terça-feira, 31 de dezembro de 2013

FELIZ 2014





Eu tenho certeza absoluta de que este blog só funciona de verdade se associado às redes sociais. Mas, enfim, acho que era meio obrigação vir aqui e desejar feliz 2014 para os poucos leitores que sempre vêm espontaneamente aqui. Então feliz ano novo, tudo de bom e que os desejos de todos vocês se realiza nos doze meses que se seguem por aí - desde que sejam desejos que não atrapalhem a vida de ninguém nem façam mal a outras pessoas, certo?

Se puder dar conselho, o único que eu tenho para dar é esse: na dúvida sobre qualquer assunto, seja qual for a dúvida, ouça a música acima. Tenho feito isso há uns vinte anos e dá certo.

Meu amigo Pedro, de Raul Seixas e Paulo Coelho (prefiro não entrar no assunto de se Paulo Coelho é um bom escritor ou não), é do disco Há dez mil anos atrás, de 1976. Que eu diria que é um dos discos mais estranhos e confusos da carreira de Raul. Dá para perceber que algo ali está fora do normal - seja no desencanto de O homem ou do soul Quando você crescer, ou no fato de Raul, então em pleno envolvimento com as controversas teorias do mago Aleister Crowley, compor um hino cristão em Ave Maria da Rua. O lado B do single da faixa título, Eu nasci há dez mil anos atrás, era uma elegia crowleyana com cara de John Lennon, Love is magick. Tava esquisito aquilo ali. E a vida da gente, muitas vezes, mesmo nos momentos mais felizes, é assim também.

Ouve aí e presta bastante atenção na letra. Nem sempre a vida é séria e a guerra é dura. Ainda bem. Feliz 2014.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

RETRÔ DE SHOWS 2013: O DIA

Segue aí minha retrospectiva dos shows de 2013, que saiu publicada em O Dia.

Destaque para as opiniões e a entrevista do amigo DJ Wagner Fester.

Destaque também para Roberta Medina, vice-presidente do Rock In Rio, dizendo que o público precisa entender que tem festival todo ano e que "é possível fazer um pacote de viagem para Lisboa e assistir lá".


RETRÔ: BEYONCÉ DANÇOU FUNK, JUSTIN BIEBER BARBARIZOU E HEAVY METAL LOTOU A APOTEOSE 
Relembre alguns dos melhores shows que passaram pelo Rio em 2013
Publicado em O Dia em 23 de dezembro de 2013

Perguntado sobre os shows internacionais de 2013, o DJ Wagner Fester resume tudo em uma só palavra: “Bruuuuce!”, brinca. O veterano cantor Bruce Springsteen veio pela primeira vez ao Rio, para o Rock in Rio, em outubro. Cantou Sociedade Alternativa, hit de Raul Seixas, foi à Lapa, à praia, tocou por duas horas e 40 minutos na Cidade do Rock e encantou a todos. 

“Mas tiveram outras coisas importantes. No Rock in Rio teve Muse, Offspring. Acho que Metallica e Iron Maiden já enjoaram um pouco. E fora de lá, o melhor foi o Black Sabbath!”, diz Fester, sobre a banda clássica de heavy metal, que tocou na Apoteose em outubro — pela primeira vez, com três quartos da formação original. 

Mais rock: os suecos do Ghost BC prometeram assustar no Rock in Rio com uma missa satânica no palco — provocaram risos e gritos de “Metallica!”. Aerosmith, Red Hot Chili Peppers e Whitesnake também estiveram por aqui. A noite carioca ainda recebeu inúmeros shows de heavy metal, vários deles no Teatro Odisseia, na Lapa: Sodom, Anvil, Rotting Christ.

O pop marcou mais presença em 2013, com Beyoncé (que levou o Passinho do volante, de MC Federado e os Leleks, para o palco do Rock In Rio), Lana Del Rey e a tumultuada aparição de Justin Bieber na cidade — com direito a uma ida à Termas Centaurus (da qual saiu enrolado num lençol branco). 

BLACK SABBATH  Na frente de 35 mil pessoas, Ozzy Osbourne, Tony Iommi e Geezer Butler tocaram grandes hits e músicas do novo álbum, 13. Pouco antes, Ozzy exibira uma bandeira do Brasil para a plateia argentina. “Muitas vezes, nem sei em que país estou”, justificou.

ROCK IN RIO  O festival retorna ao Rio só em setembro de 2015 — antes disso, há edições em Lisboa (maio de 2014) e nos Estados Unidos (maio de 2015). “Tem Rock in Rio todo ano. É possível fazer um pacote de viagem para Lisboa e assistir lá”, anuncia a vice-presidente Roberta Medina. Em 2013, destacaram-se o pop de Beyoncé e o chefão Bruce Springsteen. O metal sueco do Ghost BC prometeu assustar, mas ficou no quase.

JUSTIN BIEBER  Encrenca é o apelido dele, como o astro mostrou no Rio, em novembro. Além da já citada ida à termas, pichou um muro em São Conrado (com direito a seguranças tentando agredir fotógrafos), xingou os paparazzi, foi acusado de destratar fãs, foi barrado no Copacabana Palace  ao tentar subir acompanhado, teve um caso com a modelo Tati Neves (que divulgou  até um vídeo do cantor dormindo)... O show, na Apoteose, foi apenas um detalhe.

LANA DEL REY  Lindinha e dona de uma voz frágil, a cantora americana trouxe o repertório do disco Born to die. Simpática, atendeu aos fãs na porta do Copacabana Palace e tirou fotos com todos

AEROSMITH  O grupo veio desfalcado do baixista Tom Hamilton — David Hull tocou em seu lugar — mas agradou, trazendo vários sucessos e boas novas. Lotou a Apoteose, com abertura do Whitesnake, mesmo em dia de chuva.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

ERON FALBO

Morador de Budapeste, nascido em Brasília, com passagens por vários outros lugares, Eron Falbo pôs no cyberespaço sua aventura solo 73.

Odeio qualquer tipo de hype, mas lá vai: quem já fez sua lista de melhores do ano deveria parar para escutar o disco dele. A aventura folk-britânica do cara, gravada em Londres e em Nashville (com um produtor de Johnny Cash e Bob Dylan por trás) não tem uma música sequer fora do lugar, um espaço sequer desperdiçado. Foi feita com uma mira no alvo que inexiste em boa parte dos lançamentos nacionais recentes. E trouxe músicos experimentadíssimos em sua elaboração - facilitada pelo clima "das antigas" que encontrou nos lugares de gravação. Entre os nomes que passaram pelos dois estúdios está o tecladista Shane Keister, que tocou com Elvis Presley.

O disco pode ser ouvido inteirinho aqui. Em breve, sai uma versão física. Fiz uma matéria com ele para
O Dia, que saiu nesta quinta, dia 26 de dezembro. O papo na íntegra, realizado por e-mail, e que gerou o texto, segue aí embaixo.



Você é de Brasilia mas mora em Londres, certo? Como foi parar aí e qual tua trajetória como músico em Brasília? Eu comecei em Brasilia, com uma banda chamada Os Julianos, com três outros camaradas, um dos quais hoje é de uma outra banda fantástica de Brasilia, a Sexy Fi. Eu saí para fazer carreira solo em Londres. Acreditava que precisava me jogar dentro de um forno de criatividade. Queria me rodear de pessoas famintas e perdidas em uma escala global. Acreditava que Londres era a Constantinopla de meus tempos. Realmente aprendi muito em Londres, aprendí até que Chico Buarque sabe das coisas. Agora estou morando em Budapeste. Pretendo voltar ao Brasil assim que me chamarem para tocar.

Como foi que Bob Johnston cruzou seu caminho? Foi complicado chegar até ele? Como foi fazê-lo aceitar o trabalho? 
Foi difícil achar o véio. Entrei em contato com o filho dele, que tinha uma fazenda em Goiás. Ele foi receptivo por gostar de brasileiros. No inicio, Bob queria conversar só sobre meu gosto musical e sobre coisas pessoais. Perguntou, entre outros assuntos, se eu fazia artes marciais ou se acreditava em Deus e como era isso. Ele passou uns quatro meses só me sondando, para identificar meu caráter. Depois, pediu para eu enviar minhas músicas para ele. Eu enviei pro filho dele por e-mail, as letras e os MP3 das músicas. Na semana seguinte, me ligou e disse que a mulher dele (Joy Byers, que escrevia letras para Elvis Presley) disse que ele tinha que trabalhar comigo, porque eu era um grande letrista. Daí ele perguntou se eu sabia cantar. Como eu achava que ele já tinha ouvido as músicas, fiquei surpreso, mas Bob disse que o filho dele só havia levado as letras para ele, pois na casa dele não havia internet. Bob aceitou trabalhar comigo só por ler as letras das músicas que enviei. Depois eu cantei no telefone e Bob gritava de alegria. Disse que eu ia ser muito bem sucedido e que iamos gravar um grande disco. Mesmo assim, fez questão que eu o visitasse no Texas para conhecê-lo ao vivo. Eu fui. Foi tenso e nervoso, pois o véio é intimidante quando ele quer ser. Eu acabei ficando hospedado na casa dele, que é vizinha a casa de Willie Nelson, seu melhor amigo. Passamos o fim de semana falando de musica e comendo comida mexicana. A partir de então, ele se tornou um grande amigo e essencial mentor.

