segunda-feira, 29 de abril de 2013

GRATEFUL DEAD EM 60 CDS

Traduzi essa notinha da Spinner em 2011 para o Laboratório Pop. Afinal, essa porra dessa caixa do Grateful Dead saiu? Se saísse, você teria saco de ouvir? E grana pra comprar?



DIFÍCIL É ARRUMAR TEMPO DE OUVIR...
Grateful Dead lança, a "preços promocionais", caixa de 60 CDs cobrindo toda a turnê europeia de 1972



Poucos dias depois de anunciar o projeto de um video game oficial, o Grateful Dead, grande banda lisérgica dos anos 60/70, divulga o lançamento de um box-set bastante... bom, difícil dizer algo sobre uma caixa que inclui 60 CDs (!) com as gravações de sua inesquecível turnê europeia de 1972.

Europe 72
já está em pré-venda no site do grupo. O curioso é que o set custa apenas US$ 450 - cerca de R$ 752. O site da banda anuncia que tiveram "alguns problemas técnicos" que estão causando problemas na venda. Mas quem quiser uma cópia, já pode se preparar para coçar o bolso.


"Éramos quentes na época!", lembra o guitarrista Bob Weir à Spinner, pensando na tour de 1972. Os shows passaram pela Inglaterra, Alemanha, França, Dinamarca e Holanda. "E foram significativos por serem um grande desafio para nós. Tocávamos para pessoas que não estavam familiarizadas com nosso som. Mas estávamos preparados para ouvidos abertos". A banda põe à venda apenas 7.200 cópias - os primeiros 3.000 recebem kits personalizados.

O grupo já havia lançado um álbum triplo Europe 72 em novembro de 2010. Mas agora a caixa traz cerca de 22 shows compilados do arquivo da banda. Fazendo shows que poderiam se estender por horas e horas, o GD era uma grande banda de jams ao vivo - o que a caixa deve mostrar em detalhes.

"Se alguém botasse fogo em algo no palco, isso iria se propagar. Poderia criar um riff e isso iria virar um todo coletivo. Alguém iria vir com alguma coisa no palco e isso iria fazer a banda tomar outro caminho. Era uma coisa coletiva", lembra Weir. Naquele ano, a banda fazia sua primeira tour com o pianista Keith Goudchaux. E a última com o multiinstrumentista Ronald "Pig Pen" McKernan, morto em 1973 de hemorragia gastrointestinal, por decorrência do abuso de álcool.


Os fãs de rock dos anos 60 que já contam as moedinhas podem se preparar - a banda considera a possibilidade de dar o mesmo tratamento ás suas turnês do inverno de 1973 e primavera de 1990. "Se pudermos encontrar uma era como essa, com uma linha do tempo e um desenvolvimento - e sinto que há isso - será um grande mérito fazer isso outra vez", afirma Weir.

domingo, 28 de abril de 2013

E AÍ, JORGE VERCILLO, BELEZA?



Em 11 de maio, tem Jorge Vercillo aqui no Vivo Rio, lançando o DVD Luar de sol. Em novembro de 2011, ele lançava disco e coube a mim a tarefa de bater um papinho interessante com ele para o Laboratório Pop. Confira aí, gostando do cara ou não. 



MARÉ DURADOURA
Jorge Vercillo reclama da estigmatização e ri das piadas que o Cilada fazia com seu nome: "Foi uma promoção enorme"


"Não vejo como sendo comum as pessoas fazendo piadas comigo. Pelo contrário, vejo as pessoas respeitando meu trabalho". As brincadeiras que o programa Cilada fez com Jorge Vercillo - e que culminaram no convite para que o cantor estivesse em pessoa há três anos na edição de 40 episódios do programa, aceito na hora - nunca foram vistas de forma pejorativa por ele, que lança o CD Como diria Blavatsky e volta à independência, após anos de relacionamento com gravadoras como Warner, Sony e EMI.


"O Cilada é uma grande brincadeira, um programa legal pra caramba, do qual adorei participar. Se o Bruno Mazzeo não gostasse de mim, iria brincar com outros artistas. Aquilo dá uma promoção enorme. O personagem dele não gosta do Jorge Vercillo porque é um cara chato, mesmo. É aquele cara estereotipado, ele está estereotipando essa pessoa", afirma o cantor, que não conhecia o programa ao ser convidado. "Ele me ligou e me contou o contexto. Comecei a assistir, morri de rir e fui lá".


O fato de, em muitos momentos, encarar críticas negativas a seu trabalho - geralmente classificado como imitação de Djavan em várias resenhas - o faz acreditar que está sendo estigmatizado. "Mas fazem isso com todo artista de MPB que consegue sair desse nicho. Também não posso acreditar que sou vítima do mundo. Vejo a falta de tempo para ouvir um disco - mas ouvir de verdade, não ouvir passando rápido porque há mais discos na fila. Quem gosta de um som mais sofisticado harmonicamente, gosta do meu trabalho", afirma, citando nomes de colegas como Marcos Valle, Ed Motta e Ivan Lins, que lembra referirem-se à sua música. "Tô aí, toco nas rádios adultas, em temas de novelas, loto espaços. A vida é muito generosa comigo, não tenho do que reclamar. Acho curiosa a estigmatização, mas não me abala mais".


Hora de falar do novo disco, Como diria Blavatsky. Realmente, um álbum diversificado, que vai de uma faixa-título que ele considera "intimista e camerística" ao som herdado de Billie Jean, sucesso de Michael Jackson, em Me leve a sério ("eu e meu filho adoramos o som dele", diz, lembrando de Victor, de 5 anos, cuja voz aparece em Invictor). Tem um lado brasileiro muito forte, dado pelos sambas presentes. E ainda aponta para a diversificação ao trazer o hit Sensível demais, uma canção que já foi gravada por dois nomes díspares: Maria Bethânia e a dupla Christian & Ralf. "Quero fazer uso desses elementos com minha personalidade. Não me interessa fazer um disco só de valsa ou só de bossa nova", afirma.

O conceito do álbum passa por temas como "união" e fala, na música-título, dos pensamentos da escritora e teóloga russa Helena Blavatsky (1831-1891), co-fundadora da Sociedade Teosófica, organização à qual geralmente é atribuída uma maior aproximação da ciência com a religião. Curiosidade e coincidência: a internet está loteada de sites que se propõem a relacionar artistas pop com sociedades secretas, como os Illuminati (nomes como Lady Gaga e Beyoncé, por exemplo, ganham quase diariamente interpretações como essas), e o tema vem sendo discutido por muita gente séria.


"Conheço (os Illuminati), sim. Dou uma olhada às vezes no que sai. Nem acho que sociedades secretas sejam um pensamento moderno. O que é mais moderno para mim é a palavra compartilhar. Mas compartilhar conceitos, não aquela coisa de pegar patrimônio alheio e colocar na internet", afirma Vercilo, que hoje tem uma estrutura para cuidar apenas de sua carreira, no selo Posto 9, do qual é um dos dois únicos contratados (o outro é o Kid Abelha).

"Não me sentia deixado de lado pelas gravadoras, mas sentia uma atrofia. Não havia interesse de divulgar nada. O único retorno que a gravadora tem é de vendas de discos. No meu caso, tenho retorno de direito autoral, retorno artístico. As gravadoras estão perdendo o poderio de estrutura, pagam uma carga altíssima de impostos. A pirataria tem que ser coibida com uma prática de download pago. Quem baixa música na internet, o faz por não ter outra opção".



A tal busca de Vercilo pelo conhecimento ganha ampliação na balada Eu quero a verdade. Em entrevistas, ele vem revelando que a canção quase se chamou Wikileaks, em referência à organização que vaza informações confidenciais. "Ela contesta uma relação pessoal do ser humano. Contesta o governo, as informações que passam para a gente. A gente é muito ludibriado". Vercilo acredita que até mesmo  a imagem que o mundo tem hoje do povo americano está errada. "É raro você ver um americano com uma noção boa de geografia, mas essa falta de conhecimento é incentivada. É um povo bom, são pessoas boas, criativas, mas desde  a invasão do Iraque, todos ficaram com uma imagem nociva deles. É o povo mais manipulado do mundo. Isso se deve aos governantes, que precisam sempre do lucro exacerbado da indústria bélica. Fomentam guerras, poem medo na cabeça das pessoas", crê.


Vercilo nega que tenha feito a nova música Faixa de Gaza para o público que o vaiou durante uma participação num show de Jorge Mautner e diz que a canção é endereçada a "algumas pessoas do mercado cultural e musical, como alguns editores de cadernos de jornais. São pessoas que estão num lugar muito importante para decidir quem aparece ou não, e que não têm base musical ou poética. Como produtores de TV que gostam de cinco ou seis bandinhas de rock inglesas e veem o mundo só por aí", queixa-se.


