terça-feira, 30 de outubro de 2012

BOSSA EM NOVA YORK


Era para ser uma matéria sobre artistas brasileiros que fizeram fama no exterior e lá ficaram. Mas não rolou pela falta de tempo e pela impossibilidade de achar certos nomes - um deles foi o percussionista Paulinho da Costa, que mora nos Estados Unidos e chegou a falar comigo ao telefone, mas estava ocupado com uns trabalhos e não pôde dar entrevista. Aí liguei para a produção de Vinicius Cantuária, radicado em Nova York, e dei sorte: ele estava no Brasil de férias e muito a fim de falar, já que seu primeiro álbum, homônimo estava sendo relançado em vinil e CD na série Meu primeiro disco, da Sony. Saiu essa matéria aí, publicada no Jornal do Brasil. Vinicius é o cara que fez o hit Só você (qualquer pessoa que tenha vivido nos anos 80 conhece essa música), mais um punhado de canções - mas seu currículo ainda inclui muita coisa, como os primeiros discos do O Terço. Leiam aí.

VINICIUS CANTUÁRIA PREPARA DISCOS DE JAZZ E MPB PARA 2009
Publicado no Jornal do Brasil em 13 de abril de 2009


Até 1994, quando deixou o Brasil, o cantor Vinicius Cantuária tinha seis álbuns no currículo (o primeiro deles, homônimo, de 1982, relançado agora em vinil e CD na série Meu primeiro disco, da Sony Music), além de pelo menos dois sucessos pop oitentistas de longo alcance, Só você e Na canção. Mas, a cada disco novo, sentia-se como se estivesse voltando ao álbum de estreia - até por ter seu nome eternamente citado ao lado dos mestres da MPB com quem trabalhava antes de iniciar carreira solo. Os fantasmas não incomodam mais. Quinze anos após mudar-se para Nova York, é contratado do selo americano Naive (que também lança os álbuns de Seu Jorge), apresenta-se em clubes de jazz locais, como o prestigiado Standard Club, e está prestes a acrescentar mais dois títulos à sua discografia internacional.

Eles são o latino e jazzístico Lágrimas mexicanas, gravado ao lado do guitarrista Bill Frisell, e o mpbístico Samba carioca, em que divide a cena com os pianos de Marcos Valle, Cristóvão Bastos e João Donato e mostra sambas próprios, além de uma releitura de Triste, de Tom Jobim. Ambos saem no segundo semestre.

"Sempre que eu lançava um disco, só citavam meu nome falando que eu tinha tocado na banda do Caetano Veloso, sido parceiro do Chico Buarque, do Gilberto Gil", afirma, de férias no Rio, Cantuária, autor de Lua e estrela, single do álbum com o qual Caetano Veloso ganhou seu primeiro disco de ouro, Outras palavras (1981). "Quando saí do Brasil, resolvi ir para um lugar que ninguém me conhecia. E quis fazer uma música que eu achasse que tinha a ver comigo, sem me preocupar com nada."

POUCOS DISCOS NO BRASIL  Até ser recuperado em CD, o disco de estreia - que já ganhara uma reedição 2 em 1 com o segundo álbum do cantor, Gávea de manhã (1983) - estava sendo baixado pelos antigos fãs em torrents e comunidades de download. O fato de o CD ter perdido valor não passou despercebido ao músico. Que ainda pretende brincar com o assunto num próximo lançamento.

"Penso em lançar um disco que vai ser exatamente isso: um único CD. Que vai ficar em exposição e pode ser ouvido pelos críticos nos shows, numa estação com vários fones", diz. "Vai acabar sendo copiado pelos fãs, mas o conteúdo poderá ser ouvido nas apresentações também."

Há uma certa sensação de exílio quando Cantuária fala de seu trabalho. O cantor confessa que gostaria de ver sua música atual repercutir mais no Brasil. Seu último álbum lançado aqui foi o primeiro disco nova-iorquino, Tucumã (1999), lançado pelo selo de jazz Verve e, no Brasil, pela Universal. Antes dele, tinha feito Sol na cara (1996) para o selo do músico japonês Ryuichi Sakamoto, também posto no mercado brasileiro, mas pela Eldorado.

"Hoje recebo e-mails de pessoas querendo saber o que eu estou fazendo, apesar de não ter gravadora para lançar meus álbuns no Brasil. O público está sempre pensando mais na frente do que as gravadoras", avalia o cantor, que não renega nada do que fez no passado. "Acho legal que minha carreira tenha abarcado de tudo, que eu tenha feito músicas com Chico Buarque (Ludo real) e Caetano Veloso (O grande lance é fazer romance). E que eu tenha composto Blue jeans com o Evandro Mesquita para a Angélica gravar. As gravações que o Fábio Jr. fez das minhas músicas (justamente Só você e Na canção) foram boas demais para mim.

Para as gravações dos discos novos, Cantuária não ficou preso à Nova York. Foi a Seattle gravar com Frisell e com músicos como o pianista Brad Mehldau. Para registrar Samba carioca veio ao Rio fazer sessões no estúdio do saxofonista Leo Gandelman, ao lado de amigos como Paulo Braga (bateria) e Luiz Alves (baixo), além dos pianistas escolhidos.

O cantor, que veio de um relativo sucesso no Brasil, diz ter escolhido uma postura mais para o underground ao mandar-se para os Estados Unidos. Considera-se um dos representantes brasileiros da música no exterior que mais batalha. E permanece acompanhando a MPB de longe.

"O fato de eu ter ido morar fora do Brasil foi uma redenção para mim", relata. "Ir para lá me ajudou a descobrir a falta de limites, que no Brasil eu não tinha, devido ao mercado. Ainda acho que faço música local. Muitos até falam que faço world music, mas acho que música do mundo, mesmo, quem faz é a Madonna. Ou o Michael Jackson."

BRIGAS NAS GRAVADORAS Nascido em 1951 em Manaus e surgido no mercado fonográfico na onda do rock progressivo dos anos 70 - foi baterista da banda O Terço e gravou com eles os dois primeiros álbuns da banda, de 1970 e 1972, homônimos - Cantuária logo se tornaria um músico requisitado para estúdios e palcos, além de um compositor conhecido.

Situação que duraria até ser convidado pelo produtor Carlos Alberto Sion para estrear solo na antiga RCA (hoje Sony Music). Entre um disco e outro, solidificou certa reputação de artista brigão e de personalidade forte. Contratado pela EMI após 1983, chegou a falar mal da gravadora em entrevistas.

"Acho que me faltou certo jogo de cintura para lidar com as gravadoras em alguns momentos", recorda. "Fui chamado para ir para a Warner quando estava na EMI e não fui, entre outras coisas. Também deixei de fazer certos programas que seriam importantes. Depois fui sendo levado para o rock nacional, mas eu era mais da MPB. Não tinha muita representatividade para seguir com aquele sucesso, nunca fui de vender muito disco. Poderia ter feito outro Só você logo em seguida, e não fiz."

A ligação com Tom Jobim e os recentes trabalhos com Marcos Valle e João Donato não escondem que, para além do pop, Cantuária é hoje um grande apaixonado pela bossa nova. Chegou a participar de eventos em homenagem aos 50 anos do gênero, no ano passado - um deles no mesmo Barbican Centre, em Londres, que abriu as portas para a volta dos Mutantes, em 2006.


"Estou cada vez mais apaixonado por Carlos Lyra e Roberto Menescal. E Jobim ainda é meu grande mentor", exulta o cantor, que, dos antigos parceiros, ainda tem contato com Caetano. "Sempre que estou no Brasil, aviso a ele e marcamos alguma coisa. Não cheguei a ouvir o Cê (disco de 2005 do cantor), mas achei excelente isso de ele estar com músicos novos. Com o Chico nunca mais tive contato".

Nota de atualização: Samba carioca e Lágrimas mexicanas saíram no Brasil pela gravadora Biscoito Fino.

domingo, 28 de outubro de 2012

ELVIS EM DVD!

Quando estava no Jornal do Brasil, toda segunda-feira era uma correria só no Caderno B. E não apenas por ser o dia da reunião de pauta - era o dia em que a gente ia escrever resenhas. Chegavam mil CDs,a gente trazia muita coisa de casa, ouvia tantas outras coisas na internet e saíam os textos. Lógico que boa parte do que chegava lá, a gente escutava, resenhava e largava num canto - ou vendia, ou dava para quem gostasse. Mas rolavam muitas descobertas legais e álbuns ou DVDs que me acompanham até hoje. Um deles é o DVD triplo Elvis - The Ed Sullivan Shows, lançado pela Coqueiro Verde no Brasil, que resenhei para lá. Seguem aí algumas palavrinhas sobre ele. Compre!


Elvis Presley dança em DVD sem a censura da TV
Publicado pelo Jornal do Brasil em 26/01/2009




Modelo para quase todo programa de auditório que honre tal título, o Ed Sullivan Show cumpriu a dupla tarefa de dar espaço a nascentes atrações do pop e a manter acesa a cultura do show de variedades. Incluía, entre as atrações, trechos de óperas e peças de teatro, balés e comediantes.

