quinta-feira, 31 de outubro de 2013

LOU REED

Fiquei sabendo da morte de Lou Reed durante um momento bizarro da televisão brasileira: sentei na sala da casa dos meus pais e, vai entender qual o motivo, o Esquenta, da Regina Casé, resolveu dar uma aula de punk. 

Já tinha estranhado passar pela televisão e ver Regina e os dançarinos do programa vestidos de couro e tachas (com indumentárias parecidas com a dos Ratos de Porão na contracapa de Crucificados pelo sistema, disco de 1984). Voltei e a música do "voltamos a apresentar" era Anarchy in the UK, dos Sex Pistols. Regina explicava que o termo "punk de butique" tem tudo a ver, porque o punk nasceu numa butique. Depois falou de Malcolm McLaren e Viviene Westwood. Não me lembro se Arlindo Cruz pediu "faz barulho aí pro Malcolm e pra Vivienne". Achei que já tinha tido visões bizarras demais e fui pra cozinha. Nesse momento é que fiquei sabendo por sms que Lou Reed tinha morrido.

Mortes de artistas são momentos bons para perceber que a história do rock, muitas vezes, é uma criação da cabeça de cada jornalista, ou de cada fã, de acordo com seus gostos musicais ou suas análises particulares. Lou Reed já foi chamado até de "pioneiro do rock" ou de "artista do primeiro time do rock", coisas que ele nunca foi. Pioneiros do rock (do punk, até vai) são nomes como Fats Domino e Bill Haley, ou Little Richards e Chuck Berry. Influenciar meio mundo não coloca ninguém no primeiro time. E, não, Lou Reed não foi o primeiro artista a misturar "arte" e rock - os Beatles já faziam isso desde Yesterday, em 1965, que mesclava música jovem e sons clássicos. Se o Velvet já existia naquela época, sem discos gravados, acredito que pouco importe.

Pelo menos não vi ninguém se atrevendo a elogiar Metal machine music, disco inaudível de 1975 do Lou Reed, cujo "repertório" (quatro peças, cada uma ocupando um lado de um disco duplo, rigorosamente iguais) foi apresentado por ele numa data em São Paulo, em 2010, ensanduichada em meio à apresentação de Paul McCartney em terras paulistanas, no mesmo dia, e ao festival Planeta Terra. O jornalista Marco Antonio Barbosa pôs neste texto suas lembranças do show. Lembro que quis ir nesse show mas não pedi credenciamento a tempo. Para quem nunca ouviu o disco, vale dizer que, se você colocar o CD para rodar, for ao banheiro e voltar meia hora depois, ouvirá o mesmo som. Uma curiosidade é que sites de vendas de discos usados trazem o álbum versões quadrifônicas (aquele sistema de som dos anos 70 popularizado pelo Pink Floyd e pela antiga EMI, quase um pré-surround). Isso sim é "pesadelo do pop".

Quem lembrou de New York, disco dele de 1989, como um de seus maiores clássicos, apostou alto e ganhou. O disco saiu numa época em que, pelo menos aqui no Brasil - e para quem lia revistas brasileiras de música - ensaiava-se uma reposição de Lou Reed como artista "clássico" de rock. Acabou sendo o primeiro disco de Lou Reed que ouvi na vida. E o único que ouvi durante um bom tempo. Mais: fecho com as poucas pessoas que vi comentando em redes sociais que, sim, Lulu (disco de 2011 do Metallica com Lou Reed) é legal. 

Não é um disco "bom". É curioso, estranho e, sob alguns aspectos, meio extremo (não da maneira "extrema" que o heavy metal costuma ser em certos momentos). Traz o Metallica reverenciando Lou Reed de verdade. E um Lou Reed estranho. Ele, que geralmente era um sujeito arrogante, elogiava a banda em todas as entrevistas que dava. Pelo menos nas que li. Ficou com medo, dizem, das reações bizarras dos fãs do grupo ao disco. Em vez de apresentar Lou a outro público, intensificou a aura de esquisitice (moldada por vocais ríspidos e letras cruéis) associada ao cantor. Foi uma vírgula na carreira do Metallica, mas um grande passo para o rock. Bom, acho que só eu penso assim.

Lou Reed sai de cena numa hora bastante complexa para o rock em todo o mundo, ainda mais no Brasil - bandas mais do que caricaturais dominam a música lá fora, e em consequência a caricatura toma conta do rock brasileiro, quase como nos anos 70, com o decréscimo de que há quarenta anos, as bandas brasileiras eram boas. Deixa lições interessante de persistência, de insistência no próprio estilo e na própria linha e permanecerá sendo lembrado como uma figura de proa (aí sim) de um período do mercado fonográfico em que ainda era possível apostar em segundos e terceiros atos. Mesmo não sendo um sucesso de vendas, a RCA (sua gravadora nos anos 70) fazia o que podia, trocando de produtores, investindo às vezes em dois discos por ano.

Numa época em que artistas brasileiros que, quase sempre, dão entrevistas inexpressivas e permanecem blindados por assessorias de imprensa e empresários espertalhões, querem vetar biografias não-autorizadas, Lou Reed tem mais uma lição para dar.

Lou um cara conhecido por respostas ríspidas, comentários grosseiros, estilo poucos-amigos e por interromper bate-papos que não lhe agradam - aqui, você confere uma coletânea dos melhores momentos do autor de Vicious em entrevistas. Mesmo calado, foi um dos artistas que mais renderam textos interessantes sobre sua obra e sua vida. Ensaios, livros, coletâneas de entrevistas, volumes no estilo por-detrás-da-canção. Vale dar uma checada no Google Books ou no eBay para conferir o que saiu. Duvido que tivesse tempo de autorizar tudo. Quem faz parte da história é maior do que certas mesquinharias. 

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

QUAL DE VOCÊS É O VICTOR?

Para o horror de alguns e a felicidade de outros tantos, segue aí a matéria que fiz com Victor & Leo para O Dia. Saiu na segunda.

Foi uma aventura, já que fui a São Paulo fazer a entrevista - a convite da gravadora Som Livre - e o papo ocorreu  num lugar bem distante do aeroporto de Guarulhos (onde desci), por causa de umas mudanças no roteiro. Acontece. Entre mortos e feridos, salvou-se o papo.


Victor & Leo já mostravam sonoridades próximas do rock brasileiro dos anos 80 - com cara country, é lógico - no primeiro grande hit, Borboletas. No novo (bom) disco, Viva por mim, tentam se aproximar de Bon Jovi, Aerosmith e até de Eagles. Em alguns momentos, conseguem. Quem não tiver preconceito e quiser saber o que de melhor tem sido feito no sertamejo (ou country brasileiro, hoje dá quase no mesmo), ouça.

Passamos boa parte da conversa falando a respeito de rock. Lá pelas tantas, avisei a eles que há uma cena bem interessante de bandas na Califórmia que - olha só - fazem punk rock com pegada country. Uma delas é o Social Distortion, que ganhou certa projeção aqui nos anos 90 por intermédio do seu quinto disco,
White light, white heat, white trash (1996). Dois clipes do disco, When the angels sing e I was wrong, passavam direto na MTV brasileira nessa época. Não sei se eles pretendem escutar o grupo, que tem uma das carreiras mais tortuosas do punk rock - começaram nos anos 70, gravaram a partir dos 80 e amargaram hiatos por causa de problemas com drogas.

Bom, segue aí a conversa.

VIDA NA VIOLA
Criados ouvindo música sertaneja, Victor & Leo hoje misturam Almir Sater com Guns N' Roses
Publicado em O Dia em 28 de outubro de 2013

Eagles, Guns N’ Roses, Iron Maiden, Stevie Ray Vaughan, Aerosmith. Em meia hora de papo com Victor & Leo sobre o 11º disco da dupla, Viva por mim (o primeiro pela Som Livre), boa parte da conversa é sobre suas paixões por estes e outros nomes do rock. E sobre as influências que deixaram o disco da banda bem mais pop do que o sertanejo habitual — em canções como Tudo com você, O tempo não apaga e Faz bem se apaixonar.

“Verdade, o lado sertanejo do disco praticamente ficou isolado em Tudo bem”, diz Victor, referindo-se à canção que traz vocais e viola do veterano Almir Sater. Leo, que tomou a frente na produção do álbum (e também escreveu a maioria das músicas, pela primeira vez), fala mais: “Escutamos música sertaneja desde crianças, mas somos apaixonados por blues, rock. Quisemos dar uma mudada no som”.

Tem sertanejo ali, sim: Viva por mim tem, além de Almir, participações de Jorge & Mateus (no forró futebolístico Guerreiro) e de Bruno & Marrone (na balada Eu vim pra te buscar). Mas é inegável que o lado pop da banda aparece mais em baladas pesadas e solos de guitarra misturados com violões.

“Acho que nosso CD poderia ser colocado na prateleira da música folk. Sempre curtimos isso, assim como a própria música country”, conta Victor. “Sempre ouvimos: ‘Isso é rock ou sertanejo?’. Vai ver somos sertanejos tocando rock ou roqueiros tocando sertanejo!Sempre bebemos dessa fonte de Eagles, Eric Clapton, misturar isso com sertanejo é como colocar uma gota de cachaça na limonada!”, brinca o irmão.


Victor, por sinal, é crítico em relação ao estilo e crê que “hoje tem muita coisa sendo chamada sertanejo que passa longe disso”. Opa, mas de quem você está falando, Victor? “Ah, nem citaria ninguém. Alguém pode se sentir mal com isso, pode criar brigas. E não adianta você falar quando uma massa inteira aceita uma ideia, mesmo que falsa”. 

