sábado, 29 de setembro de 2012

PAPARAZZI: GENTE QUE RALA


Em 2008, eu estava no Jornal do Brasil e escrevia na revista Domingo. O editor da revista, Robert Halfoun, me passou uma pauta curiosa: seguir um paparazzo do Leblon, ver como ele trabalha, bater um papo com ele, passar o dia com o cara, etc. Segui contatos que ele me passou e outros que me foram dados por amigos. Não é brincadeira: o Leblon é um bairro povoado de paparazzi. A cada saída à noite, é possível esbarrar com vários deles - quase na mesma proporção em que é possivel tropeçar no pé de um artista e cair no de outro. Uma profissão que, se não é de alto risco, não é das mais seguras - já que famosos também brigam, mordem, batem. E trata-se de uma função que trafega tanto a favor de furos fenomenais quanto para o funcionamento da máquina de produção de notas. Enfim, para informar que "Caetano Veloso se prepara para atravessar rua no Leblon" ou que "José de Abreu se espreguiça em aeroporto no Rio". Gostava do "Taís Araújo bate palmas em show de Rita Lee" (dã) e do "Antonio Fagundes chora no enterro de Paulo Gracindo" (será que esperavam que ele fosse cagar de rir?).


Não me lembro em que mês essa matéria saiu. Achei a íntegra do texto, antes da edição feita por Robert e Mario Marques (editor de cultura do B e um dos meus maiores mestres no jornalismo) no meu e-mail. O casal Taís Araujo e Lázaro Ramos, razões de ser e de existir desta matéria, voltou a viver sob o mesmo teto em novembro de 2008, dizem os jornais. Deve ter saído nessa época. O título do texto se perdeu com o tempo - quando encontrar a revista lá em casa, atualizo com isso.

A recente notícia de que o casal Lázaro Ramos e Taís Araújo teria voltado a dividir o mesmo teto - os dois foram vistos juntos assistindo a peças de teatro - tem movimentado os quarteirões que se estendem entre o fim da Gávea e o comecinho de Ipanema. O Leblon, bairro no qual a dupla já foi vista várias vezes, sempre viveu apinhado de paparazzi. E agora mais do que nunca, já que, além do ex-casal Luana Piovani e Dado Dolabella, é a futura protagonista de Viver a vida (futura novela das nove da Globo, assinada pelo leblonense de coração Manoel Carlos) e o ator de filmes como Ó paí, ó quem chama a atenção de profissionais como André Freitas, que desde as oito da manhã já está a postos, às vezes de bicicleta, ou de carro, à cata de celebridades. Uma exclusiva do casal pode chegar a R$ 700 - cifra considerada boa no meio. Além de perseguir seus alvos, fica aberto para o que der e vier. Percorre a praia, vai à porta de restaurantes como o Sushi Leblon e o Celeiro (localizados na estratégica Rua Dias Ferreira, preferida de dez entre dez celebridades), fica de olho nos artistas que levam os filhos pequenos para dar uma volta no Baixo Bebê. E segue as dicas que pega com garçons amigos, vendedores de mate ou de cangas, guardadores de automóveis e chaveiros.

"Um deles pode falar quem está no restaurante, ou mesmo quem está passando pela praia. Se for na orla, a gente vai de óculos escuros, tomando cuidado para não verem nosso material de trabalho", diz André, antes de ser cumprimentado por um entregador de supermercado, logo ao baixar na porta do Celeiro. Pergunta a ele se alguém já chegou - e recebe de volta uma negativa. "Hoje o movimento está baixo aqui, dá até para eu dar entrevista!", brinca. André sabia bem o quanto vale a dica de um observador das internas. "Trabalhei como barman em Ipanema durante um bom tempo. Antes mesmo de eu começar a fotografar, via as pessoas famosas passando por mim toda hora. Fui para a fotografia já querendo trabalhar como paparazzo", recorda ele, que, como vários de seus colegas, não possui diploma de Jornalismo. 


