domingo, 31 de março de 2013

O OURO ESTÁ... ONDE MESMO?

Tem certas músicas que eu ouço religiosamente em determinados momentos da minha vida - todos os anos, na mesma data, e se possível no mesmo horário. E se possível sozinho e inúmeras vezes, seguidas. Prestando atenção na letra ou não, procurando descobrir alguma coisa nova na melodia ou não. Algumas delas, cheguei a ouvir dez vezes na tecla repeat no momento em que se fizeram necessárias.


Não consigo passar um aniversário (15 de novembro, 39 anos este ano!) sequer sem ouvir, por exemplo, Blue, Red and Grey, canção do Who lançada no álbum The Who by numbers, de 1975. Uma espécie de canção bipolar, agridoce, com melodia triste (conduzida apenas por um ukelele e um trompete) e letra alegre. Mensagem clara: nem sempre foi assim, mas eu gosto de cada minuto do dia, o prazer parece contrabalançar a dor. Viver não é fácil - e muito menos o era em 1975 para Pete Townshend, capitão do Who e autor da música, na época. The Who by numbers traz o bizarro acerto de contas do músico com seu vício em álcool, heroína e cocaína, com o mercado fonográfico, com as ilusões do sucesso.


No Natal, eu tenho que tirar alguns minutos do dia para ouvir duas músicas: Hoje é Natal, clássico do soul brasuca de Cassiano (lançado em Cuban soul, seu disco de 1976, o mesmo que tem Coleção e A lua e eu); e Xmas blues, espécie de tema psicodélico de Natal lançado pelo grupo mineiro-carioca Som Imaginário em seu segundo disco (Som Imaginário, de 1971). Descreve uma espécie de comemoração doidona, em que "as pessoas se abraçam com seus braços de algodão" e encerra com o anúncio de que "já chegou Papai Noel/Oh, yeah!". As duas músicas já tornaram vários dos meus Natais mais felizes.



Há algum tempo, acrescentei mais uma música à minha pequena lista (que tem mais algumas músicas, mas falo disso depois). O disco Obscured by clouds, lançado em 1972 pelo Pink Floyd, não é dos mais celebrados da banda. Mas é celebrado particularmente por mim. É a trilha de um filme-cabeça dirigido pelo francês Barbet Schroeder, La vallée. Vi uma vez num arquivão de YouTube, com legendas em inglês. Fala de um grupo de jovens que faz uma viagem em busca de autoconhecimento e tromba com experiências psicodélicas, sexo, tribos indígenas, paraísos esperando por serem descobertos. Tudo a ver com o espírito da época. No som, o Pink Floyd dá um meio-chute na grandiloquência e mistura progressivices dosadas a rocks muito básicos, baladas e sons para relaxar e namorar - como a romântica Stay.


E tem também The gold it´s in the... Rock aventureiro, se é que esse gênero um dia poderá existir. O som é bem mais anos 70, mais lascado, do que se esperaria de uma banda que já estava realizando o monumento sonoro The dark side of the moon (lançado em 1973) e recém saíra de álbuns como Atom heart mother (1970) e Meddle (1971), com suas canções-de-um-lado-inteiro. Na letra, uma ideário de época, mas que serve para toda vez que a porta se abre e algo novo recomeça: "Vamos, meus amigos, até as colinas/Eles estão procurando ouro, mas eu estou nessa pela diversão/ (...) Por trás das montanhas, cruzando o rios/Quem sabe o que está esperando por mim?".


É a música que eu ouço todas as vezes em que tem algo novo vindo aí. É o melhor para lembrar que, se houver qualquer tipo de resultado, ele vem do gostar de buscar, de correr atrás, de trabalhar como uma formiga, de cair dentro, de saber esperar, e de uma série de outras coisas que é preciso fazer todos os dias. E que o que interessa é o que vem aparecendo pelo caminho, antes da chegada.

quarta-feira, 27 de março de 2013

MPB E ROCK NACIONAL NA FESTA DA XUXA


Os 50, dizem os mais otimistas, são os novos 30 - mais dinheiro no bolso, beleza garantida graças a procedimentos estéticos, experiência e maturidade comprovadas etc. Mas a idade cronológica é a que conta, então lá vai: chegando ao meio século de vida nesta quarta (27), Xuxa conquistou (muito) dinheiro, amigos, amores, negócios, uma beleza física que resiste ao tempo, uma filha, vários discos de ouro. Só não conseguiu reconhecimento da crítica como cantora. Compreensível: a própria rainha dos baixinhos já disse em algumas entrevistas que acha que canta mal. Sim, canta - e o repertório não ajuda muito.

Campeões de vendas nos anos 80/90, os álbuns da série Xou da Xuxa - lançados entre 1986 e 1992 - nunca estarão em lista nenhuma de melhores álbuns de pop-rock do período, nem com muita boa vontade. O engraçado é que, nos créditos dos discos, é possível achar vários nomes que ajudaram a fazer alguns dos álbuns mais preciosos da música popular brasileira ou do pop nacional. Ou pelo menos gente que, ainda que siga numa linha mais popular, passa batido pela MPB vetusta sem causar constrangimentos. Confira só esses dez nomes, músicos e compositores, que fizeram freelas especiais para os álbuns da apresentadora.

OBS: Estou sem paciência de buscar todas as músicas desse texto no YouTube - se quiser ouvir todas, por favor, faz isso, blz?


RONALDO MONTEIRO DE SOUZA: A de amor, B de baixinho, C de coração, D de docinho... e E de Elis Regina. A cantora de O bêbado e a equlibrista tem algo em comum com a Xuxa: um hitmaker. Ronaldo Monteiro de Souza, ex-parceiro de Ivan Lins - com quem compôs Madalena, transformada em sucesso pela Pimentinha em 1971 -  coescreveu O abecedário da Xuxa, gravada pela rainha dos baixinhos em 1988. Foi com Ronaldo que Ivan viveu sua cultuada fase soul (de 1970 a 1973) e sentiu a viga da simonalização a poucos centímetros de sua cabeça (graças ao tema romântico O amor é meu país). Mais: o letrista ainda teve outras músicas gravadas pela ex-namorada de Pelé, como Dança da Xuxa (no mesmo disco), Conte comigo (Xou da Xuxa 4, 1989), o hit O boto rosa (Xou da Xuxa 5) e A voz dos animais (Xou da Xuxa 7, 1992). Boa parte delas foi feita com o soulman Prêntice (1956-2005).

CESAR COSTA FILHO: O parceiro de Ronaldo no Abecedário foi ninguém menos que Cesar Costa Filho, que com Aldir Blanc compôs Ela, gravada por Elis em 1971. Para registro: Cesar, Ronaldo, Ivan, Aldir e mais uma porrada de gente (Gonzaguinha e Taiguara entre eles) são todos egressos do Movimento Artístico Universitário, coletivo de músicos surgido no fim da era dos festivais, lá pelo começo dos anos 70. O parceiro de Ronaldo em Abecedário gravou uma série de discos de samba para a RCA (hoje Sony) nos anos 70, teve um hit em 1976 com a gaiata Consumatum est e, depois, afastou-se da carreira artística para trabalhar com direitos autorais (leia sobre isso aqui). No Xou da Xuxa 4 (1989) emplacou Alerta, feita com Sergio Fonseca e Reinaldo Waisman.

TAVINHO PAES: Letrista da galera pop-MPB dos anos 80 (é parceiro de Lobão e Arnaldo Brandão em Rádio blá, só para citar um exemplo), Tavinho embalou muitas festas de criança com... She-Ra, dos versos "Me apresenta pro He-Man/Teu irmãozinho é uma gracinha/E eu sou todinha do bem". O compositor também estendeu seus jobs para as boy bands oitentistas (Os Paquitos gravaram em 1990 Nova onda, outra dele com Joe, e Nill, ex-Dominó, gravou uma versão sua para I don´t want to live without you, da banda britânica Foreigner, Amor do futuro) e para outros especiais infantis (Conselhos da titia, parceria sua com Ruban Barra, foi gravada por Ruban para Plunct plact zumm II, de 1984), mas celebrizou-se pelas músicas gravadas por nomes como Hanoi Hanoi e Marina Lima.

JOE EUTHANAZIA: O parceiro de Paes em She-Ra foi o gaúcho Joe Euthanazia, responsável por parte do repertório de Neuzinha Brizola, por hits de grupos como Metrô (o hit ploc 80 Tudo pode mudar, feito com o poeta carioca Ronaldo Santos) e cantor solo nos anos 80 - Já fui e Me leva pra casa tocaram no rádio. O nome mórbido não o impediu de participar de um álbum do grupo infantil Trem da Alegria (em 1986, na música Tic tac do amor). Joe - que, no começo da carreira, usava o nome Zezinho Athanazio e militava na música nativista gaúcha - morreu em 1989 num acidente de automóvel.

CHICO ROQUE: Um dos reis do pagonejo (pagode + sertanejo, ok), o niteroiense Chico Roque tem como parceiros nomes díspares como o vetusto sambista Nei Lopes e o ex-Menudo Robby Rosa. Ele também compôs bastante com os hitmakers Carlos Colla e Paulo Sergio Valle, com o brega-engraçado Alípio Martins (aquele mesmo, de sucessos como Gozar a vida) e em sua lista de clientes estão Alcione, Joanna, Fafá de Belém e um monte de grupos de pagode. Sua Remelexuxa saiu no Xou da Xuxa 4 (1989).

