terça-feira, 29 de janeiro de 2013

PSICOACÚSTICA


Psicoacústica, terceiro disco do Ira!, comemora 25 anos neste ano. Saber dia e mês do lançamento requer uma pesquisa mais detalhada. Mas o Jornal do Brasil publicou a crítica do disco em 14 de maio de 1988, assinada por Arthur Dapieve (hoje no jornal O Globo). Deve ter sido por aí.

Dapieve via no disco "a volta por cima do Ira!". Ao menos em termos artísticos, já que no álbum anterior, Vivendo e não aprendendo (1986), a banda vendera mais de cem mil cópias (era o Disco de Ouro da época) e conseguira entrar numa abertura de novela (com o hit Flores em você, abrindo a global O outro). Psicoacústica acabou sendo o disco que garantiu um status estranhamente cult para um grupo que estava numa grande gravadora, trazendo de volta uma mescla de anos 60 e 70. "Aqui, o estúdio não entrou com a pasteurização asséptica de costume, mas para sujar o som com infinitos efeitos neo-psicodélicos", escreveu Dapieve. Ou seja: vendeu pouco.

Para quem pouco se identificava com os anos 80 e estava vivendo a vida na década, Psicoacústica era o álbum perfeito. 

Para mim, era (e é) mais que isso. É o álbum que me representa como ser humano e fã de música, em letras, melodias e conceito. Comprei o disco ainda em vinil, aos 13 anos, na saudosa Prodisc, do Plaza Shopping (Niterói). Lembro do momento em que levei o vinil pra casa, ouvi e reouvi. Odeio essas conversas de "ah, o disco tal me salvou", não acho nem que eu tenha a necessidade de ser salvo por um disco, mas Psicoacústica chegou perto de fazer isso, no momento em que precisei. Essa é uma história muito particular e nem vou entrar nesse assunto.

Numa era em que os CDs já entravam no mercado com seus mais de 70 minutos de duração e múltiplas possibilidades, Psicoacústica trazia apenas oito faixas - igualzinho aos clássicos de bandas como Led Zeppelin, Aerosmith, Black Sabbath. As primeiras edições do disco vinham com um óculos 3D para quem quisesse viajar na capa, que variava entre o verde e o magenta. Havia teclados, samplers e programações eletrônicas, pragas musicais da época, mas até eles estavam a serviço do som mais antigo. Como no synth de voz que abre Manhãs de domingo, no loop de pandeiro do pré-mangue beat O advogado do diabo, nos trechos do filme O bandido da luz vermelha (de Rogério Sganzerla) inseridos em Pegue essa arma e Rubro Zorro. 

É em Mesmo distante - que você ouve aqui - que o disco atinge um ponto inédito (e até hoje inexplorado) para o rock nacional. Uma balada delicada, com os pés plantados no rock no fim dos anos 60, nos sons clássicos e na música hispânica. É uma música estranha para o rock brasileiro até hoje. Em 1988, era um verdadeiro ET.

Já em Poder, sorriso e fama, um rock marcial que tem lá seus parentescos com o U2 (e com In my time of dying, do Led Zeppelin, e seus berros de "c´mon!"), voam guitarras por todos os lados - no texto da capa dupla, o ouvinte é informado de que Edgard Scandurra toca "guitarra fantasmagórica" em algumas faixas. Não dá para descrever. E só dá para ouvir de fone. 

O rock-rap de terreiro Advogado do diabo, cantado por Nasi e André Jung, encerra com um discurso bizarro, gravado de rádio AM, que fala em "tem que haver rico e tem que haver pobre, tem que haver branco e tem que haver preto, tem que haver patrão e tem que haver empregado, porque Deus quis assim". Numa entrevista da época, Nasi disse que não ia falar nunca de quem era esse discurso, "para não fazer propaganda desse órgão que eu acho horrível". Não falou nem na biografia A ira de Nasi, de Mauro Beting e Alexandre Petillo. O amigo Leandro Souto Maior foi entrevistá-lo recentemente para o jornal O Dia sobre o livro e resolveu perguntar sobre o discurso. "Haha! Putz, foi... não lembro mais!", foi a resposta do ex-cantor do Ira!

Se a gíria "deu ruim" tivesse sido inventada em 1988, Psicoacústica teria "dado ruim" em vários aspectos. O cineasta Rogério Sganzerla ameaçou embargar o disco, por causa do sampler do seu filme. Santa ingenuidade: Receita para se fazer um herói, uma das músicas do disco, foi feita pela banda em cima da letra de um ex-colega de exército de Scandurra, Esteves, com quem não mantinham mais contato. O grupo apenas gravou a faixa e publicou nos créditos a frase "Esteves, cadê você?", para que o antigo colega do guitarrista aparecesse (não havia Facebook em 1988). Mais problemas: a letra de Receita... era plágio do poema Receita de herói, do poeta português Reinaldo Ferreira (1922-1959). 

Tudo isso no ano em que, convocados para o festival Hollywood Rock, deram uma entrevista reclamando do tratamento que as bandas brasileiras recebiam no evento. Com a banda já entrando numa roda viva de drogas e brigas (Nasi chegou a se recusar a cantar uma das faixas do disco, Farto do rock´n roll, por não concordar com a letra - a música foi parar na voz de Edgard), não é difícil imaginar com que cara a gravadora recebeu os masters do álbum.

O que "deu ruim" mesmo é que o Ira!, como é público e notório, não existe mais. O repertório de Psicoacústica merecia um tratamento especial. Um relançamento definitivo, quem sabe - o álbum já teve dois relançamentos em CD. Ou pelo menos um show na Virada Cultural, com os ex-integrantes da banda engolindo suas respectivas mágoas e passando por cima dos seus respectivos egos, e recordando as oito músicas. Mas não deve rolar.

sábado, 26 de janeiro de 2013

GUILHERME LAMOUNIER

Acho que esse texto meu saiu em inúmeros sites - algumas vezes sem o devido crédito. Foi publicado originalmente no meu antigo blog, o Discoteca Básica, lá por 2003, 2004. Resgatava um disco que nunca saiu em CD e que revela um nome perdido do pop nacional - que muita gente achava já ter morrido. O destino dele foi, na verdade, revelado por esta matéria assinada pelo jornalista Pedro Alexandre Sanches na Carta Capital.


Guilherme Lamounier marcou época, fez hits como
Enrosca e Seu melhor amigo. A simples menção de seu nome fez, recentemente, o cantor Fábio Jr (que gravou essas duas músicas e mais outras) chorar durante uma entrevista. Seu melhor momento foi o segundo álbum, de 1973 - um dos melhores discos da história da música pop nacional, servindo quase como um equivalente carioca de Lóki?, de Arnaldo Baptista, lançado só um ano depois. 


É provável que o ex-mutante nunca tenha escutado o disco de Guilherme. Mas que os dois têm a ver, têm sim. Ambos representam um mergulho emocional (e psíquico, de certa forma) muito precioso, difícil de se encontrar aqui no Brasil. E, justamente por isso, não escaparam da obscuridade.



"GUILHERME LAMOUNIER" - GUILHERME LAMOUNIER (Atco/Continental, 1973) - 
O COMPOSITOR CARIOCA Guilherme Lamounier é um nome tão pouco lembrado que nem teve tempo de se tornar uma "lenda" - raras vezes seu nome foi mencionado em revistas de música e o disco em questão seria bem pouco citado, apesar de ser uma obra-prima do pop nacional. Seus maiores sucessos, Enrosca e Seu melhor amigo, foram eternizados por um cantor cujo nome já afasta fâs de pop-rock: Fábio Jr. (Enrosca também foi gravado por... bem... Sandy & Junior). Seu papel durante os anos 70 acabou restrito, em vários momentos, aos bastidores - ele compôs outras inúmeras canções, numa linha que trafegava entre o rock, a MPB e a soul music nativa, que acabariam gravadas por Zizi Possi, Rosa Maria, Roupa Nova, Frenéticas, Jane Duboc e outros. Também responsabilizou-se por vários temas de novelas globais, além de trabalhar ao lado da dupla Robson Jorge & Lincoln Olivetti em várias empreitadas.

Guilherme vinha de família de músicos: o avô, Gastão Lamounier, era compositor e o primo, Gastão Lamounier Junior, também tornou-se compositor e músico, trabalhando com Erasmo Carlos, Banda Black Rio, grupo Karma e vários outros (Tem que ser agora, gravada por Pedro Mariano em 2000, é de Gastão e Luiz Mendes Junior). Outro primo famoso era Ricardo Lamounier, DJ da boate setentista New York City Discothéque. Antes de Guilherme Lamounier, Guilherme já havia gravado um outro disco, hoje também obscuro, pela Odeon - lançado em 1970 com produção de Carlos Imperial e participação de Dom Salvador e Maestro Cipó, o disco é definido por um site de venda de discos raros como "uma versão crua e rude de Wilson Simonal", contendo "funks pesados" como Cristina e A casa onde ela mora.


O álbum de 1973, um dos raros discos nacionais lançados pelo selo Atco, da WEA - que era representada no Brasil pela Continental, durante os anos 70 - pode ser definido como um feliz encontro entre folk, pop, rock (pesado em alguns momentos) e o acento soul que marcaria praticamente tudo feito por Guilherme. Era uma coleção de 10 belas melodias que, ouvidas hoje, dão pena por quase não terem freqüentado as rádios. De lá para cá, este disco jamais seria reeditado.