Foto: Divulgação/Leonardo Aversa

sexta-feira, 26 de abril de 2013

HUMBERTO GESSINGER VAPT-VUPT

Bati um papinho bem rápido com o ex-engenheiro do hawaii Humberto Gessinger para uma matéria que saiu no site da Trip - na época em que a revista saiu com uma edição com o tema "segurança", há alguns meses. O tema, claro, foi uma certa canção dos Engenheiros. Confira aí.


SENÃO VOCÊ DANÇA
O ex-Engenheiro do Hawaii Humberto Gessinger lembra de seu primeiro hit sulino
Publicado no site da revista Trip em 8 de fevereiro de 2013


Quase 30 anos após cantar seus versos “Você precisa de alguém que te dê segurança/senão você dança”, Humberto Gessinger se sente seguro para lançar o primeiro álbum solo em abril. Já Segurança, a canção (1985), surgiu para os Engenheiros do Hawaii numa época em que nada parecia tão tranquilo.

“A gente excursionava pelo Sul e Segurança tocava nas rádios, era a única música que conheciam da gente. Lembro que levávamos os pratos da bateria no cobertor da mãe do Carlos (Maltz, que dividia a banda com Humberto e o baixista Marcelo Pitz), presos com fita-crepe, e achávamos isso o maior profissionalismo. Fora do Sul, nem chegou a ser um grande hit”, diz Gessinger, que mal se lembrava que a música tinha sido incluída até numa trilha de novela, Corpo santo, da falida Rede Manchete (1986). A versão original saiu no primeiro álbum do grupo, Longe demais das capitais, no mesmo ano (Nota: Na verdade teve uma outra, com modificações na letra, que saiu antes no LP Rock grande do Sul, diz o amigo Emílio Pacheco)

Yuppies nos anos 80, hipsters de agora, eis o tema da letra – que fala de um bon-vivant que “tinha um Puma GT com vidro fumê” e “vestia Yves Saint Laurent”. “Um locutor de rádio falou: ‘Essa música é um hino para nós, que somos assaltados, não temos segurança!’. Mas não era nada disso!”, diz Gessinger, lembrando ter recorrido a uma ironia da qual sentia falta nas bandas. “Era para falar sobre as pessoas que buscam segurança nos símbolos de status. Aquela coisa meio playboy”, explica.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

PANAMERICANA: ROCK LATINO EM PORTUGUÊS


Barulho, muito barulho - mas com muita melodia e surpresas escondidas em cada acorde. Na semana passada tive a oportunidade de acompanhar parte do ensaio do Panamericana, grupo montado por quatro notáveis do rock nacional dos anos 80 para tocar releituras do pop-rock latino em versões em português: Dado Villa-Lobos (ex-Legião Urbana, guitarra), Toni Platão (ex-Hojerizah, vocal), Dé Palmeira (ex-Barão Vermelho, baixo) e Charles Gavin (ex-Titãs, bateria). Rolou no estúdio de Dado, o Rock It!, no Horto. O amigo Felipe O´Neill foi deslocado para fazer as fotos que você vê neste texto. O show foi semana passada e talvez algumas perguntas aí nem façam mais sentido, mas acho que ficou legal mesmo assim.

Foi coisa simples, para fazer uma matéria e uma foto para o abre de shows do Guia Show & Lazer do jornal O Dia (onde sentei praça há pouco menos de um mês). O grupo se apresentou no fim de semana passado no Oi Futuro de Ipanema, no projeto Sonoridades. Prepara um álbum, gravado no estúdio de Dado, o Rock It!, com produção de Chico Neves (Los Hermanos, O Rappa). E tem outro projeto mais ambicioso: uma série de TV para o Canal Brasil sobre rock hispânico. Confira o bate-papo na íntegra aí e aguarde pelos próximos shows da galera.

Como surgiu a ideia de montar o Panamericana?

TONI PLATAO O Canal Brasil se interessou em montar um projeto, um DVD com a gente. Seria uma, como se diz por aí, all star band, né? Eles tinham a ideia de botar o Dado e o Charles. E, após me verem cantando com o Dado no Rock In Rio (na homenagem à Legião Urbana, que abriu o festival), me chamaram. Tinha que ver ainda o que seria, o que íamos tocar. Não dava para virar uma grande festa Ploc. Uma vez, quando estávamos no Uruguai, o (Carlos) Taran (empresário do Panamericana) virou-se para mim, tamanha minha empatia com o povo uruguaio e falou: "Toni, você poderia gravar um disco de rock uruguaio com versões em português. Tem muita música boa que ninguém conhece no Brasil". Isso ficou na minha cabeça e veio durante um almoço com o pessoal do Canal Brasil. Tem repertório vasto de rock na vizinhança, rock hispano-americano, que é desconhecido e ignorado no Brasil - que é um país que só ouve rock anglo-saxão. Falei: por que é que a gente não monta um repertório com isso, com arranjos nossos? O pessoal do Canal Brasil ficou amarradaço na ideia. Falei com Dado e Taran, ficamos de falar com Charles e Dé. Nos encontramos em dezembro e ficamos de começar a ensaiar em fevereiro. No meio desse processo... Bom, a princípio isso ia ser um show em DVD, que caiu, porque era uma coisa que seria gravada em Manaus com verba do governo do Amazonas. E essa verba foi deslocada para uma enchente que teve lá. Só que aí não dava mais para desistir, já estávamos enlouquecidos com a gente mesmo!

E resolveram fazer sozinhos...

TONY PLATÃO Sim, o Taran propôs à gente que dividíssemos o trabalho - veio com uma teoria maluca do "guarda-chuva" aí. Iríamos dividir um repertório em 12 músicas, só que são 30 anos de rock em espanhol e isso ia ser uma loucura. O que a gente fez foi concentrar esse primeiro momento no Sul do continente. São versões de bandas argentinas e uruguaias, bandas e artistas. Daí caiu o DVD. O Dé já vinha torcendo para o DVD cair mesmo, porque ele queria gravar o disco (aponta para o baixista). Entramos no estúdio do Dado e chamamos nosso parceiraço Chico Neves para produzir. Paramos com os ensaios e começamos a gravar o disco. Estamos gravando nesses intervalos de tempo que temos.

Vocês acham que o rock latino está bem representado no Rio? Há poucos shows de bandas latinas aqui, mas há festas como a Locos Hermanos...

CHARLES GAVIN Nem sabia dessas festas. Acho que o público ainda é pequeno. O artista mais conhecido aqui é mesmo o Fito Paez, que já deu shows aqui, gravou discos. Todos os artistas que estamos trazendo - Charly Garcia, Soda Stereo, Luis Alberto Spinetta - são desconhecidos. O Spinetta, então, é uma coisa mais sofisticada. Tem um texto bem rebuscado, profundo, uma coisa maravilhosa. Eu o comparo com Caetano Veloso. Ninguém conhece esses artistas por aqui. Por que faz esse projeto? Há uma barreira muito grande por aqui, só tem som em português ou inglês. Em São Paulo volta e meia estouram aqueles artistas italianos, Laura Pausini... Mas de modo geral, é inglês ou português. É o colonizado ou o colonizador.


TONI PLATÃO A gente esteve há pouco tempo no Circo para ver o Café Tacuba (banda mexicana). Além de não estar lotado, a maior parte do público era de mexicanos ou de pessoas da colônia latina...

CHARLES GAVIN E o contrário não ocorre. Se o pop-rock latino americano é absolutamente desconhecido aqui, o contrário não é verdade. Você vê os Paralamas, durante muitos anos foram uma das bandas mais fortes no mercado latino-americano.

DÉ PALMEIRA A gente esteve no Uruguai em março do ano passado e lá as pessoas conhecem Cazuza, Legião, Titãs, Paralamas... Conhecem todo o rock brasileiro

CHARLES GAVIN Mesmo na Argentina, eles não conhecem só MPB - que a gente já sabe que eles conhecem - como também o pop e o rock nacional. Os Titãs já deram show lá, a gravadora tentou trabalhar a gente lá. Há um interesse deles por música brasileira que é claro. Agora, daqui para lá é estranho... Tem bandas muito legais na Venezuela, na Colômbia. Tem uma banda... Presuntos Implicados, não é isso? Essa banda é argentina na verdade, não é? (falando com Carlos Taran, empresário do grupo). Tem Aterciopelados...

