sexta-feira, 30 de novembro de 2012

O ROCK DO CAETANO


Caetano Veloso lança disco novo, Abraçaço. Segue aí um textinho que fiz em 2007 sobre o disco , o primeiro disco dessa série que rendeu comentários do tipo "isso é rock ou não é?". Saiu acho que no meu antigo blog, mas depois foi publicado pelo site Galeria Musical.


"CÊ" - CAETANO VELOSO (Universal)


O modus operandi de Caetano Veloso causa mais discussão do que sua própria música - como se o discurso que está por trás de seus discos falasse mais alto que seus próprios discos. Traduzindo para os leitores: Caetano quer mesmo é chamar atenção. Quer que a imprensa fique discutindo dias e dias a fio o seu último lançamento. A música fica em segundo plano. Às vezes, mesmo assim, a coisa dá certo - e ele passa por intelectual, coisa que ele é. Às vezes, não acontece nada disso.

, o (perdi a conta)º disco do cantor baiano, já está chamando a atenção por suscitar discussões por aí afora, sempre com um único tom: isso é rock? Pois é, vamos aos fatos. Caetano, um cantor e compositor que tem passado os últimos tempos em estado de suspensão (Circuladô vivo, disco duplo ao vivo de 1992, foi seu último lançamento que realmente prestou - e nem era um disco de inéditas) resolveu - vá lá - pelo menos mostrar que não está tão morto assim. E isso em todos os sentidos. Após acabar seu casamento de vários anos com a empresária Paula Lavigne, ele dediciu recrutar os amigos do filho Moreno Veloso - já vinha trabalhando com alguns deles, aliás - e tentou mostrar que vem se atualizando musicalmente. A coluna Gente Boa, do jornal O Globo, já andou denunciando (opa!) que o baiano chegou a comprar discos do Franz Ferdinand, pelo menos até dois minutos atrás, adorava.

Diga-se de passagem, Caetano nunca foi muito feliz na aproximação com o conceito rock, em momento nenhum de sua carreira. O Tropicalismo tinha muito de rock - por intermédio das guitarras de Lanny Gordin (artífice da sujeira na guitarra, no período) e Sérgio Dias, dos Mutantes. Mas só isso. O par de discos de Caetano lançados em 1968 e 1969 cheira a MPB. Gilberto Gil, até por suas poucas limitações técnicas e por sua disciplina bem mais rígida ao conhecer e estudar música, sempre lidou bem melhor que Caetano com os signos pop. Dois momentos em que Caetano se roçou no rock devem estar frescos na memória de muita gente: 1) o disco Velô, de 1983, que ele falou que era "meu álbum mais rocky" e trazia a equivocada e quilométrica Podres poderes - com instrumentação providenciada por músicos do vnaguardista paulistano Arrigo Barnabé; 2) o dia em que ele, aboletado na cadeira de entrevistado de João Gordo, no Gordo A Go-Go da MTV , deu pancadinhas na mesa e bradou: "SE HOJE EXISTE SEPULTURA AGRADEÇAM A MIM!!! A MIM!!". Lamentável.

Dessa vez, Caetano quis chamar MESMO a atenção. Da imprensa, ao posar de "apenas mais um membro da galera" (a galera: o guitarrista Pedro Sá, o baixista Ricardo Dias Gomes e o baterista Marcelo Callado, além do filho Moreno, que produziu o CD). Da ex-esposa, ao adotar um discurso irônico em relação ao universo feminino (Homem), ao introduzir espetadas nas letras ("você não vai me reconhecer quando eu passar por você", em Outro, aquela em que ele fala que está "feliz e mau como um p** duro"), etc. Dos críticos de plantão, ao inserir gírias de gosto duvidoso (o "você foi mór rata comigo" de Rockz) e misturar retóricas quase cinema-novistas (O herói) com discursos sem sentido ou adolescentes - na mesma faixa, Caetano faz uma defesa da luta social e racial que soa como se Chorão, do Charlie Brown Jr., tivesse resolvido ler as obras completas de Sérgio Buarque de Hollanda. É o tal "discurso da incoerência" ao qual já vi até um conhecido produtor de rock brasileiro se referindo - de acordo com a teoria do tal produtor (que deve estar certo), se mantém no rock nacional quem ainda alude a uma certa incoerência, a uma certa "liberdade". Caetano está aí desde 1966 fazendo mais ou menos isso. O duro seria explicar a ele que existem outros caminhos.

, longe de qualquer discussão sobre "isso é rock ou não é?", é um bom disco. Caetano conseguiu, como talvez nunca tenha aventado, se aproximar muito bem do conceito rock - seja na capa, uma citação barata de Waiting for the sirens call, do New Order, seja em Rocks, que (vá lá), até insere Pixies no caldeirão de sonoridades do cantor, graças a palhetadas e conduções de baixo-bateria que remetem a Gouge away, Debaser e outros clássicos da banda de indie rock - mas, claro, sem metade do peso do original. Minhas lágrimas tem o mesmo lado estradeiro e nostálgico que pode ser encontrado em bandas como Black Rebel Motorcycle Club, Raveonettes e os próprios Pixies. Em outros momentos, o lado roqueiro se despede e a baianidade, no que isso tem de bom e de ruim, toma conta, em músicas como Musa híbrida, canção na qual Caetano mostra a mesma "mão" para compor que já apresentara em Não enche, do Livro. E isso não é bem um elogio.

O lado experimental de outras investidas de Caetano surge forte em Wally Salomão, música em homenagem ao poeta baiano, morto em 2003 - uma condução marcial, percussiva,que já houve quem comparasse com os esquisitões do Ween, mas que tem a ver mesmo é com Noites do norte. Tem ainda o amor/ódio da boa Não me arrependo, outra alfinetada em Paula Lavigne, que soa como molecagem, sentimentalismo barato, mas com ótimos versos - "não, nada irá nesse mundo apagar o desenho que temos aqui/nem o maior dos seus erros, meus erros, remorsos, o farão sumir". De qualquer jeito, um sentimento que, para quem quer demonstrar renovação e juventude, soa mais como rancor bobo, falta de noção. Daqui a pouco só falta algum gaiato falar em MPBEmo. E olha que não é difícil. Até lá resta falar que merece uma boa audição. E uma boa zoação, pra não perder o hábito.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

PÓS-PUNK ANTES DO PUNK (?)

Adoro histórias de gente que era a pessoa errada na hora errada - ou a pessoa certa na hora errada, ou a  errada na hora certa, ou o que mais for possível imaginar. Foi o que aconteceu com uma certa banda de Detroit, mesma terra do Black Merda (sobre o qual você já leu aqui) que caiu no meu colo, o Death. Três negões que tentavam fazer punk rock e pós-punk com energia inaudita em 1973 e que ficaram inéditos até 2009 - quando os entrevistei para o glorioso Jornal do Brasil. Curta aí!

O PRÉ-PUNK QUE FICOU ESQUECIDO EM DETROIT
Publicado no Jornal do Brasil em 14 de março de 2009



Quando os irmãos negros Bobby (baixo e vocais), Dannis (bateria) e David Hackney (guitarra, morto em 2000 de câncer de pulmão) iniciaram a banda Death, em 1974, em Detroit, não havia punk rock. Havia o que os músicos da região chamavam de hard-drivin' rock'n'roll, o som pesado e acelerado feito na cidade que deu origem aos pré-punks Iggy Pop e MC5. Era o que o trio pensava fazer quando gravou, naquele ano, o engavetado ... For the whole world to see, que sai só agora em 2009 em CD, vinil e Mp3 pelo selo independente Drag City, de Chicago. E que revela uma sonoridade que, antes de lembrar seus conterrâneos, beira o hardcore.

"Nos víamos como uma banda de rock'n'roll. Não estávamos querendo inventar uma nova denominação para o rock", diz o baixista Bobby ao Jornal do Brasil, de New England, revelando que o material do disco esteve parado por anos nas casas dos músicos, após saírem de Detroit, nos anos 70. "Meu filho, também músico, descobriu que havia curiosidade em torno da gente e nos chamou a atenção".

A história da banda é peculiar. Primeiramente influenciados pelos Beatles, graças ao pai (que mostrou a banda aos filhos quando ela se apresentava no Ed Sullivan Show, em 1964), os rapazes começaram fazendo soul e funk. Passaram a ensaiar juntos mais a sério em 1971. Mas, em 1973, após assistirem aos Stooges no Michigan Palace, adotaram o nome Death e transmutaram-se em banda de rock pesado, com letras ácidas e políticas. Canções que só agora saem dos porões dos músicos, como You're a prisioner, Freakin' out e Where do we go from here vieram dessa transmutação, influenciada também por rockstars locais como Alice Cooper, Grand Funk Railroad e Ted Nugent. A curiosa Let the world turn, por sua vez, revela um estranho lado progressivo do trio.

"Também gostávamos de Pink Floyd, King Crimson e do Emerson, Lake & Palmer de álbuns como Brain salad surgery. David compôs essa música pensando numa espécie de rock-concerto", recorda.

Mesmo com a guinada para o punk, o material de ... For the whole world to see foi produzido por um nome conhecido da cena soul de Detroit, Don Davis, para sua gravadora Groovesville Productions. Originalmente, era uma demo que seria mostrada para as grandes gravadoras. E que quase garantiu a entrada na Columbia Records.

