exercício de história tentar contar ano a ano os fatos que envolviam o Beatles, usando esse formato. A última capa é que foge um pouco do aspecto factual, pois damos um resumão do que aconteceu com cada um dos quatro, incluindo o assassinato de John Lennon".

Outras séries de sucesso do blog trazem conversas fictícias da banda pelo iPhone. E a discografia do grupo comentadíssima, com as histórias das músicas e das gravações. Boa parte das visitas ao site vem de jovens e adolescentes. “Eu mesmo conheci os Beatles na adolescência. Minha família não era tão fã e descobri o grupo com amigos, lá por 2001. Fiquei impressionado com o poder da música deles, porque um amigo nosso descobriu e foi contaminando todo mundo”, lembra João, que tem 27 anos.

Em Beatles em tudo, o leitor descobre que o clássico pacifista Imagine, de John Lennon, se relaciona com o universo do MMA. Antes de lutar no UFC 65 (e, por sinal, terminar derrotado), o americano Jeff Monson mandou tocá-lo como música de entrada. O primeiro filme de Renato Aragão e Dedé Santana tem os pés no quarteto de Liverpool — é Na onda do iê-iê-iê (1965), que faz referência à estreia cinematográfica dos Beatles, A hard days night (de 1964, exibido no Brasil como de Os Reis do iê-iê-iê).

A apolítica e utópica Imagine, quem diria, se tornaria também um dos hinos do líder venezuelano Hugo Chavez, traduzida para o espanhol com o nome de Imagina Venezuela. Apesar de hoje Paul adotar um estilo de vida mais saudável — ele é vegetariano militante —, os integrantes do grupo já foram fotografados diversas vezes bebendo Coca-Cola. A imagem dos Beatles já foi usada, sem autorização, num comercial do McDonald’s de Liverpool — pessoalmente ultrajado, o autor de Band on the run brigou na Justiça e embargou o anúncio.

João espanta-se com o fato de o grupo ter inspirado até a ciência. “Como eles renderam muito dinheiro para a gravadora EMI, ela começou a investir em outras áreas. Até mesmo o projeto que criou a tomografia computadorizada veio do montante de grana gerado pelos discos da banda!”, diz, rindo. “Alguns seres invertebrados também foram batizados com o nome ‘Beatles’. Está no nome científico deles”, garante ele.

O publicitário ainda tem muito material guardado que não foi aproveitado no livro. “Tive que organizar e cortar muita coisa. Quem sabe eu não faço o Beatles em tudo e mais um pouco?”, diverte-se. Ele tem todos os álbuns do grupo e acompanha os shows de Paul McCartney e Ringo Starr no Brasil. “Vi o Ringo em São Paulo no ano passado e o acho um grande baterista. É o melhor baterista que os Beatles poderiam ter”, defende. 

Já na apresentação de Paul no estádio do Morumbi (SP), em novembro de 2010, João fez questão de levar para casa um souvenir pouco usual. “Arranquei um pedaço do gramado, pus numa vasilha que tinha levado para lá, já pensando nisso, e trouxe comigo para casa. Está guardado comigo até hoje!”, revela.  


DETALHES SÓRDIDOS E BIZARRICES DA HISTÓRIA DO ROCK
Em Beatles em tudo: Vera Fischer confessou desejos sexuais pela banda e um filme pornô já parodiou um disco do quarteto 

Além das relações do grupo com os mais variados temas, o livro Beatles em tudo é repleto de curiosidades e histórias inusitadas relativas ao quarteto. Algumas delas envolvem pessoas famosas que são fãs ou se encontraram com integrantes do grupo: 

OS BEATLES inspiraram filmes como Across the universe (2007), de Julie Taymor, repleto de músicas do grupo na trilha. O mais pitoresco é o pornô Sgt. Peckers’ Lonely Hearts Club Gang Bang, evidentemente jogando mais pimenta que o usual no nome do disco Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967).

A ATRIZ Vera Fischer declarou certa vez ter sido expulsa de um colégio de freiras por escrever em uma redação que mantinha relações sexuais com os Beatles.

PAUL MCCARTNEY  assistiu a um show do coisa-nossa Ivan Lins, em Nova York, em 2001, e até posou para fotos com o cantor.

LIVERPOOL ama futebol e é dividida entre dois grandes times: Liverpool FC e Everton FC. Nenhum dos Beatles jamais declarou seu time (Paul McCartney, por exemplo, fica eternamente em cima do muro com relação ao assunto), mas há uma espécie de Zico do Liverpool na capa do Sgt. Pepper’s: o craque Albert Stubbins.

O PUGILISTA Sonny Liston também figurou na capa de Sgt Pepper’s. Mas não gostava nem um pouco da banda: foi a um show dos Beatles e declarou que seu cachorro tocava bateria melhor que Ringo. Já Cassius Clay, futuro Muhammad Ali, encontrou-se com eles e até posou para fotos 
— numa delas, finge nocautear os quatro de uma vez.

OS BEATLES já foram transformados em desenho animado. E a relação deles com o universo dos quadrinhos é duradoura. Mauricio de Sousa já os homenageou em histórias da turma do Penadinho e de Chico Bento, e tentou criar, sem sucesso, o projeto Beatles 4 Kids. A pequena Mafalda, criada pelo argentino Quino, é fã deles.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

CIDADE PARAÍSO, O LIVRO

Um papo com Roberto Pinel, escritor carioca que está lançando seu primeiro livro, Cidade Paraíso. Na narrativa, ele cria uma favela em que dois garotos fogem do esterótipo pagode-samba-e-funk e são fãs de rock e ópera. Os roqueiros Axl Rose e Slash aparecem como personagens da narrativa, além do cantor de ópera Paul Potts.