Os dois se recordam de um roqueiro que virou fã deles. “A gente sempre encontrava o Chorão (vocalista do Charlie Brown Jr., morto em março deste ano) e ele falava que era nosso fã. Não entendíamos”, lembra Victor. Leo completa: “Um dia ele falou: ‘Pô, vocês são cheios de atitude! Fui no camarim de vocês e estava cheio de garrafa de uísque quebrada pelos cantos e tal’. Só que ele tinha entrado no camarim errado! Não era o nosso, não”, brinca Leo.

Os irmãos vivem uma fase de “mudanças internas”, mas na tranquilidade. Victor é que recentemente sofreu abalos com a separação da ex-mulher, Claudia Swarovski, com quem ficou por seis meses. “Quando você passa por algo intenso, fica mais retirado. Tô nessa fase”, diz Victor. A romântica O que tens, do CD novo, foi feita para Claudia. “Quando você se separa, é preciso um tempo de adaptação. Mas somos amigos hoje, ainda bem”.

Nota de atualização: Algumas matérias que faço têm retorno (muito bem vindo, por sinal) de leitores do jornal. Morador do bairro de Jacarepaguá,  Julio Cesar Lopes Júnior
 me escreveu para falar que discorda do fato de artistas como Victor & Leo e Paula Fernandes serem chamados de sertanejos.

"Como adoro música sertaneja (na sua forma de excelência, que intitula-se música caipira, ou música sertaneja raiz) acho que tenho embasamento pra escrever. Artistas como Victor e Leo, Paula Fernandes, Zezé Di Camargo e Luciano, Luan Santana, Michel Teló, Gustavo Lima, e etc, de forma errônea e grotesca, são tidos como cantores sertanejos. Mas na verdade são artistas pop, pois cantam a maioria de suas músicas dentro do gênero que denominamos pop ou pop-romântico.

De certo mesmo é que, salvo algumas poucas e raras músicas que estes artistas gravaram de grandes mestres do cancioneiro caipira, jamais poderiam sequer serem enquadrados no referido gênero sertanejo, simplesmente porque, na sua essência, tocam uma mistura de pop com folk, com blues, com soul, com música eletrônica, enfim, fazem uma misturada que de modo algum pode ser classificada como sertanejo.


A própria dupla, no artigo, reconhece isso. O próprio Victor reconhece a canção Tudo bem, que traz vocais e viola de Almir Sater, como a única musica verdadeiramente sertaneja do álbum.

Por falar nisso, Ricardo, você sabe o que é uma viola?

Pelo simples fato de todos esses artistas citados tocarem apenas o violão, e não viola, por esse fato apenas, é que não podemos classificá-los como sertanejos. O músico sertanejo, para ser assim dito, é aquele que toca viola, que é o instrumento que vem lá da roça, lá dos confins do sertão, que tem seus toques oriundos de rítmos indígenas e africanos como cururú, cateretê, lundú, côco, etc.

Das duplas sertanejas antigas, que foram o começo do gênero, isso difere muito. Geralmente um tocava viola, o outro violão, em duetos de sextas ou terças. Dessa antiga formação só sobrou o canto em duetos, pois ficou o violão, eliminou-se a viola e da vida na roça, da lida com o gado ninguém fala mais. Saudades dos grandes mestres: Tonico e Tinoco, Tião Carreiro e Pardinho, Carreiro e Carreirinho, dentre outros. É uma pena, mas é isso o que hoje é vendido. Graças a Deus, compra quem quer, mas não se ilude quem conhece e quem sabe o que é bom, não é mesmo?

Assim como existem esses falsos sertanejos, existem também aqueles que não deixam a verdadeira moda caipira morrer, são eles:

Maick e Lyan, João Carreiro e Capataz, Zé Mulato e Cassiano, Paulo Freire, Pereira da Viola, Chico Lobo, Braz da Viola, Roberto Corrêa, só pra citar os mais conhecidos.

Se o amigo se der ao trabalho de ouvir Tião Carreiro, que foi o maior violeiro que esse país já teve, vai ver porque resolvi gastar meu tempo escrevendo todas essas linhas.

A diferença é do tamanho do universo, pode apostar!!"

O jornalista André Barcinski, da
Folha de S. Paulo, trocou algumas palavras com o absoluto Renato Teixeira, autor de canções como Romaria. E Renato toca nesse ponto das mudanças da música sertaneja. Confira aí.



segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A ARCA DE NOÉ, POR DÉ PALMEIRA

Em 1980, quem cantava a música de abertura de A arca de Noé, especial que tinha como base a obra infantil de Vinicius de Moraes - e que se transformou num especial de TV da Rede Globo, na época - era Milton Nascimento. E, ah, Chico Buarque. Agora, quem canta a mesma canção no CD A arca de Noé, lançdo pela Sony, que traz reinterpretações das mesmas canções (todas com letras de Vinicius e músicas feitas por nomes como Paulo Soledade e Toquinho) é a dupla Péricles e Seu Jorge, com direito á pdoerosa declamação de Maria Bethânia na introdução.

Achou bom? Ruim? Bom, o CD, produzido por Dé Palmeira, Adriana Calcanhotto e Leonardo Netto, ainda traz uma mescla de nomes veteranos e novos da música brasileira. Erasmo Carlos, Arnaldo Antunes, Chitãozinho & Xororó, Zeca Pagodinho, Ivete Sangalo (com os funkeiros portugueses do Buraka Som Sistema), Gal Costa, Mart'Nália e outros - todos põem uma sonoridade diferente nas canções que todo mundo que tem entren 30 e 40 anos conheceu quando criança. Como em qualquer trabalho desse tipo, alguns conseguem fazer isso bem. Outros, não. Natural.

Fiz uma matéria para O Dia sobre os lançamentos que estão vindo com a obra de Vinicius, e um dos produtos enfocados foi esse. Bati um papo bem interessante com Dé Palmeira (aquele mesmo que foi baixista do Barão Vermelho) sobre o álbum e sobre o refresh, bem vindo ou não, que ele dá a certas músicas da Arca. A íntegra está aí abaixo.


Alguns dos artistas eram crianças ou adolescentes quando o disco original foi gravado. Como foi ter esse pessoal no estúdio revendo as músicas? Bom, algumas dessas pessoas, quando fizemos o convite, ficaram bastante emocionadas. E falaram isso para a gente, tipo "ah, cresci ouvindo a Arca de Noé" e tal. Isso aconteceu quando fizemos o convite, mas na real, depois, na hora da gravação, foi todo mundo muito profissional. Os dois discos lançados nos anos 80 são clássicos. O Xororó releu com o Chitãozinho Corujinha, que havia sido gravada pela Elis Regina no Arca 2, e falou que se lembrava muito da gravação dela, que gostava muito - nem no sentido de ficar emocionado, mas de lembrar, de gostar muito. Ele até conversou comigo meio preocupado com esse negócio de gravar uma música que a Elis havia gravado. Eu acho que a versão deles ficou maravilhosa, levou a música para um outro lugar. Ela é uma letra urbana, que fala de televisão, da Sessão Coruja. Conseguimos levá-la para essa coisa que o Brasil tem hoje, que é rural e urbana ao mesmo tempo, o sertanejo da grande cidade. O campo hoje é uma cidade grande, né?

Há um panorama bem completo da MPB atual no disco, inclusive com artistas que já estavam na ativa na época dos dois discos... Não houve uma preocupação estética, de fazer um panorama da música brasileira. A escolha dos artistas veio por gosto pessoal. O Chitãozinho e o Xororó vieram porque a Suzana de Moraes (filha do Vinicius com a jornalista Tati de Moraes) viu certa vez uma apresentação deles num prêmio de música brasileira e ficou muito emocionada. Aquilo bateu nela de uma forma muito profunda: "Como é que eu não conhecia a obra deles?", ela falou.  Chamamos e eles foram maravilhosos, de uma gentileza inacreditável comigo. O Chitãozinho gravou viola caipira nessa faixa, o que é raro, porque ele nunca grava. Na época do disco original, música sertaneja era muito forte e não vinha para as capitais. Esse tipo de manifestação artística não depende mais do selo das capitais para acontecer.


O Brasil mudou muito e isso se reflete no disco... Sim, sim. Teve uma mudança visível em A foca, que no Arca 1 era cantada por Alceu Valença. Na versão original o país era outro, então o discurso das falas do Alceu (que faz brincadeiras, como uma espécie de mestre de cerimônias) no meio da música era meio derrotista. Tinha a foca americana, a foca francesa e a foca brasileira, que era a perdedora. Falamos com a Orquestra Imperial, que releu a música, e sugeri uma mudança no discurso. Aquele papo era de um Brasil de 30 anos atrás. Trouxemos para o país de hoje.

Como o Péricles e o Seu Jorge (que cantam a música de introdução, Arca de Noé, com texto lido por Maria Bethânia) entraram no disco? O Péricles foi um dos artistas convidados que mais ouviram a Arca original, mas ele não tinha muita ideia do que iria fazer no disco. Falou: "ih, isso é complicado...". Eu o tirei completamente do contexto do pagode romântico.  Eu gosto tanto da voz do Péricles, tinha certeza que ele se encaixaria muito bem ali. Ele ficava "peraí, isso aqui eu tenho que pensar direito antes de cantar". Mas ele mandou muito bem. O Seu Jorge foi engraçado... Ele demorou muito por conta dos compromissos dele. Ele mora em Los Angeles e quando esteve no Brasil, falei: vamos tentar gravar com ele agora. A gente tinha mandado a música para ele em MP3 e quando ele chegou, falou que achava que ia gravar o Samba da bênção (de Vinicius e Baden Powell)! Até falou: "pô, não consegui pegar por e-mail, não conheço essa música...". Foi muito no susto, mas rolou bem.

Comparado com o Milton Nascimento, que cantou o original (com declamação de Chico Buarque), você acha que Seu Jorge foi bem? Bom, aí realmente é loucura. Mas não dá para comparar, a pegada de cada um é diferente. Um canta uma oitava acima, o outro, não... Mas gostei da performance do Seu Jorge. Foi para um caminho harmônico bem diferente do original.

