sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

RESENHOL (PARTE 1)



"PROJETO PARALELO" - NX ZERO (DVD)  Lembra de quando o Run DMC ressucitou o Aerosmith com uma versão rap-rock de Walk this way? O exemplo é citado sempre que se fala de uniões dos dois estilos e, óbvio, é lembrado durante os depoimentos para o documentário que acompanha o DVD Projeto paralelo, que traz o NX Zero recordando seus hits ao lado de um punhado de rappers nacionais.

Não é preciso explicar o quanto os roqueiros paulistanos são diferentes da veterana banda americana. Igualmente desnecessário é observar as diferenças entre os dois projetos. Mas vamos ao básico. O brilhante single do Aero com o Run DMC foi, musicalmente e socialmente, redentor e vingador - e ainda trouxe de volta uma grande banda de rock que andava pela bola sete. Projeto paralelo nasceu de conversas entre o NX e o inócuo rapper Túlio Dek, que participa do disco.

Entre rappers "conscientes", gente das quebradas de SP, nomes com postura claramente pimp (alguns deles importados, como o americano Ya Boy), alguns artistas de rock que se metem a fazer rap (Chorão, do Charlie Brown Jr. e Marcelo Mancini, do Strike), uma revelação (Emicida), nomes que já não dão mais no couro (Negra Li) e só duas escolhas realmente grandes (Marcelo D2 e um deslocado, embora eficiente, Gabriel O Pensador), o NX entrega um produto falho. Bem diferente, só para ficar num exemplo recente, de quando Jay-Z e Linkin Park uniram forças em Collision course. Canções que já eram interessantes, como Só rezo e Cedo ou tarde, talvez não precisassem desse tipo de união rap-rock. Músicas que já eram fracas, por sua vez, acabam sendo salvas pelos rappers escolhidos. Quando a escolha do rapper é falha, piora tudo.

A tentativa de drum n bass em Bem ou mal soa bizarra a ponto de doer no ouvido - e, pelo documentário, dá para perceber o desconforto dos envolvidos na faixa. A nova Onde estiver pode passar como boa canção para quem não se importar muito com o bom mocismo da letra - que traz um discurso de superação de pé-na-bunda. E nada muito além disso.



"LIVE IN HOUSTON"- VELVET REVOLVER (DVD)  Havia uma comunidade do Orkut cujo título era "No começo, parecia uma boa ideia". Isso talvez explique o que fez com que uma trupe de ex-Gunners (Slash, Duff McKagan e Matt Sorum) e mais um camarada (Dave Kushner, ex-Wasted Youth) convidasse o ex-(mais um?)Stone Temple Pilots Scott Weiland para assumir os vocais do Velvet Revolver. Juntar o currículo malvadeza-durão da rapaziada com o caráter junkie e encrenqueiro de Weiland poderia ter dado certo. Mas bateu na trave. Rendeu dois CDs razoáveis, um punhado de boas canções (nada clássico) e um projeto paralelo de luxo, que até agora não arrumou novo vocalista desde que Weiland tornou a se por à frente dos STP.


Gravado em 2005, Live in Houston compensa a falta de canções excelentes com a atividade da galera no palco. Se o Guns sempre foi uma mescla de hard rock com pré-punk à moda dos New York Dolls, pode-se dizer que a união de Weiland com os músicos até fez sentido. E impressiona pelo dínamo que o grupo é no palco, embora nem seja o caso de fazer ninguém morrer de vontade de ouvir o disco em casa. As exceções à regra são a pancadaria quase punk de Set me free e a doloridíssima Fall to pieces, com dedilhado aproveitando a mesma bossa que Slash criara para Sweet child O mine. E, vá lá, sintomático: o grupo deixa cair nas releituras de canções dos Stone Temple Pilots (Crackerman e Sex type thing) mas Weiland parece entediado e sem força vocal ao ser obrigado a recordar Used to love her, do Guns N Roses. Slash até hoje diz que procura alguém "menos problemático que Axl e Weiland" para bancar o frontman da banda. Que a inspiração lhes seja mais generosa.




"LIVE AT SHEA STADIUM" - BEATLES (DVD) Essa música é do nosso disco... acho que o Beatles VI”, “Essa música é do nosso disco anterior, acho. Não sei, não comprei o disco”, “Essa música é do nosso disco anterior, o que saiu antes desse que está na loja agora”. Esqueça os textos que aparecem na caixa do DVD The Beatles Live At Shea Stadium, gravado em 1965 na raspa do tacho da beatlemania, durante a grandiosa apresentação da banda em Nova York – e que falam sobre o grande momento pelo qual o grupo passava. Os comentários acima, feitos por um ensandecido John Lennon no palquinho montado no lendário estádio de beisebol, mostram bem o lado para o qual já giravam as cabeças dos quatro de Liverpool, em meio a shows variados, inúmeros singles, dois discos por ano, filmes. E ainda por cima, em meio a um naco de discografia completamente desconhecido para os próprios Beatles, já que a EMI americana retalhava os discos do grupo e transformava em outros, com faixas de compactos (Beatles IV, Beatles VI, etc).