Exibido de 1948 a 1971, bateu recordes de audiência em várias ocasiões. Entre setembro de 1956 e janeiro de 1957, Elvis Presley --então no auge da primeira fase de sua carreira, antes de ingressar no Exército-- foi a atração principal de três programas acondicionados no DVD triplo Elvis - The Ed Sullivan Shows (Coqueiro Verde).

A primeira apresentação, em 9 de setembro de 1956, despertou a atenção de 72 milhões de telespectadores, cifra inacreditável para a época. E não reflete em nada a tensão na qual foi agendada.

Tal história é contada por testemunhas privilegiadas, como o produtor do programa, Mario Lewis, nos extras no primeiro DVD. Para não chocar a sociedade americana pós-guerra --e cujo conservadorismo chocava-se com o estilo lascivo da dança de Elvis-- algumas providências foram tomadas por Sullivan na primeira aparição do cantor.

Dividindo a noite com números de acrobacia, sapateado, comédia (a cargo de um grupo de jazz chamado The Vagabonds) e com anúncios rudimentares, Elvis (ainda jovial, empunhando um violão e distante da caricatura rotunda que marcaria seu fim de vida) não subiu ao palco do programa. Foi capturado em Hollywood, onde diretores o esperavam para filmá-lo apenas da cintura para cima.

Nem Sullivan, reconhecidamente durão com seus convidados, sabia ainda como lidar com o cantor de Don´t be cruel. Duas semanas antes de apresentar o artista que lhe tirava o sono, o apresentador sofreu um acidente de automóvel e foi afastado da atração por cinco semanas --cabendo ao ator e dramaturgo Charles Laughton apresentar Elvis.

Daí para a frente a diversão fica por conta do carisma do cantor, que todos podem ver no DVD. E do charme de canções clássicas como Love me tender (lançada no programa, como tema do filme homônimo), Ready Teddy e Hound dog, executadas ao vivo.

Nos outros DVDs, Elvis já é, sem dúvida, a estrela consagrada. Surge sem demoras para cantar Don´t be cruel no segundo programa e abrindo diretamente com um medley de Hound Dog, Love me tender e Heartbreak hotel  no terceiro disco.


Elvis - The Ed Sullivan Shows, além dos programas na íntegra, ainda tem filmes caseiros de shows do cantor e imagens de família, tornando o set valioso para os fãs do astro, ainda que tenham que dividi-lo com as demais atrações. Para os estudiosos da televisão é um grande documento de uma época em que a mídia engatinhava.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

JACK BRUCE ESTÁ NO BRASIL...


... mas ele me deu o cano quando nem sonhava em vir para cá, em 2009. Na época, o ex-Cream lançava um disco com um grande camarada, o guitarrista britânico Robin Trower (foto), que durante muito tempo foi considerado o "sucessor de Jimi Hendrix". Por intermédio da gravadora dos dois, fiz um pedido de entrevista por e-mail e esperei, esperei, esperei. Valia a pena. Cultuado por muitos, Trower esteve na banda Procol Harum (ok, ok, a de A whiter shade of pale, mas não, ele nem fazia parte do grupo nessa época) e tem vários clássicos na discografia. Um dos mais celebrados é Bridge of sighs (1974). Já Bruce dspensa apresentações. A dupla Trower-Bruce gravou dois discos, Seven moons (2008) e Seven moons live (2009, o da ocasião) e o guitarrista, graças a Deus, atendeu aos meus apelos por uma entrevista por e-mail. Queria ter falado com a dupla, mas não deu. Tá aí de qualquer jeito. Saiu no Jornal do Brasil. De nada! : )

ROBIN TROWER GRAVA AO VIVO COM JACK BRUCE, EX-CREAM, E LANÇA DISCO SOLO
Publicado no Jornal do Brasil em 18/08/2009


O inglês Robin Trower, 64 anos, tem dois predicados a lhe perseguir. Para muitos, ele é o eterno guitarrista do Procol Harum banda do fim dos anos 60 cujo único grande hit mundial, a romântica e progressiva A whiter shade of pale, de 1967, foi gravado antes que Trower ingressasse. Vários fãs de rock clássico, no entanto, o reconhecem como o músico que, após a morte de Jimi Hendrix em 1970, passou a ser insistentemente chamado de o novo Hendrix por vários críticos. Comparação que não soa mal feita após a audição de alguns de seus álbuns clássicos, como Bridge of sighs  (1974, considerado por muitos seu ponto alto) e dos dois discos que lança quase simultaneamente, o 24º solo What lies beneath e o CD ao vivo (que vira DVD em setembro) Seven moons live, dividido com o amigo Jack Bruce, ex-baixista do Cream.
"Acho que qualquer comparação com Hendrix não é justa porque ele era um gênio. Para mim, claro, é ótimo ter meu nome ao lado de alguém tão abençoado musicalmente", comenta Trower, que, embora poucos saibam, não teve participação alguma em A whiter shade of pale. "Mas acho que ela seja uma excelente canção, ainda que eu nem tenha tocado durante suas gravações"
Longe do Procol Harum, é voz corrente entre guitarristas que Trower conseguiu uma assinatura sonora bastante consistente audível nos vários lançamentos simultâneos e projetos aos quais se entregou. Um dos mais conhecidos foi o power trio que formou com Bruce e com o baterista Bill Lordan que resultou no disco B.L.T. (1980) e em Truce (1982), este com Reg Isidore nas baquetas. A dupla voltou a se encontrar em Seven moons, gravado em estúdio e lançado em 2008 o disco ao vivo relê algumas músicas do álbum e as acresce de pérolas do Cream (White roomSunshine of your love) e de B.L.T0. (Carmen).
"Antes mesmo de conhecer Bruce pessoalmente eu já era seu fã", recorda. "Para Seven moons, quis voltar a estar num trio e ele foi minha primeira opção. Nos reaproximamos quando o ajudei na remixagem de seus primeiros discos solo. Ele queria incluir músicas novas nos relançamentos, aí decidimos fazer um disco inteiro"
Para os dois lançamentos, Trower escolheu linguagens diferentes. Sobre White lies beneath paira o progressivismo que já aparecia em seus solos anteriores em músicas como As you watch each city fall, em duas partes com direito a arranjos de orquestra. O material feito ao lado de Bruce, por sua vez, é um rock tipicamente de power trio, com a adição do baterista Gary Husband. Voltado ao jazz, Husband, 49 anos, já havia tocado com Bruce e com o guitarrista John McLaughlin.
"Bruce tem grande admiração por Husband. Foi ele quem o trouxe", lembra Trower, ciente da paixão que trios como o Cream e o Jimi Hendrix Experience despertam nos fãs de rock. "A guitarra ganha mais liberdade de expressão quando está só ao lado do baixo e da bateria. Mas muitos esquecem que quem estabeleceu o formato guitarra-baixo-bateria como o ideal foi o Who, um quarteto"
Conversando com o JORNAL DO BRASIL, uma novidade que Trower ouviu foi o fato de ter fãs por aqui ainda que poucos de seus discos tenham ganhado edição nacional.
"Não sabia disso. Ficaria feliz de ser contatado por algum deles", diz o guitarrista, que, workaholic, não descarta nem mesmo a possibilidade de se reunir a seus ex-companheiros de Procol Harum, que planejam uma reunião. "Eles estão trabalhando num material novo e vou participar. Só não posso me juntar à banda para shows porque estou muito ocupado com meus discos".

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

CABEÇA DINOSSAURO: A HISTÓRIA (PARTE 3)


O jornalista cultural (e o crítico musical, vá lá) deve primar pela frieza, pela objetividade e por um método de trabalho quase cirúrgico, correto? Ok, mas entrevistando os caras que fizeram um dos discos-chave da sua vida, siga o manual do repórter-fã: você deve fazer entrevista, falar do disco (bem ou mal, e se for o caso), pedir autógrafo e bater foto. Foda-se. Ao final das mais de duas horas de bate-papo com Tony Bellotto e Charles Gavin, tirei foto com os caras. E segue aí a terceira parte da matéria que fiz na Bizz em abril de 2007, sobre a história do disco Cabeça dinossauro (1986). Desta vez, você lê sobre a gravação do disco, receptividade, histórias de bastidores, etc. Para complementar a leitura, vá até A vida até parece uma festa, bio dos Titãs escrita por Luiz André Alzer e Hérica Marmo.

Até os Titãs entrarem no estúdio Nas Nuvens, foi preciso muita paciência - coisa que nenhuma das partes tinha. O papo entre banda e produtor para oficializar o trabalho se deu numa convenção da Warner, no hotel Transamérica. No que dependesse do clima, o disco nem sairia. "Sentamos para jantar, todo mundo de mau humor...", lembra Gavin. "Eu ainda falei (com cara de desprezo): 'Vem cá, o que você tá ouvindo ultimamente? Aí o Liminha (imita cara de tédio): 'Ah, o Police...' Ninguém sabia o que dizer, um clima horrível", diz o baterista, admitindo que foram "arrogantes e metidos". Bellotto também assume: "E ainda o Liminha falou: 'quer dizer que vocês falam mal de mim e nem me conhecem?' Ele tinha toda razão..."

