quinta-feira, 28 de novembro de 2013

BEATLES NO JARDIM BOTÂNICO

A edição 2013 do Banco do Brasil Covers abre nesta sexta, dia 29, no Rio, com a apresentação de um quarteto muito experiente: Leoni, Toni Platão, Dado Villa-Lobos (guitarra) e João Barone (bateria) cantando e tocando o repertório dos Beatles, sob a batuta do produtor Liminha, que toca baixo na banda.

Fui no estúdio Nas Nuvens, no Jardim Botânico, com o fotógrafo Vitor Silva (autor dessas duas fotos aí) registrar um ensaio para o jornal
O Dia e pude conferir a animação dos músicos com o repertório dos quatro de Liverpool - em espécial Liminha, que, depois do papo com o jornal, ficou ainda 20 minutos ensaiando sozinho com o instrumento.

Liminha fez as linhas de baixo de
With a little help from my friends, sem nem precisar de banda, enquanto todo mundo comia uma pizza no quintal. "Liminha, já avisei para todo mundo que você já ensaiou dez músicas sozinho e já está em Taxman", avisou uma assistente do estúdio.

No dia em que fui lá entrevistar a galera, levei uma meia dúzia de perguntas. Tentei me ater a isso. Não deu nem dez minutos, larguei a pauta: o papo virou um debate entre conhecedores e admiradores de Beatles. Gente que não apenas conhece o som e toca as músicas, como sabe bem da história da banda e da revolução que eles causaram. E fica aí a recomendação a qualquer pessoa que resolva pegar um instrumento para tocar hoje: filho, antes de produzir cultura, leia MUITO e procure conhecer a história do que você toca.


Bom, muito obrigado por terem recebido a gente aqui! Falando por mim, era um grande sonho meu estar aqui no Nas Nuvens!


LIMINHA: Já viu as paredes, cheias de assinaturas?

Vi, bem legal, o Toni Platão tava mostrando...

BARONE: É meio tipo Roma... Já viu a assinatura do John Lennon? Tá meio apagadinha lá (risos).

Como os Beatles apareceram nas vidas de vocês?


DADO: Minha primeira lembrança é de que quando tinha 7, 8 anos, tinha em casa as duas coletâneas, a vermelha e a azul. Aquilo circulava direrto em casa. Eu morava em Brasília, que era um lugar perdido no Brasil, no planeta. A gente cantou muito aquilo em casa. Ao mesmo tempo, passavam na TV os filmes A hard days night e Help... Acho que era na TV Tupi. E ainda passava o National Kid, os incas venusianos. A gente meio que associava as duas coisas, ainda tinha o Ringo com aquele anel...

PLATÃO: Não, isso era no cinema, não era? Na TV sim, tinha o National Kid.

DADO: Não, não, isso em Brasília, na época, passava na TV todo dia!

PLATÃO: Ah, mas em Brasília vocês tinham uma TV privilegiada... (risos). Bom, eu vi Help no cinema molequinho muitas vezes. Meu primo Zé Antonio tinha os LPs que o Dado citou, da escadaria, com as datas. Foi meu primeiro contato.

BARONE: Eu peguei um pouco da beatlemania, a fase final. Lembro dos meus irmãos em 1968 chegando com discos em casa. Tinha o programa do Big Boy, Cavern Club. Era obrigatório. Quando os Beatles acabaram foi uma coisa terrível, foi meio como foi a morte do John Lennon. Causou uma comoção incrível. Lembro também de matar aula para assistir ao A hard days night no cinema, em Campo Grande, na Zona Oeste, num pulgueiro lá. Eu fazia cursinho, matava aula para isso. Sempre gostei muito do Ringo e sempre achei bem legal o trabalho dele. Isso foi meu começo no rock. Mas depois vieram outras coisas.

LEONI: Eu tinha muita música na minha casa. Minha mãe é que ouvia mais música. Frank Sinatra, Elis Regina... Quando estava ainda na escola, meus colegas ouviam rock e meu primeiro disco foi Help, dos Beatles. Lembro que causou impacto lá em casa, minha mãe ficava falando: "esses cabeludos!" (risos). A partir daí, ouvia Beatles direto. E tem essa coisa dos filmes, né? Eles eram meio como super heróis...

PLATÃO: Tinha também o desenho animado, né?

LEONI: Isso mesmo. No Help eles moravam todos na mesma casa. Eu achava aquilo o máximo! Aquilo me impressionou muito. Foi o que me levou para o rock. O horror que minha mãe tinha àqueles cabeludos me impressinou muito também (risos).

LIMINHA: Bom, eu sou de uma geração à frente dos meus colegas de banda. Conheci Beatles logo no começo (risos). Na época eu tava começando a tocar e chegava ao Brasil uma onda de rock instrumental, feita na Califórnia pelos Ventures e na Inglaterra pelos Shadows. Eu tava começando e foi a primeira vez que vi uma guitarra. Eu nem sabia se era uma coisa de madeira, plástico, ferro, só sei que naquele dia deixei de ser criança (risos). Larguei a pipa e a bola e agora o que eu quero é isso.  Engraçado que meu primeiro impulso foi rejeitar os Beatles. Eu começava a ter certa habilidade tocando e pensei: 'Ah, não, agora que eu tô tocando, esses caras chegam cantando?" Isso deve ter sido numa sexta ou num sábado. Alguém chegou com um single, que deve ter sido o de I wanna hold your hand, não me lembro exatamente. Só sei que na segunda eu já fui para a escola com cabelo penteado para a frente! (risos) Todo mundo abraçou a febre beatle, não teve como fugir disso. A partir desse disco, cada single que era lançado era uma surpresa. Não tinha nem internet, tinha era uma revista dedicada aos Beatles, com as letras... Minha educação musical foi feita por eles. Eles acabaram em 1970, e no mesmo ano comecei a tocar com os Mutantes, que tinham influência forte deles.

BARONE: Os Mutantes eram os Beatles brasileiros!

LIMINHA: (rindo) Eu diria que a fonte mais importante para mim foram mesmo os Beatles. Com eles, aprendi quase tudo o que eu sei de música. Eles tinham essa capacidade de ouvir tudo o que vinha e isso me ajudou a tirar de letra esse proejto. Nunca pensei que fosse tocar Beatles. Tem muitas músicas que eu nunca nem toquei, mas como escutei, tenho na memória com clareza.

Como vão indo os ensaios e os shows?

DADO: Esse repertório está no nosso subconsciente, no nosso DNA. Nem é esforço, ninguém tá se esforçando. É natural e espontâneo. Ao mesmo tempo é um grande aprendizado ouvir, tirar as músicas e perceber as nuances harmônicas

LEONI: É muito menos simples do que imaginávamos. Tem sempre um detalhe novo.

BARONE: Cada um aqui tem uma bagagem com os Beatles e usamos essa bagagem de forma diferente.


PLATÃO: Eu fui o que mais apanhei, porque minha escola vocal não tem nada a ver com a dos Beatles.

BARONE: Vocè é mais influenciado pelos Rolling Stones, né? (risos)

PLATÃO: Cara, eu sou mesmo mais Mick Jagger, sinto isso no meu trabalho. Preciso ganhar muita intimidade com as canções para chegar a algum lugar. Os tons são altíssimos.

BARONE: E vamos combinar que cantar é bem mais difícil do que tocar. Tudo bem que tocar exige dedicação e tal...


PLATÃO: Cantar só exige cara de pau! (risos) Fui descobrindo um jeito de cantar que é diferente do meu. São sempre duas vozes juntas...

BARONE:  Apesar do projeto ser de covers, estamos com uma premissa que vem de uma certa ousadia artística. De querer fazer um negócio que está além do só tocar músicas dos outros. Algumas são fiéis ao arranjo original. Mas damos uma mudada ou outra e fica bem maneiro.