AXL ROSE, PRESTES A VIR AO RIO, INSPIRA LIVRO DE ESTREIA DE ROBERTO PINEL

O sonho do escritor carioca é ver seu livro de estreia, o romance infanto-juvenil Cidade Paraíso - Uma história de ópera, fotos e rock’n roll transformado em filme
Publicado em O Dia em sete de janeiro de 2014


O sonho do escritor carioca Roberto Pinel, 38, é ver seu livro de estreia, o romance infanto-juvenil Cidade Paraíso - Uma história de ópera, fotos e rock and roll (Editora Multifoco, 262 págs., R$ 29,90), transformado em filme. E com as participações de duas figuras cruciais para a história contada no livro. Uma delas é o cantor britânico de ópera Paul Potts, revelado em 2007 pelo programa de calouros Britain’s got talent. O outro é ninguém menos que o vocalista da banda de rock Guns N’ Roses, Axl Rose.

“Queria que os dois aparecessem de alguma forma no filme. Falei com a empresária do Paul Potts e ela achou o máximo. Ninguém pode me impedir de correr atrás, né?”, conta, animado. 

E com o temperamental Axl, será que o sonho maluco vira realidade? Olha que pode até ser: Pinel conseguiu o contato do advogado do cantor.

“Achei na internet o processo do Axl contra a Activision (que produz o game Guitar Hero) e lá tinha um e-mail. Fiz contato e em 45 minutos me passaram para o Peter Katsis, empresário dele”, conta. O problema é que, no meio das conversas com Katsis, Axl o despediu e contratou a brasileira Bela Lebeis para o cargo. “Já fiz contato com ela pelo Facebook e aguardo a resposta”, conta ele, animado com a notícia de que a banda se prepara para uma tour pela América Latina, com show no Rio em 20 de março.

Cidade Paraíso relata a história dos adolescentes Café e Diguinho, moradores de uma comunidade pacificada, que dá título ao livro. A trilha sonora passa longe do samba ou do funk. Café torna-se fã de ópera ao ver no YouTube o vídeo da apresentação de Potts no Britain’s Got Talent. E sonha em participar de um concurso de talentos nos Estados Unidos. Diguinho só quer saber de Guns N’ Roses e quer ter uma guitarra, para montar uma banda cover do grupo. 

“Na favela, tem gente que gosta de ópera, de rock, não só de samba ou funk. Pus o Guns porque era minha banda preferida na adolescência”, diz Pinel.

Em busca de dinheiro para os dois sonhos, a dupla decide fotografar festas de casamento. Metem-se em várias confusões até o final. “A ideia foi trazer uma mensagem positiva. Explorei também o fato de as favelas terem passado pelo processo de pacificação”, conta. 

Advogado e dentista por formação (“brinco que sou adventista, uma mistura dos dois”, diz, rindo), ele trabalha num órgão federal e teve a ideia de escrever o livro — que começou mesmo como um roteiro de filme — após comprar uma guitarra.

“Resolvi aprender sozinho em casa. Para treinar, a primeira coisa que ouvi foi o Guns”, relembra. Nessun dorma, da ópera Turandot, de Giacomo Puccini — cantada no programa de calouros por Potts — também o inspirou. “Ela foi tocada no meu casamento!”.

Além de Axl Rose, o ex-guitarrista da banda, Slash, surge em Cidade Paraíso num sonho do personagem Diguinho e em outras cenas.

“Eu tentei armar tudo de forma que não soasse como caricatura. É meio esquisito isso, de os personagens interagirem com gente que existe de verdade, né?”, indaga, rindo. “Sempre que leio livros feitos para adolescentes ou jovens, os personagens são figuras fantásticas, bruxos, uma coisa meio medieval. Isso nunca me atraiu. Quis criar uma história daqui, com personagens daqui”.

Pinel já assistiu ao Guns N’ Roses três vezes, em três edições do Rock in Rio (1991, 2001 e 2011). “De dez em dez anos, encontro com eles”, brinca. “Vi também o Gilby Clarke, ex-guitarrista, no Circo Voador. Quando o baterista dele jogou a baqueta para a plateia, consegui pegar”. 

Pode ser que Cidade Paraíso demore para virar filme. Mas já tem gente querendo levá-lo para o teatro. “Uma amiga minha está a fim e disse que vai conversar com umas pessoas”, torce.

domingo, 12 de janeiro de 2014

GRADIENTE X SOCIEDADE DE CONSUMO

Isso sim é um texto publicitário. Bom, eu acho isso.

Repare no trecho que equipara Belchior a Bob Dylan. E que saudade do auge da Gradiente.


sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

CHICO SALLES CANTA SÉRGIO SAMPAIO

Fiz uma matéria com o cantor Chico Salles, que acaba de gravar um CD relembrando o lado sambista de Sérgio Sampaio. Saiu em O Dia.


ZECA PAGODINHO, FAGNER E ZECA BALEIRO ESTÃO EM CD TRIBUTO A SÉRGIO SAMPAIO
Artistas estão em disco que o paraibano Chico Salles fez em homenagem ao autor de Eu quero é botar meu bloco na rua
Publicado em O Dia em 25 de dezembro de 2013

Nos anos 80, longe do sucesso conquistado na década anterior com o hit ‘Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua’, o cantor e compositor Sérgio Sampaio (1947-1994) fazia aparições pelos bares da Tijuca e de Vila Isabel cantando seu repertório. Quem lembra bem disso é o cantor Chico Salles, que relê os sambas do artista no CD ‘Sérgio Samba Sampaio’. 

“Ele já estava numa fase decadente da vida. Aparecia nos lugares tocando violão e cantando”, recorda Chico, nascido na Paraíba e radicado no Rio. “O Sérgio não era um sambista, era um artista pop. O samba é uma parcela pequena de sua obra, mas os que ele fez têm alto nível melódico e muita transgressão nas letras”, elogia.

Chico chegou a gravar álbuns ligados ao forró, como ‘Tá no Sangue e no Suor’ (2007). Mas tem currículo no Carnaval carioca. “Fiz sambas-enredo e montei um bloco com o Mussum (o humorista do grupo Os Trapalhões foi do grupo Os Originais do Samba), que era meu amigo e vizinho”, recorda ele, que também é engenheiro. “Foi o que pagou meu lado de músico. Mas tenho feito shows importantes e já está empatando.” 