"A gravadora gostou do que ouviu, mas não aprovou o nome da banda. Não quisemos trocá-lo. Lembro de David ouvindo isso e falando: Hell! No!", lembra Bobby que, com o Death, lançou um single independente em 1976, cujas músicas também estão no CD, Keep on knocking e Politicians in my eyes.

Produtor responsável por levar o material do Death para a Drag City, Robert Manus pergunta-se o que a banda estaria fazendo hoje se tivesse feito um lançamento maior em 1974.

"O que mais chama a atenção é que eles estavam levando o rock para outro nível e não sabiam disso", afirma Manus. "A rapidez é a chave para entender o som deles."

Mesmo após o Death, as mutações sonoras continuaram fazendo parte da vida dos músicos. Bobby, Dannis e David chegaram a montar uma banda de rock gospel, The 4Th Movement, em 1977. Em 1981 a cozinha do trio deu origem ao grupo de reggae Lambsbread. Bobby e Dannis começam a pensar numa turnê e mantém um endereço no MySpace (www.myspace.com/deathprotopunk).

"Chegamos a pensar que nosso som ficaria esquecido para sempre. Mas eu e meu irmão David guardávamos tudo o que já havíamos gravado. Ele sempre disse que o mundo iria querer conhecer nossa música. E estava certo".

Nota de atualização: Cagada, ela existe. Na semana em que sugeri essa pauta, não achava nem que ela fosse passar. Mas aprovaram e fiz. Na mesma sexta-feira em que fechávamos a edição de domingo, na qual ela saiu, descobriram um detalhe curioso: a agência de notícias que assinávamos liberaria para o domingo uma matéria sobre essa banda. E eu mal sabia disso. Pegou bem.

Sobre o Death, a saga da banda não acabou aí. Em janeiro de 2011 saiu mais um disco, com demos até anteriores às de ...
For the whole world to see, Spiritual, mental, physical, também pela Drag City. You´re a prisioner, uma das músicas de ...For the world, entrou em 2011 para a trilha do filme O mafioso, de Jonathan Hensleigh.

Curta um papinho com eles no site
Suicide Girls (epa, nem sabia que lá tinha matéria de música). Leia aqui.

domingo, 25 de novembro de 2012

IH, Ó O CARA, AÍ


Quem curte música hoje, do alto de um monte de MP3 baixados e nunca nem ouvidos, não iria entender nada se vivesse nos anos 70.  O Alex Malheiros, baixista do Azymuth - banda-residente do estúdio da Philips (hoje Universal), que gravou com Hyldon, Tim Maia, Odair José, Raul Seixas, Rita Lee e todo o mundo - me disse que as pessoas tinham até dia certo para comprar discos: terça-feira. Vendia-se de tudo e lançava-se lançava de tudo. Quem estava fazendo sucesso na mídia, em algum momento ia se meter com música - e cinema, e livros. Cinema e livros continuam aí. Discos não representam mais a mesma renda de antes, com raras exceções. Fato.

Na época, gravadoras pensavam um pouco mais à frente, a ponto de contratar artistas em baixa para vender na alta. Nem todo mundo vendia disco, mas quase todo mundo fazia história. Havia quem chegasse a um milhão de cópias, mas com bem menos jabá e sem artimanhas (típicas dos anos 90) como baixar o preço pela metade. Esse clube do milhão incluía nomes como Maria Bethânia (em alguns momentos) e Wilson Simonal. Incluiu Odair José e Paulo Sérgio também e, nos anos 80, Ritchie, Xuxa e RPM. Mas a história convencionou deixar Roberto Carlos solitário no lance - e qualquer artista que começasse a bombar poderia ver-se diante da responsabilidade de vender "tantos discos quanto Roberto Carlos". Os Secos & Molhados quase conseguiram. 

Agora lá vem de novo Roberto Carlos vendendo um milhão de cópias. O portal da ABPD ainda não registra os números. Na verdade, o milhão nunca mais deixou de acompanhar o Rei, que ganhou disco de diamante também na década passada, com álbuns como Acústico MTV (2001) e Pra sempre (2003). Vender um milhão também não é algo estranho para muita gente - Paula Fernandes, que foi tocada (no bom sentido) pela fama do Rei, ultrapassou essa marca em 2011. Artistas gospel estão acostumados com esse tipo de cifra. Chamou a atenção o fato de que tudo veio graças a um EP, um compactão duplo, formato que, pelo visto, vai voltar com força total e preços diminutos. Sandy acaba de lançar um EP puxado pelo hit Aquela dos 30 - uma música até bem legal, vá lá. Justin Bieber testou sua entrada no mercado com outro do tipo, My world. 

No caso do Roberto, são apenas R$ 9,90 - nas Lojas Americanas, pelo menos - para você levar para casa o mais novo hit dele, Esse cara sou eu, e três outras canções - entre elas o funk melody Furdúncio. Possivelmente todas as quatro estarão no tal disco de inéditas que o Rei ainda não fez. Um milhão de pessoas já se adiantou e adquiriu as músicas, entre fãs e não-fãs (o mercado de singles, ativo no Brasil até 1985, tinha dessas coisas: você pode nunca mais comprar um álbum de determinado artista, mas comprava feliz um single de uma música que estava bombando, como quem baixa hoje uma canção no iTunes, passa para o iPod e esquece da vida - Gilberto Gil e Caetano Veloso, por exemplo, eram bons vendedores de compactos mas vendiam poucos LPs).

A indústria de shows está tendo que aprender rapidamente algumas coisas aqui no Brasil, depois da baixa procura pela apresentação da Lady Gaga. Talvez o novo milhão do Roberto, já que chamou tanto a atenção, ajude o mercado fonográfico a compreender algumas coisas importantes. A primeira delas é a de que, sim, CD é caro. Ainda mais em se tratando dos CDs que chegam às lojas hoje, com 12 canções e, muitas vezes, quatro músicas de verdade. 

Uma equação diabólica tomou conta do mercado a partir dos anos 00, década em que começaram a sair discos bem menos importantes e artistas com bem menos compromisso com seu público na hora de produzir álbuns cheios. É simples: de um lado, um público que baixa canções e não compra discos; do outro, um artista que pensa "ah, foda-se, ninguém compra mais discos". No geral, não tem nada mais "direto ao consumidor" do que R$ 9,90 por um disco. Ou três minutos de música para alguém cantar. E quanto mais alguéns cantando, melhor. Mais: um simples capricho de um dos raros espécimes do mercado que têm ainda moral para fazer exigências fez com que o bom e velho single retornasse ao mercado da maneira que deveria - e não embalado em projetos oportunistas, como já foi feito. E voltou com vendas expressivas. Outra lição.

Tem mais uma terceira lição para ser aprendida aí. Ouça a música aqui.

Esse cara sou eu não é tão boa assim. É uma canção comunicativa, que fica bem numa trilha de novela, e orna bem na obra de um cara que já compôs bizarrices como Mulher pequena - e recorre ao velho truque de ter uma frase com "eu" para todo mundo se identificar. Cumpre o papel, e basta. Só que tem um detalhe, e quem acompanha o circo pop sabe bem disso: no Brasil, de uns tempos para cá, não se faz UMA letra de música boa de verdade. Em setor algum. Ai se eu te pego, de Michel Teló, não é e nunca será uma música boa. Quem curte axé, pagode e sertanejo, de modo geral, não quer ou não precisa de nada muito diferente ou original. Em MPB, tem exceções. Em rock nacional, dá vergonha - ainda mais no meio independente. Qualidade pode ser ilusão de ótica, sim - depende das credenciais de quem chega junto, depende de se o prato servido é pouca coisa mais atraente do que o arroz-e-feijão que o espírito do tempo exige.

Não é uma música tão boa assim, não é uma letra digna do melhor que Roberto já fez, com ou sem Erasmo. Mas é bem melhor do que quase tudo o que toca no rádio atualmente. E é o Roberto Carlos - e ele virou tema de novela, toca no rádio, virou também meme do Facebook e fez você repetir "esse cara sou eu".

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

TAD. E NÃO T.A.D.


Você é um hipster musical dos dias de hoje? Sorte sua: se você um dia adquire um álbum só por modinha - e se arrepende depois - basta deletá-lo do seu HD, já que provavelmente você o baixou. Ou sequer baixou. Ouviu pelo YouTube.

Nos anos 80 era pouca coisa mais complicado. Ou você comprava discos ou gravava em fita K7, ou fazia a cópia da cópia da cópia das fitas dos amigos. Perdia-se tempo gravando fitas (muito tempo, aliás).


Em 1987, um selo chamado Stilleto associou-se à gravadora Eldorado e fez a festa do rebanho da época. Se você curtia música no anos 80 e tem entre 35 e 45 anos, lembra. Discos clássicos do Joy Division e do Fall chegaram às lojas do Brasil, após anos de ineditismo. Mas houve quem adquirisse montes de bolachas só pelo prazer da novidade: tem quem defenda até hoje que o pós-punk apagadinho do A Certain Ratio é um clássico. Ou o pop do Microdisney. Ou o pós-punk chato do Durutti Column. Quem comprou álbuns às cegas deve ter tentado cortar os pulsos ao pôr no toca-discos o álbum do grupo de jazz-pop Kalima, Night time shadows, lançado no mesmo pacote da Stilleto: era praticamente bossa nova de gringo, com atrativo zero para quem vibrava com a possibilidade de ouvir Dead Can Dance, Throwing Muses e outros grupos em vinil nacional.