Uma dica dos colegas paparazzi (nota: alguns dos profissionais são ariscos a ponto de terem preferido nem falar com a Domingo) pode mudar toda sua rotina de trabalho - numa das datas marcadas por este repórter para conversar com André, teve que largar o Leblon para fazer uma foto em Copacabana, o que é raro. "O Leblon é o que atrai mais os famosos, até pelo glamour do local. Tem mil pizzarias iguais ou melhores que a Guanabara no Rio. Mas eles querem mesmo é ir lá. A gente fica se dividindo entre a Guanabara e o vizinho Diagonal", diz um colega de André, Tiago Andrade. Não é só isso, claro. Gente como Luana Piovani, Dado Dolabella, Eduardo Moscovis, Chico Buarque, Malu Mader, Cauã Reymond, Otto e Caetano Veloso, por exemplo, vive ali ou em bairros próximos. E os quarteirões estendidos entre a Gávea e Ipanema acabam atraindo tais celebridades como um imã.


"Às vezes uma peça de teatro estreia na Barra e os artistas, mesmo os que moram na Zona Oeste, pegam o túnel e vão comemorar no Leblon. Lá é mais tranquilo para eles, ninguém vai ficar pedindo autógrafo, nada disso. Na Barra é tudo muito fechado, as coisas acontece em condomínio. Quem quer aparecer, mesmo que finja não gostar disso, vai mesmo é para o Leblon", avisa Orlando Soares, pauteiro de uma das principais agências de paparazzi do Rio, a AgNews (as demais são a Byte Beach e a Photo Rio News). São essas agências que garantem o ganha-pão dos fotógrafos, já que elas costumam fechar pacotes com as revistas e sites que publicam as fotos e notinhas dos paparazzi. "Não dá para ser free-lancer nessa profissão. A concorrência é grande".


Na hora H, mais do que foco ou nitidez da imagem, vale mais a destreza e os contatos dos paparazzi - cujo nome profissional, para quem não sabe, foi herdado do personagem Paparazzo, fotógrafo intrusivo interpretado pelo ator italiano Walter Santesso no filme La dolce vita, de Federico Fellini. Uma foto meio esmaecida, mas que mostre claramente um beijo entre, por exemplo, os atores Marcelo Faria e Isis Valverde, como a que André clicou certa vez num restaurante no Leblon e acabou não publicando ("me arrependo até hoje"), pode valer até 4 mil reais. Vale também a atenção a todo e qualquer tipo de famoso, já que no Leblon, sempre tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. "Lá não tem nem que correr atrás. Os famosos aparecem", afirma Tiago. O casal Grazi Massafera e Cauã Reymond pode estar pegando uma praia ao mesmo tempo que Preta Gil caminha pela região do Rio Design Center e Carolina Ferraz almoça em algum restaurante da área. "Na rua, não posso perder tempo. Saio com laptop na mochila e, depois que faço os cliques, tenho que enviar por e-mail antes da concorrência. Na hora é a maior adrenalina. Os colegas se ajudam, mas cada um faz o seu", diz Tiago, que ainda tem trabalho em casa, editando as fotos.


O preconceito contra os paparazzi é imenso: muitos fotógrafos dariam tudo na vida para não ter que seguir essa rotina. "Já ouvi gente dizendo até que paparazzo não passa de um vagabundo com uma câmera na mão. Quando a gente trabalha na praia do Leblon, vê muitas pessoas quem nem são famosas que acham que a gente está atrapalhando a diversão delas", diz um paparazzo que não quer se identificar. "E pior do que aturar famosos mal-humorados é aturar os amigos deles. Ou os quase-famosos. Muitas vezes, são eles que insultam a gente, sem que façamos nada", continua.

Histórias de agressões a paparazzi, mais lá fora do que no Brasil, são comuns - popstars como Amy Winehouse, Britney Spears e Kid Rock, que já protagonizaram cenas de pugilato pelas ruas, que o digam. Boa parte dos fotógrafos admite que o limite entre a informação e a invasão de privacidade é tênue, mas enfatizam que não há desrespeito. "A maioria dos famosos não se sente incomodado. Outro dia tirei uma foto do Chico Buarque e ele até brincou comigo, falou para tomar cuidado com o equipamento", diz Tiago. O autor do recém-lançado livro Leite derramado, no entanto, não é das personalidades mais procuradas pelos fotógrafos no Leblon. Graças a Deus, diria o próprio Chico, simpático mas reconhecidamente tímido (sobre isso, ver boxes).