No disco, Chico recorda músicas como ‘Até Outro Dia’, ‘Chorinho Inconsequente’, ‘Polícia, Bandido, Cachorro, Dentista’, ‘Velho Bandido’ e ‘Odete’. E convida amigos. Zeca Pagodinho está na suingada ‘O Que Pintar, Pintou’, e ainda ofereceu seu selo ZecaPagoDiscos (distribuído pela Universal) para lançar o disco. “Dos três convidados, ele era o que menos conhecia a obra do Sérgio, mas acabou adorando”, conta Chico. 

O ‘sampaiófilo’ Zeca Baleiro solta a voz em ‘História de Boêmio (Um Abraço Em Nelson Gonçalves)’, enquanto Fagner participa de ‘Cada Lugar na Sua Coisa’. O cantor cearense foi também amigo de Sérgio. “Lançamos nossos primeiros discos juntos. Ele era muito engraçado e muito ácido”, diz Fagner, que depois ficou um bom tempo sem ver Sérgio. “Eu o vi esporadicamente depois dos anos 70. Pouco antes dele morrer, o encontrei na Pizzaria Guanabara, no Leblon. Ele foi de um carinho comigo, me deu um tremendo de um beijo”, lembra.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

RIO TATTOO WEEK 2014

Tá aí a matéria que fiz na semana passada para a capa do Guia Show & Lazer do O Dia sobre a Tattoo week, que rolou no RioCentro.

Gostei da matéria e fica aí como registro, apesar de o evento já ter acontecido.




TATUADORES E TATUADOS INVADEM O RIO NA EDIÇÃO 2014 DA TATTOO WEEK
Segunda edição do evento acontece entre hoje e domingo no Riocentro com tatuadores internacionais, debates, shows, sorteios e outras atrações
Publicado em O Dia em 03 de janeiro de 2014

"Até hoje, todos nós lutamos muito para mostrar que tatuagem não é coisa de bandido. O que a gente faz é arte!”, exclama o tatuador Ganso Galvão, 32 anos. Ele é, ao lado do colega Sylvio Freitas, 33, o criador da Tattoo Week, convenção para tatuadores e tatuados. Iniciada em São Paulo há cinco edições, ela acontece pela segunda vez no Rio, invadindo o Riocentro — em 2013, as agulhas entraram em ação no Píer Mauá.

“Dessa vez, teremos uma estrutura imbatível”, diz o tatuador Marco Lunez, 42, que leva a estrutura do seu Koi Studio para lá, com tatuadores como Fábio Fontinelle, e convidados como o turco Sinan Sahin.

Além do Koi, mais de 200 expositores atenderam ao chamado da Tattoo Week. Estúdios cariocas como o Skin Carved, o King Seven (onde Lady Gaga tatuou a palavra “Rio”, quando esteve no Brasil) e Banzai Tattoo Shop estão lá. Artistas internacionais como a alemã Adri Oest e o argentino Robbie Ice também põem as máquinas para funcionar. “Vamos ter workshops, pista de skate, palestras, shows de rock, concurso da Miss Tattoo Week”, conta Ganso. Tatuadores e tatuados vão adorar.


“Muitas vezes, as tatuagens revelam mais sobre a gente do que nosso rosto”, acredita a tatuadora Caroline Vieira, 23, cheia de tattoos por todo o corpo — incluindo um pequeno desenho na testa. Ela, volta e meia, tem que retocar o desenhos. Como fez a produtora de arte Rita Vinagre, 34, durante uma ida rápida ao Koi. “Fiz meu primeiro desenho aos 12 anos, acredita?”, conta Rita, que evita pegar sol e abusa do filtro solar.

Muitos tatuadores e tatuados, seja de qual idade for, têm histórias de preconceito para contar. Ou de uma época em que havia total desconhecimento sobre o assunto.

“Antigamente, tinha muita tattoo mal feita. As pessoas chegavam nos estúdios e escolhiam por álbuns. Hoje, a gente conversa muito com quem quer se tatuar”, diz Ganso, acostumado a tatuar de motociclistas a empresários, passando por fãs de todo tipo de música, não só de rock. “Quando um cliente quer um desenho da moda, sempre dizemos que é melhor uma tatuagem que tenha a ver com ele. E o mesmo recomendamos a quem for à convenção e quiser fazer a primeira tattoo”, completa Lunez.


E num caso como o da modelo Barbara Evans, que, após uma tatuagem infeliz, virou meme e motivo de chacota em todos os jornais? “Olha, como tatuadora, evito criticar, mas com a internet, é fácil pesquisar e achar um tatuador muito bom. Ninguém pode deixar de fazer isso”, diz a tatuadora Suliée Pepper, 33, do Skin Carved, antes de fazer retoques no retrato de Marilyn Monroe que a amiga bodypiercer Barbara Alt, 28, tem na coxa esquerda.

As duas aproveitam para convidar todo mundo a ir na Tattoo Week. “Vai ser ótimo. Estamos mais animadas com a convenção do que estávamos com o Réveillon!”, alegra-se Barbara.

PROGRAME-SE E TATUE-SE  A programação inclui shows das bandas Black Dog (cover de Led Zeppelin) e Tamuya Thrash Tribe, ambas hoje, e de MC Marechal, Oriente, Cidade Verde SoundSystem e Eletrobase, amanhã. Riocentro/Pavilhão 2. Av. Salvador Allende 6.555, Barra da Tijuca (3035-9100). Hoje e amanhã, de 10h às 18h. R$ 40 (estudantes e maiores de 65 anos pagam meia).

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

1973 EM LIVRO

Em 2014, como todo mundo sabe, sai Heróis da guitarra brasileira, livro que escrevi ao lado do amigo Leandro Souto Maior, com entrevistas e verbetes sobre os principais guitarristas brasileiros. Está previsto para março. Pouco imaginava que passaria 2013 escrevendo meu primeiro livro ("meu" nosso, já que é o primeiro livro também do Leandro).