MARCOS VALLE: Quem diria: até o golden-boy da segunda geração da bossa nova deixou sua marca na discografia da Xuxa - na fase Xou da Xuxa, foi em apenas uma canção, América geral, encerramento do último álbum da série, de 1992. A música é uma parceria de Valle, Claudio Rabello e do produtor Max Pierre. Diga-se de passagem, nem é tão estranho assim, já que Marcos está na memória de muitas crianças nascidas no começo dos anos 70 como compositor infantil, graças às trilhas de Vila Sésamo e Globo Cor Especial.

RONALDO BASTOS: Letrista de qualidade indiscutível, fez incontáveis parcerias com Milton Nascimento e responsabilizou-se pela produção de alguns dos álbuns do cantor - também mantém uma prolífica parceria MPB-pop com o compositor e cantor Celso Fonseca, que já gerou hits como Sorte (gravada por Caetano Veloso e Gal Costa) e álbuns como Liebe paradiso (2011). Pois bem, tá lá: o primeiro Xou da Xuxa (1986) é encerrado por Miragem viagem, versão em português, escrita por Ronaldo, de Black orchid, de Stevie Wonder (do álbum Journey to 'The secret life of plants', de 1978). Foi sua única contribuição ao repertório xuxesco.

FREJAT: Com o Barão Vermelho meio em baixa (Declare guerra, primeiro álbum sem Cazuza, de 1986, não deu muito certo), o guitarrista-vocalista Frejat e o batera Guto Goffi compuseram Garoto problema, que saiu no primeiro Xou, de 1986 - e ainda trouxe outro roqueiro oitentista, Evandro Mesquita, nos vocais. O universo infantil não era tão estranho assim para a dupla: Frejat tocara em Plunct plact zumm (1983) como músico de estúdio e o Barão soltou Subproduto de rock no Plunct II (1984), popular a ponto de ser tocada pela banda no primeiro Rock In Rio, em 1985.


BÔNUS: XUXA E SEUS AMIGOS (PolyGram, 1985) - Antes de ir para a Globo, ainda no Clube da Criança (Rede Manchete), saiu isso aí: um LP de Xuxa cantando com meio mundo do pop-rock nacional e da MPB - Caetano, o da foto aí de cima, inclusive. Não eram bem interpretações em conjunto - a apresentadora e o produtor (Roberto Menescal, o próprio) pegaram fonogramas que já existiam na gravadora (coisas como O gato, com Marina Lima, O caderno, com Chico Buarque e No mundo da lua, do Biquini Cavadão) e ela cantou por cima. Tinha ainda Xuxa tentando soltar a voz em Acalanto, clássico infantil de Dorival Caymmi. Nunca foi reeditado e cópias usadas seguem uma escala de preços completamente esquizofrênica em sites como o Mercado Livre - vão de R$ 15 a R$ 130.

O DOC DO PEARL JAM


Em 2011 vi Pearl Jam twenty, documentário sobre os 20 anos de carreira do Pearl Jam, numa cabine. Fiz a seguinte resenha para o Laboratório Pop. O filme já está disponível em DVD no Brasil e o PJ, você sabe bem, tá vindo aí.


A BANDA MAIS VIVA DA CIDADE
Publicado no Laboratório Pop em 13 de setembro de 2011


Em guerra com a gigante dos ingressos Ticketmaster, o Pearl Jam, lá pelos idos dos anos 90, se apresenta ao vivo. E, num monitor, é assistido, enquanto o cantor Eddie Vedder desanca a empresa, por ídolos do rock como Neil Young, Robert Plant e Jimmy Page, todos com um sorriso de satisfação nos lábios - como se pode ver lá pela metade de Pearl Jam twenty, documentário feito por Cameron Crowe, que conta a historia do grupo. Entre guitarras pesadas, aura clássica, estilo hippie-messiânico e uma quase-santidade digna do U2, fica clara a responsabilidade de banda vingadora e redentora que o Pearl Jam assumiu para si – e que aparece como subtexto em vários momentos do doc, previsto para chegar aos cinemas em 20 de setembro.




O rock de Seattle, que definiu a cara do começo dos anos 90, tem, contraditoriamente, o fracasso em seu DNA. O Nirvana era um banda dos anos 80 – formada em 1986 – que surgiu com cara punk-new wave, atrasada mais de dez anos para abraçar os estilos. E só estourou em 1991. O Soundgarden, antes da fama, se arrastava havia anos em selos independentes. Pilar indiscutível do grunge, mais do que as bandas que lhe deram fama, o Mudhoney não gerou muitos proventos para seus integrantes. A melhor banda da cidade, os Melvins, tem uma história parecida.


O Pearl Jam não fugiu à escrita: nasceu das cinzas de um grupo natimorto, o Mother Love Bone – cujo vocalista, Andrew Wood, morreu de overdose assim que a banda se lançou por uma grande gravadora. Baixista do PJ, Jeff Ament já havia se perguntado se realmente queria continuar fazendo música depois disso. Antes de gravar o primeiro disco, o Pearl Jam já havia arrumado uma pequena encrenca por causa de seu primeiro nome – Mookie Blaylock, referência a um jogador americano de basquete.

Uma história que, em
Pearl Jam Twenty, aparece coalhada de momentos de tristeza, indecisão e epifania – em meio à alegria pelo sucesso e pela sobrevivência (moeda rara no rock de Seattle), ao contato com os fãs, a discos clássicos como a trilogia Ten (1991), Vs (1993) e Vitalogy (1994) e à amizade que unia os músicos de Seattle no começo da carreira. Sem egos: Chris Cornell, cantor do Soundgarden, ajudou muito Eddie no começo da carreira e o convidou para cantar em Temple Of The Dog, projeto em homenagem a Andrew, que gerou o sucesso Hunger strike. E o Pearl Jam passou a tocar, com Vedder no vocal, Crown of thorns, do repertório do MLB.


Ainda que toque em temas espinhosos (como a própria visão dúbia do grupo em relação ao sucesso) Pearl Jam twenty não é uma invasão na história da própria banda: tudo é mecanicamente controlado. Ao contrário de Back and forth, que conta a trajetória dos Foo Fighters, as papagaiadas e mancadas feitas pelo PJ têm pouco espaço no doc. As mudanças de baterista, por exemplo, ganham um espaço (pequeno) no filme. Só quem pergunta sabe o que afinal aconteceu na época da tal luta antitruste da banda com o Ticketmaster – que hoje continua vendendo os tíquetes do grupo e não dá mostras de ter diminuído os preços dos ingressos, como o PJ queria. 


O escarcéu feito pelas revistas americanas há alguns anos sobre a adolescência de Eddie Vedder – retratado como um playboy pegador, e chutando para longe o mito do cantor angustiado e triste – lógico, passa longe. Fica o mito, em especial quando a banda toca hinos como Betterman para plateias imensas.  E em momentos legais, como quando Crowe devolve a um emocionado Vedder a primeira demo que ele gravara com a banda.


Fugindo um pouco do normal em documentários, Pearl Jam twenty investe em um catatau de imagens coletadas por fãs e antigos videomakers que já trabalharam com o grupo – e mistura tudo em várias colagens. Se a intenção era emocionar o imenso público do grupo e mostrar o devido lugar do PJ entre os clássicos do rock, Cameron já o faria com uma mão nas costas. E não fez diferente.

terça-feira, 26 de março de 2013

RESENHOL (PARTE 9)


VIDEO CLIP COLLECTION| AC/DC (DVD) - Começando pelo pecado: Video clip collection, indispensável DVD-coletânea de clipes do AC/DC, não tem Blow up your video, um dos melhores promos da banda, de 1988. O problema: nem toda pompa cênica disfarça que essa música é também uma das mais fracas do grupo, e pertence a um dos discos mais chulés dos “velhinhos” (como diz Roberto Medina, que os resgatou para o Rock In Rio I, em 1985), de mesmo nome. O que mostra o quanto a linguagem de clipes sempre foi importante para os australianos, nem que fosse para disfarçar momentos não muito gloriosos de sua carreira. Enfim, um dino de carteirinha, mas preparado para os anos 80, época em que esse tipo de procedimento virou padrão. E os 90, e os 00, ou de 2010 em diante. Pode contar que, daqui a vinte anos, o AC/DC ainda estará trancado em estúdio produzindo clipes que você não vai cansar de assistir, ainda que a música nem se compare aos momentos mais clássicos do quinteto.

 A discografia da banda, um tanto irregular para quem não é fã incondicional, se divide em momentos excelentes (tudo até Back in black, de 1980, e alguns mais recentes) e em discos que assustam de tão burocráticos – como toda sua produção na década de 80, em especial a imediatamente anterior ao RiR 1, quase catando cavaco. Mas, ora veja, Danger, Shake your foundations e Stand up, três músicas meio barro, meio tijolo de Fly on the wall (1985) ganham até outra cara com seus clipes interligados, que fazem parte de um filmete promocional feito pelo grupo na época. E em DVD merecem a tecla repeat.

Numa ordem não muito linear, o DVD começa com Dirty deeds done dirt cheap, gravado no começo da carreira em algum programa de TV australiano. Bon Scott, o primeiro vocalista, de mullet e colete de oncinha, lembra um vocalista de banda de glam rock. A seleção passa por Back in black, What do you do for money honey e You shook me all night long, todas já com o caminhoneiro Brian Johnson no vocal e estaciona no rock irresistível de Jailbreak, ainda com Scott e trazendo Angus Young irreconhecível de cabelo curto, em 1974. O AC/DC só voltaria a dizer a que veio no par de clipes de The razor’s edge (1991, com os hits Thunderstruck e Moneytalk), mas ainda deixaria uma pérola solitária em 1988, com o hino Who made who e seu clipe cheio de sósias de Angus Young.  E Big gun, com participação de Arnold Schwarzenegger (promovendo o longa O último grande herói, de 1993, que tem essa música na trilha), é o clipe que qualquer roqueiro com senso de humor vai querer ver de novo.