Já outros... "Eu já passei horas e horas de carro atrás do Eduardo Moscovis para tirar uma foto dele andando de bicicleta com os filhos no Leblon. Entrava numa rua, ele entrava em outra, olhava feio para a gente. Foi um sufoco", diz André. Geralmente arredio quando o assunto são os paparazzi, Moscovis foi procurado pela Domingo para conversar sobre eles. Não se negou a falar, mas estava ocupado e não pôde dar entrevista. "O engraçado é que, fugindo das fotos, ele acaba valorizando ainda mais os cliques", graceja André que, mesmo com todas as dificuldades, ama o trabalho. Como todos os entrevistados. "Cara, eu moro e vivo bem por causa do que faço. Não denigro a vida de ninguém, não agrido ninguém. E mesmo quem fala mal, sempre dá uma olhadinha nos sites e nas revistas. Até os artistas que vão no Leblon", afirma.


CONTANDO UMA HISTÓRIA

O site de humor Kibe Loco adora, não sem razão, sacanear as notas com fotos que, volta e meia, aparecem em sites de entretenimento, como "Luana Piovani passeia pensativa pela orla" e "Elba Ramalho fala no celular enquanto anda pela rua". Afinal, o que é que um simples mortal tem a ver com isso?. "Pode até aparecer uma ou outra notinha do tipo 'fulano toma suco em lanchonete no Leblon com um amigo', 'fulana sai para passear com cachorro', mas isso sai mais porque os sites de entretenimento precisam ser movimentados. E a demanda por informações sobre a vida dos famosos é grande", diz André. "A gente sai tirando fotos de qualquer coisa, mas dá mais valor às fotos que contam um história. Isso é o que conta" E quem conta uma história atualmente? Dos fotógrafos procurados para esta matéria, a unanimidade é falar em Luana Piovani e Dado Dolabella, que desde que começaram a brigar, no meio da relação, não pararam mais de fornecer material para fotos. Quase sempre aonde? No Leblon, claro. A busca por uma foto nova deles leva sempre mais paparazzi ao bairro. "Principalmente no caso da Luana, que não assumiu com nenhum namorado de lá para cá. O Dado inclusive é gente boa com todos os fotógrafos, nada daquela imagem de marrento. A Luana é meio de lua, mas é uma grande marketeira, é do tipo que sabe manipular a imprensa", explica outro paparazzo.


CHICO, O ANTI-POPSTAR
Quem leu o livro sobre Chico Buarque da série Perfis do Rio, da editora Relume Dumará, assinado pela jornalista Regina Zappa, viu: ao comprar um novo apartamento no alto do Leblon, uma de suas primeiras preocupações foi examinar, pela janela, se havia a possibilidade de algum paparazzo flagrá-lo no lar. No entanto, mesmo que esteja em evidência na mídia por causa do lançamento de seu novo livro, Leite derramado, o cantor pode ficar tranquilo com relação a isso. "Ele já não é das personalidades mais valorizadas. A não ser que dê mole e apareça beijando outra mulher na praia, como aconteceu em 2005", diz Orlando, da Agnews. "Chico está sempre andando na praia, quase sempre no mesmo horário, já virou rotina. Isso não rende. Ainda por cima, ele costuma sempre usar roupas iguais para que uma foto dos paparazzi seja sempre idêntica á outra". Por outro lado, nenhum dos paparazzi procurados sabe nem dizer quanto valeria uma foto do Roberto Carlos, caso o Rei resolvesse sair da clausura na Urca e desse uma andada pela praia do Leblon. Ou da Xuxa. Ou do João Gilberto, que mora por ali, perto do Rio Design Center, e nunca aparece em lugar algum.