Bob Johnston exigiu muito de você durante o disco? Como era o diálogo no estúdio? Ele tentou me proteger toda hora. Toda vez que alguem tentava me pressionar, ele dizia que eu tinha que me concentrar. Não deixou que eu saísse do estúdio nem para comer, mandava que os estagiários fossem lá fora comprar comida. Bob me tratou como se eu fosse um grande artista renomado, a cada momento. Mandou fazer um vídeo para documentar o que aconteceu no estúdio. Acho que o método dele consiste em fazer as pessoas se sentirem a vontade o suficiente para deixar a criatividade fluir. Mas com os músicos pagos, ele era muito rígido. Ele humilhou alguns caras, e sempre dizia que não queria “músicos de Nashville” tocando no disco, que queria “músicos”. Em outras palavras, se os caras estivessem agindo muito "profissionalmente" ele mandava logo os caras relaxarem e serem criativos,  ou ficava muito aborrecido. Eu quase não senti pressão dele, era como se já trabalhassemos juntos há muito tempo. O diálogo era mais sobre as possibilidades, que instrumentistas poderiamos contratar, se tinhamos o orçamento para tal. Na canção What I could’ve been colocamos citações do filme Sindicato de ladrões (de Elia Kazan, com Marlon Brando). Esse momento foi clássico, pois todos acharam uma idéia fantástica e nos divertimos muito.

Bob Dylan, evidentemente, é uma influência sua. Você e Johnston aproveitaram para conversar sobre Bob Dylan e sobre como era o método de trabalho dele no estúdio? Acredita ter sido influenciado por esse clima de alguma forma? A gente só conversava sobre isso. Sobre histórias de backstage, e de estúdio entre Bob Johnston e os mestres da música que passaram pela Columbia Records. Eu percebi que Bob Johnston é responsavel por muito mais do que imaginam no trabalho desses caras. Agora o Bob Dylan é uma influência, claro. Johnston me disse um monte de coisas sobre a personalidade dele. Eu acabei conhecendo esses caras intimamente, sabendo de coisas que jamais diriam em entrevistas nem mesmo biografias. Isso me deu uma tremenda autoconfiança. Me ajudou a me sentir como se tivesse lá na Columbia Records, com toda mordomia. Bob Johnston me disse o Bob Dylan era como eu, e eu deveria fazer como ele, concentrar, focar, e executar o melhor que posso. Hoje em dia, se acho que Bob Dylan tem algo de realmente maravilhoso é a concentração. Mas estamos em outros tempos, de revoluções televisionadas. Eu não sou comparável a Bob Dylan, a comparação foi feita por Bob Johnston para otimizar o trabalho do estúdio. E sim, funcionou, na época eu achava que ia conquistar na totalidade a Ásia com 24 exércitos!

Em que estúdio o disco foi gravado? O equipamento e os instrumentos escolhidos acompanharam o clima vintage? Foram dois estúdios. O primeiro em Nashville. O clima foi totalmente correto para o disco. A cidade fala por si. O equipamento lá era, no entanto, totalmente moderno. Cogitamos a possibilidade de fazer o disco com equipamentos vintage, mas acabamos optando por melhores musicos em vez disso, porque o orçamento nos fez escolher entre os dois. O nome dele é Dark Horse Recordings. É lindo, é numa fazendinha nos arredores de Nashville. Tem cavalos, tem um apartamento de luxo (onde fiquei por insistência de Bob). É um ambiente isolado para se concentrar na música. O segundo foi em Londres. O estúdio Konk. Lendário estúdio dos The Kinks. Acreditavamos que o disco precisava de um pouco desse ambiente "British Invasion" que só se encontra em Londres, ou então não representariamos a essência que procurávamos. E realmente estava lá Ray Davies, que administra o estúdio e ainda grava lá. Jogamos pingue pongue e entendemos tudo naquele estúdio. Os climas totalmente diferente um do outro, mas o mesmo amor ao blues e o que veio a ser chamado de rock, que eu ainda chamo de "jump and jive".

I found out, que você gravou no disco novo, é a canção de John Lennon. Mas rolou alguma modificação na canção? Sim, eu mudei a letra para torná-la mais universal e atual. Tipo “Eu vi religião desde Jesus a Paul,” ele diz, se referindo ao Paul McCartney, mas fazendo duplo sentido com Paulo de Tarso, coisa que se limita ou aos Beatles ou ao Cristianismo. Eu mudei para “Eu vi religião desde Crowley até Mao”. Me refiro a Aleister Crowley, um inciador de encrencas teológicas que influenciou todos depois dele. E a Mao Tsé-Tung, que liderou a China em sua revolução comunista, se expandindo em religiões do Oeste ao Leste. É uma viagenzinha minha só, por favor não levem a Mao. A idéia era mais para fazer tributo a John, que sempre mudava letras e personalizava tudo que fazia. Eu achei que ele talvez gostasse.

1973 é um ano importante para você? É importante também para definir o conceito do disco? Esse disco foi um mergulho no ano de 1973. Algum anjo fez uma curva muito brusca e a música popular mundial perdeu muita consistencia depois dessa data. Nós queriamos entrar lá e descobrir o que houve. E ver se conseguiamos resgatar aquela energia, se eu pudesse ajudar.

Que discos conhecidos do rock e que artistas serviram como referência para você durante a produção do disco? Leonard Cohen - New skin for the old ceremony [1974] ; Caetano Veloso - Transa [1972] ; Roberto Carlos - Roberto Carlos (A janela)  [1972] ; The Who - Who's next [1971] ; Chico Buarque - Construção [1971] ; Simon & Garfunkel - Bookends [1969]. Em nenhuma ordem específica. Esses são os discos, mas tem mais: Cat Stevens, cuja sinceridade da sede espiritual sempre me inspirou; John Lennon, carreira solo; Dylan, Nick Drake, The Doors. Eu descobri Led Zeppelin tarde na vida, por isso essa influência fica pro segundo disco.

Você tocou com um músico chamado Martin Tomkins, que foi recomendado a você pelo próprio Jimmy Page (Led Zeppelin). Você e Jimmy são amigos?  Eu e Jimmy Page não somos amigos. Estive com ele num jantar uma vez, mas Martin Tomkins foi recomendado por ele através de terceiros. Martin ganhou o prêmio de melhor guitarrista em uma competição que Jimmy Page e Brian May criaram. Eu e Jimmy conhecemos muita gente em comum, mas por motivos fora da música. Espero ainda conversar diretamente com ele. Os outros músicos foram escolhidos ou pelo Bob Johnston, músicos que já trabalharam com ele antes (tem muito figurão no disco), ou escolhidos por mim, por serem caras que entenderam o que estávamos tentando fazer. Em Londres a banda tinha oito integrantes. Todos nós continuamos grandes amigos.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

FÁBIO JR: PROCURE OUVIR

Outro dia falei aqui, e não falei brincando, que o Rock In Rio poderia fazer uma noite populacha, em que uma das atrações, no Palco Sunset, seria um show conjunto de Fabio Jr (aniversariante de novembro, 60 velinhas!) e Jota Quest.

Isso passa despercebido para muita gente, mas Fabio Jr, considerado um artista brega e de qualidade ruim por muita gente, teve uma fase soul interessantíssima. E bem distante da faceta (vá lá) cafona que passou a chamar mais atenção em seu trabalho depois de uma certa época.

Era soul de FM, meio pasteurizado, e feito pouco antes do estouro do rock nacional dos anos 80. Ok, era. Mas era bom. Nessa época, a música que tocava em rádio tinha uma cara black, numa espécie de rescaldo dos tempos das discotecas, que vigorou por muito tempo. Do pop adulto ao som de trilhas de novelas mais comercial, esse era o padrão. Quebrado a partir de 1982, com os primeiros lançamentos de Lulu Santos (que teve Lincoln como mentor e como grande exemplo), Blitz e outros artistas.

O Roberto e o Erasmo dessa movimentação foram Lincoln Olivetti e Robson Jorge. Lincoln ainda está na ativa e voltou a fazer shows a partir de 2011 - me deu essa entrevista aqui. Robson morreu em 1992. Falei recentemente com o filho dele, Robson Jorge Jr., para o livro Heróis da guitarra brasileira, que escrevi com o amigo Leandro Souto Maior. A Bíblia Sagrada musical dessa fase luminosa da MPopB é Robson Jorge & Lincoln OIivetti, LP de 1982, que saiu em CD.

