quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

GINGER BAKER

Beware with mr. Baker, documentário que conta a trajetória, a vida musical, as glórias e os micos do legendário batera de rock Ginger Baker, não estreou ainda no Brasil. Lá fora, já está nos cinemas desde o mês passado. Enquanto uma boa alma não traz o filme para as nossas telas, vale lembrar que um doc importantíssimo sobre Ginger está disponível em DVD no Brasil.


É
Ginger Baker in Africa, que conta a aventura do baterista em 1970, quando decidiu montar um estúdio na Nigéria e ficar próximo de lendas do afro-beat, como Fela Kuti. Uma doideira total, de uma músico que precisava ficar longe da drogas  e decidiu mudar-se para um país ainda inexplorado. Pouco depois, Baker relataria musicalmente suas experiências no álbum Stratavarious (1972). Muitas jams legais de Baker com Kuti podem ser assistidas no filme, bem como a paixão do batera pelos instrumentos de percussão que conheceu na África.


Mas para além da questão musical, o documentário é uma grande viagem, de um músico famosíssimo e criativíssimo - embora louco das ideias - em busca de algo novo. Fiz a resenha abaixo sobre o doc para o
Laboratório Pop. Confira aí e veja. Sobre Beware with mr. Baker, confira essa resenha feita pelo jornalista André Barcisnki em seu blog.



"GINGER BAKER IN AFRICA" - GINGER BAKER (DVD) - Veterano baterista de rock, recriador do solo de bateria, hoje com 71 anos, Ginger Baker é, antes de tudo, um bravo. Ou um maluco, dada a sua vocação para criador de caso. Sua biografia, além de participações em bandas sólidas como Cream, Blind Faith e Air Force, inclui décadas de abuso de drogas, casamentos fracassados, sangrias de dinheiro e brigas com colegas, empresários, donos de gravadoras e até com milicianos sulafricanos (durante a época do Apartheid, mudou-se para a África do Sul, onde vive até hoje, e arrumou briga com um movimento no estilo white power). Em 1970, levou a maluquice ao status de arte: sem emprego fixo, com pouca grana no bolso e desejando manter-se longe da heroína, meteu-se num jipe com o cineasta Tony Palmer (que dirigira o filme do concerto de despedida do Cream, em 1968, e, na época, preparava 200 motels, comédia musical criada por Frank Zappa) e partiu rumo à Nigéria, na África, passando pelo deserto do Saara. O objetivo era se encontrar com seu amigo músico Fela Kuti, conhecer os sons africanos e montar um estúdio em Lagos, então capital do país. E fazer um documentário da aventura.

O resultado você confere em Ginger Baker in Africa, filme curto (55 minutos) que mostra a saga de Palmer e Baker. Foca em poucas ideias de jerico – a maior delas, ilustrada por divertidos desenhos, foi penetrar em países africanos, todos dominados por ditaduras, sem se apresentar à polícia local. Os passeios pelo deserto e pelas localidades são narrados por Baker com uma espécie de prosa–poesia psicodélica (acentuada por sua voz grave e envelhecida) e centram mais fogo no estranhamento ao deparar com uma música diferente do que se fazia na época, além dos sons meditativos e lisérgicos que Baker tirou em seu estúdio com os músicos nigerianos. Com fortes percussões, órgãos apitando e metais em brasa, dão um efeito de road movie doidão ao documentário. E ainda tem a música poderosa de Fela Kuti, outro ser humano com indiscutível talento musical e forte aptidão para a encrenca.


Curiosamente, a construção do tal estúdio de Baker, material passível de gerar várias histórias bizarras, ficou de fora. Ainda que deixe várias perguntas na cabeça do espectador, vale, e muito.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

EU VI O LINCOLN

Chegamos eu e os amigos Leandro Souto Maior e Luiz Lima (autor da foto ao lado), no fim de 2011, no estúdio Be Happy, em Botafogo, para entrevistar o mago. Nervosismo, muito nervosismo, pelo menos da minha parte. Nada que atrapalhasse o trabalho, mas eu ia encontrar o cara. O mago dos teclados e dos arranjos nacionais dos anos 70/80. O cara que, antes do boom oitentista do rock nacional, tornou a MPB mais pop. O artífice da MPBblack. O cara que tinha o respeito de um cara que respeitava pouquíssimas pessoas (Tim Maia). O ídolo dos ídolos. O músico recluso que mantinha um estúdio sem luz natural, no meio de um pântano - dizia a lenda. É Lincoln Olivetti. Nunca ouviu isso aqui? E isso aqui? Ouça já.


Bom, o merecedor desses predicados chegou ao estúdio para o bate-papo na hora, simpaticíssimo. Pediu um sanduíche e uma Coca-Cola, sentou-se numa cadeira de madeira e foi gente finíssima durante 60 minutos. Prestes a voltar, depois de vários antes, aos palcos cariocas (primeiro no festival de música instrumental CopaFest, e depois num show avulso no Solar de Botafogo), Lincoln passava batido pela era CD. Rei dos arranjos no tempo do vinil, tencionava se adaptar ao MP3 pelo lançamento de vários discos em formato digital. E relatou toda essa aventura para nós - a matéria do Leandro sairia no
O Dia, a minha aguardaria algumas semanas para entrar no ar no Laboratório Pop.


O nome do eterno parceiro de Lincoln, Robson Jorge (1954-1993) foi mencionado logo no começo do papo. Do nada, nesse momento, surge uma voz conhecida de dentro do estúdio. Alguém pôs para tocar
Nada importa, belíssima canção solo de Robson, lançada apenas na trilha da novela Feijão maravilha (1979). Deve ter sido algum músico de Lincoln que esperava pelo ensaio, lógico. Ou não, sei lá. Vamos ao papo.

UM SENHOR BAILE

Publicado no Laboratório Pop em 14 de novembro de 2011

O mundo dos estúdios é o que mais atrai o produtor e arranjador Lincoln Olivetti – a ponto dele ele ter mudado a cara da MPB e do pop nacional da virada dos anos 70 para os 80, fazendo arranjos para uma multidão que incluía Fagner, Rita Lee, Gilberto Gil, Zizi Possi, Gal Costa, A Turma do Balão Mágico, Tim Maia, Zé Ramalho, todo mundo. Mas os shows voltaram a atraí-lo – tanto que após uma apresentação no evento de música instrumental CopaFest, em outubro, retorna nesta terça (15) para um show no Solar de Botafogo, no Rio. Egresso direto da era do vinil – nunca lançou um CD com seu nome – ainda prepara, aos 57 anos, uma nova leva de canções para serem despejadas direto na internet.


“Não existe mais CD”, prega o músico, um misto de cientista com o Mestre dos Magos do desenho animado Caverna do Dragão, e que se faz acompanhar, na nova iniciativa baileira, por Kassin (baixo), Davi Moraes (guitarra), Cesinha (bateria), Donatinho (teclados), Marlon Sette, Lelei Gracindo, José Carlos Bigorna, Altair Martins, Diogo Gomes (metais) e Peninha (percussão). O lance agora, diz ele, é soltar tudo o que for fazendo em pequenos teasers, até cativar o público – seguindo uma tendência que ele, pai de uma conhecida DJ (Mary Olivetti)  já deve ter observado na produção de música eletrônica.


“Você vai vendendo faixa a faixa. Primeiro eu lanço a música com um minuto e meio, depois com dois minutos e meio... Daí o cara é obrigado a comprar. Vai salgando tudo e vai até parecendo outra música, né? Ganha uma cara de remix”, brinca Olivetti. Um cara que busca até hoje em meio aos novos nomes da música valores que tenham a mesma cara futurista que ele imprimiu aos sons nacionais de há trinta e poucos anos. “Quando acho, troco figurinhas, falo bastante”, diz ele, grande admirador de seu baixista Kassin como produtor. “É uma pessoa que, humildemente, está bombando. E que é até mais respeitado pela imprensa do que pelas gravadoras”.


Se esse disco sai logo? “São vários discos!”, sentencia o músico, que afirma ter umas “vinte músicas” que sobraram de sua parceria com o guitarrista e tecladista Robson Jorge (1954-1993), com quem gravou o disco que preenche boa parte dos shows que vem dando, Robson Jorge & Lincoln Olivetti (1982), dos hits instrumentais Aleluia, Jorgeia Corisco, Eva e Pret-a-porter, presentes no show ao lado de uma homenagem ao tecladista Ed Lincoln. E mais umas “quinhentas” solo. E ainda sobras de estúdio de vários nomes que gravaram com ele.


“Tenho todos os canais de voz de discos que gravei com a Sandra de Sá, muita coisa. Tenho demos minhas em cassete, com Paulo Braga na bateria”, afirma Olivetti, que tocou com Tim Maia em shows e é responsável por boa parte dos arranjos de Tim Maia disco club, disco de 1978 que tem Sossego – música na qual não chegou a trabalhar, já que Tim começara o disco com o maestro argentino Miguel Cidras, com quem o cantor protagonizou cenas de pugilato no estúdio.


“Tim me pedia alguma coisa e depois esquecia, daí eu fazia da minha maneira mesmo”, brinca o tecladista, que recentemente retrabalhou as fitas de Tim Maia Racional 3, com sobras dos dois discos da fase religiosa e “racional” do cantor. “Mas fazia como já estava delineado na cabeça dele, nem destoava”.


A expertise de Lincoln com os arranjos começou ainda na infância, em Nilópolis. Sim, como se afirma por aí, ele já tocava piano aos quatro anos, passava o dia ensaiando e aos 12 já era músico de baile. “Nem me lembro como eu conseguia tocar no baile sendo menor de idade, pergunta lá para os policiais que não me pegavam”, diverte-se. “Foi uma escola violenta, você tem que tocar igual ao disco. Mas sempre quis que fosse mais sentimento do que técnica”. Logo, montou um grupo de baile com seu nome, que tinha amigos como Sergio Herval (hoje no Roupa Nova, bateria) e até mesmo o futuro compositor Paulo Massadas – aquele, da dupla com Michael Sullivan.