1972 | José Emilio Rondeau (direção)/Ana Maria Bahiana (roteiro) (DVD) - Como se faz um filme jovem, mas falando da juventude que habitava o Rio há quase quarenta anos? Correndo riscos. O principal é o de parecer datado, coisa que 1972 não é – afora as cenas em que tudo soa como um daqueles clipes-com-historinha dos anos 80 (opa! alguns deles eram concebidos pelos próprios idealizadores do filme) e o fato de várias gírias do período causarem crises de vergonha alheia.

Outro risco: fazer tudo parecer fantasioso demais – algo que, assumidamente, já faz parte do pacote, já que o longa trata, como pano de fundo, de um desenvolvimento inexistente do rock nacional no começo dos anos 70 (bandas novatas disputadas a tapa por gravadoras, revistas de rock tendo longa circulação nas bancas e etc). Impossível não recorrer no clichê de compará-lo com filmes como Quase famosos,  e com minisséries como Anos rebeldes, mas é mais ou menos na união desses dois climas que se resume o filme. E, provavelmente, isso é intencional.


1972 lança uma estrelinha cinematográfica que acabou não vingando (a bela Dandara Guerra), mas que é a responsável, ao lado da coadjuvante Debora Lamm (que hoje pode ser vista no seriado Cilada, do Multishow), por algumas das atuações mais seguras do longa – os demais atores jovens parecem verdes demais ainda. Toni Tornado, que faz um personagem cheio de mistério, rouba todas as cenas nas quais aparece, e é ainda um grande ator em busca de um personagem que realmente o evidencie. Trazendo o amor de uma candidata a jornalista de rock (Dandara) e um candidato a músico (Rafael Rocha) filtrado pelo rock, 1972 deixa passar tudo de maneira razoavelmente palatável .  Corre riscos - olha aí de novo! - por algumas vezes não se decidir se quer se aproximar da geração Malhação, ou se quer usar a mesma linguagem caótica dos filmes jovens dos anos 80 (e, consequentemente, acabar sem saber para que público está falando).

A relação do casal principal demora demais para começar, até mesmo para os padrões de uma era pré-concurso de beijo na micareta – e bota pré nisso. Mas cumpre a tarefa de trazer de volta uma época única de volta às telas, com embasamento histórico, alguns personagens reais – como a banda A Bolha e o DJ Big Boy – e outros baseados em figuras da época .  Só é meio estranho perceber que a tal banda fictÍcia do longa, o Vide Bula, se mexer daqui e dali, vira quase um Smiths. Ou Teenage Fanclub.




100% JOHNNY - LIVE À LA TOUR EIFFEL| Johnny HallYday (DVD) - Você não conhece Johnny Hallyday. Nem a pau. E, se resolveu dar uma googlada, já deve ter levado um susto com a aparência brega, cheia de botox, do sujeito - que já anda pelos seus quase 70 anos e, francês de nascença, canta numa língua alienígena demais, rebuscada demais para os critérios do rock´n roll. Na França, o cara é uma espécie de Elvis Presley-Roberto Carlos local, com direito a fazer um show como esse, aos pés da Torre Eiffel, e atrair meio mundo. Só que um tanto mais selvagem: nos anos 60 foi responsável por abrir shows de Jimi Hendrix Experience na França e chegou a bater altos papos com o guitarrista; em 1969 reuniu integrantes do grupo mod Small Faces no estúdio, para compor e gravar o disco Johnny Hallyday, um de seus títulos mais conhecidos fora de seu país de origem. 

Mesmo que 200 roqueiros debatessem durante um fim de semana inteiro, não daria para chegar a um consenso sobre se Hallyday é legal ou não. O fato é que, para curtir as 24 canções de 100% Johnny – Live à La tour Eiffel, gravado em 2000, é preciso perder o preconceito e se preparar para conhecer um roqueiro “das antigas” bem diferente do que quase todo mundo por aqui se acostumou a ver. Com registro vocal de tenor, medo zero de se roçar no brega (as vestimentas de palco da rapaziada, baladas como Vivre pour Le meilleur , com a então Sandy francesa, Sonia Lacen, e as dancinhas meio latinas das backing vocals entregam isso) e uma visão do rock que o coloca entre os Rolling Stones e a ingenuidade da jovem guarda, manda bala em boas canções cujos riffs bebem direto da fonte do r&b dos anos 60, como Allumer Le feu e Je suis ne dans la rue. Além de verter para sua língua canções dos Beatles (Got to get you into my life virou Je veux te graver dans ma vie), Animals (The house of the rising sun faz biquinho e vira Le penitencier) e clássicos gravados por meio mundo como If I were a carpenter (Si j’etais um carpenter).

Também convida outro nome roqueiro famoso da França para subir ao palco – o Les Rita Mitsouko em Ma guelle, com uma performance da cantora Catherine Ringer que mais parece as pataquadas “bregas” de Marisa Orth. E sua banda ataca um (ótimo) medley instrumental de temas de filmes de James Bond com um aparato cênico que... só vendo para crer. O que é rock para eles pode virar outra coisa para nós, pobres colonizados. Mas vale abrir olhos e ouvidos.

SUGAR RAY AO MAR!

Comentei aqui outro dia sobre a banda americana Sugar Ray, orgulho dos anos 90, que teve hits como Fly, Someday e Answer the phone. 14:59, disco deles de 1999, estava à venda outro dia na  Berinjela Discos, legendária loja do Centro aqui do Rio, por R$ 15. Deu saudade de músicas como as citadas e levei para casa. Não me arrependi.

O grupo, se você não sabe, ainda existe. E andou passando por péssimos bocados. Para começar, parece até invenção, mas é verdade: o Sugar Ray entrou para a onda dos cruzeiros e ia montar um, especialíssimo, de nostalgia dos anos 90. Ia, do verbo "não vai mais", bem entendido.

Denominado Mark McGrath & Friends (se você não sabe ou não lembra, é o nome do vocalista da banda), o cruzeiro do grupo iria trazer, além do SR, o Gin Blossoms (você lembra disso, certo?), Marcy Playground, Smash Mouth e, veja você, os Spin Doctors, dos quais falei também outro dia. Iria sair de Miami e iria até as Bahamas, em outubro de 2013, mas deu ruim. Em papo com a Rolling Stone americana, o vocalista culpou o recente incêndio num cruzeiro de carnaval no Golfo do México.

Não é o fim da linha para o Sugar Ray. Tem uma turnê da banda vindo por aí, que vai trazer, no mesmo palco, todos esses grupos, menos o Spin Doctors. Em compensação, tem (olha só) o Fastball, do hit abolerado The way. E uma banda da qual nunca ouvi falar, Vertical Horizon. O giro se chama Under the sun. Olha o McGrath anunciando as datas aí.

Será que isso vem para o Brasil? Pago R$ 400 pra ver isso e não pago R$ 1 pra ver David Guetta, na moral. Se der, ainda arrasto uma galera.

segunda-feira, 25 de março de 2013

AOS VIVOS: VIVAM EM PAZ

Você já sabe: só nos três primeiros meses deste ano, saíram de cena Chorão (Charlie Brown Jr), Emílio Santiago, Bobby Smith (Spinners), Clive Burr (ex-Iron Maiden), Bobby Rogers (The Miracles). Teve mais gente que "foi", só não lembro quem. Com isso, inevitável: fãs tristes postam milhares de R.I.P.s (rest in peace ou "descanse em paz", para quem não sabe) e mensagens de despedida nas redes sociais. E igualmente inevitável: gente que nunca foi fã e mal conhece esses artistas faz o mesmo. Postam vídeos, links duvidosos, entrevistas, etc. Enfim, celebra-se na morte o que não houve tempo (ou interesse) de se celebrar na vida.

Ok, sempre há tempo, sim. E mais: tem uma série de nomes de qualidade inquestionável, que vêm dos anos 30, 40, 50, 60, que estão por aí. Fazem poucas apresentações na TV, dão shows, fazem turnês, sem que muita gente nem saiba. Antes que você um dia sinta vontade de soltar frases-clichê no Facebook a respeito de gente que você mal conhece, que tal conhecê-los de verdade?

Vou além disso. Faça um favor a si mesmo: adote um artista das antigas. Acompanhe sua carreira, saiba do que está rolando com ele, veja suas aparições na TV e, se possível, compre os discos, vá aos shows, visite-o no camarim. Você com certeza vai se surpreender. E pode passar a gostar de coisas que nem imaginava que fosse gostar.

Segue aí uma pequena lista de oito nomes. E tem mais por aí. Importante: esse texto é sério, é uma homenagem e não tem NENHUM fundamento irônico. 


TRINI LOPEZ:  Quem nasceu nos anos 70 conheceu esse cantor americano de ascendência mexicana por causa da trilha internacional da novela Estúpido cupido (1976, com o hit America). Levado ao mercado fonográfico pelo selo de Frank Sinatra, Reprise Records, gravou clássicos como o ao vivo Trini Lopez at PJs (1963), teve uma guitarra da Gibson lançada com seu nome e está na ativa até hoje. Em 2011, soltou o álbum Into the future, com músicas como This masquerade (Leon Russell) e Route 66 (Bobby Troup). No Brasil, foi famoso a ponto de ter um cover oficial, Prini Lorez.