Guilherme Lamounier foi fruto de uma parceria entre o cantor e Tibério Gaspar, que assinou as letras de todas as músicas - as fotos do encarte, sempre trazendo a dupla, dão a entender que Tibério, mais conhecido por suas parcerias com Antonio Adolfo (Sá Marina, Juliana) foi fundamental para o desenvolvimento do álbum. Tocado ao violão e ao piano, com discretas guitarras, o disco abria com uma balada quase Beatle, Mini-Neila. A melodia, de matar Noel Gallagher de inveja, era acentuada pelo belo arranjo de cordas -e Luiz Claudio Ramos, então integrante da Brazuca e hoje arranjador de Chico Buarque - e completada por um belo refrão, um dos melhores do disco.


Depois vinha o som folk e viajante de GB em alto relevo, uma melodia cheia de surpresas e de acordes escondidos, que mostram a excelência de Lamounier como artesão pop. Patrícia, outra balada folk, entra no álbum lembrando Lô Borges e traz uma letra cheia de imagens fortes, sexuais. Os telhados do mundo é quase progressiva, trazendo percussão, efeitos sonoros, guitarras, órgão e uma letra psicodélica, libertária ("não me interessa saber o que vocês pensam de mim por aí/só interessa saber quem sou ou o que não sou por aqui"). Todas as letras do álbum oscilavam entre o romantismo e uma espécie temática jovem dos anos 70, com imagens de teor quase hippie.


Bem distante do tal "Wilson Simonal cru" do primeiro disco, Guilherme cantava de uma forma quase black, alternando tons rockeiros com vocais roucos e gritados, lembrando por vezes uma versão carioca de Arnaldo Baptista (com quem até se parecia fisicamente). Esse modo de cantar aparecia em músicas como Freedom, soul acústico pesadíssimo, com linhas de baixo vigorosas e um forte trabalho de metais, quase lembrando uma trilha de filme. Ou mesmo em Cabeça feita, hard rock doidaralhaço que, dois anos depois, seria gravado pelo grupo carioca O Peso - e que fechava o disco com guitarras na cara do ouvinte e uma letra bandeirosa e libertária.


O disco ainda trazia baladas com um pé no soul, como Capitão de papel (cuja letra, bem anos 70, citava personagens de histórias em quadrinhos) e a belíssima Amanhã não sei, conduzida por violão, piano e órgão Hammond e explodindo em um forte arranjo de cordas no final. Completando, ainda havia a curiosa Será que eu pus um grilo na sua cabeça? - balada hippie com letra bucólica e romântica, que não citava em momento algum o longo nome da música - e a balada hard Passam anos, passam anas, seis minutos de fazer os Black Crowes roerem os cotovelos de inveja (a música até lembra um pouco Descending, do Amorica).


Na época de Guilherme Lamounier, o cantor já colaborava com músicas para trilhas de novelas - ele já havia gravado, na onda dos cantores brazucas que pagavam de inglês, o tema What greater gift could there be para a novela global O homem que deve morrer. Continuou assinando outros temas, como a disco-track sacana Requebra que eu curto (O pulo do gato, 1978) e até mesmo Enrosca, cuja versão original era um pop-rock pesadinho (da novela Locomotivas, 1977). Guilherme também escreveu músicas para filmes dos anos 70, como a pornochanchada Cada um dá o que tem (de Carlo Mossy). Sua carreira discográfica é que permaneceu no pára-e-anda por um belo tempo. Ainda na Continental, Guilherme lançou um single com Vai atrás da vida (que ela te espera) e deu uma sumida, lançando apenas outros compactos. Em 1978 sairia outro Guilherme Lamounier, desta vez pela Som Livre - revelando Serenatas perfumadas com jasmin, da trilha de Marrom glacê.

De lá para cá, pouco se ouviria falar de Lamounier - a não ser por uma ou outra regravação. Seu ultimo disco sairia em 1983, um single com a zoada Eu gosto é de fazer o que ela gosta. Pouco se sabe sobre a vida de Guilherme hoje, o que ele anda fazendo e se ainda trabalha. As fofocas e boatos sobre a vida de Lamounier se acumulam até entre alguns de seus antigos amigos, já que não há muita informação. E Guilherme Lamounier permanece inédito em CD, mesmo com os vários projetos que a WEA vem fazendo para reeditar discos do catálogo da gravadora Continental. Para quem quiser conhecer o álbum, há cópias em CD-R rolando por aí.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

RESENHOL (PARTE 3)



"XIQUE BACANIZADO - AO VIVO" | JOÃO CARREIRO E CAPATAZ (DVD) - Pouca gente fora do mundo sertanejo conhece João Carreiro e Capataz – o que já causa estranhamento ao se dar uma checada na gravação de seu DVD tão lotada de gente, embora esse tipo de surpresa seja até comum nesse tipo de som. Autointitulados “os brutos do sertanejo”, acreditam mesclar modas de viola com rock. O que entregam para o público é um produto que se sustenta mais pelas canções cheias de ganchos pop quase infantis (da mesma forma que as cantadas por Luan Santana), pelo humor das letras (que dá certo em músicas como Faculdade da pinga, retrato verdadeiro do dia a dia universitário em todo o Brasil) e por uma e outra guitarra inseridas nos arranjos, que deixam o som dos dois meio parecido com uma versão Raimundos-Matanza do sertanejo de Victor e Leo.

Para dar uma ou duas risadas - a não ser em caso de preconceito com o estilo musical, claro - até vale a pena dar uma orelhada em músicas como Lágrimas de crocodilo, Cada um com seus problemas e Tá bagunçado mas tem gerência. Já a curiosidade de Bruto, rústico e sistemático, música na qual sacaneiam os roqueiros tatuados, dá vontade de rir quando se imagina, pela letra, qual a visão que a dupla tem de roqueiros e tatuados. No mais, só para fãs.


"UMA NOITE EM 67" | RENATO TERRA E RICARDO CALIL (DVD) - "O público virou personagem". É assim que um dos personagens mais destacados da finalíssima do festival da TV Record de 1967, o cantor e compositor Sérgio Ricardo, define o que você vai assistir em Uma noite em 67, que traz os bastidores, os relatos históricos e as imagens raríssimas da final do evento, em 21 de outubro daquele ano. Não são poucas as pessoas, atualmente, fazendo comparações dos shows musicais competitivos dos anos 60 - que faziam sucesso a ponto de canções como a lírica O cantador, de Dori Caymmi e Nelson Motta, virarem discussão de mesa de bar - com os reality shows.

Talvez as músicas fossem melhores, mas o produto final era um programa, uma atração, movida pelo Ibope do público, que vaiava (muito) e aplaudia (pouco). Talvez a entidade "público" tenha piorado com o passar dos tempos, embora não dê para julgar. Mas a cada artista, cabia representar um personagem - manipulado pelos produtores e pelo chefão do canal. Não eram propósitos muito diferentes de uma luta televisiva entre, sei lá, Dhomini e Anamara. Só que trazia música - e da boa, como se pode comprovar no próprio filme. E todo um contexto político e artístico, causado pela ditadura e pela polarização entre MPB e guitarras elétricas, nacionalistas e pré-pops. Personagens do festival, como Caetano Veloso (que defendeu Alegria alegria, com os Beat Boys), Gilberto Gil (idem com Domingo no parque, com Os Mutantes), Roberto Carlos (idem com o samba Maria, carnaval e cinzas, de Luiz Carlos Paraná), Edu Lobo (ganhador com Ponteio, defendida por ele, Marilia Medalha e Momento Quatro), Chico Buarque (mostrou sua Roda viva, com o MPB 4), Sérgio Ricardo (defendeu-não defendeu sua Beto bom de bola e, vaiado, quebrou o violão ao fim da música), Sérgio Cabral (jurado), Solano Ribeiro (criador do evento), dão seus depoimentos, intercalados com imagens de época.

Para quem nunca leu livros como Noites tropicais (Nelson Motta), Roberto Carlos em detalhes (Paulo Cesar Araújo), Quem quebrou meu violão (Sérgio Ricardo) e A era dos festivais (escrito pelo técnico de som do festival da Record, Zuza Homem de Mello), as informações de Uma noite em 67 podem servir para derrubar mitos. Para quem conhece a extensa literatura sobre o período já feita no país, há muito documento e pouca novidade. É engraçado ver artistas hoje vetustos como Edu, Caetano e Chico com caras de pirralhos e pensar "quem diria, esse pessoal já foi jovem um dia..." Ou verificar que o início de carreira deles também foi marcado por uma certa manipulação. A ponto de caber ao aplaudidíssimo Chico Buarque fazer o papel de "mocinho" no evento. Ou a um reverente Gil, pressionado por amigos e pela direção do canal, participar de uma estranha manifestação hoje conhecida como a "marcha contra a guitarra elétrica", cuja ingenuidade envergonharia até mesmo alguns de seus mais ferrenhos participantes (como o pesquisador Sérgio Cabral, que admite a mancada aos diretores do filme). Os criadores do evento mal sabiam que aquilo tudo iria virar história - dependiam do Ibope, assim como os próprios concorrentes.

Os depoimentos atuais apontam para a tensão e as amarras do festival - e que já causavam estranhamento. Edu preferiu sair do Brasil após ganhar a competição. Chico pouco caberia no papel de bom moço com o passar dos anos, e diz nem nem lembrar mais como se toca Roda viva. Caetano reclama até hoje "não ter se livrado de Alegria, alegria como Chico se livrou de A banda", mas tenta ensinar o espectador como tocá-la no violão. Sérgio, caso à parte, reconhece: quebrar seu instrumento e atirá-lo à plateia do evento foi "coisa de garoto", mas assume seu susto com o esquema por trás dos festivais e com a proto-interatividade que já reinava nos musicais televisivos. Estigmatizado pela atitude que tomou na finalíssima, tem os sete minutos (incluindo o antes, durante e depois) de sua Beto bom de bola expostos no filme. Roberto Carlos, paraquedista em festivais da canção, canta com total segurança Maria, carnaval e cinzas, numa fase na qual necessitava de um pulo da Jovem Guarda para o público adulto - e, em entrevista feita para o longa, diz nem saber que um grupo estava preparado para vaiá-lo no festival.