Nos anos 90, era a mesma coisa, talvez até um pouco mais complexo. Só era mais fácil comprar os discos, já que em 1994 o real e o dólar parearam e até as Sendas e a Mesbla vendiam importados. Tinha grunge, rock alternativo anos 90, brit-pop... e tem quem até hoje defenda que bandas irrisórias como Seaweed e Gas Huffer eram boas, só porque mandaram importar CDs. Toda vez que olho minha estante, por exemplo, me pergunto o que deu em mim para comprar três (eu disse TRÊS) CDs dos Presidents Of The Usa, banda que a rigor lançou só um disco verdadeiramente bom e um hit que ocupa lugar no espaço, Lump (esse daqui). Talvez fosse o excesso de tempo disponível para ouvir música.

Essa introdução toda é só para perguntar: lembra do Tad? Tad, e não T.A.D, como fez questão de afirmar uma matéria da Bizz na época, 1991 ou 1992. Na minha estante, esquecido num canto, figura Inhaler (1993), raro disco do cara lançado por uma grande gravadora (Warner) e por acaso, publicado no Brasil. Disco que ouvi, arquivei (nao curti na época) mas fui redescobrir outro dia. Mas você já procurou saber aonde estava aquela banda que foi ventilada pela revista de música que você lia nos anos 80/90 e da qual nunca mais ouviu falar? Pois é, Tad Doyle, cantor e compositor do grupo, ainda vive e trabalha, e paga suas contas com música. Olha aí o site dele.


O Tad, a banda, começou com o músico tocando quase todos os instrumentos ao lado do produtor Jack Endino (Nirvana, Titãs), que comandou os trabalhos em suas primeiras demos em 1987. O grupo fechou as portas em 1999 ("para proteger o legado", diz o site) e em 2001 Tad Doyle já estava em outro projeto, Hog Molly. Hoje faz barulho, muito barulho, com uma banda chamada Brothers Of The Sonic Cloth, que lançou recentemente um split single com uma banda de stoner rock chamada Mico De Noche. Tad Doyle hoje tem esse visu Papai Noel aí, por sinal.




No site, ele oferece também os serviços de seu estúdio Witch Ape, iniciativa sua e de sua mulher. Não é pouca porcaria, não: Tad revela ter estudado jazz e música clássica na universidade e vende seu peixe como produtor e engenheiro de som renomado, além de "ter estado dos dois lados do processo, como músico e produtor".

Outra banda que você possivelmente deve ter um vinil guardado é o já citado A Certain Ratio. Eles também existem, têm um site, dão shows e recentementre se apresentaram no Factory Manchester, que agenda shows de bandas com o espírito do selo, ou de grupos que já pertenceram ao catálogo da gravadora Factory - o The Fall dá as caras por lá no domingo (25). Só conferir .

A lista não tem fim. No futuro, quem sabe, alguém esteja querendo saber o que o Tame Impala anda fazendo. Ou o Dirty Projectors. Ou o OK Go. Ou mais um monte de bandas que volta e meia você ouve falar por aí. Enquanto isso, vá reaprendendo o maior hit do A Certain Ratio. Isso era bem legal.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

MORRER É RUIM (DUH)


Não tem nada mais bizarro do que morrer de uma forma bizarra - como naquela famosa lenda sobre a Mama Cass, vocalista do The Mamas & The Papas, que afirmava ter a cantora morrido engasgada com um sanduíche (na verdade, ela saiu de cena por causa de um enfarte do miocárdio). Ou como Keith Relf, vocalista dos Yardbirds, que teria morrido eletrocutado ao tocar guitarra em casa (outra lenda dá conta de algo mais maluco ainda: de que ele estaria tocando guitarra, com o instrumento devidamente plugado na parede, ao relaxar numa banheira cheia d'água).

Em 2010 foi a vez do celista da Electric Light Orchestra, Mike Edwards, partir de forma louca. Ele dirigia sua van em Devon, Inglaterra, quando um pacote de feno pesando 600 kg rolou por uma colina e simplesmente atingiu seu carro. Inimaginável - deu até para lembrar daquele personagem do Asterix que tinha medo de que o céu caísse sobre sua cabeça. A novidade é que parece que agora pegaram dois infelizes como culpados, diz a Classic Rock Magazine (leia aqui).

Foi buscando na internet textos sobre o álbum Pacific ocean blue (1977), único álbum solo lançado pelo falecido baterista dos Beach Boys Dennis Wilson, que me descobri o último a saber de uma notícia bem interessante: em 2013 deve sair - as filmagens foram bastante adiadas - um longa sobre a vida de Wilson, The drummer. 

Aaron Eckhart faz o papel principal e Vera Farmiga faz a cantora-compositora do Fleetwood Mac, Christine MacVie, com quem Wilson teve um relacionamento pra lá de complexo. Nota: Wilson foi outro roqueiro a morrer de forma bizarra. Era o único beach boy que surfava e morreu afogado em 1983, após beber o dia inteiro e resolver dar um mergulho. O filme foca nos seis últimos anos de vida de Wilson, então possivelmente dá-lhe relatos deprês - ele vivia entrando e saindo de clínicas de reabilitação nesse período. 

Provavelmente, só uma biopic do líder da banda, Brian Wilson,  traria informações relevantes a respeito dos mitos e maluquices que rondavam os Beach Boys em seus períodos mais estranhos. Como interessado em qualquer bizarrice que diga respeito aos anos 60 e 70, adoraria ver na tela a época em que os Beach Boys pareciam ter virado Reis Midas ao contrário: estavam fora de moda, lançando discos malucos ou simplesmente fracos, metidos em tretas sombrias (Dennis Wilson hospedou ninguém menos que o assassino serial Charles Manson e suas pupilas em sua mansão e, sem coragem de expulsá-los, fugiu da própria residência e parou de pagar o aluguel). Tem um doc bem interessante sobre o grupo, An american dream (que até saiu em DVD no Brasil), por outro lado.

Para conhecer mais sobre Dennis Wilson, tem também esse doc aqui (em inglês, e em várias partes) produzido e exibido pela BBC. Vale assistir.


terça-feira, 20 de novembro de 2012

MANGO GROOVE


O Dia da Consciência Negra já terminou, ok. Mas para quem curte música, todo dia é Dia da Consciência Negra. Já para você, que fala groselha sobre o "Dia da Consciência Branca" (chega, né?), aconselho só duas coisas: 1) leia com atenção a história do país em que você vive; 2) cheque sua coleção de discos e depois me diga o que concluiu. 

Segue aí minha humilde contribuição para a data: em julho de 2010, plena Copa do Mundo da África do Sul, bati um papo com John Leyden, baixista e fundador da banda sulafricana Mango Groove, para o LABORATÓRIO POP. Formada em 1983, a banda passou batida pelo Apartheid (regime separatista do país, que durou de 1948 a 1994) mandando mensagens de protesto nas letras e trazendo - ousadia - uma loura britânica no vocal, Claire Johnston. Curta aí.

POP DE RAIZ
John Leyden, da banda sulafricana Mango Groove, critica show de abertura da Copa e elogia Ivete Sangalo, com quem gravaram
Publicado no Laboratório Pop em 7 de junho de 2010


Primeiro, uma grande lição à imprensa: K'Naan, o rapper que fez uma das canções oficiais da Copa sulafricana, Wavin' flag (que no Brasil ganhou vocais do Skank) não é conterrâneo de Nelson Mandela. Ele é somali e vive hoje no Canadá, ao contrário do que muitos sites e jornais insistem em escrever. E, sim, apesar de Dave Matthews, músico nascido na África do Sul, ter feito bastante sucesso com sua mistura de pop, rock e virtuosismo, sua Dave Matthews Band é um orgulho americano, montado em Charlottesville, Virginia, onde conheceu seus colegas de grupo.


O pop sulafricano, que por muito pouco não foi esnobado pela própria Fifa (a Federação escalou artistas internacionais para a abertura da Copa e simplesmente "esqueceu" dos valores locais, voltando atrás depois), guarda surpresas como o Mango Groove, que lança o disco Bang the drum (EMI), com participação de Ivete Sangalo na versão brasileira do hit futebolístico Hey, intitulada Cada coração. Mas para fins de exportação, permanece eclipsado pela sofisticação do jazz ou pela diversidade rítmica local.


Após incluir na primeira lista nomes como Shakira - que canta o tema oficial da Copa, Waka waka (This time for Africa) - Black Eyed Peas e John Legend, além da joia africana Angélique Kidjo, a Federação reconheceu a mancada e incluiu sulafricanos ilustres como o Parlotones, o Freshlyground e o veterano trompetista Hugh Masekela entre as atrações do show de abertura. E o Mango Groove, cadê? Ficou de fora. Fundador da banda, o baixista John Leyden demonstra polidez ao comentar o assunto com o LABORATÓRIO POP, mas lamenta que a abertura da primeira copa sediada em terras africanas tenha perdido a chance de ser um grande show sobre a diáspora do continente.