LIMINHA: Fazer um xerox não teria graça. O que torna interessante é, poder botar nossa personalidade dentro das músicas. Não temos a preocupação de reproduzir fielmente. Queremos pegar esse repertório com muita humildade, mas mostrar tudo com nossa cara, de forma diferente. Desconstruir.

PLATÃO: É como dar a impressão, o resultado do que os Beatles fizeram com a gente.

LIMINHA: Em algumas canções não fiz questão de tocar exatamente como era. Quis tocar como estava na minha memória. Claro que tem coisas que são essenciais. Não dá para tocar Dear prudence sem o arpejo. O baixo também procurto fazer mais ou menos parecido.

BARONE:  Tem 240 músicas no repertório beatle e não estamos tocando nem 10% disso!

PLATÃO:  O Liminha teve uma sacada foda, burilou tudo e fez medleys

BARONE: Fizemos algumas surpresas bem legais. Tem trechos de Pinball wizard, do Who, em Birthday.

LIMINHA: É o rock da época. The Who é contemporâneo deles.

Engraçado: quando vocês tocaram o trecho de Pinball wizard pensei imediatamente em "she's got it!", do Shocking Blue.

PLATÃO: Venus!

Isso!

PLATÃO: Acabamos homenageando grandes mestres que vieram depois dos Beatles, que fizeram parte dessa formação, dessa estrada.

LEONI: Tem um detalhe: a gente toca muitas músicas da fase final deles. E é um repertório que quase não foi tocado ao vivo. A gente pode até se aproveitar disso, por não haver aquela gravação clássica dos Beatles. Nem sei como eles fariam, na verdade. Talvez fizessem o mesmo que a gente, ou não. Hoje muita coisa pode ser programada em teclado e na época não daria.

LIMINHA: Com a tecnologia de hoje dá para fazer muita coisa. Mas minha percepção é a de que tem coisas muito simples. Você fala no Sgt Peppers e já imagina uma coisa muito complicada. Nem é tanto assim. A gente toca o que eles tocam. E na gravação tem overdubs. No geral é fácil de reproduzir.

BARONE: Tudo é possível. É só chamar a Filarmônica de Londres... (risos)

LIMINHA: Tá, A day in the life não dá. Mas até daria se a gente quisesse. Se usasse sampler, sei lá. Uma coisa que ajudou foi que vi o Love (musical dos Beatles) quando lançaram, em Las Vegas. Isso me ajudou bastante a pensar nesse show, desconstruindo coisas, fundindo coisas. A gente até toca Drive my car com o solo de Taxman, como eles. São músicas irmãs, primas, têm mais ou menos a mesma levada.

Qual é o beatle preferido de cada um?

DADO: John

PLATÃO: O meu também.

DADO: Acho que é porque eu usava óculos também...

BARONE: Eu comecei a tocar por causa do Ringo. Meu irmão tinha uma banda, tinha uma bateria lá. Cada vez que eu disparava a tocar lembrava do Ringo. A primeira vez que eu toquei a batida de Ticket to ride foi um troço... até transcedental. Sempre achei o Ringo um cara super legal, no contexto. Sem Ringo não haveria Beatles!

LEONI: Bom, como eu comecei tocando baixo, me inspirava no Paul. Mas para escolher, escolho a dupla de compositores, Lennon & McCartney. Para mim foi a maior influência. Eu adoro o Elvis Costello. Quando ele foi compor com o Paul, falou que ia tentar fazer o papel do John, trazer uma certa acidez para a doçura do Paul. Aquela combinação era maravilhosa, ainda que houvessem músicas de um, de outro.

E você, Liminha? Tem algum beatle preferido?

LIMINHA: Tenho: os quatro (risos). Acho que nenhum deles conseguiu ter uma carreira solo tão brilhante quanto o que os Beatles fizeram. Talvez só o George Harrison, que ficou ai ensanduichado, meio vítima dessa máfia do John e do Paul...

PLATÃO: Era um truste! Um cartel! Mas o Sinatra gravou Something, o Joe Cocker...

O Sinatra gravou e ainda disse que era a melhor música de Lennon & McCartney...

LIMINHA:  Essa química que existia entre os quatro... era a banda mais carismática que tinha.

DADO: E eles criaram o conceito de "banda". Tipo: o que é uma banda? É aquilo ali.

PLATÃO: E sem o George Martin isso não teria acontecido.

LIMINHA:  Cronologicamente falando, o Brian Epstein foi o cara que levou eles para o George Martin. Ele foi o cara que inventou a MTV. Viu que os Beatles não poderiam estar em todos os lugares do mundo e começou a fazer filmes, e distribuir pelo mundo. O George potencializava tudo o que eles tinham de bom.

BARONE: Mas o Ringo era o melhor! Era o que mais recebia cartas das fãs (risos).

PLATÃO: O Pete Best foi uma vítima!

LIMINHA: Putz, ainda tinha o Pete Best para fazer o lado amargo...

PLATÃO: Foi o lado "mifu" da história. Ele era mais bonito que o John e o Paul, fazia mais sucesso com as garotas. Pô, baterista não pode fazer sucesso assim!

Ainda bem que nenhum de vocês escolheu a Yoko como beatle preferido. Liminha, como você vê o papel do George Martin, falando como produtor?

LIMINHA: Bom, o George era o cara que ouvia os Beatles, mas não sabia qual seria a função de um produtor. Aliás muita gente até hoje não sabe. Então para mim ele foi o cara que participou desse sucesso, dessa realização.

BARONE:  Tanto que quando o Phil Spector foi trabalhar com eles, acabou, né?

LIMINHA:  Teve muita coisa - por exemplo a música indiana - que só conheci por causa do George Harrison. Se não fosse eles, ou se eu tivesse conhecido de outro jeito, não teria dado o mesmo valor. Os Beatles eram o veículo para muita coisa. Isso passou por eles? Eles gostaram? Também gosto! Essa coisa de eles usarem música clássica, orquestra... Quando eu era moleque ia assistir às orquestras, minha mãe tocava piano clássico. Mas não dava o devido valor para nada disso. Gostava e tal... mas não era a mesma coisa. Mas depois, quando vi era: "Peraí, os Beatles curtem isso?". Sabe?

PLATÃO: Eles transformaram o rock em coisa de gente grande!

LIMINHA: E essa função do George Martin é muito importante. Não tenho dúvida de que ele ensinou muita coisa. E que o Paul talvez tenha sido o que mais assimilou. Era diferente do Lennon, que falava com George através de metáforas. Tipo: "Quero que minha voz soe como se eu fosse o Dalai Lama no morro, girando". Ele vai lá e enfia a voz dele numa caixa Leslie, e sai o som de Tomorrow never knows. O Paul era mais direto: "Quero o som de dois clarinetes".

BARONE: "Quero um quarteto de cordas e a quarta corda é minha voz".

LIMINHA: O Lennon ficava lá com um tridente, espetando: "Larga mão de ser careta! Vamos fazer isso, aquilo".

BARONE: "Toma uma bola..." (risos)

PLATÃO: No documentário do George (Living in the material world, dirigido por Martin Scorsese) ele fala isso. Se não fosse o Paul, a banda nem teria registrado tanta coisa. Ficavam o Ringo, o Lennon e o George fumando maconha e tomando ácido, andando num Rolls Royce todo colorido... O Paul ia para o estúdio, ligava e falava: "Vocês têm que vir para cá trabalhar!".