Não houve vontade de convidar bandas mais novas do rock nacional? Pintou essa vontade, sim. Mas eu não iria perder a oportunidade de fazer um som com o Erasmo Carlos. Montei uma banda para tocar com ele e foi uma coisa meio egoísta mesmo, eu assumo (o Tremendão gravou O pintinho, que tinha gravação das Frenéticas no Arca 2). Chamei amigos como Dado Villa-Lobos e Lucas Vasconcelos, do Letuce, para as guitarras. O Erasmo me fez perceber uma coisa da letra da música que eu não tinha notado. São dois personagens: um galo velho e o pintinho, os dois conversando. E ele fez duas vozes diferentes, uma voz mais velha para o galo e uma mais jovial para o pintinho. É um conflito de gerações! Mas na música, o pintinho aparece de óculos escuros e casaco de couro!

Senti falta do Rodrigo Amarante e do Marcelo Camelo. Não houve interesse em chamá-los? O Amarante está representado pela Orquestra Imperial, na qual ele canta. Mas fizemos convite para os Los Hermanos. Eles já haviam voltado algumas vezes, mas estavam separados de novo na época.

O Buraka Som Sistema aparece tocando com a Ivete Sangalo. Como você chegou até eles? Eu estive com eles em Portugal várias vezes. Os conheço há um tempo. Quando chamamos a Ivete, pensamos num arranjo samba-reggae.  Mas observei que já estava fazendo sucesso na Bahia o kuduro de Angola. Como é justamente na música Galinha d'Angola (cantada no Arca 2 por Ney Matogrosso), levamos o som de Angola direto para Salvador. A Ivete fez uma ponte bem legal e ainda criou umas coisas meio parecidas com a Carmen Miranda coma voz.

Tem um detalhe engraçado nas poesias do Vinicius em Arca de Noé que é o fato de ele ter criado um mundo, digamos, bem realista com os animais. As músicas falam de morte, de predadores (como O leão), de animais indo para a panela... Olha, uma vez vi uma entrevista com o (letrista) Ronaldo Bôscoli em que ele falava do trato que o Vinicius tinha com crianças. Ele não botava criança num patamar abaixo do dele. Nem acima. Criança, naquela época, ou virava o imperador da casa ou era um ser de segunda categoria. Isso se refletia nas letras.

Não temem uma patrulha politicamente incorreta com relação a isso? Eu sou totalmente contra o politicamente incorreto. Ensino palavrão para os meus afilhados, sou anárquico nesse sentido. À medida que a criança cresce, ela vai entendendo diferente. Os poemas e as músicas do Arca acompanham a criança na sua formação, até ela virar um adulto. Acho que é por isso que o disco está em catálogo até hoje. Isso é bem legal, porque o Vinicius não exclui nem o adulto nem a criança da obra.

E não caberia aí um mundo encantado... É muito engraçado esse negócio de "o pato vai pra panela", "o leão mata o rinoceronte". Tem uma frase da Arca de Noé (a faixa-título) que é muito cruel e que só percebi quando gravei o coral com as crianças. "Os maiores vêm à frente, Trazendo a cabeça erguida/E os fracos, humildemente, vêm atrás, como na vida". Tem muitas camadas de entendimento ali, muito subtexto. Mesmo quando ele faz aquilo para criança, não é só para criança.

A Arca original dividiu as carreiras de alguns artistas. Alceu Valença passou a ser conhecido pelo público infantil com A foca, Ney Matogrosso apareceu pela primeira vez cantando sem maquiagem em São Francisco... Acredita que isso irá acontecer com um dos nomes do novo disco? Não saberia te responder. Acho que só vendo com cada um deles, mas a participação de todos teve um impacto bem grande no projeto. Todo mundo foi muito gentil, profissional, prestativo. Sei que a Ivete tem vontade de um dia fazer uma coisa para crianças. E elas a adoram.

É verdade que o João Gilberto chegou a ser convidado? Vocês tinham esperança que ele aceitasse? Convidamos o João, chegamos a falar com ele. Ia ser lindo. Ele ficou muito emocionado com a possibilidade de cantar A casa (cantada no original pelo Boca Livre) e nós também queríamos. Para cantar, só se fosse alguém da turma do Vinicius - o Tom não está mais aqui e o João é um dos criadores da bossa nova. Mas ele chegou e falou: "quero cantar o São Francisco!".

Ele conhecia? Ele lembrava dessa música gravada pelo Silvio Caldas, que foi o primeiro a gravar os poemas da Arca musicados pelo Paulo Soledade, nos anos 50. E ele tinha um link pessoal grande, o pai dele trabalhou por muito tempo no Rio São Francisco. Não sei o que aconteceu, mas ele não deu resposta para a gente. O Gilberto Gil também está de posse de um poema inédito do Vinicius e não conseguiu musicar por conta dos seus compromissos.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

PROCURE OUVIR DJAVAN

Eu sou (bem...) crítico musical. Sou mais ligado ao rock. E, na boa, sou fã de Djavan.

Ele é um dos maiores compositores que esse país já viu nascer. Em qualquer outro país do mundo, seria respeitadíssimo como artista de AOR (
adult oriented radio, aquele gênero cujo nome foi popularizado pelo Ed Motta em seu novo disco, mas que engloba tudo de bom que já tocou em rádio desde tempos remotos). Aqui, permanece tendo que escutar piadas e perguntas sobre a letra enigmática de Açaí (que fala em "zum de besouro, um imã" e daí para a frente).

Nas últimas semanas, além de tudo, voltou à mídia de forma nada honrosa, por causa do texto que soltou nos jornais defendendo o Procure Saber e sua luta contra as biografias não-autorizadas. Não achei a íntegra do texto de Djavan, mas seguem aqui dois textos que se referem à carta que ele enviou para os jornais: um artigo do jornalista André Barcisnki e outro do jornalista Luiz Fernando Vianna.

Ok, quer achar que o Djavan falou merda, acha. Eu também acho. Mas pelo amor de Deus, deixa a música dele fora disso. Pedi ao amigo Renato Vieira, jornalista do
Estadão e fã roxo do cantor, para fazer uma pequena lista de canções para você, meu amigo, que tem preconceito com o autor de Lilás, reconhecer: sim, Djavan é legal.



DJAVAN: ALÉM DO ZUM DE BESOURO
por Renato Vieira


Nos últimos dias Djavan tem sido mais lembrado pela declaração bisonha de que “editores e biógrafos ganham fortunas” do que por sua música. Alguns aproveitaram para criticá-lo comparando sua fala desconexa às suas “letras enigmáticas que nada querem dizer”. Mas o fato é que o alagoano é bom letrista e músico excepcional. É pena que os zuns de besouro tenham escondido músicas que, se não fizeram sucesso, devem ser mais lembradas. Mas aqui a gente exuma dez delas pra confirmar suas qualidades.

"MAGIA" -  A penúltima música de A voz, o violão e a música de Djavan, primeiro LP do artista, tem influência nítida dos Afrossambas de Baden Powell e Vinicius de Moraes. Em vez de retratar o candomblé, a letra joga luz sobre “as leis sobrenaturais do amor”. Destaque para o trio de percussionistas Luna, Marçal e Hermes, onipresentes nos discos dos anos 1970.

"NERECI" - Boa parte da crítica vê os três discos que Djavan gravou na EMI-Odeon, da qual foi contratado de 1978 a 1981, como os melhores de sua carreira. A balançante Nereci está no primeiro deles. Com ecos de afrobeat, a música que fala de uma mulher que morreu afogada traz a participação de Marizinha, do Trio Esperança. À época, a cantora fazia sucesso com Mais uma vez (conhecida popularmente como Melô do Vagabundo, por começar com os versos “Acordo tarde/ Quase ao meio-dia”), lançada em compacto. Nereci entrou em coletâneas internacionais de música brasileira lançadas pela EMI nos anos 1990.

"ALUMBRAMENTO" - Faixa-título do disco lançado pelo alagoano em 1980 – o mesmo de Meu bem querer e Lambada de serpente. A letra de Chico Buarque, que participou do disco cantando sua A rosa, descreve com sutileza a primeira relação sexual de um adolescente. Teve gravação posterior de Maria Creuza.


"A ILHA" - É estranho constatar que Açaí é hoje mais lembrada que esta música. Afinal, Roberto Carlos a lançou com sucesso em seu disco de 1980. Regravada por Djavan em Seduzir, seu último (e melhor) disco na EMI-Odeon, foi feita sob medida para o Rei, que alterou duas palavras em seu registro. “Empestado” foi substituída por “espalhado” e “candente” por “brilhante”. Procure saber.

"TOTAL ABANDONO" - Emílio Santiago registrou a música três anos antes em seu Emílio e Djavan a recuperou em Seduzir. Na companhia de sua competente banda à época, a Sururu de Capote, o alagoano fala de vingança amorosa quase de maneira joãogilbertiana, sem floreios ou arroubos na linha de Oceano.

"ESFINGE" - Outro daqueles sucessos de Djavan que a açaí guardiã do tempo se encarregou de apagar. Gravada no blockbuster Luz, primeiro disco do artista na CBS, foi incluída na trilha da novela global Sol de verão (1981). Dá até pra dizer que é uma pré-Oceano, retratando o mar que traz o amor. Mas é muito melhor. Conta com a participação das lendas Jerry Hey no trompete e Bill Reichenbach Jr, no trombone. E os indefectíveis djubidju's.

"CANTO DA LIRA" - É uma ovelha desgarrada em Lilás, disco eletrônico que, ouvido hoje, soa datadíssimo, apesar de ter Esquinas. Não funciona muito bem dentro do álbum a música que Djavan fez para Wanderléa registrar em Mais que a paixão (1978), acompanhada por seu violão. A versão autoral é calcada na tecladaria, mas consegue manter o pé no regionalismo graças ao arranjo de Oscar Castro Neves.