CARLOS TARAN Essa é colombiana!

CHARLES GAVIN É colombiana, isso mesmo! E tem um monte de bandas legais. Eu sinceramente acho que um festival de pop-rock latino-americano, como existe o Lollapalooza, isso poderia ter, né?

No rock latino, assim como ocorria no começo do rock brasileiro, é muito comum as bandas fazerem versçoes de grupos americanos. Há grupos que releem Who, Beatles. Vocês sentem que de certa forma, mexem, ao fazerem versões, com algo que está no DNA do rock latino e do nosso rock?

DADO VILLA-LOBOS Você diz a questão do rock latino? Acho que o principal é trazer esse repertório para o Brasil... Queremos que, antes de tudo, as pessoas conheçam essas bandas.

TONI PLATÃO Acaba mesmo como aquele princípio do rock da jovem guarda, que o rock estava surgindo e as pessoas, para todo mundo conhecer esse som no Brasil, faziam versões de Beatles, Stones...


Para trazer o universo de lá para cá, né?

TONI PLATÃO Isso. Da mesma forma, estamos fazendo isso com bandas latinas no século 21. Na verdade é isso mesmo

CHARLES GAVIN Interessante esse paralelo, porque muitas coisas que conhecemos da Jovem Guarda vêm de versões.

TONI PLATÃO Vê só Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones (sucesso do italiano Gianni Morandi, relido nos anos 60 pelos Incríveis e nos anos 90 pelos Engenheiros do Hawaii).

CHARLES GAVIN A gente, quando faz as versões, está preocupado em trazer o texto em espanhol para cá. Essa é a maior dificuldade. Algumas coisas não soam bem em português. Da música a gente vai se apropriando, vira uma coisa que é nossa. Mas quanto à letra, se você for ver o original...

DÉ PALMEIRA Na verdade não é uma questão de qualidade. O rock brasileiro tem um discurso, um texto, que é bem diferente do rock latino. Tivemos que trabalhar com essas diferenças. Os rocks da Jovem Guarda tinham uma tentativa de formar um discurso próprio. Esse discurso, eu considero que só rolou mesmo nos anos 80, com Cazuza, Arnaldo Antunes, Renato Russo. Quando pegamos o rock latino, vemos que algumas coisas ficam diferentes mesmo, fica muito difícil de transpor. É uma coisa de outro mundo mesmo. Estamos tentando!

Quem são os versionistas?

DADO VILLA-LOBOS Humberto Effe, Alvin L, Sergio Britto dos Titãs.

TONI PLATÃO No geral são versões nossas, algumas com a ajuda do Bruno Consentino, que é da banda carioca Isadora (confira aqui, no blog do jornalista e crítico musical Mauro Ferreira, todas as músicas, compositores, bandas que as gravaram originalmente e os versionistas)

DÉ PALMEIRA Eu tenho recebido pelo Facebook milhões de propostas, sabia? Gente que quer fazer versões: fãs, amigos... "Deixa eu fazer uma versão aí..."

CHARLES GAVIN É um território inexplorado. É impressionante, vai mexer com muita gente. Existem muitas pessoas que vão gostar disso, que adorariam ver o show de uma banda uruguaia como o No Te Va Gustar, por exemplo. Com a internet, muita gente se aproximou mais disso. Acredito que vá surpreender muita gente.

Tem toda uma história do rock latino ligada a todos vocês, de shows do Charly Garcia e do Fito Paez aqui, a festa do Jesus não tem dentes no país dos banguelas (1987, Titãs) que virou uma extensão do show do Charly Garcia...

DÉ PALMEIRA Os Paralamas que começaram isso, né? Foi o primeiro da nossa geração a pesquisar esses sons.

DADO VILLA-LOBOS De alguma forma, essa ideia sempre esteve no ar.

DÉ PALMEIRA Sempre. Desde criança, começando a tocar, eu ouvia falar em "os caras lá na América Latina". Essa bola, de montar uma banda para tocar esse repertório, sempre esteve quicando ali na área e ninguém chutou. Eu nunca nem imaginei que fôssemos fazer.

No show rolam músicas das bandas de vocês?

TONI PLATÃO O show em si é mesmo o material inédito. Mas no bis tudo pode acontecer, né? A gente não tá aqui para ficar contrariando plateia, que a gente já passou dessa idade...

DÉ PALMEIRA Por mim, não tocava nada!

TONI PLATÃO Esse Dé não consegue amadurecer...

DÉ PALMEIRA Não consigo mesmo!

Têm algum projeto para levar o show lá para fora?

TONI PLATÃO Não, vai ser aqui mesmo, mas o Taran sabe que as pessoas lá fora estão interessadas...

DÉ PALMEIRA Adoro essa expressão 'lá fora'!

TONI PLATÃO É, 'lá fora', 'vou ao estrangeiro'... Enfim, os jornalistas de lá de fora estão felizes e interessadíssimos por a gente estar fazendo isso. Uma coisa que a gente esqueceu de falar é que, nessa relação com o Canal Brasil, vamos fazer um programa de TV, provavelmente em cinco capítulos, apresentando esse primeiro momento do projeto. Já está quase certo. A ideia é fazer com bandas argentinas e uruguaias. Vamos a Montevidéu, a Buenos Aires, vamos falar com as bandas, tocar com essas pessoas. Nossa ideia é que isso aconteça em julho ou agosto. Se tudo correr bem, sai o disco junto com o programa do Canal Brasil. Com A música do Pará, por sinal, o Charles Gavin fica com três programas no Canal Brasil (o ex-baterista dos Titãs apresenta também O som do vinil)...

DÉ PALMEIRA Vai comprar o Canal Brasil e fundar o Canal Gavin!

quarta-feira, 24 de abril de 2013

CLIPE FODA: SMASHING PUMPKINS



Não veja esse clipe se estiver de péssimo astral. Não vale a pena mesmo. 


Penúltimo disco do Smashing Pumpkins antes de a banda terminar (e voltar, posteriormente), Machina/The machines of God (2000) não é um disco tão lembrado pelos fãs quanto o duplo Mellon Collie & The Infinite Sadness (1995). Mas tem seus (muitos) encantos. Ainda mais se comparado ao fracote Adore (1998), lançado pouco antes. Na Rolling Stone, o crítico Jon Pareles chegou a dizer que o cantor Billy Corgan não sabia se queria ser uma alma perdida ou um projeto de Messias. A resenha original, publicada na época, tá aqui.

É o disco que tem canções ruidosas como The everlasting gaze e Heavy metal machine, sons ensolarados como I of the mourning, os nove sombrios minutos de Glass and the Ghost Children. E o belo e tristonho hit Try, try, try, uma das melhores músicas da banda. E um de seus clipes mais violentos, com a história girando em torno de um casal de mendigos (ou de punks, sei lá) viciados em heroína, que vive nas ruas e pratica pequenos furtos. A moça do casal está grávida e aparece se picando com a droga. Em nenhuma das duas versões do vídeo o final é feliz. As imagens que, lá pelo final, aparecem mostrando a infância dela (falsamente alegre), também não. A versão short film, com quinze minutos, é deprê sem retoques ao fim. Veja aqui. Confira o clipe na versão editada, que passou na MTV, aí embaixo. O casal é interpretado por Max Vitali e Linda Santiago (não sei quem são).



O diretor do filme, Jonas Akerlund, entende de shock values, digamos assim. Foi baterista da banda de black metal Bathory. Apesar de ter se notabilizado como diretor de clipes para nomes como Paul McCartney e Roxette, saiu da cabeça dele também o controverso Smack my bitch up, do Prodigy. I miss you, do Blink-182, que tem duas modelos entretidas com calorosos beijos de língua, também. Ele também dirigiu Telephone, de Lady Gaga e Beyoncé.

Se estiver de bom astral, vale assistir. 

segunda-feira, 22 de abril de 2013

ONZE CANÇÕES PARA ENTENDER O AOR - POR CARLOS EDUARDO LIMA


O que é AOR? O que esta sigla significa, afinal? Onde vivem os artistas que cantam esse estilo de música do qual provavelmente muitos nunca ouviram falar (e que deu nome ao novo disco de Ed Motta)? Do que se alimentam? Como se reproduzem atualmente, época em que a riqueza sonora das canções que faziam nos anos 70 e 80 parece ter se despedido das rádios (e sem possibilidade de volta)? Saiba agora, não no Globo Repórter, mas aqui neste blog. Chamei um especialista no assunto, o jornalista, historiador e colaborador da Rolling Stone Carlos Eduardo Lima (o popular Cel) para apresentar uma pequena lista introdutória ao assunto. Saiu isso aqui, completinho: onze canções (e ainda tem dois bônus aí) para você poder puxar papo com Ed Motta no Facebook. E curtir altos sons.