Live at Shea Stadium, só para você ver, abre com um passeio de helicóptero por Nova York (de que outro jeito a banda mais famosa do planeta, em seu auge, poderia conhecer a cidade?) e prossegue com uma imagem icônica: uma caricatura do boa-praça Ringo Starr, com uma coroa de louros, como se fosse um césar. Ao lado, o próprio Ringo, fumando, com uma cara de tédio de dar pena. Se a mesmice tomava conta dos dias dos Beatles, os quatro, no palco, apertados em seus terninhos, tentavam não deixar transparecer – apesar da sensação de tocar para 55 mil pessoas e não atingir ninguém, ampliada pelo ridículo que era ver o grupo num palco minúsculo, se comparado à grandiosidade do estádio. E pelas tensões do público, sempre à beira de um ataque de nervos, e dos olhares perdidos do empresário Brian Epstein, flagrados em certo momento do DVD.

Entremeados com explosões até do bom garoto Paul McCartney, que diversas vezes para tudo para perguntar “vocês estão ouvindo a gente?”, e com a catarse do gênio (e genioso) Lennon – que chega até mesmo a berrar um palavreado incompreensível para a plateia, na base do “esse povo aplaude até fratura exposta” – hits como Twist and shout, Dizzy Miss Lizzy, Can’t buy me Love, I’m down, Help, A hard day’s night, Act naturally. Mas no geral é para rir. E para entender uma parte importante da história dos Beatles, justamente a mais tensa. Que chegou ao seu ápice quando a gravadora pediu mais uma salada de canções do grupo (na coletânea Yesterday & today, de 1966, unindo músicas de álbuns como Help e Revolver a faixas de singles) e os quatro responderam com a célebre foto em que apareciam fantasiados de açougueiros, em meio a pedaços de carnes e bonecas decepadas.



"LIVE AT THE RITZ - 1988"- GUNS N ROSES (DVD) Guns N Roses já foi uma grande banda. Sim, já foi, no passado – e não existe mais. A formação que vem se arrastando nos palcos por aí afora, e que recentemente esteve no Brasil para uma turnê repleta de desastres e coincidências infelizes (em 2010, quando saiu esse texto), está mais para Axl Rose E Seus Cometas. Ou para Chorão tocando no Vasquinho de Morro Agudo com a nongentésima formação do Charlie Brown Jr. E Axl sabe disso - muito embora neste DVD gravado em fevereiro de 1988, no Ritz, em Nova York, o vocalista já dê uma de dono do jogo e, ao apresentar o guitarrista Izzy Stradlin, solte um "ele está tocando comigo há 13 anos". Essa faísca de primmadonice, em meio a um showzaço, vem isolada, mas diz muito sobre o que ocorreria com o Guns em dois anos - abarcando nisso desde a sonoridade inflada do par de álbuns Use your illusion (1992) até o bota-fora (ou saídas voluntárias) de todos os outros músicos, até que só sobrasse o cantor e seus delírios no horrendo Chinese democracy (2009).

Fiquemos então com o frescor do Guns na época que a banda realmente interessava. Bancando os delinquentes juvenis do rock numa época em que isso não dava camisa a ninguém, Axl (vocal), Slash, Izzy (guitarras), Duff McKagan (baixo) e Steven Adler (bateria) eram novidade no fim dos anos 80. Vinham a bordo da selvageria da estreia Appetite for destruction (1987) e do próprio apetite (sem trocadilho) de seu público, dos jornais e estações de TV por novidades do quinteto. Gravando especial para a MTV, mandam bala em nove músicas do debute, todas tocadas sem um erro sequer. It s so easy, a melô da bagaceirice rock n roll Mr. Brownstone, o riffão de Sweet child O mine, hard rocks com alma punk como Paradise city, Out ta get me e Welcome to the jungle... Knockin on heaven s door, de Bob Dylan, é a cover da noite. Nos extras, mais saudosismo com os clipes de Patience, Don t cry e November rain. Uma era que acabou, e deu lugar à festa-baile que Axl arrasta pelo mundo, usando o nome do Guns. Só não dá para levar um “excelente” pela imagem fraca e mal conservada, lembrando um piratão licenciado.




"SETE CHAVES" - NX ZERO (DVD) “Tem gente que fala que a gente não é rock, que a gente não fala nada de contestador. A gente toca em rádio popular, então a gente é o rock do popular”, reconhece Gee Rocha, guitarrista e principal compositor do NXZero. Sete chaves, o documentário – feito pelo canal Multishow para o programa Registro - que vem neste DVD, mostra o que há por trás da banda paulista. Têm os bastidores de suas turnês, suas farras nos hotéis, a composição das músicas (nas quais mostram um inevitável lado de dupla sertaneja, com Gee e o vocalista Di Ferrero cantando a duas vozes e um violão), a gravação do mais recente CD, de mesmo nome.