MARLENE: A Rainha do Rádio está com 90 anos, esbanja vitalidade e acaba de ter lançada uma biografia, A incomparável, escrita por Diana Aragão. Deu entrevista recentemente para o jornalista Leandro Souto Maior, no jornal O Dia (confira aqui), falando do livro e de outros assuntos.

ÂNGELA MARIA: Uma das maiores cantoras da história da música popular brasileira, lançou no ano passado o disco Eu voltei e, recentemente, concedeu essa entrevista aqui para a cantora Roberta Sá na Faixa Musical do Canal Brasil. Um item precioso é o DVD Abelim Maria da Cunha (seu nome verdadeiro), que traz um show levado ao ar na Rede Globo, na série Grandes Nomes, em 1980.

CHUBBY CHECKER: O cantor americano que popularizou o twist (outro a ter um cover por aqui, Tony Checker, que era ninguém menos que Tony Tornado em começo de carreira) continua gravando e teve um hit em 2008, Knock down the walls. Parece piada, mas é verdade: recentemente, a Hewlett-Packard criou um app para medir o tamanho do pênis chamado "chubby checker". O cantor não achou nada engraçado.

PAT BOONE: Anos 50. Num momento em que havia muita segregação racial nos EUA (ok, ainda há) e os discos de artistas de rhythm´n blues sequer tocavam em certas rádios, ele foi a voz de vários deles. Da mesma forma, foi uma das vozes pop de inúmeros roqueiros quando vários artistas, quase ao mesmo tempo, se envolveram em encrencas com a polícia. O bom-rapaz americano Boone continua por ai, lançou dois álbuns em 2006 (Hopeless romantic e We are family) mas é mais conhecido hoje como artista gospel, caretão e conservador. Em 1997 espantou muita gente lançando um (bom) álbum de versões big band de clássicos do heavy metal, No more Mr. Nice Guy - sua versão de Crazy train, de Ozzy Osbourne, foi parar na abertura da série The Osbournes.

NEIL SEDAKA: Contemporâneo de Boone, o ítalo-americano Sedaka continua gravando, dando shows e chegou a aparecer em séries como American idol. Seus fãs lutam por sua entrada no Rock And Roll Hall of Fame, mas até agora não rolou - fizeram até um abaixo-assinado online, que você pode conferir e assinar aqui. Quem beira os 40 anos, lembra de pelo menos um grande hit dele, a ensolarada Breakin up is hard to do (por sinal, outra de Estúpido cupido).

ROSANA TOLEDO: Gatíssima nos anos 50, a mineira Rosana gravava repertório de sambas, sambas-canção, boleros e precursores da bossa nova, virando a mesa em favor do estilo de vez no álbum Momento novo (1959). Vive hoje no Retiro dos Artistas e costuma fazer shows. Recentemente teve um CD-coletânea lançado na série Super divas (EMI), com produção do jornalista Rodrigo Faour.

DEMÉTRIUS: Roqueiro pré-jovem guarda, parou de cantar nos anos 80-  mas retomou a carreira, mantém um site oficial e tem lá o telefone de contato para shows. A música que todo mundo conhece dele é o hit Ritmo da chuva. Mas de lá saiu mais: gravações de Rock do saci (de Baby Santiago), O amor que perdi (versão de Fred Jorge para a bela Runaway, de Del Shannon) e até canções-piada gravadas por Ary Toledo (O que será que as outras têm que a linda não tem?, de peidar de rir).

domingo, 24 de março de 2013

RESENHOL (PARTE 8)


LIVE IN DETROIT | Iggy Pop & The Stooges (DVD)  - Gravado em 2003 – e já lançado em outra ocasião no Brasil, por outro selo – Live in Detroit é mais uma celebração do que um show. Mostra os Stooges, de volta após participarem de algumas canções do disco Skull ring, de seu líder Iggy Pop, em show na sua cidade natal. A banda não está mais tão pirada quanto antigamente – só mesmo Iggy Pop segura a onda do papel de velho herói punk, cantando sem camisa, descabelado e se jogando. E convidando os fãs para subir no palco em Real cool time - uma experiência que nem sempre dá certo, mas que no caso do DVD, surtiu bons resultados.

O espírito de Iggy permanece o mesmo: insere um “fucking” a cada frase (às vezes dois numa frase), refere-se a seus fãs como “motherfuckers” e berra enlouquecidamente como se o tempo não tivesse passado, em canções como Loose, Down on the street, 1969, No fun, 1970 e em Little doll (na qual convida, politicamente incorreto, seus fãs a irem para a “fucking Africa”, enquanto o resto da banda faz algo que parece uma velha canção de Bo Diddley).

Produzido pela revista americana Creem, Live in Detroit tem atrativos básicos ao ser lançado nestes tempos no Brasil. O primeiro é ajudar os fãs a matar as saudades do guitarrista Ron Asheton, morto em 2009 e aqui tocando como em 1969, 1970 – no baixo, está Mike Watt, dos Minutemen. O segundo é ouvir todas as músicas quase como elas estavam nos discos originais. Em músicas como I wanna be your dog e TV eye, parece até que os músicos seguem partituras, tamanha a fidelidade. E ver que, ao contrário do que muitos afirmavam, o saxofonista Steve Mackay ainda está vivo – o músico, que participou de um trio básico de músicas em Funhouse (1970) já havia sido dado como morto e ainda faz a maior fanfarra na reprise de I wanna be your dog, no final do DVD. Nos extras, um show dispensável da banda numa livraria, gravado como se fosse um bootleg, com uma câmera só. Imagine os punks cavalares encolhidos num palco qualquer de megalivraria e sinta o drama.

MISS LITTLE HAVANA | Gloria Estefan (CD) - "Ela agora vive num novo lugar, novinho em folha/Não tem nem um telefone/De fato, a única coisa que ela possui é sua liberdade". Autora de discos e canções de música pop-cubana para quem não é fã ou nem conhece música cubana, Gloria Estefan chega ao novo disco entre sons latinos, canções sobre baladas (algumas regadas a impensáveis substâncias estranhas, com direito a citações ao ecstasy em Heat) e aos arranca-rabos com o regime de Fidel Castro. Como no verso acima, da faixa-título, referência à Little Havana, comunidade de Miami povoada por migrantes do país caribenho - e primeiro pouso da artista ao cruzar a fronteira sem passagem de volta, na infância, quando era apenas a filhinha de dois anos do guarda-costas do ditador Fulgêncio Batista, deposto por Fidel.


Miss Little Havana tem novidades. Quem achava que hits como Reach ultrapassavam a taxa de glicemia, vai se surpreender com o fato de o novo disco ganhar mais do que apenas uma mãozinha do rapper Pharrell Williams (Neptunes, N.E.R.D). O cara produziu, co-escreveu músicas (algumas, compôs sozinho) e orientou quase todo o trabalho ao lado do casal Gloria e Emilio Estefan. Lado, digamos, bom: sobram referências às investidas afro-latinas do classicão Earth, Wind & Fire (I can´t believe e a bossa latina Time is ticking) e lembranças dos hits dançáveis da própria Gloria e de seu ex-grupo, Miami Sound Machine (Right away). Nada de tão redentor ou grandioso assim, claro - e quem comprar o disco, ainda ganha bizarros e velhuscos tunts-tunts-tunts de academia, como na chatinha Make me say yes, repleta de vocais sintetizados (à moda de Believe, aquele hit da Cher).


Ah, e isso porque é só a primeira parte. Após as nove primeiras músicas, o maridão Emilio Estefan manda Pharrell passear e toma conta da produção. Se você por acaso se orgulha de guardar em casa toda a coleção de CDs Só as melhores da Jovem Pan dos anos 90, está do lado certo do alambrado: prepare-se para pular muito ao som das pérolas dance da etapa II, como Hotel Nacional e a latinesca Make my heart. E pode dar risada do fato da cubana manter na cabeça um conceito de pop music que já dava sinais de desgaste em 1995, pois o desnível de produção é perceptível de cara. Ok, deve ter muita gente que gosta.


THE RISE AND FALL OF BEESHOP | Beeshop (CD) -  “O Fresno é uma banda que a minha sobrinha ouve, mas eu ouvi falar que o vocalista tem um trabalho bem melhor, as músicas são melhores, são assim, assado, etc”. Quem frequenta comunidades de discussão sobre rock, é amigo de jornalistas musicais, é jornalista musical ou se relaciona com gente minimamente interessada em música, já andou escutando essa frase. Primeiro: nada contra o som que as sobrinhas de 13, 14 anos ouvem, até porque nos últimos discos, o Fresno andou dando mostras de que está saindo fora do pé-no-brega de discos como Ciano e de músicas medonhas como Cada poça dessa rua tem um pouco de minhas lágrimas. E The rise and fall of Beeshop, estreia do tal projeto “adulto” de Lucas Silveira, vocal do Fresno, pode soar mais palatável até mesmo aos ouvidos de quem despreza a banda. 