"É algo muito forte, como acontece no Brasil, EUA e Jamaica. Sabemos que a abertura da Copa é um evento global, dirigido por interesses comerciais globais. Mas sentimos que poderia ser um pouco mais do que apenas um showcase africano. Em todo caso, desejamos que seja um grande sucesso e que, quem estiver tocando lá, dê o melhor de si", diz.


O mais complicado disso tudo é que o Mango Groove, ao contrário do que possa parecer, não é nenhuma banda novata. E já tem história, ligada profundamente às transformações políticas de seu país. Existem desde 1983 e, em 1992, foram uma das atrações do concerto de tributo a Freddie Mercury, exibido várias vezes até no Brasil. Fundado por Leyden e tendo à frente a loura Claire Johnston, surgiu sob o signo do Apartheid - o regime que separava brancos e negros, inspirava canções de protesto como It's wrong (Apartheid), de Stevie Wonder e fazia artistas pop se recusarem a tocar em terras sulafricanas (Mark Knopfler, no auge do Dire Straits, chegou a doar à Anistia Internacional os royalties da edição local do maxiplatinado Brothers in arms, de 1985, alegando não querer dinheiro do país).

"A opressão dava um foco moral rígido à música e a todos os aspectos da vida. A arte daquela época sofria com isso, Mas tivemos sorte de fazermos parte das enormes mudanças que aconteceram no país", diz o baixista. Com o líder Nelson Mandela ainda na cadeia, o MG não apenas cutucava a onça com vara curta. Praticamente usava um palito de dente para irritar o bicho, o que já se pode verificar pela mistura de negros e brancos na formação - ainda por cima com uma louraça no vocal. "Essa mistura era incomum para os anos 80. Antevemos todas as transformações que o país teria na década seguinte". Em 10 de maio de 1994, dia em que Mandela se tornou, finalmente, o presidente da África do Sul, foram os headliners do concerto em homenagem ao líder político. 

Leyden diz que o grupo é cria dos sons que se ouvia nas pequenas comunidades do país e da história sulafricana, e não exclui do pop local grupos que fazem um som mais étnico, como o grammyado Ladysmith Black Mambazo (os vocalistas de Paul Simon em seu disco Graceland, de 1986), ou artistas mais ligados ao jazz, como Hugh Masekela. "Aqui temos dance, hip hop, rock. Tem um grande espectro de estilos, mas fantásticos, cada um na sua. Nosso som é pop contemporâneo mesmo, mas temos raízes bem fincadas nos estilos urbanos do país nos anos 50 e 60, como o marabi (espécie de música indígena da África do Sul), kwela (gênero musical urbano, lembrando o skiffle), jazz africano, sons de big bands".

E o Brasil na parada? Leyden lamenta não ter conhecido Ivete Sangalo pessoalmente ainda (a gravação de Cada coração foi feita à distância, com a cantora na Bahia). Mas espera pela oportunidade. "Foi legal que a EMI do nosso país tenha mostrado nosso disco para a do Brasil, e mais legal ainda que a gravadora tenha gostado", alegra-se o músico. "Lemos muito sobre Ivete e vimos seus clipes. Para nós, é um orgulho estarmos associados a ela. Queremos estar com ela em breve!"

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

TITÃS EM DOCUMENTÁRIO

Em 2009, estava para sair o documentário Titãs: A vida até parece uma festa, contando a história do ex-octeto - e que acabou sendo lançado no Festival do Rio, levado aos cinemas e posteriormente lançado em DVD. Boa parte do doc não teria saído se não fosse a vontade do vocalista Branco Mello de documentar a trajetória do grupo em vídeo. Na bio Até parece uma festa, de Luiz André Alzer e Hérica Marmo, ele é visto com sua câmera de vídeo até durante um mergulho na praia, no encarte que traz fotos históricas do grupo. Bati um papo com ele e o diretor Oscar Rodrigues Alves para o Jornal do Brasil.


BRANCO MELLO E OSCAR RODRIGUES ALVES COMENTAM FILME SOBRE OS TITÃS
Publicado no Jornal do Brasil em 14 de janeiro de 2009



Nos anos 80, época em que câmeras de vídeo portáteis eram quase um acessório exclusivo de cinegrafistas de casamentos e festas infantis, o titã Branco Mello carregava a sua para todo lado, como se fosse um dos instrumentos da banda. E gravava tudo o que acontecia com os Titãs nos bastidores, nos camarins, nas viagens, nos ensaios. A ideia de montar um filme com todo esse material já era antiga e começou a tomar forma em 2002, quando o músico uniu-se ao diretor Oscar Rodrigues Alves (responsável pelo clipe do hit Epitáfio, em 2001) para começar a conceber Titãs - A vida até parece uma festa, documentário sobre o grupo paulistano, que, após exibição no Festival do Rio em outubro, estréia amanhã nos cinemas do Rio e São Paulo. O longa traz à tona uma série de imagens raras do grupo, em quase todas as suas formações desde a época em que eram um noneto, com o vocalista Ciro Pessoa, em 1982, até a elaboração do álbum Como estão vocês? (2003), incluindo ainda farto material da era pré-Titãs.


"Comecei a gravar em 1986, quando adquiri a câmera. Ela passou a ser uma parceira nossa, um instrumento de trabalho. Depois fui conseguindo coisas antigas", empolga-se Mello. "Antes de montarmos os Titãs, quase todos nós fizemos o espetáculo TV Eklipson, no Lira Paulistana, em 1982. Tinha um cara gravando e conseguimos as imagens em que aparecíamos cantando Bichos escrotos, quatro anos antes de a música aparecer no LP Cabeça dinossauro (1986)".

Três dos futuros Titãs também podem ser vistos em outro momento inusitado: participando do programa de calouros da TV Tupi Olimpop, em 1980. Na época, Tony Bellotto, Branco Mello e Marcelo Fromer, então na faixa dos 18 anos, com um grupo de vocalistas, atendiam pelo nome de Trio Mamão & As Mamonetes e defendiam o reggaezinho folk Keds azul que ganhou nota 10 de um dos jurados, o cantor Wilson Simonal. Mas é o material da banda, tanto o garimpado de arquivos quanto o registrado por Branco Mello, o que mais chama a atenção.

SONHO MALUCO Há também gravações televisivas feitas em videocassete, boa parte delas realizada pela mãe de Nando Reis, e que incluem momentos hilários, como a participação do octeto em 1985 no quadro Sonho maluco, do programa Viva a noite, apresentado por Gugu Liberato no SBT. Nas imagens, integrantes do grupo têm que salvar uma fã da teia do Homem-Aranha, transformado em vilão.

Em outro momento, os Titãs aparecem no Programa Silvio Santos recebendo o Troféu Imprensa, em 1988, e surpreendendo o apresentador com o pedido da platéia para que cantassem Bichos escrotos. Há também a banda tocando num Bar Mitzvah em 1984 cujo vídeo foi conseguido por acaso, quando o dono da festa encontrou Paulo Miklos na rua.

Nós gravamos poucos depoimentos exclusivos para o documentário, optamos por material de arquivo diz Alves, que com Titãs - A vida até parece uma festa faz seu primeiro longa.

Os Titãs aparecem falando de determinados assuntos na época em que eles aconteceram. A saída do Arnaldo Antunes, em 1991, aparece explicada pelo Nando Reis numa entrevista, e você percebe claramente a carga dramática da situação. O mesmo acontece com a morte do Fromer (2001, por atropelamento) e a saída do próprio Nando (2002).

Assuntos como a prisão de Arnaldo Antunes e Tony Bellotto por porte de heroína, em novembro de 1985 (durante a qual Antunes, por ter passado a droga ao amigo, ainda foi processado por tráfico), não foram deixados de lado. E são ilustrados com o take de uma apresentação do grupo no Perdidos na noite, de Fausto Silva (Bandeirantes), na qual é feita uma homenagem aos dois músicos. Flagrados por Mello, os Titãs aparecem também em quartos de hotéis e em camarins, brincando, fazendo festa ou parodiando programas de auditório. Os diretores não deixaram de lado a presença das drogas e do álcool na história da banda, mas sem cenas explícitas.

"Abordamos todos os temas polêmicos, não houve restrição alguma", esclarece Mello. "Todos os Titãs e ex-Titãs adoraram a montagem, e os filhos do Fromer também viram o resultado".

Branco Mello, que hoje se dedica à gravação do 16º álbum do grupo (o primeiro feito integralmente pelos cinco integrantes restantes da banda, com produção de Rick Bonadio), deu grandes risadas recordando o que chama de "as aventuras dos Titãs" (Nota de atualização: o disco seria Sacos plásticos, lançado naquele mesmo ano - leia uma matéria sobre este álbum, que fiz também para o Jornal do Brasil, aqui).

"As imagens em que a gente aparece brincando numa cachoeira na Chapada dos Guimarães, por exemplo, eu adoro", recorda o vocalista. "Quando o Oscar viu o material, ficou espantado. Disse que não sabia de nenhuma banda do mundo que tivesse isso tudo gravado".