“A gente tocava Humble Pie, I don’t need no doctor, e ele cantava igualzinho. Tinha a voz aguda igual à do (vocalista do) Led Zeppelin. Depois faltou um baixista e falei para ele: você vai tocar baixo. Só que ele tinha uma namorada, ficava vigiando ela nos shows e errava as cordas pra caralho", brinca. Fazia ensaios exaustivos, exigia dos músicos, mas, garante, nunca foi mandão ou autoritário. “Nunca gostei de liderar, falar alto. Sempre quis uma coisa de comum acordo. Então nem é liderança. Eu sempre fui quieto, de ficar observando como as pessoas faziam”.


A carreira de músico de estúdio já virava realidade nos anos 70 – em 1973, tocou violão de 12 cordas em O homem de Nazareth, hit gospel de Antonio Marcos, sob a batuta do então arranjador de Roberto Carlos, Chiquinho de Moraes. “Ele me disse que em cinco anos eu seria um grande arranjador. Imagina, eu queria ser como o Zé Roberto Bertrami (tecladista do Azymuth) e alugar instrumentos, só isso”.  A reviravolta veio em 1977, quando já contabilizava boas horas de estúdio e já possuía raros sintetizadores. Conheceu nas dependências da CBS (hoje Sony) um jovem guitarrista que tocara com Cassiano e Tim Maia, Robson Jorge, e passou a compor com ele, além de dividir projetos e sessões. Compôs para Wilson Simonal (Quando ele dormir, com Ronaldo Barcelos e Murano), trabalhou com Toni Bizarro – executivo da CBS que retomou a carreira artística – e Claudia Telles. E estourou no Brasil inteiro com o hit Black coco, composto por ele e Ronaldo, e gravado pelo grupo Painel de Controle – puro disco-rock. “Foi meu primeiro grande sucesso”, diz ele. O maior? “Não, o maior foi Amor perfeito, gravada por Roberto Carlos”, diz da música escrita por ele, Robson, Michael Sullivan e o pupilo Paulo Massadas – e posteriormente regravada até por Claudia Leitte.


O êxito o levou a outros sucessos e a uma assinatura que grudou até em músicas que não tiveram sua participação. Ainda que Cidras tenha feito o arranjo de Sossego, o estilo é associado ao de Lincoln. Realce, disco disco de Gilberto Gil (1979), teve sua participação apenas no single Não chore mais. O resto do álbum teve cordas, arranjos e corais comandados por Jerry Hey, do Earth, Wind & Fire – mas até bios de Gil o citam como responsável pelo resultado final. No começo dos anos 80, ultrapassou os 300 arranjos por ano – falava-se até em 365, um por dia.


“O quê? Só isso? Foi muito mais. Eles deixaram de contabilizar os arranjos independentes, as coisas que a gente fazia e ninguém usava. Isso aí ;é a média mínima até hoje”, espanta-se (e espanta os interlocutores) Lincoln, que passava os dias no estúdio e ainda fazia trabalhos para nomes que não chegaram a ser sucessos avassaladores, como o single Pura, da sensação soul-branquela Almir Ricardi, e seu posterior disco Festa funk, de 1984. Trabalhava em temas de novelas e ajudava a lançar nomes como o dançarino, ator e cantor Ronaldo Resedá, de temas como Kitsch Zona Sul e Plumas e paetês, da novela homônima (1980). Apesar do excesso de trabalho, ele garante que a qualidade da produção não caiu.



O excesso de músicas nas rádios gerou críticas – acusavam-no de pasteurizar a música brasileira, numa época em que se ligava o rádio e ouvia-se Lincoln o tempo todo, em hits como Festa no interior, de Gal Costa e Lança perfume, de Rita Lee. Isso sem falar em hits próprios, como o absoluto Babilônia rock, de 1982, em parceria com Robson e da trilha do filme Rio Babilônia, de Neville de Almeida. E Lincoln com isso? “Nunca nem fiz isso que estou fazendo, que era dar entrevista. Mandava o Robson no meu lugar. Na verdade não era uma sacanagem minha, era porque ficava tudo muito pejorativo. Só falava pra eles irem se foder e eu ia pra puta que pariu. Ficava todo mundo feliz”, diz, gargalhando.


Acumularam-se também as lendas sobre o músico e seus hábitos de nunca dar entrevistas ou permitir ser fotografado. Tim Maia dizia seu estúdio ficava no “meio de um pântano”. Outros artistas diziam que o lugar não tinha nenhum tipo de luz natural. “Ué, mas era mesmo. Quanto mais você vê, menos ouve”, brinca Lincoln. “Tem folclore, mas alguma coisa pode ser verdade, sim”.


Hoje, o estúdio, que já foi em Jacarepaguá, fica na Joatinga. Pode até ter mais luz e Lincoln pode estar topando falar mais, mas o ritmo de trabalho ainda é o mesmo. “Se pego seu disco para fazer, minha primeira função é virar seu psiquiatra. Quero saber o que você gosta de ouvir, como você toca. Se você fala uma bobagem qualquer, faço aquela bobagem virar uma marca para você. Cada um é cada um, não faço a mesma coisa para todo mundo”, diz ele, quase co-autor de músicas que ganharam sua cara, como Pai (Fábio Jr.) e Eu e meu gato (Rita Lee).



O boom do rock nacional, em 1982, tirou de Lincoln um arranjo crucial – o de Menina veneno, de Ritchie, que quase foi para ele, mas ficou debaixo dos dedos do tecladista Lauro Salazar. Passou a cuidar de gravações de nomes como Anne Duá – que gravou Indecente na trilha de Roque Santeiro, novela de 1985 – e  a tocar em discos de Tim Maia, Zé Ramalho (os arranjos do disco Opus visionário, de 1985), Jorge Ben e Roberto Carlos.


Lincoln aumentou sua coleção de gadgets musicais – um deles foi um tal de emulator, instrumento que executou em discos oitentistas de Jorge Ben e que é nada menos que o teclado sampler, anos antes de figurar em discos como Jesus não tem dentes no país dos banguelas, dos Titãs, de 1987. Recentemente, colaborou com nomes como Nando Reis, Engenheiros do Hawaii e Ed Motta. Suas músicas vêm sendo redescobertas por uma geração de DJs e até rappers – Thaíde, por exemplo, adora Pura. “Não tenho muito contato com esse pessoal, mas queria ter”, afirma.


Foto: Luiz Lima (e agradecimentos à Monica Ramalho, que me botou pra falar com a lenda)

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

GEORGE HARRISON MUITO LOUCO



O aniversariante mais ilustre do dia fez um disco bem estranho em 1969. Ouça aí em cima.

Electronic sound, segundo álbum solo de George Harrison, saiu em maio daquele ano pelo selo Zapple (subsidiária experimental até-o-cu-fazer-bico da Apple, gravadora dos Beatles, que só lançou dois discos - o outro foi Unfinished music 2: Life with lions, de John e Yoko).

São só duas canções, uma de cada lado (a maior delas tem 25 minutos) com George fazendo sons numa novidade da época, o sintetizador Moog III - bem na época em que todos os Beatles estavam atraídos por experimentalismos, música aleatória, etc. 

Aleatório, aliás, é apelido: quando o disco foi lançado nos Estados Unidos, diz a Wikipedia, alguém trocou sem querer as gravações dos lados A e B, mas manteve os selos. A primeira edição em CD, de 2006, manteve a confusão. Para todos os efeitos, o lado A traz Under the Mersey Wall, com 18 minutos, e o outro lado tem os 25 minutos de No time or space.

Comprei esse disco em CD importado numa promoção da FNAC do BarraShopping, no fim de 2007, pela bagatela de (acredite) R$ 2 - mais barato que uma passagem de ônibus. Demorei milênios para escutar e acho que só ouvi uma vez, num sábado à noite em que não tinha nada para fazer. 

GALO DA MADRUGADA, 2010


Estive no carnaval de Recife em 2010 fazendo uma matéria sobre o Galo da Madrugada - e também sobre o carnaval de Olinda - para a Billboard. Na época, pelo menos, era um carnaval democrático. E pop.

NÃO PÕE CORDA NO MEU BLOCO
Entra ano, sai ano, os camarotes aumentam mas o Galo da Madrugada, bloco mais popular do Recife, segura a bandeira: o carnaval é do povo
Publicado na Billboard em março de 2010

Basta uma horinha no meio da multidão no Galo da Madrugada, o mais popular bloco da capital pernambucana, e a impressão é que, culturalmente, nunca houve um lugar tão autossuficiente quanto a terra de Chico Science. A sensação se repete por todos os lugares da cidade, em todos os dias de festa. O carnaval simboliza o orgulho que o recifense tem de sua cultura. Apenas uma "edificação" de camarotes (são cerca de 60) separa elite e povo no carnaval do Galo. Quem sai na rua, sai de graça, fantasiado. Sem as cordas do carnaval baiano, sem vips, pertinho dos trios elétricos. E com uma gama de convidados que ajuda a fazer da festa na cidade a mais especial do Brasil.

O Galo foi fundado em 1978 e sai sempre nos sábados de carnaval. Em 2010, seu tema foi "Pernambuco de todos os carnavais", com direito à presença de moradores de 12 municípios do estado mostrando suas tradições foliãs. Além do tradicional encontro de bonecos, houve a estreia do alegre Pinto da Madrugada, para crianças. À exceção do aplaudido e controverso show de Carlinhos Brown no Recife antigo (tinha gente no público meio contrariada...), a música baiana que se ouve no carnaval do Recife é Pombo correio, de Moraes Moreira, e Atrás do trio elétrico, de Caetano Veloso. Nos 25 trios que acompanharam o Galo, ainda que haja apresentações de artistas tão diversos quanto Banda Calypso, Elba Ramalho, Asas da América, Falcão (aquele mesmo, de I´m not dog no, entoando frevos num trio bizarro com Nando Cordel e Jair Rodrigues), Orquestra Popular da Bomba do Hemetério (liderada pela figuraça Maestro Forró, cujo poder sobre o público, sem nenhum Twitter para ajudar a combinar ensaios, deixaria os Black Eyed Pears morrendo de inveja) e Fernanda Abreu, a ordem é frevo. Ou coisa que o valha.