O trabalho de pesquisa de Uma noite em 67 é impressionante e merece palmas. Além de mostrar as principais finalistas na íntegra, recuperadas das imagens do festival, recuperam a cobertura feita por Randall Juliano e Cidinha Campos - o primeiro, grande nome do radialismo e da TV, morto em 2006, causa risos ao aparecer fumando durante as entrevistas que faz. E o DVD ainda tem os extras, cabendo depoimentos inusitados de Chico Anysio (que diz odiar Ponteio, mas canta a música perfeitamente) e da desaparecida Marília Medalha.

"ACONTECEU EM WOODSTOCK" | ANG LEE (DVD) - No começo de Aconteceu em Woodstock, de Ang Lee, não dá nem para acreditar que aquele rapaz caretão, estilo CDF, filho de mãe histérica e de pai omisso, que troca a liberdade na capital novaiorquina para ajudá-los a administrar um hotel numa cidade interiorana no Estado, teria um papel tão importante assim no histórico festival de rock. Elliot Tiber, responsável por levar o festival de Catskills - de onde os organizadores haviam sido expulsos - para White Lake, contou sua história no livro de mesmo nome, e mostra como o festival mudou a história até mesmo de quem sequer apareceu por ali para assistir aos shows.

Com apresentações gratuitas (forçadas, vá lá), organizadores que estavam na mesma vibe do público e dinheiro a rodo rolando por todos os lados, Woodstock era importante até para quem ficava curtindo com os amigos nas kombis estacionadas ali por perto. É o que mostra o roteiro. A vida de Tiber, diga-se de passagem, ia na contramão de todo o sonho sessentista. Presidente da câmara de comércio da cidade, morando com os pais após os 20 anos - numa época marcada pelo espírito leave home - ele teria tudo para ser um personagem desinteressante, até resolver tomar a atitude de chamar Michael Lang, criador do evento, para conhecer o hotelzinho que seus pais administravam e as áreas próximas. Interpretado pelo comediante Demetri Martin, consegue não sumir na trama nem mesmo diante da força do evento - que, numa artimanha interessante do roteiro, é focalizado a distância, sem mostrar nenhum show ou ator interpretando artista.

O foco acaba ficando mesmo no público, nos criadores do festival (Jonathan Groff manda bem interpretando Michael Lang, a ponto do próprio, no extras, reconhecer que ver o ator em ação "era como sair do corpo") e no retrato de como o evento vai modificando toda a pequena cidade. Fora alguns momentos em que o roteiro parece estar contaminado pelo caos do período, misturando passagens aparentemente sem significado com momentos carregados de simbolismo (atenção para o final), Aconteceu em Woodstock valoriza-se pela originalidade ao buscar novas fontes e novas maneiras de se contar as histórias de uma época.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

ANTONIO CARLOS & JOCAFI

"Por onde andam fulano e beltrano?". A história da música está cheia de exemplos de gente que já fez MUITO sucesso e depois sumiu - ou porque o sucesso simplesmente acabou, ou porque a fonte de hits secou, ou porque a fadiga bateu, ou porque... porque... porque sim e pronto. Antonio Carlos & Jocafi, grandes nomes dos anos 70, deram um tempo na superexposição deixando um rastro de hits. Mas andam experimentando alguns renascimentos involuntários (graças a Marcelo D2 e, olha só, aos recentes shows de Stevie Wonder no Brasil) e continuam gravando e dando shows. Falei com os dois em duas ocasiões. A primeira, para uma matéria da Billboard, em junho de 2010. A segunda foi para o Laboratório Pop pouco mais de um ano depois, quando o cantor de Isn´t she lovely veio ao Rock In Rio e recordou o hit Você abusou - como sempre costuma fazer em países latinos ou ao falar com repórteres brasileiros.


SAUDADES DO ABUSO
Antônio Carlos & Jocafi preparam o retorno com disco de inéditas e série de homenagens a Jorge Amado
Publicado na Billboard em junho de 2010



Pergunte a seu pai, ou avô: em 1971, era impossível escapar de Você abusou, samba composto e cantado pelos baianos Antonio Carlos (Marques Pinto) e José Carlos Figueiredo (Jocafi). Era só ligar o rádio e lá estava a canção (“você abusou, tirou partido de mim, abusou...”), nas vozes deles, ou da então mulher de Antônio Carlos, Maria Creuza. A música se transformou em mania nacional, ganhou versões de Sergio Mendes e da cubana Celia Cruz, virou xodó de Stevie Wonder – que viera ao Brasil fazer show – e virou até hino político do Partido Socialista Francês, via François Mitterand. E foi seguida por uma série de outros hits de Antonio Carlos & Jocafi, numa fase de sucesso que se estendeu até 1986, quando emplacaram o samba de roda Tiê.


A dupla continuou gravando até os anos 90 e se apresentando regularmente – em 2003, o tema afro Kabaluerê, sampleado, virou Qual é, nas mãos de Marcelo D2. E agora prepara dois projetos: um disco de inéditas, que está sendo produzido devagarzinho no estúdio de Guilherme Arantes, na Bahia, e uma série de três CDs com músicas baseadas na obra de Jorge Amado, O amado filho de Ilhéus.


“Chegou uma hora em que tudo era igual a nós. Até mesmo a gente cantando parecia plágio nosso”, diz Antonio Carlos, tentando buscar uma explicação para o fim da fase de hits. Que foi prolífica. Classificados como artistas de samba, mostraram bem mais do que isso em álbuns como a trilha da novela O primeiro amor (1971, com o afro-infantil Hey Shazam!), Mudei de ideia (1971), Cada segundo (1972, com uma balada quase beatle na faixa-título), Definitivamente (1974, do sucesso Toró de lágrimas) e Elas por elas (1978), que uniam ritmos afro, música pop e psicodelia. “O Lanny Gordin (guitarrista-mor do tropicalismo) tocava em nossos discos. Ele só não podia subir no palco com a gente, porque acabava roubando o show só para ele. Fez isso com a Elis Regina uma vez e ela ficou p... da vida”, diverte-se Jocafi.

A notoriedade já existia antes de Você abusou – em 1967, Antonio emplacara Festa no terreiro de Alaketu, interpretada por Maria Creuza, num festival. Com a dupla formada, dois anos depois, apresentaram Você abusou em show na boate carioca Flag e logo tentaram emplacá-la nas vozes de outros cantores (Wilson Simonal e Agostinho dos Santos), sem sucesso. Mas o produtor Rildo Hora, que os contratou para a RCA (hoje Sony) em 1970, se interessou pela faceta mais gaiata e pop da dupla. “Gravamos uma música chamada Roberto, não corra, uma brincadeira com o Roberto Carlos, por causa daquela música As curvas da estrada de Santos”, lembra Antonio Carlos. 

Com a sequência de sucessos, afirmam, vieram uma série de ‘herdeiros’ da dupla, assumidos ou não. “O Jorge Aragão adora a gente. Mas os primeiros filhos foram mesmo o Benito di Paula, o Wando. Até Toquinho & Vinicius passaram a seguir na nossa linha”, acredita Jocafi, vendo filiação mesmo em dois outros artistas. “O João Bosco, que era da nossa gravadora e também era produzido pelo Rildo, veio com um som parecido com o nosso, aquela coisa de fazer a cuíca com a voz. E o Djavan, que já gravou música nossa (Presunçosa, da trilha de Supermanoela, de 1974), passou a seguir numa linha meio samba-funk, com letras falando de mar. Acho que ele gravou a gente e gostou!” .


A crítica, claro, caiu de pau em tamanho êxito. “Na época, se tinha um cara de sandália de dedo tocando, todo mundo ia atrás. Mas quem fazia sucesso, era tido como comercial. O Tom Jobim até brincava, quando era apresentado a alguém: ‘meu nome é Antonio Carlos Jobim, mas pode me chamar de Antonio Carlos Jocafi’”, lembra o xará baiano do maestro.


Alternando shows com aulas de música, trabalhos em estúdio com outros artistas e até projetos literários (Antonio Carlos escreveu Amazônia – Terra dos Xamãs e procura editora), os dois desfrutaram de pouca notoriedade por Qual é, que mantinha boa parte de Kabaluerê. Mas ficaram maravilhados. “O D2 foi maravilhoso. É uma música que nem era sucesso, e que hoje é pedida nos shows”, alegra-se Jocafi.


Teve mais Antonio Carlos & Jocafi na mídia - afinal, Stevie Wonder, fanático por Você abusou, viria ao Rock In Rio em 2011. E não deixou de levantar a plateia com o refrão de uma de suas canções brasileiras preferidas. Estava cobrindo o festival para o Laboratório Pop e lá fui eu bater um papo novo com a dupla.


NÓS TAMBÉM FOMOS!
Antônio Carlos & Jocafi, sucesso nos anos 70/80, não estavam no palco do Rock In Rio - mas foram relembrados por Stevie Wonder com seu hit Você abusou
Publicado no Laboratório Pop em 30 de setembro de 2011

Desde os anos 70, tem uma canção brasileira que não sai da cabeça de Stevie Wonder - e não é Garota de Ipanema, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, lembrada por sua filha Aisha Morris, na versão em inglês, no Rock In Rio nesta quinta (29). É o samba Você abusou, da dupla baiana Antonio Carlos & Jocafi, que tocou muito (mas muito) no rádio em 1971. E foi recordado, em português mesmo, pelo astro soul no Palco Mundo do evento, deixando os dois autores emocionadíssimos.