NERVOSINHO, HEIN?
Um equipamento fotográfico bom, com várias lentes - em especial daquelas usadas para longas distâncias, extremamente úteis no dia-a-dia - custa caro. Pode ultrapassar os R$ 15 mil reais. Não dá para colocá-lo a perder numa discussão boba com um artista ou com um segurança. "Por isso mesmo, a gente só faz fotos de certas pessoas se não tiver outro jeito. Murilo Benicio e Eduardo Moscovis andam sempre no Leblon e são um poço de ignorância com a gente. Se a gente puder evitar, nem faz foto", diz outro paparazzi, que não se identificou. "Carolina Dieckmann também evitamos fazer". Outras situações, até pela total falta de desconfiômetro dos fotografado, beiram a piada. "Um fotógrafo da Agnews flagrou um autor de novelas lendo uma revista gay na Letras & Expressões. O cara viu e partiu para cima do paparazzi para agredi-lo. Ficou chamando o fotógrafo de rato", recorda Orlando. Por outro lado, tem artistas que são verdadeiros anjos para os paparazzi. "Fernanda Vasconcellos, Gabriel O Pensador, Toni Garrido, Giovanna Antonelli. Estão sempre no Leblon e são simpáticos com a gente", conta Tiago.


MAPA DO LEBLON
Os lugares que mais rendem fotos no Leblon, segundo os próprios fotógrafos.
RESTAURANTE CELEIRO: Uma das casas da rua Dias Ferreira que é mais procurada pelos fotógrafos, especialmente de tarde. "Quem quer ser fotografado vai para lá. Já clicamos Giovanna Antonelli, Guilhermina Guinle, Regina Casé, Marília Gabriela", diz André. Em um dia normal, podem aparecer também Carolina Ferraz e Reynaldo Gianecchini. Rua Dias Ferreira, 199.
SUSHI LEBLON: O lugar costuma encher depois das dez da noite. 'Wladimir Brichta, Adriana Esteves e Claudia Jimenez já foram vistas por lá. Geralmente eles aparecem de carro, entram e depois saem correndo para evitar fotos". Rua Dias Ferreira, 256.
LETRAS & EXPRESSÕES: O ambiente da livraria do Leblon pede outro tipo de atitude. "Lá, a gente tenta fazer o mais distante possível, não é a queima-roupa", diz um paparazzo que já clicou vários famosos lendo folheando livros, jornais e revistas por lá, como Tony Ramos, Carolina Ferraz e o casal Grazi Massafera e Cauã Reymond. Av. Ataulfo de Paiva, 1292.
PRAIA DO LEBLON: A região conhecida como Baixo Bebê e a altura do Posto 12 são as mais procuradas pela manhã. É outro local no qual a distância conta pontos, além dos já citados contatos com vendedores de mate, quiosqueiros e ambulantes em geral. "A gente também usa um binóculo para ficar observando e anda de bicicleta para facilitar", diz um paparazzo. Além do ex-casal Dado e Luana, lá é possível ver às vezes Otávio Muller, Guilherme Fontes, Betty Faria (com a neta), Carolina Kasting e vários outros.
RIO DESIGN CENTER: Na altura do prédio, os famosos estão sempre passeando, o dia inteiro: Danielle Winitz, Lázaro Ramos, Taís Araújo, Wladimir Brichta. E ainda tem gente que se posta lá à procura de um clique de João Gilberto, como aconteceu durante os shows que o baiano bossanovista fez no Rio, em 2008. Rua Ataulfo de Paiva, 270.
PIZZARIA GUANABARA E DIAGONAL: Bater ponto nos dois lugares, que funcionam lado a lado, sempre rende fotos interessantes. Os famosos ficam variando de um lugar para o outro - às vezes na mesma noite. Os fotógrafos também. "A Guanabara, por exemplo, funciona 24 horas, então tem material para a madrugada inteira. Às vezes tem artista chegando lá às cinco da manhã", diz Tiago, acostumado a encontrar José Wilker, Otto, Carolina Dieckmann, Thiago Lacerda e Danton Mello nos dois lugares. "Até as mulheres-fruta aparecem por lá de vez em quando". A Guanabara fica na Avenida Ataulfo de Paiva, 1.228 e o Diagonal, na Rua Aristides Espínola, 88.
GARCIA & RODRIGUES: Outro lugar interessante, no qual o fotógrafo tem que agir rápido e à distância, até pela discrição do restaurante, com poucas janelas. Tony Ramos, Carolina Ferraz, Chico Buarque, Marieta Severo e Manoel Carlos andam por lá. Avenida Ataulfo Paiva, 1251.