Ed Motta está lançando disco novo neste mês de abril. Chama-se AOR, abreviação de "Adult Oriented Radio" ou "Album Oriented Rock", que são rótulos criados para classificar a produção pop/rock/soul/funk da virada dos anos 70/80. Aquelas canções polidas, com excelência instrumental, seja em termos técnicos quanto em arranjos e gravação. São músicas que tocaram no rádio e que permanecem firmes nos chamados programas de flashback. Provavelmente você já ouviu muitas delas e nem imaginava que ouvia canções AOR. Segue abaixo uma seleção de onze músicas que representam boa parte dessa produção.

"YOU MAKE LOVIN' FUN" - FLEETWOOD MAC (do disco Rumours, de 1977) - É o maior sucesso comercial da carreira do FM, no esplendor de sua versão californiana. A tensão entre os dois casais da banda, Lindsay Buckingham e Stevie Nicks e John e Christina McVie é palpável nas canções. Essa não foge à regra.

"WHAT A FOOL BELIEVES" - DOOBIE BROTHERS (do disco Minute by minute, de 1979) - A entrada do cantor Michael McDonald se deu dois discos antes, a partir de Takin' to the streets (1976), já acenando com mudança nos elementos sonoros da banda. Saía o southern rock e entrava o AOR. Com essa canção, cheia de pianos e teclados, saía definitivamente o southern rock do início da carreira (Nota: ouça e compare com isso aqui).

"HEY NINETEEN" - STEELY DAN (do disco Gaucho, de 1980) -
Donald Fagen e Walter Becker sempre procuram adicionar elementos pop à sua mistura de jazz e rock, marca fundamental da carreira do Steely Dan. Essa música, que fala sobre tornar-se adulto, é um exemplo dessa sonoridade.


"KISS ON MY LIST" - HALL AND OATES (do disco Voices, de 1980) - Grande sucesso deste hit, quando a dupla aproximou-se do ponto ideal entre pop e light soul. Hall & Oates são a dupla mais bem sucedida da história da pop music, seus discos entre 1980 e 1984 são essenciais.



"SEPTEMBER" - EARTH, WIND AND FIRE
- Single gravado em 1979, que fez grande sucesso nas paradas mundiais. O EWF forneceu inspiração para discos como Realce, de Gilberto Gil. Por sinal, Jerry Hey, arranjador do grupo, toca teclados na faixa-título do álbum de Gil - que dividiu palco com o EWF num show antológico no Maracanâzinho (e só para ilustrar, Steve Lukather, guitarrista do Toto, está na mesma música).



"AFRICA" - TOTO (do disco Toto IV, de 1982)
- É a banda-chave para entendimento da sonoridade AOR. Muita técnica, músicos hábeis e dotados de senso de composição, os integrantes do Toto eram sessionmen, raposas felpudas de estúdio, e participaram de vários discos, entre eles, Thriller, de 1983. É deles Human nature, um dos sucessos do álbum mais vendido de Michael Jackson.



"HER TOWN TOO" - JAMES TAYLOR (do disco Daddy loves his work, de 1981) - Cantada em dueto com JD Souther, cantor, compositor e colaborador dos Eagles. Essa música fala sobre turbulências no casamento e arrependimento. Esse disco marcou o renascimento artístico de James, credenciando-o para o primeiro Rock In Rio.



"LOWDOWN" - BOZ SCAGGS (do disco Silk degrees, de 1976)
- É o grande sucesso deste ex-integrante da Steve Miller Band, dono de uma sonoridade limpa, bem tocada e cheia de flertes com o white funk. Lowdown é um clássico das FM's setentistas.



"HOLD ON" - SANTANA (do disco Shango, de 1982)
- Um dos grandes sucessos AOR da carreira de Santana. Hit certeiro nas rádios durante a época, chegou a fazer parte das canções dos comerciais do cigarro Hollywood.



"SAÚDE" - RITA LEE (do disco Saúde, de 1981) - Segundo Ed Motta, ela é a grande rainha do AOR nacional, sobretudo a partir de seus discos gravados com Roberto de Carvalho. Esta no disco homônimo, que também tinha Banho de espuma e Mutante.



"O MELHOR VAI COMEÇAR" - GUILHERME ARANTES (do disco Guilherme Arantes, de 1982) - Tema da novela global Sol de verão, mantendo a sonoridade clássica de Guilherme, originada no progressivo nacional e mudando para um pop classudo, tecladeiro e cheio de ganchos melódicos. Um clássico.

CHRISSY AMPLHETT (1959-2013), THE DIVINYLS


Não adianta: The Divinyls, banda australiana cuja vocalista Chrissy Amplhett morreu ontem (em sua casa, em Nova York), é, sempre foi e sempre será conhecida pelo sucesso I touch myself. Lançada em 1991, é, sempre foi e sempre será uma pérola musical pela qual podem-se medir escalas de bom gosto, mau gosto e sacanagem na música pop. Se ficar bem abaixo da letra dessa música - que, sem meias palavras e sem muita poesia, glorifica a masturbação feminina - talvez não haja muito o que dizer.

Não chega ser uma sacanagem (no mau sentido) que os Divinyls sejam mais conhecidos por seu único grande hit, já que o repertório gravado pela banda não é lá essas maravilhas - de 1983 até 1996 foram cinco discos de estúdio, encerrando em 1996 com Underworld, mas nada muito memorável. Mas tinha uma ou outra coisa de destaque lá além de I touch myself. Uma delas era Plesure and pain, música de 1985, do álbum What a life!, lançado numa fase mais new wave do que o que o hard rockzinho safado que viria em 1991 faria supor.



Se quiser conhecer algo dos Divinys que vá além de seu único hit de verdade, está aí. Essa música chegou a tocar em rádio no Brasil.


UM ANO SEM DICRÓ

Não foi só o samba que ficou mais triste há quase um ano, em 25 de abril. O humor brasileiro perdeu muito também. Fazia muito tempo que Dicró não era só sambista. Era uma figura midiática, que fazia todo mundo rir com entrevistas e aparições na TV (suas participações no Fantástico são memoráveis). É provável que muita gente tenha visto Dicró pela primeira vez na TV dando uma entrevista e só depois tenha descoberto que se tratava de um cantor e compositor com vários discos gravados e uma série de letras impagáveis.

No entanto, o melhor de Dicró (ou Carlos Roberto de Oliveira) não está no YouTube. A saber:

+ Uma vez, no Programa do Jô (o Programa mesmo, já na Globo), Dicró era um dos entrevistados. E relembrou uma ocasião em que, bêbado, ia fazer um show num presídio. Ao chegar a hora da apresentação, Dicró, trocando as pernas, mal sabia o lugar onde estava. Ao subir no palco, brindou a plateia (lotada) com uma saudação costumeira: "Assim é que eu gosto de ver, casa cheia!". No meio do show, ainda soltou: "O que é que há, galera? Vamos se soltar mais, tá todo mundo preso!". No final, arrematou com um: "Obrigado, minha gente! Quando eu voltar aqui, quero ver todo mundo de novo, hein?".

+ Em outra matéria de TV, não lembro onde, o tema era (claro) sogras. Óbvio: um repórter foi pedir a opinião abalizada de Dicró sobre o assunto. Ouviu dele que o sambista estava querendo acabar com a imagem de inimigo das sogras e tinha feito uma música em homenagem a elas. A letra: "A sogra da minha mulher é gente boa/É a sogra da minha patroa".

+ Num antigo Documento especial, da Rede Manchete, era flagrado com uns amigos num boteco, falando das grandes festas do subúrbio. E cantou uma música que falava numa comemoração de adesão com a galera. "Mas tá faltando dois mil/pra completar a despesa/mil meu, com mil seu/vai ficar uma beleza/mil meu, com mil seu/pra completar a despesa".

Vale rir muito com isso aqui, que é outra aparição do Dicró no Jô Soares, durante a qual ele, já bem debilitado, lançava o DVD do devedor, com piadas e pagodes. Logo no começo, ele fala do disco que gravou em 1995 com Moreira da Silva e Bezerra da Silva, Os três malandros in concert, e recorda o velório de Bezerra, no qual pediu R$ 10 para cada presente para "dar uma animada na festa". "Logo depois chegou a viúva e falei 'a senhora está liberada porque entrou com o defunto'", avisa. No fim da entrevista, morra de rir com uma música na qual ele conta a história de um sujeito que desmascara uma loura falsa.