"Eu nem pude ver, porque durmo cedo. Minha mulher viu e gravou. Foi uma emoção bacana. O Stevie Wonder, sempre que vem ao Brasil ou fala de Brasil, canta Você abusou. Deixou a gente muito feliz", alegra-se Antonio Carlos, que mora na Zona Sul do Rio, ainda mantém a dupla com Jocafi e lançou um disco com ele em 2011, Santo Chico de Assis, só com músicas sobre o Rio São Francisco. E, mesmo não estando no palco do festival, deixou sua marca com a canção. "De alguma forma, estávamos lá, né? Nossa música estava no palco. Ter uma música cantada por Stevie Wonder e por aquele povaréu todo não tem preço. Aquelas 200 mil mãos para cima... Se tivesse visto na hora seria mais emocionante do que tomar aquele susto depois. Mas mesmo assim foi bacana".


Você abusou foi sucesso nacional em 1971  e atravessou as Américas. Na condição de grande hit da música latino-americana, rodou o mundo, gravado por nomes como Paul Mauriat e Sergio Mendes. Mas é Wonder que sempre relembra o refrão da canção em entrevistas com repórter brasileiros ou shows na América Latina. Apesar de muita gente pensar que Wonder chegou a gravar a canção, Você abusou não está em nenhum disco do cantor - que, de música brasileira, registrou Pretty world, versão em inglês de Sá Marina, de Antonio Adolfo e Tibério Gaspar, hit de Wilson Simonal.


"Acho  que ele conheceu Você abusou durante uma viagem para a Colômbia ou para a Venezuela. Foi fazer uma turnê e escutou no rádio", diz Antonio Carlos, lembrando do sucesso que a canção teve lá fora. "Na França, ela foi usada como hino do Partido Socialista local,,o que deu uma visibilidade muito grande para ela. Inclusive na França pensam que se trata de uma música francesa. Mal sabem que ela é brasileira". Na época do lançamento da faixa, Antonio Carlos & Jocafi eram top de linha, com muitos discos vendidos e até jingle para a petrolífera Shell, fazendo um samba-rock com cara nordestina que batia direto no gosto das rádios.


Os dois vêm sendo redescobertos, num processo que acontece desde a década passada. No disco À procura da batida perfeita (2003), Marcelo D2 sampleou o afro-rock-hit Kabaluerê e fez dele a base para o sucesso Qual é. DJs nacionais e estrangeiros descobrem o som da dupla e seus vinis - dos quais poucos saíram em CD - só trocam de mãos por preços caros.  Recentemente, um comercial de uma marca conhecida de sabão em pó usou Hipnose, samba lisérgico gravado pela dupla no mesmo disco de Você abusou (Mudei de ideia, de 1970) como tema.


E, falando em D2, no que depender do Palco Mundo nesta sexta (30), vai rolar Antonio Carlos & Jocafi duas vezes no Rock In Rio, já que o rapper carioca abre a noitada. "Ah, acho que ele nem é maluco de não cantar a música, né? Você abusou não é um sucesso do Stevie Wonder e ele cantou! Imagina se o D2 não canta Qual é? O D2 é um cara que sempre cita a gente, dá a maior força", diz Antonio, só meio chateado com a desinformação sobre a dupla. "Minha mulher me falou que um radialista disse que Você abusou era de Toquinho e Vinicius. Vê se pode? Mas vamos em frente".



quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

ROCK BRASILEIRO, O BAÚ


Uma vez, na sessão de cartas da extinta revista de música SomTrês, um sujeito, abusando da ingenuidade, arriscou perguntar: quantas bandas de rock existem no Brasil? Resposta óbvia: e alguém lá sabe? Ninguém consegue precisar quantas bandas existem ou já existiram por aqui. Ou quantas bandas obscuras ainda será possível descobrir, num baú que parece tão sem fundo quanto o das demos e gravações interrompidas de Jimi Hendrix.


O pesquisador Nélio Rodrigues é um desses caras que vibram com pérolas antigas recém-descobertas, como jornalista e colecionador de discos. Em seu livro
Histórias perdidas do rock brasileiro vol.1, lançado em 2009, expôs histórias de algumas delas - incluindo desde ilustres desconhecidos como Faia e Red Snakes, a grupos que muita gente já andou ouvindo falar por aí, como Módulo 1000. Bati um papo com ele para o Jornal do Brasil na época do lançamento do livro.


LIVRO REVELA HISTÓRIAS DE BANDAS DESCONHECIDAS DO ROCK NACIONAL
Publicado no Jornal do Brasil em 08 de setembro de 2009



Nos anos 60, o rock nacional parecia ter três vias, que às vezes se cruzavam em camarins de shows. A mais visível era a das bandas jovemguardistas, como Renato & Seus Blue Caps e Os Incríveis, onipresentes na televisão e no coração do povo. No meio, havia os Mutantes, banda com prestígio inabalável e vendagem razoável. A vertente que funcionava como pano de fundo no período é a que interessa ao pesquisador carioca Nelio Rodrigues, autor do recém-lançado Histórias perdidas do rock brasileiro Vol. 1 (Nitpress).

Rodrigues, também autor de Os Rolling Stones no Brasil e coautor de Sexo, drogas e Rolling Stones, ao lado do jornalista José Emílio Rondeau, prefere focar em bandas pouco conhecidas do Rio como Os Selvagens, Analfabitles, Red Snakes, Faia, The Bubbles (que depois viraria A Bolha), Equipe Mercado, Karma e Módulo 1000, que ajudaram a pavimentar alguns dos primeiros cenários subterrâneos do rock nacional.

"Foram bandas como Bubbles e Analfabitles que criaram a noção de um som da pesada mesmo, com a aparelhagem na frente do palco, impondo respeito", relata Rodrigues. "As bandas da Jovem Guarda usavam equipamentos pífios. Eram guitarras e amplificadores ruins. Os grupos novos até emprestavam equipamento para elas. Conjuntos como The Bubbles já tinham uma preocupação com iluminação e cenário que essas bandas mais populares não tinham".

Entre os fatores que contavam para que tais bandas estivessem na frente, diz Rodrigues, era o interesse por informações novas que eram conseguidas economizando mesadas para comprar revistas e discos importados.

"Em 1967 uma banda americana veio tocar aqui e trouxe um equipamento para light show, que fazia aquela iluminação psicodélica que chamavam de luz bolha recorda. Grupos como o Soma e The Bubbles compraram essa máquina. Eram essas bandas que tinham acesso a esse tipo de informação", lembra.

Além do interesse por novidades, a ousadia contava, e muito. Eram formações afastadas do iê-iê-iê que tocava no rádio e geralmente contratadas de heroicos selos independentes como o Top Tape, que lançou a estreia acid-rock do Módulo 1000, Não fale com paredes, de 1970, hoje reeditada até na Europa, e o inacreditável Orange, uma releitura cabocla da Apple dos Beatles, que chegou a lançar compactos do The Cougars e de Serguei. O que as ajudava a ganhar liberdade para ousar no palco e no estúdio.

"Num show do Sound Factory, uma menina simplesmente tirou a camisa perto do palco e começou a dançar", relata. "Já Os Selvagens conseguiram se apresentam num festival no Pavilhão de São Cristóvão para o qual não estavam programados. Foram lá com os equipamentos e se enfiaram no palco, sem pedir licença. Acabaram tocando. Nas apresentações do Módulo 1000, a banda falava para o público se sentar, porque o som viria do chão".

De tanto insistir, algumas bandas até arrombavam as portas do primeiro time do pop a seu modo. Foi o caso do Faia, que teve como baterista Luiz Moreno (que depois tocaria em O Terço), acompanhou Zé Rodrix na primeira gravação de Casa no campo, em 1971, e foi levado por Raul Seixas para testes na Philips, hoje Universal. Ou o Red Snakes, grupo do Grajaú que lançou em 1969 o LP Trying to be someone, repleto de composições próprias, pelo selo Equipe, e acabou abrindo vários shows para Wilson Simonal.

"Também fazíamos muita coisa com a Gal Costa e com Antonio Adolfo e a Brazuca", recorda o vocalista Alvaro Rodrigues, que hoje, ainda envolvido com música, atende pelo nome de Mattuzalém e conduz projetos ligados ao rockabilly pela noite carioca (Nota de atualização: Em 2000, bem antes disso, mantinha a célebre Geriatric Electric Band, que fazia shows pelas bibocas do Rio, sempre com sucesso). "Fazer rock era uma barra pesada. Arrumar equipamento era difícil. Lembro que conseguíamos alguns com um coroa que era a cara do Sherlock Holmes".

As drogas também fazem parte do livro e surgem em histórias como a da banda Karma, um dos raros exemplos de grupo de rock a gravar disco por uma multinacional (em 1972, pela RCA, atual Sony Music). O guitarrista do grupo passou a sofrer sequelas do uso de LSD, como explica Rodrigues. O lado anedótico do uso das substâncias ilícitas fica com a banda The Bubbles.

"Eram os doidões da época. Quando eles subiam no palco, jogavam baganas (restos de cigarros de maconha) para eles. Os músicos fumavam embaixo do palco e ficava um roadie com um spray disfarçando o cheiro", relata.

Aos 57 anos, nascido em Recife mas criado na Zona Sul carioca, Rodrigues começou a se interessar por rock desde cedo. Mas, biólogo de formação, só abraçou a pesquisa e as letras há menos de 10 anos, quando foi convidado pela editora Ampersand para escrever Os Rolling Stones no Brasil. Para o livro novo, além de escrever material inédito, resgatou textos seus que estavam no webzine Senhor F, do jornalista Fernando Rosa, e na revista de rock clássico Poeira Zine.