Antes disso, ainda em janeiro, sai 1973 - O ano que reinventou a MPB, com um texto meu sobre o segundo disco do Guilherme Lamounier. Já há um texto meu sobre esse disco que, modéstia a parte, meio que se tornou um clássico entre uma grande leva de fãs desse álbum. Saiu no meu antigo blog, o Discoteca Básica, e rodou por aí, muitas vezes sem crédito.

Quando o Célio Albuquerque, organizador do livro, me pediu um texto sobre esse disco para o livro, pensei que o ideal seria coletar algumas informações a mais. Está lá, e além do meu texto, há colaborações de amigos como Silvio Atanes, Silvio Essinger, Pedro Só, Renato Vieira, Emilio Pacheco. Nomes como Luiz Antonio Mello, Roberto Muggiatti, Rildo Hora, Álvaro Costa e Silva e Sérgio Natureza estão também lá, assinando textos sobre discos brasileiros clássicos lançados em 1973.


Vai rolar um lançamento do livro na Livraria da Travessa do Shopping Leblon no dia 23, uma quinta, às 19h. Eu vou lá. Quem quiser ir, está convidado.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

RODA - # 3




















Estou colaborando com a revista Roda, que já está em sua terceira edição. Minha matéria é sobre a coleção e discos do crítico musical Ezequiel Neves, que está com o baterista do Barão Vermelho, Guto Goffi, e tem animado reuniões semanais em sua escola de bateria, a Maracatu Brasil, durante as quais músicos se transformam em DJs. Na capa, um papo com o músico Lucas Santtana.

Leia aqui. Por enquanto, a revista está disponível apenas online.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

QUARENTA DISCOS DE 1974

O ano de 1973 foi imbatível musicalmente. Sem discussão quanto a isso. Já 1974, há quarenta anos - por acaso, o ano em que eu nasci - foi...

Não sei dizer, e geralmente consigo pensar nele mais pelo que ele NÃO foi. Não foi o ano em que uma verdadeira renovação na MPB chegou às lojas na forma de vários álbuns de artistas novos - Fagner, Sérgio Sampaio e Luis Melodia estavam nessa lista. Não foi o ano de Houses of the holy, do Led Zeppelin (1973). De The rise and fall of Ziggy Stardust and The Spiders from Mars, de David Bowie (1972). De Electric warrior, do T Rex (1972). Não foi igualmente o ano em que os Secos & Molhados lançaram o primeiro disco (1973), que os Mutantes lançaram Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets (1972), o último sem Rita Lee. Novo aeon, de Raul Seixas, e Physical graffiti, do Led Zeppelin, só sairiam em 1975. E, claro, nem sombra de Never mind the bollocks, dos Sex Pistols, lançado em 1977.

Ele talvez tenha sido - ok, para ter certeza, melhor perguntar a quem tinha idade para pensar sobre isso na época - um ano, musicalmente falando, fragmentado, confuso, meio na dúvida entre os rococós do progressivo e algo mais demolidor. Ou entre a credibilidade de rua (por acaso, foi o ano em que os Ramones surgiram) e a grandiloquência e a opulência de uma época em que discos vendiam e shows de rock rolavam quase sempre em grandes estádios. Havia algo mais no ar do que os aviões de carreira. Ou o avião que o Led Zeppelin usava, com o logotipo da banda, para rodar o mundo, fazer turnês monumentais, traçar fãs e destruir hotéis. Alguém iria pagar por essa conta, digamos assim.

Antes do punk surgir, quem queria renovação estava ligado na purpurina do glam rock. Quem queria rock "jovem" podia se ligar nas fanfarronices do Queen ou no começo do heavy metal. Um estranho gosto por rock sinfônico, que surgira dos intestinos do rock progressivo (e de encucações "eruditas" como Atom heart mother, o disco de 1970 do Pink Floyd), já dominava as paradas de sucesso.

Quem nasceu em 1974 chega em 2014 aos 40 anos, uma idade em que... Bom, em que você não é mais jovem MESMO. Em que luta com o fato de que a velhice está chegando aí. Ou não luta, a escolha é sua, mas que é complicado, é. E em que sabe que pode viver menos do que já viveu. Sim, é confuso.  Mas de certa forma, tudo a ver com um ano como 1974.

Seguem aí abaixo 40 álbuns lançados em 1974 que dão 40 motivos para todo mundo se orgulhar, musicalmente falando, de um ano que costuma ser muito pouco lembrado quando se trata de álbuns clássicos. Alguns deles mudaram vidas. Outros introduziram artistas que, em pouco tempo, lançariam discos melhores no mercado. Consigo reconhecer em alguns deles uma riqueza que, mesmo quatro décadas depois, ainda não foi devidamente avaliada.

1974 nunca vai ser igual a 1973. Mas também foi o ano. Descubra aí. E ouça tudo.



"OLD, NEW, BORROWED AND BLUE" - SLADE (Polydor). Responsáveis pela face beberrona e gritalhona do glam rock, os ingleses do Slade vinham de álbuns bizarros como Slade alive (1972), no qual guitarras e berros misturavam-se a arrotos (na balada Darlin' be home soon). A evolução vinha com baladas açucaradas como Everyday e rocks com cara de Beatles e Who como My friend Stan. No mesmo ano, lançariam um pacote com disco e filme, Slade in flame. A trilha aberta por mais duas canções docinhas (How does it feel e Far far away) poderia até fazer a banda crescer mais, mas a descaracterizaria a ponto de gerar baladões de FM como My oh my, anos depois.

"AUTOBAHN" - KRAFTWERK (Philips) - O grupo alemão ainda usava guitarras (elas podem ser ouvidas miando em Mitternacht) e instrumentos acústicos (traziam pianos, flautas e um koto japonês em Morgenspaziergang). E tinha recém saído de uma fase em que, ostentando cabelões enormes, quase emulavam o Pink Floyd e o King Crimson. Em Autobahn, inovaram por homenagear as fabulosas autoestradas alemãs com uma canção de 22 minutos, repleta de diferentes climas, tentando criar na cabeça do ouvinte uma viagem de automóvel por diversas paisagens. Tornou-se chiclete de ouvido de nomes como David Bowie.