"No bloco, só podem ser tocados estilos como frevo, maracatu, caboclinho e mangue beat" avisa Romulo Meneses, que é presidente e um dos fundadores do Galo. Ué, e Fernanda Abreu, animadaça, num dos trios, ao lado de Moska e Luiz Melodia, gritando "e aí, galeraaaa?" e traçando Taj Mahal, clichê levanta-multidões de Jorge Ben Jor? "Ah, dá para tocar o que não é originalmente desse estilo, desde que seja levado para o ritmo do frevo. A Fafá de Belém, por exemplo, cantou a toada Vermelho. Teve também a banda Calypso. Até I will survive (aquela mesma, da Gloria Gaynor) já rolou no trio, mas traduzida para a linguagem do frevo".

Para soltar o Galo da Madrugada todo ano, haja paciência. E trabalho. E noites mal dormidas. "De sexta para sábado, são 100 diretores sem dormir, virando a noite, para tudo estar pronto às nove da manhã", conta Meneses. O tal choque de ordem que a prefeitura do Rio aplicou aos blocos cariocas existe lá como uma espécie de lei não escrita. Mesmo para os que não entram nos camarotes (organizados por famílias, por empresas e até pelo próprio Galo, cujo pouso oficial, em 2010, trouxe como novidade uma passarela para levar vips e cantores aos trios) e se espremem pela Avenida Guararapes. O presidente do bloco esclarece que foi preciso daer um jeito para não bagunçar o coreto. "Já chegamos a ter 32 trios, mas o desfile estava acabando cada vez mais tarde. Temos que acabar às 18h", lembra, assustado até hoje. 

"Quando montamos o Galo da Madrugada tínhamos só uma orquestra de frevo, a pé, na rua mesmo. Mas ela não estava mais dando conta. Já naquela época eram 300 pessoas na rua. Botamos depois todo mundo em caminhões, o que já foi outra  mudança. Depois, fomos colocando os primeiros carros de som". O contato com Carlinhos Brown, que se apresentou no Recife, rendeu, por sinal, convite para fechar o carnaval da Bahia. Devidamente aceito. "Foi tudo rápido. Ele se apaixonou pelo Galo, nos convidou na segunda e na terça uma turma já estava indo para lá. Mas gostamos do carnaval dele justamente porque é aberto, não tem cordas. Como a gente".

TRIO NÃO! O fato de o bloco passar a se dividir em vários trios quebrou o paradigma do carnaval recifense. Tem quem vire a cara achando que, se o projeto inicial era resgatar as origens rueiras da festas, as novidades estragaram tudo. Co-criador do anárquico Quanta Ladeira, o músico Zé da Flauta, por exemplo, é um deles: "Eu não gosto de trio elétrico. O maracatu, os blocos, o frevo... tudo isso é brincadeira de chão. O Galo importou isso da Bahia e não vejo necessidade. Se eles investissem em nossos clubes de frevo iria ficar bem mais bonito. No trio você não consegue nem ouvir música direito". Apesar disso, Zé elogia algo que todo recifense comenta. "Aqui o carnaval é sempre do povo. Todo homem é João e toda mulher é Maria durante a festa".

Opa, Zé, calma lá: você estava em algum camarote? O Lula Queiroga, outro do QL, estava no do Galo... "É, sou convidado para o camarote da Rede Globo há 15 anos e sempre vou. Mas vou para encontrar meus amigos, fazer política. Nem vejo os trios, ignoro solenemente o que está se passando ali. E, se das 1,5  mil pessoas que estavam lá (no camarote) tiverem 300 prestando atenção..."

Para Meneses, nem 300 trios fariam com que o carnaval do Recife adotasse cordas de divisão. "O carnaval aqui não é para assistir, é para participar. Antes de começarmos, o que predominavam eram desfiles em passarelas", conta. "Ficam falando dos caminhões que colocamos, mas eles são só instrumentos de propagação de sons. O que interessa é a música que eles tocam. E neles estão nomes importantes daqui. Como Claudionor Germano, Nando Cordel, Quinteto Violado, Spok (da Spok Frevo Orquestra, homenageada por Moraes Moreira na música Spok frevo Spok). Nem uso o termo 'trio', para mim é carro de som, porque o termo vem da época em que eram apenas três músicos tocando. E sempre usamos orquestras de frevo".

O Galo não se esgota no Recife. "Surgiu recentemente a ideia de levar o bloco para o Brazilian Day, que acontece em Nova York. É uma possibilidade. Durante todo o ano temos eventos e também estamos para encenar um musical sobre a tradição do carnaval no Recife, Galo, frevo e passo". Duro mesmo é, depois da festa, encarar a realidade. "Agora mesmo tô aqui pagando as contas. Vem cá, não tem nenhum aí para me emprestar, não?", brinca Meneses, entre gargalhadas.

PARA RIR E VIAJAR 
Repleto de jovens, carnaval de Olinda capricha nas referências pop e na criatividade das fantasias

Um Super-Homem baixinho e magro, parecido com Nando Reis ( e saudado pelos amigos, que gritam o nome do ex-titã) pula carnaval ao lado de outro magricela, mais alto, vestido de Jesus Cristo. Em meio à folia, um casal caracterizado de personagens de Avatar passa bem perto, acompanhado de dois Elvis Presleys, do casal John Lennon-Yoko Ono e de outro casal fantasiado de rastafáris.

O carnaval de Olinda, cidade distante 20 minutos de Recife, é literalmente uma viagem. Blocos como o Enquanto Isso Na Sala De Justiça (repleto de super-heróis - alguns deles inventados na hora, como o politcamente incorreto Supertição) e Eu Acho É Pouco atraem um público mais jovem e antenado. E tudo vira quase um concurso de fantasias. "O público que vem aqui é mais ligado em cultura pop", diz Peterson Gusmão, o rastafári em questão, que é policial (!) e foi acompanhado da esposa, a nutricionista Cristiane Ribeiro. 

No dia do Eu Acho É Pouco, uma família se destacava. Por trás de um balcão que imitava um aparelho de TV,o casal João Felix e Izabelle Mello, o filho Lucas Felix e o sobrinho Gildásio Leal imitavam a equipe do Jornal Nacional, sob as alcunhas de William Bode, Fátima Bééérnardes, Gato Barcelos e Pedro Miau. Falavam "boa noite" para quem passasse, emprestavam a "TV" para quem quisesse tirar fotos e até conseguiram aparecer na Globo. "Eles entrevistaram a gente. Pode ser que a gente encerre o próprio JN", comemoram Lucas e Gildásio, já pensando na fantasia do dia seguinte. "Amanhã a gente vai vir fantasiado de Gol do Hexa". Do lado, um grupo de Chiquinhas (do Chaves) e de sósias do Borat posam para fotos. Um carnaval surreal.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

KEVIN AYERS, POR MAURICIO GOUVEIA


O rock perdeu um grande nome durante a semana: Kevin Ayers, criador do grupo de rock progressivo Soft Machine e dono de uma carreira solo de respeito. 

Para conhecer o Soft Machine, é altamente recomendável ouvir o álbum duplo Third, lançado em 1970. O conteúdo é desafiador. Após uma turnê durante a qual conheceram o pianista Thelonious Monk, resolveram cair dentro dos improvisos e dos cruzamentos entre rock, jazz e música psicodélica, em quatro longuíssimas faixas - cada uma ocupando um lado do LP original. Tem em catálogo em CD. E vale cada centavo que você investir na compra.

Nesta quinta (21), fui surpreendido no Facebook por um texto de Mauricio Gouveia, livreiro do sebo Baratos da Ribeiro, jornalista, produtor, festeiro (faz a Locos Hermanos, que torna a rolar a partir de março no Bar do B, em Laranjeiras, aqui no Rio). Na postagem, ele falava da carreira solo de Ayers - que durou várias décadas e muitas vezes foi eclipsada em nome do Soft Machine. Pedi a ele para colocar o texto aqui no meu blog. Leia com carinho e siga a recomendação dele na última linha do texto (peraí, lê tudo antes!).



Morreu aos 68 anos o roqueiro inglês Kevin Ayers. Coincidentemente, o mestre foi tema do meu papo com Maurício Valladares, do Ronca Ronca, sábado retrasado aqui na Baratos da Ribeiro. O sebo havia acabado de receber um dos discos do Soft Machine, banda fundada em 1963 por ele, Robert Wyatt e Hugh Hopper (ainda com o nome de The Wilde Flowers). E também dois álbuns solos de Ayers, que MauVal levou pra casa. 

Cheguei no Ayers através do David Bowie. Depois de devorar a obra do Camaleão, comecei a buscar pelo trabalho dos seus colaboradores principais, e assim cheguei no álbum 1st June 1974, gravado ao vivo no Rainbow em Londres: um show do Kevin Ayers em que ele recebeu John Cale, Brian Eno e Nico. 

Apesar de adorar um dos discos e Yes e vários do King Crimson, via de regra não me interesso por rock progressivo. E portanto nunca me enveredei pela obra do Soft Machine. Mas tenho uns quatro discos do Kevin Ayers, e dois deles eu adoro: Bananamour e Joy of a toy, ambos do início dos 70s, e ambos muito versáteis e bem humorados. Kevin parece ter tido um papel no Soft Machine muito parecido com o que teve Rita Lee nos Mutantes e Zé Rodrix no Som Imaginário: caras que deram uma descontraída em bandas que, sem eles, acabaram se tornando troppo sisudas e experimentais (porque tinham músicos muito, mas muito bons). Kevin, assim como Zé Rodrix e Rita Lee, talvez não fosse um instrumentista muito acrobático, mas era um visionário que sabia criar canções tão pops (fáceis de curtir) quanto instigantes e "vanguardistas". 