LIMINHA: As pessoas têm impressão errada a respeito do Paul. Muita gente acredita que tudo o que era experimental vinha do Lennon. Cara, o Lennon morava num subúrbio, o Paul morava em Londres, sabia das coisas que estavam acontecendo, da avant garde

DADO: Cara, ele apresentou a Yoko pro Lennon! (risos)

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

MAITE PERRONI

Um papo (bem) rápido com Maite Perroni, ex-RBD, que está lançando disco solo.

Saiu em O Dia.

Rolou uma mudança meio bizarra no Blogger: para você ler a matéria direito, precisa baixar (!) a foto e aumentá-la. Sei lá, se você for muito fã dela...




A SONORA DE MARCELO FROES

Saiu ontem uma matéria, minha e do Leandro Souto Maior, sobre a editora Sonora, comandada pelo pesquisador musical Marcelo Fróes, especializada em biografias.

Confira aí.

O livro
1973, o ano que reinventou a MPB, que sai até dezembro pela Sonora, tem um texto meu.





EDITORA ESPECIALIZADA EM BIOGRAFIAS REEDITA A DE MOREIRA DA SILVA
Publicação de 1996, do jornalista baiano Alexandre Augusto, está de volta às livrarias. Nova edição fala sobre a morte do sambista
Por Leandro Souto Maior e Ricardo Schott
Publicado em O Dia em 26/11/2013

A inspiração veio do livro The last days of John Lennon (Os últimos dias de John Lennon), do mordomo Fred Seaman, que trabalhou anos com o saudoso roqueiro dos Beatles. “Foi ali que aprendi que biografias não-autorizadas podem ser lidas e absorvidas de uma forma positiva”, recorda o pesquisador Marcelo Froes, que acaba de fundar sua própria editora, a Sonora, especializada justamente em biografias. 

O último dos malandros (R$ 39,90, 304 págs.), sobre Moreira da Silva (1920-2000), é o mais recente lançamento. Trata-se, na verdade, da volta às livrarias da publicação de 1996, do jornalista baiano Alexandre Augusto. Na ocasião, Moreira da Silva, ou Kid Morengueira (como era chamado o criador do gênero musical conhecido como samba de breque), ainda estava vivo e sua morte não constava no original, mas já está incluída nesta reedição. “Tenho uma biblioteca musical razoável, então, quando pensei a Sonora, a ideia era fazer livros novos e também relançar títulos atemporais, como No tempo de Noel Rosa (Almirante, 1963) e também esta biografia de Moreira da Silva”, conta Froes.

Do samba de Noel e Kid Morengueira para o rock progressivo: o próximo lançamento da Sonora é a biografia de Syd Barrett, cofundador do grupo inglês Pink Floyd. “E ainda em dezembro sai também o livro 1973, o ano que reinventou a MPB, sobre discos históricos lançados há 40 anos”, anuncia ele.

Nesses tempos em que a proibição de biografias não-autorizadas está na ordem do dia, tem que ser mais malandro que o próprio Moreira da Silva para se aventurar em uma editora focada exclusivamente nesse tópico.

“Acho que estão fazendo muito barulho por quase nada. Djavan deveria desejar que alguém fizesse sua biografia, mas também vejo que historicamente muitos dos que se preocupam com biografia não-autorizada nunca tiveram um fã-clube para zelar pela memória de sua carreira”, observa Froes. “A demanda cresceu muito, acho que as bem-sucedidas biografias de Eric Clapton e de Lobão mostraram que o mercado melhorou bem”.


Mas há uma cláusula na Constituição que fala sobre a preservação da privacidade e, junto, outra que fala em direito à liberdade de expressão... afinal, uma coisa exclui a outra? “Bom, você tem liberdade de expressão para falar sobre o que quiser, menos sobre a vida dos outros”, brinca.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

DE VOLTA PRA CASA

"I'M GOING HOME (BY HELICOPTER)" - TEN YEARS AFTER





"GOING HOME" - ROLLING STONES


















"I'M YOUR CAPTAIN/CLOSER TO HOME" - GRAND FUNK RAILROAD



















"TIME/BREATHE REPRISE" - PINK FLOYD
















"CASA" - LULU SANTOS





"DIANA" - BOCA LIVRE



"QUERO VOLTAR PRA CASA" - EDGARD SCANDURRA

"CAN'T FIND MY WAY HOME" - BLIND FAITH e GILBERTO GIL

"CLOSE TO HOME" - CONCRETE BLONDE



E ainda tem outras. Quem lembra?

FEIRA HIPPIE DE IPANEMA

A capa do Caderno D deste último domingo foi minha. O tema foi a festa de 45 anos da Feira Hippie de Ipanema, com vários shows (entre eles, uma apresentação do padrinho Serguei) e uma estranha mistura de hippies com punks: a banda Commando faria um show de covers dos Ramones, com direito à participação do irmão do vocalista Joey Ramone (1951-2001), Mickey Leigh. Procurei focar nesse lado punk da feira, com os sacrifícios que essa galera passa, as dificuldades para a profissionalização de artesãos, o pouco caso da prefeitura, etc. Já passou a festa, mas fica aí como registro - assim como o belo trabalho de Mariana Erthal, que fez a diagramação. As fotos são do amigo Luciano Oliveira.

Como costumo fazer nas matérias que escrevo sobre eventos factuais (como rola nas capas do
Guia Show e Lazer, etc) busquei informações históricas interessantes que complementassem o evento, não fiquei só no que ia acontecer por lá. Bati um papo com Ney Matogrosso, que lembrou da ocasião em que viu Janis Joplin por lá e aproveitou para esclarecer melhor uma informação que até seu site oficial dá como verdadeira, e que ele desmente - ele nunca teve barraca na Feira Hippie. Leiam aí.


Fica aqui meu agradecimento a todos os barraqueiros da Feira, à amiga produtora-assessora Jô Rocha e, em especial aos pioneiros da Feira, como Ivan Jilek e Victor Gomez, que me deu uma cópia autografada de seu livro (abaixo), cheio de contos fantásticos e surrealistas.
FEIRA HIPPIE DE IPANEMA FAZ FESTA DE 45 ANOS E RELEMBRA SUA HISTÓRIA

Local por onde já passaram famosos como Ney Matogrosso e Janis Joplin comemora aniversário com show de rock, samba e até pagode gospel
Publicado em O Dia em 24 de novembro de 2013


"Pô, mas a gente vai posar com bandeira dos Ramones? A gente tem é que homenagear o Serguei, que é o nosso padrinho!”, exclama Ivan Jilek, o Croata, 65, um dos pioneiros da Feira Hippie de Ipanema. A mais tradicional feira ao ar livre do Rio completa hoje 45 anos com show, sem esquecer os ideais libertários, mas em clima punk. O evento une o rock do próprio Serguei (que se apresenta com a banda Pandemonium) ao grupo Commando, que faz cover... dos Ramones. E ainda traz Mickey Leigh, irmão do vocalista Joey Ramone (e autor do livro Eu dormi com Joey Ramone, sobre o brother ilustre) em participação.


“O espírito do punk não está fora da feira, não”, garante Paulo Sérgio Torres, 59, que vende camisetas, buttons, colares e demais apetrechos de rock na sua barraca. Buttons de bandas como The Clash e Sex Pistols, de poucos acordes e muito peso, saem bastante lá. “Mas também vendemos muita coisa de artistas dos anos 60 e 70, como The Doors, Jimi Hendrix, Black Sabbath".

Era o som preferido dos pioneiros do local. “A gente ouvia Janis Joplin, Jimi Hendrix. Os hippies se concentravam na praça”, recorda Roberto Luiz, 65 anos, o popular Robertinho de Niterói, um dos primeiros a vender artigos de couro por lá. O médico Sergio Susana, 63, que vende artigos de vidro, lembra: “Os hippies e os artistas não tinham onde expor. O (artista plástico) Hugo Bidet (1934-1977) começou a vender os quadros eróticos dele aqui e, depois, veio todo mundo”. Glauco Brasil, 63 anos e braços cobertos de tatuagens, personifica o estilo rocker lá, na barraca que vende pirogravuras em couro.