ELE MEXIA, ELES GOSTAVAM  Trancado no Nas Nuvens por dois meses com dois produtores (Liminha e Pena Schmidt, este último autodefinindo-se como "um parteiro, um clínico geral", mas responsável por conduzir várias músicas com a banda), o grupo foi dando linha na pipa. O começo foi duro. "Parecia que uma nuvem negra tinha baixado sobre o estúdio", lembra Liminha. "Uma máquina de 24 canais deu pau no primeiro dia. Chegamos a achar que fosse mau presságio". 

Atritos não faltaram - Fromer, por exemplo, se irritou com pitacos de Liminha nos arranjos de Família e Estado violência. "Ele não estava e o Liminha botou o Tony para regravar uma parte de guitarra dele. Marcelo ficou possesso", lembra Gavin.

O trabalho conjunto foi quebrando o gelo entre aqueles nove paulistas no Jardim Botânico. O que, música meio concretista feita no violão por Arnaldo Antunes, envolveu toda a equipe - que partiu de um funk inspirado no Clash para chegar a uma música que já soasse como um "mix" (que é como chamavam as versões dançantes e cheia de efeitos, muito em moda na época, por causa das danceterias). "Passamos uma semana no estúdio trabalhando nessa faixa", lembra Liminha. "A gravadora nem poderia saber disso!"

De fato, O que virou o xodó da produção, com detalhe de assustar: o técnico de som Vitor Farias, para editar as partes diferentes da música, passou horas ouvindo a faixa e recortando/colando pedaços de fita, na mão. Atitudes como esta deram a Farias o crédito de co-produtor do Cabeça dinossauro.

A face do destruidor era um hardcore, que Liminha reprovou por achar "convencional demais"  - acabou pedindo que a banda gravasse uma parte da base e, em seguida, rodou a fita ao contrário. Cabeça dinossauro, a faixa-título, ganhou a contribuição do produtor na percussão, complementada com uma adaptação do Cerimonial para afastar maus espíritos, dos índios do Xingu. Uma boa ideia para afastar a zica dos shows desmarcadoos, digamos. "O disco inteiro era uma sessão de exorcismo", enfatiza  Séergio Britto. "Mas só botamos o que fucionava bem musicalmente".

Então procede a fama de que Liminha "mexia" nos arranjos dos discos que produzia? "Eu mexia, sim, e eles gostavam do resultado!", admite o produtor, num tom de quem não tem dúvidas a respeito dos bons serviços prestados. "Reclamar faz parte. Descontentamento gera polêmica e isso, em doses pequenas, chega  a ser bom. Sempre mostro minhas ideias e quando toco um instrumento é porque me convidam".

1,2,3, GRAVANDO! O Nas Nuvens era um estúdio high-tech. Mas o modus operandi da galera era quase punk. "Tocamos todos juntos, em vez de fazer como no Televisão, em que gravávamos separados", recorda Gavin. "Eu ficava num canto do Nas Nuvens, o baixo do Nando no corredor, virado pra cozinha. O Tony do meu lado, o Fromer à minha direita e o amplificador numa outra sala, fechada. E 1-2-3- gravando!". Homem primata foi concluída em outro estúdio carioca, o Transamérica - Britto quis gravar com um piano acústico, que o Nas Nuvens não tinha.

Atualmente, em grandes gravadoras, a regra é clara: artista que vende pouco na estreia é degolado. Mas a alegada convicção de Midani na primeira metade dos anos 80 rendeu um belo salvo-conduto aos Titãs. "Sempre tive medo de arrtista que estoura logo no primeiro disco", afirma. "Porque nem ele, nem a gravadora, nem o público sabem direito o que aconteceu. Isso aconteceu com muita gente:  RPM, Ultraje, Ronnie Von... Para mim, nos primeiros discos a gente investia e no terceiro recuperava. E os Titãs foram exatamente assim".

A própria banda oscilava na confiança (Branco Mello chegou a declarar à BIZZ, em agosto de 1986, que o Cabeça pode "vender 100 ou 100 mil cópias que não me surpreende"). Mas a recepção animadora da mídia deu um refresco. "O disco vendem muito mais do que imaginávamos", diz Bellotto. "O que nos ensinou a apostar na nosssa intuição", completa Gavin. "AA UU era uma música completamente estranha para rádio. Muita gente da gravadora até falava: a gente vai sair com uma música cujo refrão é AA UU? Mas isso só aumentou a curiosidade das pessoas". A faixa foi incluída na trilha sonora da novela global Hipertensão.

Cabeça dinossauro saiu em junho de 1986, com duas faixas censuradas, Bichos escrotos e Igreja. Esta, oficiosamente, já que as rádios é que se recusaram a tocar uma música que falava em "eu não gosto de padre/madre/frei/bispo/Cristo/eu não digo amém". Nando Reis, autor da canção, hoje: "Ainda vejo sentido nessa letra. Atualmente sou menos radical, mas tenho divergências em relação a dogmas, questões como preservativo, aborto, eutanásia... Mas aquilo era um protesto à censura brasileira ao filme Je vous salue, Marie, de Godard. E Igreja não é sectária. Sou eu que estou falando que não gosto de padre, madre. Quem quiser que goste".

Curiosamente, por causa das conexões com o underground paulista, a banda (mainstream demais?) provocou certa discussão entre os "legítimos" defensores dele. Igreja foi acusada de copiar Santa Igreja, das Mercenárias, e Polícia, de plagiar a faixa homônima da mesma banda. Ainda havia Maldita polícia, dos Inocentes, no mesmo bolo. "Era como se os punks pudessem falar daquilo e a gente, não", reclama Belloto, que hoje admite as influências. "O disco coincidiu com o fim da ditadura, com o que todo mundo estava vivendo". Os ânimos foram apaziguados quando Branco Mello produziu os Inocentes para a própria Warner (o EP Pânico em SP, de 1986). Ajudou tanto na filiação punk dos Titãs quanto na radicalização do mainstream do rock brasileiro. "Era uma época em que a criação se casou com o mercado. Havia respeito pelo resultado musical. O que era estranho passou a ser profissional", acredita Pena Schmidt.

"Era como se todo mundo estivesse saindo da toca", define Gavin. "Fizemos programas ao vivo em rádios nos quais tocávamos o disco inteirinho e os ouvintes entravam no ar, em clima de conspiração". Bellotto completa: "Num desses programas, tocamos Igreja e um cara da rádio disse: olha, tão ligando de alguma coisa católica, reclamando da letra". 250 mil cópias foram vendidas.

EPITÁFIO A partir de Jesus não tem dentes no país dos banguelas (1987), Pena Schmidt foi se distanciando da banda. "A carrera me guiou a outras praias. Os Titãs casaram-se com o Lima e eu abençoei a união", lembra Schmidt, que ainda nos anos levou para a Warner mais bandas, como Mulheres Negras e Patife Band.

Cabeça dinossauro deixaria marcas fundamentais na banda, decisivas para as inovações dos discos seguintes, como Jesus... e Õ blésq blóm, de 1989 ("um Televisão bem gravado", como define Bellotto). E até para a volta ao esquema "1-2-3 gravando" no tosco Tudo ao mesmo tempo agora, de 1991. "Este e o Cabeça foram discos de rock, no foda-se", conta Bellotto. Para Liminha, Cabeça dinossauro ainda é um disco atual. "Dentro do contexto de uma época, ele é um clássico". Arnaldo Antunes concorda: "Tudo que foi potente na sua época não perde o fator de novidade". Ecos do disco podrm ser escutados em bandas como Charlie Brown Jr. Raimundos (lançados pelos Titãs no selo Banguela), Skank, Cidade Negra, Planet Hemp e até em raivosos grupos da atualidade, como Cachorro Grande e Rockz. Sua linguagem partiu do rock brasileiro dos anos 80 e chegou ao heavy metal (com o Sepultura, que gravou Polícia) e até ao samba-rock (Molejo, que botou o reggae Família para sambar). Em 1997, uma eleição com 44 jornalistas na Bizz elegeu Cabeça dinossauro o melhor disco do pop brasileiro de todos os tempos.

"Cada vez que se dá um salto no escuro, como foi o Cabeça dinossauro, criam-se continentes inteiros que serão colonizados e incorporados ao ouvido geral", diz Pena Schmidt. "Olhando de longe, parece fácil. Todos os pedaços estavam ali disponíveis para ser juntados. Mas há sempre o lampejo genioso que consegue trazer o avanço que falta, como a fusão do sequencer com a poesia concreta em O que. A soma de tantos pequenos avanços botou o Cabeça na história. O disco ficou para sempre!"

terça-feira, 23 de outubro de 2012

CABEÇA DINOSSAURO: A HISTÓRIA (PARTE 2)

Vamos agora à segunda parte da matéria que fiz na Bizz em abril de 2007 sobre o disco Cabeça dinossauro, o terceiro dos Titãs. O período imediatamente anterior ao álbum, com o lançamento do segundo disco, Televisão, e a prisão de Arnaldo Antunes e Tony Bellotto, aparecem aí. 