"O rock como fenômeno de massas é atrasado no Brasil. Só passou a ganhar mídia nos anos 80. Antes era uma vida de guerreiro, tanto que muitos desistiam e iam estudar" lembra Rodrigues, que promete no segundo volume das Histórias perdidas biografias de bandas como Os Lobos, Vímana e Veludo. "Mas é uma pena que, mesmo quando se fala dos anos 60 e 70, só exista espaço para Rita Lee, Raul Seixas, Mutantes. Muitos discos dessa época são melhores do que Raulzito e os Panteras, estreia do Raul Seixas (1967), por exemplo".


Nota de atualização: Se você frequenta as feiras de discos de vinil que volta e meia acontecem em terras cariocas - as últimas rolaram no Instituto Bennett, no Flamengo, Zona Sul do Rio - já esbarrou com Nélio Rodrigues. Ele negocia vinis e leva seus próprios discos para vender em algumas delas. "Acabo sempre com material duplicado", conta ele, que continua colaborando com a
Poeira Zine.


Rodrigues ministrou recentemente um curso em São Paulo sobre o rock brasileiro dos anos 50 aos 70 e também fez palestra na PUC do Rio para o primeiro curso universitário sobre os Beatles. Outra grande paixão, os Stones - personagens de seus dois livros anteriores - viraram temas de textos que publicou fora do país, em livros sobre a banda em Portugal e nos Estados Unidos. E, ah, vem aí o número 2 das Histórias perdidas do rock brasileiro. "Já estão prontos textos sobre O Terço, Soma, Módulo 1000, A Bolha, Os Lobos e outros", conta.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

RESENHOL (PARTE 2)



"QUINZE" - JOTA QUEST (CD) - Pode haver a hipótese de hoje, época em que CDs perderam valor, alguém resolver comprar  a coletânea Quinze, que repassa 15 anos do Jota Quest, só para, num arroubo de boa vontade, tentar perder o preconceito contra o popíssimo grupo mineiro?

Levando isso em conta, vai aí a má notícia: Fácil está no repertório e, ouvida e vista sob qualquer ângulo, é um chiclete de ouvido fraco, com uma letra que se recusa a fazer sentido. Mas dê um desconto. Quem tiver bom ouvido para referências bacanas, como Earth, Wind and Fire, New Order fase Technique (1989) e soul nacional dos anos 70, vai se deparar com canções bacanas nos dois CDs da compilação. Encontrar alguém, As dores do mundo (Hyldon), De volta ao planeta, O que eu também não entendo e Do seu lado (da lavra de Nando Reis) têm grandes atributos.  Ok, muitas vezes, o JQ padece por tentar reproduzir o que ouvia nas letras dos "grandes poetas" do rock nacional dos anos 80. E acaba atingindo um resultado apenas razoável em suas investidas, quando não fraco. Mas ainda há músicas como De volta ao planeta, Sempre assim e Dias melhores, com boas melodias e recados bem dados.

O complicado é que o Jota Quest acaba se tornando interessante por, no fundo, lembrar momentos da música pop nacional que pouco servem para vender o grupo para a crítica. Poucos jornalistas musicais entenderiam canções como La plata, Tudo me faz lembrar você e O vento como acenos à época em que quem dava as cartas no rádio brasileiro era um arranjador, compositor e produtor proscrito chamado Lincoln Olivetti - que, veja só, fez arranjos de cordas para Rogério Flausino & cia em alguns discos. Muitos desses mesmos jornalistas sequem entendem o suficiente de música pop verde-e-amarela para, no mínimo, saber ou gostar disso.

Boa parte das músicas do JQ lembram a fase menos popularesca e mais soul de (não fuja!) Fábio Jr - músicas como Já foi e Vem andar comigo poderiam estar no mesmo álbum que continha a clássica Pai, canção pop boa sob qualquer ponto de vista. Só hoje e Amor maior, além da inédita Coração, poderiam ter saído do violão do esquecido Guilherme Lamounier - gênio pop que escreveu Enrosca, gravada por Fábio Jr. e Sandy & Junior e hoje, sofrendo de esquizofrenia, permanece sumido do mercado.

Seja como for, com manadas de fãs e muitos discos vendidos, o grupo está no lugar certo: carreiras como a do Jota Quest só costumam ser redescobertas e revalorizadas após décadas e décadas de porradas. Que venham os próximos 15 anos.




"TUSKEGEE" - LIONEL RICHIE (CD) - Aquela velha frase que os mais velhos falavam sempre que recebiam um presente valioso e inesperado: "ah, não precisava...". Dá vontade de falar isso, mas sem as mesmas noções de valor e surpresa, quando se descobre que Lionel Richie resolveu reler seus hits em formato country, num disco gravado em Nashville - e que sai pela divisão local da Universal Music - com várias participações de nomes do estilo. Tuskegee sugere a partir do título uma volta ao passado - o nome do álbum é o da cidade onde o compositor nasceu e se criou, no estado americano do Alabama.


O repertório rebobina músicas que deram (muito) certo, o que já aumenta a responsabilidade. E até que tem algumas participações especiais bacanas (Darius Rucker, que foi do irregular Hootie & The Blowfish, manda bem em Stuck on you, assim como o grupo Little Big Town, em Deep river woman e a banda Rascal Flattes, na animada Dancing in the ceiling). Kenny Rodgers em Lady tem valor histórico e musical de alto nível. Só que... Bom, na ala das versões que incomodam os ouvidos, já dá para incluir os exageros vocais e instrumentais da releitura de Hello, com Jennifer Nettles (da dupla Sugarland). E a perda de quase toda a emoção de Endless love com Shania Twain, honrando todos os preconceitos que boa parte das pessoas têm com o estilo - a versão cruzou a linha fina entre o romântico e o brega e ganhou um tom country-divas, indesculpável. E tudo a ver com o trabalho dela, nada a ver com o de Richie.

Na área das que não influem nem contribuem, Easy, com Willie Nelson, pode virar hit nas casas dos fãs do velho countryman e herbífumo - ainda que lime-se todo o peso soul-rock da versão original (o coral do refrão sumiu e, no lugar, entrou uma gaitinha brocha, só para registro). No final, o legal: All night long, ultramegahit soul-latinesco de Richie, ganhou apenas um discreto tom acústico nas mãos de Jimmy Buffett & Coral Reefer Band. E Pixie Lott dá um ar teen-rock interessante para Angel. Só que... ok, não carecia.




"ALL YOU NEED IS NOW" - DURAN DURAN (CD) - Tem quem, cronologicamente, seja uma criança bonita, daquelas que ganham montes e montes de beliscões na bochecha. E depois se transforme num adolescente feio, num adulto mais ou menos apresentável e, ao ultrapassar os 40 anos, ganhe charme maduro e comece a ser chamado de "gato" por aí afora.

Fisicamente, não é o caso dos veteranos do Duran Duran. Mas musicalmente talvez seja. A banda que lançou discos excelentes no começo da carreira (Rio, Seven and the ragged tiger, de 1982 e 1983, respectivamente) patinou muito na sequência. Pouco antes de dar seus primeiros shows no Brasil, voltaram às lojas com o desinteressante Notorious (1986). Retornaram com um bom disco em 1993, Duran Duran (o wedding album, do belo hit Ordinary world), mas cheio de poréns - como a deslocada participação de Milton Nascimento na fraca Breath after breath. Soou como se o garotão sofrido do começo do texto, lá pelos 14 anos, surpreendesse os amigos ao faturar uma bela gata numa festa de fim de semana - mas logo voltasse à realidade e frustrasse a si próprio e a todos em volta com pés na bunda, tocos impensáveis e atitudes erradas. No caso do DD, os micos foram o disco de covers Thank you, de 1995 - que arrasava até com Bob Dylan e Public Enemy - e o cabisbaixo Medazzaland, de 1997). Sopros de vida foram acontecendo desde então, com Red carpet massacre, de 2007. Mas nada tanto assim.

Abençoados pelo (talvez) desejo de retornar ao passado e ajudados pelo produtor Mark Ronson, grande fã da banda, Simon Le Bon, Nick Rhodes, John Taylor e Roger Taylor voltam a dizer a que vieram em All you need is now, disco que, inicialmente, traria influências da cena atual de música eletrônica e dance music. Acabou saindo um bom disco de rock dançante. Há toques eletrônicos em canções como a faixa-título, Blame the machines, Safe (In the heat of moments) - esta, com vocais de Ana Matronic, do Scissor Sisters - e The man who stole a leopard. A marcação cerrada de guitarra-baixo-bateria que marcou canções como Hungry like a wolf volta em boa forma e os refrões lembram, por diferentes caminhos, o passado irretocável do grupo. Dá até para enganar que se trata de alguma banda nova, mas é apenas um grande retorno de uma banda que já foi gigante. E ameaça voltar a ser.|

Resenhas acima publicadas no Laboratório Pop

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

ROLLING STONES DANDO MEDO



Quem conheceu os Rolling Stones a partir dos anos 80 não pôde ver de perto a banda ultrajante que eles foram durante os anos 60 e 70. Só ouviu falar. Mas sentiu os respingos.