Criticar é fácil. E tentar ouvir o som que a sobrinha ou a filha de 14, 15 anos gostam, às vezes, causa vergonha alheia. Mas vá lá: dá para reconhecer mais talento e disposição nos rapazes do que em nomes musicalmente cansados como Pitty e Cachorro Grande. Afastando o tédio das letras cheias de clichês (num tom romântico que se convencionou classificar como “emo”), difícil não reconhecer ótimas canções em músicas como Cedo ou tarde e Insubstituível. Ainda que, acompanhados de perto pelo produtor Rick Bonadio no estúdio, mostrem vir de uma forte linha de montagem pop que gerou o fraco último dos Titãs, Sacos plásticos (com os vocais bregas de Antes de você e arranjos de cordas gravados na meca country, Nashville, onde os NX também trabalharam) e coisas tétricas como O Surto.


Para quem sonha montar uma banda, o DVD mostra como é o dia a dia de um grupo num período em que discos vendem pouco, gasta-se cada vez mais grana para bombar um artista e, por terem virado a maior fonte de renda, shows são dados em escalas inimagináveis, na proporção de três estados diferentes às vezes em uma semana. Mas traz todo o esquema A hard day s night ao qual uma banda de rock justa tem direito: fãs atiradas, cidades conhecidas apenas pelas janelas dos hotéis, tédio aplacado com brincadeiras imbecis pelos corredores, noites sem dormir etc. E a sensação de que o mais pesado ficou de fora. “Quer tocar pelo Brasil inteiro? Foda-se, problema seu. Depois fica de mau humor, reclama que avião é desconfortável...”, detona o guitarrista Fi Ricardo, enquanto passeia desnorteado por um aeroporto. Rock, hoje, é isso.





"BACK AND FORTH" - FOO FIGHTERS (DVD) - David Grohl errou por inabilidade algumas vezes - o erro mais comum em pessoas de boa intenção, mas que metem os pés pelas mãos para fazer valer suas vontades. De baterista e coadjuvante, viu-se transformado em líder, guitarrista, vocalista e gestor de uma superbanda. Convidou um velho amigo (Franz Stahl, ex-guitarrista do Scream) para fazer parte do Foo Fighters sem pensar se tinha a ver ou não - e precisou tirá-lo. Comandou uma sessão caríssima de gravações (a que geraria o disco One by one, de 2002) para depois jogar tudo no lixo. Regravou todas as baterias do disco The colour and the shape (1997) e não avisou isso ao titular do instrumento, William Goldsmith - que, ofendido, saiu do grupo.  Em compensação, criou - entre doses desiguais de Queen, Sex Pistols, Led Zeppelin e Dead Kennedys - uma cara própria e bastante vendável para o rock pós-grunge.

Essa história de muitos acertos e poucos erros está em Back and forth, documentário dos Foo Fighters. Periga qualquer roqueiro entre os 20 e 40 anos apertar o botão play do DVD-player achando que David Grohl, com sua secura por trabalho e diversão, seja a verdadeira salvação do rock atual. E talvez seja. Nome raro a conseguir fazer com que o estilo ainda continue bombado, impressiona pelo estilo verdadeiro que impõe a Back and forth, dirigido por James Moll. Grohl é mostrado como um roqueiro com atitude de fã de rock, que correu atrás do sonho de ter uma banda e praticamente impôs sua presença em meio aos artistas mais clássicos do estilo.

Histórias que, hoje, poucos imaginariam terem feito parte do cotidiano de uma superbanda também são comuns no DVD - como as dificuldades para levar turnês adiante e a incerteza no começo da trajetória do grupo, quando Grohl chegou a recusar um convite para ser baterista de Tom Petty. Ou a insistência do público dos primeiros shows para que Grohl tocasse Marigold (única música que compôs e cantou durante sua passagem pelo Nirvana). Em ritmo de filme da Sessão da tarde (não por acaso, a abertura do longa tem ares de comédia adolescente), Back and forth traz depoimentos até de quem saiu brigado do grupo. E joga ainda mais luz sobre a carreira de um músico que se recusou a ficar na sombra.


(tudo publicado no Laboratório Pop entre 2010 e 2012)




quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

UM PAPO COM DAVE FAULKNER (HOODOO GURUS)


Calor, sol, verão... alegria geral, não? Não, amigos: insolação, gente passando mal por causa dos mais de 40 graus do verão, sofrimento geral para quem trabalha em funções como motorista de ônibus, cozinheiro ou mecânico, sede eterna e outras aporrinhações podem servir para definir melhor o período. A combinação entre verão e estados de espírito trevosos existe, na verdade, desde quando os Beach Boys largaram a fórmula carros-surf-garotas e puseram introversão, espiritualidade e doideiras nas letras (em Pet sounds, de 1966). Teve mais gente levando isso a sério - como os australianos dos Hoodoo Gurus, que partiram para uma combinação de melodias ensolaradas, energia punk, psicodelia (dosada), indignação, ateísmo e ironia.

Essa fórmula continua dando certo até hoje e rendendo discos como
Purity of essence, lançado em 2010 e editado no Brasil com um ano de atraso. Esse lançamento foi o que me motivou a correr atrás (com a ajuda da amiga Tatiana Wise, que mora na Nova Zelândia, sem a qual esta matéria nem teria saído) de Dave Faulkner, líder do grupo (um dos meus preferidos, aliás) para bater um papo para o Laboratório Pop, em março de 2011. Leia, curta e - sério - beba bastante água. Tá foda.