Depois Lincoln - um cara que fazia mais de 300 arranjos por ano e tocava no rádio o dia inteiro - ficaria estigmatizado como o pentelho da vez. Rita Lee, Fagner, Moraes Moreira, Turma do Balão Mágico, Zé Ramalho, Lulu Santos (em começo de carreira), Tim Maia, Sandra de Sá: o cara trabalhava pra todo mundo.

Os anos 80 sambaram, deitaram e rolaram em cima de conceitos criados por Lincoln e Robson, sem se dar conta. Ou até se deram conta, mas jamais confessariam isso. Titãs, De Falla e Ira! sempre brigaram pelo "pioneirismo" de usar o teclado sampler no Brasil - quando o mesmo já aparecia em gravações arranjadas por Lincoln em 1981, 1982, escondido sob o nome Emulator. Sobrou para o pop de FM dos anos 90, feito sob bases, conceitos e atenções diferentes da crítica, emular (opa!) o que já havia sido realizado 20 anos antes. Discos como O Rappa-Mundi, do Rappa (1996) e os primeiros do Jota mostram bem isso.

Tudo isso é para dizer que boa parte desse repertório, gravado pelo pai do Fiuk entre 1976 e 1984, deixa boa parte do pop feito hoje em dia comendo poeira. Podem ouvir e curtir: é o pop nacional em sua melhor forma.

"CARONA" (do LP Fábio Junior, de 1976) - Numa época em que Raul Seixas e Paulo Coelho já não compunham mais juntos, o Mago foi fazer letras para Rita Lee e produzir artistas para a Philips. Fábio Jr., que já gravara um LP e um single em inglês lá com o nome de Mark Davis, foi contratado e gravou seu primeiro álbum de verdade, cheio de parcerias com Paulo. Carona era da dupla Tony Bizarro e Frankie Arduini e tinha sido gravada anos antes, em versão bem mais pesada, pelo grupo Tony & O Som Colorido.

"INCOERÊNCIA" (do LP Fábio Jr., de 1979) - Lado C da carreira do cantor, lançado no primeiro álbum a sair quando sua carreira de ator global já estava estabilizada (é o disco que tem o hit Pai). É quase um ET no disco: um soul pesado com vocais gritados (e algumas risadas) e bons arranjos de metais. Desobedecendo qualquer manual da boa composição pop, o nome da música não aparece em momento algum da letra.

"EU ME RENDO" (single, 1981) - Fez sucesso a ponto de o próprio Fábio aparecer cantando a música na abertura da novela "jovem" O amor é nosso, da qual participava fazendo um candidato a astro pop. Talvez seja o melhor single soul-pop lançado por ele nessa época, com camadas de teclados e ótimos vocais. Chegou a ser gravado em versão samba-rock pelos Originais do Samba (em 1981) e  - veja só - pelo Só Pra Contrariar (em 1993). O autor da música, o tecladista Sérgio Sá, também fez a sua gravação, em 1982.

"O VELHO BEIJINHO NA TESTA" (single, 1976) - Sobra do primeiro disco de Fabio Jr para a Philips, lançada apenas em compacto. Um estranho soul-rock com guitarras em wah-wah e clavinet, e muito balanço. Fábio é um bom rapaz: clama por mais romantismo na loucura dos anos 70, mesmo entre doidões e doidonas. Sonzão.

"PAI" (do LP Fábio Jr., de 1979) - Gravada em 1979 mas lançada dois anos antes quando Fábio participava da série global Ciranda cirandinha - numa das cenas, ele aparecia tocando a música no violão. É soul romântico como poucas vezes se fez no Brasil, com os arranjos de teclados de Lincoln Olivetti. Virou tema da novela global Pai herói.

"MUITO CACIQUE PRA POUCO ÍNDIO" (do LP Fábio Jr, de 1981) - Mais soul de FM, que deixa pouco a dever à onda black do começo dos anos 70. A letra não é exatamente romântica e insere papos "jovens" no habitual repertório do cantor.

"NÃO MISTURE AS COISAS" (do LP Fábio Jr, de 1982) - Não achei essa no YouTube - dá uma olhada no Rdio que pode ter alguma coisa. É uma disco track que poderia ser recuperada e revalorizada nessa época de Daft Punk, com os nomes de Nile Rodgers (Chic) e Giorgio Moroder reaparecendo no mercado. Contém trechos de Odara, de Caetano Veloso.

"VINTE E POUCOS ANOS" (do LP Fábio Jr., de 1979) - Baladão gospel-soul deslavadamente inspirada num dos maiores ídolos brasileiros de Fábio, Guilherme Lamounier - com uns acertos aqui e ali, poderia ser uma música do clássico disco de 1973 de Guilherme. Você deve lembrar: Fábio Jr conseguiu fazer parte da história do rock brasileiro com essa música, que foi regravada pelos Raimundos no MTV ao vivo, de 2000.

"KATARINA, KATARINA (do DVD Jorge Ben - Energia) - Gravada no especial de Jorge Ben Jor levado ao ar pela Rede Globo em 1982, traz um pouco divulgado lado suingueiro de Fábio, que divide a música com Jorge. Logo na abertura, dá para ver Glória Pires, então casada com ele, feliz da vida. 

"CAÇA E CAÇADOR" (do LP Vida, de 1989) - É brega - e bem mais indefensável do que canções como Pai e Não misture as coisas. Mas é o lado soul de Fábio invadindo suas gravações extremamente populares lançadas após meados dos anos 80, numa época em que a música pop já era representada pela lambada e pelo sertanejo. Vale perder o preconceito e ouvir com atenção.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

FELIZ NATAL!


Em algum momento do dia de hoje, vou parar tudo para escutar as três músicas abaixo.


SLADE - "MERRY CHRISTMAS EVERYBODY" (em vídeo tirado da preciosidade Top of the pops, há quarenta anos!)







CASSIANO - "HOJE É NATAL"






SOM IMAGINÁRIO - "XMAS BLUES"



segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

OCULTISMO NO ROCK

Essa foi uma das duas matérias que fiz aqui no O Dia sobre a vinda do Black Sabbath ao Rio, em outubro. Vai entender por que, esqueci completamente de colocá-la aqui no blog.

Em vez de me limitar a falar com metaleiros ilustres sobre a chegada do grupo ao Brasil com três quartos de sua formação original, fiz uma matéria sobre o ocultismo no rock - falando com bandas novas aqui do Brasil que abordam o assunto, a sério ou de brincadeira.


Coloquei bandas subterrâneas e obscuras dos anos 60/70 como Black Widow e Coven na matéria, bem como grupos novos e uma banda bem esquisita (bem esquisita MESMO) de Brasília. Tudo isso num jornal popular, que costuma dar capa para nomes como Péricles e Naldo. Sem puxasaquismo, são coisas como essas que me fazem adorar trabalhar lá.

E vá lá, não deixa de ser um bom exemplo de (como diria Gilberto Gil) "sincrétismo réligioso". Afinal em 2013 eu entrevistei um padre que canta repertório de MPB (leia aqui) e dei uma geral nos novos nomes do gospel que fazem misturas sonoras com soul, reggae e rap (aqui). Chegou a hora dessa gente 666 mostrar seu valor. Graças a Deus.



ALÉM DE BLACK SABBATH, TEM MAIS OCULTISMO NO ROCK
No próximo domingo, a banda se apresenta no Rio
Publicado em O Dia em 5 de outubro de 2013



O diabo pode até não ser o “pai do rock”, como pregava Raul Seixas, mas o ocultismo ainda é um tema bastante explorado na música, especialmente no rock e no heavy metal. O assunto despertou atenções quando a banda sueca Ghost B.C. (liderada por um estranhíssimo — e, vá lá, simpático — Papa Satânico) veio tocar no Rock in Rio. Retorna numa data muito especial: 13 de outubro, domingo que vem, quando a histórica banda britânica Black Sabbath vem ao Rio a bordo de seu novo disco, intitulado 13. E ganha espaço nos nomes, fotos e conceitos de muitas bandas, de som pesado ou não.

“Não vi Ghost e tenho preguiça para rock. Vi uns comentários religiosamente histéricos sobre o show por aí e fiquei com inveja”, brinca Munha da 7, baixista da banda brasiliense Satanique Samba Trio, mais envolvida com samba, ritmos do Nordeste e jazz do que com som pesado. “Nem conheço bem Black Sabbath, nem veria a banda”, diz.

O grupo lança o disco Bad trip simulator 3 e tem canções com nomes como Gafieira bad vibe e Salve Satã e ponto final. Não são temas que os sete músicos (não, a banda não é um trio) levem a sério. “Não temos nada a ver com magia negra. O termo satã é ‘adversário’ em hebraico. A ideia foi criar uma força de contestação na MPB. Mas ninguém quer dar oportunidade a uma banda com um nome desses”.