Com canções exclusivamente em inglês e quase todos os instrumentos tocados pelo músico – responsável também pela produção – o som pode até se roçar, por vezes, num som pouca coisa mais cru que o pop das boy bands ou do que o valha (Come and go, por exemplo, lembra o – aliás, lembra deles? – Savage Garden). Mas se referencia no Queen em Cookies, em Elton John na ótima All I need. E cai para cima de Paul McCartney em Driving all night long e na teatral Lovers are in trouble, de uma forma que talvez nem os maiores fãs do Fresno poderiam imaginar. Ainda tem bons rocks que soam como coisa de banda gringa, como a folk Rockstars and cigarettes e Victoria Indie queen (vale citar que a letra desta última, irônica ou não, é um primor de bom-mocismo, narrando a paixão por uma menina emo que passou a andar com um bando de doidões – “você nunca havia se dado conta do quão perfeita você era ouvindo Fresno/e agora eu vejo você bêbada e perdida/com Ritalin numa das mãos”, diz a letra). A área do cara, já conhecida por sua banda-matriz, é devidamente explorada em canções como Mr. Confusion.

Não fosse Lucas vocalista de uma banda conhecida, seria o tipo de som que estaria sendo repassado de Myspace em Myspace e despertando curiosidades. Só não dá, ainda, para causar a mesma recepção redentora que Scott Weiland, dos Stone Temple Pilots, causou em boa parte da crítica quando lançou o solo pop e jazzy 12 bar blues, em 1997 (quem odiava a banda passou a respeitar o cara e a soltar venturosos “eu até que gosto dos STP” em festinhas). Mas nada impede.


* Tudo publicado no Laboratório Pop

quinta-feira, 21 de março de 2013

BERINJELA

Nos anos 90, a livraria-loja de CDs carioca Berinjela tentou ser gravadora - lançou, que eu saiba, só um álbum, que foi a estreia do mitológico grupo Piu-Piu E Sua Banda, Antibiótico (1995, acho). Chegou a agendar shows no pequeno espaço que ocupa ao final de uma galeria na Avenida Rio Branco, Centro do Rio. Nunca fui a nenhum, mas lembro de ter lido no Rio Fanzine, do O Globo (comandado por Tom Leão e Carlos Albuquerque), que rolou lançamento de Baladas sangrentas, estreia de Wander Wildner, lançada também em 1995.

Era também o lugar onde era possível encontrar todas (ou quase todas) as fitas demo de bandas cariocas dos anos 90. Lembro de ter comprado lá a dos Funk Fuckers, banda que B. Negão mantinha paralelamente ao Planet Hemp. Tenho até hoje, deve estar na casa dos meus pais. Vi uma vez uma das primeiras demos do Los Hermanos. Era um bom ponto de compras e de encontros - já marquei algumas vezes com amigos lá só para bater papo, ver CDs e etc.

Heroicamente, a loja ainda existe. Estive lá ontem. Não sei direito o quanto vende de CDs. Livros, imagino que venda muitos - o volume de raridades que comprei lá é enorme. O tempo lá não parou no mesmo 1995 do Piu-Piu e da estreia de Wander Wildner. Mas, na boa: se quiser recordar uma certa entidade chamada mercado fonográfico - em especial o aquecimento pós-1992 - lá é o lugar.

Uma pesquisada na parte de CDs dedicada à música pop revela raridades que se você for deixar para comprar no Mercado Livre, vai gastar muito. Se for pensar "ah, dane-se, vou baixar da internet", vai perder boa parte do bom da experiência de ouvir música. O triplo Emancipation, do Prince, lançado em 1996 após o término de seu contrato com a Warner, estava lá te esperando até ontem. Não lembro quanto custava, mas não achei o preço injusto.

Tem mais. Lembra do Urge Overkill, aquela banda da qual provavelmente você só conhece Girl, you´ll be a woman soon? Tem discos para vender lá, por preços que não ultrapassam os R$ 15. Lembra do Methods Of Mayhem? Nem sei o que é isso, mas lá tem. Discografia da Sheryl Crow? Alguma moça nascida por volta de 1974, 1975 - e fã dela naquela época - se desfez de seus CDs. Vi vários por lá. Nomes que você lia na Bizz ou via de relance na MTV estão lá esperando por você: Morcheeba, Kula Shaker, Live. Valem uma compra de impulso.

E Mike + The Mechanics, bandeca que Mike Rutherford, do Genesis, montou em paralelo ao seu grupo. A rigor, o único grande hit é Over my shoulder, do álbum Beggar on a beach of gold, de (olha ele aí de novo) 1995. Tem lá pra vender. Tem coisas mais recentes também. Acho que valeria gastar uma grana com o primeiro disco do Jet, Get born, lançado em 2003.

Não estou numa fase em que posso gastar muita grana. Nem acho que, hoje em dia, eu tenha tanta necessidade de comprar muito CD - isso era uma coisa que eu fazia nesse ano aí, que já apareceu três vezes nesse texto. Acabei me animando para levar para casa e recordar duas bandas que possivelmente não farão a menor falta na história do rock. O Sugar Ray, banda americana tripolar que ficava entre o punk, o rap e os sons latinos, lançou em 1999 o bom 14:59, com as canções Every morning e Someday. E, na boa, que se dane quem odeia Spin Doctors - conferir You´ve got to believe in something, disco de 1996 do grupo (com o hit na trave She used to be mine) era o que eu queria.

Minha volta ao passado poderia ter sido melhor e ainda não me conformo de não ter levado o disco do Prince. Quer levar no meu lugar? Dá um Google e descobre como chega na Berinjela.



EMÍLIO SANTIAGO PRÉ-AQUARELAS, POR RENATO VIEIRA


Você viu nesta quarta (20) nos jornais: Emílio Santiago morreu. Clichês, esperados clichês: cala-se uma das maiores vozes da MPB, o time dos grandes crooners perde mais uma enorme força, etc. A verdade é que, antes de qualquer coisa, sai de cena um talento raro num país que maltrata seus grandes talentos. Dono de grande voz e musicalidade ímpar, Emílio passou a mesclar grandes medleys de MPB com sambas mais popularescos a partir de 1988, com a série de LPs Aquarela brasileira - que o trouxe de volta às paradas após um pequeno sumiço de quatro anos. E passou a ser rotulado de "cantor de churrascaria", entre outros epítetos imbecis (e, vá lá, Emílio já gravava pot pourris de MPB desde os anos 70 - sempre foi uma marca do seu trabalho, ao lado do lançamento de grandes canções).

Fui bater na porta virtual do amigo Renato Vieira, jornalista e crítico musical do jornal
O Tempo, de Belo Horizonte, e pedi a ele um guia com dez canções para se conhecer o Emílio pré-Aquarelas - e dar uma sacada nas pedradas musicais que ele publicou em seus discos entre 1975 e 1984. Tem muita, mas muita coisa boa lá, e você vai ouvir tudo aqui.



EMÍLIO SANTIAGO PRÉ-AQUARELAS
por Renato Vieira 


Emílio Santiago gravou em 1977, no álbum Comigo é assim, uma parceria de Dominguinhos e Anastácia chamada Preconceito (Pura tolice). Ele mesmo foi vítima de um preconceito tolo  - e quais preconceitos não o são? - dos que diziam que ele era um “cantor de churrascaria”, por conta dos sucessos gravados em sete volumes da série Aquarela brasileira, gravados entre 1988 e 1994. São as mesmas pessoas que desconhecem que sua fase áurea foi no período anterior às Aquarelas.

Em onze discos feitos entre 1975 e 1984. Emílio deu voz a novos compositores, sempre acompanhado pela nata do instrumental brasileiro, aderiu à modernização de nossa música catalizada pelo movimento Black Rio e nunca deixou de pinçar pérolas que jaziam esquecidas no imenso baú chamado MPB. Aqui vai uma seleção de dez músicas desse período que mostram o “cantor de churrascaria” fazendo a diferença em meio aos canários deste País.


"SARAVÁ Ô NÊGA" -  Lado A de seu primeiro compacto, gravado em 1973 para a Polydor, pouco depois da participação de Emílio em A grande chance, programa apresentado por Flávio Cavalcanti. A música de Odibar – parceiro de Paulo Diniz em Pingos de amor e Um chope pra distrair – é um samba rock safadinho, embebido em wah-wah e sintetizadores. A voz potente vai brincando com os compassos, em uma pérola admirada por muitos DJ’s.

"BANANEIRA" -  Em recente entrevista ao programa Agora é tarde, da Band, Emílio revelou que gostava muito de seu primeiro LP, lançado pela CID em 1975. “É meu cartão de visita”, disse. Um dos melhores discos de estreia já feitos na MPB, com dez faixas irretocáveis, com o auxílio de gente como João Donato (destruindo no piano elétrico), o flautista Copinha e o grupo Azymuth. A suingante Bananeira, outra figurinha fácil no repertório de DJ’s mundo afora, abria o trabalho. Você pode até achar a letra de Gilberto Gil meio boba, mas em uma festinha não dá pra se segurar.

"LA MULATA" -  Espetáculo de música da dupla Marcos e Paulo Sérgio Valle, da qual
houve apenas esse registro. A latinidade é ressaltada pelo piano de Donato e o fraseado cristalino e precisamente malicioso de Emílio permite que o ouvinte imagine a descrição da mulata que “sabe fazer o que a gente quer”. Em pouco mais de dois minutos, quem escuta fica querendo mais.

"NÊGA" -  Primeiro sucesso popular de Emílio, impulsionado por sua inclusão em 
O astro, novela de 1977. O samba de Vevé Calazans foi incluído em Comigo é assim, quarto LP de Emílio e o terceiro pela Phonogram em menos de dois anos. Começa num proto-samba-rock, traz na primeira parte ecos de samba-canção até a explosão no refrão. Controle de nuance vocal total por parte do Emílio em todo o disco, que traz sete arranjadores - entre eles Antonio Adolfo, Sivuca, Meirelles e Zé Menezes - em suas doze faixas. Cantor de churrascaria não tem esse luxo.