O fã que leu a biografia A vida até parece uma festa, escrita por Luiz André Alzer e Hérica Marmo (Record, 2002), também pode conferir algumas passagens do livro, em movimento. Entre elas, apresentações da dupla de cantadores Mauro e Quitéria (que participaram de Õ blésq blom, de 1989) com a banda, a gravação do compacto Pipi popô/Marcha da demo, de 1988 (que reuniu os Titãs, Paula Toller, Liminha e Jorge Mautner sob a alcunha Vestidos de Espaço) e a audição de Jesus não tem dentes no país dos banguelas (1987), com Herbert Vianna, Fausto Fawcett, Jorge Ben Jor e Cazuza, no estúdio Nas Nuvens, onde discos como Jesus... e o anterior Cabeça dinossauro foram gravados. E detalhes da gravação do álbum, incluindo uma bronca do produtor Liminha no baterista Charles Gavin, que insistia em incluir viradas no arranjo de Violência, música que só entraria no álbum como bônus da versão em CD de Jesus....

Em meio a isso, muitos clipes (como os de Cabeça dinossauro, com todos cobertos de lama), imagens de shows memoráveis e recordações de sucessos como Sonífera ilha, Insensível, Polícia e Marvin.


"O filme vai agradar até a quem não é fã da banda. Vai ser excelente para a molecada que ouve rock. Muitos garotos de 16 anos sequer lembram que Arnaldo Antunes foi um titã", ressalta Alves, fanático pela tenacidade do grupo. "Todos são talentosos e multifacetados. E sempre quiseram viver o mundo pop, mas criando seu próprio estilo".

domingo, 18 de novembro de 2012

SERGIO DIAS NA ROCK PRESS


E já que falamos de Mutantes nos últimos dias aqui no blog, segue aqui um papinho que eu e o amigo Jorge Wagner - jornalista, colaborador de sites como o Scream & Yell e produtor de pagode indie - batemos com o mutante Sergio Dias, por ocasião da volta dos Mutantes com Zélia Duncan nos vocais (mais Arnaldo Baptista e Dinho de volta aos postos), em 2007. Curtam aí! Saiu na Rock Press.





EXCLUSIVA SERGIO DIAS (Jorge Wagner e Ricardo Schott)
Publicado na Rock Press em 11 de março de 2007


Sergio Dias foi por muito tempo considerado um artista maldito. Sua antiga banda foi sendo redescoberta às custas de vários relançamentos e do trabalho de fãs e críticos. Hoje os Mutantes são atração de festivais internacionais, passaram a ser objeto de culto nos EUA e Europa e cativaram uma multidão em seus dois primeiros shows em solo pátrio. Rock Press procurou Sergio e conversou com ele sobre a volta da banda, sobre Arnaldo Baptista, sobre Rita Lee, sobre os shows no Brasil e sobre vários outros assuntos.



A Esmélia, que faz backing vocals e canta algumas músicas inteiras, sobe ao palco com uma roupa que lembra bastante a da Rita Lee na época dos Mutantes. É alguma brincadeira da banda com a Rita, ou só uma escolha dela? 


Não creio que isso proceda. Eu lembro bem das roupas que a Rita usava na época dela, e acho que não tem nada a ver, não. Aliás, a nesse show que a gente fez agora há pouco tempo nos Estados Unidos, a Esmélia estava usando uma roupa feita pela Glória Pires. Ela se veste do jeito dela.


Como foi para vocês ver aquela receptividade enorme do público no show do Rio?


Ah, aquilo foi estupendo! A gente tava vindo de São Paulo, 80 mil pessoas, uma porrada grande. Depois desses anos todos em casa, eu tremi na base! No Rio foi genial também, aquela coisa mais cara-a-cara...



E você prefere shows abertos como o de São Paulo ou menores, fechados como o do Rio onde as pessoas foram necessariamente para assistir Mutantes?


Aquele show do Ipiranga foi histórico! Você pode até achar que aquelas pessoas em Sampa não foram pra ver a gente, mas antes tinha o que lá? Umas 20 mil pessoas? Depois, quando fomos tocar, as 80 mil. Eu acredito que elas foram pra ver Mutantes sim, bicho! Quando você tá no palco, sente a vibração, sabe se o público tá ligado ou não. Mas sobre festivais ou shows fechados, eu prefiro o segundo, pela proximidade, pelo cara-a-cara que rola.


Muita gente reclama do som do Vivo Rio. O que você, que é um cara bastante exigente, achou do som da casa?


Muito bom! Nada de errado, não. Agora, a casa é nova, os caras vão se acertando de acordo com que o som da banda pede. O equipamento deles é de primeira linha e pra gente foi muito bom.



Sobre o relançamento dos discos da fase Som Livre, você não achou curioso que ela tenha dado um tratamento muito melhor ao seu catálogo dos Mutantes - com direito a resgate de encartes, capinhas em digipack etc - do que a Universal, que detém justamente os discos cujo repertório está sendo tocado nos shows? 


Olha, tanto um quanto outro nem se deram ao trabalho de ligar pra dizer “olha, nós vamos relançar seus discos!”. Não sei como andam os contratos e acho muito bom que a Som Livre tenha feito um trabalho legal, cuidadoso, mas seria legal se tanto ela quanto a Universal tivessem feito algo mais próximo de nós.


Afinal, porque aquela reunião dos Mutantes da fase prog acabou não rolando? É verdade que já estava tudo certo para que ela rolasse? 


Nos encontramos eu, o Rui, o Túlio e o Pedro, fizemos um som e foi um barato. Os caras são músicos sensacionais e é sempre um prazer tocar com gente como eles. Mas daí rolou essa reunião e não tem como levarmos dois Mutantes ao mesmo tempo. O que não impede que venhamos a fazer alguma coisa mais pra frente, né?


O Rui Motta chegou a afirmar que você teria desistido porque resolveu ajudar o Arnaldo...


Não, nada a ver isso, não. Não é verdade.


Como vai o desenvolvimento do trabalho com a Zélia? Vocês estão realmente preparando material inédito?


A Zélia casou bem no grupo. Vamos aos poucos começando a escrever letras, pensar em músicas... tem o embrião por aí. Por enquanto estamos trabalhando com o que fizemos, mas toda ação tem uma reação, entende? Estamos trabalhando com uma ação musical, eu acredito que vá ter uma reação musical. Isso é natural.


Tem alguma coisa que você curta do rock nacional atual? 


Não tenho tempo, cara! Pelo menos das coisas que tocam em rádio, eu normalmente só ouço no carro, e não necessariamente os caras falam o nome do que estão tocando. Às vezes até gosto, mas não sei o nome, não sei de quem é. Agora, o que eu realmente conheço é alguma coisa do independente, feito Black Maria, o Balacabala, e isso sim, é genial!


Os Mutantes usaram bastante LSD em sua fase áurea... 


(Interrompendo) Eu não diria nem que foi na fase áurea. Foi um ano e pouco, dois anos, por aí.


Passado o tempo, como você vê essa questão das drogas hoje? 


Não chamaria nem de droga, cara. Expansor mental é melhor. Droga pra mim é cocaína, ecstasy, essas coisas que te ferram legal mesmo. LSD é expansor, tanto que tá sendo outra vez pesquisada, porque tem coisas com as quais poderia ser útil. Mas se eu tivesse que optar entre sim ou não, entre usar ou não usar hoje, eu não teria tomado. E não é por caretice, não. É que não é legal você tomar um expansor sem um guia, entende? Essas coisas que mexem com o espiritual, com o astral... tomar sem guia é como ir pra lua sem saber manusear os aparelhos. Se eu pudesse escolher, hoje, eu teria ido atrás do peiote, por exemplo.



Afinal, como são divididas as funções entre o Arnaldo e o Henrique Peters, tecladista que acompanha a banda? 


O Arnaldo é livre, pode fazer o que ele quiser. O Henrique já faz o mais tradicional, o mais básico da música mesmo.


Muita gente diz por aí que o Arnaldo parece estar sendo “dublado” pelo Henrique...


De jeito nenhum, cara! Quem assistiu lá no Ipiranga viu que metade do solo de Ando meio desligado, que é meu, eu dei pra ele, e o cara tá detonando! Ele é ótimo. Ele teve problemas? Claro! Mas os problemas não modificam quem ele é. O mundo lhe deve no mínimo reverência por tudo que esse cara fez, por tudo que ele representa. Deve reverência, e não críticas.


E como ele está se adaptando ao ritmo de turnês?


Super bem! Ele tá mais adaptado que eu até! O cara não cansa nunca, meu!



No dia 17 de fevereiro você se apresentou no Festival Psicodália de Carnaval, na Serra do Tabuleiro, em São Martinho, Santa Catarina. Como foi?


Foi ótimo, cara! Depois de um ano sem tocar assim, e o evento lá no meio do mato... não toquei nada de Mutantes, por razões óbvias, e os caras não deixavam eu parar! Voltei umas três vezes ao palco, já nem tinha mais repertório! Agora estamos vendo pra tocar na virada, em São Paulo, no dia 5 de maio. Só não sei em qual dos palcos ainda (Nota de atualização: a formação progressiva dos Mutantes, do disco Tudo foi feito pelo sol, de 1974, retorna, como se sabe, com um show na versão 2012 deste mesmo festival - saiba mais aqui).


O que você tem a dizer para quem ainda afirma coisas como "sem Rita Lee não existe Mutantes"?


Absolutamente nada. Qualquer pessoa que foi ao nosso show sabe o que tá acontecendo, viu uma banda completa. Hoje é hoje! Não tem isso. Não tem razão pra esse tipo de comentário.


Você e a Rita chegaram a conversar sobre algo relativo em relação a essa turnê nova dos Mutantes?