“O ser humano precisa ter contato com o que não pode explicar. Só que transforma isso em verdades absolutas”, afirma Josh S., vocalista e guitarrista da banda piauiense Bode Preto, que diz fazer “metal obscuro”. No mesmo dia do show carioca do Black Sabbath, o grupo solta o EP de vinil Dark night.

O baterista do grupo, Adelson Souza, revela que mexer com certos temas atrai galhos. “Nosso álbum atrasou porque a fábrica tinha donos religiosos. Sabotaram a capa”, conta ele, que já dividiu o palco com o Ghost B.C. num festival, com outra banda sua. “Quando tocava no Garage (biboca underground carioca dos anos 90), dormia lá e ouvia um barulho forte de correntes. Mas não acredito em nada”.


O Rio é pródigo em bandas de black metal (que abordam diretamente temas anticristãos) como Enterro, The Unhaligast e Malleus. “Nossa mensagem é que as pessoas não abaixem a cabeça para nenhum tipo de religião como sinal de submissão ou comodismo. Que elas pensem por conta própria”, diz o baixista do Malleus, Aghaven Lord.

O Bemônio, outra formação do Rio, vem com temática sonora assustadora no disco Santo (que traz cantos gregorianos e nomes de santos nos títulos das músicas). “Eu sou católico”, diz o tecladista Paulo Caetano, isolando o lado ‘black’ apenas no trocadilho do nome. “Seguimos o que vimos como perturbador e criamos em cima. E, sim, muita gente fica com medo nos nossos shows”.

CAVALEIROS DO HEAVY METAL  O Black Sabbath é uma banda de heavy metal e de rock clássico. Ponto. Nada a ver com o black metal e com bandas extremas como os noruegueses Burzum e Mayhem. O grupo se apresenta na Praça da Apoteose no próximo domingo, com três integrantes originais (Ozzy Osbourne, o guitarrista Tony Iommi e o baixista Geezer Butler). Lança aqui o novo álbum de inéditas, 13. A editora Universo dos Livros aproveita para dar uma geral na carreira do grupo na biografia Black Sabbath (184 págs., R$ 34,90).

QUE TUDO VÁ PRO INFERNO O “coisa ruim” é tema de música há décadas — Robert Johnson falou dele em Me and the devil blues nos anos 30. Nos anos 50, um maluco chamado Screamin’ Jay Hawkins falava de pragas no hit I put a spell on you.

Na mesma época em que o Black Sabbath se lançava ao mercado, surgiram grupos bizarros e escandalosamente satanistas como Coven e Black Widow. Bandas como Iron Maiden (do hit The number of the beast) foram atualizando o tema. Em 1982, o Venom deu início ao lado mais mórbido da força com o álbum Black metal (1982), que gerou filhotes no mundo todo — inclusive no Brasil, com a banda mineira Sarcófago, cujo disco de estreia, I.N.R.I. (1987), acaba de ser relançado em vinil.

Vale dizer: falar sobre um assunto é uma coisa, acreditar nele ou gostar dele é outra coisa. Tom Araya, vocalista do Slayer (que esteve também no Rock in Rio e canta músicas como God hates us all), é católico. “Acredito em Deus e ouço bandas satanistas. E todo mundo sabe que creio num poder superior. Isolo as letras e não as levo a sério”, diz o religioso Max Cavalera, ex-Sepultura, hoje no Soulfly.

domingo, 22 de dezembro de 2013

REGINALDO ROSSI É NOSSO REI

Em 1999, a Showbizz (ou Bizz, já nem me lembro direito qual era a encarnação da revista) publicou uma entrevista enorme com Reginaldo Rossi, que morreu nesta sexta aos 69 anos.

A essas alturas, envolvido com o começo da minha carreira profissional em um ramo diferente do jornalismo, eu nem fazia muita ideia de que Reginaldo estava voltando para ficar, devidamente reposicionado, e para ser conhecido e consumido por plateias no Brasil inteiro. Nem sequer lembrava dele - um cara de quem meu avô tinha uns LPs, inclusive o do hit Garçom.

Escrita por José Teles, lendário jornalista pernambucano - responsável pela divulgação do mangue beat na grande mídia - a matéria virou minha leitura e releitura por mais ou menos um mês e grudou no meu subconsciente. Considero hoje um dos melhores textos que já li.Lembro dela sempre que estou fazendo algum perfil ou uma matéria mais complicadinha sobre alguém e preciso de uma solução rápida que misture crônica, reportagem, memória, com algum encadeamento cronológico - e ainda com a sensação de estar entrando na sala e na cozinha do entrevistado. Sim, jornalistas inspiram-se em matérias de colegas mais experientes e ainda falam, quando se veem em meio a dúvidas num texto: "Caceta, o que será que fulano faria numa hora dessas?". Bom, é assim comigo.

O Sergio Martins, da Veja, resgatou o texto para o Facebook e o próprio Teles publicou-o na íntegra em seu blog no Jornal do Commercio. Leia aqui. Descobri que muitas soluções rápidas que eu uso hoje em textos meus vieram daí. Acho essa entrevista que fiz com Paulo Silvino bem parecida, guardadas as devidas proporções (fiz por telefone, consultei mais algumas fontes, etc), com esse texto do José Teles.

No texto, Reginaldo (com Teles) adianta uma pauta que só entraria em debate mesmo quando Paulo Cesar de Araújo lançasse o livro Eu não sou cachorro, não, em 2002. A de que os artistas "bregas" ou muito populares sustentavam as gravadoras e seus artistas "de prestígio" nos anos 70 e 80. Garantiam o caixa de todos os departamentos, o peru de Natal dos funcionários, mas muitas vezes passavam batidos. Seus discos não eram filhos bonitos que os chefões gostavam de exibir em convenções ou festas da empresa.

No livro Tudo de novo, biografia do Roupa Nova recém-lançada (escrita por Vanessa Oliveira), diz que o grupo saiu da gravadora Sony-BMG (hoje apenas Sony) porque não via sequer um disco de ouro deles pendurado na parede da empresa. Mandaram um funcionário do alto escalão da multinacional varar o corredor e falaram: "Se você achar um disco de ouro nosso nessas paredes, a gente fica". Não havia disco nenhum, deram no pé. Normal o desânimo dos rapazes do Roupa Nova nessa hora: muito trabalho, muita aporrinhação, muito desprestígio. Trabalhando por aí, já vi esse trio nas mesmas doses pela frente. Hoje, não vejo mais. E imagino que não vá mais ver.

Em outra entrevista, dada ao Marcelo Froes no International Magazine, Rossi reclama que chegava na sede da gravadora EMI, sua casa entre os anos 70 e 80, e estava tendo coquetel para o lançamento de algum disco da Joyce ou da Nana Caymmi - tratamento que ele, um dos maiores vendedores da multi, não recebia. A bem da verdade, acho que tudo o que o Brasil não precisa é de um verniz ipanemesco-leblonesco dado à música popularesca. Você conhece bem: aquela dinâmica retropicalista "Caetano Veloso achou lindo, caiu nas graças da Paula Lavigne, a Regina Casé mostrou no Esquenta, Chico Buarque falou bem". Aliás, tudo o que qualquer tipo de música feita no Brasil menos precisa é disso. Já deu. Mas entendo a decepção de Reginaldo.

O Reginaldo Rossi que eu gostaria de relembrar agora nem é o do grande hit Garçom. No Acorde, programa de rock que divido com o amigo Leandro Souto Maior na rádio Roquette Pinto (94.1 FM), vamos com muita sede ao pote do rock pré-1975, mas sem preconceitos: rola, em pílulas, de Keane, Killers e Arctic Monkeys a clássicos do punk. E neste sábado rolou Reginaldo Rossi, em sua fase pós-jovem guarda, com a maravilhosa O gênio cabeludo - música na qual ele narra um sonho com o compositor erudito Beethoven, descrito como um sujeito que era "cabeludo, desligado e ainda surdo/mas foi um grande campeão". Faz parte do disco dele de 1971, que ainda tem as clássicas O doidão e O paquerador

Só pela letra, rola até munição para algum gaiato descobrir uma insuspeita "fase psicodélica" (pra quê isso, hein?) de Rossi. Mas o que fica mesmo, perdido aí, é o relato de um cantor e compositor que se sentia esquecido pela mídia, adorado por seu público, alijado do sonho zonasulino de promoção de carreiras e protegido musicalmente pelos clássicos que sempre amou. E os lados positivos da equação venceram.

E R.I.P. Reginaldo. Que viva para sempre em nossos corações e nossas memórias.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

LOBÃO NO NATAL

Esperava encontrar tudo no YouTube. Menos isso: uma vinheta de Natal da Globo, feita em 1984 - e já anunciando os 20 anos da estação, comemorados no ano seguinte - com Lobão cantando a pérola Papai Noel inadimplente.
Por algum motivo bizarro, o Blogger não permite que eu poste o vídeo aqui - só como link.