Kevin Ayers lançou apenas dois discos nos últimos 21 anos. E o último, de 2007, é, segundo o Valladares, um discaço. É The unfairground. Contou com a participação de velhos amigos (Hugh Hopper, Bridget St John e Phil Manzanera) e com novos: indie rockers do Teenage Fanclub, Neutral Milk Hotel, Ladybig Transistor e Gorky's Zygotic Mynci.

Fica a dica: comece o dia caçando o torrent da discografia de Kevin Ayers. Vale muito a pena.

Um abraço,

Maurício Gouveia
livreiro 

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

PAULO SILVINO, QUÁ QUÁ QUÁ


Vem, devagar, por aí, um doc sobre o gigante do humor Paulo Silvino. Em 2010, falei com Marco Imperial - filho de Carlos Imperial - e o escritor Denilson Monteiro (autor da bio de Imperial, Dez! Nota dez! e de A bossa do lobo, biografia de Ronaldo Bôscoli), que estavam por trás da parada, sobre isso, para a Billboard.


Só para registro: Silvino é um dos seis maiores humoristas clássicos desse país, em minha opinião (os outros são Chico Anysio, Costinha, Ronald Golias, Ary Toledo e Agildo Ribeiro). Tudo a respeito deles é fundamental. Confira o papo aí.






LOOOOUCUURAAAA!
Focalizado por um documentário, Paulo Silvino revela seu lado cantor e compositor, que vai além das célebres paródias e sátiras musicais
Publicado na Billboard em agosto de 2010


“Em música, tem coisas que são eternas, né? Ainda tem um pouco de melodia por aí, mas está cada vez mais difícil”, diz, num papo bem-humorado, o humorista Paulo Silvino, 71 anos, com a mesma voz grave e o mesmo tom engraçado-até-quando-fala-sério que costuma usar a todo momento. E que, a bordo do documentário Paulo Silvino: Loooucura -, que está sendo dirigido por Fabio Assuf e Marco Imperial e roteirizado por Denilson Monteiro, ainda sem data para estrear - traz a público uma faceta pouco conhecida: a de cantor, compositor e músico. E fã de música, em especial temas do cancioneiro americano, canções antigas de MPB e bossa nova. Mas sem deixar o humor de lado até mesmo quando resolve atacar de cantor – afinal, entre seus hits estão canções como A lenda da piroga de cristal (a do refrão “como era grande a piroga dele/descendo o rio, correndo pro mar”, referindo-se a uma espécie de embarcação indígena) e a versão repleta de versos pornográficos do hit jurássico da MPB Eu sonhei que tu estavas tão linda (Lamartine Babo).


“O Silvino gosta mais de cantar do que de atuar. Teve uma vez em que o chamaram para fazer um show num restaurante em Jacarepaguá e ele disse ‘eu vim aqui pra cantar’. E todo mundo esperava que fossem músicas de sacanagem. Só que ele começou a cantar jazz, clássicos americanos. Todo mundo acabou indo embora, sobraram só cinco pessoas”, diz, gargalhando, Marco Imperial, que, filho do produtor, compositor e agitador cultural Carlos Imperial (1935-1993), costuma dizer que Paulo é uma espécie de irmão mais velho para ele. “Meu pai foi um pai para o Silvino, então brinco com ele assim. Depois que o Denilson Monteiro escreveu a biografia do meu pai, Dez! Nota dez!, todo mundo sabe que o Silvino começou como roqueiro, que usou o apelido de Dixon Savannah. E ele tem uma vida fora do humor, muita coisa que as pessoas não sabem. Foi através do papai que ele se tornou comediante. O Imperial chegava para ele e falava: ‘cara, você tem que virar comediante, você é um ser engraçado, as pessoas veem você sério e riem’”.


O namoro de Paulo Ricardo Campos Silvino com a música e com o humor é hereditário – seu pai, Silvino Neto, era humorista e compositor, e sua mãe Naja era pianista. Com uma força da mãe, começou a se apresentar como cantor na televisão no fim da década de 50, até o dia em que dona Naja, solista conhecida, lhe recomendou que arrumasse uma pessoa para lhe acompanhar nos palcos. Acabou arrumando o baterista Fernando Costa e o baixista Gilberto, que também acompanhavam sua mãe. E, comandando a massa, um acordeonista de 17 anos, vizinho de Silvino em Copacabana, o “professor” Eumir. “Era o Eumir Deodato, que tocava acordeom muito bem. Mas depois ele quis virar maestro e passou a usar o piano, que é o instrumento-base do maestro, né?”, recorda Silvino, que incluiu em seu repertório temas de rock como Long tall Sally e Tutti frutti e passou a se apresentar como “Paulo Ricardo e seu conjunto de rock”. Ao conheceu Carlos Imperial, que agitava noitadas de rock no Copa Golf, em Copacabana, virou vocalista do “conjunto” que tocava em suas noites, Os Terríveis. Eumir, que não queria saber de rock, debandou.


Logo estaria assumindo o codinome de Dixon Savannah, não sem uma grande resistência de seu mentor Imperial, que não achou nem um pouco legal “o filho do Silvino Neto” esconder seu sobrenome num nome artístico gringo. “Dixon Savannah? Vai tomar no cu, porra! Você está inventando um jeito de foder com a sua carreira!”, esbravejou o gordo Imperial. Pouco depois, estaria fazendo contato com nomes que marcaram seu envolvimento com a música – entre eles os instrumentistas Durval Ferreira e Nonato Buzar e o compositor Orlandivo (ou Orlann Divo, como atendia na época).


Apesar da fase pop e roqueira do humorista (que gerou clássicos como A fábula que educa, parceria com Eumir Deodato e Orlandivo que Carlos Imperial plagiaria para João e Maria, primeira gravação de Roberto Carlos), o álbum cultuado da faceta cantor-compositor de Silvino é mesmo Nova geração em ritmo de samba, lançado em 1962 pela Copacabana. “Ele se orgulha muito desse disco. Tem a Claudette Soares e o Eumir Deodato lá, é um dos discos que ele mais gosta”, diz o pesquisador Denilson Monteiro, lembrando que, logo depois, Silvino arrumou um emprego no Instituto Brasileiro do Café e passou uma temporada em Bauru (SP). Ainda assim, arrumou um jeito de se envolver com espetáculos, apresentando na TV local um programa de nome esdrúxulo, Phylsos delongos. Numa das apresentações, trocou de roupa na frente da plateia – um escândalo, na época. Em outra, elogiou o cosmonauta soviético Yuri Gagarin. Até aí nada demais. “Só que ele chegou na frente das câmeras e falou: ‘é por isso que eu sou comunista, vê se americano consegue mandar gente para o espaço?’. As senhoras da cidade acabaram mandando o Silvino embora de Bauru”, diverte-se Monteiro.


O lado humorista de Silvino aparece no documentário, claro – a partir de depoimentos de amigos como Jô Soares, Agildo Ribeiro, Mauricio Sherman (diretor do Zorra Total, programa que celebrizou com personagens como o porteiro Severino, dos bordões “doutor, isso é uma bichona!” e “cara crachá”, e o divertido Lobichomem), e de programas clássicos como o Satyricom, o Planeta dos homens e o Viva o Gordo – neste, ao lado de Jô Soares, protagonizava o hilariante quadro Rádio Cruzeiro, capaz de fazer uma estátua gargalhar. E ainda há outros lados pouco lembrados, como o fato de Silvino ter feito uma rara participação em novela – foi narrador da trama O pulo do gato, da Globo, de 1978, sem mostrar a cara no ar. E chegou a apresentar o Cassino do Chacrinha nos anos 80, durante uma internação do apresentador.


Nos anos 80, durante uma passagem curta pelo SBT, ia na contramão de canais como a Manchete e a Band e apresentava um “carnaval família”, só com imagens comportadas da folia. Mas o que prevalece mesmo é seu lado politicamente incorreto, em música e humor. “Infelizmente, tudo hoje em dia sofre com patrulhas. Não dá nem para falar mal do Flamengo, que dizem que quem falou é homofóbico. O curioso é que o Silvino foi pioneiro num estilo de humor que substitui palavrões por outras palavras, e soa mais engraçado. Ele nunca falaria ‘o caralho’, fala ‘o vergalhão’”, recorda Monteiro.


Com shows pelo Brasil inteiro (faz, secretamente e com pouca divulgação, mas muitos fãs na plateia, a turnê Paulo Silvino bem pra lá de Severino), Silvino separa momentos especiais para a música no palcos por aí afora. A idade não lhe roubou o entusiasmo nem a ousadia na ribalta – a ponto de dispensar coadjuvantes. “É só eu mesmo, não tem mais ninguém. Eu não tenho mais saco de ensaiar, de fazer nada, marcação, essas coisas. Sozinho no palco, posso fazer o que eu quiser, plantar bananeira, ficar nu na frente da plateia”, ameaça o humorista. Animado, pode cruzar a tal “Piroga de cristal” com standards como Sophisticated lady e Easy to love, de Cole Porter, como começara a fazer, há alguns anos, no Bar do Tom, na Zona Sul carioca. Sempre com um playback no acompanhamento e piadas de rolar de rir. Numa apresentação, sucessos como Fly me to the moon, de Bart Howard e gravado por meio mundo, podem ganhar um “vá para a puta que o pariu” acrescido no refrão. Em meio às piadas, rolam causos a respeito de compositores históricos da música brasileira como Haroldo Barbosa e Luis Reis, autores de canções como Nossos momentos e Devagar com a louça.


“No meio da música eu falo da época em que essas músicas faziam sucesso. De como a época era romântica, que a gente dançava de rosto colado, passava o pau para o lado direito, cravava no meio das pernas da dama... aí elas botavam a mão no nosso peito para afastar a gente”, recorda o humorista, mais uma vez falando sério, mas fazendo rir. E garantindo que, em busca de melodias, vai até a música clássica. “Ouço Vivaldi, Chopin, Beethoven. Bach, não, que ele era chato pra caralho. Gosto mais dos românticos. Bach tem esse negócio de tocatta, fuga... não dá, não, ele que se fuga. Mas não tem funk nem hip hop que se compare com uma porra dessas”, diz, desbocado como sempre foi.