AS ATITUDES DOS FAMOSOS DIANTE DOS PAPARAZZI
RODRIGO SANTORO: O ator, hoje conhecido internacionalmente, já até posou para fotos, na saída da festa Bailinho, do lado de paparazzi. Mas já disse se sentir perseguido demais por eles. "Me sinto mais confortável no exterior. O que virou o Leblon depois dos paparazzi?", disse a um jornal.
LUANA PIOVANI: Já se irritou bastante com os fotógrafos e tomou atitudes como esconder o rosto dos flashes. "Não tenho nada a dizer para os paparazzi que me perseguem. Não são meus amigos", diz ela, que se aparecer com algum novo namorado, deve preparar-se para as câmeras.
CAROLINA DIECKMANN: Costuma se mostrar incomodada com o assédio, mas já até brincou com paparazzi ao ser clicada em alguns momentos.
DADO DOLABELLA: É apontado como "gente boa" por todos os fotógrafos.
PRETA GIL: Costuma sair de noite e ir à praia sem ligar para os caçadores de celebridades.
E lá fora?
LILY ALLEN
: De tanto se sentir importunada pelos paparazzi, a cantora inglesa resolveu tomar uma atitude drástica. Conseguiu uma ordem do tribunal para impedir que duas empresas inglesas de paparazzi, Big Pictures e Matrix Photos, a fotografem. Os fotógrafos estão impedidos de se aproximar menos de 100 metros da cantora. E não podem fotografá-la em sua casa ou em casa de amigos ou familiares. Se no Brasil a moda pegar...

QUANTOS CHICOS BUARQUES VALE O SHOW?
Você se lembra de quando, em 2005, fotos da modelo Kate Moss cheirando cocaína estamparam todos o tabloides? Pode esquecer a possibilidade de ver o mesmo aqui no Brasil. "Vai ser muito difícil alguém no Brasil fotografar um famoso usando drogas e isso sair no jornal. Ninguém bancaria", revela Xico Silva, fotógrafo e dono da Agnews. "Acontece muito de vermos esse tipo de situação, mas a gente finge que não vê. Tem muito fotógrafo que clica e depois tira do card". Talvez pelos valores compartilhados pelo público que compra esse revistas de celebridades no Brasil, o que eles procuram são flagras mais galhofeiros. "Geralmente são coisas bisonhas e inusitadas, tipo famosos levando tombo. É o que mais se valoriza aqui". E os valores também são bem menores do que os das fotos estrangeiras, diga-se.

R$ 150 - Uma foto que todo mundo tem, como do Chico Buarque caminhando no Leblon, vale isso

R$ 500 a R$ 700 - Uma foto exclusiva, variando de acordo com o personagem e com o flagra feito, está neste patamar. Se o Chico Buarque tomar um tombo na praia ou aparecer com uma nova namorada, estará neste nível.

R$ 700 a cerca de R$ 2 mil - Para abiscoitar essa grana, o paparazzo tem que pegar, no mínimo, o Chico traindo a namorada, se machucando ou algo do tipo. "É uma foto bem expressiva. Pegar o personagem fora do habitat também vale. Se alguém pegar, por exemplo, o Roberto Carlos de bermuda na praia, leva até mais que 2 mil", graceja Xico.


Nota de atualização: Antes dessa matéria ser feita,, na verdade, houve mais uma tentativa. Chamei o amigo Luiz Lima, fotógrafo, para clicar as fotos para a Domingo - mas choveu tanto que desistimos. Bom, o tempo passou e em 2010, os paparazzi viraram até tema de uma série da Globo, A vida alheia - com um contumaz odiador de fotógrafos, Paulo Vilhena, interpretando um profissional do ramo. O fotógrafo Fausto Candelária garantiu, em papo com o Laboratório Pop, que o personagem de Paulo foi inspirado nele - ve . É de Fausto, da citada AgNews, o tal clique de Caetano ansioso para atravessar a rua. Ah, a livraria Letras & Expressões fechou.