Quem conheceu o grupo em 1989, a partir do megalançamento do retorno Steel wheels (meu caso), já viu outra coisa. Nessa época, o grupo destituiu históricos companheiros de trincheira, como o mitológico Bill Graham, que produziu várias de suas turnês. Aumentou os preços dos ingressos de seus shows e tornou difícil a tarefa até de conseguir comprar tíquetes para algumas apresentações. Passou a trabalhar com empresas e equipes corporativas,  gente bem mais interessada em negócios do que em música. Uma pedra que já vinha sendo cantada, ok. Mas agora tudo virava oficial.


A partir daí, a cara da banda passou a ser bem mais a do control freak Mick Jagger (interessadíssimo em trocar ideias com novas gerações do rock), e bem menos a do doce radical Keith Richards. Uma realidade que aparece num livro lançado em 2009, mas que só li há duas semanas, Under their thumb, escrito pelo jornalista americano Bill German - autor do fanzine oficial dos Stones, o Beggar´s Banquet, que levou adiante entre 1978 e 1996.


Ok. Muito tempo antes, nos anos 60, os Rolling Stones eram isso aqui.


Essa cena é de Charlie is my darling, primeiro documentário realizado sobre o grupo, lançado em 1965, e que sai em DVD no Brasil. Entre respostas abusadas em coletivas de imprensa, atuações animais no palco e passagens de histeria coletiva nas plateias, os Stones eram a banda mais perigosa do mundo. Bom, ao menos aparentemente. Lemmy Kilmister, vocalista do Motörhead, defende no doc Lemmy que este posto pertence aos Beatles e ponto final ("os Stones eram filhinhos da mamãe", provocou).

O equivalente auditivo de Charlie is my darling é um dos discos mais bizarros já lançados pelos Stones. É seu primeiro álbum ao vivo, Got live if you want it, lançado apenas nos EUA, em dezembro de 1966 (há um EP com o mesmo nome, mas sem a mesma relação de faixas, editado na Inglaterra um ano antes). Uma verdadeira maçaroca sonora, que sofreu alguns acertos em estúdio (Fortune teller e I´ve been loving you too long eram faixas já prontas que ganharam aplausos ao fundo), mas continuou podre como ninguém poderia imaginar. Satisfaction virava quase um pré-hardcore. Lady Jane perdeu toda a beleza quase barroca do original e ganhou um "papapapa/uou uou, sha la la la" fuleiro. The last time ficou mais ameaçadora ainda, com direito a uma intro inspirada em Satisfaction. Já a nervosa Have you seen your mother, baby, standing in the shadow?, abre com ruídos, microfonias e guitarras que poderiam estar num álbum dos Garotos Podres.


Quem nunca ouviu, ouça. É para correr atrás de um tempo que não vai voltar jamais. E que chama a atenção para os tempos atuais, em que o rock não oferece nem perigo nem surpresa.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

"NO CÉU NÃO TEM BUNDA MOLE!"


Quem diz a frase acima é uma pessoa que entende bem dessa história de "céu" - e que manda muito bem naquilo que sabe fazer de melhor: música. De volta aos palcos - e ao lado do filho Pedro Baby, que se destaca como compositor e guitarrista - Baby do Brasil hoje está bem mais próxima da mídia e aguarda para breve o lançamento de um doc sobre sua obra e sobre sua conversão ao cristianismo, O apocalipse segundo Baby, de Rafael Saar.


Em 2010, quando estive com ela para uma matéria que sairia na
Billboard, ela estava envolvida em uma pequena polêmica sobre o fato de ter impedido que imagens suas aparecessem em outro documentário, Os filhos de João, de Henrique Dantas, contando a história dos Novos Baianos, sua banda de origem. E preparava dois álbuns - um de som gospel, o outro mais chegado em MPB. Uma das maiores cantoras do Brasil, Baby vai retornando aos poucos para mostrar uma lição básica, e que hoje em dia muitos (entre músicos, críticos e público) parecem não ter entendido bem: se no céu não tem lugar pra bunda mole, na Música (com M maiúsculo), tem menos lugar ainda para seres com glúteos  flácidos. Ou deveria ter.



CRISTÃ & CASCA GROSSA
Com dois discos novos, a evangélica Baby do Brasil tenta vencer preconceitos e chegar às rádios e TVs unindo MPB e gospel. Para quem já quebrou tantas barreiras, não parece impossível.
Publicado na Billboard em março de 2010



Vocês se lembram da minha voz? Continua a mesma. Mas os meus cabelos estão violeta!", brinca Bernadete Dinorah de Carvalho Cidade, aliás Baby do Brasil (ou Baby Consuelo, como foi chamada até os anos 90), 58 anos. Como se alguém precisasse ser lembrado da cantora niteroiense infiltrada entre os Novos Baianos e que, já na virada dos anos 70 para os 80, se transformaria na terceira via entre a envelhecida MPB e o juvenil rock nacional. Sua trajetória, regada a samba, rock, choro e jazz, rendeu discos esmerados (a trilogia O que vier eu traço, Pra enlouquecer e Ao vivo, lançada entre 1978 e 1980, totalmente fora de catálogo) e hits como Cósmica, Telúrica, Menino do Rio. Ela será contada em breve pelo documentário Baby, do Brasil, assinado por Rafael Saar, também co-diretor de Olho nu (ao lado de Joel Pizzini, e em parceria com o Canal Brasil) sobre a carreira de Ney Matogrosso (Nota de atualização: Hoje, o doc sobre a cantora se chama O apocalipse segundo Baby).


Após seu último grande sucesso, Sem pecado e sem juízo (que saiu em... 1985!), Baby emendou o mergulho no esoterismo, a separação do guitarrista Pepeu Gomes, o recolhimento em família ("precisava cuidar da cabeça das crianças", diz), outro casamento (com o guitarrista Nando Chagas, que durou oito anos) e a conversão à fé cristã. Um movimento desconcertante e muito particular que a grande mídia não absorveu.

"Minha música, como Baby Consuelo, toca muito em rádio. Sem pecado e sem juízo, que já tinha uma mensagem, até hoje. Nos Estados Unidos, o Stevie Wonder, que é cristão, faz crossover da música secular com a gospel e ninguém acha ruim. Por que as pessoas não podem deixar fluir mais o lado espiritual? Agora mesmo fez sucesso o 'entra na minha casa/ cuida da minha vida' (Faz um milagre em mim, hit católico adotado por artistas de axé). As pessoas precisam ouvir mais isso!", conclama Baby, hoje evangélica, capelã internacional (ordenada em 2009), "popstora" e criadora da igreja Ministério do Espírito Santo de Deus. Dona do um estúdio de ensaio em Botafogo, Zona Sul carioca, onde costumam acontecer cultos, ela divide-se entre Rio e São Paulo, onde costuma frequentar igrejas como a Bola de Neve Church, da qual participa do ex-raimundo Rodolfo Abrantes. "Mas evangélica é só um título. Eu sou cristã e casca-grossa. E não vai ter bunda mole no céu, só casca-grossa", enfatiza, entre gargalhadas.

O documentário é necessário para que o nome da cantora seja, ainda que levando em conta sua religiosidade, associado com o que realmente merece: música. "A Baby não é reconhecida pela grande importância que ela tem", diz Saar. Fato:  se Claudia Leitte e Ivete Sangalo são hoje grandes estrelas e mulheres de negócios, que agradeçam à Baby. "Ela foi a primeira cantora de trio elétrico, além de ter tido todo o pioneirismo dos Novos Baianos. E ainda hoje é uma das poucas cantoras de chooro, que canta nesse estilo. Queríamos fazer um vídeo sobre essa busca espiritual dela. Mas sem ser gospel! Um filme sobre como ela associa a religião à música brasileira. Todos os aspectos dela vão estar no filme. Por isso optamos por chamá-lo de Baby, do Brasil", explica o diretor.

O momento é propício para que se recoloque a carreira de Baby nos trilhos. A cantora prepara dois discos: um, gospel, gravado nos Estados Unidos, produzido por Tom Brooks, figurão do gênero, e com partcipações de supermúsicos como o baixista chicano Abe Laboriel e o cantor americano "de louvor"  Ron Kenoly. O segundo álbum é Baby do Brasil - da MPB ao gospel,  que expõe as duas facetas. "Quem não me conhece cantando gospel, ou não gosta, vai ter o lado MPB para ouvir", raciocina Baby, cujo último disco, Exclusivo para Deus, saiu, independente, em 2000, um ano depois de sua conversão e de ter montado a igreja. De lá para cá, choveram convites de gravadoras cristãs, todos recusados. "Quis calar a boca das revistas que falavam que eu estava fazendo uma jogada de marketing. Não estava nessa para vender CD", afirma.

A busca espiritual, afirma Baby, sempre esteve presente em sua arte. Desde os tempos dos Novos Baianos, grupo ao qual pertenceu até 1979 e que, lembra ela, já fazia letras de inspirração cristã (como a inédita O caminho de Pedro) e se reunia para a leitura das escrituras divinas. "Quando falam em Novos Baianos, costuma-se supervalorizar essa questão da maconha", defende Baby, ciente de que o verniz canábico novobaiano não combina lá muito com as passagens bíblicas. "As drogas passaram pela gente, experimentamos, mas ninguém ficou viciado porque saímos fora quando nos demos do que era aquilo. Nosso foco era mesmo a música. O que você acha que sairia de umg rupo que tinha como integrantes Dadi, Jorginho Gomes, Pepeu Gomes, Moraes, Baby? Se batessem num pedacinho de ferro sairia música".

Com divosões vocais elogiadas mundialmente, carreira solo repleta de hits, participações marcante no clássico disco Acabou chorare, dos Novos Baianos (1972) e fãs como Marisa Monte, ela teoricamente não precisaria provar mais nada para ninguém. Mas luta para mostrar sua música de louvor. "Meu som é completamente pop. Tem um coral black da pesada, é gospel mesmo", avisa Baby.