AUSTRALIANOS EMPOLGADOS
Publicado no Laboratório Pop em 16/03/2011
(colaborou Tatiana Wise)


Com duas turnês pelo Brasil nos anos 90 e um punhado de hits por aqui (Come anytime, Out that door, 1.000 miles away), a banda australiana Hoodoo Gurus faz a alegria dos surfistas há mais de 30 anos com uma estranha mescla de canções ensolaradas e letras reflexivas - e por vezes, depressivas e críticas, unidas a uma base entre o punk e o rock dos anos 60 que acabou por ganhar o rótulo de surf music, extensivo a conterrâneos como Australian Crawl, Gang Gajang e Spy Vs Spy. Muitas de suas músicas tocaram bastante no rádio no Brasil - e apareciam bastante na MTV, quando a estação começou a fazer sucesso - mas seus discos sempre atrasaram para chegar aqui, ainda mais em CD. Lançado em novembro do ano passado, Purity of essence, nono disco de estúdio do grupo, chega ao Brasil só agora, pela Som Livre. O single da vez é Crackin up.


Tendo em sua formação o carecão Dave Faulkner (vocais, guitarra e autoria de quase todas as músicas), Brad Shepherd (guitarra solo e ocasionais composições e vocais), Rick Grossman (baixo) e Mark Kingsmill (bateria), os HG fizeram sucesso mundial há duas décadas, mas acabaram por encerrar atividades após gravar Blue cave (1996). Voltaram a reboque de um contrato (zicado) com a EMI australiana e o disco Mach schau (2004). Hoje estão em selo próprio, Virtual Label. Da Austrália, onde vive até hoje ("vários amigos deixaram o país e foram para Nova York, e me orgulho de ser daqui e morar aqui", exulta), Faulkner, 54 anos, fala ao LABORATÓRIO POP e revela que resolveu encerrar as atividades da banda por temer que os Gurus terminassem brigados, ou que nenhuma gravadora quisesse mais o grupo, ou qualquer dessas desgraças que acometem bandas. Felizmente, não só isso não aconteceu como os HG voltaram animados para novas turnês. "Queremos voltar ao Brasil!", garante o cantor.


LABORATÓRIO POP: Purity of essence traz 1.000 miles away como faixa bônus - essa música, que é um hit de 1991 (do disco Kinky), ficou famosa recentemente no Brasil por estar sendo usada como jingle de um comercial de carro. É uma canção da qual você gosta?


Dave Faulkner: Olha, tem uma série de músicas minhas das quais não gosto, e essa definitivamente não é uma delas. Um monte de gente me fala que é sua música favorita de todas que eu fiz.


Como ela foi escrita? 


Nem lembro exatamente o que fazia quando a escrevi - se demorou, se foi rápido  - mas lembro o motivo de tê-la escrito. Quis expressar meu constante dilema entre ter saudades de uma vida estável, mas reconhecendo que sou impaciente e inquieto demais para optar por uma coisa só. De alguma maneira, sou um pouco solitário, não gosto de ser resposável por outras pessoas. Agora, tem um paradoxo nisso aí, porque estou na mesma banda por mais de 30 anos e nesse tempo todo estive bem consciente de minhas responsabilidades com a banda, incluindo gente que trabalha conosco e, importantíssimo, os fãs. Essa canção fala da minha personalidade conflituosa em relação a isso. Uma espécie de temperamento mercurial, inconstante.


Vocês tocaram em alguns shows recentes uma música da época do The Victims, a banda punk que você tinha antes do Hoodoo Gurus, Television addict. Fale um pouco da banda. 


Na verdade não a tocarmos regularmente, acho que foram só umas quatro vezes. Tocamos quando a plateia pede. Rolou um par de meses atrás durante nosso show, depois que alguém gritou pedindo a música. Comecei a tocar sozinho só para satisfazer essa pessoa que pediu a canção, mas o resto da banda geralmente vem junto. Os Victims eram uma banda que montei com James Baker, que foi o primeiro baterista dos Gurus, em 1977. Gravamos só esse single e um EP de cinco músicas.


Com três décadas de trabalho, qual a receita para não perder a essência da pureza? Acredita que ela ainda esteja lá hoje com vocês?


Não perdemos nossa essência original mesmo, ela ainda está lá. Seja para o bem ou para o mal, não mudamos nossa filosofia ou nossa maneira de abordar o trabalho. Claro que rolaram algums mudanças, é como naquela música de Joni Mitchell Both sides now, "alguma coisa se perdeu e alguma coisa foi ganha todos os dias". Eu odiaria ser o tipo de cara que fica preso a um só lugar artístico, ou preso a qualquer outra coisa na vida…


Você critica a exploração da religião em músicas como Gospel train e a nova I hope you're happy… Qual sua relação com a religião?