JOÃO, DO MORRO AO ASFALTO

Ouvi falar de João do Morro pela primeira vez em 2008, quando, na condição de repórter do Jornal do Brasil, fui cobrir o festival de cinema Cine-PE, no Recife - o brother Hugo Montarroyos, jornalista de lá, me falou a respeito. Só fui ver o cara quando cobri o carnaval de Recife para a Billboard, em 2010. Era de cagar de rir. Absolutamente escroto e politicamente incorreto - e bastante difícil de ser transformado numa coisa anódina e amorfa, como rola hoje com a rainha do tecnobrega Gaby Amarantos. Na ocasião, bati um papo rápido com ele - que acho que nem chegou a ser publicado - e voltei a procurá-lo quando veio pela primeira vez dar dois shows no Rio, meses depois do carnaval. O texto, publicado em 5 de agosto de 2010 no portal Laboratório Pop, segue aí.

SEM MEDO DA FULEIRAGEM

Cronista da periferia recifense e autor da gozadora "Papa frango", João do Morro debuta fora da sua terra


“Meu recado é assim: quem se identificar com minhas músicas vai acabar se incomodando. Quem não se identificar não tem problema. Fica só como tiração de onda”, avisa o cantor, compositor, sambista, reggaeiro e, de certa forma, humorista recifense João do Morro, ou João Pereira da Silva Junior, 32 anos. Um cara cuja trajetória tem muito a ver com esses novos tempos fonográficos. Ex-açougueiro, ex-pagodeiro das rodas do Morro da Conceição, na Zona Norte do Recife (onde foi criado e ainda mora), abraçou a carreira musical seriamente em 2006 e, em quatro anos, conseguiu se transformar num fenômeno graças à internet e aos carroceiros – vendedores ambulantes de CDs piratas que usam carros com som no porta-malas para divulgar seus produtos, muito populares no Recife. Agora, ele se prepara para, pela primeira vez, levar canções gozadoras como Ei boyzinho (Papa frango), Chupa que é de uva, Na mamata Balaiagem para fora do Norte-Nordeste. Nos dias 12 (quinta) e 17 (terça), se apresenta na Lapa carioca – respectivamente, nos bares Rio Rock e Blues e Mofo. Antes, ele só havia tocado em sua terra e em estados próximos.


“Rapaz, foi uma surpresa rolar esse show. Nem sei que público vai estar lá. Acho que é o pessoal que me conhece mesmo da internet, ? Se eu tivesse vetado as pessoas de baixar minhas músicas, hoje não estaria sendo escutado até fora do Brasil. Na Alemanha, tem uma colônia de brasileiros que escuta João do Morro. Falo com eles pelo Orkut”, alegra-se João, que não teve uma vida fácil antes de optar definitivamente pela música. No período em que era açougueiro, trabalhava de domingo a domingo, incluindo Natal e Ano Novo. Filho de músico da banda da Aeronáutica e criado no samba, cantava por diversão.


“Comecei a achar que alguém foi lá e apagou a carta que a Princesa Isabel escreveu, que acabava com a escravidão. Em 2006, pedi para meu chefe me despedir e, com o dinheiro da indenização, comprei instrumentos usados de uma banda de pagode numa feira do troca-troca”, lembra João, que nos anos 90 chegou a ter uma música, a explícita 
Pagode do boquete, gravada pelos Inimigos da HP. Hoje, recebe dinheiro pela canção. “Descobri que eles tinham gravado quando ouvi no iPod do meu sobrinho. Na época, eu era leigo, não sabia nada de direito autoral, não tinha carreira. Hoje sei 50% de muita coisa”. Logo, passou a cantar na noite e em festas particulares. "Começaram a me chamar para cantar nuns eventos chamados chá-bar, que é tipo um chá de panela. Quando me falaram disso a primeira vez, ouvi o nome e pensei até que fosse coisa de festa judaica", brinca.


João é um típico fenômeno escolhido por seu próprio público. A ponto de mal saber que seu primeiro disco já estava à venda, em 2008. Os tais carroceiros, ele lembra, começaram a tocar suas músicas sem que ele nem soubesse. Com parte do dinheiro que havia ganhado, fizera uma gravação em estúdio e já havia prensado tudo em CD quando, andando no Recife, ouviu uma carrocinha tocando sua música Balaiagem, axé safado em que sacaneia impiedosamente as moças que recorrem a alisamentos para o cabelo – e que, revela ele, faz um baita sucesso com o público feminino.