"BEIRAL" - Djavan já disse em entrevistas que “errou” em Meu lado, disco de 1986. Provavelmente foi o álbum do artista lançado na década de 80 que menos tocou – e curiosamente lembra a fase EMI-Odeon, por ter sido o primeiro a ser gravado no Brasil em muitos anos. Beiral abria Meu lado trazendo um violão impecável sob um naipe de metais explosivo que ainda hoje deixa muito gringo de queixo caído por aí.

"ALÍVIO" - A parceria com o baixista Arthur Maia está no disco Coisa de acender (1992), o mais pop da carreira de Djavan. Previsto para ser lançado no final de 1991, foi adiado por atritos entre o produtor Ronnie Foster e o artista, que a partir daí assume o controle total de seus álbuns. A excelente balada chegou a tocar em rádio, mas foi eclipsada por Linha do Equador e Se, do mesmo álbum. Mart'nália a
regravou em 2008.

"NUVEM NEGRA" - A última da lista nunca foi gravada por seu autor, apesar de pedidos de fãs. Ganhou um registro demolidor de Gal Costa em O sorriso do gato de Alice. Melancólica e perfeita.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

TIANASTÁCIA

E lá vem o Tianastácia, banda mineira lançada no fim dos anos 90 a bordo do hit Cabrobró (lembra?), lançando seu disco novo. Os caras soltaram o independente Love love, com produção de Liminha.E bateram um papo rápido comigo para o O Dia.



TIANASTÁCIA: INDEPENDENTES E TOTALMENTE NO CONTROLE
Com hits como Cabrobró no currículo, banda mineira banda vai do rock à música infantil em Love love
Publicado em O Dia em 22 de outubro de 2013

Mudanças de formação, passagens por gravadoras, hits como Cabrobró e a volta ao mercado independente marcaram a banda mineira Tianastácia. O grupo de Podé (voz, violão), Maurinho (voz, violão), Glauco (bateria), Beto (baixo e guitarra) e Antônio Júlio (guitarra, voz) lança o 11º álbum, Love love, com produção de Liminha.

“Pegamos o final do auge do mercado fonográfico na EMI”, lembra Maurinho, que divide com os colegas de banda o sobrenome “Nastácia”, como os Ramones. “Gravadora é uma engrenagem. Se você ficar em primeiro plano, vale a pena. Hoje temos controle do nosso trabalho”.

Liminha tocou e cantou em algumas músicas e é co-autor da faixa de abertura, Alô, alô, alô. Também foi homenageado com a regravação de Posso perder minha mulher, minha mãe, desde que eu tenha o rock´n roll, de sua ex-banda, Mutantes. “Fizemos uma versão eletrônica, ele topou desconstruir a música. Quando o procuramos, pensamos que o máximo que poderíamos ouvir era um ‘não’. Mas ele curtia a banda”, conta Maurinho.

O novo álbum mistura ska, country, rock clássico e traz um lado infantil na faixa-título, que brinca com nomes de raças de cachorros — e foi gravada recentemente também pela atriz mirim Larissa Manoela, da novela Carrossel (SBT). Numa época em que assovios e cantadas viram tema de discussão no Facebook, falam de tesão em Quando ela passa, a mulherada fica até sem graça. “Mas não dá pra generalizar, né? O assovio do tarado é diferente do cara que está admirando a mulher”, diz o músico.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

LUAN SANTANA, VOCÊ AQUI DE NOVO?

Fui a São Paulo cobrir o lançamento de O nosso tempo é hoje, novo DVD de Luan Santana (volte aqui, não fuja!).

Segue aí a matéria que saiu no
O Dia, com o que ele falou na coletiva.

Um tempo antes, assisti à gravação do DVD na Arena Maeda, em Itu (SP). Rolou uma coletiva lá, que não rendeu nada. Pedi um papo por e-mail que rendeu essa matéria, também publicada em
O Dia.

Leia mesmo se detestar Luan Santana. Obrigado.



TERCEIRO DVD DE LUAN SANTANA MOSTRA FÃS QUE ACAMPARAM PARA ASSISTIR Á GRAVAÇÃO
O nosso tempo é hoje invade as barracas das admiradoras, armadas na entrada da Arena Maeda, em São Paulo
Publicado em O Dia em 19 de outubro de 2013

O mundo de Luan Santana é composto por letras românticas e derramadas, sonoridades pop-sertanejas e por fãs que, à moda das seguidoras de Justin Bieber, acampam na porta dos lugares onde seu ídolo toca. Em retribuição, o terceiro DVD do cantor, O nosso tempo é hoje invade as barracas das admiradoras, armadas na entrada da Arena Maeda, em Itu (SP), onde houve a gravação, em julho. E traz entrevistas com algumas delas, no extra Construindo um mundo

“Elas estavam lá acampadas dois dias antes da gravação!”, espanta-se Luan, durante a coletiva de lançamento do DVD — exibido para fãs e imprensa no Cinemark do Shopping Cidade Jardim, em São Paulo. “Quando tem show, elas já compram a passagem, fazem amizade com alguém da cidade em que vou cantar. Mas fico muito preocupado com a integridade física delas. Já vi gente passar fome e frio na fila dos shows”.

O DVD, que traz hits como Te esperando e Sogrão caprichou, traz mudanças para Luan. Lançado este fim de semana em 18 salas de cinema em todo o Brasil, sela a união entre o sertanejo e o clima da música eletrônica. A grandiosidade do cenário em 360°, com enormes painéis de led, assusta.

“Queríamos que o show fosse como os grandes festivais de eletrônico do mundo. As músicas novas têm essa pegada”, diz, referindo-se a canções como a faixa-título. “Eu queria um show grande, mas que ficássemos perto do público. O palco abraça a plateia. Os próximos DVDs vão ter mais inovações”.

Luan confessa que foi a primeira vez que se envolveu 100% com um produto. “Chamei no peito. Falei: ‘Esse DVD é meu, vai ser do meu jeito’. Cheguei a pensar em ter convidados, mas o Dudu Borges (produtor) exigiu que fosse só eu”, conta.

Luan, que recebeu o pai, Amarildo, a mãe, Marizete, e a irmã, Bruna, na coletiva, só daria mesmo era uma modificada nos efeitos do DVD. “Acho que deixaram a desejar. Os que mais funcionam são os produzidos lá fora, e usamos os efeitos nacionais”, conta.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

VINICIUS 100 ANOS

Fica aí como registro minha única contribuição à comemoração do centenário de Vinicius de Moraes, que foi pautado durante toda a semana aqui no Caderno D de O Dia: um pouco dos lançamentos do poetinha que estão chegando às lojas, incluindo a nova versão de A arca de Noé, com nomes como Péricles e Seu Jorge (e Erasmo Carlos e Chico Buarque).

TODA A ARCA DE VINICIUS
Centenário do artista é marcado por lançamentos que passeiam pelas diversas áreas de sua extensa obra
Publicado por O Dia em 12 de outubro de 2013


Onde encontrar o verdadeiro Vinicius de Moraes? Em vários lugares: na sua música, na sua poesia e nas diversas fases que viveu. Tudo isso ressurge com força total no ano do centenário do poeta, cantor, compositor e multi-homem. Entre as novidades, está o site oficial do artista (viniciusdemoraes.com.br), que volta repaginado à meia-noite do dia 19, com fotos inéditas e toda a sua produção.

“O site é o nosso presente e o maior investimento que a gente já fez”, diz a filha Maria Gurjão de Moraes, testemunha da eternidade da obra de Vinicius, ao lado dos irmãos. “Já fomos a muitas escolas que o homenagearam”, conta Georgiana de Moraes, outra filha sua. “É muito fofo! Umas criancinhas de 5 anos apaixonadas, cantando Vinicius! E que falam como se fossem íntimas dele”, completa Maria.

Para relembrar a música, um item precioso é a caixa A bênção, Vinicius — A Arca do Poeta (Universal), com 20 CDs cobrindo toda sua carreira — incluídas aí duas coletâneas. A vida tem sempre razão, que traz clássicos de Vinicius relidos por nomes como Zeca Pagodinho, Miucha e Chico Buarque, com produção de Georgiana e Zé Milton, sai em breve. Nas livrarias, há lançamentos da Companhia das Letras, incluindo a versão de bolso da peça Orfeu da Conceição, Pois sou um bom cozinheiro (com receitas de pratos apreciados por ele), a caixa em quatro volumes ‘Vinicius de Moraes’ (incluindo itens como Livro de sonetos e Para uma menina com uma flor e as crônicas de Uma mulher chamada guitarra e Jazz & co. A Nova Fronteira compila prosa e poesia em Obras completas.

Além disso, o Teatro Sesi traz a exposição Vinicius — 100 Anos, a partir de terça, com 200 itens (incluindo fotos, documentos e objetos). Na Argentina, país da penúltima mulher do poeta, Marta Rodrigues, saem livro (Antologia sustancial de poemas y canciones) e duas exposições (uma organizada por ela, outra por Pedro, filho de Vinicius). E, previsto para novembro, um show com vários artistas em que apareceria o holograma de Vinicius. Será?

A porta da Arca de Noé foi aberta de novo, com 15 das melhores canções dos dois álbuns da série, de 1980 e 1981, regravadas. O CD A arca de Noé (Sony) acrescenta duas novas músicas (As borboletas, com Gal Costa, e O elefantinho, com Adriana Partimpim) e põe na roda Chico Buarque (O pinguim), Zeca Pagodinho (O pato), Orquestra Imperial (A foca) e um trio inesperado: Maria Bethânia, Seu Jorge e Péricles (a faixa-título, que no original trazia Chico Buarque e Milton Nascimento).