AMIGOS DE SOM
Quem convive com o Silvino músico, garante: a MPB perdeu um grande nome

NONATO BUZAR, compositor e músico: “Quem já ouviu Silvino cantando sabe que ele não desafina uma nota. E olha que sou eu quem está falando! Nos conhecemos em Copacabana nos anos 50, ele foi o primeiro a gravar minhas músicas. Ele, na época, era cantor, não era comediante. Quando nos encontrávamos, falávamos muito de compositores como Newton Mendonça, Tom Jobim, Tito Madi, Ronaldo Bôscoli. A gente procurava segui-los”.

ORLANDIVO, cantor e compositor: “Tenho uma coincidência grande na vida com relação ao Silvino. Aos 8 anos, morei em Santos e me apresentei na TV tocando gaita de boca – eu e cada um dos meus irmãos ganhamos uma gaitinha do meu pai. E o apresentador do programa era o Silvino Neto. Em 1959, o filho dele foi servir comigo no Exército. Fizemos uma amizade grande, começamos a compor na Praça General Osorio, em Ipanema. Sempre o arrastava para o bar da Rádio Nacional”.

AMANDA BRAVO, filha do músico Durval Ferreira: “Vi muitos shows deles juntos, assistia e chorava de rir. O Silvino adora falar sacanagem. Lembro que meu pai sentava no palco de tanto rir, não agüentava ficar em pé. Ele cantava umas músicas que pareciam ser em inglês, mas ele ia misturando umas sacanagens no meio da letra e todo mundo adorava. Meu pai fez o disco em que ele aparece de índio na capa (da “Lenda da piroga de cristal”).



SILVINO, O TRISTE
Acredite: o humorista já quis fazer você chorar, com uma peça, nos anos 90

“O Silvino? Aquele ali, se chegar pra alguém e falar: ‘sua mãe morreu’, a pessoa começa a rir”, garante Agildo Ribeiro no clássico dos discos de humor Agildo e Rogéria em Alta Rotatividade (Polydor, 1981). Mas, acredite, em um momento de sua vida, e justamente um dos mais sombrios – logo após o acidente sofrido por seu filho Flávio, em novembro de 1993 – o humorista tentou ser sério. Correndo o risco de ser triste.  Escreveu a peça Brains, que o flagrava sozinho no palco, a esperar a melhora de seu filho. “Ela começa no dia em que o Flavio levou a porrada e vai até quando ele saiu do coma, um ano depois”, lembra Silvino, que, arrependido, nunca encenou a peça, nem pretende.


“Eu jamais faria isso. Já foi chato de escrever, imagina para encenar? Quem andou com essa peça na bagagem foi o (comediante) David Pinheiro, mas nunca mais falei sobre isso com ele. Sei que ele faria muito bem”. Flávio, diz Silvino, pode voltar à televisão a qualquer momento, já que ele e Mauricio Sherman pretendem levá-lo para o quadro de terror do Zorra total. “Ele vai ser um Frankenstein gato, feito com pedaços dos corpos de vários galãs, vai comer todo mundo... Humor negro, claro”, diverte-se o pai, acrescentando que o tema não é tabu em entrevistas. “Muita gente pergunta sobre ele para mim, até com uma cara sentida. Ele tem limitações, anda de bengala, mas está ótimo”. Antes, Flávio chegara a participar da novela Laços de família, de Manoel Carlos, em 2000.


PEQUENA MORTE


Isso aqui não é roteiro de shows, mas vale citar que a banda mineira de ska Pequena Morte, que tem histórias para contar e boa música para mostrar, sobe ao palco do Circo Voador (Rio) nesta quinta (21), durante os shows de verão do Mola, a Mostra Livre de Artes. Na ocasião, dividem o palco com Biltre,  Mohandas e Dona Joana. Aproveitem e leiam um papo que bati com os caras para o Laboratório Pop em 2010. E, sim, esse nome sinistro já rendeu problemas para eles.



DA JAMAICA AO FRIO
Banda mineira que já tocou na Letônia, o Pequena Morte, apesar do nome, faz ska para pular
Publicado no Laboratório Pop em 16 de abril de 2010

Uma ponte Brasil-Letônia, alternativaça – e passando pela Jamaica que dá a cara ska do som do grupo - faz parte das glórias da banda mineira Pequena Morte. O sexteto (Raul Zito, vocal e guitarra; Tio Rô, percussão; Gabriel, baixo; Max, trombone; Djalva, guitarra; Tamás Bodolay, bateria) já havia conseguido, em 2009, realizar a façanha de dar shows na Itália quando, de repente, pensaram: por que não ir mais longe ainda? Acionaram os contatos pessoais, investiram, arriscaram e em pouco tempo estavam se apresentando na ex-república soviética.

“O guitarrista tinha um amigo que morava na Letônia, e ele sugeriu que fôssemos pra lá. Pedi ajuda a uma outra amiga minha, que me falou que a irmã tocava numa banda de reggae de lá”, diz Bodolay. O grupo acabou sendo ajudado pela tal banda, a Hospitalu Lela (“uma das mais importantes da cena alternativa dos países bálticos”) e acabaram trazendo os novos amigos para uma série de shows em Belo Horizonte. Tudo em nome de uma mistura sonora jamaicana que, quase 20 anos após o Skank iniciar a carreira sob o guarda-chuva rítmico do reggae, pega de vez na capital mineira, entre os músicos jovens. Hoje a cena de bandas mineiras que abraçam os sons influenciados por grupos como Specials e The Selecter é grande, incluindo nomes como Skacilds, Inflamáveis, Ironika, o coletivo de DJs Roodboss Selectors (que promove festas em praças públicas de BH ao som de música da Jamaica) e o próprio Pequena Morte.

“Há algum tempo, BH contava com algumas bandas de ska que misteriosamente desapareceram. Mas algo do ritmo ainda rondava por aqui”, diz Raul Zito. “É a primeira vez que vejo uma cena dessas se formar em BH. Antes tinha reggae, que sempre teve bastante público e promove festivais do gênero com certa freqüência por aqui”, conta Bodolay. A dupla faz questão de afirmar que o som do PqM não é ska ortodoxo e abrem os ouvidos para uma saudável mistura sonora, que inclui nomes como Hypnotic Brass Ensemble, Nação Zumbi, Tom Jobim, Céu e até bandas de ska cubano. Além dos sons mineiros, desde o Clube da Esquina até os de hoje. “Ouço muitas bandas de BH mesmo: Maitê, Capim Seco, Templo Plástico, Graveola e o Lixo Polifônico....”, promove Gabriel.

Nascida da união de amigos da época do colégio, a banda tem um nome, digamos, peculiar, levando em conta a alegria de seu repertório. “Surgiu de um brainstorming após um ensaio. Queríamos um nome que fugisse do lugar comum. Lembrei-me de um texto que havia lido, que dizia que o orgasmo era chamado de petite mort por muitos poetas franceses”, recorda Bodolay, sem esconder que já padeceram por causa da escolha. “Muitas casas de shows não nos aceitavam por acharem que o nome espantaria o público. Muitos devem achar até hoje que somos uma banda de death metal”.

Com duas canções no MySpace, o PqM prepara um disco para maio. A prioridade são as gravações. “Tentamos até não fazer shows, porque adoramos tocar ao vivo. Mas precisamos nos concentrar. Recentemente fomos convidados para dividir o palco com bandas como Autoramas e Móveis Coloniais de Acaju e não dava para recusar”, afirma Gabriel.


Leia o link original deste texto aqui. E aqui, veja um vídeo com imagens da banda na Letônia, tocando a música Tudo bem.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

OK, GO TO CACHAÇA


Em novembro de 2011, a banda americana Ok Go apareceu pelo Brasil e fez a alegria dos hipsters de plantão com shows de graça, patrocinados por uma marca de tequila. Passaram por pontos estratégicos do Rio e de São Paulo fazendo shows num caminhão e gravando imagens para o clipe da canção I want you so bad I can´t breathe - e também fizeram um pocket show para convidados e imprensa no Rio Scenarium, na Lapa carioca. Fui lá ver o show e bater um papo com os caras para a Billboard - a matéria saiu na edição de dezembro de 2011.



INDIE ROCK DESCE MACIO 
Ok Go vem ao Brasil gravar clipe e fazer shows de graça - e revela que seus vídeos custam mais do que muita gente imagina
Publicado na Billboard em dezembro de 2011




“Não tenho ressaca quando bebo tequila. Eu ainda bebo para ficar bêbado, sim, mas não só para isso”, diz, rindo, o baixista do OK Go, Tim Nordwind, lado a lado com o vocalista e guitarrista Damian Kulash, antes de passar o som do pocket show para convidados que fariam na casa de shows carioca Rio Scenarium. Lugar dedicado ao samba, ritmo que os novos garotos-propaganda de uma marca da bebida mexicana – daí o papo aberto no grau – garantem gostar bastante. “Lá em Chicago, onde moramos um tempo, se encontra todo tipo de música e provavelmente tem até samba também”, brinca Kulash. 


A captação de imagens dos fãs para o vídeo da nova canção I want you so bad I can't breathe trouxe o Ok Go para o Rio e São Paulo para fazer apresentações gratuitas nas ruas, em lugares como a badalada Rua Augusta, em SP, e a multicultural Lapa carioca. Shows quase espontâneos, coisa pela qual já passaram. “Já fizemos coisas esquisitas. Já tocamos na água uma vez e foi radical. Usei sapatos de chuva, Tim cismou de usar um snorkel”, diz Damian. Sempre a fim de coisas novas, eles dão a entender que o esquema normal de turnês, onde basta apenas tocar os mesmos hits todas as noites, já deu para o gasto.