Está em Televisão (1985), a raiz do descontentamento que conduziu a Cabeça dinossauro no ano seguinte. Na verdade, a despeito dos méritos pop do segundo trabalho dos Titãs, a banda se viu atropelada pela própria pretensão eclética. "Queríamos que cada música representasse um canal de TV", lembra Charles Gavin, que estreou na banda nesse disco substituindo o baterista original, André Jung (depois batera do Ira!).

O público dançou Insensível e se divertiu com Televisão. Mas não sacou o que era aquilo. "As pessoas não entenderam, e não tinham mesmo como entender", avalia Bellotto. Para piorar, a banda passou um bom tempo em guerra de nervos com seu produtor, Lulu Santos - este, já com um pé fora da Warner, também sua gravadora. Ao mesmo tempo, Nós vamos invadir sua praia, estreia do Ultraje A Rigor (da mesma gravadora e da mesma safra de contratações roqueiras), passou de sapato alto pelas paradas em 1985, deixando os Titãs a ver navios. Midani acredita que o Ultraje não tenha minimizado os Titãs. "Não creio que uma banda tenha atropelado a outra. Inútil era um sucesso que ia além do rock, uma coisa simbólica do que o Brasil sentia naquele momento. Não era só rock´n roll, era catarse. Algo a que os Titãs só chegaram com o Cabeça".

IRMÃ HEROÍNA "Quando eu e Arnaldo fomos presos, a casa caiu", lembra Bellotto. "Essa exposição quase impossibilitava a gente de ser uma banda pop. Não dava mais pra ser 'A bandinha do Chacrinha'. Isso nos obrigou a tomar uma posição. 'A gente tá numa barra mais pesada, sofrendo as consequências da lei, do Estado, de toda essa hipocrisia'. Nossa prisão foi tomada como um exemplo pelos promotores, foi importante para eles nos marcarem como uma 'coisa ruim'. Isso propiciou o clima de 'foda-se', que o Cabeça tem. Pensamos: 'Vamos fundo, agora não temos mais nada, só nossa criatividade, nossa música, nossa revolta'".

Dizer que o Cabeça soou revoltado por causa da prisão de Bellotto e Arnaldo Antunes com heroína pode parecer limitador ("o disco teria soado raivoso do mesmo jeito; já caminhávamos para isso", atalha Antunes). Mas é fato que aumentou a fúria do grupo.

Rebobinando a fita: pego com heroína num táxi em São Paulo, no dia 13 de novembro de 1985, Bellotto acabou dando declarações na delegacia que leveram seu colega - o que havia lhe passado a droga - a ser enquadrado como traficante. "Meu grande vacilo foi dizer que era dos Titãs, tipo: 'sou conhecido, livra minha cara!'. Aí é que me afundei. E ainda continuei: 'Eu estava agora mesmo compondo na casa do Arnaldo...'", disse Bellotto em entrevista à Playboy, exatos dez anos depois do acontecido. Falando à revista, o guitarrista continuou: "Não falei que tinha comprado a heroína dele. Disse que estava na casa do Arnaldo e que lá consumimos juntos. Houve má-fé do delegado. Enquadrar a gente como consumidor, tudo bem, era um flagrante. Mas botar o Arnaldo como traficante...". O resultado? Shows desmarcados, perda de público e vácuo de programas de TV - com exceção histórica do Perdidos na noite, de Faustão Silva.

"Fiquei chocado quando visitei o Arnaldo na prisão", lembra Gavin. "Era uma cela sem cama, sem banheiro. Ele estava sendo acusado de uma coisa que não era verdade, teve de esperar um procecimento jurídico que levou 25 dias..." Do assombro de Gavin veio um dos clássicos do disco, A lei que eu não queria, futura Estado violência, feita por ele a partir de uma antiga composição sua dos tempos em que tocava no Ira!, Homem palestino (Nota de atualização: Que ninguém imagine Gavin com um violão em casa, compondo. "Eu só sei tocar bateria. Tive a ajuda do Nando para fazer a música", me disse na época).

Tony Bellotto recorda que, após a prisão, a heroína sumiu da vida da banda. Mas relembra o papel das drogas nela (exceção feita ao abstêmio Gavin e, na época, a Nando Reis). "Não havia essa coisa de usar drogas para tocar ou compor. Usávamos pó e maconha como as pessoas tomam cerveja", diz o guitarrista. "Consumíamos normalmente, até para tocar o ritmo intenso de shows e gravação. Heroína, foi só uma experiência. Mas ainda que não tomássemos drogas, o Cabeça teria saído exatamente como ele é".

CLIMA TENSO "Queríamos soar como uma banda de palco. E esse projeto começou logo na gravação da demo", lembra Bellotto, que se trancou com os legas no estúdio Mosh, em Pinheiros, em dois dias de março de 1986, para a pré-produção. A ideia era manter a variedade musical, mas buscar uma unidade, "como a dos discos do Clash". Comandado pelo mesmo Pena Schmidt do primeiro LP, o octeto recuperava canções antigas, como Bichos escrotos ("era para ter saído no Titãs, mas tivemos medo de a censura riscar o LP, como fizera com As aventuras da Blitz", lembra Nando Reis), Homem primata, AA UU. E criava novas músicas, como Polícia, na qual o guitarrista fazia seu registro musical do acontecido.

Entra aí um personagem de suma importância. "Um dia o Liminha apareceu lá no Mosh", lembra Bellotto. "Ele foi lá, deu um toque na bateria, falou: 'Tá bom esse som!' Quando a demo foi para a Warner, decidiram que devíamos trabalhar com ele". O problema é que o produtor já conhecia a banda de outros carnavais. "O Tony e o Fromer me levaram uma demo, não sei se do primeiro ou do segundo LP", recorda Liminha. "Na época eu estava produzindo um disco do Gil e não pude trabalhar com eles. E isso causou antipatia". Resultado: o grupo brindava jornalistas com aspas como "os discos do Liminha soam todos iguais".


BOX 2:
FALAR É FÁCIL
Se duas cabeças pensam mais do que uma, OITO BOCAS falam muito mais do que as regras do "mercado" ou da política de boa vizinhança recomendariam.  Confira você mesmo.

"Os discos produzidos pelo Liminha soam todos iguais"
Branco Mello, na Folha de S.Paulo, antes de ser produzido sete vezes por Liminha

"Quando vejo Herbert Vianna dizer que 'hoje temos que olhar para cá (as raízes brasileiras)', acho uma pretensão que me soa ingênua, um pensamento mais do que provinciano" 
Branco Mello, na Bizz, em 1986, antes de a banda assumir sua face retropicalista em Õ blésq blóm.

"Nem sempre as dez mais são as dez melhores"
Arnaldo Antunes, no programa Clip clip da Rede Globo, no auge do radicalismo dinossáurico - e logicamente, 13 anos antes de os Titãs lançarem um álbum chamado... As dez mais.

"Na verdade nunca quisemos fazer isso (playback na TV). Antigamente, a título de divulgação, fazíamos jabá, playback, de tudo. Agora, não"
Sergio Britto, em 1987, dois anos depois de seu disco Televisão - e dez anos antes de receberem o disco de ouro pelo Acústico MTV, fazendo playback no Programa Raul Gil (Nota de atualização: E não, o grupo não parou de fazer TV. No natal de 1987, Arnaldo Antunes apareceu de gorrinho de Papai Noel no Chacrinha - não, eles não se recusaram a usar gorrinho, como tinham feito  o Ira! e o Zero - e a banda cantou o hit Lugar nenhum. Eu vi na época).

"Todos temos trabalhos paralelos, que não caberiam nos Titãs"
Arnaldo Antunes, na Bizz, em 1987, cinco anos antes de anunciar que estava deixando a banda.



segunda-feira, 22 de outubro de 2012

CABEÇA DINOSSAURO: A HISTÓRIA! (PARTE 1)

Você já parou para se perguntar qual o motivo de os Titãs - banda que teve como baterista o pesquisador musical Charles Gavin - nunca terem ganhado um relançamento decente de seus discos? Bom, eu já, e a maior galera também. Cabeça dinossauro (1986), disco-chave da banda, saiu só há pouco, em CD duplo cheio de bônus. Em 2006/2007, o lançamento ainda estava tramitando pela Warner quando fiz essa reportagem para a Bizz, sobre os bastidores do disco. Fui muito bem recebido por Tony Bellotto em sua casa para duas horas e meia de papo - não, a Malu Mader não estava lá! - e Charles Gavin apareceu depois. Com os outros Titãs e ex-Titãs, conversei por e-mail e telefone. Para não encher o saco de ninguém com posts grandes, vai em três partes, incluindo boxes, notinhas de atualização, etc. Nessa primeira, confira o primeiro grande encontro dos Titãs com o público carioca (com direito à destruição de cadeiras do Teatro Carlos Gomes) e parte do período pré-Cabeça, do disco Titãs (1984). Espero que vocês gostem.