“Tirei o Péricles do contexto do pagode. Ele mandou muito bem. Adoro a voz dele”, afirma Dé Palmeira, produtor da nova versão. Já Seu Jorge quase ficou de fora. “Mandei a música para ele em MP3. Mas, quando chegou para gravar, ele achou que ia fazer o ‘Samba da Bênção’. Falou que nem conhecia a música e que não tinha conseguido pegar por e-mail. Mas rolou bem.”

Duas outras surpresas no disco são Chitãozinho & Xororó levando Corujinha (cantada por Elis Regina na Arca 2) para o clima dos sertões. E Erasmo Carlos dando um clima Ramones/Beach Boys para O pintinho, originalmente gravada pelas Frenéticas. “O Erasmo me fez perceber que são dois personagens na letra: um galo e um pintinho. E o pinto aparece de casaco de couro e óculos escuros!”, brinca Dé.


Para recordar as Arcas originais, tem os dois CDs na caixa A bênção, Vinicius. E muitos fonogramas originais no DVD Chico & Vinicius para crianças, com os áudios de músicas de álbuns como Arca de Noé e Os Saltimbancos.



quarta-feira, 16 de outubro de 2013

MUSICAL DO CAZUZA

Fui assistir a um ensaio do musical Cazuza - Pro dia nascer feliz, que acaba de estrear no Theatro Net, em Copacabana. Demos uma matéria sobre a peça aqui no O Dia. Leia aí.



CAZUZA - PRO DIA NASCER FELIZ EXPÕE TODO O LADO TRANSGRESSOR DO CANTOR
Poesia e música marcam musical, que não deixa temas como drogas e homossexualidade de lado
Publicado em O Dia em 03 de outubro de 2013

Em tempos de manifestações, Cazuza — Pro dia nascer feliz, o musical promete emoções fortes para os fãs do cantor de Exagerado. Dirigida por João Fonseca (com roteiro de Aloísio de Abreu), a peça, que estreia amanhã no Theatro Net, em Copacabana, não esquece nem do dia em que Cazuza, enraivecido, cuspiu numa bandeira brasileira atirada ao palco de um show seu, em 1988. 

“O Cazuza ainda diz que cuspiria de novo”, conta Aloísio. “Era o Brasil da morte do Chico Mendes, dos 900% de inflação. É como se ele estivesse falando de hoje”, lembra o roteirista sobre o cantor, que, se fosse vivo, seria um veterano de 55 anos.

As músicas dão o tom do espetáculo. Pro dia nascer feliz abre a peça numa cena em que Cazuza escreve poesia, observado pelos pais (Lucinha e João Araújo, interpretados por Susana Ribeiro e Marcelo Várzea). Músicas como Exagerado, Ideologia e Codinome beija-flor pontuam brigas com a família, farras com os amigos (como Bebel Gilberto, interpretada por Yasmin Gomlevsky), a entrada para o Barão Vermelho (o parceiro Frejat é interpretado por Thiago Machado).

Temas como drogas e homossexualidade não ficam de fora. E, ao contrário do que aconteceu no filme Cazuza — O tempo não para, de Sandra Werneck e Walter Carvalho, Ney Matogrosso, que teve um romance com o cantor, aparece. É interpretado por Fabiano Medeiros. 

“Há cenas de beijo entre eles. Mas focamos no fato de ele ter sido padrinho musical do Cazuza”, conta João. “Nessa época de (Marco) Feliciano (presidente da Comissão de Direitos Humanos), é importante falar do Cazuza. Antes de qualquer rótulo, ele era um jovem livre”.

O ator escolhido para o papel principal, Emílio Dantas, tem o que a equipe chama de “vibe Cazuza”. “Fui ao teste sem ter decorado todas as cenas. Não decorei porque passei o tempo todo vendo vídeos do Cazuza e lendo sobre ele”, garante Emílio, que usa perucas para interpretar o Cazuza jovem e os últimos dias do cantor.

“Fui ao teste totalmente porra-louca, abraçando todo mundo, falando palavrão pra caramba. A Lucinha disse que eu falo palavrão de forma doce, igual a ele. Acredito que o Cazuza seja um estado de espírito”, conta.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

ÁGUA VIVA PIRATA

Acho que o único ser humano que lembra disso sou eu. Bom, eu e o amigo Renato Vieira, jornalista do Estadão, que me pediu várias e várias vezes para retornar esse assunto aqui no blog. Talvez o Emilio Pacheco lembre.

Em 1980, pouco depois de sair a trilha internacional da novela Água viva, a Continental (uma das maiores gravadoras brasileiras da época, absorvida depois pela Warner) decidiu provocar a Som Livre (selo da Rede Globo, como você sabe) lançando uma versão própria do LP da trilha internacional da novela. Com todos os temas substituídos por covers. As músicas internacionais da trilha - sucessos como D.I.S.C.O, do Ottawan, I don't want to fall in love again, do Voyage e Love I need, de Jimmy Cliff - apareciam regravadas por artistas brasileiros.

A Som Livre, claro, foi em cima. Processou a Continental por plágio, já que o nome da novela era utilizado na capa do disco - e o trabalho gráfico ainda continha pranchas de windsurf, igualzinho à capa do álbum lançado pela Som Livre.

Lembro de uma versão dessa capa em que apareciam várias pranchas e o nome "água viva" surgia num projeto gráfico que imitava meio descaradamente a logo criada para a novela. E ainda tinha a frase "temas internacionais da novela apresentados em covers". Tenho também uma vaga lembrança desse disco ser oferecido por lojistas quando rolava um "tem, mas acabou" com a trilha sonora da Som Livre. A única versão que eu tenho achado por aí nos Mercados Livres e e-Bays da vida, é a da capa que aparece acima.

O lance foi mais ou menos explicado na época, lembro bem, por um número antigo da revista Som Três. A Continental decidiu simplesmente protestar contra o fato de a Som Livre, por ser a gravadora da Globo, ter propagandas dos seus discos exibidas a todo momento na televisão - e que televisão, já que a Globo era a dona da audiência, distante mil pontos do segundo lugar, com a Tupi cambaleando e as outras estações resfolegando. E lançou o disco só para causar e depois reclamar da desproporcionalidade da ação.

A verdade é que discos de outras gravadoras que faziam referências a novelas da Globo já eram comuns. A Philips já lançou um compacto com as melhores músicas de Raul Seixas lançadas na novela O rebu (1974), quase toda montada com músicas dele e de Paulo Coelho. Outros selinhos já lançaram EPs com "os melhores temas da novela tal" - um deles, salvo engano, foi a RGE, que pôs nas lojas um disco com duas músicas de Elton John incluídas em trilhas de novela, mais umas de outros artistas. Quem tiver saco, vasculhe o seminal Teledramaturgia.com, que traz isso tudo. Estou tirando tudo da minha memória.

Fui dar uma busca na internet sobre o assunto e, olha só, achei esse texto acadêmico aqui, produzido em 2008, que fala da história das trilhas sonoras da Som Livre, e tem informações interessantes. Vale dar uma lida. Os números da Som Livre e a maneira como ela era anunciada na Rede Globo realmente assustavam. Inclusive, acredito que poucas vezes tenham aparecido propagandas de discos que não fossem da Som Livre na televisão brasileira.

O ridículo da situação ficava, na verdade, mais na mão da Som Livre. Água viva internacional trazia Do that to me one more time, sucesso da dupla americana Captain & Tennille. Mas regravado por um grupo brasileiro chamado Susan Case & Sound Around. Ou seja: um cover. A tal Som Três que eviscerava o caso dizia que "à dupla não interessou a inclusão de uma música numa novela lááááá no Brasil".

LORENA SIMPSON

Saiu outro dia no O Dia: uma conversa com Lorena Simpson, cantora brasileira de pop eletrônico que canta em inglês e que costuma ser confundida com cantora griga até mesmo por brasileiros lá fora. Ela está com um show agendado no Rio, no qual divide o palco com Anitta e Valesca Popozuda. Leia mesmo se detestar essas duas e não fizer a menor questão de conhecer Lorena.



CANTORA LORENA SIMPSON PREPARA MEGASHOW NO BRASIL
Loura alcançou sucesso após soltar a voz em inglês e lançar carreira internacional
Por Ricardo Schott
Publicado em O Dia em 07 de outubro de 2013

Nascida em Manaus, a provocante cantora e dançarina Lorena Simpson, 26, é loura, tem nome e aparência gringos (“meu pai tinha ascendência irlandesa”, conta), canta pop eletrônico em inglês e, ainda pouco conhecida no Brasil, começou a trilhar carreira internacional via turnês e singles como Can´t stop loving you e Feel da funk.
“Lá fora, as pessoas pensam que sou canadense ou americana”, diz ela, que volta ao Brasil com a turnê To the ground e com o EP Lorena Simpson, a ser lançado este mês no iTunes, e em formato físico pela Universal. “Ainda acontece de, em shows ou entrevistas, brasileiros conversarem comigo em inglês. Numa dessas vezes, falei em português e ouvi: ‘Nossa, você fala português muito bem!’”, brinca.

O projeto de Lorena, que deixou Manaus aos 17 anos — e chegou a fazer parte do time de bailarinos da cantora Kelly Key — começou se expressando em português, antes de cair dentro do idioma de Shakespeare.


“Eu tinha uma sonoridade mais funk-pop, como a que está na moda hoje”, recorda. “Procurei uma empresa para mostrar meu som e me sugeriram cantar em inglês porque dá mais certo no meio de música eletrônica. Na época só tinha a Luka, com Tô nem aí, cantando em português”.
A nova turnê estreou em São Paulo na sexta. Depois passa por Chile e Equador, até chegar ao Rio em 31 de outubro, quando divide o palco com Anitta e Valesca Popozuda no Olimpo, na Penha.