O clima “punk” vai para o estilo de vida dos expositores. Muitos moram em lugares bem distantes de Ipanema. Acordam bem cedo para levar quilos e mais quilos de material. A valorização do trabalho de artesão também não vem de graça — e muita gente sustenta famílias com esse trabalho. “Para se profissionalizar, você tem que correr atrás. Fiz escola técnica de desenho. E o trabalho não é só domingo. Às vezes, passo 12 horas por dia criando”, diz Glauco. “A prefeitura precisava olhar para a gente. Não temos banheiro nem estacionamento. A luz sai do nosso bolso. Um tempo atrás, fecharam a feira por um dia”, reclama Marcos Sandro, 42, o Marcão, presidente da feira, e filho de uma pioneira, dona Joanita, 79.


“Mas, para mim, tudo compensa. Tinha outra profissão antes e desisti quando pintou o ‘ter que fazer’. Minha vida é mais livre hoje. E, sempre que precisei, alguém me ajudou”, diz Ivan Jilek. Ele nasceu mesmo na Croácia e tem 60 anos de Brasil. E documenta a história da feira em fotos, que tira desde 1968. “Quero lançar um livro com essas imagens”, diz Ivan, mostrando o acervo para dois outros amigos veteranos no local: Oscar Andersons, o popular Pica-Pau, e Victor Gomez. Bem pertinho, a Carmen Miranda local, Rosy Reis, dá um toque tropicalista ao local, vendendo só artigos ligados às cores da bandeira do Brasil. “Os turistas fazem muitas fotos aqui. A feira roda o mundo!”, garante.

NEY VIU A JANIS A Feira Hippie de Ipanema sempre atrai famosos, nacionais e internacionais — uma produtora da Madonna já foi vista por lá e atores e atrizes, como Eliane Giardini, já foram clicados dando rolé entre as barracas. Mas é Janis Joplin que é citada por dez entre dez expositores pioneiros como uma famosa que marcou época — ela esteve no Brasil em fevereiro de 1970 e, claro, visitou o reduto hippie. “Eu a vi por lá. Era uma mulher muito alta, de óculos cor-de-rosa. Lembro que ela tirou uma garrafa de Fogo Paulista da bolsa e bebeu no gargalo. Fiquei chocado”, recorda Ney Matogrosso, que frequentava o local nos anos 70. Uma época em que ser hippie era (vá lá) uma experiência quase punk. “Eu mesmo era revistado pela polícia quase toda hora”, diz Ney, aproveitando para esclarecer que, ao contrário do que se diz, nunca possuiu uma barraca na feira. “Vendi produtos de artesanato numa feira em São Paulo, mas foi uma fase rápida".

SERGUEI TAMBÉM O padrinho da feira se apresenta cantando clássicos do rock neste domingo por lá, acompanhado da banda Pandemonium. Como é público e notório, o relacionamento do cantor com a roqueira morta em 1970 não se resumiu a um passeio. “Fui com ela lá e só estava preocupado em protegê-la e apresentá-la a todo mundo. Todos a reverenciaram”, recorda Serguei, convidando todo mundo para curtir o show e ver as modas. “A feira é um lugar em que todo mundo pode ser diferente. Uma amiga minha acaba de fechar uma loja de roupas em São Paulo por causa da caretice. Todo mundo se veste igual. Cadê a revolução que a gente fez?”

VEM PRA FEIRA, BICHO! Não tem só rock na festa de 45 anos da feira. Tem até pagode: às 10h30 tem show do grupo de pagode gospel Labaredas de Fogo e ao meio-dia, samba de raiz com o grupo Samba Cultural. Bem antes, às 9h30, tem arte e recreação para as crianças. Às 14h começa o rock com Makcy T-Rex Suarez, tocando os clássicos do estilo. A banda Dona Penha segue às 15h e, às 16h, o padrinho Serguei toca com a banda Pandemonium. Às 17h30, tem cover de Ramones com a banda Commando. O irmão do vocalista Joey Ramone, Mickey Leigh, participa do show. Mickey lembra que o irmão adorava a música dos anos 60 e 70. “Era um grande fã de The Who, do Jefferson Airplane”, diz.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

JOTA QUEST DISCO

Um papo que bati com Rogério Flausino para O Dia sobre o disco novo do Jota Quest.

Nota: não tenho nada contra o JQ e gosto bastante dos dois primeiros discos deles (descontando-se Fácil, horrível sob qualquer aspecto). 

Depois desses discos, a banda começou a se repetir desastrosamente, a fazer refrões cada vez piores ("quero um amor maior/um amor maior que eu" dói no ouvido) e vi que estavam num caminho sem volta no disco La plata (2009). Na época, Rogério Flausino me disse que "queria tentar igualar os grandes nomes do rock nacional, como Cazuza e Arnaldo Antunes" (ou algo do tipo) e a banda tentou fazer um balancinho com letra "concretista", Paralelepípedo

Do disco novo, dá para dizer que é beeem melhor que isso.

JOTA QUEST LANÇA ÁLBUM COM ASSINATURA CHIC
Com participação de lenda da música disco, banda volta às suas raízes soul e funk
Publicado em O Dia em 18 de novembro de 2011

Quando saiu o novo álbum da dupla francesa Daft Punk, Random access memories, os fãs ao redor do planeta vibraram com o lançamento, um tributo moderno à disco music. Rogério Flausino, vocalista da banda mineira Jota Quest, foi um dos muitos que curtiram o CD, mas... em vez de vibrar, viveu momentos de tensão. 

“Porque o Nile Rodgers, guitarrista da banda Chic, era um dos participantes no disco. E nós estávamos quase fechando para ele tocar no nosso novo CD. Pensamos: ‘O Nile vai acabar não participando’”, explica, referindo-se a Funky funky boom boom, que traz na produção o baixista Jerry Barnes, também integrante do grupo legendário Chic. “Só que logo depois o Jerry avisou: ‘Estou com o cara aqui no estúdio, vamos gravar’. Ele veio ao Brasil, ficou 15 dias e ainda tuitou que havia gravado com a gente!”.

Com colaborações de nomes como Adriano Cintra (ex-Cansei de Ser Sexy) e Pretinho da Serrinha, Funky funky boom boom é, atesta Flausino, a volta do Jota Quest ao soul-disco que marcou o primeiros álbum do grupo. “Depois nos deixamos influenciar por outras coisas, mas nunca negamos as raízes. Chic é uma das nossas maiores influências”, conta.

As músicas novas, como Entre sem bater, Ela é do Rio, Reggae town e É de coração assustam pelo número enorme de autores — algumas têm até nove compositores, incluindo integrantes do Jota Quest, amigos como Pedro Turra e Marco A.S. (do grupo Click Box, responsável pela pré-produção do álbum) e convidados como Wilson Sideral (irmão de Flausino), Pretinho da Serrinha e Seu Jorge.

“A ideia era fazer um disco de festa. Os papos nas letras precisavam combinar com isso”, comenta Flausino, que junto de Marcio Buzelin (teclados), Marco Tulio (guitarra), Paulinho Fonseca (bateria) e PJ (baixo e teclados), vai pisar o palco do Circo Voador pela primeira vez, no dia 28 de novembro, uma quinta-feira, para um ensaio aberto do novo disco. 

“A gente dá esse nome, mas é só um esquema diferente, em dia de semana, focando mais nas músicas novas. É um show curto, ainda mais levando em conta os shows da turnê de 15 anos, que podiam durar até três horas”, detalha Rogério Flausino.