Tenho uma lembrança de a Globo ter recrutado todo o primeiro time da música pop da época para fazer essas vinhetas - tinha Blitz, Guilherme Arantes, alguns nomes da MPB, esse pessoal. Mais ou menos como quando hoje recrutam Luan Santana e Michel Teló para as mesmas funções.

Enfim, o mundo gira.

LIA SABUGOSA

Minha primeira matéria publicada no novo formato de O Dia foi essa entrevista com a cantora carioca Lia Sabugosa, que está lançando seu terceiro CD.


UM DISCO COM ARES DE SUPERPRODUÇÃO INDEPENDENTE
Lia Sabugosa conta com três produtores e várias participações em seu novo álbum

Publicado em O Dia em 17/12/2013

Lançando o terceiro disco, Chuvarada, a cantora Lia Sabugosa, 38 anos, encontrou sua turma. Ela inclui nomes como o marido baterista Cesinha, o baixista e cantor Jorge Aílton, os cantores e compositores Daniel Lopes, Mila Bartilotti e Monique Kessous, com quem compôs músicas no novo disco — uma verdadeira superprodução independente, com três produtores cuidando dos trabalhos (o marido Cesinha, Alexandre Vaz e Rodrigo Vidal) em cinco estúdios. 

“Cada um fez uma leva de músicas. Nem aconteceu de os três trabalharem juntos durante a gravação. Ficou até meio parecido com aqueles discos de música pop americanos que têm inúmeros produtores, mas deu para conseguir uma unidade”, diz Lia, voltada para a mistura de MPB e pop rock.

O repertório do novo álbum (lançado em formato digital pela Sony, até antes de sair em CD — ele pode ser ouvido no site liasabugosa.com.br) ainda inclui regravações de músicas de Titãs (Não vou me adaptar), Lula Queiroga (Melhor do que eu sou), Lupicínio Rodrigues (Nervos de aço) e Les Pops (Adaga). Primeira, que é literalmente a primeira música composta por Lia (com o irmão Felipe e Mila Bartilotti) está também no disco. Em Toneladas, de Daniel Lopes e Rodrigo Bittencourt, ela divide os vocais com Paulinho Moska.

“No meu disco anterior, cheguei a ligar para o Moska para pedir músicas, mas ele estava ocupado gravando”, conta. “Mesmo assim, passou um bom tempo no telefone comigo me dando conselhos. Como o Daniel já havia tocado com ele, teve tudo a ver ele cantar essa música.” 

Lia é um nome novo para muita gente, mas já canta há bastante tempo. Chegou a trabalhar com jingles e a ter bandas bem antes de iniciar carreira solo. “Minha mãe era empresária e trabalhava com a Fafá de Belém, e acabei cantando com ela. Já comecei logo fazendo vocais para ela no Imperator”, lembra, rindo.


Na época do segundo disco, Pra quem quiser (2010), Lia chegou a se apresentar na edição derradeira do festival Humaitá Pra Peixe, realizada no Circo Voador, abrindo para Ana Cañas. “Já tinha contato com o (produtor do evento) Bruno Levinson e era frequentadora assídua do festival. Na hora, só pensei em conquistar aquelas pessoas que estavam na plateia".

A versão digital de Chuvarada surgiu de uma parceria com a Sony, mas a carreira de Lia continua na independência. “Mesmo com o terceiro disco, ainda tenho uma cara de artista nova”, brinca.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

ÁLBUM DUPLO - UM ROCK ROMANCE

Abaixo, um papo com o jornalista Paulo Henrique Ferreira sobre seu primeiro livro, Álbum duplo (Ed. Record), que mistura rock e literatura e traz uma extensa trilha sonora ao longo da narrativa. A conversa gerou uma matéria para O Dia e aqui aparece na íntegra.
Álbum duplo é seu primeiro livro? Como surgiu a ideia de fazer um romance com uma trilha sonora? É meu primeiro livro, sim. A ideia dele surgiu porque eu amo rock´n roll e tudo de cinema e literatura que é relacionado a ele. Com certeza Nick Hornby, do livro Alta fidelidade tem meuita influência no meu livro, porque ele consegue mesclar a literatura com as músicas e colocar bastante daquele sentimento que a música causa na escrita, na narrativa. Isso é uma técnica que com o tempo eu fui desenvolvendo em contos na web. Fui notando que funcionava ao ver que eu conseguia associar com influências do Nick, do Mate-me por favor (de Larry "Legs" McNeil e Gilliam McCain, sobre a história do punk). Conhece esse livro?

Sim, sim. Vi que tinha espaço no Brasil para desenvolver esse tipo de literatura, um livro bom que falasse para esse público específico. Você encontra romances legais lá fora e não vê um sequer em português. Vi que estava preparado para escrever tanto por causa do meu arcabouço musical do rock quanto pela influência do Hornby, do Fernando Sabino. Me inspirei muito no livro Encontro marcado, dele. Essa pegada pop de você contar a história de um homem que vai amadurecendo, um texto leve.

O site traz a trilha sonora do livro. Fala um pouco sobre isso. A própria questão da música no livro já faz com que ele nasça multimídia. Ele invoca o som, e hoje, com a facilidade de distribuição da música na internet, já concebi o livro com essa convergência digital. Coloquei uma playlist do YouTube para evitar problemas de direitos autorais com cada música citada no livro. E para o leitor poder experimentar as músicas. Tenho recebido retornos de pessoas que ao lerem, descobrem músicas novas. Acho que tenho ajudado as pessoas a gostarem mais de rock, a depurar mais o gosto.

O Marlo Riogrande tem muito das suas experiências? Tem muito de mim e muito de conhecidos, de amigos, de experiências que vi ao longo da vida. Para extrapolar qualquer limite autobiográfico, pisei fundo no acelerador para que a vida dele seja bem mais interessante, para ele ganhar estrutura própria. O grande muso inspirador dele foi o Lou Reed, pela autenticidade dele, pelo fato de ele ter feito de tudo nja vida e ter se tornado cada vez mais "homem", no sentido de caráter, enfrentando qualquer situação e qualquer gênero. O Marlo está entre mim e o Lou. Foi ele que ajudou o Marlo a extrapolar qualquer limite.

Você chegou, por exemplo, a ter uma turma como a ele? Ou viveu dificuldades como as dele? Não cheguei a ter uma turma muito fechada. Na época de faculdade, a camaradagem que a gente desenvolve, achando que vai ser amigo para o resto da vida... É comum ter essa vida de interesses comuns, até mesmo morar junto em república, ouvir as mesmas músicas. Mas em algum momento você amadurece e abre mão dessa trajetória. As coisas ficam diferentes.

O Marlo tem um anseio grande por viver mais experiências, coisas novas. Uma coisa que pode passar por imaturidade para muitos, mas que pode acontecer em qualquer idade... É um traço da humanidade, da experiência do homem. O Encontro marcado é um livro importante sobre isso, assim como o Retrato de um artista quando jovem, O apanhador no campo de centeio. O comecinho do livro, em que o Marlo sai praguejando a própria vida, foi muito inspirado no Holden Caulfield. Esse dilema é universal e atemporal. Os filósofos, os egípcios, até Jesus Cristo deveria viver isso. O Marlo precisava de alguma forma romper com o que o prendia, com a insegurança. Foi essencial ele virar a chave do caos para redenção..

O nome do Marlo foi inspirado em alguma personalidade do rock ou em alguma música? Tem o Rio Grande Mud, o disco do ZZ Top (de 1972). Pensei nisso. Bom, talvez. Tem uma música chamada Rio Grande, gravada pela Courtney Love com o Michael Stipe, do R.E.M. Mas estava pensando em uma referência que vem primeiro do interior de Minas, já que lá tem o Rio Grande. Cresci no interior, e pensei no significado que aquilo tudo carrega. O Rio Grande tem um destino, ele carrega tudo, é amplo, ninguém segura... e de certa forma cumpre seu destino. Procurei no Google depois se tinha algum Marlo Riogrande no mundo e não achei, inclusive.

Você ainda mistura religião e redenção no livro. Vê isso como algo que tem a ver com o universo do rock? Sim. O rock busca a graça, incluindo aí artistas como Bob Dylan, que tem uma trilogia gospel, e o George Harrison, com aquele grito de desespero de My sweet Lord. Os Beatles, que iam buscar conhecimento espiritual na Índia. E o próprio U2. O rock como gênero que fala dos prazeres e da brevidade da vida tem esse tipo de diálogo, sempre. Roqueiros envelhecem mas não deixam de ser roqueiros. Vê só o Bob Dylan, que em 1997 lançou o disco Time out of mind. É um disco de roqueiro que está entrando na velhice.