"TODD" - TODD RUNDGREN (Bearsville) - Rotulado como músico "progressivo" por falta de definição melhor, Todd vinha de dois trabalhos que pareciam insuperáveis,  Something/Anything?, de 1972, e A wizard, a true star, de 1973. Continuou misturando som pop e experimentalismo neste álbum duplo. Puxado pelo hit A dream goes on forever, escondia outras belezas, como o instrumental The spark of life e o gospel Sons of 1984.


"IT´S ONLY ROCK´N ROLL" - ROLLING STONES (Rolling Stones/Atlantic) - Sai o clima pesado de Exile on main street (1972) e some o tom exageradamente pop de Goat's head soup (1973, com o hit Angie batendo a carteira de fãs e não-fãs). A ordem agora é a de leveza e boas canções inspiradas pelo rock básico e pelo soul, como em If you can't rock me, Short and curlies, If you really want to be my friend, Time waits for no one e outras. Ain't too proud to beg, cover dos Temptations, surge como um presente da banda, em meio à boa safra de Mick Jagger e Keith Richards.

"WONDERWORLD" - URIAH HEEP (Bronze) - O primeiro disco do Uriah Heep com visual "normal" na capa vinha após vários anos de descaracterizações na formação da banda. Deu uma desagradada nos fãs e até no próprio grupo. Firme na mistura de heavy metal e rock progressivo, estava bem longe de ser um disco ruim, graças a músicas como Suicidal man e o single Something or nothing.

"SHININ' ON" - GRAND FUNK RAILROAD (EMI) - Após algumas mudanças na formação, o GF, com Todd Rundgren operando a produção, soava menos garageiro e estridente, e mais chegado ao soul e ao blues. E em paz com as FMs. O hit foi uma releitura de The loco-motion, hit da fase compositora-de-aluguel de Carole King (em parceria com Gerry Goffin), com os dois pés no gospel. Tocou em rádio até no Brasil.


"461 OCEAN BOULEVARD" - ERIC CLAPTON (RSO) - Clapton estava longe da heroína e finalmente amasiado com Pattie Boyd, musa do desecantado hit Layla e ex-mulher do amigo George Harrison, que - ah, os anos 70 - perdoou a furada dupla de olho. Para comemorar a boa fase, o guitarrista-da-mão-lenta reuniu amigos e se reempacotou como artista pop num álbum ensolarado e repleto de releituras. A mais famosa é I shot the sheriff, de Bob Marley.

"BURN" - DEEP PURPLE (Purple) - A máquina do hard rock não podia parar: reestreando com David Coverdale nos vocais e o supermúsico Gleen Hughes no baixo, o Deep Purple mostrava um retorno discreto ao passado progressivo do grupo (na faixa-título) e inseria detalhes de black music em outras canções. Discão.

"BUDDHA AND THE CHOCOLATE BOX" - CAT STEVENS (Island) - O oitavo disco do cantor vinha cheio de encucações religiosas e filosóficas. O título vem de uma viagem de Cat sobre desapego, após ver-se, durante um passeio de avião, com uma miniatura de Buda numa das mãos e uma caixa de chocolates na outra. Canções como Jesus e Oh very young apontam caminhos espirituais que o artista seguiria no futuro.

"RELAYER" - YES (Atlantic) - O Yes tinha acabado de lançar um disco duplo com quatro faixas, Tales from topographic oceans (1973). Não havia limites na hora de compor canções que ocupassem todo um lado do álbum ou que dessem trabalho na hora de escolher um single. Em Relayer, primeiro LP gravado após a saída do tecladista Rick Wakeman (Patrick Moraz tomou seu lugar), isso ainda funcionou. Trechos de The gates of delirium (22 minutos!) aparecem, de vez em quando, até hoje como música-tema de reportagens na TV.


"ODDS & SODS" - THE WHO (Polydor) - O objetivo de John Entwistle, baixista do Who, com este disco, era atacar a pirataria com uma boa coletânea de singles do grupo, voltando até o começo da história da banda (o compacto I'm the face, dos High Numbers, primeira encarnação do quarteto). Não funcionou direito porque boa parte do material já rolava em LPs piratas e não deixaria de rolar por causa disso, mas foi a base da caixa de CDs 30 years of maximum r&b, lançada em 1994.

"BRIDGE OF SIGHS" - ROBIN TROWER (Chrysalis) - Lançado ao mercado como o "novo Jimi Hendrix", o ex-guitarrista do Procol Harum vinha armado com seu próprio Experience - além dele, tinha James Dewar no baixo e Reg Isidore na bateria. Seu segundo álbum solo angariou vários fãs e acabou virando um clássico poderoso. O hit Day of the eagle já foi usado até como vinheta do programa CQC (bati um papo com Trower certa vez para o Jornal do Brasil - leia aqui).

"HOTTER THAN HELL" - KISS (Casablanca) - Ensanduichado entre uma estreia poderosa (também de 1974, homônima) e o campeão Dressed to kill (de 1975, com o hit Rock n roll all nite), o segundo do Kiss era a prova de que o grupo americano estava pronto para o sucesso, para as turnês monumentais e para a demanda dos (inúmeros) fãs. Got to choose, Parasite, Hotter than hell e Mainline são imbatíveis até hoje.

"HAMBURGER CONCERTO" - FOCUS (Atco) - Tido como o último grande álbum do grupo progressivo holandês por muita gente séria, foi também o começo da falta de estabilidade na formação da banda - o batera Pierre Van Der Linden saiu e deu lugar a Colin Allen, que vinha da banda escocesa Stone The Crows. Daí para a frente, o line-up pouco parou quieto, com discos cedendo a pressões das gravadoras (fizeram até disco music no - bom, vá lá - Focus con Proby, gravado ao lado do crooner americano P.J. Proby, em 1978). Traz o hit Harem scarem.