Não. Tudo o que ela disse foi publicamente mesmo. Nós não temos mais contato.


Curiosamente, logo assim que os Mutantes voltaram, o Rogério Duprat faleceu. Vocês vinham tendo algum tipo de contato?


Chegamos a fazer contato com a Lilá, esposa dele, pensamos em chamá-lo, mas por fim tiramos os arranjos de ouvido mesmo. Infelizmente, nem deu tempo. Nem estávamos no Brasil quando ele faleceu. Agora eu comprei um cello. Ou melhor, ganhei um da minha esposa e um da Nhureson, que é uma marca nacional, e devo usar com a banda, em honra ao Duprat.


Tem havido uma procura muito grande por trabalhos ligados à geração de vocês: o Lanny Gordin voltou com disco novo, os Mutantes estão de volta... E durante muito tempo, muitos músicos dessa época - como você, Arnaldo, o próprio Lanny, Macalé - viveram à margem das grandes gravadoras, numa existência musical, pelo menos aqui no Brasil, quase maldita. Não dá um certo gosto de vingança agora?


Nós continuamos malditos! Veja só o que falam da gente por aí! Mas é ótimo ser maldito, cara! A pior coisa que pode acontecer é ser bendito, ser o queridinho. 

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

1972: MUTANTES E NOVOS BAIANOS


Rita Lee nos anos 80 era Rita Lee & Roberto de Carvalho. Arnaldo Baptista estava em auto-exílio em Juiz de Fora. Sergio Dias, sei lá o que fazia. Liminha era produtor da Warner - se foi um mutante, era pé de página. Dinho, o baterista, sumira. Mutantes mal era citado em entrevistas de artistas novos - lembro do Edu K, do De Falla, falando deles, e só. Talvez os Titãs. Em 1985, a PolyGram, hoje Universal, bancou uma tiragem dos LPs do grupo, direcionada para a loja de discos paulistana Baratos Afins. Poucos discos, target baixo, sem encartes, sem divulgação, com prensagens horrendas (minha cópia do Mutantes e seus cometas no país do Baurets, selo Polyfar, vinha com arranhões estranhos e o braço da agulha chegava a pular) e discretas modificações nas capas. Foi para quem tinha que ir.

Mutantes, os caras que criaram a atitude rock, ao lado de Raul Seixas - reza a cartilha. Foi assim mesmo?

Depende de que lado do alambrado você está. A Jovem Guarda era rock também - e olhava mais no olho do jovem da época, interessado em carrões e garotas/os, do que qualquer banda que cantasse coisas como "meu relógio parou/desistiu para sempre de ser/antimagnético, 22 rubis" (O relógio, dos Mutantes). Você provavelmente já quis ser o caderninho daquela gatinha nerd e boa aluna, como cantava Erasmo Carlos em O caderninho. Eu já - e anos depois, os Raimundos quiseram ser o "banquinho da bicicleta" da menina, dá no mesmo. Duvido que voce tenha achado que iria pegar alguém cantando "gira menina que um dia eu te ponho no chão" (Mágica, dos Mutantes). Pegou? Parabéns. Eu nem tentaria.

Aos 14 anos, eu era fã de Mutantes - quem lia a Bizz e tinha alguma memória rocker, vinda de pai, mãe e tios, poderia acabar curtindo. E só eu era, ainda mais na minha faixa etária (eu nasci em 1974, faça as contas). Nem os professores da escola tinham a mais remota lembrança da banda. Colegas? Alguém já havia ouvido falar, e só - e você virava o famoso "ele gosta de... como é o nome daquela banda mesmo?". Criou-se um vácuo na memória brasileira no pós-ditadura e após os anos 80 que recolheu tudo - aonde tinha ido parar o Raul Seixas? O produtor Pena Schmidt disse uma vez, em entrevista, algo como "era um tal de 'vamos acabar com a música da ditadura, mas também com tudo que não tivesse uma cara jovem', e isso incluía de Wilson Simonal a O Terço". Anos 80.

No Rock In Rio, em 1985, tinha Rita Lee - com Roberto de Carvalho e Lincoln Olivetti. E, olha só, tinha Novos Baianos ocupando boa parte do festival. Bons vendedores de discos nos anos 70, ex-contratados (com honras) de uma gravadora ligada à maior rede de televisão do Brasil. Garantiram a presença em várias eras da música pop nativa graças à durabilidade e ao fato de seus integrantes, enquanto artistas solo, meio que continuarem fazendo o som de discos como Acabou chorare (1972). Parece que a banda nunca acabou.

Mutantes é revolucionário, alcançou sucesso fora do Brasil e garantiu espaço para o experimentalismo no rock nacional - antes de caírem dentro do rock básico e do progressivismo. Eram a banda-residente dos tropicalistas, o que garantia aparições na TV, mas não vendia muitos discos. Novos Baianos acabaram sendo a banda mais influente do pop-rock brasileiro. Se João Gilberto não tivesse visitado o apê dos NB em Botafogo (opa, aqui do lado de casa!), não haveria muito progresso por aqui.

Impossível imaginar Selvagem?, dos Paralamas, sem Novos Baianos. Coletivos ou grupos numerosos como Titãs, Móveis Coloniais de Acaju e Planet Hemp vêm dali. Odeia Já sei namorar, dos Tribalistas? A culpa é deles - e Dadi, ex-NB, tocava com Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown no disco único do trio. Talvez não houvesse nem Raimundos - rapazes nascidos nos anos 70, criados em meio ao sucesso solo de Baby do Brasil e Pepeu Gomes e ao vácuo da obra dos Mutantes (Fred, baterista da banda, ouviu Mutantes pela primeira vez numa entrevista dos Raimundos à Bizz, em 1994). A banda paulistana poderia soar, para leigos, como aquela história do grupo que vendeu cinco discos, mas as cinco pessoas que compraram o álbum montaram bandas. Segue uma equação curiosa, então: Mutantes, que deu em Fellini, que gerou Chico Science. Tá, sem Mutantes, sem progresso musical também. Mas é o que fica: cada coisa em seu lugar e respeito cego ao papel de cada um.

2012 é o ano de relembrar duas facetas diferentes do rock nacional dos anos 70, que sopram 40 velinhas. Acabou chorare é um disco que eu daria para o meu filho para ele conhecer um rock brasileiro de verdade, e, quem sabe, se orgulhar de seu país - caso ele permaneça dando motivos para orgulho. Mutantes e seus cometas no país do Baurets era a raspa do tacho dos Mutantes com Rita Lee - um disco que soa estranho, triste (a meu ver) e obsessivo. Arnaldo Baptista passa na frente do irmão guitarrista com seu teclado. Rita Lee é atropelada por Sergio Dias nos vocais. A experimentação tropicalista dos primeiros discos ia embora de vez (afogada em LSD) e os Mutantes - que gravavam Rua augusta, de Hervé Cordovil, num arranjo roqueiro e tradicional - assumiam, de vez, que faziam música de jovem para jovem, sem cabecices.

Em 1989, morria Raul Seixas. Eu gostava. Pensei que ia chegar no colégio e ver pelo menos os professores falando do assunto. Não ouvi ninguém. Vácuo total. No ano seguinte, achei melhor trocar de escola. Acabavam os 80.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

BLACK MERDA NO JORNAL DO BRASIL


Num determinado período, parou de fazer sentido ficar buscando músicas para baixar no Soulseek e começaram a ficar famosos os blogs de música - que já vinham com cara própria e focos em determinados estilos, sejam eles bandas progressivas desconhecidas, soul ou bandas bizarras. E num desses blogs de grupos bizarros ao extremo me apareceu uma banda que, a princípio, parecia uma piada, o Black Merda. Que entrevistei para o Jornal do Brasil em 2008.

Não era piada, não. O Black Merda ("merda" não é o que você está pensando) se autodenominava a "primeira banda de rock negra do mundo". Tinham surgido no fim dos anos 60, antes do Living Colour, em Detroit (EUA). Tiveram uma mini-discografia subterrânea, lançada por selos pequenos nos anos 70, e voltavam naquela época com o álbum
Force of nature, cuja capa você vê ao lado. Mandei um e-mail para eles achando que nunca leriam nem responderiam minhas perguntas. Surpresa: enviei de manhã e, de noite, já tinha todas as questões respondidas. Curta o bate-papo aí abaixo. Quando eu morrer, daqui a uns 500 anos, quero ser lembrado por essa entrevista.



A PRIMEIRA BANDA NEGRA DE HARD ROCK?
Black Merda reivindica título dado a Living Colour
Publicado no Jornal do Brasil em 14 de dezembro de 2008

A história oficial reza que a primeira banda negra de hard rock, formada no fim dos anos 80, foi o Living Colour, que conseguiu fama graças a hits como Glamour boys. Mas os três sessentões (VC Veasey, baixo/voz e os irmãos guitarristas Anthony e Charles Hawkins), que formam o grupo americano Black Merda, ativo entre os anos 60 e 70, pretendem revirsar a história do rock negro. 

Mostram uma outra versão da história, já abraçada por colecionadores de discos, blogs de MP3 e por rappers como Ja Rule, que sampelou Lyin, um dos raros hits do grupo, em sua Exodus. Seriam eles, que retornam com nova turnê  e novo álbum, Force of nature, previsto para lançamento em janeiro pelo selo espanhol VampiSoul, os donos do título?