O melhor de Dicró também não está mais nas lojas de discos. A Warner fez inúmeros projetos nos últimos anos para relançar discos e esqueceu de dois grandes álbuns do cantor que mofam nos arquivos da antiga Continental. Barra pesada (1978) e Dicró (1979) valem como o Sgt Pepper´s e o Álbum branco do samba-gozação de subúrbio, com músicas como Cadê a mulher deste lugar?, Joãozinho e sua história (que fazia uma bagunça na história do Brasil a partir da perspectiva de um aluno relapso), Olha a rima, Disco voador, Chatuba (da rima rica "preciso morar num lugar em que ninguém me perturba/ah, vou morar na Chatuba"). O restante da primeira fase da discografia do cantor também saiu pela Continental e não retornou em CD. Tive a sorte de ouvir boa parte desses álbuns no vinil original, quando era criança. Hoje, só baixando por aí.

Uma das maiores sacanagens musicais já feitas por Dicró também não está YouTube. É o sambão Comer fora, lançado por ele em 1982 no festival MPB Shell. Em meio a nomões e nominhos da música brasileira como Nana Caymmi, Emilio Santiago e Marlene, lá vinha o prefeito de Ramos fazendo a plateia do festival gargalhar com uma música cuja letra falava sobre um sujeito pobre que prometia (e não cumpria) levar a mulher para comer num restaurante. "Se você quer comer fora, bote a mesa no quintal", diz o refrão. "Que confusão, igual não vi/Só de pirraça a crioula dormiu de calça Lee", diz outro verso. A música chegou a figurar no álbum com as canções do festival e fez sucesso - o pretenso luxo ao qual a MPB se arvorava na época, com luvas de milhões de dólares e mixagens em Los Angeles é que saiu meio arranhado.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

ROBERTO CARLOS NO PAGODE




Setenta e dois anos de Roberto Carlos hoje, no Dia do Índio. A comparação, que nunca havia me ocorrido, foi estabelecida pelo jornalista Pedro Alexandre Sanches nesse belo texto aqui, que saiu no Jornal do Brasil quando eu trabalhava lá. Vale a pena dar uma lida.

Estou em meio a uns três ou quatro deadlines concomitantes - além do meu trabalho, estou com mil coisas de fora para resolver, etc - então vou acabar não tendo tempo de escrever muito sobre o assunto. Se esse blog, que desconfio que só funciona quando associado às redes sociais, tiver realmente leitores, divido com todos um momento bem especial dos especiais (opa) de fim de ano do Rei.



Talvez muita gente não se lembre, mas os anos 80 não foram só rock. Foram também a década da consolidação de um termo que hoje está no DNA do brasileiro: o pagode. Rola uma confusão bizarra aí: o termo pagode é, na prática, reunião de sambistas. Assim como o termo "punk" só foi usado em larga escala após meados dos anos 70, mas já aparecera antes como xingamento no filme Juventude transviada (estrelado por James Dean e Sal Mineo) e em canções como The punk and the godfather e They´re all in love, do Who, a palavra "pagode" já era manjada por muita gente fora do meio sambístico. Deu nome a um disco muito popular de Beth Carvalho lançado em 1979, No pagode, que trazia montes e montes de participações da galera do Cacique de Ramos (incluídos aí Jorge Aragão, Arlindo Cruz, Almir Guineto) e a gravação original de Coisinha do pai, de Aragão, Guineto e Luiz Carlos da Vila. Para você ver: a contracapa trazia uma explicação do termo. Que apareceu também em Era uma vez treze pontos, sambinha-rock de Jorge Ben, do álbum A banda do Zé Pretinho, de 1978.

Em 1986, o termo era um genérico para falar dos sambistas de raiz que despontavam no mercado com um samba hiperproduzido, pesado e cheio de percussões, e cujo contexto estava relacionado com o crescimento do pessoal do Cacique e o reposicionamento no mercado de três nomes que já vinham dos anos 70: o grupo Fundo de Quintal, o cantor e compositor Almir Guineto e o rei do samba bandido Bezerra da Silva. Boa parte desses nomes - Fundo, Arlindo Cruz, Almir, Jovelina Pérola Negra e um jovem e magrelo rapaz chamado Zeca Pagodinho - foi parar no especial de fim de ano de Roberto daquele ano, cantando um samba de partido, cujo nome talvez seja Pagode do Rei. Roberto samba - ou tenta sambar, no que suas limitações físicas permitem - e, encabulado, tenta até improvisar um verso no final. Poucas vezes uma participação no tradicional especial natalino do Rei foi tão inspiradora, alegre e plena de espírito de união - já que Zeca Pagodinho chega a falar que vai pegar na guitarra para homenagear a Jovem Guarda, trilha sonora de todos, roqueiros e sambistas, há algumas décadas atrás.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

MARCELO ROSENBAUM


O assunto desse blog, na maioria das vezes, é música. Mas ora bolas, criei esse blog para ser mais portifólio do meu trabalho como jornalista do que qualquer outra coisa. Então segue aí embaixo um papo que bati com o designer Marcelo Rosenbaum, conhecido por suas participações no Caldeirão do Huck, para a revista Living Leal Moreira número 26. Leia esse número e alguns dos anteriores aqui. A matéria ficou bem extensa, mas vai aí uma curiosidade: esse papo não durou mais do que meia hora. Rosenbaum fala bastante e é daquelas pessoas que não precisam de mais de duas perguntas para dizer coisas interessantes e legais.


DESIGN QUE TRANSFORMA
Marcelo Rosenbaum usa a profissão na defesa de ideais e mobiliza colegas para levar benefícios aos que mais precisam
Publicado na revista Living Leal Moreira


O designer Marcelo Rosenbaum é um idealista. Daqueles que procuram mobilizar todo mundo para as suas causas. Entre elas, a popularização de sua profissão (“o design sempre foi visto como uma coisa de elite”, conta). Também busca um design mais sustentável, que tenha o reaproveitamento como bandeira. E mantém a vontade de conhecer o que é que o povo deseja, que mobiliário e que decoração são as preferidas do povo. Para isso, ele se entrega diariamente ao trabalho em seu escritório em São Paulo, e a projetos que ajudam a democratizar os benefícios de sua profissão, como o quadro Lar Doce Lar, no Caldeirão do Huck (que o faz ser abordado na rua para dar dicas a desconhecidos). Ou o programa de rádio De coração pra você, na Globo AM, de segunda a sexta, às 11h25. Ou o projeto A Gente Transforma, que levou modificações ao Parque Santo Antônio, comunidade no bairro do Capão Redondo, na Zona Sul paulistana.

Unindo música, arte e esporte, o projeto convidou 30 estudantes de arquitetura e design de cinco universidades do Brasil (selecionados por intermédio de um game) a pintarem 63 casas do entorno do Parque. Numa das área tidas como sendo uma das mais violentas de São Paulo, criaram-se projetos como a construção de uma biblioteca (que vai ganhar mil livros e acesso a internet) e um grupo de discussões a respeito do Córrego do Freitas, que corta o parque e é um esgoto a céu aberto. Sempre com a participação efetiva da comunidade, que adotou o projeto.


“Nos jornais, saiu que fomos pintar o Capão Redondo, mas foi mais que isso. Queremos o empoderamento da comunidade”, diz Rosenbaum, que torce para que o projeto deixe marcas não só no Parque, mas nas várias localidades do Brasil que sofrem com o abandono e com a violência. O olhar para o outro é o que move o trabalho deste paulistano de 42 anos, que é casado há dez anos, tem dois filhos, (Berta, 7 anos, e Ian, de 4), é fã de samba e pagode e tem como hobby estar com a família e os amigos. À LIVING, falou sobre as alegrias que sua profissão lhe dá, e revelou tudo sobre o que está fazendo naquele pedaço de terra popularizado pelas páginas policiais dos jornais – e que agora, graças à sua ação e ao esforço da comunidade, ganha cara nova, esteticamente e politicamente.


Queria que você falasse um pouco do A Gente Transforma, que, além de levar alguma coisa para as comunidades, ainda dá aos estudantes algo a mais do que apenas a formação universitária. Como começou isso?

Começou faz muito tempo. Nós temos vontade de trabalho que tenha uma utilidade maior, um design mais útil... Um trabalho que dê retorno em outra dimensão. E a gente acredita muito na multiplicação do nosso pensamento, no olhar, no popular. Enxergar a dimensão, a necessidade do popular, o desejo do povo. Um grande sonho do nosso escritório sempre foi trabalhar com o móvel popular. Fazer a casa do povo brasileiro. Isso sempre foi uma vontade, que acaba não acontecendo. A indústria não comporta, a escala para produção do móvel popular sempre é muito grande... O gosto do popular é muito diferente do que a gente poderia impor. 