“No nosso segundo álbum em 2005 (Ok no), saímos em turnê por 31 meses e ao fim estava tão mecânico que era só tocar aquelas mÚsicas 1, 2, varias vezes... E quando terminamos o último, nos sentimos aliviados. Queríamos dividir essa experiência, que nosso publico experimentasse também , onde todo mundo tocasse musica junto. Algo que fosse muito mais uma experiência do que um produto, sabe?”, questiona o vocalista. Tim completa lembrando que passaram por uma situação parecida recentemente tocando num posto de gasolina. “As pessoas jamais esperariam ver um show nosso lá e se sentiram especiais”.


O clipe de Here it goes again faz com que o Ok Go seja chamado de “a banda da música das esteiras” por muita gente – e, claro, o fato de o grupo fazer vídeos de baixo orçamento, com poucos cortes, coreografias engraçadas e roupas malucas (às vezes) angariou muitos fãs. “Infelizmente, tem tanta coisa que fazemos que custa dinheiro... O cão do vídeo de White knuckles sabe? Precisamos de seis semanas pra treiná-lo. E seis semanas de treinamento profissional não saem baratas. Mas não gastamos fortunas em câmeras de último tipo ou produção, só em nossas ideias”, afirma o frontman, que chega a ver pessoas nas plateias dos shows do grupo fazendo as mesmas coreôs das canções da banda. E curtem bastante a sensação de tocar no Brasil. “Parece que o povo aqui realmente se conecta musicalmente. Na Europa, o publico te olha mais te analisando, criticando ao invés de curtir, sabe?”, afirma Damian, completado pelo baixista. “No Brasil, curtimos olhar o público e ver não só gente de 15 a 30, mas uma galera bem mais velha”.


Após saírem da grandalhona EMI, a vida de donos de seu próprio selo – Paradachute Records – vai bem, obrigado. “As gravadoras se importam mais com vender CD e queremos estar perto de tudo: produção, vídeos, shows, a coisa toda”, diz Tim. “A ideia de sucesso nessa indústria vem daquele modelo de 10, 15 anos atrás. Gostamos de fazer tudo e os selos só têm uma ideia do que é sucesso. Não é nosso único objetivo. Queremos oferecer algo que anime as pessoas”, completa Damian, um cara que, fora do punk-quase-funk que pratica com sua banda, tem buscado ouvir coisas antigas de soul. “Sam Cooke, Percy Sledge, Otis Redding. Eram pessoas que eu precisava ouvir”.



Nota de atualização: Não achei nada sobre o lançamento desse clipe - nem mesmo no site oficial do grupo. No YouTube há vários vídeos deles tocando a música por aí.


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

THE COMPLEAT BEATLES


Hoje com o Anthology, isso nem tem mais função, mas lá vai: em 1982, para comemorar 20 anos (#velhopaca) das primeiras gravações dos Beatles, o diretor Patrick Montgomery (de documentários como Humphrey Bogart: behind the legend) dirigiu um super doc de duas horas sobre a história do grupo, The compleat Beatles.


Na época, não apenas quebrava um galho. Trazia boa parte dos vídeos mais populares dos Beatles, informações sobre todas as fases da carreira da banda e um material que saía fora, o máximo possível, do chapa branca. Valeu a pena por um bom tempo. Hoje ficou obsoleto. O original saiu pela mesma United Artists que, havia anos, cobrava um novo filme dos Beatles - já que a banda assinara contrato para três produções e lançara apenas A hard day's night (Os reis do iê iê iê no Brasil) e Help. O desenho animado Yellow submarine cumpriu apenas parte do prometido.


Compleat Beatles saiu em DVD e também - olha só - saiu em videolaser, aquele discão de vídeo que saiu no fim dos anos 80 e cuja breve onda contagiou muita gente. Boa parte dos vídeos do doc que apareciam no YouTube foram ripados dessa edição. Apareciam, porque o YouTube já tirou do ar quase todos esses links. Ainda tem poucos, como esse link aí debaixo, que começa na parte 4 - e não achei as partes 1 a 3. Se bater curiosidade, corra antes que exterminem.





Em compensação, tem também isso aí embaixo, que é uma recordação bem interessante: o Globo Repórter que foi ao ar em 1984 com um resumão de Compleat Beatles. A versão brasuca tem narração do glorioso Dirceu Rabello, que foi a voz da Globo por um bom tempo, e aparições especiais de ninguém menos que Eliakim Araújo, que apresentava o programa naquela época  - se não me engano, Sergio Chapelin tinha ido temporariamente para o SBT.




Como recordação afetiva, é um daqueles momentos em que o YouTube ganha verdadeiro sentido. A primeira vez que vi que os Beatles não eram só quatro caras com penteados engraçados foi aí. E rola certa ingenuidade quando o narrador fala do álbum Revolver (1966), feito, afirma ele, "em meio às experiências dos Beatles com tóxicos".

EVALDO BRAGA

Quarenta anos redondos em 2013. No dia 31 de janeiro de 1973 morria o cantor Evaldo Braga. Tragicamente, num acidente de automóvel. A data não foi muito lembrada - confesso que nem por mim, já que estou envolvido com mil outras coisas. Para falar a verdade, só vi essa reportagem aqui a respeito do assunto. Saiu no Diário de Pernambuco. No mais, silêncio.

Se a produção cafona dos anos 70 (mesmo onze anos após o lançamento do fundamental Eu não sou cachorro não, de Paulo Cesar Araújo) ainda sofre preconceito, a obra de Evaldo - que se resume a dois discos lançados em 1971 e 1972, mais algumas coletâneas e gravações póstumas - é basicamente invisível. Quem não é fã (e haviam muitos fãs nos anos 70) conhece Sorria, sorria e só.

Curiosamente, a pouca intimidade da MPB e da música dita brega com a mitologia pop (e vice versa) não joga luz sobre um detalhe interessante: Evaldo Braga foi mais uma figura a morrer tragicamente aos 27 anos.

O cantor foi lançado ao mercado como um "ídolo negro", justamente na época em que a carreira de Wilson Simonal sofria retração por causa de seus problemas políticos e policiais, e também no período em que a black music começava a frequentar as paradas. Sua escassa discografia saiu pela Polydor, a mesma gravadora que detinha o passe de um dos raros ídolos black da época, Tim Maia. As fichas técnicas, com pouca informação, tinham participações de nomes como Jairo Pires, Mazola, Waltel Branco e do maestro Peruzzi (criador da chamada "Banda Jovem", que participou de álbuns da jovem guarda e do soul nacional).


A praia de Evaldo não era o soul, nem de longe. Seguindo os passos de outro nome negro do período, Agnaldo Timóteo, lançava músicas com vocais derramados, letras tristes (e que muitas vezes eram declamadas no meio das canções) e melodias entre o pop e o cafona sem filtro algum. Em muitos casos, como os de Eu não sou lixo e da própria Sorria, sorria, os metais não traziam nenhum tipo de grandiloquência ou bolo de noiva sonoro. Gravados quase sempre em uníssono, lembravam os de bandinhas de coreto ou do exército. Evaldo, por sinal, foi um popstar que teve seu ciclo de vida amarrado ao interior do estado do Rio - nasceu em Campos e morreu num acidente automobilístico na perigosa BR-3 (entre Rio e Juiz de Fora) na altura de Três Rios.

Apesar de não haver nenhuma biografia de Evaldo existe um documentário, O ídolo negro, lançado até antes dessa febre de docs - saiu em 1997, feito por quatro alunos da UFMG, e pode ser visto aqui. O doc preenche algumas lacunas, tira várias dúvidas de fãs e pesquisadores, e recorda que, ao contrário do que muitos pensavam, Evaldo não foi abandonado numa lata de lixo por sua mãe quando era criança. Antonio Braga, que se apresenta como irmão de Evaldo, fala sobre isso para O ídolo negro - que, mesmo feito sem recurso algum (não há nem legendas com os nomes dos depoentes), é fundamental.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

O MELHOR DO (SUPOSTO) PIOR DO BLACK SABBATH


Em mais de quatro décadas de carreira discográfica, o Black Sabbath não é só uma banda. São várias. A fase com o cantor Tony Martin, que durou de 1987 a 1990 e depois de 1993 a 1997, é o pesadelo de vários fãs do grupo - gente que acompanhava o Sabbath na época do Ozzy Osbourne, franziu o cenho e precisou ser conquistada quando Ronnie James Dio tomou seu lugar, sorriu de orelha a orelha com o álbum único gravado com Ian Gillan no vocal (Born again, de 1983), etc. Mas nem tudo é tão ruim assim - assim como nem tudo na fase inicial é 100% perfeito. 


Enquanto você aguarda esse disco novo da banda com três quartos da formação original (ok, Bill Ward vai fazer falta pra cacete e ponto final), saia da mesmice dos grandes sucessos do BS e caia dentro disso aí. São oito canções que reúnem parte do melhor de fases nem tão boas da banda.


"IT´S ALRIGHT" (do álbum Technical ecstasy, de 1976) - A magia já havia acabado, mas este ainda era um disco da fase inicial da banda, com Ozzy Osbourne no vocal. Ironicamente, a música mais "diferente" do disco era uma balada de tons gospel (!) cantada pelo baterista Bill Ward. Parecia uma tentativa de se adaptar: o som lembrava mais Electric Light Orchestra ou Queen do que o Black Sabbath. O Guns N Roses fez uma versão, lançada no álbum ao vivo Live era.


"JUNIOR´S EYES" (do álbum Never say die, de 1978) - Convencionou-se dizer que Never say die, último disco com Ozzy no vocal, é o pior da banda. Não é, e é bem melhor e mais criativo que Technical ecstasy. O hit Junior´s eyes parece mostrar tudo o que a banda havia sido e tudo o que nunca mais voltaria a ser, com sua ambientação metal-jazzy-soul e sua marcação cerrada de baixo e bateria. Sem falar no vocal maníaco de Ozzy.