“O show vai ter mais bailarinos, inclusive meninas. Como dançarina, sempre quis levar essa arte para meus shows. Esse tipo de espetáculo já está mais popularizado, a Anitta faz shows com 20 bailarinos! Os cantores sertanejos sempre fizeram esse tipo de show”, conta Lorena, fã de artistas performáticos como Beyoncé, Lady Gaga, Madonna e Michael Jackson. “Vi o show da Beyoncé no Brasil em 2010 bem perto do palco. O do Rock in Rio, vi pela televisão. Ela não desmonta o carão e a pose de diva em momento algum, mesmo diante das pessoas gritando por ela”.


E será que Lorena, candidata ao cargo de nova diva da dance music brasileira (e, para quem se habilitar, solteiríssima), também segura o mesmo rojão no palco? “Não por tanto tempo. Até porque meu show tem vários climas e vou variando conforme a música”, conta.

Assim como nos espetáculos da diva americana, Lorena também faz trocas de roupa durante a apresentação e abusa da sensualidade, com pouco pano e roupas de couro. “Mas no final tem uma parte mais romântica, com roupas leves”.

A faixa de trabalho do próximo EP (ainda sem previsão de lançamento) é This moment, que sai em single. Entre os outros títulos do álbum, Glad for tonight e To the ground (esta, apenas na versão física). “O disco tem sonoridades voltadas para a dance music dos anos 90, para o eletropop... Coisas bem variadas”, adianta.

FOI HOJE

Algumas observações sobre o show do Black Sabbath no Rio.

- Não esperava de jeito algum que a banda tocasse uma música que para mim sempre foi lado Z, Under the sun (do Black Sabbath vol.4, de 1972). De brinde, trouxeram um vídeo que mostrava os poderes por trás da religião católica (interessante é o vídeo terminar com uma imagem do Papa Bento 16, e não do Francisco).

- O show fica devendo vários hits e lados-B interessantes, mas foi um showzaço. Tony Iommi deu uma provocada no público inserindo a intro de Sabbath bloody sabbath antes de Paranoid, no bis - mas a música poderia ter entrado no show.

- Ozzy Osbourne é um grande frontman. Parecia realmente emocionado de estar ali, assim como todos da banda. E mandou uma lição interessante para todos ali: "Hahaha, é muito bom ser fucking crazy, eu sou fucking crazy!"

- Tony Iommi é a personificação rocker dos personagens do livro O poder dos quietos, da pesquisadora americana Susan Cain. Fez alguns dos maiores riffs da história do rock, toca feito um maluco e parece até que não é com ele. Pouco se comunica com a plateia - em algumas músicas fez o sinal lml, de "metal", timidamente.

- Não, não rolou Changes no show. Que bom.

- Emocionante ouvir Black Sabbath, N.I.B. e Behind the wall of sleep quase como no disco - algumas músicas só alguns tons abaixo para Ozzy poder acompanhar. Faltou The wizard.

- Bill Ward faz falta na bateria. Mas seria o Bill Ward de 1973. Tommy Clufetos, baterista atual do Sabbath, é um cavalo no instrumento. Desce a lenha de forma impressionante e faz ótimos solos, que provavelmente não poderiam ser feitos por Bill agora. Deixou fãs na Apoteose.

- Não, Ozzy não se vestiu com nenhuma bandeira de país. Em Dirty women, apenas cantou a música - uma grande canção perdida do fim do seu período no Black Sabbath.

- Quem babou por Clufetos espancando as peles de bateria no solo Rat salad, pode esquecer: o verdadeiro teste dele foi Behind the wall of sleep, com batida reta e poucas possibilidades de voos, viradas e solos. Você acha que qualquer baterista de heavy metal consegue segurar aquela batida, que é praticamente soul?

- Não entendo quem gosta de Megadeth. A banda tem músicas absurdamente iguais e, na moral, vi o show apenas para tentar mudar de opinião sobre eles. Não deu. Dave Mustaine, o líder, estava bem mais simpático do que o normal.

- Frase da noite, dita por um sujeito após o show. "Cara, de uma coisa você pode ter certeza: nós fomos testemunhas do que nós vimos!"

Amanhã tem mais.






durty woma

sábado, 12 de outubro de 2013

É AMANHÃ!

Minha noite de domingo é desses caras aí.

Eu já vi o Black Sabbath uma vez. Em 1992, lançamento de um disco até legal, Dehumanizer, com Ronnie James Dio no vocal. Foi legal, mas não inesquecível. Não sei direito o motivo, mas não me animei para ver o Heaven And Hell (o nome que a formação do Sabbath com Dio ganharia depois) quando estiveram aqui.

Acho que o Sabbath esteve aqui com Tony Martin no vocal também, certo? Não me animaria mesmo. Foi a formação que fez alguns dos discos mais ridículos da história do rock. Da história do rock, veja bem.

Até mesmo a assessoria de imprensa anda dizendo que é o "retorno da formação clássica". Tá louco. O quarteto que gravou discos como Black Sabbath (1970) e Sabbath bloody sabbath (1973) andou por aí há alguns anos, entre os anos 90 e 00 e mal tocou no Brasil. Era essa a formação que precisava ter vindo. Bill Ward vai fazer falta e ponto final.

Mas dane-se. A banda que me ensinou de verdade a gostar de rock pesado vai estar com três quartos de sua formação original na minha frente. Os caras que, em músicas como Black Sabbath, N.I.B. e Megalomania me ensinaram a tomar cuidado - às vezes o diabo aparece vestido da melhor maneira para seduzir você. Com eles eu chorei (sério) ouvindo belezas como Spiral architect e Wheels of confusion, me diverti escutando War pigs e Paranoid, me indignei ouvindo Children of the grave, bati cabeça ouvindo The sympton of the universe. E vai rolar amanhã. Como dizia aquela outra banda que está vindo aí - e toca semana que vem - "não quero perder um minuto sequer".

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

BLACK SABBATH NO "O DIA"

Eu vi o Ozzy. E o Geezer. Só não vi o Tony porque ele faltou à coletiva que o Black Sabbath fez para falar da turnê pelo Brasil, no Hotel Fasano, em Ipanema, na última terça. E adoraria ter visto aquele que considero um dos maiores bateristas do mundo, Bill Ward. Não foi dessa vez.

Segue aí o que rolou na coletiva do grupo - e foi publicado em
O Dia. Se um dia fizerem uma biografia não-autorizada minha, não esqueçam de uma coisa: quem perguntou sobre a confusão que Ozzy Osbourne fez com a bandeira do Brasil na Argentina durante a coletiva fui eu. Tenho gravado em áudio e posso provar (haha).



MÍTICO CANTOR OZZY OSBOURNE VEM AO BRASIL PELA PRIMEIRA VEZ COM O BLACK SABBATH
Roqueiro e grupo que o lançou iniciam turnê nesta quarta no Brasil e passam pela Praça da Apoteose, no Rio
Publicado em O Dia em 9 de outubro de 2013

Já aconteceu com milhares de cantores de música sertaneja ou de axé: chegar a uma cidade, Santo André por exemplo, e agradecer “Obrigado, São Bernardo do Campo!” Ozzy Osbourne, vocalista do Black Sabbath — que inicia turnê nesta quarta no Brasil e passa pela Praça da Apoteose, aqui no Rio, no domingo — e homem com histórico de excessos, não poderia cometer um erro geográfico qualquer. Tinha que ser "o" erro. No último domingo, praticamente vestiu uma bandeira brasileira durante a execução do hit Dirty women num show da banda na... Argentina, país que é eterno rival do Brasil no futebol. 

“Alguém jogou uma bandeira do Peru no palco, nem lembro de ter uma bandeira brasileira lá”,  disfarçou o baixista Geezer Butler, durante a coletiva da banda nesta terça, no Hotel  Fasano, em Ipanema. Ozzy, com cara de “eu fiz isso?”, foi mais direto: “Foi um acidente.  Muitas vezes nem sei em que país estou. O fã jogou uma bandeira no palco e eu resolvi pegá-la. Bom, foi um erro mundial!”, afirmou, rindo. A mancada do cantor rendeu algumas vaias e uma notícia no periódico argentino Clarín.

Quarenta e três anos após a estreia com o álbum Black Sabbath, a rotina do trio Geezer, Ozzy e Tony Iommi (guitarra) é bem mais saudável. O guitarrista do grupo britânico, que está se tratando de um linfoma, toma evidentes cuidados com a saúde e não foi à entrevista coletiva (a produção alegou que ele “passara mal”, sem mais detalhes). 


“Na época, era sexo, drogas e rock’n roll. Hoje é chá, Coca-Cola e voltar para o quarto após o show”, diz Geezer. “A grande diferença é que estávamos drogados e hoje, não”, conta Ozzy.

As drogas comeram boa parte das lembranças do vocalista sobre um dos melhores discos da banda, Sabbath Bloody Sabbath, que completa 40 anos — e cujas músicas foram ignoradas no atual set list. “Quarenta anos? Isso tudo?”, indaga Ozzy, virando-se para Geezer. “Minhas memórias são de muitas drogas e só. Minha melhor experiência no Black Sabbath foi saber sobre o LSD. A pior foi tomá-lo”, brinca.


O Sabbath lança em 26 de novembro Live... Gathered in their masses, DVD gravado logo no começo da tour de 2013, em 29 de abril e 1º de maio, na Austrália. Mas a razão de existir da turnê é o novo álbum de inéditas, 13, produzido pelo barbudão mal-encarado Rick Rubin, que já trabalhou com grupos como Slayer e System of a Down.

“Ele é amigo do Ozzy e já havia falado que, caso voltássemos, ele queria produzir. Foi natural”, lembra o baixista. “Fizemos como no começo da carreira, com músicas a partir de gravações ao vivo”. 

No repertório, pintam, além de hits como Black Sabbath, Iron Man, Paranoid e Children of the grave, novidades como End of the beggining e God is dead?. Esta traz questionamentos sobre a existência de Deus e vem deixando cristãos de cabelo em pé. “Normal. Não seríamos o Black Sabbath se não tivéssemos problemas com a igreja”, diverte-se Ozzy.