OITO CABEÇAS, UMA SENTENÇA
Guitarras barulhentas, palavrões, primitivismo. Só faltava mesmo um teatro destruído para que Cabeça dinossauro radicalizasse o rock dos anos 80
Publicado na BIZZ em abril de 2007

A turnê do disco Cabeça dinossauro, o terceiro dos Titãs, já varria o Brasil desde o lançamento, em agosto de 1986. Entretanto, foi só quatro meses depois - e justamente no Rio, cidade que até então praticamente ignorava o grupo - que Arnaldo Antunes (voz), Sergio Britto (voz e teclados), Branco Mello (voz), Paulo Miklos (voz), Nando Reis (voz e baixo), Tony Bellotto (guitarra), Marcelo Fromer (guitarra) e Charles Gavin (bateria) puderam renascer como a banda de rock radical, barulhenta e agressiva que os colocou na história.

Se os dois primeiros discos do octeto (Titãs, de 1984, e Televisão, do ano seguinte) soavam "travados", a energia quase punk de Cabeça dinossauro levava o público da banda a ter atitudes sempre insuspeitas. Ter na ponta da língua músicas que não tocavam no rádio virou café pequeno quando, no dia 14 de março de 1987, no centenário Teatro Carlos Goes, no centro do Rio, o público, ensandecido, subiu nas cadeiras feito um bando de homens primatas e transformou o estofamento da casa em farrapos.

Do palco, decorado com enormes e assustadoras peles de animais, a banda nem viu a confusão. Mas, nos camarins, informados do vandalismo, nenhum titã conseguiu disfarçar a euforia. "Achamos o máximo", lembra Sérgio Britto. "Aquilo nos transformou, meio que involuntariamente, em símbolo de rebeldia e inconformismo. Tem coisa melhor para uma banda de rock?". O que, a rigor, não passou de algumas fileiras de estofamentos detonados, ganhou contornos sócio-políticos e repercutiu no país inteiro ("Diziam que, se um artista não acontecesse no Rio, não acontecia no Brasil"., lembra Tony Bellotto). Assim, aquela noite entrou para a biografia dos Titãs como o momento em que, finalmente, o grupo paulista encontrou seu público.

ROCK TEATRAL Duas décadas depois, fica a pergunta: se Cabeça dinossauro trazia o material mais radical dos Titãs, o que levou o grupo a escolher justamente um teatro para mostrar seu repertório? "Eu vi shows dos Mutantes, do Som Nosso De Cada Dia, em teatros", lembra Bellotto. "Teatro era uma opção a mais de lugar para tocar. E na época você não tinha esses halls, como tem hoje". Ainda assim, tocar Porrada e AA UU no Carlos Gomes talvez fosse uma boa representação de como estava turva a percepção da nova condição dos Titãs no cenário do pop brasileiro - inclusive para os próprios Titãs.

Investindo numa linguagem crua, que falava tanto ao público do rock dos anos 80 quanto ao garotão revoltado, Cabeça dinossauro foi a primeira aposta na segmentação a realmente dar certo no rock nacional. Isso demandava outro público, outro momento, outra estrutura - coisa que teve que ser descoberta aos poucos. "O Cabeça foi um risco enorme", afirma o produtor Pena Schmidt, grande testemunha daquela época. "Mas a recompensa também foi".

Schmidt, responsável pela produção da estreia do grupo, desfaz a ideia frequente de que a banda seria um virtual fracasso antes de 1986. "Os Titãs já eram um nome nacional, faziam turnês, Sonífera ilha tocou muito, eram fregueses do Chacrinha. Havia uma expectativa muito grande em relação ao Cabeça".

Nando Reis, hoje um ex-titã, confirma: "O moral na gravadora ia bem,mas tínhamos problemas com nossas próprias características. Nosso público era esquisito, a banda era muito eclética, havia cinco cantores... Tínhamos uma grande insatisfação em relação ao que pretendíamos". A leitura geral mostra que os Titãs eram uma banda no palco (mais agressiva e anárquica) e outra em estúdio (mais tímida, incapaz de mostrar a que viera).

A Warner, gravadora que os lançou, havia chegado ao rock nacional graças a uma crise. "O mercado parou em 1982", lembra o então diretor-presidente da gravadora, André Midani. Para renovar a empresa,  ele contou com a assessoria de Schmidt, que descobriu uma série de bandas em São Paulo. "Foi ele quem mostrou o caminho".

Definitivamente, Midani não era um sujeito "do rock". Mas percebeu a validade daquela movimentação. "Em 1980 me parecia que a MPB precisava de uma mudança, que ela e  o público estavam se distanciando", afirma ele, que já havia provocado discussão nos anos 70 ao dizer. "O futuro da MPB é o rock". 

"Depois disso, saí para jantar com o Vinicius de Moraes e ele: 'Olha, André, como frase de efeito foi maravilhosa... mas vá tomar no seu cu!'", recorda, rindo. Foi nesse contexto que os Titãs, os "patinhos feios" do rock brasileiro dos anos 80 (a expressão é de Britto) que, ainda assim, emplacaram Sonífera ilha e Toda cor, logo na época do primeiro álbum, homônimo.

BOX 1:
A PRÉ-HISTÓRIA RELANÇADA?
Em julho de 2006, começou a correr pelos jornais a notícia de que os 20 anos de Cabeça dinossauro seriam comemorados com um relançamento à altura do disco: uma edição remasterizada, com um CD bônus com a demo do álbum e mais um DVD com um show da turnê (um especial da TV Cultura na temporada de lançamento do disco, no Projeto SP).

"Nossa ideia é relançar todos os discos com bônus, material jornalístico, textos, fotos raras, como fizeram com o Who", diz Charles Gavin, que durante uma mudança de endereço achou todas as demos da banda. A do Cabeça estava preservada numa prosaica fita cassette TDK. "Acho algumas versões da demo até melores que as do disco, como a de Bichos escrotos, que era mais funk do que rock", diz Charles Gavin, animado com a possibilidade de o público conhecer esse material.

Produzida por Pena Schmidt e gravada em dois dias (a data que aparece na fita é 27 de fevereiro de 1986), a demo, ouvida com exclusividade pela BIZZ revela que, antes de Liminha chegar, o disco já tinha um vigor inaudito na banda e no rock nacional. Muita coisa já soava igual ao disco, mas há muitas curiosidades para os fãs, como o coro de AA UU, um estranho "uga buga uga buga" em Homem primata, a falta da percussão em Cabeça dinossauro e Nando rezando o Pai Nosso em Igreja. Na demo, não há Porrada, mas há uma faixa inédita - o funk-rock Vai pra rua, de Arnaldo Antunes e Paulo Miklos.

Passada a efeméride dos 20 anos do disco, o projeto ainda vive, nas mãos dos advogados da banda e da Warner. "Mas não há uma data certa", adianta o baterista.

Nota de atualização: A tal versão turbinada do Cabeça, você sabe, saiu só agora há pouco. Curiosidade: a banda paulista Banzé acabou gravando Vai pra rua, a tal sobra do disco, antes de ela sair no CD relançado. Um dos integrantes do grupo, Thadeu Meneguini, me disse que descobriu a música por intermédio da matéria da Bizz. Curta a versão deles aí do lado.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

1972: ROCK É ROCK MESMO



Fiz uma lista de grandes discos de rock do ano de 1972 (incluindo aí alguns de música brasileira, ok, mas que podem ser abrigados tranquilamente debaixo do guarda chuva roqueiro) para a coluna Ondas sonoras, que faço para a revista Vizoo. Ano bom esse.


Se você é daqueles que espumam de ódio só de ouvir falar nas bandas de rock de hoje e odeiam tudo o que saiu nas lojas (ok, você é do tempo em que existiam lojas de discos) após 1980, ou 1990, melhor rever seus conceitos. Ou vai acabar como seu avô, fã de um bolerão, que subia pelas paredes de ódio quando seu pai ouvia Elvis Presley ou Beatles em casa. Tem muita coisa boa sendo feita hoje em dia, inclusive no Brasil. Mas vá lá, ainda assim, vão aí excelentes argumentos para você soltar pra cima do primeiro hipster que te surgir pela frente defendendo que Foster The People é bom. Escolha o seu caminho e aproveite bem as dicas. Sempre lembrando que a intolerância fere e mata.


AS ONDAS DE 1972 CONTINUAM A ROLAR!
1972, ano do "verão do amor" à brasileira. E ano também de alguns dos maiores discos da história do rock (inclusive no Brasil). Resolvemos listar alguns. Mas claro, muitos ficaram de fora. Com essa lista, já dá para se ter uma ideia de que estirpe de gigantes caminhava sobre a Terra há 40 anos.