Fui criado na igreja católica, mas virei ateu quando estava na universidade. E assim estou até hoje. Acredito que há uma dimensão metafísica para a existência, mas não acredito que essa dimensão - e isso na falta de uma palavra melhor - seja feita de fadas, goblins ou anjos. A maioria das religiões é só um negócio, cheio de cara cínicos no topo e que nem sequer acreditam em seus dogmas. Para elas é só um produto para explorar pessoas e exercer o poder. Claro que tem um monte de pessoas fazendo coisas boas em nome da religião, não nego isso. Sou mais contra a hipocrisia, o fanatismo e os mentirosos que usam não apenas a religião, como também a política ou qualquer outra coisa que só sirva a seus próprios interesses.


Falando nisso, Only in America, de Purity…, é uma crítica ácida aos EUA. Como vê o país hoje?



É uma sociedade maravilhosa e terrível ao mesmo tempo. Tenho muitos amigos que estão no mesmo estágio que eu e se mudaram para Nova York, mas estou orgulhoso de não tê-lo feito nunca. Tenho orgulho de ser australiano e estou feliz de viver aqui. Digo na letra o mesmo que muitos americanos falam. América: ame-a ou odeie-a, você ainda vai ter que lidar com ela.


Afinal, por que vocês deram um tempo em 1998?


Naquela época eu estava cansado de fazer turnês e não estava certo sobre se queria mesmo escrever mais um disco dos Hoodoo Gurus. Eu freqüentemente também pensava sobre como a banda iria acabar. Será que acabaríamos brigados, lutando uns com os outros? Ou que as pessoas perderiam o interesse na gente? Ou que as gravadoras simplesmente não iriam mais querer gravar a gente? Bom, não aconteceu nada disso, mas senti que Blue cave seria um grande disco para encerrar nossa trajetória e que a banda acabaria no auge em vez de entrar em declínio. Não consigo fazer outro disco se não estiver 100% comprometido. Mas poucos anos depois fiz canções que vi que só poderiam fazer parte de um disco dos HG e reformamos a banda.


Vocês assinaram, ao voltar, um contrato com a EMI  e lançaram só um disco, Mach schau. Por que o contrato com a gravadora não deu certo?


Na real, o selo inteiro, virtualmente, deu errado. A EMI Australia entrou numa reestruturação drástica depois de a multinacional ser vendida para um magnata dos shopping centers na Europa.  A maioria das pessoas com as quais trabalhamos lá foi despedida ou transferiu-se para outras companhias. Daí decidimos sair fora.


Os discos dos HG são compostos quase na totalidade de músicas suas, mas sempre há uma ou duas escritas por Brad Shepherd (guitarra). Como isso é combinado?


Não é combinado, apenas escolhemos as músicas das quais gostamos. Na real, Brad é um guitarrista melhor do que eu e eu sou um compositor melhor do que ele. Mas a minha maneira de tocar e sua maneira de compor são partes importantes para a banda e sua personalidade. Algo que explica o motivo pelo qual ele não faz a maioria das músicas e eu não faço a maior parte das guitarras, eu diria.


E sobre os shows que vocês deram no Brasil nos anos 90? Quais são suas memórias?


Amamos ambas as nossas tours no Brasil: as pessoas, a cultura, a comida era ótima. Foi tudo bem animador para nós e adoraríamos ter tudo isso de novo. Por uma série de razões nunca conseguimos voltar. Mas um dia desses...


Aqui o som de vocês é mais conhecido como surf music. Você curte o esporte? Há uma relação entre HG e o surf?


Nenhum de nós surfa, mas amamos ir à praia. Vivo em Bondi Beach, em Sydney, e você nem imagina quantos brasileiros têm aqui na minha vizinhança, morando por aqui. No começo, nós tínhamos um grande número de fãs surfistas. Começamos a fazer sucesso na Califórnia porque um punhado de surf movies australianos estavam usando nossas canções. Daí a comunidade de surfistas passou a nos ouvir.


Foto: Divulgação

Nota de atualização: Não, os Hoodoo Gurus, sucesso por aqui entre roqueiros, surfistas e etc nos anos 80 e 90, não voltaram para o Brasil. De 2010 para cá, não saíram novos discos. Em compensação, em abril, lá foram eles circular pelas principais cidades da Austrália na tour Dig It Up!, que comemorava os 30 anos do primeiro single da banda, Leilani. O primeiro disco do grupo, Stoneage romeos (1984), era tocado na íntegra nesses shows.

Em 2010, ano do lançamento de Purity of essence, a Spinner fez uma piadinha cruel sobre a nova turnê americana dos Gurus, dizendo que após a retirada de Peter Garrett do mundo da música (o cantor do Midnight Oil, igualmente desprovido de cabelos, virou político na Austrália e hoje ocupa o cargo de ministro para a Educação Infantil, Primeira Infância e Juventude), Faulkner estaria preparado para assumir o posto de Embaixador Careca do rock de seu país. Hehe.


segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

ROBERTO CARLOS E SÉRGIO SAMPAIO: ENFIM, UNIDOS

Quando, em 2002, eu escrevia num portal (já extinto) chamado Central da Música, fui apresentado pela internet ao som de um cara chamado Aroldo Sampaio, músico de Cachoeiro do Itapemirim que vem a ser parente do cantor e compositor Sergio Sampaio (1947-1994) e filho do lanterneiro que fez o célebre calhambeque do rei Roberto Carlos. O cara lançava um disco chamado Não música para você esquecer e misturava boas canções e versatilidade musical difícil de encontrar - e prosseguia para a mesma sonoridade alguns anos depois, em 2009, quando lançava mais um disco, o independente Haja palavra para o que eu não digo, repleto de sons instrumentais, e que se seguia a Somewhere over the blues, no qual fazia blues com guitarra, violão, acordeon, coral de crianças e tudo o que aparecesse pela frente. Em julho de 2009, Roberto Carlos comemorava 50 anos de carreira com um showzaço no Maracanã e no Jornal do Brasil, procurávamos assuntos ligados ao Rei. Do nada, apareceu Aroldo com seus novos (e excelentes) lançamentos. Pauta provada, fui bater um papo com ele e saiu isso aí.

PRIMO DE SÉRGIO SAMPAIO, AROLDO SAMPAIO LEVA SAMBA E FORRÓ AO BLUES
Publicado no Jornal do Brasil em 11/07/2009


 No livro Roberto Carlos em detalhes, o historiador e jornalista Paulo César Araújo diz que a terra natal do Rei, Cachoeiro de Itapemirim (ES), era bastante moderninha, cultural e comportamentalmente, nos anos 50 e 60. O guitarrista cachoeirense Aroldo Sampaio, que lança às próprias custas o CD instrumental Haja palavra para o que eu não digo que se junta a Somewhere over the blues, gravado quase ao mesmo tempo mas lançado em 2007, e ao debute Não música para você esquecer (2001) adoraria que isso ainda acontecesse. O fato de o maior nome da música nacional ter vindo de Cachoeiro não fez com que a cidade virasse um grande polo do rock ou do pop. Ironicamente, Aroldo, que é primo do cantor e compositor Sérgio Sampaio (de Eu quero é botar meu bloco na rua) informa que um dos points locais em que seus trabalhos estão à venda é uma pastelaria cujo nome é nada mais nada menos do que... Mutantes.

"Pois é, esse lugar é de um roqueiro velho daqui de Cachoeiro. O cara tem disco de tudo. Mas lá não tem show, não", afirma, rindo, o músico, ligado ao blues e ao rock. "A gente passou 10 anos sem ter um cinema ou um teatro. Agora tem muita gente aqui escrevendo, compondo. Tem bandas autorais, como o Vitrola de 3, que é rock e MPB, o Longe, que faz surf music. E o Projeto Feijoada, que faz samba-soul. Vim de um grupo que tocou no Rio, o João Moraes & A Patuleia, que também tinha material próprio".

Se todo músico que nasce em Cachoeiro já cresce sob a sombra do ilustre conterrâneo, que comemora 50 anos de carreira, Aroldo ainda tem outra forte presença: a do primo, morto em 1994 de pancreatite. Um cantor campeão de vendas com o primeiro single, Eu quero... (1973), mas que se tornaria um artista assustado com o próprio sucesso, a ponto de anulá-lo. Quando Aroldo Sampaio começava a tocar, ainda criança, o primo mais famoso já tentava a sorte no Rio.

"Ele vinha aqui em Cachoeiro às vezes, lembro dele tocando violão para mim e tomando umas biritas nos bares daqui", recorda Aroldo, que não sabe dizer se sofreu influência musical do primo, mas no primeiro disco gravou uma canção dele, Viajei de trem. "O irmão dele, o Túlio, adorava contar histórias suas e do Raul (Seixas, que o lançou), de como eles não tinham dinheiro mas compravam carros de luxo".

Apesar das diferenças estéticas, Roberto Carlos deixou sua marca no trabalho de Aroldo, que tem um projeto com a cantora Marcela Lobo revisitando a fase soul do Rei. E, só para registro, é filho do lanterneiro que fez o célebre calhambeque azul de Roberto reformado recentemente pelo ex-corredor Emerson Fittipaldi.

"Todo ano, na época do aniversário dele (19 de abril), tem a Semana do Rei, e a gente acaba se apresentando". conta. "Este ano, Roberto deu um show em Cachoeiro em seu aniversário. Eu estava justamente fazendo um rock com os amigos numa laje ao lado do estádio onde rolava a apresentação, dava para ver tudo dali. Depois, a polícia apareceu por lá para mandar a gente abaixar o som, porque tinha um hospital ali perto. Acho que depois do Rei a galera não queria ouvir mais nada, né?".

No som de Aroldo, o receituário do blues aparece modificado. Além dos vários tipos de guitarras, a sonoridade inclui ritmos como samba, forró e bolero e instrumentos como acordeon, violão de nylon, piano e percussões, além de um divertido coral de crianças na engraçada Crássico é crássico e vice-versa. As músicas do compositor ainda ganham títulos bastante irônicos, como Pancadaria Futebol Clube, Uma gangorra para dois, No money, no honey e Gato na coleira.