"Fomos a primeira banda de hard rock formada apenas por negros", sentencia VC Veasey, de Detroit, ao Jornal do Brasil. "Nunca ficamos enciumados por causa do Living Colour. Sabemos que eles tiveram mais exposição na mídia do que nós. Mas acho que agora as pessoas estão nos conhecendo mais. Nos anos 60/70, éramos conhecidos apenas entre músicos e no circuito de clubes black".

O "MERDA" NÃO É BEM ISSO...  O nome, frisa Veasey, não tem nada a ver com o significado da palavra em países latinos. "Merda é uma corruptela de murder (assassinato) usada em guetos. Originalmente nos chamávamos Black Murder", recorda o baixista, que em 1971, por causa da saída do baterista original Tyrone Hite (morto em 2006), alterou o nome para um inacreditável Mer-Da. "Nem sabíamos o significado da palavra em português. Só depois é que os fãs latinos começaram a falar sobre isso em nosso MySpace".

Antes de cair no rock, em 1965, os rapazes eram músicos conhecidos no fervilhante circuito de música negra de Detroit.

"No começo, nos chamávamos Soul Agents e tocávamos com nomes como The Chi-Lites, Edwin Start e Gene Chandler", afirma Veasey. Ele lembra ter acordado para o rock, junto com seus amigos, quando ouviram Are you experienced? (1967), estreia do Jimi Hendrix Experience. "Foi impressionante. Uma pena que nunca conhecemos Hendrix".

Com jubas black power e visual hippie, os quatro rapazes partiram para uma visão negra do hard rock da época - arranhando até mesmo a psicodelia, quanto em 1968, gravaram com o músico Ellington Jordan o álbum Mary, don´t take me on no bad trip, creditado ao projeto Fugi, liderado por Jordan. Graças à gravação, conseguiram um contrato com o selo de blues Chess e lançaram em 1971 o primeiro disco, homônimo - que revelou hits como Cynthy-Ruth. Apesar da hibridez do som, Veasey jura que mesmo os negros locais gostavam da banda. Até  pelo fato de abordarem temas como pobreza e racismo em suas letras.

"Fomos vítimas disso. Crescemos nos guetos e vivemos uma situação racial complexa. Tínhamos muito funk no som", recorda o cantor. "Detroit tinha uma cena segregada. Era cheia de clubes para negros e brancos. Como tínhamos um estilo  original para nos  vestir e soávamos diferentes dos músicos locais, muita gente pensava que éramos de Nova York ou de Los Angeles".

Se Detroit gerou o soul pop da gravadora Motown e a doideira black de George Clinton (das bandas Parliament e Funkadelic), também deu ao mundo o pré-punk de bandas como Stooges e MC5. Além da psicodelia dos Amboy Dukes (do guitarrista Ted Nugent, que foi sucesso como cantor solo nos anos 70). Mas Veasey pontua que não chegou a dividir o palco com os roqueiros da cidade nesse período.

"Fizemos apenas algumas datas no Grande Ballroom, um conhecido clube de rock de Detroit", relembra. "Já com os artistas de soul, era diferente. Tínhamos até uma certa rivalidade com o Parliament. E os Temptations, quando nos viram ao vivo, ficaram impressionados".

A banda durou apenas mais um álbum, Long burn the fire (1971, já sob a variação Mer-Da) e separou-se devido ao término de seu contrato com a Chess. Os músicos passaram a se dedicar a projetos próprios - Veasey gravou um CD solo, cujo título era  o nome da banda, em 2006.

O pequeno culto ao grupo, que partiu de Detroit e chegou às sampleagens dos rappers, começou por volta de 2005, quando o selo Tuff City juntou os dois únicos álbuns da banda num único CD, The folks from mother´s mixer, que chamou a atenção de revistas como Rolling Stone e Mojo. A banda começou a se reunir para shows em datas especiais. Tocou num evento da Motown em 2005 e depois no Ottawa Blues Festival,  no Canadá, em 2006 - e até lançou um álbum, Renaissance (2006), em tiragem limitada.

Para Force of nature, preparam algo mais ambicioso, incluindo até mesmo um lançamento em vinil.

"Continuamos funky, rocky, moody, como você quiser chamar. A diferença é que não temos mais 20 anos", avisa Veasey. "Fazemos um som novo, mas que tem a ver com nosso passado".

Nota de atualização: Force of nature saiu e tem para vender até no Mercado Livre, em vinil e CD. Assim que a matéria do Jornal do Brasil foi publicada, mandei uma print para o empresário da banda. Ele me respondeu com um "me manda seu endereço para a gente te enviar um single de vinil". Achei que não iam mandar nada. Pois bem, mandaram: um single do selo Vampi-Soul com Take a little time e Let go. Tá aqui em casa.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

lml !!


Aos 15 anos, eu era fã de Black Sabbath. E Ozzy Osbourne. E Kiss. E Led Zeppelin. E Venom. E Danzig. E Slayer. E Faith No More. E AC/DC, Ratos de Porão, Sepultura, Metallica, Anthrax, Korzus. Demorei para me acostumar com o Iron Maiden - achava tudo muito igual e me incomodava o excesso de camisetas do grupo, que gerou até aquela piada de que originalmente se tratava de uma confecção que produziu roupas em excesso e montou uma banda só para divulgar as vendas das sobras de estoque. Hoje gosto.

Tinha vergonha de curtir bandas mais pop, como New Order e Depeche Mode, mas passou rápido. Ouço ainda todas essas bandas de metal - não, não tenho mais saco para as diatribes satânicas do Venom e quando passei para a era CD, desanimei de comprar discos deles. Gosta do diabo quem tem muita expectativa em relação a Deus e, por isso, se frustra rápido, acho. Para Slayer e Danzig, tenho disposição ainda. Uma descoberta tardia foi o Pantera. Dio, solo, também.

Revogam-se todas as disposições em contrário: o heavy metal é o meio mais tranquilo para se fazer amigos, conhecer pessoas e descobrir novidades. Mesmo que sejam novidades que se pareçam com mil outras bandas. É do bem, para quem não leva tudo tão a sério e entende as coisas certas na hora certa. Deve, acredito, haver ex-metaleiros - e isso levando-se em conta que algumas igrejas evangélicas falam em ex-criminosos e até em ex-gays convertidos. Ignoro se existem. Tem muito fã de metal babaca, como tem muito fã de pagode e axé gente boa. Mas é um meio fiel - e quem se arrastou por lá, não esquece.

Digo isso porque é 2012 e tem um monte de discos fazendo 40 anos - já falei sobre isso num post desse blog. Um deles fazia muito sentido para mim numa época em que odiar era legal - ainda que a mamãe e o papai estivessem ali do lado.  É o da capa acima, que você escuta aqui.

Volume 4, do Black Sabbath. Ouvi numa edição bizarra lançada pelo selo Young/RGE, hoje pertencente à Som Livre, ainda em vinil. O catálogo do Black Sabbath havia todo sido comerciado para um selinho chamado NEMS - nada a ver com a empresa montada nos anos 60 por Brian Epstein, empresário dos Beatles. As edições da RGE, sem encartes e com capas ligeiramente borradas, cheirando a bosta, vieram desse bolo. A gravadora também lançou vinis de Slayer, Metallica, Status Quo. Eu tive Reign in blood, do Slayer, em vinil, selo Young/RGE. Dei para alguém quando estava de saco cheio da banda. Burrice: no Mercado Livre, isso costuma valer pelo menos R$ 150, o preço de um supermercadinho do mês. Hoje faz falta.

O quarto do disco do Black Sabbath não era esse ódio todo não. Nem os três primeiros. The wizard, violência sônica do primeiro álbum homônimo (1970), tem letra tão inocente quando a de A banda, de Chico Buarque. Vol. 4 começa falando de almas torturadas e solitárias (a inesperadamente bela Wheels of confusion, enorme). Prossegue para amores que não deram certo (Tomorrow´s dream e o hit Changes), cai numa vinheta (FX) e termina o lado A com o magicismo de Supernaut.

No começo do lado B, Snowblind entrega tudo, falando abertamente de cocaína. E prosseguia para o cinismo de Cornucopia. Meio que o disco acaba aí. O resto é para pensar sobre o que já foi ouvido, absorver o golpe. Vêm mais três músicas, o belo e soturno instrumental Laguna sunrise, a basicona St Vitus Dance e a galopada Under the sun (que vira Under the sun/Every day comes and goes em edições americanas). Nas internas, a banda só brigava e se desintegrava. Casamentos acabavam - Changes vinha do fim da relação do batera Bill Ward com a mulher. O LSD pode até ter feito a vida dos Beatles mais feliz, digamos assim. Mas o que dizer de uma banda cujo quarto disco trazia a inscrição: "Queremos agradecer à grande indústria da coca"?

Acabou que fez sentido não só nos subterrâneos do som pesado. O público de FM foi obrigado a gostar da banda. Changes era uma balada meio brega, de piano e mellotron, que abriu espaço nas rádios. Virou modelo - os Smashing Pumpkins, quase metal, quase indie, trilha sonora mais de hipsters bizarros do que de roqueiros empedernidos, chuparam aquilo lá para fazer Mellon Collie and the Infinite Sadness, tema instrumental que dá nome a seu disco duplo de 1995. Alice Cooper simbolizou sua absorção pelas rádios com uma baladinha tão açucarada quanto (I never cry, lembra?). Tinha algo estranho naqueles anos 70 que até hoje carece de melhores explicações.