“Tava passando na rua e ouvi. Fui lá e perguntei: o que é isso aí? E o cara: 'É João do Morro! É o bicho! Já vendi muito!'. Aí comprei meu próprio disco!”, lembra ele, que descobriu se tratar de uma gravação feita num show seu num pagode no próprio Morro da Conceição. “Era uma gravação de baixa qualidade. Mas o povo nem queria saber de grave, bemol, sustenido, queria saber era que onda era aquela”. E na onda de João não há limites, aliás. Em seu CD 
João do morro ao asfalto, de 2009, entre sambas, axés explícitos e reggaes, sobra para todo mundo: gays (Frentinha), roqueiros (Ninguém segura, punk à la Raimundos que vira samba-reggae e rap), garotas que ficam com vários caras numa noite e põem a culpa na cachaça (Eu dô-le), amigos folgados (Na mamata, cujo refrão é um grosseiríssimo “quer mamar?/vai pra debaixo do burro”), jornalistas (Lado B do jornalista, que prega: “jornal ou revista/o destino é limpar a b... ou enrolar peixe”) e roupas de má qualidade (Cueca de copinho, sobre uma marca de cuecas que era vendida num copo de plástico nos anos 80).


“Começaram a colocar no jornal que eu era 'cronista da periferia'... Eu nem achava que estava fazendo crônica, para mim aquilo era duplo sentido. Hoje é que eu 
tô vendo a importância que a música tem”, conta João, que de certa forma se considera mais humorista do que músico. “Ah, rapaz, de canto eu sou péssimo, viu, cara? Eu canto é mal pra c... Eu sou aquele tipo de cara que tira onda. Queria era ser um Tom Cavalcante da música”.
Já Ei boyzinho (Papa frango), canção lançada só no disco ao vivo, deu galho: a brincadeira com os rapazes que mantêm relacionamentos homossexuais para ganhar presentes chamou a atenção de uma ONG recifense, que o denunciou por homofobia. “, fiquei triste, tenho vários amigos gays, sou apadrinhado pelos gays do morro... Acho que fizeram isso para aparecer. Os personagens da música dizem que os presentes que eles ganham foram dados por senhoras ricas. Acho que o preconceito está em quem não assume sua sexualidade,?”, bronqueia.


Para o show no Rio, João reserva algumas surpresas. O conteúdo de seu novo disco, outro ao vivo, vai ser levado ao palco, cabendo músicas novas como
 Tu me f..., versão casca-grossa de Beautiful girls, sucesso de Sean Kingston. “Ela fala sobre uma mulher que é apaixonada por um homem e se separa dele. Aí toma casa, carro, dinheiro, tudo dele. Aí ele fala o título da música para ela”, graceja João. Outra canção nova, Baganagem, fala sobre os preconceitos dos quais é vítima. “Essa, é sobre quem fala que não gosta do meu som, mas gosta. Sobre os pais que falam: 'imagina, minha filha é advogada, claro que ela não vai no show do João do Morro', aí o cara chega lá e gosta do show. Tem muito radical do rock, da bossa nova, do samba, que fala que não gosta, mas, quando olho para a plateia, ele  lá embaixo”, provoca.


Nota de atualização: Fui num dos tais shows - o primeiro, no Rio Rock & Blues. João do Morro se esforçou, levou a banda completa, mas pareceu ter sido recebido como uma mistura de Raimundos e Sorriso Maroto, se é que isso é possível. João continua fazendo shows e está por aí. No carnaval de 2011 no Recife, foi recebido por uma multidão durante um show de encerramento da folia, na comunidade Brasília Teimosa. Eu estava lá assistindo.