"Pancadaria eu tirei de uma frase do (soprista) Carlos Malta, que, num workshop, usou o termo para definir o som de uma saxofonista que tocava bastante forte. Aí, fiz uma música que era o contrário disso", conta. "Cada título tem uma historinha. O tal gato na coleira da música existe mesmo, era o gato de um vizinho meu. Contava isso e ninguém acreditava, porque ninguém põe gato em coleira".

Se hoje as coisas ainda estão recomeçando em Cachoeiro, Aroldo diz que, nos anos 80, quando começou, foi mais complicado.

"A gente tinha que se virar, gravar tudo em fita. Hoje, tem tudo na internet, mas até chegar uma revista de música aqui complicava. Lembro que eu ia à casa de um amigo que tinha videocassete para assistir aquelas fitas de videoaula", afirma o músico, que aos 39 anos, não é tão atualizado assim em matéria de música. "Essa maneira nova de escutar música, de ter vários MP3 para ouvir, eu nem gosto. Mas passo muito tempo ouvindo música, inclusive as minhas, porque depois que gravo esqueço tudo. Gravo para tirar da cabeça".

Nota de atualização: Conheça o som de Aroldo (que já soltou dois CDs desde 2009) aqui.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O PUPILO DE ROBERTO CARLOS


Não existe fim de ano sem Roberto Carlos - que terá seu especial de Natal exibido pela Rede Globo no exato 25 de dezembro. O Rei já foi assunto para este blog, mas tem outros Reis por aí, e não estamos falando de Pelé ou coisa parecida. Covers de Roberto Carlos têm vida e trabalho próprios, dão shows, arriscam as próprias canções e dão até shows em embarcações - bem mais modestas que o navio Costa Concórdia, escolhido pelo Rei para seus cruzeiros, claro. Um deles é o baiano Carlos Evanney, que mora na Lapa carioca e fez no último domingo (16) seu mais recente passeio marítimo com os fãs. E no dia 12, subiu ao palco do Teatro Rival, pertinho de sua casa, para um show com a Orquestra Sinfônica de Nova Iguaçu.

Quando estava no
Jornal do Brasil, cobri, no finzinho de 2009, um cruzeiro de Evanney - um evento que tem lá seus lados cômicos (tive até dificuldades para colocar em palavras o que foi assistir às reações das fãs do cover de Roberto) mas que é levado a seríssimo por ele e por seu público. Se o Rei resolvesse ir lá ver, se orgulharia. A matéria saiu no começo de setembro de 2009 na saudosa Domingo e tá aí. O texto que se segue foi feito antes dos cortes e edições de Robert Halfoun, que era o editor da revista. Pena eu não ter conseguido achar a revista lá em casa, nem ter recuperado as fotos que o brother Vitor Silva, fotógrafo que me acompanhou na aventura, bateu - numa delas, eu apareço ganhando uma rosa (hehe) do Evanney. Que prometeu que cada fã que estivesse no navio ganharia uma rosa, sem que ninguém precisasse se estapear por isso. E cumpriu.


"Ô Rosselito, falta quanto para acabar a fita?", pergunta Carlos Evanney, cover oficial de Roberto Carlos, ao rapaz nordestino que segura no ombro direito uma câmera de vídeo antiga, cujas fitas precisam de um adaptador para serem assistidas num jurássico videocassete. Só três minutos, avisa o cameraman. "Entãotroca a fita, para caber mais cenas no DVD que a gente vai fazer". O rapaz pega outra fita e continua a registrar todos os momentos, passo a passo, da confirmação de que o cover é, de fato, fiel a seu modelo. Incentivado pelo fãs que vão assistir a seus shows em lugares como o restaurante Capela e o Colégio da MABE, na Lapa, Evanney, que não revela o nome verdadeiro e a idade nem por decreto, resolveu fazer como o Rei e botar também seu cruzeiro para circular pelas praias do Rio. Já é o terceiro passeio com os fãs, sempre tendo como carro-chefe um show, feito com a embarcação (uma escuna, a Casablanca, na qual cabem 200 pessoas, ao contrário do navio para 3.000 passageiros usado por Roberto) parada na praia da Urca. Ali, o baiano Evanney, vestido (claro) de comandante de navio, canta sucessos do Rei em frente à janela do próprio.

"Sempre fica aquela esperança de ele aparecer na janela, né? Mas ele ate hoje não veio", lamenta Evanney, algumas horas antes de saber que também não seria daquela vez que o Rei irromperia na janela do quinto andar. Se aparecesse, ficaria orgulhoso da obstinação de seu pupilo. Desde a partida na Marina da Glória, às onze da manhã de um domingo, fica claro que, se a escuna fosse uma cidade, Evanney seria seu prefeito. Se Roberto, em seu cruzeiro, só encontra o público no show e tem um séquito de ajudantes, o cover, inicialmente vestido de jeans e camisa azul, recebe os fãs na entrada e faz tudo, com a ajuda de alguns amigos-fãs e do escudeiro Célio - que só ganhou nariz torcido do chefe ao esquecer de separar uma garrafa d'água sem gelo para ele beber antes do show. Promete que ao final, dará uma rosa para cada fã, homem ou mulher, que estiver na embarcação. Sem que seja preciso ninguém se estapear para isso.