"MOB RULES" (do álbum Mob rules, de 1981) - Já era. Com Mob rules, segundo disco da fase com Ronnie James Dio no vocal, muita gente começou a perder a boa vontade. Mesmo a faixa título, uma das melhores do disco, merecia certas depenadas - substituindo Bill Ward, Vinnie Appice fazia montes de viradas desnecessárias. Mas vale ouvir.


"NO STRANGER TO LOVE" (do álbum Seventh star, de 1983) - Não parece Black Sabbath - e não é mesmo, já que, secundado por Glenn Hughes (ex-Deep Purple) no vocal, e por músicos como Eric Singer (bateria Kiss), o guitarrista-chefão Tony Iommi tinha gravado um álbum solo. Por pressão da gravadora, aceitou assiná-lo como Black Sabbath. Jogou o nome de sua banda na lama, já que canções como No stranger... poderiam estar no repertório do Whitesnake. Ou do Roupa Nova. Mas isso é o que dá para ouvir do álbum. Na época, Hughes sofria para abandonar as drogas. "Fui chamado para cantar num álbum de Iommi e quando vi, era um disco do Black Sabbath. Imagine: eu estava tentando me salvar e cantava numa banda que só falava de demônios", chegou a afirmar.


"THE SHINING" (do álbum The eternal idol, de 1987) - Até parecia, mas no vocal não estava Dio, que tinha saído da banda há alguns anos. Era um inglês careca-cabeludo, que ostentava um mullet pavoroso e que ocupava o cargo que um dia havia sido de Ozzy Osbourne - enfim, Tony Martin. E, vá lá, no que diz respeito ao primeiro single lançado com sua nova banda, até que ele não mandou tão mal. Só não manteve o costume de mandar tão bem.


"WHEN DEATH CALLS" (do álbum Headless cross, de 1989) - Sem Dio, sem Ozzy e com Tony Martin, mais alguns supermúsicos ajudando (Cozy Powell na bateria e Neil Murray no baixo, além de Brian May, do Queen, fazendo alguns solos), o Sabbath virava uma banda de metal corretinha e limpinha. Mas trazia algumas canções bacanas, como esse épico de quase sete minutos incluído no melhor álbum da banda desta fase.


"THE HAND THAT ROCKS THE CRADLE" (do álbum Cross purposes, de 1994) - O melhor disco da segunda fase de Tony Martin no Sabbath surpreendeu tanta gente que a banda até se animou a fazer o registro de um show da tour no box CD-VHS Cross purposes live. É o mesmo metal cromado que se ouve em todos os discos com o cantor, mas tem mais pegada de hit e cai bem. 


"AFTER FOREVER" (do álbum Master of reality, de 1971) - Não, a fase inicial da banda não era 100% perfeita. Lançado em meio ao deslumbre com as drogas (a banda toda caiu de nariz no pó) e a turnês monstruosas, o terceiro álbum do grupo é, de seus clássicos seis primeiros, o que menos tem atrativos. Mixagem esquisita, vinhetas desnecessárias, vocais travados (em Solitude, Ozzy solta a voz tão calmamente que surgiu uma duradoura fofoca de que se tratava de Bill Ward cantando). A diferença é que se trata de um disco asfixiado, mas não um disco errado. Em After forever, aberta com sintetizadores, o Black Sabbath brinca com os poderes por trás da religião e com a imagem de "satanistas" que lhes impuseram.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

ORQUESTRA POPULAR DA BOMBA DO HEMETÉRIO


Quando fui cobrir o carnaval do Recife em 2010 só se falava em dois nomes: Orquestra Popular da Bomba do Hemetério e João do Morro. Bati um papo com João - e cobri um show seu no encerramento do carnaval de 2011  - para o Laboratório Pop. E também conversei com a figuraça Maestro Forró, lider da OPBH. Confira aí.


MAESTRIA SOCIAL
Apresentamos a Orquestra Popular da Bomba do Hemetério, mais um som de Recife que precisa ser ouvido e admirado
Publicado no Laboratório Pop em 7 de abril de 2010


“A ideia é desmistificar a figura do maestro, que geralmente é uma pessoa sisuda e incomunicável. E somos uma orquestra, mas não somos iguais a uma orquestra de música clássica. Temos informação de clássicos, mas também de música brasileira, de folclore, de tudo”, avisa ao LABORATÓRIO POP o músico, maestro, ator e diretor musical pernambucano Francisco Amâncio da Silva, 31 anos. Ou Maestro Forró, personagem que assume à frente da Orquestra Popular da Bomba do Hemetério. Que botou o povo todo para dançar no Recife Antigo nesse carnaval e continua em turnê pelo Brasil, divulgando o recente blu-ray, Jorrando cultura ao vivo, da OPBH – iniciativa ainda isolada no meio independente verde-e-amarelo. Mas, mesmo com todo o som rolando e divertindo, faz questão de ressaltar o lado social por trás do som, que vem de uma comunidade simples – a tal Bomba do Hemetério, no subúrbio de Recife (PE).


“Queremos nos diferenciar, porque trabalhos de periferia geralmente usam a condição social como desculpa para não estudar. Geralmente isso gera um trabalho de baixa qualidade, aquela coisa do ‘moro na Baixada Fluminense (região metropolitana do Rio), sou coitadinho’ “, afirma.


Se a Orquestra já surpreende por tocar temas de frevo de maneira inusitada (o que começa com contornos nordestinos pode se transformar numa valsa como as de Richard Strauss, ou num blues, ou em carnaval carioca) o Maestro não deixa por menos. Em mangas de camisa, usando gravata colorida e óculos escuros, levanta a mão e faz os músicos de sua banda dançar enquanto tocam. E ele mesmo dança ao reger seus 25 comandados. Mais: aquela participação feliz da audiência, que você vê nos vídeos do Black Eyed Peas, rola leve e solta nas apresentações da OPBH. Sem um Twitter para combinar, sem um vídeo no YouTube para ensinar coreografias, sem uma Oprah Winfrey brazuca para animar a plateia, o povo dança como o Maestro e seus músicos. Em especial as crianças, com as quais ele lida desde quando era ator de teatro infantil. Não por acaso, pessoas com gravata colorida, óculos escuros e camiseta branca foram algo comum no carnaval deste ano em Recife e Olinda.

O bairro da Bomba do Hemetério é bastante popular na história da música e do carnaval pernambucano. E tem uma história curiosa. “Nos anos 30, tinha um senhor lá, o Hemetério, que era o único que tinha uma bomba d’água em casa. Ele bombeava água para a população sem cobrar nada de ninguém. De tanto falarem: ‘vamos lá pegar água na Bomba do Hemetério’, virou nome de bairro”, lembra o alegre Forró, que é filho de José Amâncio do Coco, crescido na região, e responsável por manter a tradição do maracatu rural e do coco de roda no bairro. “Lá tem quadrilhas, festa junina, o Maracatu Nação, tem o único reisado vivo da cidade, que é o Reisado Imperial. O bairro inteiro sempre foi musical”, lembra, fazendo questão de destacar que a Bomba do Hemetério é um bairro pobre, porém não exatamente violento.  “Ele sempre foi um bairro muito aproveitado, no pior sentido da palavra, pelos políticos. Mas sempre teve muita cultura aqui”.

Forró, ou melhor, Francisco, mora até hoje na Bomba. E faz questão de convidar apenas músicos da área, ou pelo menos nascidos lá, para a Orquestra. O iluminador e o figurinista do grupo, por exemplo, são crias da OPBH. Que montou em 2002, quando já era músico profissional e dependia da profissão para pagar as contas. Trabalhava em teatro, fazia trabalhos com o Mundo Livre S/A  e, com o DJ Dolores, tinha viajado todo o mundo (“morei três meses na China!”), mas ainda pensava em fazer algo social para a área na qual vivia. O lado comunitário e o lado musical confundem-se até hoje, e surgiram um do outro, concomitantemente. “Quando montei a orquestra, montei com os músicos um grupo para, na minha casa, discutir sobre temas sociais, sobre cultura, teatro, música, cidadania. Começamos a fazer um trabalho de pesquisa, passamos a fazer o que eu chamo de música bombense, ligada à área”, afirma o maestro.  É aí que o lado brincante, como costuma dizer, acaba. A música é brincadeira, mas tem disciplina: as reuniões-ensaios acontecem até hoje na casa do maestro, às segundas e quartas, às 19h30. Depois das 19h40, um cadeado tranca o portão da sede da OPBH. Ninguém mais entra. “A cultura do brasileiro é a de chegar atrasado. Não dá, né?”, justifica.

A brincadeira séria da Orquestra é temperada com muita variedade musical. “Estudamos José Amâncio do Coco, Luiz Gonzaga, Chico Science, e também Bach e Beethoven. Quem nasce na Bomba do Hemetério já cresce ouvindo maracatu desde a infância, misturado com os pontos de umbanda e os cantos das igrejas católica e protestante. O bairro é muito rico, só faltava movimento, articulação”, alegra-se.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

BLACK SABBATH, 1970

O marco inaugural do heavy metal está aqui e ponto final. 

O que vinha antes era hard rock, rock pesado, qualquer coisa. Mas a origem de tudo o que aconteceu de mais podre no rock surgiu quando quatro caras de Birmingham (Inglaterra) gravaram seu primeiro disco, em apenas um dia (com mais 24 horas para mixar tudo). E ele saiu em 13 de fevereiro de 1970. É a estreia do Black Sabbath.

Eu não achei o disco inteiro para ouvir no YouTube - estranho, porque boa parte da discografia do Black Sabbath está lá. Mas tem isso aqui, que é manjado e provavelmente você até já viu. Se não viu, faça bom proveito.

É um show do Black Sabbath em Paris, em 1970, com repertório quase misto do primeiro álbum e de Paranoid, o segundo disco, lançado apenas alguns meses depois da estreia, em setembro daquele mesmo ano. A demanda para rock pesado era grande naquele período: o Led Zeppelin, não tão igualmente pesado ou ultrajante, lançou os dois primeiros discos também num pequeno intervalo de tempo.