A ideia é ver então a necessidade da população.

Isso. A gente não impõe. No Parque Santo Antonio, procuramos ver os desejos, em vez de só a questão do mobiliário, da casa. Não é só isso que precisa ser mudado, ainda tem muita coisa. Há anos que a gente já trabalha com isso e fazemos cenários, projetos para ONGs que trabalha com inclusão social através da dança, etc. Entramos através de contatos ajudando outras ações de mobilização... Isso já é o perfil de nosso escritório. E aí surgiu a oportunidade de montar um projeto. Um projeto de verdade que possa virar uma forma de negócio. E queríamos ir para a comunidade, estar com os estudantes. Ver uma realidade em que qualquer coisa é muito, tomar contato com ela. Porque aí estamos falando de algo que começa aqui no Parque Santo Antonio e, na verdade, existem Parques Santo Antonio em todas as esquinas do Brasil, se você for ver. E esse é um exercício que está começando. E que eu espero realmente que seja só um começo. A gente juntou algumas empresas, que são contatos nossos, com as quais a gente vai acabar trabalhando... E o mais importante de tudo: expandir a oportunidade para os estudantes de arquitetura e design. Eles trazem o conhecimento e veem quais são os desejos da comunidade. O que desejam os moradores da comunidade, quais são as necessidade deles, das pessoas que vivem lá. Existe tudo para consertar lá. Aliás, nem é para consertar, é para fazer.

E nada acontece por lá.

E nada acontece. E aí criamos uma mobilização, com uma transformação e um despertar para todo mundo que vai participar desse projeto. Entram as empresas patrocinadoras, o pessoal que vai pôr a mão na massa, a comunidade que vai participar disso, que vai falar do seus desejos, da sua vontade... Muitas vezes sai na imprensa que o projeto é pintar o Capão Redondo. Não é isso, só. Vai ter essa ação da capacitação dos pintores, a aula prática vai ser pintar o entorno do campo do Astro. E isso já rendeu várias reuniões com a comunidade que mora nesse entorno quer realmente que isso aconteça, se eles querem realmente ter sua casa pintada, qual a cor que eles querem... O trabalho é todo assim, não tem imposição nenhuma. O principal é o empoderamento da comunidade, descobrir os talentos da comunidade e levar a empresa a conhecer esse mercado, esse público. Levar os estudantes a conhecer essa comunidade e seus desejos. As pessoas muitas vezes saem da universidade achando que vai ter só um tipo de trabalho a fazer. E não é isso. Temos a iniciativa privada do nosso lado, visamos a participação de todos os meios, mas queremos atenção do setor público. Ele é que efetivamente precisa se mobilizar para trabalhar com a maior necessidade do bairro, que é resolver o problema de um córrego, que hoje inunda toda a área. Com qualquer chuva que cai, acaba inundando todo o entorno. A gente não tem como mexer nisso, mas vamos empoderar toda a comunidade. Eles já se mobilizaram para criar uma associação depois do projeto feito e lutar.

E vai ter também uma biblioteca, certo?

Sim, o projeto ainda tem a implantação de uma, que é a Biblioteca Para Todos, um outro projeto nosso dentro do A Gente Transforma. A gente vai levar essa blbioteca, que é um espaço doado pelos próprios jogadores do campo de futebol. Esse campo de futebol é uma área de 600 m2 dentro da comunidade, e é a unica área de lazer deles. Existem hoje 18 times formados que jogam nesse campo. E existe um vestiário, caindo aos pedaços, mas que está lá. Eles doaram esse vestiário, vão construir uma biblioteca no andar de baixo. E o vestiário no andar de cina. E o projeto é só tudo isso. Eu lasquei de falar e não parei mais, né? 

Nada! E como praticamente tudo no teu trabalho é uma coisa que começa no design, na decoração e abre bastante o leque. No seu programa de rádio, de coisas de design você começa a falar de água, de meio ambiente... Como é fugir desse trivial e abraçar essas questões?

Hoje eu mobilizo muita gente por conta da televisão. O Caldeirão do Huck dá uma visibilidade muito grande. E quero aproveitar justamente isso para poder mobilizar. Quero trazer um retorno que seja para mais pessoas, que não seja só para mim. A sustentabilidade está diretamente ligada à educação. E é uma coisa emergencial. Acho que todo mundo quer um mundo melhor para todos. Para os filhos, para os netos, para as próximas gerações. A coisa não pode parar só em uma pessoa. E vejo isso como sendo a grande história de tudo isso, daqui para a frente.

Como você tem visto a mobilização dos estudantes que vão participar do evento?

Nossa, os estudantes que já participaram do game, que foram selecionados, adoraram. Estão todos muito mobilizados. Antes do projeto, eles só conheciam o Parque Santo Antonio através dos nossos posts, através do portal do A Gente Transforma. Mas o legal é exatamente a ação multiplicadora do projeito. Além de capacitar, de mobilizar, ela é multiplicadora porque só vai chegar quem realmente já mobilizou e já transformou alguma coisa, nem que seja em si próprio. A gente chegou a mobilizar 130 jovens. E é fantástico, se você pensar nisso, num curto espaço de tempo, né? E jovens... A gente poder estimular esse olhar, o que eles já colocam dentro do projeto, no espaço do Twitter... É impressionante!

E como começou esse olhar para o outro em seu trabalho?

Ah, não tem um começou, né? Essa coisa tá dentro. É natural, é uma coisa que... sempre tive, desde criança já era assim. Se falarmos num começo, aconteceu mesmo quando eu era moleque, e fazia natação num clube, no estádio municipal lá de Santo André -minha família é lá do ABC paulista. O meu melhor amigo era o cara mais simples da galera. Eu me identifiquei com isso, é uma coisa natural minha. Apesar de ter vindo de uma família abastada, de classe média, e de nunca ter me faltado nada, sempre tive um olhar para isso. Foi um caminho que segui mesmo.

Como começou sua carreira como designer? Você lembra qual foi a primeira coisa que você fez que acabou dando certo?

Lembro! Acho que a primeira loja que eu fiz acabou dando super certo. Dela, brotaram montes de outras. As pessoas viram, gostaram, começaram a me indicar. Eu comecei a trabalhar muito cedo, eu estava no primeiro ano de faculdade e, naquela época, estavam montando o primeiro shopping do ABC paulista, de São Bernardo. Na época eu tinha uma namorada cuja mãe era dona de uma multimarcas, e ela comprou um ponto nesse shopping. Pedi para fazer o projeto da loja dela. Fiz o projeto, ela adorou, e daí para a frente foi. E aí eu fui morar na Alemanha, eu estava no final da faculdade, consegui um estágio num escritório de arquitetura na Alemanha... E quando voltei, nem terminei a faculdade. Eu não tenho o curso terminado. Não dá para dizer que seja exatamente um bom exemplo, né? Mas nunca mais parei de trabalhar. Sou um cara mão na massa! Autodidata, trabalhando muito, tive escritório muito cedo, fui fazendo obra... Comecei depois disso a fazer design, as coisas começaram a dar certo, um trabalho foi dando continuação a outro. 

E o Lar Doce Lar? Como é isso para você tem termos de notoriedade? Isso te ajuda no teu trabalho?

Na verdade, nem é que ajude, já que já vinha trabalhando muito há tempos. Acho que é uma troca, porque eu já tinha um certo reconhecimento na área onde eu atuava, naquele nicho. Mas com a televisão, a dimensão é outra. Para mim, tudo cabe como uma luva. É uma bênção de Deus, porque a gente consegue atingir o popular, esse público, que é o grande Brasil. Entramos de cara com essa história de trabalhar com a grande massa. Que sempre foi meu desejo. Para isso, a televisão é fantástica. Eu abraço todas as causas e tento aproveitar o máximo tudo isso que eu consigo, com a dimensão da popularidade, do respeito. E a televisão proporciona isso.

Vira uma vitrine para você...

Pois é, acho que o principal é que democratiza. Você leva para quem está do outro lado da televisão uma profissão que até então era só para a elite. Que era quem tinha acesso a essas coisas, que podia entender essas coisas. Imagina, você conseguir ter acesso a uma casa, a beneficiar uma família... E, mais do que isso, não é só a família que está sendo beneficiada, são todas as pessoas que estão assistindo ao programa. Elas passam a entender o benefício desse trabalho, e veem a democratização disso.