"DIAMOND DOGS" - DAVID BOWIE (RCA) - Bowie, que havia se mudado para os Estados Unidos, tentara montar um musical baseado no livro 1984, de George Orwell, mas foi impedido pelos herdeiros do escritor. A solução foi criar um álbum que unia os temas do livro às visões aterradoras do futuro que o cantor tinha na época. Diamond dogs, o disco-resumo de todas essas ideias, saiu glam, pesado e até mais conceitual (ou "progressivo", vá lá) do que álbuns anteriores. Revelou duas gemas pop, Rebel rebel e Diamond dogs, a disco-music 1984 e o soul We are the dead. Ganhou também tons amedrontadores em músicas como Big Brother. Durante a tour, Bowie cai de nariz no pó, emagrece como nunca, entra em órbita e é flagrado pelas câmeras da BBC nesse estado, no documentário Cracked actor.

"SALLY CAN'T DANCE" - LOU REED (RCA) - O ex-Velvet Underground podia até não vender muitos discos. Sua gravadora não deixava de apostar mesmo assim: entravam e saíam produtores e músicos, discos eram lançados duas vezes num ano. Sally can't dance fez a RCA começar a ver a grana entrando, graças a canções cáusticas como Kill your sons, na qual Reed refere-se à sua internação num sanatório na adolescência, providenciada por seus pais. Doug Yule, ex-colega do Velvet (que carregou sozinho o nome da banda após todo mundo debandar), toca baixo em Billy. Foi nessa época que o judeu Lou, mais perdido que cego em tiroteio, circulou pela noite novaiorquina com uma cruz gamada raspada na cabeça.

"WALLS AND BRIDGES" - JOHN LENNON (Apple) - Separado de Yoko Ono por 18 meses, John Lennon fez um disco tão bom quanto confuso - e que gerou seu primeiro single número 1 nas paradas americanas, Whatever gets you thru the night. Estava tudo muito estranho: enquanto reatava com amigos como Mick Jagger e com o próprio filho Julian (que toca bateria em Ya ya), Lennon patinava no desequilíbrio, abusando de drogas e álcool. Foi nessa época que o ex-beatle, numa festa na Mansão Playboy, destratou convidados e apagou um cigarro num quadro de Henri Matisse ("Nem me importei. O quadro passou até a valer mais: Matisse reinterpretado por John Lennon", diria anos depois o dono do império Playboy, Hugh Hefner, em entrevista à sua própria publicação).


"ROCKAROLLA" - JUDAS PRIEST (Gull) - Disco de estreia do grupo britânico de heavy metal, que, mesmo cheio de boas canções, não deixou a banda nada satisfeita. O produtor Rodger Bain, que havia cuidado dos primeiros álbuns do Black Sabbath, exagerou no controle, mandando a banda substituir canções que já faziam sucesso nos shows por músicas novas. Vale ouvir mesmo assim. O título e o logotipo fazendo referência a uma certa bebida gasosa deram muita dor de cabeça para a banda - que foi processada e obrigada a mudar a capa do álbum.

"CHICAGO VII" - CHICAGO (Columbia) - Lançando um disco por ano e sempre retrabalhando criativamente seu logotipo (que nas capas dos álbuns, era transformado em imitação de madeira, chocolate, porta-retrato, papel-moeda, etc), o grupo americano retornou com um álbum duplo, cada vez mais jazzístico. Foi o último disco em que o percussionista brasileiro Laudir de Oliveira atuou com o status de músico convidado - ele seria efetivado a partir do Chicago VIII, de 1975.

"BAD COMPANY" - BAD COMPANY (Swan Song) -  A história deles lembrava um pouco a do Led Zeppelin - e o grupo acabou sendo um dos primeiros contratados do selo dirigido pela banda, Swan Song. Assim como Page, Plant, Jones & Bonham, eram um supergrupo formado por músicos com tempo de janela: o cantor Paul Rodgers vinha do Free, o guitarrista Mick Ralphs foi do Moot The Hoople, e vai por aí.  Misturando influências e experiências, surgiu o disco de estreia, com clássicos como Can't get enough.

"JOURNEY TO THE CENTRE OF THE EARTH" - RICK WAKEMAN (A&M) - Para o segundo disco solo, o ex-tecladista do Yes não mediu esforços - vendeu até alguns de seus carros para pagar todos os músicos de orquestra e, mesmo arriscando-se a comprometer o resultado, optou por uma gravação ao vivo no londrino Royal Festival Hall para baratear custos. Sofreu incompreensões dentro da própria gravadora (que de início recusara-se a lançar o disco), mas virou clássico instantâneo: nos anos 70, mesmo no Brasil, não havia quem não tivesse uma cópia em casa. Em 1975, Wakeman viria ao Rio dividir o palco com o maestro Issac Karabtschevsky no Projeto Aquarius.

"THE HOOPLE" - MOTT THE HOOPLE (Columbia) - Abençoados por David Bowie - que lhes dera All the young dudes em 1972 - o Hoople virava mania. Tudo podia acabar de uma hora para a outra, mas ninguém largava o osso. No último disco da fase glam, vinham com mais um single primoroso, The golden age of rock and roll, e caíam na estrada em turnê aberta pelos então novatos do Queen (no ano anterior, a banda de abertura era nada menos que o Aerosmith). Após o álbum, o guitarrista Ian Hunter sairia para iniciar uma carreira solo à sombra de Bowie e o grupo passaria a se chamar apenas Mott.


"COURT AND SPARK" - JONI MITCHELL (Asylum) - Marcada pessoalmente pelo fato de, quando bem jovem, ter entregue uma filha para adoção - e artisticamente pela competição com Bob Dylan, por quem já nutriu da adoração desmedida ao mais profundo desprezo - Joni Mitchell une jazz, soul e pop agridoce de violão-e-piano naquele que se tornou seu disco mais bem sucedido comercialmente. Entre os destaques, a desesperada Help me, Free man is Paris (dedicada ao "patrão" David Geffen, fundador do selo Asylum) e Raised on robbery.