Apesar do novo giro da banda se chamar Reunion tour, não é bem isso. O grupo segue perneta sem o baterista original, Bill Ward, que não concordou com o valor oferecido a ele para voltar com o Sabbath. Ozzy declarou recentemente que o músico está “acima do peso” e apresentava problemas de memória, que o levavam a grudar post-its no kit de bateria. Ao Brasil, quem vem na batera é Tommy Clufetos, da banda de Ozzy (Adam Wakeman, filho do tecladista Rick Wakeman, toca teclados e guitarra nos shows).

“Fico bastante triste por Bill Ward não estar aqui com a gente, mas precisávamos continuar e fazer nossas coisas”, explica Ozzy. O vocalista não arrisca afirmar se o grupo vai dar uma de Paul McCartney e voltar mais vezes ao Brasil. “Depende da saúde do Tony Iommi. Estamos cruzando os dedos para que dê tudo certo”.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

É, PROCURE SABER MESMO

Já tem gente muito boa falando sobre essa questão do Procure Saber - o grupo do qual fazem parte Paula Lavigne, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Djavan e mais uma porrada de nomões da MPB. E que, afirma-se, tem intenções mais do que claras de proibir o lançamento de biografias não-autorizadas.

Em seu Twitter, Paula Lavigne desaconselha veementemente a leitura desta matéria da Folha de S.Paulo aqui - que ela tentou ler antes que fosse publicada. E recomenda a leitura deste artigo, no qual ela tenta explicar o que é o Procure Saber e quais são as ideias do grupo.

No Twitter, ela também diz que tem a conversa com a Folha inteira gravada. Pede que a colunista Monica Bergamo publique a gravação do que ela disse, afirmando que aí está "a verdade". O papo está progredindo no Twitter. Uma boa oportunidade para seguir a empresária e a jornalista da Folha.

Em outro tuíte, Paula diz ter "tudo gravado do que falei com a Folha e botaram do jeito

deles" - não sei se ela está querendo dizer que ela própria gravou a conversa, como o ex-Los Hermanos Rodrigo Amarante fazia há alguns anos.

Tenho muita dificuldade de entender quais são as reais diferenças entre o artigo de Paula e a reportagem da Folha, que fala em vetar biografias não-autorizadas.

O texto dela fala em "expor a vida íntima e privada de homens e mulheres públicos, os pedaços de vida que essas pessoas têm e que são absolutamente privados, não serve aos nobres objetivos da instrução e do conhecimento, e sim para alimentar uma das mais conhecidas fraquezas do ser humano: a fofoca". 

O problema é quem decide o que é fofoca e o que não é. E o que serve aos tais nobres (nobres de quem? dela?) objetivos que ela coloca ou não. E qual seria a razão de eu precisar da empresária do Caetano Veloso, e de um pool de artistas que provavelmente têm muito a esconder e interesses a tratar, para decidir o que eu quero saber e o que eu posso ler.

Isso porque, como leitor de jornal e de biografias, e como pessoa que, por força da profissão, escreve em jornal, o que eu mais tenho são perguntas sem resposta. E todas envolvem as vidas particulares de determinados artistas, suas falhas, suas filhadaputices e escrotidões. Falo delas um dia desses, quando tiver tempo. Algumas delas rendem pautas ótimas, acredito. Quando eu publicar, estejam à vontade para roubar. Escrevam, apurem e entrevistem seriamente pessoas sobre isso. Quero ler.

É complicado viver num mundo em que artistas são heróis, deuses astronautas. Não humanizar o artista, a meu ver, indica um apequenamento de sua própria arte. E, sim, desculpa aí: vidas existem para serem discutidas. O velho papo de que "pessoas inteligentes falam sobre coisas, pessoas burras falam sobre pessoas" cai por terra na primeira discussão de bar, quase sempre. 

Autores de biografias não-autorizadas atraem energias ruins, ódios, cusparadas públicas, processos. Frank Sinatra teve fatos nada gloriosos revelados na biografia His way, escrita pela americana Kitty Kelley - uma biógrafa que, ela própria, pede uma biografia não-autorizada sobre sua vida e obra. Declarou que queria ver Kitty atropelada. Que adoraria lhe dar um soco na cara. Mas o livro foi lido por quem quis. Foi respeitado como um trabalho, que rendeu dinheiro para todo mundo. E não é um livro do biografado, para render dinheiro para ele.

Até o presente momento, não soube de nenhuma proposta da própria Paula em se aproximar de jornalistas, biógrafos ou donos de editora para conversar e debater o assunto. Soube apenas que ela costuma citar nomes de editoras alegando que fazem parte de um "movimento puramente comercial" -como se artistas tomassem atitudes baseadas em intenções puramente artísticas e como se a arte, em todo o mundo, Brasil inclusive, não fosse uma enorme força comercial que envolve uma série de produtos. E que tentou ler a matéria da Folha de S.Paulo antes de ser publicada e enviou um artigo para os jornais. Nada disso é debate. Paula também deu uma boa entrevista ao jornalista Pedro Alexandre Sanches, no site Farofafá.

O papo ainda vai esquentar. Mas já está clara a falta de tato e de estratégia do Procure Saber em lidar com a imprensa - segmento que, em qualquer país, é quase sempre o primeiro a ser amordaçado em tempos de arrocho - quando rolam comportamentos bizarros como pedir para ler a matéria antes de ser publicada. Em qualquer lugar do mundo, jornalismo, assim como qualquer profissão, é baseado na confiança e no profissionalismo. Se o repórter escrever bosta, a fonte seca. Ou consulta-se um advogado para ver qual a melhor atitude a tomar. Qualquer coisa fora isso fica próximo do intimidatório. Ou do corte de cabeças.


Os textos abaixo tocam em temas bastante interessantes e, acho, devem ser lidos por qualquer pessoa (leitor ou jornalista) que tenha interesse sobre o assunto. 

ANDRÉ FORASTIERI: O jornalista do R7 toca em feridas bastante complexas dessa história toda. Nem separo nenhum trecho, leia todo. Diz mais do que eu poderia dizer.
LUIZ FERNANDO VIANNA: Uma boa resposta do jornalista ao artigo enviado por Djavan aos jornais defendendo o Procure Saber.
ANDRÉ BARCISNKI: Bom artigo do jornalista da Folha sobre o assunto. Frase boa: "Quer dizer que, enquanto não formos um 'país desenvolvido', o melhor é recorrer à censura típica das repúblicas das bananas?"
FRANK SINATRA ESTÁ RESFRIADO: Impedido de falar com o cantor dos velhos olhos azuis, o jornalista Gay Talese fez um perfil dele sem falar com o próprio, consultando pessoas próximas. Vale cada minuto que você passar lendo. Frank Sinatra autorizaria? Isso faz diferença para você? Ok, direito seu se faz.
MICK WALL: De volta ao blog do André Barcinski, segue aí uma excelente entrevista dele com Mick Wall, autor de biografias que evisceram nomes como Metallica e Led Zeppelin. Fica a lição: "Trabalhei com bandas grandes, como Thin Lizzy, Dire Straits e Black Sabbath, e isso me abriu os olhos para um fato que a maioria dos fãs não percebe: artistas são os maiores filhos da puta que existem. Eles cometem tantos – às vezes mais – erros que qualquer um de nós.  São pessoas inseguras, que têm poucas chances de se dar bem na vida, e tentam agarrá-las de qualquer maneira".
JON LEE ANDERSON: O biógrafo de Che Guevara fala com o jornalista André Miranda em O Globo sobre os projetos do Procure Saber e sobre as restrições às biografias no Brasil. No fim do papo, é perguntado: se a legislação brasileira se aplicasse a outros países, algumas histórias como Frank Sinatra está resfriado, de Gay Talese; Shout!, de Philip Norman, sobre os Beatles; e até o seu Che poderiam nunca ter sido publicadas. O quão ruim seria para o leitor? Resposta: "Seria muito ruim. Como se vivêssemos numa sociedade orwelliana ou, em comparação com o mundo real, seria algo equivalente em maior ou menor grau a situações comuns em países como Rússia, Irã, China, Cuba, Sudão, Zimbábue, Síria e Arábia Saudita, alguns dos países mais repressivos do mundo".
FRANCISCO BOSCO: O colunista de O Globo, filho de João Bosco, dá suas opiniões sobre o assunto.
RUY CASTRO: O jornalista, escritor e biógrafo (e, na minha opinião, o melhor texto do Brasil) leu manifesto na Bienal do Livro contra censura às biografias.

MARCOS LAURO: O jornalista e radialista paulistano levanta outras questões bacanas e já arrasa no título: "Procure saber o quanto isso não faz sentido numa democracia".
HENRIQUE BARTSCH: Jornalista, músico e escritor, morto em 2011, Bart (como era conhecido) escreveu uma das biografias mais criativas já feitas no Brasil: Rita Lee mora ao lado, revelando casos bizarros sobre a vida da cantora. Tudo autorizado, diga-se. O post em questão fala um pouco de suas impressões a respeito de Pra mim chega, biografia de Torquato Neto, escrita por um ás da reportagem, Toninho Vaz. E... bom, leia.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

ENQUANTO ROLAVA "ÁGUA VIVA" NA SUA TELINHA, O ROCK ERA ISSO

Primeiro capítulo da novela Água viva, em reprise no canal (opa) Viva. Numa festa na casa do personagem interpretado por Reginaldo Farias, Nelson Fragonard, rola um violão, tocado pelo galã surfista Kadu Moliterno - que interpreta o Bruno e vinha de outras aparições em novelas "jovens", como O pulo do gato (1978).