Ainda na extensa lista de parceiros em Funky funky boom boom, chama a atenção o nome de Xande de Pilares. O integrante do grupo de pagode Revelação coassina É de coração com Wilson Sideral e os cinco rapazes do Jota Quest, que cita a música Mina do Condomínio, de Seu Jorge. Já o cantor de Burguesinha divide o balanço Jota Quest convidou com Flausino, Pretinho da Serrinha, Gabriel Moura e Leandro Fab. Essas parcerias surgiram na casa de ninguém menos que Paula Lavigne, a ex de Caetano Veloso e presidente da controversa associação Procure Saber.

“Foi em uma roda de samba que aconteceu lá. Criei coragem e mostrei as músicas. Adoro o jeito que essa turma escreve”, elogia Flausino.


sexta-feira, 22 de novembro de 2013

RIO PARADA FUNK EM "O DIA"

Fica aí como registro: fiz mais uma capa para o Guia Show e Lazer de O Dia. Saiu hoje. Tudo sobre o Rio Parada Funk, que acontece domingo.

Diagramação de Fernanda Rossi. Fotos de Fernando Souza.



Imprima e leve como um guia se for ao evento.














terça-feira, 19 de novembro de 2013

A GENTE SOMOS "IN UTERO" (AI...)

In utero não é um disco qualquer para mim. O terceiro disco de inéditas do Nirvana - entre Nevermind (1991) e ele ainda saiu a coletânea de b-sides e raridades Incesticide (1992) - foi meu presente de aniversário quando eu tinha 19 anos. Em 1993.

Nirvana esteve entre as primeiras experiências que tive na vida de ver um clássico saindo do forno, de ligar o rádio (ou a MTV), escutar um som, gostar e, surpresa! A banda é nova, acaba de chegar no mercado. Passei por isso também com Faith No More (que já nem era tão nova assim) e Guns N Roses. Não, eu não me identificava com os anos 80 enquanto eles existiam. Fui ouvir Smiths e gostar (muito) só lá pelos anos 90. New Order conheci direito em 1989, quando a banda já tinha vários álbuns. E os anos 60 e 70 sempre foram as minhas décadas.

In utero me pegou numa época estranha da minha vida. Não estava mais tão interessado em música assim. Ou tentava me desinteressar. Estava em uma faculdade que nada tinha a ver com jornalismo - essa, só fui fazer depois. Tentava me convencer que deveria abandonar uma série de coisas das quais gostava para investir numa profissão que tinha escolhido errado e que nada tinha a ver comigo. Aquela depressão toda do grunge passava a fazer mais e mais sentido para mim, num ano em que lembro de ter comprado ainda quatro álbuns que ouvi até gastar os canhões de laser: Every good boy deserves fudge (de 1991) e Piece of cake, do Mudhoney, The last splash, das Breeders, e o primeiro solo (homônimo) do Frank Black. E Vs, do Pearl Jam, que ouvi melhor alguns anos depois, com outra cabeça e outro astral.

Caiu nas minhas mãos a versão recauchutada de In utero, com vários bônus e o disco inteiro com um remaster 2013 feito pelo produtor, Steve Albini. Tentei lembrar como foi ouvir o disco em 1993, com 19 anos. Ou imaginar o que eu seria se tivesse essa idade hoje - acredito que eu estaria mais perdido que cego em tiroteio e achando Franz Ferdinand e Arctic Monkeys o máximo.

Bom, não lembrei direito o que eu senti aos 19 anos. Sei que a berraria de músicas como Scentless apprentice e Milk it já me mostrava que algo ali não iria acabar bem. Assim como a jam bêbada do bônus Gallons of rubbing alcohol follow through the strip, gravada pelo Nirvana em Copacabana, no estúdio da gravadora RCA, e incluída como bônus após estranhos vinte minutos de silêncio.

In utero tinha um clima estranho, com letras enigmáticas, versos apontando para reminiscências mórbidas de Kurt Cobain (a separação dos pais, brigas com o pai, o uso de remédios controlados desde criança, assédio moral), riffs serra-elétrica. Tudo vinha do tapa que Kurt levou com a música do grupo alternativo Pavement, da descoberta da paternidade e dos problemas pessoais acumulados há anos, desde a separação dos pais - que geraram uma das letras mais confessionais e dolorosas da história do rock, All apologies. Filhos de pais separados, acontece muitas vezes, costumam culpar a si próprios pelo que deu errado no rolo familiar. Kurt transformava o sentimento em canção ("tudo é culpa minha", diz lá pelas tantas, numa letra que ainda fala sobre sentimento de exclusão, depressão, fundo do poço).

Kurt se culpava também por ter conseguido atingir cifras impensáveis com o segundo disco do grupo, Nevermind. Planejou In utero como uma redenção, uma volta ao meio "independente", mesmo que dentro de uma grande gravadora. Chamou um sujeito complicado até demais, Steve Albini, para produzir o álbum. A Geffen, gravadora da banda, não dormiu no ponto e impôs Scott Litt (R.E.M.) para retrabalhar duas músicas com potencial de hit, Heart shaped box e All apologies.

Os remixes originais de Albini estão entre os bônus do CD duplo. O produtor deu às músicas o mesmo tratamento "perdido no horizonte" do próprio Pavement - banda que, aliás, ele nunca produziu. Vocais enterrados nas guitarras na mórbida Heart shaped box. Tom mântrico, com guitarra apitando (distraindo a atenção de quem quer, roqueiramente, ouvir o riff), em All apologies. Nessa, me deu a ligeira impressão de que, por Albini, o disco teria menos barulho e mais esquisitice, e talvez soasse como um Tom Zé/Walter Franco grunge.

Tem mais bônus na história, como Sappy, que chegou a ser lançada no Brasil (só em rádio) com o nome Make you happy. Marigold, lado-B de single composto e cantado pelo baterista Dave Grohl, surge na versão do compacto e na original, gravada em 1990 pelo próprio Grohl pouco antes de entrar para o Nirvana, só com violões, num projeto pessoal que saiu só em cassette dois anos depois (Pocketwatch, creditado ao grupo-de-mentirinha Late!). A estranha I hate myself and I want to die, incluída apenas numa trilha sonora do desenho Beavis and Butthead, também está lá. O nome da música não aparece em momento algum da letra.

Tem mais: rascunhos de Scentless apprentice numa sessão gravada no estúdio RCA, com um catatônico Kurt apenas murmurando e tentando berrar - é estranho, belo e triste, tudo ao mesmo tempo. Versões instrumentais e rascunhos de canções surgem aqui e ali. Dá para perceber que Kurt Cobain era muito bom nas seis cordas. Não estaria nunca entre os dez melhores guitarristas do mundo, mas compensava com cratividade. O principal: aproveitava o melhor da influência punk (o faça-você-mesmo) para criar sua própria música, e não para arrotar mesmices sonoras. Senti falta de You know you're right, lançada só na coletânea Nirvana, de 2002.

O vocal grito-de-socorro de Kurt parece ter sido a última coisa realmente nova a surgir no rock mundial. Oasis era Beatles e Smiths demais para ser uma banda "nova" - era uma banda muito boa, sim. O som de Strokes e Franz Ferdinand, e dos Arctic Monkeys, você já ouviu décadas antes.

Vinte anos depois de seu lançamento, In utero faz o Nirvana reaparecer para mim como a melhor banda de sua década. Kurt Cobain, hoje nome forte naquela venturosa grande gig no céu, ressurgiu em meus ouvidos como um quase-John Lennon da sua geração. E o barulho bom do trio Kurt-David Grohl-Chris Novoselic reúne em acordes, silêncios e pancadarias sonoras o tom estradeiro do folk, a faceta mais pesada dos Beatles, a porradaria guiarrística de Jimi Hendrix, a raiva do punk, o senso melódico do melhor hard rock.