"NO BALANÇO DO TREM" -  Outra de Comigo é assim e favorita da casa. Foi a primeira de uma série de músicas que Gonzaguinha compôs especialmente para a voz de Emílio, que acabaria lhe dedicando Um sorriso nos lábios, CD lançado em 2000. A crônica urbana com toques políticos tinha tudo pra ser uma música pesada, mas graças ao gingado de Emílio a mensagem da dureza cotidiana é somada ao balanço.

"VIDA MARÉ" - Faixa de Octávio Burnier (da dupla Burnier e Cartier, este último um dos autores de Saigon, sucesso-assinatura da fase Aquarela brasileiras) e Ivan Wrigg, abre o lado B de Emílio (1978). É seu melhor disco. O cantor aderiu à sonoridade da banda Black Rio e estava endiabrado em faixas como Amante amado (Jorge Ben), Pêrêkêtêia bingola (Marku Ribas) e esta, bom exemplo de como Emílio sabia dividir os compassos. Pra quem ouve, parece até fácil.

"QUASE SEMPRE" - A faceta Nat King Cole dá o tom nessa parceria de Edu Lobo com o poeta Cacaso, presente em O canto crescente de Emílio Santiago (1979).  A característica existencial/ reflexiva da letra é melhor compreendida nesta versão do que na gravada por Edu em Tempo presente (1980).

"AMOR DE LUA" - Faixa-título de seu disco de 1981, a leitura de Emílio para a música do paraense Vital Lima é uma aula de como cantar uma música romântica sem que ela soe piegas. Pontuada apenas pelo oberheim de Zé Roberto Bertrami, do Azymuth, a faixa merece ser redescoberta.

"PELO AMOR DE DEUS" -  Outro grande sucesso popular de Emílio, que venceu o festival MPB-Shell 1982 com essa música de Paulo Debétio e Paulinho Rezende. Só o arranjo de metais já valeria sua inclusão no rol de grandes clássicos da MPB. Mas Emílio deita e rola com sua potência de voz, praticamente conclamando o ouvinte a cantar com ele. Foi incluída em Ensaios de Amor (1982).

"O AMIGO DE NOVA YORK" - Também foi sucesso no seu lançamento, mas ficou relegada a segundo plano através dos anos. A faixa que abre Mais que um momento (1983), seu disco mais pop, pode soar datada para alguns, mas ainda conserva sua energia. Os estilos dos compositores dessa música não têm nada a ver um com o outro - Macau, autor de Olhos coloridos é soul; Durval Ferreira é um dos artífices da bossa nova, compositor de Moça flor. Mas o fato é que o resultado ficou acima da média.

terça-feira, 19 de março de 2013

SWEET APPLE


Paguei R$ 70 por esse CD no Mercado Livre - depois de anos ouvindo a banda em MP3. E valeu a pena. A estreia do grupo americano Sweet Apple, Love & desperation, saiu em 2010 e não desperou muitos ouvidos hipsters no Brasil. Injustiça com uma banda que reúne líderes de duas formações sólidas e legais do rock alternativo americano - a recente Cobra Verde e a clássica Dinosaur Jr. A notícia é que o grupo está gravando disco novo e, recentemente, brindou os fãs com um single novo - uma releitura de Elected, de Alice Cooper. Em 2010, fiz uma materinha pequena, sem aspas, sobre os caras, para o glorioso Laboratório Pop. Esqueci de citar no texto uma das minhas músicas preferidas do CD, o powerpop Somebody else's problem. Mas tá valendo.


DEPOIS DA TEMPESTADE
Conheça o Sweet Apple, supergrupo de hard rock nascido em condições adversas
Publicado no Laboratório Pop em 23 de abril de 2010


A história que o cantor John Petkovic, da banda americana Cobra Verde, conta, é que resolveu montar o supergrupo indie e tosco Sweet Apple após um dia de desespero. “Minha mãe morreu, uma série de coisas culminou depois disso e me deixou baqueado. Na época eu estava fumando três maços por dia”, afirmou, em conversa com a Magnet Magazine.

Numa ocasião, o músico apanhou as chaves do carro e saiu dirigindo desesperado, sem destino. Acabou indo ao encontro de antigos chapas que estavam na cidade de New England: J. Mascis, vocalista e guitarrista do Dinosaur Jr, Tim Parnin, guitarrista do Cobra Verde e Dave Sweetapple, baixista e vocalista do grupo Witch. Foi do nome do baixista que surgiu a ideia de um supergrupo reunindo todos esses amigos, e assim surgiu o Sweet Apple, que lançou há poucos dias seu debute, Love & desperation, pelo selo Tee Pee.


No som, um compêndio de detalhes setentistas, indo desde o revivalismo praticado pelos nomes do stoner rock à toscaria de grupos como Blue Cheer – mas passando por doses bem escolhidas dos sons de FM da época. Além de uma sonoridade que tocaria no rádio nos anos 90. O projeto talvez não soe, digamos, tão diferente assim do rock meio clássico, meio lascado, do Cobra Verde – cujo último disco, Haven’t slept all year (2008), já escancarava o estado crítico pelo qual passava seu vocalista. Mas se sustenta 100% pelo idioma rock que é falado por todos os músicos, conhecidos workaholics do meio roqueiro, que já estavam por aí desde os anos 90 (Mascis, bem mais tempo antes que isso) com uma série de projetos.

“Temos muito a ver um com o outro mesmo”, afirmou Petkovic no tal papo com a Magnet Magazine. “Eles (os colegas de banda) têm uma compreensão profunda do que seja o rock. Não apenas no que diz respeito ao som, mas à atitude. Quando gravamos o disco, atirávamos ideias e todos nós estávamos abertos a todas elas”.


Ao contrário do que se imagina num álbum em que o paradigma é o rock como ele é (berrado e repleto de guitarras pesadas), não há um ajuntamento imbecil de riffs. Há canções bem urdidas como Do you remember, Can't see you e I've got a feeling (I won't change), com toques concomitantes de AC/DC, Lynyrd Skynyrd  e Beatles, unidas a sons que lembram os riffs de bandas como Jon Spencer Blues Explosion (Flying up a mountain). E que se somam a surpresas como a balada It’s over now, a classe quase anos 50 de Hold me, I’m dying e o soul-rock de Crawling over bodies, além do clima meio The Who, meio T. Rex (com direito a riff chupado de 20th century boy, deste último) da sólida Goodnight.

Na capa, mais referências ao rock que formou os ouvidos dos integrantes, com duas moças seminuas no meio de um matagal, tal qual Country life, álbum do Roxy Music (1974), que também trazia uma imagem parecida. Uma ideia que, juram eles, surgiu da falta de opções. Mas que não deixa de trair um certo apego à sacanagem.

Conheça o som do Sweet Apple aqui. E veja abaixo o clipe de Do you remember.




domingo, 17 de março de 2013

THE SHAGGS


Uma notinha que traduzi para publicação no portal Laboratório Pop em 2010, sobre a banda de rock, formada por mulheres, The Shaggs. O trio gravou... ok, você sabe disso, mas vamos situar todo mundo: com pouca noção instrumental, muita cara de pau e uma força do pai (que encasquetou que suas três filhas seriam um sucesso), elas entraram em estúdio em 1966 para gravar um único disco, e levaram o rótulo de "pior banda do mundo", graças a músicas que mal parecem canções com começo, meio e fim. Para 2011 programava-se a volta ao palco de um musical sobre elas.

A PIOR BANDA DO MUNDO

A banda feminina dos anos 60 The Shaggs já recebeu diversos epítetos. Responsáveis por um único álbum, Philosophy of the world (1969), no qual o máximo que sabiam fazer no estúdio era segurar os instrumentos, foram chamadas de "pior banda do mundo" e até de "rock experimental". Frank Zappa considerava as três irmãs Wiggin, que formavam o grupo (Dorothy nos vocais e na guitarra, Betty na guitarra base e Helen na bateria) como "melhores que os Beatles" e até o prestigioso The Guardian disse que as meninas eram "abençoadas pela falta de ritmo". Para saber mais, é só esperar o musical The Shaggs: Philosophy of the world, que estreia em Nova York em 2011. 

A peça já havia sido levada ao palco em outras ocasiões, mas ressurge modifcada e com novos atores, ainda não escolhidos. O musical é uma produção conjunta da Playwrights Horizons e do New York Theater Workshop, e foi criado por Joy Gregory e Gunnar Madsen, que dividem música e letra da peça. Philosophy conta a história do trio, que foi tirado da escola pelo pai e passou a se dedicar à música, também por pressão paterna. Madsen diz que nem conhecia a música das Shaggs ao ouvir a banda e, ao saber do histórico do trio, teve um impressão completamente diversa da que as pessoas costumam ter ao ouvir a música das garotas.

"Ouvi e achei algo profundamente depressivo. Muitas pessoas podem rir ao ouvir o som, mas para mim ficou claro o quanto elas estavam sendo forçadas a fazer aquilo. Dá para perceber o quanto elas estavam lutando para achar algo a mais naquele caos que era a música que faziam", relata.