O Belchior aparece na lista de músicas do seu livro, com Tudo outra vez. Você o considera um roqueiro? Sim, sim, e diria que é um dos maiores roqueiros brasileiros vivos. Eu acho até essa atitude dele, de desaparecer e ninguém saber onde ele está, totalmente rock´n roll. Se a obra dele fosse em inglês, seria bem mais valorizada. Os álbuns Belchior (1974), Alucinação (1976) e Medo de avião (1979, conhecido também como Era uma vez o homem e seu tempo) são uma triologia básica do rock nacional, quiçá universal. Ele declamando Como nosso pais... O cara é o Bob Dylan brasileiro, um cara que consegue falar a um público cabeça e a um público brega. É um cara que representa a veia roqueira da MPB.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

JOYCE EM "O DIA"

Um papo rápido que bati com Joyce na semana passada sobre o novo disco dela, Tudo, e uns shows que ela iria fazer para lançar o disco no Rio.

Os shows já passaram, fica aí como registro.






JOYCE LANÇA CD E LAMENTA EXCESSO DE "MÚSICA DE REVEILLON" POR AÍ

"Hoje tem muito som para festa, para pular", alfineta a cantora
Publicado em O Dia em 14/12/2013

Acariciado por nomes como Caetano Veloso, o funk está entre os ritmos citados pelo letrista Paulo Cesar Pinheiro em Quero ouvir João, parceria dele com Joyce Moreno, que está no novo CD da artista, Tudo — lançado hoje e amanhã no Espaço Cultural Furnas, em Botafogo. A referência não é exatamente elogiosa, já que a letra diz: “É tanta barulheira/música de Réveillon”. 

“Não tenho visto mais as pessoas tendo a experiência sensorial de ouvir uma música que interfere no pensamento”, diz. “Hoje tem muito som para festa, para pular. A música é como o alimento que você ingere. Se você só ouve ‘junk music’, vai perder parte da experiência.”

Lançado na Europa pelo selo Far Out, Tudo sai aqui por escolha da audiência. Soltando um disco por ano fora do Brasil, Joyce ficou na dúvida entre o novo, de inéditas, e Rio de Janeiro, com regravações de voz e violão.

“Fiz uma votação num show meu e na internet, e as pessoas preferiram o de músicas novas”, afirma Joyce, que traz canções como Boiou, Sem poder dançar (parceria com a sambista Teresa Cristina, que conheceu quando participou de um tributo a Clara Nunes em Brasília) e Pra você gostar de mim (parceria com Zé Renato, que está no CD com Dor de amor é água). Nos shows, as novas encontram-se com sucessos como Feminina e Mistérios.

Recentemente, Joyce participou de A vida tem sempre razão, CD-tributo a Vinicius de Moraes, cantando ‘A Felicidade’ com Roberta Sá. “Ela foi uma gracinha. Combinamos de irmos juntas assistir à Maria Creuza no Vinicius Bar”, lembra ela, que teve o texto de apresentação de seu primeiro disco escrito pelo Poetinha. “É engraçado ver um amigo chegar aos 100 anos. E ele era o mais moleque de todos nós.”

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

GEORGIANA DE MORAES E OS BEATLES


Bati um papo com Georgiana de Moraes, uma das filhas de Vinicius de Moraes, sobre o CD que ela acaba de organizar, com 17 releituras da obra do pai. E aproveitei para fugir um pouco do binômio samba-bossa nova incluindo um pouco de Beatles no papo. Para minha surpresa, a filha número três do Poetinha é fã dos quatro de Liverpool. E olha que ela teve a oportunidade de conviver bastante com um quarteto de assombrar (Vinicius, Tom Jobim, Toquinho e Miúcha, em uma temporada no Canecão em 1977, durante a qual ela tocou percussão).

GEORGIANA DE MORAES ORGANIZA CD COM 17 REGRAVAÇÕES DE VINICIUS
Psicanalista lembra do tempo em que tocava com o pai e fala que já sofreu por ser filha do Poetinha
Publicado em O Dia em 11 de dezembro de 2013

Uma certa banda de Liverpool faz, até hoje, o coração de uma das filhas do Poetinha bater mais rápido. Georgiana de Moraes, 60 anos, que acaba de homenagear o pai, Vinicius de Moraes, organizando o CD A vida tem sempre razão (com vários intérpretes relendo sua obra, em seu centenário), era beatlemaníaca a ponto de assinar nas provas do colégio como Georgiana McCartney. E o que será que o paizão poeta achava disso?

“O Vinicius escreveu uma crônica no jornal Última Hora em que ele dizia para mim: ‘Que você seja jovem e ouça música jovem, tudo bem. Mas que você troque meu sobrenome pelo desse beatle com boca de chupar ovo, não dá’”, lembra Georgiana, encantada. “Acho que ele ficava com ciúme, achando que podia ficar para trás. Mas os Beatles também são clássicos, como ele, Tom... Imagina se eu ouvisse música ruim?”

A vida tem sempre razão, em 17 músicas, faz um apanhado de clássicos de Vinicius com intérpretes como Chico Buarque (O amor em paz), Edu Lobo (Canto triste), Arlindo Cruz e Moyseis Marques (um pot-pourri com Consolação, Formosa e Pra que chorar), Ana Carolina (Eu sei que vou te amar), Seu Jorge (Canto de Ossanha), Joyce Moreno e Roberta Sá (A felicidade), Toquinho (a faixa-título) e Maria Creuza (Onde anda você).

Fagner traz com uma pérola menos conhecida do Poetinha, Chora coração. “Escuto essa música desde 1973 e fiquei muito emocionado em cantá-la”, recorda. João Bosco, que chegou a ser parceiro de Vinicius quando bem jovem, preferiu reler, só com voz e violão, Medo de amar, que tem tocado em shows. “Vinicius significa pra mim mais de 40 anos de carreira. Acho que fiz o dever de casa que ele me passou durante toda a vida”, crê.



A própria Georgiana, que tem rodado o país participando de um show do Quarteto em Cy em homenagem ao centenário do pai, canta uma pérola obscura do poeta, Cartão de visita.

“Como minha parte foi gravada em vídeo, achei que ficaria como bônus numa versão em DVD. Foi uma ousadia”, brinca. Com o produtor José Milton no comando (os arranjos são de Cristóvão Bastos, que trabalha costumeiramente com Chico Buarque), o disco foi feito em três meses.


“Levávamos ideias para todos os nomes, mas cada um vinha com uma sugestão. Não sei se pecamos, já que o disco não tem um conceito, tipo ‘novos artistas gravam Vinicius’, mas o grande conceito foi a beleza. Muitas músicas foram tocadas de uma forma que as torna mais lindas".

De bônus, dois grandes sucessos: Pela luz dos olhos teus, composta apenas por Vinicius, na gravação de Tom Jobim e Miúcha feita em 1977. E Garota de Ipanema, de Tom e Vinicius, gravada em 2000 por Emilio Santiago, morto em março. “Ele precisava estar no disco.”


Terceira dos cinco filhos de Vinicius, filha de Lila Bôscoli, Georgiana foi percussionista do pai a partir dos anos 70. “Nem sou um grande talento da percussão, mas sempre tive ritmo. Fui meio na cara de pau”, lembra ela, que viu o poeta ser censurado no palco, em Brasília, em 1973. “Meu pai recitou um poema que falava das mortes dos Pablos Picasso, Casals e Neruda, e encerrava com um ‘vá para a p... que o pariu’. Foi proibido de voltar ao palco.”

Em 1977, estava na banda quando Vinicius, Miúcha, Tom Jobim e Toquinho fizeram uma temporada de quase oito meses no Canecão, que rendeu um disco. “Desde os anos 60 o Tom e o Vinicius não apareciam juntos no palco. Foi um marco.”


Hoje, Georgiana trabalha como psicanalista. “Foi muito difícil lidar com o peso de ser filha do meu pai. A psicologia ajudou nisso. O Vinicius era uma pessoa muito querida por todos. Mas hoje vejo o lado positivo das oportunidades que tive por ser sua filha”, conta ela, que vem conciliando o consultório com o trabalho na produtora VM, onde cuida da obra do poeta, ao lado dos irmãos.

“Apesar de alguns de nós terem mães diferentes, somos como quaisquer irmãos. Não sei se pesou o entendimento da importância do que é ser filho do Vinicius, da responsabilidade de cuidar dessa obra. A Julia, filha do Pedro (único filho homem do Poetinha) também tem participado do escritório e isso tem nos deixado muito felizes.”

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

PÉRICLES NOS ARCOS DA LAPA

Uma curiosidade meio boba que sempre tive, mas vá lá: sempre quis saber se Péricles, criado no ABC paulista, teve contato com músicos de punk rock - estilo musical predominante por lá nos anos 70 e 80 - quando começava a dar seus primeiros passos no samba. Para minha surpresa, ele teve até amigos punks, além de viver momentos de inadequação na sua cidade natal (Santo André) por só ver e ouvir gente de moicano pela frente. E também trabalhou como operário de fábrica de automóveis, como muitos punks. Confira aí o papo que ele bateu comigo para O Dia.