THE RISE AND FALL OF ZIGGY STARDUST AND THE SPIDERS FROM MARS - David Bowie. Os anos 70 estão aqui, sem retoques: um popstar de plástico, vindo do espaço sideral, torna-se mania mundial - e é destruído pelos excessos e pela própria adoração dos fãs. Uma alegoria da fugacidade pop e da falta de perspectivas para quem já esteve na crista da onda. Um daqueles discos que todo mundo coloca para tocar várias vezes após acabada a primeira audição, com faixas como Lady Stardust, Ziggy Stardust, Starman, Rock'n roll star e outras, ultrapassando a linha do grudento.


EXILE ON MAIN STREET - Rolling Stones. Soa como algo sendo construído às vistas (e ouvidos) dos fãs. Gravado na França entre sessões intermináveis de estúdio, com presença marcante de amigos (da onça ou não) e salpicado de encrencas com a polícia, traz um punhado de clássicos. Entre eles, Tumbling dice, Shine a light e Sweet black angel, pequenos retratos do auge da experimentação rocker da banda, trazendo o gospel e o blues para o universo das canções. A influência country-blues de Gram Parsons, chapa de Keith Richards, é sentida em vários momentos.

VOLUME 4 - Black Sabbath. Metade do budget do disco foi gasto com cocaína - e a banda ainda agradeceu à "grande indústria da coca dos EUA" no encarte. O peso desesperador do grupo vinha unido a letras solitárias e estranhas, como em Wheels of confusion e Supernaut, ou na homenagem à coca Snowblind. O quarto disco dos pais do heavy metal vinha com ares de barômetro dos anos 70 e ainda obrigava o público de FM a também gostar da banda, graças à balada Changes.


MUTANTES E SEUS COMETAS NO PAÍS DO BAURETS - Mutantes. Um adeus. À presença de Rita Lee na banda, aos resquícios tropicalistas (Rogério Duprat, arranjador do grupo, nem está presente). Mas um alô também à megalomania dos anos 70. O grupo caiu de boca no progressivo (na faixa-título), mas sem deixar de lado as raízes (Posso perder minha mulher, minha mãe, desde que eu tenha o rock'n roll e a cover de Rua Augusta, de Ronnie Cord) e sem deixar de focar o dado pop (em Balada do louco e no soul anfetamínico Dune Buggy). Discão.


MAGICIAN'S BIRTHDAY - Uriah Heep. Nos anos 70, quem era pesado não era progressivo. Menos o Uriah Heep, que se autoconcedeu a licença para soar heavy, viajante e cheio de referências místicas, concomitantemente. E em especial a partir deste disco, no qual deixava de lado a faceta hard dos primeiros discos e se concentrava em contar uma história na música. O grande hit foi a boa Sweet Lorraine.



SOMETHING/ANYTHING? - Todd Rundgren. Definido como músico "progressivo" por pura falta de opção melhor para etiquetá-lo, Rundgren tocou quase todos os instrumentos nesse disco duplo e misturou canções de amor (I saw the light é a melhor delas), megalomania (o instrumental Breathless, repleto de instrumentos eletrônicos antes de virarem moda), bizarrices (a vertiginosa The night the carousel burnt down e a drogada I went to the mirror) e tudo o mais.


666 - Aphrodite's Child. Antes das bandas de black metal, esse promissor grupo grego de rock progressivo (do qual saíram Vangelis e Demis Roussos) estampou o número da besta na capa de um disco e mandou bala num álbum duplo conceitual sobre o Armagedom bíblico. Assustaram: só Break e The four horsemen tocaram no rádio e o resto do álbum, entre o progressivo e o experimental, definitivamente não marcou época. No Brasil, saiu pela metade.


ACABOU CHORARE - Novos Baianos. Isso era o Brasil em 1972. E ainda é - já que é praticamente impossível imaginar qualquer progresso no rock nacional sem que tenha existido esse coletivo de baianos-ou-quase, com sua disposição para mesclar chorinho e Jimi Hendrix, Beatles e João Gilberto. O segundo disco do grupo só tinha clássicos (de Preta pretinha a Tinindo trincando). Mesmo separados, os NB ainda permaneceram marcando presença, por intermédio das carreiras de seus integrantes. Fato: são a banda com maior poder de influência no pop-rock brasileiro.


OBSCURED BY CLOUDS - Pink Floyd. Ao fazer a trilha de um filme cult (o francês La vallée, de Barbet Schroeder), o Pink Floyd fez, contraditoriamente, seu álbum mais conciso dos anos 70. Nada fora do lugar. Entre progressivices (Absolutely curtains, When you're in), acha-se prog de FM (Burning bridges), rock básico (The gold it's in the..., Free four) e baladas (Wot's! Uh the deal, Stay).


CARNEY - Leon Russell.
 Partindo para uma linha cada vez mais teatral e glitter (a capa o traz maquiado em frente a um espelho de camarim), o autor de This masquerade une canções exaustivamente lapidadas (Tight rope, Me & Baby Jane, a própria This masquerade) a interlúdios de psicodelia pura (Carney e a fantasmagórica Acid Annapolis). 


SCHOOL'S OUT - Alice Cooper. Em 1972, ele era o que havia de assustador. Hoje, soa como brincadeira de criança - mas seus discos da época não envelheceram em nada. A mistura aqui é de terror (Luney tune), violência urbana (Gutter Cats vs. The Jets), picardias estudantis (School's out, Alma mater) e melancolia (My stars), sob a ótica melódico-cinematográfica do produtor Bob Ezrin.


ALL THE YOUNG DUDES - Mott The Hoople. Do rock básico ao glam, essa banda britânica estava pensando em se separar quando foi salva por David Bowie, que lhes forneceu um hit ("All the young dudes") e força para prosseguir. O álbum que contém essa canção é um clássico que, entre boas composições próprias (Momma's little jewel, Sucker) ainda aponta para outros campos glitter, com Sweet Jane, de Lou Reed.


CLOSE TO THE EDGE - Yes. Sim, era possível gravar discos com três faixas, músicas de mais de dez minutos e ainda assim focar as paradas, mirar o sucesso, almejar a conquista do mundo. O Yes foi uma das mais bem sucedidas bandas a conseguir tal façanha, e músicas como And you and I são a cara dessa fase.


THE SLIDER - T. Rex.
 Uma vez na EMI, ninguém seguraria Marc Bolan - talvez só a ação do tempo, que tornou seu glam melancólico mais inadequado do que seu projeto original poderia fazer supor. The slider traz parte do seu projeto de conquista do mundo, exposto em canções difíceis de esquecer, como Metal guru e Telegram Sam.


TALKING BOOK - Stevie Wonder. Adulto (22 anos), independente dentro da Motown e divorciado, Wonder gravou um disco que pode ser definido clinicamente da seguinte forma: "Este álbum contém Superstition e You are the sunshine of my life". E só isso já bastaria para torná-lo um clássico. Mas ainda tem mais um punhado de grandes canções e Wonder, de forma madura, revolvendo as feridas amorosas em canções como I believe e Blame it on the sun.


MANFRED MANN'S EARTH BAND - Manfred Mann's Earth Band. Vagão pop dos anos 60 (é dele Do wha diddy diddy, relida como rap pelo grupo 2 Live Crew nos anos 80 e transformada, no Brasil, no funkão Melô da mulher feia), Manfred recolocou-se no mercado como músico progressivo na década seguinte. Surpreendeu muita gente e acrescentou boas canções ao repertório prog da época.


SLADE ALIVE! - Slade. No mesmo ano em que lançavam Slayed?, os beberrões desbocados do glitter rock convocavam uma claque para o estúdio e metiam bala em sete canções gritadas e tocadas no último volume. Entre originais como Know who you are, encartavam uma releitura de Born to be wild (Steppenwolf), estouravam tímpanos com Get down and get with it (Bobby Marchan) e lascavam um arroto (!) em Darling be home soon (John B. Sebastian).


CLUBE DA ESQUINA - Milton Nascimento e Lô Borges. Beatles brasileiros. Chamados assim por uma revista na época, os rapazes do Clube acharam a denominação um tanto brega. Mas vá lá: influenciados por uma salada de bossa nova, samba, rock dos anos 60 e 70 e progressivismos, fizeram muita gente achar que a Liverpool daqui ficava em meio às ladeiras de Minas. E mostraram ao Brasil uma música brasileira capaz de ser engajada e arejada - coisa difícil naqueles tempos duros.


FOCUS 3 - Focus. Como saiu disco duplo em 1972! O Focus, com o moral alto por causa do hit Hocus pocus (do álbum Moving waves, de 1971), aproveitava o ano para fazer um de seus melhores álbuns. Mas sem facilitar muito as coisas para o ouvinte: havia canções de 26 minutos (Anonymous, em duas partes), funk-jazz-prog-ópera (Round goes the gossip), som pastoril (Elspeth of Nottingham). O hit indiscutível, Sylvia, era um doce soul progressivo.


HARVEST - Neil Young. A faceta country de verdade do cantor foi mal compreendida pela crítica. Com o tempo, cresceu nos ouvidos dos fãs. Na colheita musical de Young havia espaço também para polêmicas - como Alabama, cacetada no racismo do sul dos EUA, devolvida pelo Lynyrd Skynyrd em Sweet home Alabama. E para a herança maldita dos anos 60, em The needle and the damage done, protesto contra o uso de heroína.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

OLHA O RESTART AÍ!