E as pessoas estão percebendo que dá para fazer isso reaproveitando coisas, que é um grande bandeira do seu trabalho, não?

Sim, o reaproveitamento é uma grande bandeira, exatamente. E é uma grande responsabilidade.

Você é muito parado na rua para dar dicas para os outros? A TV te deu notoriedade?

Ah, sim, isso acontece o tempo todo. Nem é esse o mote do trabalho, mas tem carinho, né? Eu tento tratar como uma continuação do que eu faço. Respondo com o mesmo carinho com o qual as pessoas me abordam. Não tenho nenhum deslumbre com relação a isso.

Teve algum momento do programa que te tocou especialmente?

Olha, todos! Mas teve um que foi especial. A gente fez um abrigo, que era uma casa com 54 crianças adotadas. E eu entrei na casa com as crianças, pela primeira vez, elas todas de mãos dadas. Quase todas tinham alguma deficiência, histórico de rejeição, porque a dona da casa, a D. Abigail, adotava só crianças com algum histórico desses – de terem alguma síndrome, ou algo do tipo. E eram crianças muito felizes, do jeito deles. Eles entraram e viram o que a gente fez. E todas choraram. Eles começaram a beijar a cama, o lençol, as prateleiras que a gente colocou. Fiquei realmente muito emocionado. Como aconteceu também em outros casos, né? Cada um tem sua particularidade. Mas esse, quando dei por mim, estava chorando junto com todo mundo. E dá para entender o quão transformador e útil é o nosso trabalho. É algo que vem para confirmar, esse desejo, esse olhar, essa vontade de fazer o que eu faço.

No que você se inspira? O que está por trás da sua criação?

Ih... (rindo)

Muita coisa, eu sei...

Muita! O dia-a-dia, né? O olhar do entorno, tudo. Nem tem um conceito, um objetivo. Você acaba nem tendo esse olhar artístico só. Você acaba tendo as encomendas, o prazo, o briefing do cliente, a vontade dele... O trabalho acaba sendo meio por aí.

Você é do tipo de decorador que está na casa dos amigos e dá dicas para eles?

Sim, claro, é natural! Essa parte do trabalho é um prazer, faço isso sempre por adorar muito meu trabalho. Estar na casa de um amigo e dar umas dicas sempre é muito bom, nem chega a parecer que estou trabalhando. É minha forma de comunicação. Me comunico com as pessoas geralmente a partir disso.

sábado, 13 de abril de 2013

7 KINDS OF MONKEYS, JÁ OUVIU FALAR?

Como muitos sabem, comecei na semana passada como repórter de cultura do jornal O Dia, aqui do Rio. Já saíram algumas matérias minhas - tem duas para sair, neste domingo (13) e na segunda (14). Uma delas foi essa aqui, sobre a banda capixaba 7 Kinds Of Monkeys, grupo brasileiro-que-canta-em-inglês produzido por Jack Endino - que, em janeiro, ficou bem decepcionado com a pronúncia de algumas bandas brasileiras que abraçam o idioma britânico. Os caras estão lançando o primeiro disco e um documentário sobre a aventura de sair do Brasil e ir gravar em Seattle, terra de Jack e meca roqueira dos anos 90. O produtor, responsável pelo lançamento do Nirvana e por pelo menos dois grandes lançamentos brasileiros - Titanomaquia, dos Titãs (1993) e Para quando o arco-íris encontrar o pote de ouro, de Nando Reis (2000) - curtiu tanto o trabalho do grupo que entrou para a turma e tocou baixo em todo o álbum.





A matéria foi escanneada, então resolvi colocar aí a foto do que saiu no jornal. Confere aí (clica em cima para ler sem lupa).

quinta-feira, 11 de abril de 2013

CLIPE FODÃO: LULU SANTOS - "TEMPOS MODERNOS" (1982)

Desconfie de qualquer sujeitinho desinformado que chegue para você metendo o pau nos clipes feitos nos anos 80 pela Globo e que eram exibidos no Fantástico. Se o cara disser que nunca viu ou não se recorda do promo de lançamento de Tempos modernos, hit de Lulu Santos, levado ao ar em 1982, pior ainda. Nem escute o papo dele até o fim. A pessoa em questão mal conhece um dos melhores clipes brasileiros já feitos.


Uma ideia absurdamente simples: Lulu Santos vestido no rigor da moda oitentista, dando um rolé pelas cidades históricas de Ouro Preto e Mariana (Minas Gerais). O futuro rei do pop fotografa tudo com uma câmera de turista e para para observar una quadros e retratos antigos, expostos numa feirinha. Numa das imagens, famílias se despedem de um sujeito (o próprio Lulu, que viaja no tempo) que se prepara para fazer uma viagem de dirigível. Realizado antes de qualquer corrida maluca entre gravadoras para ver qual delas prepara o melhor clipe (enfim, a MTV só estaria por aqui oito anos depois disso) e com know how de direção de novela, vale cada segundo.

Assista ao clipe abaixo.








quarta-feira, 10 de abril de 2013

DEZ CANÇÕES (+ 1 BÔNUS) PARA CONHECER O SÓ PRA CONTRARIAR

Adivinha, doutor, quem tá de volta na praça? O Só Pra Contrariar, sucesso pagodeiro durante os anos 90, retorna com seu frontman Alexandre Pires a partir desse mês para uma turnê que vai durar dois anos. A banda estreia no Rio com seu novo-antigo cantor apenas no dia 8 de junho. No dia 20 de abril, fazem o primeiro show do giro, no Recife. Uma turnê que vai fazer a alegria dos fãs e, provavelmente, fazer com que muita gente que nunca nem foi fã do grupo relembre as canções deles.

Apesar dos links garantidos com o samba dos anos 70/80 - o nome da banda foi tirado de um hit de mesmo nome do Fundo de Quintal e referencia-se lá um pouco em SPC, hit juvenil de Zeca Pagodinho - o Só Pra Contrariar é pop. Pop regado pela mescla de samba, samba-rock de Bebeto e Jorge Ben Jor, hits do ídolo negro Wilson Simonal, tons latinos, sambão-joia herdado de Benito di Paula e Agepê, toques sertanejos, etc. Essa mistura deu origem a um som para o qual nunca faltou público, mas muitas vezes faltou reconhecimento. Abaixo, confira uma lista de 10 músicas (+ um bônus) para, mais do que perder o preconceito e reconhecer "é, isso é legal", passar a gostar do grupo. Leia, curta e ouça tudo no volume máximo.



"DOMINGO" (do CD Só pra contrariar, de 1993) - Talvez você já tenha escutado essa música por aí e pensado que é alguma composição do Fundo de Quintal, ou de Jorge Aragão, ou de Arlindo Cruz. Não, é um belíssimo e ensolarado samba (isso mesmo, esqueça a denominação "pagode") da dupla Alexandre e Fernando Pires. "Faça de conta que eu sou seu namorado/Amar você é bom demais/É tudo o que eu posso querer", diz a letra. Merece respeito.
"O SAMBA NÃO TEM FRONTEIRAS" (do CD O samba não tem fronteiras, de 1995) - Samba quase rock-quase funk apontando para as raízes mineiras do grupo ("digo trem bão, digo uai, digo porque/o samba não tem fronteiras/existe em qualquer lugar"). Uma das melhores músicas da primeira fase do Só Pra Contrariar.


"A BARATA" (do CD Só pra contrariar, de 1993) - Precisa apresentar? Um pagode tipicamente anos 90 que virou brincadeira até entre não-pagodeiros - e que, anos antes da transformação de Alexandre Pires em ícone romântico, levou muito bom humor para o estilo. Isso é que é música de churrasco.


"QUE SE CHAMA AMOR" (do CD Só pra contrariar, de 1993) - Um dos temas românticos mais clássicos do grupo, e um dos que mais exigem de Alexandre Pires como cantor - embaralhando versos e balanços com categoria herdada do pop e do funk melódico.


"ESSA TAL LIBERDADE" (do CD Só pra contrariar, de 1994) - Escrita pelo niteroiense Chico Roque e pelo lendário letrista Paulo Sérgio Valle, traz romantismo sem dor de corno e, na medida do possível, com atitude de sujeito homem ("o que é que eu vou fazer com essa tal liberdade/se estou na solidão pensando em você", conhece isso, não?). Para dançar junto.



"MINEIRINHO" (do CD Só pra contrariar, de 1997) - Espécie de precursor pagodeiro de O poder dos quietos, livro da pesquisadora americana Susan Cain. Brincadeirinha: o alegre pagonejo sobre um sujeito que "bem no seu cantinho/bota pra quebrar" foi um dos últimos hits do SPC com Alexandre Pires. O vocal ágil e o uso de sanfonas trazem lá suas referências (bem disfarçadas) a Jackson do Pandeiro.