O Black Sabbath continuou fazendo sentido para mim, até hoje - ainda que nem sempre tenha tempo de escutar os discos deles, nem volte com frequência aos álbuns básicos daquele período. Tempo para ouvir música é ouro nos dias de hoje. Vale muito. Eu era mais feliz quando minha vida se resumia a ouvir Sabbath bloody sabbath (quinto disco, de 1973) o dia inteiro, ou quando And justice for all, do Metallica (1989) ainda era novidade. O som pesado já foi trilha de momentos legais, momentos nem tão legais, para exorcizar pés na bunda, até para namorar. E volta a fazer sentido a cada momento. Hoje, por exemplo, está fazendo.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

PEDRO SANTOS POR SEBASTIÃO TAPAJÓS


Comecei a fazer uma reportagem para uma revista sobre a pérola perdida Krishnanda, disco do percussionista Pedro Sorongo Santos (1919-1993), lançado em 1968 pela CBS - que está chegando esse mês às lojas em LP relançado pela série Clássicos em vinil, da Polysom. Cheguei a fazer contato com um grande amigo de Pedro, o violonista e guitarrista Sebastião Tapajós (que tocou guitarra numa música do álbum que nem ele lembra qual é) e fiz uma entrevista com ele por telefone. Infelizmente, a matéria acabou caindo. Acontece nas melhores revistas. No entanto, leia aqui o depoimento de Sebastião, que bateu um papo comigo sobre o disco e sobre a grande amizade que tinha com o percussionista.

Tapajós não faz por menos e define
Krishnanda - disco espiritualizado nas músicas e nas letras, com filigranas de percussão e voz que parecem antecipar os samples e as programações rítmicas em duas décadas - como um álbum "transformador". E melhor do que ler sobre o disco é ouvi-lo. Clique aqui e escute o disco todo - mas compre depois.





"Conheci o Pedro em 1967. Eu me mudei pro Rio nessa época, estava começando e arrumei um contrato com a Philips (hoje Universal). Comecei a gravar lá, ele se aproximou e ficamos amigos. O Pedro era um cara totalmente da paz, era um ser totalmente virado para a paz. No estúdio, fazia tudo ao mesmo tempo. Sempre saíam coisas bonitas. É um cara que faz falta, sinto até hoje esse vazio.

O Pedro era um cara muito bem humorado. Lembro que uma vez demos um show na Itália e o Gato Barbieri subiu no palco, com um chapéu grande. Falou em espanhol: "eu sou o Gato". E o Pedro: 'ah, e eu sou um ratinho'. O Gato saiu fora, achou que fosse alguma gozação. Acho que ele queria chamá-lo para trabalhar com ele. O Pedro, depois: 'dei o maior furo!'. Lembro que Baden Powell era o maior fã dele. O Tom Jobim também. Pedro era um cara que falava coisas de grande sabedoria, sobre Jesus Cristo, sobre o infinito... Era um cara que alegrava todo mundo. Lembro que uma vez ele viu dois amigos brigando e soltou essa frase: 'pô, vocês nunca se deram bem! Por que estão brigando?'. Todo mundo ria.

O Pedro era respeitado como um dos maiores percussionistas da época. E ele é um dos maiores de todos os tempos. É o precursor de tudo o que existe por aí. Digo que ele foi um revolucionário não apenas da percussão, mas da música brasileira. Tudo o que ele fazia era incomum, em qualquer instrumento: tamborim, pandeiro... Ele fazia os sons da forma que ele sentia. Não tocava como todo mundo. Lembro dele fazendo som com 3, 4 tamborins colados. Botava o tamborim entre as pernas, um reco-reco no dedo polegar da mão esquerda... fazia o reco-reco em cima do tamborim. Ele sempre foi diferente.

Lembro que nós gravamos dois álbuns na Argentina e depois ele não quis mais a carreira de músico solo. Disse para mim: 'quero fazer minhas coisas. Fala lá com o diretor da gravadora e vê se dá para você mesmo fazer. Se der para eu participar, participo'. Ele estava sempre por perto, morava bem perto de mim. Antes mesmo de morrer, ele dizia que não ia mais marcar de ir lá em casa. Que ia lá e se eu estivesse em casa, tudo bem - se não estivesse, tudo bem também.

Lembro que numa época, ele começou a fazer yoga. Sabe aquelas microfonias que dão no estúdio? Uma vez, após uma gravação, ele ficou 3, 4 minutos fazendo 'ommm'. O técnico, coitado, ficou procurando onde estava a microfonia e não achava. O Pedro começava a rir... Era uma figura. Fiz uns shows no Rio e o Pedro de vez em quando estava na plateia. Eu acabava convidando-o para o palco e avisava: 'vou convidar um percussionista maravilhoso, Pedro Sorongo'. Ele tinha um berimbau de boca e desenvolveu uma forma de tocar, só com o dedão, e tocava tudo ao mesmo tempo. Deixava todo mundo louco. Num especial para a TV Educativa, ninguém conseguia enxergá-lo na tela com o instrumento. De repente, vinha tudo ao mesmo tempo: berimbau, xique-xique, vários instrumentos, a voz dele... Ele fazia uma série de ruídos juntos. A plateia vinha abaixo!

Não me lembro qual foi a música que gravei no Krishnanda...  Lembro que era uma música bonita, que ele queria que eu fizesse a guitarra. Ele fez tudo como queria. O Maestro Pachequinho fez arrranjos e o diretor artístico foi o Helcio Milito, que era baterista do Tamba Trio e vendeu vários instrumentos feitos pelo Pedro fora do país. As letras são muito profundas, não falam do trivial. Ele não ficou chateado com a pouca receptividade ao disco, não. Mas é aquela história: o cara se dedica a fazer um negócio que ele acredita... e não fizeram nada com o disco. Krishnanda virou um disco secreto. E com certeza é um disco transformador, é um trabalho para esse nível".

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

PUNK CLÁSSICO

Uma pequena resenha do DVD The Clash live: Revolution rock, lançado pela Sony em 2009. Saiu no Jornal do Brasil. Curtam aí.

DOCUMENTÁRIO COMPILA SHOWS E REVÊ HISTÓRIA DO CLASH
Publicado no Jornal do Brasil em 26 de fevereiro de 2009


Misto de coletânea de apresentações ao vivo e documentário, The Clash live: Revolution rock revela uma banda com a qual é impossível não se identificar. Além de angariar admiradores famosos como Bob Marley, Bob Dylan e Bruce Springsteen, o quarteto de Mick Jones (voz, guitarra), Joe Strummer (voz, guitarra), Paul Simonon (baixo, voz) e Topper Headon (bateria) ainda gerou o esquema musical hínico do U2. E influenciou todo o rock brasileiro dos anos 80, de Blitz a Camisa de Vênus (que plagiaram sua Complete Control na inacreditável Controle total).

O DVD não é um documentário formal. É a história da banda contada apresentação após apresentação. Com narração ao fundo, falando de fatos históricos do Clash e relatando a absorção dos punks ingleses pelo mercado americano. Agora, prepare seus conhecimentos de inglês. Em Revolution rock, não há legendas em nenhum idioma.

Rolam sucessos como Complete control e I fought the law (ao vivo no London Lyceum em 1977) e o punk-reggae Police & thieves (de Junior Marvin e Lee "Scratch" Perry, gravada em Munique, em 1977). E a narração indica que, para além do punk, r&b e jazz foram entrando na rica receita do quarteto, cujo debute homônimo (1977) foi recusado pela CBS (hoje Sony BMG) americana, sob a alegação de que era cru demais. Coisa que músicas como White riot e What´s my name (com direito a um distintíssimo tombo de Joe Strummer), resgatadas em versões raras para Revolution rock, não desmentem.

E ainda tinha I'm so bored with the U.S.A., punk melódico cujos vocais são a matriz de bandas como Green Day e Offspring. No DVD, além da versão gravada no Apollo, em Manchester, em 1978, há Jones e Strummer, em entrevista, explicando que um de seus maiores hinos punk era para ter sido uma love song, chamada I´m so bored with you. Para os fãs da primeira fase do grupo, o DVD é um grande documento, já que é a que mais aparece.

O segundo LP, Give 'em enough rope (1978), teve gravações comandadas por um produtor do Blue Oyster Cult, Sandy Pearlman, e se tornou a estreia de Jones & cia. nos EUA. O DVD resgata as pesadas e emotivas Tommy Gun e Safe european home, gravadas no Music Machine, em Londres, em 1978. Já o clássico London calling (1979), que os EUA conheceram antes da Inglaterra, e o discutível triplo Sandinista (1981) aparecem menos, assim como o multiplatinado Combat rock (1982) --mas ainda há imagens raras do produtor Guy Stevens quebrando cadeiras na gravação de London..., para criar uma atmosfera de tensão que acreditava ser apropriada ao disco.

De brinde, o clashmaníaco ganha uma entrevista da banda no Tomorrow show, do apresentador Tom Snyder, no qual falam de seu primeiro grande show nos Estados Unidos, no Bond's International Casino, em Nova York, em 1981 --quando a banda que venderia seu primeiro milhão de cópias com Combat rock, no ano seguinte, percebia que já era grande.