Restart, aquela banda que supostamente (supostamente!) usa músicos escondidos atrás do palco em seus shows. Possivelmente há mais nomes grandes (e veteranos) do rock nacional que mascaram ruindade musical em estúdio ou no palco, mas foram os coloridos de SP que ganharam a fama. Os Monkees também faziam o mesmo, mas este espaço é pequeno demais para que eu exponha as totais diferenças entre os geniais popstars de proveta dos anos 60 e o pós-emos coxinhas da década de 2010. Por enquanto, recomendaria apenas que cada fã que adquiriu os álbuns do Restart conheça (é só baixar da internet mesmo...) Pisces, aquarius, capricorn & Jones ltd, disco dos Monkees de 1967 - e  um dos melhores álbuns de rock lançados há 45 anos, com pérolas como She hangs out e Love is only sleeping

Como isso não vai acontecer mesmo, vai aí um papinho com Pe Lu, um dos restarts, publicado em 2010 no Laboratório Pop, quando a banda se preparava para fazer seu primeiro show da série Happy Rock Sunday no Rio. Por e-mail, o garoto (nem tanto,né?) falou das críticas que a banda recebeu do Capital Inicial e da menina que ficou transtornada com o cancelamento de um show da banda, e cunhou a frase "puta falta de sacanagem". 

"NÃO SEI SE O DINHO CONHECE A GENTE"
Ao LABORATÓRIO POP, Pe Lu do Restart diz que crítica do cantor do Capital Inicial não acrescenta em nada
Publicado no Laboratório Pop em 18/08/2010

"A crítica pela crítica não nos acrescenta nada, nem nos faz crescer", avisa ao LABORATÓRIO POP Pe Lu, guitarrista e vocalista da banda de happy rock Restart. Apesar da pouca idade e da carreira ainda no começo, os quatro rapazes, que trazem sua domingueira Happy Rock Sunday ao Rio pela primeira vez, já estão escaldados com os paus e pedras de alguns críticos. E até de colegas de profissão, como o vocalista do Capital Inicial Dinho Ouro-Preto. Ele recentemente declarou que as bandas de happy rock, em dois anos, vão ter vergonha do que fizeram e afirmou que o quarteto faz o grupo Fresno "parecer Dostoievski". "Não sei o quanto ele conhece nosso trabalho. Como fã, fico triste por ele não gostar da minha banda", lamenta o jovem músico.

O aplauso dos (e especialmente das) fãs é que não falta a Pe Lu, Pe Lanza (baixo, vocal), Koba (guitarra) e Thominhas (bateria). O quarteto está bastante feliz por, pela primeira vez, poder levar a domingueira para fora de SP. E prometem uma apresentação inesquecível, com hits como Amanhecer no teu olhar, Sobre eu e você, Recomeçar, Vou cantar e muitos outros. "Já tocamos em Duque de Caxias e em Campo Grande, mas com o Happy Rock Sunday é a primeira vez. Estamos especialmente ansiosos", alegra-se o músico.

LABORATÓRIO POP: Vocês criaram um show de domingo que tem feito bastante sucesso em SP  e agora vem para o Rio. Falem sobre como surgiu a ideia do Happy Rock Sunday.

Pe Lu: Quando éramos mais novos, tínhamos uma série de lugares para irmos ver as bandas que curtíamos, encontrar a galera que também curtia as mesmas coisas que a gente... E hoje  estávamos sentindo falta disso, dessa interação das pessoas que gostam da mesma coisa, que estão a fim de fazer um programa musical juntos. Principalmente para a galera mais jovem, pro público adolescente. O Happy Rock Sunday nasceu dessa nossa vontade de criar, além de um show, uma festa pra galera poder se encontrar, dar risada, conhecer gente nova e no final ainda ouvir um som com a gente. Sempre fazemos as coisas pensando nas necessidades da galera que acompanha a gente.

O Restart tem feito tudo para deixar os fãs sempre abastecidos de música: além do CD de estreia, lançaram mais duas canções que não estão no disco, para download. Como têm visto a receptividade dos fãs a esses lançamentos de novas músicas? Há projetos de lançar mais canções até o lançamento do próximo disco?

Temos uma necessidade nossa de estar sempre fazendo coisas novas, enjoamos fácil de tudo, então com certeza vêm muitas coisas novas. Para setembro, por exemplo, estamos armando muito conteúdo novo pra galera, só esperar mais um pouquinho.

O vídeo com a frase "puta falta de sacanagem", dita por uma fã de vocês na noite em que um show da banda numa livraria foi cancelado, virou web hit e está concorrendo a um prêmio da MTV. Como veem isso? 

A situação que gerou o vídeo não foi nada engraçada. E, para te falar a verdade, só reparamos na frase depois que a galera começou a comentar. Não achei nem muito relevante e nem engraçado. Acho que, quando virou brincadeira, e a menina estava levando numa boa, foi bacana. Mas, a partir do momento que virou deboche e desrespeito, tentamos esquecer um pouco o assunto. Afinal, não é legal ser piada pra ninguém. A menina estava nervosa, chateada. Quem nunca falou uma besteira na vida, né?

Como vocês veem a receptividade da crítica?

Acho que, mesmo quem não gosta do nosso trabalho, respeita. É muito raro vermos alguma critica pesada ou que diminua a gente. Acho que é o reflexo de como tratamos todo mundo. Você dá respeito e recebe isso de volta.

Vocês sentem que há preconceito dos roqueiros mais radicais e da própria crítica?

Acho que como acontece com toda banda nova, tem quem goste e quem não goste. Você vai mostrando seu trabalho, sua batalha e as pessoas vão te aceitando, natural. Não somos mais criticados ou menos criticados do que ninguém.

O Dinho, do Capital Inicial, declarou numa entrevista que "daqui a dois anos os músicos do happy rock vão olhar para suas fotos e sentir vergonha"...

Acho que a crítica pela crítica de verdade não nos serve, pois não acrescenta e nem nos faz crescer. Não sei o quanto o Dinho conhece realmente a gente. E, pra te falar a verdade, sou super fã do cara e do Capital. Vivemos em um país democrático, cada um pode e deve falar o que tem vontade. Como fã, fico triste por ele não gostar da minha banda, mas passou.

Qual o momento mais especial do show de vocês?

Acho que, ultimamente, a hora em que tocamos Levo comigo e Esse amor em mim, que é a música nova que lançamos no MySpace há pouco tempo.

Vocês adotaram logo a denominação happy rock. Como surgiu esse termo?

Surgiu de uma brincadeira. Quando começamos a banda, sabíamos que a galera ia nos rotular. E que, muitas vezes, esse rótulo poderia não caber na banda ou não ser do nosso gosto. Então, criamos esse rótulo para sermos livres, tanto musicalmente quanto visualmente. A Restart toca o quê? Happy rock! Ah, mas o que é isso? Sei lá, happy rock é a Restart, pronto. Não temos definições nem barreiras e ficamos livres para compor, tocar, falar sobre o que quisermos. E o termo "rock feliz" combina totalmente com a gente.

Quais são as maiores influências da Restart? O visual colorido de vocês veio como influência de alguma banda?

Musicalmente somos uma banda de várias influências. Eu e o Koba, por exemplo, estudamos quatro anos em conservatórios. Ouvíamos blues, jazz, MPB, bossa nova. O Pe Lanza sempre foi fascinado por rock, Aerosmith, Guns N' Roses, Bon Jovi. O Thominhas já tocou em banda de indie rock, reggae. Junta tudo isso com a pegada de bandas como All Time Low, The Maine, Cobra Starship, e nasce o som da Restart. Visualmente sempre gostamos desse lance do colorido. As calças surgiram na nossa primeira sessão de fotos, experimentamos, curtimos e adotamos para o nosso dia a dia.

Quais os grupos de rock nacional que servem como referência para vocês? Sentem que têm algo a ver com as bandas dos anos 80?

Os anos 80 foram muito ricos para o rock nacional e a gente gosta de muitas bandas dessa época. Para citar algumas: Titãs, Barão Vermelho, Paralamas, Capital Inicial. Foi uma época genial e criou bandas sensacionais que continuam aí, inspirando todo mundo!

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

TITÃS EMO?