Só não conseguiu a sobrevivência do Pearl Jam e o eterno retorno do Soundgarden e do Alice In Chains. Infelizmente.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

MARCEL SOUTO MAIOR E ALLAN KARDEC

Por mais que você nem desconfie, você é um pouco kardecista. Os livros do pesquisador francês Hippolyte Leon Denizard Rivail (1804 - 1869), o popular Allan Kardec, bem como a extensa literatura psicografada por Chico Xavier, estão entre os mais vendidos do Brasil. Fazem parte da nossa literatura. Independente de serem publicações espíritas, há entre eles excelentes obras (Nosso Lar é uma das mais conhecidas, e virou filme).

Alguns anos após trabalhar na biografia As vidas de Chico Xavier, o escritor e jornalista Marcel Souto Maior encara a tarefa de condensar num livro as metamorfoses, pensamentos, contradições e ideias do pai do espiritismo - em Kardec, A biografia (Record). Um livro que interessa a espíritas e não-espíritas, e que detalha fatos como o Auto de Fé de Barcelona - nome que Kardec usava para se refir à queima de trezentos livros espíritas na cidade espanhola, em praça pública, em 9 de outubro de 1861, realizada por ordem do Bispo local.

Bati um papo com Marcel para o jornal O Dia - a matéria saiu na capa do Caderno D do domingo passado. Abaixo, seguem a entrevista completa e as imagens dos PDFs da capa, para quem quiser ler a matéria como saiu (para fazer isso, clique duas vezes em cada imagem para ampliar).


Como está sendo o lançamento do livro? É um processo sempre tenso. Por mais que eu lance livros, fico nervoso quando recebo e-mails de pessoas que estão lendo e falam: "Acabei de comprar, estou começando a ler!". Eles acham que estão fazendo um bem, mas eu acabo mesmo é passando mal de nervoso! É muita responsabilidade. 

É a primeira biografia do Kardec feita por um brasileiro? Não, na verdade tem uma biografia em dois volumes que conta a história dele, escrita por brasileiros. Mas são livros praticamente espíritas. A parte dos ataques que o Kardec sofreu da igreja católica, que está no meu livro, nem aparece nos deles. O livro é tão espírita que pula isso, fala só que "ele sofria ataques virulentos da igreja, nem vale a pena comentar". Fui tentando preencher lacunas.

O que se fala é que você recebeu uma mensagem de um espírito sugerindo que você fizesse o livro...  Recebi, sim, mas eu já estava no meio do processo de escrita. Acumulei muitos materiais sobre Kardec quando fiz o livro sobre Chico Xavier e seria o segundo passo. Um amigo meu que é medium psicografou uma mensagem atribuída ao Didier, que era o editor das obras do Kardec. Ele me desejava muita serenidade para escrever o livro e dizia para eu todo dia fazer mentalizações. Isso já foi no meio do processo. Eu nunca tenho certeza sobre isso e esse meu amigo também é um cara muito crítico, disse que poderia ser o Didier ou não.

A bio do Kardec já era algo que você queria fazer antes mesmo da do Chico Xavier? Bom, desde que comecei a pesquisar a vida do Chico - e aí já se vão mais de vinte anos - comecei a entrar no universo do Kardec. Não dá para entender o Chico sem entender o Kardec, o próprio Chico falava sempre: "Na dúvida, leia Allan Kardec". Ele seguia à risca o Livro do espíritos e o Livro dos médiuns, que eram quase como manuais de instruções para ele. O Chico Xavier sempre foi assombrado por visões, desde criança. Cresceu ouvindo sua própria família dizendo que ele era louco. Quando leu o Livro dos espíritos, passou a entender o que se passava com ele. Ao terminar o mergulho na obra do Chico, fiquei com um material enorme sobre Kardec na minha escrivaninha e me perguntei: "Por que não contar essa história?".


Você começou imediatamente? Não, eu ia adiando, adiando. No ano passado, olhei para esse material e vi que se não me decidisse, o livro seria um eterno projeto adiado para mim. Ou inacabado. É como se um ciclo se fechasse. Comecei há vinte anos com o Chico e, duas décadas depois, fecho com Allan Kardec, e junto essas duas pontas: o francês que quantificou a doutrina, que fundamentou o espiritismo, e o brasileiro que pôs em prática tudo o que o francês explicou.

Já que você falou de ataques sofridos por Kardec, gostaria de saber se você via muitos erros na maneira como a história estava sendo contada. Pois é, os ataques estavam pouco retratados. Eu acho que o que faltava era dar uma dimensão mais humana ao personagem. Era como se o Kardec não cometesse erros em biografias. Algumas pessoas têm a tendência de santificá-lo, mas Kardec era humano. Quando era apenas um professor, antes de adotar o pseudônimo, ele era rígido, rigoroso, bem científico. Quando as mesas começaram a girar - uma verdadeira febre - ele começou a estudar sobre isso.

Ele achou que poderia ser fraude, certo? Sim, trabalhou com duas hipóteses: ou era uma fraude ou era a energia dos vivos em volta das mesas. O olhar dele era de um cara que achava que era preciso tocar com as próprias mãos e ver com os próprios olhos. Era uma frase que ele repetia sempre. Foi a fase 1 dele, porque logo depois, aos 53 anos, ele se converte, vira Allan Kardec e torna-se um missionário, é sua fase 2. Kardec vai à luta para divulgar a doutrina. No livro, você tem a história contada sobre as decepções que ele teve. Kardec levou muitos sustos até chegar à conclusão final dele, que era a de que fora da caridade não haveria salvação. Decepcionou-se muito com médiuns que eram fraudes. E foi ficando muito preocupado com os fenômenos, com a exploração disso. O espiritismo perderia muito se fosse baseado apenas nisso. A partir do momento em que ele passa a acreditar na voz dos espíritos, ele cria uma estratégia de divulgação dessa doutrina, assentada sobre os livros que lança. Faz a Revista Espírita praticamente sozinho. Procurei recostituir essa dinâmica.

Como foi a pesquisa para o livro? Fui a Paris quatro vezes. Andei por todos os lugares em que ele andou, que foram pontos importantes na história dele. Fui a Biblioteca Nacional da França e li periódicos da época, inclusive a Revista Espírita que Kardec dirigiu. Vi os originais da publicação e isso me ajudou muito. Fui resgatando os ataques da imprensa e da igreja. Meu francês é bom, mas não é maravilhoso. Então eu checava tudo no dicionário, conferia algumas palavras que não sabia. Como Kardec não deixou descendentes, o trabalho de entrevista foi apenas com pessoas que conhecem bastante a história dele, além de lideranças espíritas.

Você enfrentou muitas dificuldades para escrever sobre Kardec? Eu usei muito a Revista Espírita, que foi escrita pelo próprio Kardec. Foi como uma fonte primária, pois os artigos eram dele, os pontos de vista eram dele. Os textos me protegeram muito, reduziram a margem de erro. Mas seja como for, na biografia eu não faço um juízo de valor. Eu conto a história e o leitor, espírita ou não-espírita, tira a conclusão. Quando se fala no livro da casa de Mozart em Júpiter, o espírita pode ler e falar: "Que lindo! É uma grande evidência da vida em outros planos!". O não-espírita pode falar "mas que absurdo! Qual a evidência de que Mozart estaria morando em Júpiter?" Deixo para cada leitor esse papel.

Ainda sobre a briga dos católicos com os espíritas, como você vê essa afirmação que o espiritismo foi tendo com o tempo, a ponto de rolar todo um sincretismo com o catolicismo? Por causa de figuras como Chico Xavier, o católico entendeu com o tempo que a base absoluta do espiritismo é o cristianismo. É uma doutrina fundada na solidariedade, na caridade, que admira profundamente Jesus Cristo. O berço é o mesmo. A pregação é a do bem, da tolerância. Com o tempo, católicos e espíritas foram se aproximando a ponto de haver sessões na casa do Chico em que os primeiros eram mais constantes. 