"SHEER HEART ATTACK" - QUEEN (EMI) - Mais do que criticados, os quatro rapazes do Queen chegavam a ser ofendidos pela crítica dos anos 70. Como não existe propaganda ruim, os fãs seguiam comprando mais e mais discos do grupo. O terceiro álbum, Sheer heart attack, foi o primeiro sucesso mundial da banda e ainda conseguiu ganhar aceitação da crítica de modo geral. O som que influenciou de Metallica e Ratos de Porão (João Gordo é fã ardoroso) a Killlers e Fun voltou mais pesado e mais elaborado, em clássicos como Killer Queen (tida, de fato e de direito, como o primeiro thrash metal) e Stone cold crazy. Muita gente séria considera como o melhor disco deles.

"ON THE BEACH" - NEIL YOUNG (Reprise) - Lançado em CD só em 2003 após anos de indisponibilidade (fãs precisaram fazer uma petição para que o cantor, que odeia CDs, liberasse o lançamento), foi considerado pela Rolling Stone como "um dos álbuns mais desesperadores dos anos 70", herdeiro do tom quase dark de Tonight´s the night (gravado em 1973 e só lançado em 1975). Com acidez e ódio na ponta da língua, Young zoa o QG da geração de "cantores sensíveis" dos anos 70 (Laurel Canyon, em Los Angeles) em Revolution blues e sai de novo no tapa com o Lynyrd Skynyrd em Walk on.

E agora, os nacionais:


"GITA" - RAUL SEIXAS (Philips) - Os anos 70, por um viés pop-rock, estão aqui. A fórmula inclui padrões de produção até hoje não igualados (só na faixa-título, que você já conhece, são mais de 50 músicos), grandes canções (Sociedade alternativa, se puxada num estádio lotado, faz todo mundo cantar), apego rocker às raízes do estilo e à nação Woodstock (além dos vocais apontando para Elvis Presley, Super heróis encapsula Kansas City, hit do rock dos anos 50 gravado por meio mundo, e S.O.S chupa descaradamente Mr. Spaceman, dos Byrds), nordestinidade (em O trem das sete e no repente As aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor). E um melting pot esotérico nas letras, herdadas dos controversos escritos de Aleister Crowley, mas apontando, a seu jeito, para Jesus Cristo e religião hindu.

"LÓKI?" - ARNALDO BAPTISTA (Philips) - Um dos mais belos e intensos álbuns lançados na história da música popular brasileira. Gravado às pressas em meio a crises emocionais e depressivas de Arnaldo - que havia perdido Rita Lee para sempre - traz canções pop confessionais, à moda dos anos 70, feitas ao piano. Será que eu vou virar bolor? é o quase hit, mas ainda tem o rescaldo dos Mutantes Uma pessoa só, o rock-piano-bar de Navegar de novo, a tristeza prog de Desculpe e Te amo podes crer e outras surpresas.


"DRÁCULA I LOVE YOU" - TUCA (Som Livre) - Um estranho e pouco conhecido equivalente feminino de Lóki?. Revelada no auge da era dos festivais, Tuca (Valeniza Zagni da Silva) gravou este disco na França, três anos depois de ter participado ativamente de La question, clássico da cantora Françoise Hardy. O som é triste e misterioso, unindo MPB, rock, pop agridoce, lisergia, soul e feridas emocionais - Françoise conta em sua autobiografia que a amiga estava numa baita fossa por causa da atriz italiana Lea Massari. A cantora morreria em 1978.



"A TÁBUA DE ESMERALDA" - JORGE BEN (Philips) - Até o veterano suingueiro carioca aderiu, a seu modo, ao trem esotérico que levou Raul Seixas e Tim Maia. Além do hit Os alquimistas estão chegando e de viagens como Hermes Tri Errare humanum est, personalidades da alquimia como Paracelso e Nicolas Flamel tornam-se personagens de músicas como O homem da gravata florida O namorado da viúva, respectivamente. Na raiz samba-rock, entra um toque folk-pastoril que perduraria no violão de Jorge por alguns anos - Minha teimosia, uma arma pra te conquistar lembra, de leve, Lay lady lay, de Bob Dylan.

"BELCHIOR (MOTE E GLOSA)" - BELCHIOR (Chantecler) - Um dos raros artistas brasileiros a combinar letra de música e poesia de verdade - e talvez o único letrista verde-e-amarelo que poderia bater no peito e falar: "Sou o Bob Dylan brasileiro". Estreando em disco, combinou experimentalismos (Bebelo, Mote e glosa), romantismo herdado de Beatles (Todo sujo de batom, Passeio) e melancolia jovem (A palo seco, Na hora do almoço). Num país sério, Belchior seria tão cultuado quanto Dylan e John Lennon.

"TUDO FOI FEITO PELO SOL" - MUTANTES (Som Livre) - A estreia da fase progressiva dos Mutantes, com Sergio Dias no comando, saiu em meio a tensões (Liminha, co-autor de várias músicas, abandonou o grupo pouco antes do disco) e um ou outro nariz torcido da crítica (que preferia o grupo em fases menos sisudas). Revelou um grande disco do estilo e acabou vendendo mais que os álbuns anteriores. O repertório tem sido revivido pelo grupo, com a mesma formação da época, em shows ocasionais.

"ELIS & TOM" - ELIS REGINA E TOM JOBIM (Philips) - Em vez de exigir uma Mercedes como luvas para renovar contrato em seus dez anos de carreira na gravadora, Elis pediu para gravar um disco nos Estados Unidos com Tom Jobim. Realizado em pouco mais do que 15 dias, revestiu de suíngue canções do repertório de Tom como Inútil paisagem e Só tinha de ser com você. E apresentou a definitiva e desencorajadora versão de Águas de março. Boa parte do álbum foi ensaiada no estúdio caseiro de ninguém menos que Wanderléia - a musa jovemguardista morava em Los Angeles por aqueles tempos (sobre isso, leia aqui).