Sempre fui fã dos Titãs. Parte da minha adolescência foi passada no quarto, ouvindo Cabeça dinossauro (1986). Jesus não tem dentes no país dos banguelas foi meu presente de Natal em 1987. Gostava dos palavrões de Bichos escrotos como gostava dos sons eletrônicos de Diversão - e também da oração pop que é Sonífera ilha. Gosto bastante até de discos que não são necessariamente unanimidades, como Volume dois (1998), Como estão vocês (2003) e Tudo ao mesmo tempo agora (1991). Sacos plásticos (2008), disco mais recente da banda, no entanto, não deu. Teve muita gente que saiu creditando o problema à produção "emo" de Rick Bonadio - sendo que ele havia feito um serviço (na minha opinião) excelente no último disco de carreira do Ira!, Invisível DJ, de 2007. A verdade é que a produção da banda já conhecera melhores dias. Ricardo Alexandre, hoje diretor de redação da Trip e ex-editor da Bizz, pintou a situação com as seguintes tintas em seu antigo blog Causa Própria: "É o pior trabalho em uma discografia cada vez mais dominada por discos ruins. Foi a primeira vez que lamentei o fim da Bizz. Se ainda dirigisse a revista, pensei, publicaria o disco naquela coluninha Rápido e Rasteiro com uma tarja preta em que se lesse: Por respeito à história dos Titãs e às contribuições da banda ao rock brasileiro, não resenharemos esse disco". 

Quando Sacos plásticos estava para sair, encontrei um Paulo Miklos e um Branco Mello de muito bom humor - por telefone - e dispostos a falar sobre o novo álbum. O papo saiu no Jornal do Brasil. "Titãs emo?", perguntou-se o cantor de hits como Diversão e Bichos escrotos, de longe uma das figuras mais simpáticas do rock brasileiro. "Já me chamaram de tanta coisa que nem tem problema". Branco Mello, por sua vez, revelou que, por muito pouco, a banda não desistiu de fazer álbuns!


PRODUTOR RICK BONADIO FAZ TITÃS SOAREM COMO ADOLESCENTES
por Ricardo Schott
Publicado no Jornal do Brasil em 5 de junho de 2009

Depois de, ao longo de 27 anos, serem rotulados como bregas, new waves, punks, grunges e MPBistas, parecia não faltar mais epíteto algum aos Titãs. Parecia. Antes de você, primeiro single do 15º disco da banda, Sacos plásticos, leva muita gente a tecer comparações com outras bandas produzidas por Rick Bonadio, que tocou as sessões de gravação. E é responsável por CDs de nomes como Fresno, NX Zero e CPM 22, pródigas em temas desesperadamente românticos emoldurados por guitarras. Mais ou menos como acontece no novo hit do grupo, cuja letra fala de uma paixão obsessiva. Teria Bonadio conseguido fabricar um Titãs emo?

"É, até já me falaram que eu tinha virado emo. Agora só falta pôr uma franja, né? Já fui grunge, já fui punk, já fui acusado de ser tanta coisa que nem tem problema. Mas minha interpretação está adequada à canção, que tem essa coisa meio esquizofrênica na letra", brinca Paulo Miklos, autor da canção, que não deixa de se surpreender com a reação de alguns. "É até engraçado, porque o arranjo da música é meu. Muita gente também fala de um contracanto que eu faço na música, mas que nem foi gravado pelo Bonadio. Gravei num estúdio em Salvador quando fomos fazer show lá porque precisávamos apresentar a música para a equipe da novela Caras & bocas no prazo".

Ainda que o disco siga por outros caminhos, a romântica Antes de você não está sozinha. É seguida por letras como as da faixa-título, a balada Porque eu sei que é amor, Deixa eu sangrar, Não espere perfeição e o dub Nem mais uma palavra.

"O amor é um dos assuntos do disco. Mas tratamos o amor de diversas maneiras. É um assunto que dá samba!", brinca. "E ainda tem Amor por dinheiro, que fala do mercado de felicidade, de que tudo é voltado para a gente pagar".

Buscando a coesão na banda ao fazer as sessões em quinteto (mas com Bonadio colaborando em guitarras, percussões e programações), Miklos (voz e guitarra), Branco Mello (voz e baixo), Sergio Britto (voz e teclado), Tony Bellotto (guitarra) e Charles Gavin (bateria) sabem que assustaram fãs com algumas guinadas. Mas garantem que cabe a eles recuperar os admiradores de facetas titânicas perdidas que retornaram no documentário Titãs - A vida até parece uma festa, de Oscar Rodrigues Alves e Branco Mello.

"Sabemos que temos órfãos e viúvas. Tinha gente que não gostava da fase do Titanomaquia (1993), mas hoje tem fãs que pedem músicas dessa época, como A verdadeira Mary Poppins", diz Miklos, dizendo que, no show de Sacos plásticos, revisitarão algumas dessas fases. "Ao longo do tempo, sempre agimos de acordo com a necessidade artística do que vivemos no momento. O que amarra tudo é a atitude que temos em relação às canções. Não tem nada que se sobressaia a isso".

Além de trazer de volta a tecnologia como meta do som do grupo, Sacos plásticos insere novidades como o fato de ter os três vocalistas juntos numa música só, Quanto tempo, que por pouco não foi cantada pelo autor, Bellotto.

"A gente conseguiu fazê-lo tentar, mas não deu para chegar até o final. Ele disse que o coração só faltava sair pela boca!", brinca Miklos que, pela primeira vez em 27 anos, compôs uma música em parceria com Mello, a faixa-título. "É bem melhor trabalhar em banda do que em carreira solo, pode ter certeza disso. E hoje temos o que uma banda mais precisa ter, que é confiança no seu parceiro".

Além das músicas próprias, Sacos plásticos coloca dois nomes diferentes na lista de compositores do grupo. Um deles é o do produtor Liminha, que, apesar de ter pilotado discos clássicos do grupo, nunca havia composto com eles e divide Problema com Miklos e Arnaldo Antunes. Já Andreas Kisser (Sepultura) toca guitarra em Deixa eu entrar e divide a compsoição da anção com Bellotto e Britto. Um crédito que é uma alegria e um problema para Miklos, que empunha as seis cordas na atual configuração dos Titãs.

"Ainda estou pensando em como reproduzir aquela guitarra devastadora ao vivo", afirma, para depois ironizar. "Mas para um emo como eu isso não vai ser difícil! Vou botar meu lado heavy para fora!"


BRANCO MELLO: "CHEGAMOS A PENSAR EM NÃO LANÇAR MAIS ÁLBUNS"
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A animação dos Titãs com o novo disco, Sacos plásticos, é visível. Mas o vocalista e (agora) baixista Branco Mello diz que, por muito pouco, os fãs não ficavam sem um novo CD do quinteto. Assim que terminou o contrato do grupo com sua última gravadora, a Sony Music (pela qual saíram Como estão vocês?, de 2003 - feito originalmente para a falida Abril Music, que o repassou à outra gravadora - e o CD/DVD MTV ao vivo, de 2005), chegaram a pensar em abdicar do formato álbum.
"Pensamos seriamente nisso. Em não fazer disco, só fazer show e lançar um single ou outro. Mas quando começamos a compor, achamos que valia a pena fazer um disco. Até porque daqui a pouco ninguém mais vai querer fazer!", brinca Mello, revelando que o quinteto fez mais de 40 músicas para o CD, das quais pinçaram 14. "A gente é de uma geração que pensa a música como um conjunto, como um disco, não como single. Um dia a gente ainda vai conseguir lançar umas duas ou três músicas só".

Apesar de a produção de Rick Bonadio ser naturalmente controversa, Mello diz que, aos 27 anos, o grupo tem porte de armas para bancar qualquer guinada ou ideia nova. E diz que, mesmo com pouco tempo de vendagem, as pessoas já entenderam bem o que o disco novo propõe.
"Já vimos fãs que acompanham a gente há 10, 15, 20 anos, na tarde de autógrafos. As pessoas estão ouvindo o disco", diz. "O que a gente faz é uma consequência da nossa satisfação  individual, e também da satisfação coletiva, do grupo. Se você faz um trabalho pensando no que vão achar, ou no que vão entender, começa a fazer tudo errado. Assim é melhor nem fazer. As grandes mudanças e os grandes desafios, você tem que bancar mesmo que não vão entender. A gente já foi fracasso e sucesso de público e de crítica, mas você tem que se dar muito bem ou muito mal por você mesmo, não pelo que os outros pensam".


Miklos, por sua vez, é só elogios para Bonadio.



"Ele era um cara que já tinha declarado na imprensa várias vezes que adoraria fazer um disco dos Titãs. E foi um dos poucos que se apresentou com uma proposta e um entusiasmo que não se vê hoje na indústria do disco. Ele é uma exceção, porque a gente só vê aqueles caras com cabeça baixa, falando 'ah, a crise...'. Além disso, contribuiu muito bem como músico. Quando dissemos que precisávamos de alguém para nos ajudar com programações e perguntamos se ele conhecia alguém, ele respondeu: '"Eu! Sou o cara certo para isso!"', diz, rindo.



Nota de atualização: Os Titãs, impossível não saber, estão completando 30 anos. Cabeça dinossauro, o clássico terceiro disco, chegou aos 26. Em entrevista a Leandro Souto Maior, no jornal O Dia, Toni Bellotto foi perguntado sobre a recepção cruel da crítica a Sacos plásticos, e sobre se, analisando hoje, concordava com as críticas. "Tá me estranhando? Desde quando eu vou concordar com crítica jornalística? O disco é ótimo, a crítica é medíocre", afirmou.