Há católicos que admiram o espiritismo... Sim. Um amigo meu brinca que o espiritismo é o América FC de todos nós. Sou flamenguista, e tem esse comentário de que todo mundo no Rio, mesmo tendo time, tem o América no coração. No Censo de 2010 há 4 milhões e meio de brasileiros que se declaram espíritas. O número de simpatizantes chega a 30 milhões - é o número de pessoas que acredita na vida depois da morte. Outro dia fui no Encontro com Fátima Bernardes e fizeram uma enquete ao vivo: 70% dos telespectadores acreditam na vida depois da morte. É uma coisa bem curiosa. O espíritas são um povo que lê muito, a maioria tem formação universitária. A doutrina é assentada na leitura. Não basta se dizer espírita. Tem que estudar a obra do Kardec.


Os livros do Kardec foram queimados em praça pública. Como fica para você, que vive de biografar e escrever, a possibilidade de alguém queimar livros? Ou de impedi-los? Um absurdo. O Kardec até brinca que ele é que teria ido para a fogueira se isso tivesse acontecido alguns anos antes. É um resquício de inquisição. Esse episódio, o Auto de Fé de Barcelona, acabou servindo para divulgar o espiritismo, o Kardec até considerou isso como uma grande ação de marketing. Qualquer censura, inclusive essa que Caetano Veloso e Chico Buarque defendem agora, é trágica. No caso do espiritismo, vetou-se o acesso a livros que ajudaram muita gente. Há casos de pessoas que leram O livro dos espíritos e desistiram de se matar.

Como é hoje sua relação com o espiritismo? Você se considera um cara cético? Não tenho religião. Gosto muito do bem que o espiritismo faz a tanta gente. Pelo fato de ele investir em obras sociais, montar uma rede de solidariedade. Me preocupa quando ele entra no campo dos fenômenos, que é algo que tem que ser visto com muito cuidado. Quando entra no terreno da mediunidade e dos fenômenos, minhas antenas ficam ligadas. Tudo tem que ser comprovado. Aí entro com olhar de jornalista. Me obrigo a escrever sobre os personagens com o máximo de isenção. Se me permitisse uma conversão, perderia minha impacialidade. Imagina se eu fosse comentarista esportivo mas torcesse para o Flamengo?

Biógrafos costumam vibrar ao deparar com os lados contraditórios de seus biografados. Você, que inclui no livro partes em que o Allan Kardec falava de suas prestações de contas (havia suspeitas de gastos excessivos do líder espírita), apontaria alguma contradição nele? Algo que o faria humano? Olha, acho que quando ele vira missionário ele perde o rigor de cientista. Ele abraça a doutrina. Em alguns momentos ele aposta em médiuns que ou fenômenos que não são comprovados cientificamente. 

Em vários momentos do livro, Kardec aparece dizendo que o espiritismo é "a única verdade conhecida", num radicalismo que lembra até o de algumas religiões evangélicas... Ele se apaixona pela doutrina. É preciso entender que Kardec abrigava dentro dele o cientista, o professor cético e o missionário. Ele viveu a vida dividido entre fé e razão. Quando ele vai e volta entre essas duas personas, ele fica contraditório. E ele realmente não conseguia entender porque é que falavam tão mal de uma doutrina que ele via que salvava vidas. Tanto que ele costumava falar que "o materialismo mata". Todos nós temos falhas, o Chico Xavier até dizia "sou falível como qualquer um". No caso do Kardec, o grande dilema dele era entre fé e razão.

O Kardec foi casado. Havia alguma contradição, por exemplo, no casamento dele? Não, não... A esposa dele era nove anos mais velha, e a partir do momento em que ele vira Allan Kardec, todo o foco dele volta-se para a divulgação da doutrina. Nos últimos anos de sua vida, era trabalho, trabalho, trabalho, viagem, viagem, livro, artigos, cartas... É um casamento marcado pela relação de companheirismo, pela mulher torcendo por ele. E foi uma relação sem filhos.

E há a possibilidade de um filme sobre Allan Kardec? O filme já está sendo feito. Enquanto ia escrevendo, mandava os capítulos para o diretor Wagner de Assis (que fez Nosso Lar). O roteiro já está pronto e está sendo feito por ele e por L.G. Bayão. Se tudo der certo, no começo do ano que vem ele começa a ser rodado. A intenção é lançá-lo em outubro de 2014, quando Kardec chegaria aos 210 anos. O Wagner está fazendo em colaboração com a Conspiração Filmes. 

Vocês querem o Tony Ramos para fazer o personagem principal, é isso? Sim, sim. Não fizemos convite oficial, mas gostaríamos muito de vê-lo no papel.

Entrevistamos aqui no O Dia o Roberto Frejat e ele disse que é seu primo. Quando vocês se encontram, conversam mais sobre rock ou espiritismo? Tenho pouco contato com ele hoje, mas sei que ele adorou As vidas de Chico Xavier, até me ligou. Ele é filho do irmão da minha avó, o José Frejat (pai do roqueiro). A gente era bem mais próximo quando criança, mas depois ele começou a viajar que nem louco com o Barão Vermelho. Mas estamos armando um reencontro com a criançada!

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

ELE É O ENVIADO ESPECIAL



O amigo Wagner Fester, grande DJ do Rio de Janeiro, me fez lembrar da canção O jornalista (Enviado especial), lançada por um conjunto de jovem guarda chamado Os Selvagens. Ouça abaixo. Tem história - e um pezinho na minha memória afetiva.








Muita gente deve lembrar disso: nos anos 80, quando Cidinha Campos era apenas uma radialista (e nisso não vai nenhuma propaganda política, pelo amor de Deus), essa canção era a introdução do quadro do Gugu, o repórter gay do programa dela na Rádio Tupi AM (daí escolherem essa música, ultra-politicamente incorreta, cujo refrão é "ele é um enviado/ele é um enviado especial").

Gugu, por sinal, era um personagem do radialista José Adilson, o "repórter sem medo". Dei altas risadas ouvindo essa música e lembrando disso.

Os Selvagens ainda existem, por sinal. Mantêm um site, um blog, e citam O jornalista como sendo talvez o seu maior hit. Vale ouvir e rir. A música ainda foi gravada mais duas vezes - uma delas pelo The Cony's Group e a outra, também de rolar de rir, numa curiosa gravação realizada pelo animador Chacrinha com o grupo The Supersonics.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

VIOLETA DE OUTONO

Na semana passada, o grupo progressivo-psicodélico oitentista Violeta de Outono passou aqui pelo Rio e fez um show no Teatro Rival. Preso no trabalho, não consegui ir. Deve ter sido um showzaço. Vi poucos deles, dos anos 90 para cá. Nos anos 80, época em que, segundo um amigo, eles faziam relaxamento no camarim olhando fixamente para uma luz negra (!), não vi nenhum.

Bati um papo com o vocalista, guitarrista e compositor Fábio Golfetti, que divide a banda hoje com José Luis Dinola (bateria), Gabriel Costa (baixo) e Fernando Cardoso (teclados), para
O Dia. A íntegra da entrevista, você lê aí embaixo - maaaaais lá embaixo, tem a imagem do PDF da matéria (clique duas vezes para ler sem lupa).