PAULISTA DE SANTO ANDRÉ, PÉRICLES TRAZ SEU PAGODE PARA A LAPA EM NOVO DVD
Gravado na Fundição Progresso, Nos Arcos da Lapa ganha ares de homenagem ao samba dos anos 90
Publicado em O Dia no dia 08 de dezembro de 2013

Ele ama o Rio e trabalha com um gênero musical essencialmente carioca, mas nasceu e vive até hoje no aguerrido e movimentado ABC paulista. Lançando o DVD Nos Arcos da Lapa, o pagodeiro Péricles lembra que, no começo de sua ex-banda, o Exaltasamba, o batuque era resistência em Santo André, onde mora, se criou e chegou a trabalhar como montador de carros. 

“Nos anos 80, ninguém lá tinha coragem de falar que gostava de samba. No ABC tinha muita banda de punk rock, tipo os Garotos Podres”, lembra o músico. Apesar de não ser do movimento punk, Péricles tinha amigos nele. “Tinha também o rockabilly, que era uma vertente muito forte por lá. Mas a gente, que era do samba, não se via espelhado nos amigos, não havia nem rádio que executasse isso. Fomos indo devagar e as coisas foram acontecendo.”

Gravado na Fundição Progresso, Nos Arcos da Lapa ganha ares de homenagem ao samba dos anos 90, com o resgate de clássicos como No compasso do Criador e Recado à minha amada, do Katinguelê. Até hoje, Péricles mantém contato com músicos de grupos de pagode que começaram a carreira junto com o Exaltasamba, há duas décadas. “Meu irmão Breno toca no Katinguelê. E eu tive um programa de TV com o pessoal do Art Popular. Não deu para continuar, mas ficou a amizade”, recorda.


Músicas de Arlindo Cruz (como De bem com Deus e Volta de vez pra mim) estão também no DVD, assim como visitas aos repertórios de Jovelina Pérola Negra (Sorriso aberto), Zeca Pagodinho (Quem é ela) e Samba Som Sete (Gueri-Gueri).

O extra Pagode nos arcos’ traz Péricles no terraço da Fundição, fazendo um som ao vivo com Zeca Pagodinho, Dudu Nobre, Leandro Sapucahy e, de novo, Arlindo, unindo nomes que comumente ficariam divididos entre os rótulos de “sambista” e “pagodeiro”.

“As pessoas tinham uma ideia de que samba era uma coisa e pagode, outra. Que o sambista fazia tudo musicalmente certinho e o pagodeiro, não. Mas isso está acabando”, diz Péricles que, no show, recebeu convidados ligados a um samba mais “jovem” e comercial: Xande de Pilares, do Revelação, em Eta Amor; San, do Sambô, em Segura o samba; Mumuzinho em Baratinado e a novata Ana Clara num dueto em Nossos planos.

“Ela é uma surpresa. Me convidou para participar do primeiro disco dela e agora retribuí o convite”, conta. “Nosso dueto tem muito a ver com o mundo do soul e do R&B. Sempre estou pesquisando coisas novas para trazer para o universo do samba.”

Com um primeiro DVD gravado em São Paulo (Sensações, de 2012) e o novo registrado no Rio, Péricles visualiza a possibilidade de fazer os próximos DVDs em outros estados. “Depende da relação custo-benefício. É uma ideia legal. Mas meu segundo DVD tinha que ser mesmo na Lapa, que eu adoro”, alegra-se o rotundo cantor, cujas melhores lembranças do bairro carioca são gastronômicas. “O grande cartão-postal da Lapa tinha que ser o restaurante Nova Capela. Passei muitas noites lá, depois de shows do Exaltasamba”, revela.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

OLHA A PIZZA DO RAUL!

Vi essa matéria e pensei numa coisa: já imaginaram uma pizzaria no Brasil com imagens de rockstars conhecidos, inclusive brasileiros, nas caixas de entrega? Que nem a RedBalls Rock & Roll Pizza, que o Lucio Ribeiro cita aí? Olha só a do Peter Frampton aludindo ao disco Comes alive. Tá aí do lado.

Você pede pelo telefone uma "pizza Roberto Carlos" e vem lá uma com a imagem da capa do disco de 1971 ou de 1972 na caixa. Ou uma pizza Jovem guarda. Ou um item Essa pizza sou eu (ai...).

As fases diversas de Raul Seixas poderiam gerar vários sabores: o período Raulzito, a era Let me sing, let me sing, a fase mística. Que sabor teria uma pizza Carimbador maluco? As fotos dessas fases estariam nas caixas das pizzas. Ou expostas no cardápio. Tudo em antigas fotos de divulgação, capas de disco...


Em vez de agradecer pela propaganda gratuita (ou de adotarem aqui no Brasil o velho e eficiente ditado que prega que "não existe propaganda ruim"), os artistas iriam processar o dono da pizzaria por uso indevido de imagem. Correto?

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

HISTÓRIAS DE SEXO E VIOLÊNCIA, REPLICANTES

O grande Cristiano Bastos lembra que os Replicantes, histórica banda gaúcha dos anos 80, completa 30 anos.

A minha história com eles começa um pouco depois, em 1987. Há 26 anos. Quase 25, pois foi bem no fim do ano.

Aos 13 anos, na sétima série, tirei uma nota boa em matemática - fato a se comemorar, pois nunca acontecia. Minha mãe me levou para a saudosa Brenno Rossi do Plaza Shopping e me disse para eu escolher o disco que eu quisesse. Escolhi Histórias de sexo e violência, o segundo dos Replicantes, que saíra há alguns meses, num pacotão de novidades do selo Plug, da RCA (hoje Sony), especializado em rock. 

Óbvio que minha mãe ficou um pouco assustada com a capa (uma colagem punk caótica, com uma vagina esquecida num canto qualquer) e com o título do disco. Lembro bem dela perguntando: "isso é para a sua idade??" Minha família nem era das mais conservadoras e lembro de aniversários lá em casa comemorados ao som de Silvia, do Camisa de Vênus. Ouvia LPs de Costinha e Juca Chaves desde bem pequeno. Já um disco chamado Histórias de sexo e violência era a tosquice que faltava, a ruptura que o rock nacional precisava ter com qualquer tipo de socialização. E tinha mesmo que vir de terras gaúchas.

Pelo selo Plug, haviam saído vários discos de bandas brasileiras recentes, muitas delas reveladas dois anos antes na coletânea de bandas gaúchas Rock Grande do Sul: Engenheiros do Hawaii, TNT (cujo clássico sairia em 1988, o segundo disco homônimo, com A irmã do Dr. Robert), DeFalla e outras. Saiu também o primeiro disco de uma das melhores bandas daquela época, o paulistano Violeta de Outono, que ousava fazendo rock progressivo e psicodélico em meio aos hipsters roqueiros dos anos 80. Os gaúchos do Nenhum de Nós, que sequer existiam na época de Rock Grande do Sul, também foram contratados - lançaram um primeiro disco homônimo, que até hoje não foi devidamente ouvido, fora o hit Camila, Camila.

Eu não pedi para levar Histórias de sexo e violência porque achei a capa legal ou porque queria zoar minha mãe com o nome do disco. Uns meses antes, tinha visto no Jornal Hoje uma reportagem sobre o selo Plug e sobre as bandas que estavam sendo lançadas por ele - e lá aparecia o clipe de Festa punk, cavalice gaudéria repleta de nomes de bandas do estilo: Dead Kennedys, Undertones, Circle Jerks, Discharge, Ramones, GBH. Boa parte dessas bandas, conheci aí. O clipe era toscamente gravado numa festa numa cobertura de prédio, à moda do rooftop concert dos Beatles na Apple, em 1970. A diferença é que a polícia tentava impedir o evento e era jogada terraço abaixo.

O futuro é vortex, primeiro álbum dos Replicantes, tinha sido lançado um ano antes pela mesma RCA, ainda sem o Plug. A produção era de (olha só) Luis Carlos Maluly, produtor do RPM. Consigo imaginar perfeitamente um engravatado de gravadora resolvendo contratar os Replicantes porque Legião Urbana e Plebe Rude estavam dando certo, Camisa de Vênus também, e a onda do momento era a música de protesto. E bandas fora do eixo Rio-São Paulo, já que o Rio não apitava mais nada no rock nacional (o triunvirato era Titãs-Paralamas-Legião, e Paralamas era meio brasiliense, meio carioca).

O futuro é vortex poderia passar por um disco normal gravado por uma banda mais ousada do rock brasileiro, sendo que praticamente inventava um estilo novo: o punk com nuances psicodélicas. Viajando de ácido na roda de pogo, vinham O futuro é vortex, Choque (censurada), Ele quer ser punk (aparentamente não censurada, mas tinha a frase "é que ele não tem medo que lhe chamem de viado"). Porque não sacaneava todo o estado-maior da MPB e pregava o que nem Lobão teve até hoje coragem de falar: "Eu quero que o Caetano vá pra puta que o pariu" (ainda que essa frase tivesse sido limada pela RCA). Tinha também o grupo acertando contas com o passado hippie de alguns de seus integrantes, em Hippie-punk-Rajneesh. Tinha One player, que eu colocaria com gosto numa lista das 50 canções mais bonitas da história do rock brasileiro. O hit, você deve lembrar, foi Surfista calhorda. E ninguém gritava como o vocalista Wander Wildner por essas terras. Nem João Gordo, na boa.