Nada de rock ou coisa parecida: ele pega o instrumento e faz a saideira de algo que lembra mais um bolero, ou um tango. Acabou aí. A trilha sonora nacional era repleta de temas de música popular brasileira. Na internacional, imperava a disco music. E tinha também um reggae, interpretado por Jimmy Cliff - o estilo musical jamaicano era tão "popular" no Brasil (só que não) que, durante uma das primeiras visitas do artista ao país, em 1983 (para promover o hit mundial Reggae night), revistas e jornais, em meio a entrevistas com ele, não evitavam colunas e retrancas com o título "O que é reggae?".

Em 1980 havia rock no mundo todo. Menos no Brasil. As poucas bandas brasileiras que arranhavam as paradas repetiam truques e maneirismos de grupos de décadas anteriores. Ou soavam como repetição da própria MPB.

Quando Água viva estreou, em 4 de fevereiro de 1980, o mundo do rock, aqui e lá fora, era mais ou menos esse aí. As pessoas choravam pela personagem da pequena Isabela Garcia enquanto em Manchester, na Inglaterra, o pranteado era um sujeito (Ian Curtis) que fazia sucesso por lá, mas só teria seus primeiros discos lançados no Brasil quase uma década depois e era desconhecido para quase todo mundo no país do samba. Achei engraçado pensar nisso - e como o mundo mudou. Confiram:


LED ZEPPELIN: Estava se preparando para retomar os trabalhos de vez após um disco mais ou menos, In through the outdoor (1979) e um show no festival de música de Knebworth, repleto de porradarias nos bastidores, envolvendo o grupo, o empresário Peter Grant e gente da produção. O baterista John Bonham morreu em 24 de setembro daquele ano. Em dezembro, o grupo encerraria atividades. Coda, disco de sobras de estúdio, chegaria às lojas em 1982, com uma faixa-solo-de-bateria gravada em 1976 por John Bonham, Bonzo's Montreux.

RENATO RUSSO: Estreava no palco naquele ano como baixista do grupo punk Aborto Elétrico, no Bar Só Cana, no Centro Cultural Gilberto Salomão, em Brasília. Era um show instrumental e foi o único também com o guitarrista Andre Pretorius - que voltou para sua terra natal, a África do Sul, para servir o exército. No mesmo ano, Pretorius volta para férias em Brasília e ensaia com a banda - desses encontros, surgem bases de canções como Música urbana (co-escrita por ele) e Baader-Meinhof blues, gravadas respectivamente pelo Capital Inicial e pela Legião Urbana. A morte de John Lennon, em dezembro de 1980, impactou Renato a ponto de, no primeiro aniversário da morte do ex-beatle, ele subir no palco totalmente transtornado e desconcentrado com o Aborto (o filme Somos tão jovens, de Antonio Carlos da Fontoura, reproduz essa cena, em parte).


JOY DIVISION: O vocalista Ian Curtis morria em 18 de maio daquele ano, pouco antes do
lançamento do segundo disco do grupo, Closer. O sons pós-punk da banda era praticamente desconhecido no Brasil, mas já ganhava fãs ilustres em Brasília (a galera na qual circulavam notáveis como Renato Russo, Dinho Ouro-Preto, Philippe Seabra, Fê Lemos, etc) mesmo sem que tivessem discos lançados aqui. De rock nacional, o que se ouvia nas rádios era 14 Bis, Rita Lee e A Cor do Som, que não tinham nada a ver com esse tipo de som.

ROBERTO E ERASMO: Os dois artífices da música jovem dos anos 60 estavam em status diferentes. Em 1980, Roberto já era o maior vendedor de discos do Brasil havia mais de uma década, tinha um especial anual na Rede Globo desde 1974 e lançava o álbum que trazia hits como Amante à moda antiga e Guerra dos meninos. Erasmo dava seu primeiro grande passo pós-Jovem Guarda lançando o disco Erasmo Carlos convida, com vários nomões da MPB (Maria Bethânia, Nara Leão, A Cor do Som, Wanderléia, Gilberto Gil e o próprio Roberto) relendo músicas suas. No tal disco de 1980, por sinal, Roberto fazia uma de suas raras parcerias fora da união Roberto-Erasmo, assinando Procura-se com o produtor de seus shows, Ronaldo Bôscoli.


U2: Algumas fontes na internet indicam que Boy, primeiro disco da banda, lançado naquele ano, saiu no Brasil quase que simultaneamente com a versão britânica - e foi lançado aqui pela gravadora Ariola. No Mercado Livre e no eBay não tem esse álbum para vender e os fãs de primeira hora do grupo que conheço mandaram importar o álbum, ou só foram levá-lo em 1986, quando a Warner lançou por aqui. Seja como for, o grupo só ficaria mais conhecido no país de Lulu Santos e Herbert Vianna alguns anos depois - em 1985, seus empresários chegaram a iniciar conversas com Roberto Medina sobre um show no Rock In Rio I, mas nada foi adiante.

IRON MAIDEN: Em 1980 eram uma grata revelação da chamada "nova onda do metal britânico" e arrastavam multidões para seus shows. Em abril, saía o primeiro álbum, Iron Maiden, gravado em 13 dias. Seria o único disco gravado com o guitarrista Dennis Stratton, substituído em outubro por Adrian Smith. "Dennis é um completo estúpido e uma porra de um guitarrista pop que odeia metal, mas teve a sorte de entrar no Maiden", detonou o ex-vocalista Paul Di'Anno em papo com a Classic Rock Revisited, em 2005.

RAUL SEIXAS: Um ano antes, Raul havia passado por um perrengue daqueles. Contratou uma equipe de caratecas argentinos como seguranças e um deles, Hugo Amorrotu, foi assassinado a tiros por traficantes no apartamento do cantor em Copacabana - fato explorado por vários jornais sensacionalistas. O abuso de álcool e drogas custou-lhe metade do pâncreas. Em 1980, vida nova, ou quase: o cantor surgia com aparência clean na capa de Abre-te sésamo. O álbum teve dois sucessos (Aluga-se e Rock das 'aranha') mas, graças a uma mudança na diretoria da gravadora CBS (hoje Sony), não passou disso.

ROLLING STONES: Lançavam em junho Emotional rescue, o primeiro disco do grupo após o guitarrista Keith Richards se livrar de vez do risco de ficar preso no Canadá - a polícia do país descobrira com ele em 1977 uma quantidade de heroína suficiente para enquadrá-lo como traficante. Com Mick Jagger mais interessado em curtir a vida e Keith Richards ainda chapado de heroína, o álbum (repleto de influências da disco music e dos vocais assexuados do Bee Gees na música-título) sequer teve turnê de lançamento.

KURT COBAIN: Aos 13 anos, o futuro líder do Nirvana estaria tocando guitarra e compondo (e, ok, usando drogas nada leves) em pouco tempo. Pouco tempo antes da estreia de Água viva, vivia entre brigas na casa do pai (que acaba de ter uma filha) e na da mãe (que casara-se de novo e sofria violência doméstica). Chegou a se meter em brigas no colégio, ora praticando, ora recebendo bullying. Incrível como o tempo passa rápido: o Nirvana já existia seis anos depois da novela, como "banda de punk e new wave".

R.E.M.: Tudo rápido - o vocalista Michael Stipe conheceu o guitarrista Peter Buck na loja de discos em que este trabalhava, Wuxtry Records, em Athens, em janeiro de 1980, um mês antes de Água viva. Mike Mills (baixo) e Bill Berry (bateria) chegaram junto e logo logo o grupo estaria formado. O primeiro show rolaria em 5 de abril do mesmo ano. Radio free Europe, o primeiro single, sairia em 1981. Mas a banda só começaria a ser conhecida no Brasil lá por 1987, quando The one I love começou a tocar em rádios como Cidade e Transamérica (no Rio). Nessa época, no Brasil, os radialistas referiam-se ao grupo como "reim" (e não "ar i em", na pronúncia em inglês).

RITA LEE: Lançou um de seus discos mais populares naquele ano - o álbum homônimo que inclui Ôrra meu, Lança perfume, Nem luxo nem lixo, Baila comigo, Bem me quer. Mas continuava bem mais próxima do pop do que do rock.


BLACK SABBATH: Lançava o primeiro disco com Ronnie James Dio no vocal, Heaven and
hell, em abril de 1980. O novo cantor era aclamado pelo guitarrista Tony Iommi ("ele canta em torno do riff, enquanto Ozzy Osbourne seguia o riff, como em Iron man", desdenhava). Ainda assim, merdas aconteciam. O baterista Bill Ward deixou a banda em agosto, incapaz de lidar com seu alcoolismo e muito puto com a saída de Ozzy. Alguns anos antes, deposto do cargo pela banda, o ex-empresário Patrick Meehan conseguiria os direitos sob o catálogo antigo do Sabbath. Relançou tudo à moda caralha pelo selinho NEMS (as edições brasileiras lançadas nos anos 70 e 80 pela gravadora RGE, com capas ligeiramente modificadas, surgiram desse lote) e, em 1980, ainda incluiu um disco extra, Live at last, gravado ao vivo em 1973 - péssimo negócio em termos comparativos com a nova tour do grupo.

RAMONES: Viviam o auge da única fase realmente pop da banda (não, nos anos 90 Ramones não era uma banda realmente pop - eles só tiveram um reposicionamento no mercado via grunge e ganharam hordas de fãs na América Latina). No mesmo mês em que Água viva ia para a tela da Globo, o grupo lançava o alegre End of the century, produzido pela lenda viva Phil Spector. Tiveram nele dois hits menores (Do you remember rock´n roll radio? e Rock´n roll high school) e o maior sucesso da história do quarteto (uma cover de Baby I love you, das Ronettes). Durante as gravações, Spector dava diversos defeitos: além de mixar e remixar o álbum trocentas vezes, obrigou o guitarrista Johnny Ramone a gravar o acorde inicial de Rock´n roll high school por mais de cem vezes, até se dar por satisfeito. E, você deve saber, ameaçou o baixista Dee Dee Ramone com uma pistola.