Como tem estado o Violeta nos últimos anos? A gente teve uma formação em trio que gerou os discos mais conhecidos, que saíram pela RCA (Violeta de outono, a estreia em LP, saiu em 1987 pelo selo Plug, da RCA; o segundo, Em toda parte, pela RCA). A coisa foi, voltou, saímos da gravadora... mas sempre mantive a banda ativa durante todo esse tempo. A banda deu uma reformulada, entrou o Fábio Ribeiro, tecladista, com quem tocamos no Rio em 1997. Sabíamos que nosso som iria para um caminho mais progressivo, mas não o progressivo "clássico", sinfônico. Depis demos uma desativada e voltamos a fazer shows em 2005.

Mudou a formação toda... O Angelo (Pastorello, ex-baixista) parou de tocar (Claudio Souza, na bateria, completava a formação dos anos 80). Começamos a nos remodelar, foi como se começássemos do zero. Em 2007, vinte anos após o primeiro disco, saiu o primeiro dessa fase, que é o Volume 7. Depois fizemos o Espectro. Nosso material recente é muito pedido em festivais de rock progressivo. Mas sempre tocamos algumas coisas da primeira fase.

O rock progressivo ainda tem muitos fãs? Ele é meio como o heavy metal. Rola uma ligação com um rock mais clássico, com um determinado tipo de público. No fim dos anos 70 houve uma reação por causa do movimento punk, da new wave e a indústria da música, em peso, não olhou para o progressivo. É uma movimento muito grande que ainda existe e tem fãs. O público tem se renovado. Recentemente o Steven Wilson, daquela banda Porcupine Tree, esteve aqui e lotou espaços. Meu filho tem 13 anos e adora o som dele. Acho que hoje já caiu aquela divisão "ah, isso é punk", "isso é progressivo". Não tem mais aquela ideologia de comportamento. No rock todo mundo ouve o que quiser, há espaço para todo mundo. Mas quem quiser aprender música e procurar ouvir um instrumento bem tocado, cai no progressivo, claro.


E como era tocar esse tipo de som naquele contexto do rock dos anos 80, cheio de influências do punk, guitarras econômicas? Vocês e o Ira! faziam a diferença, certo? Eu me formei ouvindo progressivo. Nos anos 70 fui tocar e fiz parte de um grupo que fazia um som meio jazz, meio instrumental. Era um som que já tava fora do contexto comercial mesmo naquela época. O Violeta já veio num momento diferente. Fomos da segunda leva do rock brasileiro daquela época. A primeira surgiu em 1982.

Blitz, essas bandas... Isso. Viemos pouco depois do estouro da Legião Urbana, do Capital Inicial. Eu, o Cláudio e o Angelo ouvíamos muito psicodélico, que era atemporal. E mesmo o que rolava na época - punk, som de garagem - estava no nosso contexto. Víamos relações de bandas como Joy Division e Echo & The Bunnymen, qur todo mundo ouvia na época, com o rock dos anos 60. A gente ouvia Gentle Giant, Pink Floyd, Soft Machine e também Black Sabbath, Led Zeppelin.

Sem restrições, então? Não havia restrições. Ouvíamos tudo o que queríamos. No nosso som, pegamos uma coisa mais básica que o rock dos anos 60 tinha, de acordes mais simples, canções mais básicas. O rock progressivo, no fundo, tem uma canção meio básica, uma melodia, ainda que dentro de uma aparente complexidade. Se você pegar o Pink Floyd, nem dá para considerar que é uma banda progressiva nos moldes clássicos. Éramos por aí. Seguimos para um lado mais instrumental. Uma de nossas primeiras músicas, Reflexos da noite, tinha um solo de guitarra que durava sete minutos! Só não tinha de bateria porque o Claudio não gostava...

E como foi estar numa gravadora grande nessa época? Bom, a grande gravadora deu a oportunidade para nós, uma banda que fazia um show meio alternativo, de conseguirmos um público. Até hoje se for a um lugar em que nunca toquei, eles conhecem os dois álbuns da RCA. Tivemos uma relação cordial lá. Os discos ainda circulam por aí. Entramos na gravadora com uma postura de tocar e produzir da nossa maneira o som que seria distribuído por eles. Fizemos do jeito que queríamos e eles ajudaram no que podiam. Bom, algumas coisas a gente fez errado...

O que, por exemplo? A gente meio que deu uma negada na parte de marketing da gravadora. Eles queriam que a gente fosse tocar no Chacrinha e não quisemos. Achamos que não iria agregar mais público e poderíamos perder o público que cultuava a banda. Não sei se foi erro não tocar num programa mais popular...

Nos anos 80 inclusive as bandas debatiam sobre se tocariam ou não no Chacrinha... A gente só queria fazer programa ao vivo. O único que funcionava ao vivo era o do Faustão, o Perdidos na noite. A gente achava que como não éramos uma banda com apelo visual, tinha que chamar a atenção pelo som. Como o som na TV nos anos 80 era ruim, eu levava o mesmo amplificador que usava nos shows. Hoje você pode ter uma mixagem na TV de alto nível, mas naquela época não dava. 

Tem uma história que rola por aí, de que a RCA queria incluir uma música de vocês na novela Brega e chique (Rede Globo, 1987) e vocês se recusaram. Isso é verdade? É. A gente estava gravando o primeiro disco e eles queriam que entrasse uma música na novela. Só que a música nem estava pronta ainda. Bom, não sei se faríamos o mesmo hoje. Tem uma novela aí que se passa no Nepal, né (Joia rara, ambientada nos Himalaias), né? Se fosse assim, quem sabe?

Bom, o Marcus Vianna (músico de rock progressivo, criador do grupo Sagrado Coração da Terra) faz várias trilhas há anos... É, mas no nosso caso eles queriam uma música para vender disco, estourar em rádio. O Marcus Vianna faz trilhas sonoras, é diferente. Na época, a música teria que ser feita em função da novela. E também pensamos daquele jeito que se pensava na época, tipo "ah, a banda tem um prestígio, se fizer desse jeito vai acabar se vendendo". Hoje eu penso diferente. Se tivessem mantido o som do jeito que era e as pessoas tivessem gostado, seria válido. Ainda hoje muita gente fala que éramos uma cult band naquela época. Isso fez com que sempre tivéssemos um prestígio.

Como tá hoje o catálogo do Violeta? Eu relancei alguns dos discos antigos, com bônus, em formato papersleeve. Hoje depende da demanda, muitas vezes temos difuculdade para repor um ou outro disco, mas todos eles estão disponíveis em digital no nosso Bandcamp. Dá para ouvir de graça em streaming, e para fazer download pago. Para relançar, depende da atenção que tivermos daqui para a frente. Nossa nova formação está trabalhando pra caramba. A gente sempre fala que, com nosso primeiro disco, demorou mais de 20 anos para sermos conhecidos no Acre. Com os novos, esperamos que não demore tanto. Nos nossos shows, no Rio, por exemplo, vão sempre 300, 400 pessoas...

O Rival, no qual vocês tocaram, já recebeu desde grupos clássicos como Focus até bandas brasileiras como O Terço, 14 Bis. Não sabia disso. Engraçado que acho que somos como O Terço e o 14 Bis, mas com roupagem moderna, como se eles tivessem surgido um pouco depois. É um progressivo, mas é pop, meio atemporal.

Você ainda tem contato com o Angelo e o Claudio? Claro! Angelo é meu amigo de infância, inclusive. De vez em quando saímos para comr uma pizza. O Angelo já trabalhava como fotógrafo antes do Violeta. Depois tocou um tempo e resolveu sair da banda, estava se dividindo demais.

Angelo, entre outras coisas, faz fotos para revistas de mulher pelada. E aí, vocês já foram lá conferir o local de trabalho dele de perto? Não, não... Deve ser algo legal de fazer, né? A gente até usou uma foto dele na capa de um disco nosso, o Mulher na montanha (1999). Saiu lá uma peladona que ele fotografou, bem bonita.