"LÍNGUAS DE FOGO" - SIDNEY MILLER (Som Livre) - Lançado igualmente na era dos festivais e grande fornecedor de canções para Nara Leão (Vento de maio, disco dela de 1967, é quase todo composto por ele e por Chico Buarque), Sidney chamou a galera do Som Imaginário para acompanhá-lo naquele que seria seu último disco. Caiu dentro de um caldeirão que misturava MPB, rock e psicodelia, bem diferente de seus outros álbuns. A garageira Dois toques chega a lembrar o começo da carreira do Grand Funk, ou canções dos pré-punks do MC5. Sidney suicidou-se em 1980.

"ATRÁS DO PORTO TEM UMA CIDADE" - RITA LEE (Philips) - O título surgiu de uma conversa pirada com Raul Seixas - que não foi creditado. O álbum que Rita fez após ter tido um disco inteiro recusado pela Philips (que geraria, anos depois, o piratão Cilibrinas do Éden) é um dos raros momentos em que o glam rock foi levado a sério e feito com categoria no Brasil, sem deixar de lado a tecladaria do rock progressivo. Menino bonito e Mamãe natureza foram os hits.

"VILA SÉSAMO" - TRILHA SONORA (Som Livre) - Composta e gravada pelo golden boy da segunda geração da bossa nova, Marcos Valle, num estúdio caseiro - com a ajuda de músicos como Novelli (baixo) e Nelsinho (bateria) - traz mais conexões com o espírito da época do que os temas infantis fazem supor. "A gente tinha reuniões com pedagogas, psicólogas. A mensagem que queríamos passar para as crianças era 'acredite em você, você pode derrubar a ditadura!'", me disse certa vez. Entre o soul e o rock herdado de Beatles, há pérolas como o tema de abertura Alegria da vida, a grudenta Abecedário e o discurso antibullying de Funga funga.

"1990 - PROJETO SALVA TERRA" - ERASMO CARLOS (Polydor) - Realizado a partir de encontros de Erasmo com músicos como Gabriel O'Meara (A Bolha) e Jorge Amiden (ex-O Terço), é o disco que tem hits como Sou uma criança, não entendo nada Cachaça mecânica, além de uma releitura hard rock de Negro gato. Sofreu a ação da censura, que cortou Vida blue, cuja letra fazia referência ao Esquadrão da Morte - no lugar, Erasmo gravou Bolas azuis, um improviso rock´n roll da sua banda, com letra em inglês.

"DIMENSÃO 75" - WILSON SIMONAL (Philips) - O lado "classe A" do showbusiness brazuca se despedia do cantor carioca aí. Dimensão 75 saiu pouco após Simonal realizar, durante seis meses, a temporada do show Circus, no Canecão - quase um musical, repleto de convidados, e sempre com casa cheia. Samba, soul, rock e pop adulto misturam-se em canções como A pesquisa (uma paródia de O vira, dos Secos & Molhados), a toada Sabiá laranja, o samba-rock Cuidado com o bulldog (de Jorge Ben, um dos raros hits do disco) e outras.


"MILAGRE DOS PEIXES AO VIVO" - MILTON NASCIMENTO E SOM IMAGINÁRIO (EMI) - Milton não vendia muitos discos. Mas após pequenos fracassos de público na época do clássico Clube da esquina (1972), já atraía multidões a seus shows. Ciente disso, a EMI agendou a releitura ao vivo de seu censuradíssimo disco Milagre dos peixes (1973) para uma data no Municipal de São Paulo, com orquestra regida por Paulo Moura, além dos músicos do Som Imaginário. Clima progressivo-orquestral de primeiríssima, que quase foi registrado em filme. Marcio Borges, parceiro de Milton, e o cineasta Sérvulo Siqueira chegaram a iniciar as filmagens, mas esbarraram na falta de estrutura e no apoio zero da gravadora, deixando o projeto inconcluso.

"NUNCA" - SÁ & GUARABYRA (Odeon) - Com o fim do trio Sá, Rodrix e Guarabyra, cada um foi para o seu lado. Como dupla, Sá e Guarabyra começaram em 1974, unindo Beatles, Crosby, Stills, Nash & Young e pop mineiro (o som que ganhou o nome "rock rural" após Casa no campo, de Zé Rodrix) em canções como Divina decadência, Segunda canção da estrada e As canções que eu faço. Com eles no estúdio, a formação de O Terço que lançaria o álbum Criaturas da noite, em 1975.


"FLAVIOLA E O BANDO DO SOL" - FLAVIOLA E O BANDO DO SOL (Solar/Rozenblit) - Patrimônios do pop recifense, os discos lançados pelo selo independente Solar nos anos 70 - um deles é Paebiru, de Zé Ramalho e Lula Cortes - nunca tiveram um projeto de reedição em CD no Brasil. Lamentável. O álbum de Flaviola, cujo grupo teve o próprio Zé Ramalho como integrante, chega a ser desesperador de tão psicodélico, em músicas como Canto fúnebre, O tempo, Como os bois e Brilhante estrela.


"LEMBRANÇAS" - ODAIR JOSÉ (Polydor) - Na capa, Odair aparece de peruca - o cantor havia sido convencido pelo amigo Wagner Montes (o próprio) a raspar a cabeça numa cerimônia de umbanda. É o disco que traz músicas como Noite de desejos (que originalmente se chamava A primeira noite de um homem e havia sido censurada), Amantes, Barra pesada e A noite mais linda do mundo (entrevistei Odair para o jornal O Dia sobre a caixa que acaba de sair com quatro CDs dele - leia aqui).

Você acha que está faltando algum disco aí? Qual? Comente aí.


TODAS AS LISTAS DE QUARENTA:

- quarenta discos de 1974 parte um dois
- quarenta micromúsicas
- quarenta momentos em que a macumba virou pop
- quarenta músicas que você tem que ouvir parte um e dois
- quarenta melhores momentos de Hermes & Renato
- quarenta fatos sobre o Abba
- quarenta discos de 1984 parte um dois
- quarenta fatos sobre o Menudo.