Curiosamente: Shimbalaiê, da supernova Maria Gadú, lembrando um canto de capoeira, foi recebida de braços abertos por todas as rádios de MPB. Enquanto para uma cantora sofisticada como Baby sobram epítetos como "louca", "crente" etc. Levo a questão para Baby, que não comenta a canção da colega mais nova, mas não deixa de rebater: "Não pode haver discriminação. Assim como as músicas que têm um lado de canbomblé tocam nas rádios, que a gente também possa levar um som gospel de qualidade. Você pode até pensar 'ah, eu não aguento mais ligar a TV e ver gente falando de Cristo'. Mas é a real! Ele é o cara! Isso é poder ou não é?", empolga-se.

Ao contrário do que acontece com outros convertidos, o passado "secular" não constrange Baby. "Sempre quis passar mensagens espirituais nas minhas letras. Mudaria muito pouca coisa em músicas minhas", garante ela, que já passou um bom tempo em rodinhas de evangélicos explicando o que queriam dizer canções como Telúrica e Cósmica, das quais gosta. "O telúrico é diferente do terrestre, é o cara que não vende a mãe, por exemplo", explica. Baby não renega nem mesmo O mal é o que sai da boca do homem. Sim, aquela do verso "você pode fumar baseado/baseado em que você pode fumar quase tudo", que foi censurada em 1979 - ao ser incluída no festival global MPB 80 - e quase levou Beby e Pepeu para a cadeia. "Nessa música, falamos em 'contanto que você possua, mas não seja possuído'. Era um alerta para quem estava nas drogas, mas sem caretice. Tudo o que a gente coloca para dentro que vai nos dopar irá interferir no que sai da nossa boca". Músicas antigas de seu repertório que têm letras mais "espirituais", como Minha oração e Para haver amor entre os homens, gravadas nos anos 80, podem reaparecer  em lançamentos posteriores.

E a combinação maior entre o passado e o presente rolou neste carnaval, quando Baby esteve à frente do Trio Elétrico Gospel - no último domingo de carnaval, no trajeto do Campo Grande, em Salvador. "Se a Bahia pode cantar os cânticos de candomblé, qual o problema de chegar lá e cantar os louvores, desde que isso seja bom?", diz, preparada para rádios, TVs e para os paus e pedras que certamente virão. "Vamos respeitar todas as religiões, até porque é o mesmo cara, há dois mil anos. É só chamar que ele está aí".

MARAVILHAS NO RETROVISOR
Para conhecer o repertório antigo de Baby, só indo aos sebos: muitos discos saíram em CD, mas todos estão fora de catálogo

O QUE VIER EU TRAÇO (1978, WEA) "Por mim todos os meus discos teriam esse nome. A frase é a minha cara", diz. Sequência natural do chorinho elétirco dos NB, tem clássicos como Ele mexe comigo (Pepeu/Galvão/Baby).

PRA ENLOUQUECER (1979, WEA) "Fazendo show e sendo mãe de quatro filhos, o título só podia ser esse!", graceja. O sucesso bate à porta com Menino do Rio (Caetano). Ademilde Fonseca solta a voz em Apanhei-te cavaquinho.

AO VIVO EM MONTREUX (1980, WEA) "O público ficou louco com essa gravação", lembra Baby,que considera Minha oração o começo da sua bandeira espiritual. Tem também Toda donzela e Eu e a brisa (Johnny Aldf)

CANCERIANA TELÚRICA (1981, WEA) "Eu acreditava em astros, mas isso hoje em dia não me pega mais", diz. Telúrica e Um auê com você, além de Todo dia era dia de índio (Jorge Ben) foram os grandes hits. MPB pop com atitude roqueira.

CÓSMICA (1982, WEA) A faixa-título entrega o ouro, "evolução espiritual para ser transcendental", alegra-se. Traz Emília, a boneca gente, gravada para o especial Pirlimpimpim, e retorna ao NB em Se eu quiser, eu compro flores.

KRISHNA BABY (1984, CBS) "Eu tiraria só o 'rá!' da capa", diz Baby, que posa grávida do quinto filho, cujo nome batizou o disco. Em fase mais família e pop, abre com Barrados na Disneylândia e prossegue entre o idealismo e o romantismo.

SEM PECADO E SEM JUÍZO (1985, CBS) "Pedi a Deus que me ajudasse a fazer uma música que o Brasil inteiro cantasse". Impulsionada pela novela Roque Santeiro (1985), a faixa-título foi o grande hit, ao lado de Que delícia.

ORA PRO NOBIS (1991, Som Livre) "Voltei à gravadora que lançou os Novos Baianos, mas ela não estava numa fase tão boa". Primeiro disco sem Pepeu (e já com Nando Chagas) teve em Planeta azul um quase-hit.

UM (1997, BMG) "Uma pena que esse disco não tenha feito sucesso".Produzido pelo americano Greg Ladanyi, investe num lado sexy e fashion, com batidas eletrônicas e vocais do SNZ, de suas três filhas. Sexy sexy tocou no rádio.

BABY DO BRASIL ACÚSTICO (1997, GPA) "Soube que compraram esse disco por R$ 500. Ele é raro!" Traz execuções irrepreensíveis de seus grandes hits e completa-se com Mania de você (Rita Lee) e O farol da Barra (Novos Baianos).


CRIAS DE BABY
Sem ela, nada disso existiria

KATÊ Loira gatíssima, é a nova aposta de Ivete Sangalo para o posto de "nova musa da música baiana" e canta em trios. Mulher cantando em trios? Pois é, Baby foi a primeira, bem antes de Ivete.

MARISA MONTE E TRIBALISTAS A fase mais hippie da cantora, durante a qual chegou a reler A menina dança, e que foi desembocar em Infinito particular (2006), descende diretamente do trabalho de Baby com os Novos Baianos. Músicas doidonas e espiritualistas como Mary Cristo também.

TRIO CARNIVALHA Misturando rock e música baiana, saiu neste carnaval trazendo como cantoras as roqueiras Pitty e Nancyta Viégas, além da banda Radiola.

SNZ Conexão óbvia: a banda das filhas Nanashara e Zabelê (o "s" é de Sara Sheeva, que largaria o grupo para virar pastora) tem tudo a ver com o lado pop do som da mãe. Agora, Nana e Zabelê estão em carreira solo e preparam discos para breve. "A Zabelê tem um lado brasileiro e pop muito forte. Nana tem um lado de refrão que lembra muito o pai", baba a mãe.

SCRACHO Misturando punk, reggae e MPB, a banda carioca, que lançou o DVD MTV Apresenta, regravou recentemente A menina dança. Na bateria (instrumento que Baby, por sinal, anda namorando), tem uma garota, Debora Teicher.

RAIZ DO SANA Banda de forró do Sana, na região serrana do Rio, tem uma mulher no vocal (a bela Tati Veras, que gravou o último DVD do grupo, na Fundição Progresso, grávida) e letras doidonas e visionárias como Ave de sol.

BABY DOCS
Tema de um documentário em finalização, a cantora é a grande ausente em filme sobre os Novos Baianos

Os filhos de João, de Henrique Dantas, revisita a história dos Novos Baianos. Filmada durante 11 anos, a obra sensibilizou a plateia do último Festival de Cinema de Brasília, saindo com o prêmio especial do júri. E traz depoimentos de quase todos os que viveram intensamente o período de Novos Baianos (inclusive Tom Zé, que apresentou Moraes Moreira a Luiz Galvão). O filme acabou ficando sem depoimento de Baby, que aparece apenas em imagens antigas. Em jornais, chegou a ser publicado que ela teria pedido cachê. 

"Eu não pedi para tirarem minhas falas. Falei só que algumas coisas tinham que ser tiradas porque não batiam com a realidade", esclarece Baby. "Galvão pediu que algumas coisas fossem tiradas e tudo saiu, depois de muita luta. Aí depois soube que o diretor tinha tirado tudo". Baby não esconde que a questão financeira pesou. "Soube primeiro que era um filme feito para um trabalho de faculdade. Quis assinar um papel para uma produção que abençoasse o grupo e toda a equipe financeiramente. Soube depois que tinha saído uma verba e falei: a gente tem que ver isso. Pelo tipo de contrato assinado, os direitos ficam para quem filmou. A grana disso vai para onde? Isso tudo aconteceu antes mesmo de eu receber o convite do Rafael (Saar). Vazou que a Baby estava jogando duro com a galera, mas estou só defendendo os direitos de um grupo manso e calmo, mas que jamais ganhou dinheiro". 

Dantas, por sua vez, explica que, com a verba que recebeu para o filme, de R$ 212 mil,vai pagar o grupo. E que ficou amigo de quase todos os principais integrantes dos NB. "O problema é que a Baby queria una porcentagem que a gente não tem condições de dar, porque isso iria prejudicar a gente até a arrumar uma distribuidora. Por algum motivo, ela achou que eu estava colocando todo o dinheiro no meu bolso. Mas eu fiz prestação de contas para todos. Não ganhei grana com o filme", defende-se Dantas. Ele garante que em momento algum foi dito a Baby que o filme era para um trabalho universtário e ainda pensa em reconciliação. "Se eu tivesse dinheiro, colocava a parte dela de volta, feliz da vida. Foi o depoimento mais bonito do filme".


Nota de atualização:
O apocalipse segundo Baby continua sendo filmado. Na época da matéria, Saar estava indo com sua equipe e com a cantora a Salvador. "Faltam hoje cenas no Rio e o caminho de Santiago de Compostela, mas continuamos 
sem patrocínio", afirma Saar, que está também dirigindo um documentário sobre a dupla Luhli & Lucina - leia mais sobre isso aqui, nesta entrevista com as duas feita por Pedro Alexandre Sanches. 