Para ler o texto original, vá aqui. Foto: Divulgação

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

OK, VAMOS INTRODUZIR



Se você não sabe para onde vai, pode ir a qualquer lugar. Não tem problema. Era o que eu pensava em 2002. Poucos anos da minha vida foram tão definitivos quanto esse - há dez anos, eu mal sabia o que era um lead, mal desconfiava que muitas coisas boas e ruins aconteceriam, mal aventava uma troca de profissão tão brusca. E que começou a rolar quando, num mês do qual mal me lembro, li algo sobre blogs em algum lugar e montei um espacinho no Blogspot chamado Discoteca Básica. Ok, isso foi em 2001, mas só fui dar um destino de verdade para o blog no ano seguinte. Daí a data redonda rolar, pelo menos para mim, neste ano. Dez anos.

Em 2002 eu era - acredite - psicólogo, trabalhava numa escola, tinha dois mil discos em casa, lia mais livros sobre música, livros-reportagem e biografias (e alguns romances) do que livros dedicados à minha profissão. E achava que o destino seria esse. Se resolvesse escrever alguma coisa, com certeza sairia desrespeitando completamente aquela lei não escrita que obriga qualquer jornalista a voltar ao começo de seu texto e substituir boa parte de suas vírgulas por pontos, em nome do bom entendimento. Talvez falasse mais de mim do que do mundo - coisa que detesto fazer. Mas alguma força atuou aí. Se valia mesmo o tal ditado de que "se você não sabe para onde vai, pode ir a qualquer lugar", optei, de uma forma que mal me lembro - e com uma coragem que até hoje não entendo - por mudar tudo.

Não sei que força me moveu num determinado dia, nem como isso aconteceu, mas comecei a publicar umas opiniões sobre música no blog - inspirado pela leitura de montes de revistas Bizz, vários livros e, claro, por vários discos. Os textos não eram lá essas maravilhas - relendo alguns hoje, vejo verdadeiras calamidades. Mas devem ter dado certo. Tão certo que decidi que para chegar a algum lugar - seja lá qual for esse lugar - tinha que fazer faculdade de jornalismo e sair fora de um mundo que eu achava que era o meu.

Já fui ateu. Não sou mais. Sou da ala cristã dos fãs do Slayer e do Danzig, digamos assim. Hoje acredito em muitas forças, entre elas a força de uma coisa chamada "minoria silenciosa". Isso existe, sim. Existe sempre uma ressonância silenciosa, por aí, que torna a sua voz meio parecida com a de outras pessoas - cinco, dez, quinze, até mil pessoas (esse número, por dia, já foi a visitação do meu blog nos tempos áureos). Ou talvez tenha sido o fato de "Discoteca Básica" ser o nome de uma das seções mais conhecidas da revista Bizz - e que quem buscava a seção no Google, ia parar no meu blog. Fato é que muita gente me achou e passou a ler o que eu escrevi. Tinha gente olhando, de gente comum a bandas e até gente de gravadora. E futuros colegas. E gente que eu lia e imitava. O Orkut, que era chamado de "megacomunidade virtual" numa era pré-social media, ajudou. Mas mesmo antes dele, muita coisa boa aconteceu aí. Amigos que me conheciam passaram a me conhecer melhor. Arrumei amigos, virei (vá lá) "formador de opinião"  para quem lia o blog, muita gente passou a gostar de mim sem me conhecer. Portas se abriram quando eu mal sabia se queria entrar - me puxaram pelo braço. Deu certo na maioria das vezes. 

Saí da música (não totalmente) e fui para outros cantos. Aprendi muito, fiz muita merda e aprendi em seguida. Descobri que é verdade aquela história de "trabalhe no que você ama e você nunca mais terá que trabalhar na vida". E esses últimos dez anos hoje estão resumidos em duas caixas cheias de jornais e revistas nas quais escrevi, mais um monte de CDRs perdidos em algum canto da casa dos meus pais. Ou na própria internet. Voltei a todos esses guardados e redescobri meu próprio passado e o que me trouxe até aqui. 

Enfim, toda essa introdução é só para dizer que boa parte desse material vai estar presente aqui, em textos meus que saíram nos mais diversos lugares. Alguns com notas explicativas de bastidores, alguns mostrando onde foram parar certas pessoas, no que deram certos discos, livros, ou demais coisas que resolvi cobrir  - ou que me mandaram cobrir. Se você resolver ler, boa diversão.