Ao começar a pensar na peça, Madsen diz que teve que se colocar no lugar das meninas e tentar descobrir, por sua própria conta, como elas desejavam que sua música soasse. Diz que é possível achar referências a grupos famosos na época, como Herman's Hermits. E recorre à faixa-título como o grande mote da peça. "É a única canção que seu pai quer ouvir de uma determinada forma, mas elas a tocam de uma forma que não agrada ao velho". Os problemas familiares do trio são apresentados com músicas que se aproximam do estilo das Shaggs. Madsen chama o som ao qual chegou na peça de "Stravisnky encontra David Byrne".

"Em momentos cruciais, mostramos a música delas como ela é mesmo. Muita gente a acha depressiva, muita gente a acha charmosa e inovadora. E é o que você tem aí", diz Madsen.




As Shaggs encerraram atividades em 1975, após a morte de seu  pai - que estava arrumando mais uma sessão de gravação para suas filhas. Em 1999, fizeram uma breve volta, reduzidas a Dorothy e Betty (a baterista Helen estava em depressão e viria a morrer em 2006) para celebrar os 30 anos de lançamento do único álbum - já reeditado em CD com vários bônus. Grupos como Nirvana as citaram como influência e é quase impossível não achar ecos de seu som (trazendo guitarras e bateria, e nada de baixo) em grupos como White Stripes.


As informações são do The Guardian. Aí em cima, você confere uma das "canções" das três meninas - a faixa-título de Philosophy of the world.

sexta-feira, 15 de março de 2013

RESENHOL (PARTE 7)


“DOUBLE BRUTAL” - AUSTRIAN DEATH MACHINE

Para bater cabeça rindo. O ADM tem obsessão pelo conterrâneo Arnold Schwarzenegger, dedicando-lhe discos inteiros. No duplo Double brutal surge até um Schwarza falso, em canções e em vinhetas engraçadinhas como Double Ahhnold, Who writes the songs e Intro to the intro. O death metal do grupo é que soa meio repetitivo, em faixas como I need you clothes, your boots and your motorcycle e It's simple, if it jiggles it´s fat, que aludem a filmes como Exterminador do futuro e O homem dos músculos de aço. O segundo CD traz temas de punk e metal (de Metallica, Misfits, Megadeth) que aparecem em trilhas de longas de Arnold, além de mais piadinhas.





“DAMAGE CONTROL” - TANGO DOWN

Tem quem defenda que o hard rock dos anos 80, com seus exageros e (vá lá) breguices, poderia bem ganhar hoje o status de clássico, como vem acontecendo com o heavy metal. Quem acredita nisso pode ouvir sem sustos o segundo disco dos americanos do Tango Down, que sai quatro anos após a estreia. Graças a uma certa tendência a não exagerar na farofa, fizeram um som pesado e sem gorduras excessivas, em canções como Empty hole, I can't wait (lembrando Scorpions), I wanna...! e a tipicamente anos 80 I'm done love you. O lado bom do trabalho de bandas como Motley Crue e Firehouse, que muitos enxergam e outros tantos desprezam, está aqui.



Resenhas de CDs meio bizarros que publiquei no Jornal do Brasil

quinta-feira, 14 de março de 2013

NEPAL



No primeiro disco do grupo mineiro-carioca Som Imaginário (homônimo, Odeon, 1970) mal dá para perceber. Mas Nepal, uma das músicas do álbum, tinha lá seus ares de canção pop perfeita, quase lembrando Burt Bacharach (tá, pelo menos o andamento lembra o de Raindrops keep falling on my head).

A música tinha aparecido antes numa versão feita pelo próprio autor, o guitarrista do grupo, Frederyko. Saiu num compacto simples lançado pelo selo Equipe, do qual muita gente sequer deve se lembrar, ou saber que existe. Lá, dá para perceber o lado mais pop da música - na qual ainda assim o guitarrista solta riffs e solos com distorção.

O vídeo é mais uma raridade colocada no ar pelo pessoal da loja carioca Tropicália Discos, que enche o YouTube de surpresas: áudio de singles raros de música pop nacional, músicas (das piores às melhores) de artistas que você nunca ouviu falar, pedradas lançadas por pioneiros selos indies brasucas, etc. Vale seguir o canal deles e fazer uma bela busca por lá.

JÔ ONZE E MEIA: SAUDADES


Data redonda, ninguém resiste: a faceta entrevistador de Jô Soares completa 25 anos neste ano, já que foi em 1988 que começou o Jô Soares Onze e Meia, apresentado por ele no SBT. 

E a novidade é que vem por aí um DVD trazendo as melhores entrevistas da carreira do gordo, com vídeos do SBT e da Globo. A escolha é árdua, já que se trata de 13 mil papos.  Dei uma busca rápida no YouTube e fiz a minha listinha de oito entrevistas legais do período do Jô Soares Onze e Meia, na estação do "patrão" Sílvio Santos, que particularmente me marcaram. Será que elas vão estar no DVD?

ULTRAJE A RIGOR (1989) - O grupo foi lá lançar o terceiro álbum, Crescendo, que tinha a música de trabalho Filha da puta. Anos 80, época bem diferente de hoje: durante a entrevista, Jô acende o cigarro do vocalista Roger - que veste uma camiseta da banda punk Garotos Podres. Boa parte do bate-papo é dominada por temas políticos e Filha da puta, a música, é dedicada "à galera que tá lutando lá no Acre". Jô pergunta para Roger o que é preciso fazer com todos os impunes da época e o cantor do Ultraje responde o básico: "punir!".  

RAIMUNDOS (1995) - Foram lá levar o primeiro disco, de 1994. Jô brinca com Digão dizendo que o guitarrista (hoje também vocalista) da banda se parece com o personagem Nerso Da Capetinga (?) e pergunta os nomes e os instrumentos de todos os integrantes do grupo (er... tá, quase não tinha internet). Em alguns momentos, oferece aos músicos, nas perguntas, o cardápio comum destinado a bandas iniciantes ("qual a origem do nome da banda?"  e o inesquecível "qual o tipo de música da banda, é rock pauleira?"). Curiosidade: o cantor Rodolfo Abrantes diz que "roqueiro não pode ser boiola" e Jô pergunta: "O que quer dizer isso?" 

RAUL SEIXAS E MARCELO NOVA (1989) - Aparentemente, a última entrevista de Raul - os dois foram lançar o disco A panela do diabo. Raul, já bem debilitado, fala sobre a época em que teria sido expulso do Brasil e insiste na história de que teria encontrado com John Lennon nos Estados Unidos. "Ele me botou três dias na casa dele. Ficamos conversando sobre as pessoas que fizeram a cabeça da pessoas do planeta Terra. Ele me perguntou quem tinha no Brasil, de grande figura. Fiquei nervoso, não tinha ninguém para dizer e disse: 'Café Filho'". Numa entrevista à Bizz, Marcelo Nova reclamou que parte do bate-papo havia sido censurada 

TIM MAIA (1989) - No mesmo ano de Raul e do Ultraje, Tim deita falação no microfone de Jô e fala com o apresentador sobre gordices, pirações e até sobre ausências a shows. "Eu deixei de ir a alguns shows sim, mas deixei de receber vários e isso ninguém fala, né? Tá cheio de cheque borrachudo lá em casa". Claro, zoa Roberto Carlos: "Ele fala com as plantas e eu que sou doido, né?". E ainda constrange o próprio apresentador: "Jô, sabia que tem um programa, do Johnny Carson, que é igualzinho ao seu? Aliás, como vai seu relacionamento com o Bonifácio Sobrinho (Boni, então todo-poderoso da Rede Globo)?" 

MAGUILA (1988) - Sem saber onde enfiar a cara, o pugilista revela que seu apelido em casa era "Vidinha", diz que o codinome Maguila veio "porque era muito forte" e lembra a época em que trabalhava como ajudante de pedreiro, revelando todos os engana-trouxas da profissão. "A gente trabalhava por hora, dá até sono, né? Se trabalhar rápido vai dar muito lucro para a companhia. Ai por hora dá pra trabalhar" 

IAN ANDERSON (1990) - Numa de suas vindas ao Brasil, olha quem já passou pelo palco do Jô: o simpático e irônico vocalista da banda progressiva Jethro Tull. Perguntado sobre o motivo pelo qual veio ao Brasil (sim, se perguntava esse tipo de coisa na época), respondeu: "O dinheiro é horrível, mas a plateia é maravilhosa"

O RAPPA (1996) - O grupo de músicas como A feira e Hey Joe tinha graça e prestígio, com um pé no underground, na época. A primeira entrevista da banda no programa inverte a ordem: põe o então baterista-letrista Marcelo Yuka na linha de frente, como contador de causos, pondo no chinelo todo mundo da banda, de ofuscáveis (o cantor Falcão, que mal abre a boca) à linha de fundo. Foi a partir daí que muita gente passou a prestar atenção neles e em Yuka 

SÉRGIO MALLANDRO (1990) - De rolar de rir. Uma aula de stand up comedy, de exibicionismo, de palhaçada (no bom sentido), de humor, improviso e contação de causos bizarros. Lançando o filme O inspetor Faustão e o Mallandro, o humorista recorda histórias engraçadíssimas de seus períodos no SBT (como a época em que era da equipe do O povo na TV, programa sensacionalista do diretor-apresentador Wilton Franco), clássicos de sua vida de garotão carioca, etc. Teve ainda uma segunda parte, quando Mallandro foi anunciar o programa infantil Oradukapeta.