Saar explica que Baby já gravou o novo disco gospel, Geração guerreiros do apocalipse, que ainda não foi lançado. E que deve sair um CD e DVD com o show ao lado de Pedro Baby - sobre isso e sobre as apresentações dele ao lado da mãe, leia essa matéria de Kamille Viola.



terça-feira, 15 de janeiro de 2013

AMY, AMY, AMY



Sobre esse papo de shows que falei ontem, lógico, lembrei logo da apresentação da Amy Winehouse no Rio.


Foi o primeiro show internacional de 2011, logo no dia 10 de janeiro. A vinda dela para cá rendeu altas histórias (Google, por favor, estou com preguiça de procurar). E a primeira apresentação, a qual assisti, deixou muita gente bem puta.

Para começar a noite, o tráfego maluco até a Barra impediu muitos de assistirem ao show de abertura - de uma Janelle Monaé na ponta dos cascos. Chegando lá, após 1h03 de show (e pouco mais de quarenta minutos de uma apresentação de Amy Winehouse de fato, já que ela deixou o palco em alguns momentos e botou um de seus vocalistas para cantar), o que eu vi foi isso aí que segue abaixo. E que saiu na madrugada seguinte no Laboratório Pop.


Nota importante: fiquei chocado com a morte absurda de Amy, sou fã dos dois discos dela e prefiro ela viva e fazendo um show de merda (que foi o que ela fez aqui em sua primeira apresentação carioca), do que morta.



DANDO MOTIVO PARA IR EMBORA
Altos, baixos e saídas do palco: Amy Winehouse não suou pelo dinheiro dos fãs cariocas
Publicado no Laboratório Pop em 11 de janeiro de 2011


“Pô, o show da Amy Winehouse, quando ela vai, é pior que os do Tim Maia em que ele não ia”, disse alguém em meio à balbúrdia da HSBC Arena, no Rio, nesta segunda (10), dia em que 15 mil cariocas se espremeram num trânsito que parecia não ter fim, com o objetivo de assistir ao show de uma novata na ponta dos cascos (Janele Monáe) e de uma estrela (Amy Winehouse), que parece não ter entendido bem que não estava fazendo uma apresentação num clube pequeno, na esquina da casa dos frequentadores. Ao vivo, ela e sua banda conseguiram a proeza bisonha de fazer um show pocket para uma arena multiuso lotada – e pareciam ter guiado o timão para o bistrô de uma megalivraria.


Se o quase setentão Paul McCartney, há pouco mais de um mês, em SP e Porto Alegre, suou litros honrando cada centavo gasto por seus fãs, Amy parecia estar necessitando do cuidado de seus músicos e de seu público. Não que o LABORATÓRIO POP vá engrossar o coro dos que veem a cantora-problema inglesa como uma pseudo-artista neurótica e sem talento. Ninguém solta a voz em canções quase perfeitas como Valerie, You know I'm no good, Rehab e em baladas interessantes como Love is a unholy war sem doses consideráveis de pendor, voz e convicção. A questão é quando o jornalista, que não paga para ir a shows, volta para casa pensando que estaria bem chateado se tivesse desembolsado qualquer quantia para assistir Amy cantar por pouco mais de 40 minutos.


Bom, na verdade, foram uma hora e três minutos de show - durante os quais ela saiu do palco, olhou para o chão como se estivesse lendo as letras, pouco encarou a plateia, deixou a banda tocando sozinha e fez mais a festa da parcela do público que passava o tempo gritando coisas como “diva!”. À banda, coube a tarefa de mostrar que o som de Frank (2003) e Back to black (2007), os dois discos da menina, não foram tirados do armário e mereceram trabalho duro e poças de suor no chão dos estúdios. Só que, quando o principal do show de uma cantora são seus músicos – inferiores a outros tantos encontráveis em cada bar do Rio - o rombo no bolso deveria começar a pesar mais. Ou não?


No começo, após meia hora de atraso, o show parecia que iria engrenar, graças a bons hits como a dançante Just friends e a irresistível Back to black. A releitura de Boulevard of broken dreams, canção de Al Dubin e Harry Warren relida por nomes como Tony Bennett e Marianne Faithful, veio num clima simpático de cabaré (e muitos deve ter lembrado que a música foi feita originalmente para a trilha do filme Moulin Rouge, o original, de 1934) e culminou com Amy fingindo desmaiar no colo de Zaion, o mais expansivo de seus vocalistas. Em Tears dry on their own, o som da arena – que parecia incrivelmente nítido havia pouco – começou a desandar, transformando a voz de Amy num chiado. Em Lovers never say goodbye, a cantora esqueceu a letra e teve um ataque de riso – e o bom senso se foi de vez, como se algo batesse na artista e a tirasse do foco. Fora isso, há muito o que falar sobre a experiência de ver a cantora no palco, num vestido justíssimo, emanando um charme diferente - que lembra uma antiga personagem de desenho animado ou de quadrinhos, ou a própria encarnação, extremamente sedutora, de sua You know I'm no good. Evitemos considerações e achismos sobre o que ela foi fazer nos camarins enquanto deixava Zaion, o tal vocalista, ganhar uma sequência solo de duas canções – brilhante, diga-se. Mas em um show tão curto, não foi uma boa ideia.


Resfolegando e poupando a própria voz, aos 27 anos, para poder fazer a alegria da plateia em Rehab e Valerie (as mais cantadas pelo público) e para encarar o resto da turnê, Amy Winehouse deixou que dois momentos em que ela não estava no palco falassem mais por ela do que sua boa releitura de Boulevard of broken dreams. Ao terminar seu momento solo, Zaion começou a bradar à plateia “vocês querem mais um encontro com Amy Winehouse??”, como se a arena fosse uma boate e a artista principal do show fosse uma garçonete que serve mesas e, como cortesia, também canta.


No fim, Amy deixou o palco, sua banda engrenou uma releitura do ska sessentista You're wondering now (gravado por ela e por uma gama de artistas que vai de Specials e Skatalites a Ultraje a Rigor) e ela sequer voltou para se despedir. Dinheiro jogado fora? Mesmo podendo cantar Back to black acompanhando a cantora da música, há quem tenha achado.


Foto: AG News

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

SE A VIDA COMEÇASSE AGORA, CUSTARIA MAIS DE R$ 700


Janeiro já foi mês de festival de rock. Rock In Rio, em 1985 e 1991, Hollywood Rock em vários anos (como o de 1996, o último, no qual eu estive). Já foi mês de pegar toda a mesada e gastar com um festival de rock, e toda a parafernália que estava em volta (comida, bebida, camisetas, bandanas - sim, isso já esteve na moda). Ok, isso quando eu ainda recebia mesada ou ganhava um salário magro de estagiário ou qualquer coisa dessas.

Hoje, não é mais assim. Lógico: eu não recebo mais mesada, eu trabalho - se quiser gastar com minha ida a um Rock In Rio, vou ter que sacrificar o dinheiro do aluguel, ou algo do tipo. E, veja só, ir a um show tornou-se uma experiência sacrificante, no sentido financeiro. Pagar um ingresso cujo valor traz três dígitos é uma merda. Nem sempre foi assim. Lembro de ter visto Ozzy Osbourne, Faith No More e Paradise Lost no antigo Metropolitan (hoje Citibank Hall) pagando menos de R$ 100 e achando caro. Isso foi em 1995, mesmo ano em que vi os Rolling Stones no Hollywood Rock - com Barão Vermelho, Rita Lee e os mal-amados Spin Doctors na abertura - e o preço não era nenhuma facada.

O sacrifício rola no sentido pessoal também. É complicado aturar uma plateia que tem dinheiro para pagar por um ingresso caríssimo. O Brasil não evoluiu nada ao entrar na rota de shows internacionais - como lembrou o jornalista Luiz Cesar Pimentel, do R7. E muito menos na formação de plateias. Quem tem mais dinheiro é quem menos dá valor ao que está assistindo - seja celebridade, seja um zé-ruela com grana no bolso. Sempre foi assim e sempre será. Mas é claro que tudo piora quando um ingresso custa R$ 700.

Experimente assistir a um show lá da frente, e outro no meio da plateia, na área intermediária, ou junto ao povão. Fui de uma área às outras durante o show da Amy Winehouse no HSBC Arena, em janeiro de 2011 e era menos custoso ouvir o show em meio aos gritos dos fãs. E bem mais sacrificante ficar no verdadeiro mercado de peixes que era a pista prime, com celebridades conversando em cena aberta.

Dois anos antes, eu tinha assistindo ao REM no mesmo HSBC Arena. Não estava nem cobrindo, mas trabalhava num jornal e entrei lá de bobeira como "imprensa" só para ver o show - coisa que não gosto de fazer, já aviso. Uma ex-celebridade, que estava na mídia por motivos bizarros, passou boa parte do show na pista prime, de costas para o palco, conversando - disseram depois que, por causa de uma lei que a impedia de se aproximar de uma determinada pessoa, ele preferiu ficar encarando o público, visando sair fora assim que a tal pessoa surgisse e a coisa fedesse. É o que você mais vê por aí afora (e, lógico, a pergunta a se fazer nessas horas é: "Então por que você foi ao show?").

Duvido muito que o fracasso dos ingressos da Lady Gaga tenha ensinado alguma coisa a alguém, porque todo mundo já está cansado de saber que ninguém aprende nada nesse país. O problema é quando a ganância de uns e outros e o alto preço dos ingressos confundem-se perigosamente com a apatia e a futilidade de quem consome música. É foda.