"OUTDOOR" (do CD Só pra contrariar, de 1993) - Em 2002, o Rei do Suíngue Bebeto convidou Alexandre Pires, então recém-atirado à carreira solo, para uma participação em seu disco antológico Suínga Brasil, na música Hei neguinha. Provavelmente inspirado nessa música aqui, batidão samba-rock que impressiona quem só conhece o lado baladeiro do SPC. A letra está no seu subconsciente: "Ah, telefona por favor/Tô morrendo de saudade/Louco pra te ver".


"TE AMAR SEM MEDO" (do CD Só pra contrariar, de 1994) - Sambão romântico dos melhores, com letra dedicada a uma paixão secreta. Composta por Eder e por Regis Danese - aquele mesmo que, anos depois, viraria compositor e cantor gospel, com direito a hit avassalador (Faz um milagre em mim).


"É BOM DEMAIS" (do CD Só pra contrariar, de 1994) 
- Outro grande balanço do SPC - lembrando um pouco a categoria do Raça Negra, com seu arranjo repleto de teclados. Na letra, o verso "parece a corda e a caçamba/o Brasil e o samba" faz lembrar Esperanças perdidas, hit dos Originais do Samba (do verso "o samba é a corda/eu sou a caçamba") e outro célebre balanço do grupo Molejo, Caçamba


"SAI DA MINHA ABA (BICÃO)" (do CD Só pra contrariar, de 1999) - O último grande hit da banda reaproveita um tema (o dos empata-festas) que já apareceu em Na aba, de Martinho da Vila - mas com atitude samba-pop.




BÔNUS:


"GO BACK" (do CD Só pra contrariar, de 1993) - No começo da onda anos 90 do pagode, rolava uma certa mania de reler canções do rock nacional em tom samba-rock - o Raça Negra fez sucesso com Será, da Legião Urbana. O SPC pôs para sambar um dos primeiros hits dos Titãs, com toda a tecladeira e todo o reverb que o estilo pediam na época.

terça-feira, 9 de abril de 2013

BEATLES, ESSES RAPAZES EXPERIMENTAIS

Sempre quis escutar isso mas nunca tinha conseguido. Se tiver tempo e saco, ouça aí. É a versão de Revolution 1 que apareceu na edição mono brasileira do Álbum branco dos Beatles, em 1968. 

Ouviu? Parece até brincadeira: soa como se alguém estivesse colocando a mão no prato do toca-discos durante a audição. Em alguns momentos, como diz um amigo, parece o áudio de uma cena de Alvin e os esquilos.
Quem comprou o disco mono nacional nessa época, supostamente ouviu a música com esse erro bizarro de rotação. Mais: tem gente - MUITA gente - que ouviu isso por décadas achando que a música era assim mesmo. E que odiou a música por vários anos por causa disso. Não só isso: teve revista de música aqui no Brasil publicando que os Beatles eram revolucionários por causa do "experimento com a rotação da música".

O áudio foi disponibilizado pelo colecionador de discos Guilherme Jabur, que costuma fazer uns vídeos bem interessantes "mostrando" discos de vinil antigos - entre eles, trilhas de novelas, discos de artistas estrangeiros em versões nacionais e curiosidades, que incluem faixas de nomões do pop que saíram pela metade em edições brasileiras. Aqui, ele exibe a primeira edição nacional do segundo disco solo de Michael Jackson, Ben (1972) - aquela que trazia um enorme rato preto na capa, e que deve ter assustado muitas crianças por aí afora. 

aqui ele mostra detalhadamente outro vinil dos Beatles que deu defeito ao ser lançado no Brasil: o single de Penny Lane, de 1967, que cortava parte da canção e virou um clássico. Só que não. Bom, virou sim - tem fãs que pagam uma bela grana por esse disco. Eu não daria nem R$ 0,50.

Pois bem, o jornalista Ayrton Mugnaini Jr. conta que o álbum branco com o tal erro na rotação é um item bem querido pelos fãs dos Beatles, sim. "Há décadas este álbum branco mono brasileiro é um dos best-sellers pelo mundo afora. Se estiver completinho com o pôster e as fotos, melhor ainda", conta ao blog.

A história do erro no disco, diz Ayrton, é a seguinte: "Isso aconteceu na versão mono brasileira. A estéreo saiu normal. E a causa foi a diferença de ciclagem, a matriz era preparada no Rio e o disco era prensado em São Bernardo, um usava 50Hz e o outro 60Hz, aí na hora de prensar a voltagem deu esse pico bem no meio de Revolution 1. O jornalista e DJ Sossego me contou que foi a Londres e aproveitou para visitar o escritório da Apple - e mostrar a prensagem mono brasílica. A reação foi de 'Goddamn Brazilians!' e murros na mesa, e nos dias seguintes mostrou-se a porta para muita gente aqui na Odeon".

segunda-feira, 8 de abril de 2013

O CRASS CANTA THATCHER


Ao morrer, o ex-presidente americano Ronald Reagan virou santo em discursos até de políticos bem menos conservadores. O mesmo pode acontecer com a dama de ferro Margaret Thatcher, morta nesta segunda (8). Difícil vai ser alguma banda de rock fazer alguma música em homenagem a ela. Só o portal Louder Than War coletou nada menos que treze canções que atiram qualquer tipo de "legado" de Thatcher à lixeira. E não é só no cancioneiro popular, não. Olhe só aqui algumas opiniões de pessoas como o escritor Jon Savage e o crítico de música clássica Andrew Clements.

De todo modo, talvez a morte de Margaret Thatcher sirva para algum jornalista musical brasileiro ter sua atenção chamada por uma das mais obscuras e bizarras bandas punk da história do movimento: os britânicos do Crass. Se em algum momento o estilo teve lá seus pés na ideologia hippie - e isso levando em conta que havia hippies radicais e gente interessada em caos e desconstrução em meio ao verão do amor - foi por causa desses caras. Que espalharam brasa para a Dama de Ferro e a Guerra das Malvinas em duas canções do álbum Yes, sir, I will, de 1983: How does it feel to be the mother of a thousand dead e Sheep farming in the Falklands. No Brasil pouco se ouviu falar da banda - as duas únicas referências a eles que eu vi em livros lançados por aqui foram justamente em O que é punk, de Antonio Bivar, e Os anos da utopia e os anos da incerteza, de Roberto Muggiatti, ambos lançamentos da mitológica editora Brasiliense.

O disco foi o penúltimo lançamento do grupo, censurado, desaparecido e desmembrado - a banda teve várias mudanças de formação, mas o que contou mesmo para seu fim em 1984 foi a saída do guitarrista N. A. Palmer, que deixou o Crass para concluir seus estudos. Anos antes da internet ganhar o mundo, o Crass chegou a fabricar seu próprio hoax: a gravação Thatchergate Tape, que trazia um diálogo entre a Dama de Ferro e (olha logo quem) Reagan, montado a partir de gravações reais, como se fosse um flagrante de linha cruzada.

É de se imaginar que o Crass nunca tenha dado muito dinheiro. Além da formação numerosa, estavam mais interessados em conflitos urbanos, táticas de choque, guerrilhas de ideias e em arte punk de modo geral. Gravavam álbuns e singles independentes, faziam shows em benefício de causas como a grande greve dos mineiros britânicos (ocorrida entre 1984 e 1985) e viviam numa comunidade chamada Dial House, em clima que unia a descaralhação hippie de comunas como o Trans Love (que deu ao mundo o MC5) ao combate roqueiro do punk. O chefe da quadrilha era um sujeito chamado Penny Rimbaud, que fundara Dial House em 1967 como "centro da criatividade radical". Rimbaud, que tem hoje 70 anos e passava bastante dos 30 quando o Crass surgiu (tocava bateria no grupo) também foi um dos criadores do festival alternativo britânico de Stonehenge. O "conteúdo musical" também não ajudava muito: uma parte do material era tão lascado quanto o clássico punk brazuca Grito suburbano (1982), enquanto outra parcela consistia de enormes textos falados com trilhas sonoras por trás - como em Reality asylum, mais de seis minutos de discurso ateu e anticristão.

O Crass sumiu, voltou em outros projetos e ainda hoje permanece, no mínimo, perturbador - ainda que seus discos estejam longe de estar em qualquer relação de grandes álbuns do punk. Mas perturbar também vale a pena. A Dama de Ferro que o diga.