UPDATE: O leitor e amigo Fabiano de Souza, não havia percebido, é o cara que pôs essa entrevista do Rappa no ar. Ele ainda nos passou mais dois links (esse e esse) da entrevista de lançamento do Roots, do Sepultura, no programa. Max Cavalera ainda era o vocalista da banda. "A entrevista é até fraca, mas vale o registro, porque é praticamente na mesma semana em que o Max briga com o grupo e se separa dele", afirmou.


terça-feira, 12 de março de 2013

PETER BANKS (1947-2013)

Li uma vez, faz um bom tempo, que o primeiro guitarrista do Yes, Peter Banks, foi demitido do grupo que ajudou a fundar sob a acusação bizarra de se preocupar mais com suas roupas do que com a música - e que isso seria uma demonstração do messianismo da banda, da preocupação quase heroica e obsessiva com a excelência musical, etc. As respostas para essas perguntas provavelmente estão em Beyond and before, biografia de Banks na qual ele repassa seu período como guitarrista da banda e o que viu da vida nos anos 60. Não saiu no Brasil. Não li. Ainda não adquiri coragem de comprar no Amazon.com.




O que se lê por aí é que o guitarrista, morto em 8 de março de 2013, já dava mostras de insatisfação com o grupo que havia criado. O segundo disco do Yes, Time and a word (1970) era mesmo decepcionante se comparado ao primeiro, Yes, de 1969. Carente de amadurecimento, de grandes canções, de atenção da gravadora (que parecia encarar um dos artífices do som progressivo como um Crosby, Stills & Nash de terceira). Banks não teve segunda chance - deixou o grupo em 1970 e partiu para a carreira solo. Poucas vezes voltou a ter seu nome ligado ao grupo que formou e cujo nome foi sugerido por ele.

Com a saída dele, difícil dizer se o Yes perdeu. Na verdade, virou outra banda, mais cerebral, mais experimental e técnica até a medula. Foi chutado para longe o groove psicodélico de músicas como Looking around e dessa canção que você ouve aí em cima, Beyond and before. É a primeira música a ser ouvida no primeiro disco do Yes, a primeira banda da história a sofrer com rodízios de guitarristas - um instrumentista que, geralmente, é tido como o responsável pela cara que uma banda tem. No Yes, a coisa é mais complicada. A primeira nota ouvida em Yes, o primeiro disco, é um baixo agudo que, batendo no ouvido, soa como guitarra. 
Quem manda no boteco é um baixista, Chris Squire. Quer tocar com ele? Problema seu.

Um pouco da movimentação que fez a ponte entre os anos 60 e o som progressivo pode ser lida neste relato do próprio Banks. Ele era figurinha fácil num dos clubes mais bombados de rock em Londres, o Marquee. Batia ponto lá como frequentador e, cria da casa, passou também com diversas bandas pelo palco do estabelecimento. Banks saiu de cena, mas deixou em discos, em livro e em sites o rastro de um período luminoso para a música. Descanse em paz.

(NÃO) JOGA BOSTA NOS SPIN DOCTORS


Você sabia que os Spin Doctors, mal-amados entre as bandas dos anos 90 como eles só, comemoraram os 20 anos de seu disco de estreia, Pocket full of kryptonita, em 2011? O regabofe incluiu uma nova turnê e o relançamento do álbum pelo selo Sony/Legacy, repleto de faixas bônus. Chris Barron, o vocalista, cortou as tranças que o deixavam com visual de rabino e já está curado dos problemas nas cordas vocais que quase o deixaram mudo durante os anos 90. Até iniciou, de levinho, uma carreira paralela. Publicou Pancho & The Kid em 2009 e lançou a banda The Time Bandits, com a qual lançou Songs from The Summer of Sangria, EP do ano seguinte. Ele é o da foto ao lado, clicado em 2012, já com fios brancos.

Curioso saber de tudo isso com dois cliques e visitas ao site oficial do grupo e ao link dedicado à banda na Wikipedia - pouca gente achou mais hits do grupo após o primeiro álbum e os hits Two princes e  Jimmy Olsen´s blues. Tenho certo orgulho de soltar em festinhas por aí afora que nunca entendi o ódio coletivo aos Spin Doctors, banda cujo primeiro disco tinha outras músicas bem legais e que passou por momentos de aperto ao ser uma das atrações de abertura do show dos Rolling Stones no Hollywood Rock em 1995.

O grupo vinha abrindo os shows da tour dos veteranos roqueiros naquela época - lançamento do CD Voodoo lounge, que os trouxe pela primeira vez aqui. Diz a lenda que Mick Jagger, o próprio, passou a mão no telefone e exigiu que, aqui no país, a ordem fosse trocada e Rita Lee abrisse o show da banda dos glimmer twins. Eu tava lá, eu vi: Spin Doctors mais perdidos que cego em briga de foice, abrindo para a veterana roqueira e ouvindo o público berrar "Rita Lee! Rita Lee!". Um não-show.


Na época, vá la, foi engraçado. Hoje, pensando bem, deve ter sido traumatizante, tipo ir a uma festa e ser recebido com um chute no saco. Em 1996, um ano depois, o grupo lançaria seu terceiro disco - de título significativo, You've got to believe in something. Lembro de pelo menos umas duas resenhas metendo o pau no disco, que tinha um bom hit, a sacolejante She used to be mine. Em 1999, surgiu o tal problema nas cordas vocais de Barron. Antes, já vigorava o sumiço - depois disso, piorou. A voz dele só voltaria em 2000. Consegue imaginar o que é ficar um ano sem falar?

Se você quiser dar uma chance aos SD, tem disco novo vindo aí. If the river was whisky sai em 30 de abril por um selo chamado Ruf Records e é o disco de blues da banda. "É o álbum de blues que sempre quisemos fazer", chegaram a afirmar os caras, hoje juntos há 25 anos. Pode ser que você descubra uma banda nova e boa. Pode ser até que você radicalize e resolva ouvir as canções de outra Geni noventista, o grupo country-blues Hootie & The Blowfish. Mas isso é assunto para depois.

OS ANOS 70

Uma das coisas que eu mais gosto de fazer é procurar documentários antigos no YouTube. Tem muita coisa legal. Ou pelo menos filmes que servem como registro de época.

É possível achar um filmete de 1975 de Gilberto Gil cantando músicas do recém-lançado álbum Refazenda. Ou uma entrevista rara de Luiz Gonzaga em 1972 (acompanhado do então cabeludaço filho Gonzaguinha). Já aqui é possível assistir a Paulo Moura, pequeno doc sobre o clarinetista, filmado no Morro da Mangueira, em 1978. Paulo aparece tocando e dando depoimentos sobre sua música e sobre nomes como Jorge Ben (manda até uma polêmica, afirmando que "depois dele só os saudosistas e conservadores continuaram a fazer samba", em pleno vigor do samba pop de Clara Nunes, Beth Carvalho e da galera do Cacique de Ramos), Milton Nascimento, Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti.

Tem também coisas boas de tão bizarras, como os docs patrocinados pelo governo militar nos anos 70. Esse aqui traz um retrato de Brasília em 1973, com uma trilha absurdamente soul ao fundo e trechos que falam "nas superquadras da capital, que acolhem o homem com amor e carinho desde seus primeiros anos de existência". Se não servem como exemplo de uma época plena e feliz, os vídeos feitos como propaganda do período fazem maravilhas como registro de época, pelo menos. É quase como ver antigos comerciais. Para o bem ou para o mal.

Um dos registros de época mais interessantes dos anos 70 que vi nos últimos dias foi esse doc abaixo. São três horas da série Os anos 70, exibida pela Globo em seu aniversário de 15 anos, em 1980. Tudo comprimidinho no YouTube. Serve como retrato da televisão dos anos 70 e como recordação de muita coisa que era discutida nos telejornais do período.




Entenda: as crianças de hoje vão chegar aos 10, 15 anos com uma lembrança de ter ouvido falar em incêndio na boate em Santa Maria, Big Brother Brasil, mulher que transou na praia em Rio das Ostras e outros temas, sérios ou não. Quem está beirando os 40 pode também lembrar de uma série de nomes de três décadas atrás: Wladmir Herzog, Nadia Comaneci, distensão, Bjorn Borg, Edifício Mendes Caldeira, salvaguardas eficazes (espécies de "decreto-lei" do período, sem meteção de dedo do Congresso Nacional). Está tudo aí, explicado com as lentes da época.

Não deixa de ser curioso e trágico ver um documentário que fala - entre outros temas - sobre saúde antes de existir Aids: óbvio, já que o vírus HIV seria isolado só em 1983. Nos anos 70, os problemas eram outros. A vitória era a erradicação da meningite - ainda mais após a censura à epidemia da doença, em 1974. Sem um canal para se expressar e longe das utopias sessentistas, o jovem da época é retratado como um troço amorfo, sem direção. Por outro lado, a mania da década era correr, e não malhar - o termo sequer existia. Quem era bom de puxar ferro era o halterofilista russo, barrigudaço, Alexeev (morto em 2011 por causa de problemas cardíacos), que aparece no doc.

As várias gambiarras feitas com a economia brasileira na época da ditadura (que é chamada, em nome da censura, de "Revolução") também estão lá. Desvalorizações, estagflações, proteção dos preços (tem aquela famosa cena em que fazendeiros dão leite para os porcos, por se recusarem a vender o laticínio abaixo do preço), entra-e-sai de militares no poder, etc. Vale como retrato histórico e como lição.

Ah, e curta também as vinhetas de fim de ano da Globo que aparecem no começo e no fim do vídeo. A empresa comemorava 15 anos e fez uma festa de debutante bem anos 70 para a então adolescente Rosana Garcia (a Narizinho do Sítio do Pica-Pau Amarelo) com participações de todo o elenco da rede.