Histórias de sexo e violência é sujeira e porcaria do começo ao fim. A gravação é tosca, anti-padrão, como se fosse um gravador antigo de 8 canais. Guitarras e vocais enterrados na mixagem. Sobra ódio e falta siso, em músicas que hoje arrumariam problemas para a banda. Adúltera, com versos como "você mulher solteira só pensa em se casar/ter um pênis só para si/constituir um lar", foi gravada em versão instrumental, mesmo censurada. África do Sul pregava a revolta violenta do negro contra a exploração do branco. Sexo e violência falava de estupradores e estripadores, sem final feliz. Tinha espaço para romantismo, à maneira deles, em Sandina ("minha garota foi pra Manágua/lutar pela revolução"). Tinha mais psicodelia punk em outra pérola do desencanto amoroso, Astronauta. O protesto ecológico de Chernobyl abria assustando. Tom & Jerry e Mentira faziam o mesmo, no final.

Velhos fascistas ainda não sabem governar e continuam gastando nosso dinheiro. O cotidiano continua sendo um tédio para muita gente - especialmente para quem ainda sonha com uma vida cor-de-rosa. Egoísmo e consumismo ainda são as drogas do sistema. Histórias de sexo e violência ainda faz sentido, para o bem ou para o mal. E permanece inédito em CD - dos Replicantes, no formato, saiu só uma coletânea com 20 músicas, Hot 20, pela BMG, incluindo ainda três músicas do fracote Papel de mau, o terceiro disco do grupo (1988).

E já que Histórias de sexo e violência nunca saiu inteiro em CD, pega aí ele inteiro no YouTube.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

PARLOTONES

Não tenho lembrança se muitos grupos étnicos e/ou formados por músicos negros estiveram no show de abertura da Copa do Mundo de 2010, que rolou na África do Sul. Lembro vagamente da cantora Zolani, frontwoman do Freshlyground, e do trompetista Hugh Masekela, participando do evento, e que deu uma baita merda porque a produção "esqueceu" de convidar uma série de músicos locais, focando em atrações de fora (K'Naan, que fez sucesso com o hino oficial da Copa, Wavin' flag, não é de lá, é da Somália, só para registro).

Quem teve alguns minutos de fama no show de abertura da Copa daquele ano foram os Parlotones, uma banda branca de Johannesburgo, que participou do show e divulgou seu então mais recente álbum, Stardust galaxies. Olha eles aí, cantando o hit Push me to the floor no show.

Na época, a Som Livre lançou o álbum por aqui - pelo selo de novidades Slap - e bati um papo com o guitarrista e vocalista Kahn Morbee. O grupo me pareceu um troço, digamos... bom, sei lá. Um mix de Keane, Coldplay (o lado bom do Coldplay, digamos), U2, Muse e detalhes emo, já que o cantor se apresentava com uma maquiagem bizarra nos olhos, imitada por alguns fãs mais empedernidos. Tinha músicas legais, a própria
Push me to the floor é legal. A banda prepara um novo disco para 2014, Stand like giants, mas o sucesso mundial ainda nao bateu à porta deles.

Bom, segue aí o papo.

UM POP PARA SE DESCOBRIR
Lançando aqui seu disco de 2009, os Parlotones preparam show no Brasil para novembro
Publicado no Laboratório Pop em 9 de agosto de 2010


Caso raro no pop sulafricano: a animação brasileira com a Copa do Mundo 2010 (que passou rápido, claro) realizada na África do Sul, fez com que o disco de uma banda local fosse lançado por aqui. Stardust galaxies, da banda Parlotones, sai pelo selo Slap, da Som Livre, e o grupo ainda visa fazer shows no Brasil.

"Parece que estaremos por aí em meados de novembro, vamos ver. Mal posso esperar!", anima-se, em conversa com o LABORATÓRIO POP, o vocalista e guitarrista Kahn Morbee, que com os amigos Paul Hodgson (guitarra e teclados), Glenn Hodgson (baixo, voz e teclados) e Neil Pauw (bateria) tocou na abertura do evento, em 11 de junho. 


Morbee até hoje se belisca para acreditar que participou da abertura da Copa 2010 - ainda mais depois dos problemas enfrentados por seu país, durante os vários anos em que esteve sob o regime do Apartheid. "Éramos muito jovens na época", lembra o vocalista, que tinha 14 anos quando, em 1994, assistiu à queda do regime e à chegada de Nelson Mandela ao poder. 

"A gente só tem mesmo é que se orgulhar muito de nunca ter feito parte do Apartheid. E que esse regime esteja no passado. O país hoje trabalha em direção a um estado realmente democrático", felicita. Should we fight back, uma das melhores canções de Stardust..., é justamente uma homenagem a Mandela, baseada em sua autobiogafia The long walk to freedom.

"Mandela é uma grande inspiração para todos os sonhos que se tornam realidade. E é um modelo de ser humano", alegra-se o músico, que esteve com o estadista em 2008 numa das entrevistas coletivas do megashow 46664, idealizado por Mandela. "Qualquer um que leia o livro e saiba um pouco dos elementos históricos, pode tirar inspiração da história de um homem que teve fé inabalável num sonho e a manteve mesmo quando todo o mundo em volta dele dizia que seria impossível".


A história dos Parlotones começou na escola, em 1998, e chegou à faculdade. Morbee, então com 18 anos, e Pauw eram colegas de colégio. Apenas em 2002, adotaram a formação que têm hoje. "Na época, nenhum de nós sabia realmente tocar. Percebemos apenas que tínhamos um amor comum à música. Fomos praticando duramente", lembra o músico.

Stadust galaxies não deixa mentir: Parlotones é um produto bem acabado e bem direcionado, e que pode atingir diversos tipos de público. Canções como Push me to the floor, The stars fall down, We call this dancing e Life design têm a mesma cara hínica do U2. E stão preparadas para a geração que curte bandas como Muse e que passou sem traumas pelo aluvião emo e por grupos como My Chemical Romance. E, só para informação, uma das marcas registradas de Morbee é a maquiagem imitando o personagem Alex, do filme Laranja mecânica (1972), já adotada pelos fãs na plateia dos shows. Morbee curte vocais e bandas intensas.

"Nossas influências são de grupos como Cure, Smiths, Queen, R.E.M., INXS e Radiohead. Foram os que me fizeram querer ter uma banda e descobrir a paixão pela música. Mas ouço pop, jazz, hardcore, blues", diz.


Apesar de desfrutarem de relativo sucesso na Europa, lamentam que o pop e o rock de seu país (eternamente lembrado por nomes étnicos, como o Ladysmith Black Mambazo, ou jazzistas, como Hugh Masekela) pouco tenha ultrapassado fronteiras. Algo que também creditam ao isolamento cultural. "Sempre houve bandas pop lá, mas por causa disso, os artistas nunca conseguiram levar sua música a um nível internacional. A única exceção é Johnny Clegg", diz, falando sobre o músico e pesquisador sul-africano que teve músicas incluídas em trilhas de filmes como Rain man, de Barry Levinson (1988) e que, ainda assim não é dos mais conhecidos.

Da lista que o LABORATÓRIO POP fez de grupos pop sul-africanos (e que inclui nomes como Mango Groove, Farryl Purkiss, Desmond & The Tutus - você lê a lista aqui), eles dizem só não terem ouvido o Cutout Collective. E acrescentam novos nomes: "Aking, The Black Hotels, Zebra & Giraffe, Dirty Skirts, Locnville. Mas gosto de todas as bandas que vocês mencionaram", afirma o vocalista.


Com um disco já lançado depois de Stardust (Live design, ao vivo com CD e DVD, saiu em abril), os Parlotones recentemente largaram um pouco a música para investir em outra área: a de vinhos. Três marcas com nomes de canções da banda já foram distribuídas: We Call This Dancing (rosé), Giant Mistake (tinto) e Push Me To The Floor (branco).

"Ficamos envolvidos no processo de blending e metemos a mão na massa em tudo, até no design do rótulo. Sentimos que precisamos estar em todas para que o produto tenha autenticidade. Amamos o produto de verdade, não é só uma peça de marketing", avisa.


Nota de atualização: Aqui, você confere uma lista com 11 bandas do pop-rock sul-africano. E aqui, um papo com outro grupo de lá que teve disco lançado no Brasil em 2010, o Mangogroove. Ah, o tal show de novembro de 2010 furou: os Parlotones só viriam ao Brasil em 2011 para um show no Paddy´s Pub, em São Paulo.