Para entender a que vinha o Black Sabbath, basta dizer que se hoje o Gangrena Gasosa pode misturar metal com candomblé e se dizer "desagradável", a culpa é deles. Gêneros mais subterrâneos do heavy metal, como o black ou o death metal, vieram daí. O stoner rock, também. Tudo veio daí.

Boa parte das músicas do disco se baseava num intervalo musical diabólico chamado trítono. O nome da banda vinha de um filme de terror homônimo de 1963, dirigido por Mario Bava e estrelado por Boris Karloff. O vinil original lançado na Inglaterra vinha com uma cruz invertida na arte interna. E ainda tem a capa, que você vê acima, sem comentários. Sim, a intenção era assustar.

Ok, fora a tal cruz invertida (nem foi ideia deles) não havia nada ali que pudesse classificar Ozzy Osbourne (vocais), Tony Iommi (guitarra), Geezer Butler (baixo) e Bill Ward (bateria) como satanistas. Só que o cardápio imposto pelo "espírito do tempo" - os crimes da família Manson, o sucesso de filmes como O bebê de Rosemary - exigia tons graves nas músicas e nas letras. Que incluíam a visão aterradora de Black Sabbath, a mulher malévola de Evil woman, o terror de bolso de Behind the wall of sleep. Já no hit N.I.B., por trás uma declaração de amor, esconde-se Lúcifer.

A formação inicial do Black Sabbath estendeu-se por mais alguns discos e desintegrou-se, em meio a drogas e brigas, após um disco errado, Never say die (1978). A saga dos oito anos históricos do grupo está resumida neste documentário. E agora, Ozzy, Geezer e Tony, de volta, preparam um novo disco. Sem o baterista Bill Ward, que não gostou das condições contratuais para a volta. Ward é um baterista que merecia mais reconhecimento e respeito, dono de um toque feroz e elegante ao mesmo tempo, capaz de suingar nas músicas mais pesadas, como Snowblind. Sem ele, o Black Sabbath perdeu boa parte de sua graça. Virou heavy metal reto, tecnicamente bom, mas preso na jaula.

É raro que uma banda dos anos 60/70 tenha toda a sua formação inicial viva. O Black Sabbath conseguiu. Você sonha em ver juntos novamente os quatro caras que, em 1970, gravaram o som mais assustador do mundo? Pelo menos você pode continuar sonhando.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

MARCELO JENECI


No festival Rec Beat de 2011, aproveitei para bater um papo com Marcelo Jeneci, que tinha acabado de lançar o álbum Feito para acabar e iria fazer um show lá - pouco depois da apresentação de Odair José, a quem ele dedicou músicas no palco. Gostei muito do show e das músicas de Jeneci, a quem conhecia pouco - tinha dado uma escutada em seu álbum poucos dias antes e só.





"QUERO ACABAR COM OS PRECONCEITOS"
Marcelo Jeneci, no Rec Beat, une extremos: MPB inovadora e popular, guitarras e sanfonas, novelas e independência musical
Publicado no Laboratório Pop em 8 de março de 2011


O paulista Marcelo Jeneci, 28, é filho de um pernambucano, toca sanfona e tem um nome que remete imediatamente a um clima musical agreste, mas não é forrozeiro - o instrumento entra em seu som em contextos absolutamente diferentes. Faz uma musica com letras românticas e de fácil assimilação, mas não é exatamente um compositor 100% popular - a ponto de valorizar o barulho e o som das guitarras em algumas canções de seu debute Feito para acabar (Slap/Som Livre). Cresceu cercado de informações populares, pela TV e pelo rádio, e crê que o melhor para seu som foi justamente não ter optado por um lançamento independente - ainda que sua estreia tenha sido bancada pelo patrocínio da Natura.


Presente em outros projetos recentes da música pop atual, como o Cidadão Instigado e o vindouro segundo disco solo de Marcelo Camelo, Toque dela, do qual participou, Jeneci começou a carreira aos 17 anos, na banda do cantor Chico César - até então, como afirma, levava uma vida "pacata", voltada à música instrumental, na Zona Leste de São Paulo. Suas canções ganharam elogios de parceiros como Vanessa da Mata (com quem fez o hit Amado) e Arnaldo Antunes (parceiro em muitas músicas, como Quarto de dormir), mas já chegaram às rádios na voz do sertanejo Leonardo. "Eu estou aqui para acabar com os preconceitos", afirma Jeneci, nos bastidores do festival recifense Rec Beat, onde se apresentou nesta segunda (7) e tocou músicas como Copo d´água e Dar-te-ei, logo após o show de Odair José - um ídolo para Jeneci, que chegou a dedicar músicas a ele no palco.


LABORATÓRIO POP: Você faz parte de uma geração de novos músicos paulistanos que tem sido muito elogiada pela crítica. O que você e esses artistas têm a oferecer de novo?


Marcelo Jeneci: Acho que, como todas as gerações que vão chegando e assumindo seus lugares, eu faço parte de uma geração que tem algo para dizer e que tem tido um campo generoso de trabalho. Uma coisa que interliga vários artistas da minha geração é a necessidade de trazer alguma coisa leve, sincera e bela, e que não dependa de nenhum mercado fonográfico ou de algo muito polido e muito plastificado. Estamos tendo a chance de fazer com muita liberdade o que mais acreditamos. Acho que se assemelha com a geração do final dos anos 60 e começo dos anos 70.


Mas você acredita num boom de grandes artistas como o daquele período? Para você essa galera nova vai ficar?


Acho que as porteiras se abriram. Não sei se as daquela época estavam fechadas, acho que não. Cada geração tem seu papel imPortante. Agora tem muita gente fazendo coisas diferentes ao mesmo tempo. Não é uma questão da minha geração, é uma necessidade que o tempo oferece. Do mesmo jeito que apareceu nos anos 70/80 uma frota de ônibus com vários lugares para serem ocupados, em 2010 essa situação se repete.


Você teve uma música que foi ao mesmo tempo gravada pelo Arnaldo Antunes e pelo Leonardo (Longe)...


Foi. É uma parceria minha com Arnaldo e com Betão Aguiar, que entrou numa novela da Globo (Paraíso). Não tocou muito, mas tocou no meu coração o fato de uma música minha, por mais que seja uma parceria, ser cantada por um cara que eu ouvia muito no rádio...


Ter música em novela era um sonho seu?


Era uma coisa que eu acreditava que poderia acontecer naturalmente. Sou filho dessa cultura de massa, de assistir à TV aberta, de mais ver filme do que ler, de assistir novela, ouvir rádio... Depois de dez anos tocando como instrumentista em outros projetos, quis botar para fora uma música minha, com letra minha. Comecei a achar natural que viessem com esse filtro, que absorvi nos meus 28 anos. Sempre acreditei que fosse natural acontecer dessa forma.


Longe pegou dois lados bem diferentes: foi gravada pelo Arnaldo e por um artista sertanejo...


Esse preconceito com a música popular está cada vez menor, ainda mais depois de todo o trabalho do tropicalismo... Aqui mesmo no Rec Beat o Odair José toca para 30 mil pessoas, uma geração que acaba valorizando o que ele fez na década passada. Acho até que ele pode falar mais disso. Eu estou aqui para acabar com esse preconceito.


Seu disco saiu pela Som Livre com patrocínio da Natura. Como entraram esses dois lados na produção do disco?


Eu me inscrevi no Natura Musical em 2009 e fui selecionado. Patrocinaram a gravação do meu disco. Só que na hora de pensar em como lançar... Eu sempre acreditei numa força imediata das canções, pelo fato de elas serem muito comunicativas. Daí não quis lançar independente. Não quis lançar logo que ele acabou. Ele ficou pronto em abril e lancei só em dezembro. Daí apareceu o Som Livre Apresenta. Foi uma triangulação, porque cresci absorvendo muita coisa que eles (Som Livre, Globo) colocaram no mundo. Fui conhecendo outros mundos, conhecendo muita gente bacana, Arnaldo, Luiz Tatit. Conheci outros tipos de cultura, de camadas mais profundas. A música que eu faço carrega a união desse mundo mais popular com esse outro mundo e só poderia ter sido lançada por uma grande gravadora. Eu quis que isso acontecesse.


Como era sua vida musical antes do Chico César? 


Eu tocava piano e sanfona nas bandas de outros artistas e não compunha nada. Estava mais ligado à música instrumental. Isso lá pelos 15, 17 anos. Fui percebendo que me colocava de forma mais autoral como instrumentista. O universo da canção foi me chamando. Passei a ter necessidade de dizer algo, de compor música com letra...


Mas o que você sentia que queria dizer?


O principal era fazer uma música que poderia ser consumida pela grande massa e pela classe média brasileira. Precisava dizer não às firulas e às coisas cerebrais. Olhava para o que estava rolando e para o que estava dentro de mim, e sentia que tinha algo para sair que juntaria essas coisas. Essas questões só foram respondidas quando saiu o disco.


Mas ao mesmo tempo você tem em Feito para acabar coisas mais cerebrais e barulhentas, lembrando o próprio Cidadão Instigado e até Mutantes. Como você equilibra isso no seu som?


É, o Cidadão me instigou mais, eu diria. Mas encontrei no Catatau uma referência que eu já tinha da infância, que eram as músicas românticas da década de 70, e isso se juntou ao som psicodélico que os Mutantes faziam. Isso me ajudou a ter mais contato e mais experiência com um som mais visceral.


E como foi trabalhar com Marcelo Camelo no disco solo dele que está para sair?


Cara, foi maravilhoso. Na real, eu comecei a compor as minhas músicas depois que fiquei apaixonado pelo trabalho de Los Hermanos. Foi inacreditável gravar no disco dele, e ele ainda dividiu palco comigo no meu show de lançamento. Quando acabaram os shows em SP, eu fiquei chorando em casa, sem acreditar que aquilo estava acontecendo.


Foto: Divulgação.