O ambiente da embarcação, meio detonado, sem decoração e com pouco espaço, é o oposto do luxo do navio de Roberto. Os diferentes sotaques ouvidos durante a viagem mostram que o cruzeiro de Evanney serve para unir imigrantes do norte e do nordeste que compartilham com ele a saudade de suas terras natais e a paixão pelo Rei. É o caso de Carmem Plácido, baiana como Evanney. "Se você fechar os olhos, a voz do Evanney é igual. No último show que vi , uma mulher na plateia chorava tanto que a gente teve que levá-la para conversar com ele", lembra.

 
O clima na escuna não é muito diferente de uma excursão normal. A maioria dos participantes é do sexo feminino e parece ter mais de 50 anos - quem tem menos de 30, com raras exceções, levou a família ou foi levado por ela. Muitos, como a pensionista Ionér Correa, foram também pela farra, com direito a brincadeiras com a idade, digamos, avançada da maioria dos participantes e chifrinhos nos distraídos na hora da foto. "Somos um grupo grande que participa de várias excursões. Aqui tem gente como eu, que moro no Leme, e tem gente que mora em Bonsucesso, na Baixada, na Tijuca, mas todo mundo é igual. Clima povão", avisa.

 
Em poucos minutos, duas funcionárias da cozinha passam servindo o almoço: strogonoff de frango. Alguém, em meio a garfadas, lembra que, "semana passada o Luciano Huck disse que é para ninguém servir strogonoff em festa porque é comida de pobre". E quem se importa? Nem mesmo o repórter e o fotógrafo, cada um com seu prato. Com um mp3 rolando ao fundo uma seleção de canções voltada para o pop dos anos 60, 70 e 80, todo mundo perde a vergonha, canta alto, dança e tenta se acostumar com o balanço da escuna. A dobradinha Aquarius/Let the sunshine in, gravada pela banda Fifth Dimension para a trilha da peça Hair, provoca transe coletivo em um grupo de senhoras e moças, que dança animadamente e quase manda bala em tombos fenomenais - frustrados a tempo.

 
O clima alegra Evanney, baiano da cidade de Maraguagipe que se apaixonou pela voz Real ainda na infância, quando ouviu o hoje esquecido hit A garota do baile, no rádio de um vizinho. "Morava numa casa que não tinha nem luz elétrica", recorda. Quando seu vizinho comprou uma televisão, lá foi Evanney assistir ao Jovem guarda. "Cheguei a construir uma vitrola, com uma manivela, uma lata e uma agulha, para poder ouvir um compacto do Roberto". Evanney soma dois encontros com o Rei. Num deles, no aniversário de Roberto de 2003, ganhou dele um pedaço de bolo, que guarda até hoje numa caixa de acrílico. "O bolo nãoperdeu o cheiro até hoje", garante ele, que pôs na filha de 16 anos o nome de Roberta Carla.

 
Às duas da tarde, quando o barco aporta na Urca, Evanney se apronta discretamente no banheiro da escuna. Troca a camisa azul pela roupa de comandante de navio e, ao subir ao "palco" (uma cortina azul ao lado da escada, com uma multidão passando), agradece à plateia, pega o microfone - dobrável como o do Rei - e ataca, acompanhado de um guitarrista e de um tecladista, Emoções.  Não fosse pelo som da escuna (ruim e provavelmente parecido com o da tal vitrola de lata que Evanney construiu na infância), poderia passar mesmo por Roberto. Evanney imita o vocal anasalado, os maneirismos, a pausas (como o "que prazer...") e não bobeia nem com a ordem das musicas no show - igualzinha à do original. O público rouba a cena: grita, chora, canta junto e reclama das senhoras que insistem em ficar em pé na frente. "Senta, p...!", repete várias vezes uma senhora sentada, com uma bengala na mão, já quase dando na cabeça de uma mulher de uns 50 anos, que insistia em não lhe dar ouvidos e permanecia em pé. Sobrou até para Rosselitoo intrépido cinegrafista, que ouvia toda hora, "ô de vermelho, senta!" enquanto gravava, trocava fitas e ouvia ordens do chefe. 

 
Profissional, Evanney não reclama do barulho, conversa com a plateia, mistura sucessos dos anos 80 com sons da jovem guarda e... chama uma convidada. É a cantora Adriana - lembra dela? - que foi assistir ao show e acabou levando Custe o que custar, de Roberto e Erasmo, além do hit I love you baby (a do "te amar é tão bom/tão bom, tão bom"). Diga-se de passagem, cantando bem melhor do que há vinte anos. "Faz de conta que estamos no Chacrinha. No Globo de Ouro, no Bolinha", conclama Evanney.

 
Ao final, sorteia a camiseta do show - com uma foto sua na frente e, atrás, a propaganda de uma loja de ferragens que patrocina o evento. Sorteia também um boné e um livro. E prepara-se para o final, com a apotetótica Jesus Cristo, já com o barco em movimento. A dança de três senhoras, que quase caem com omovimento da escuna, preocupa Evanney. "Jesus Cristo/Jesus Cristo eu estou aqui.../Cuidado aí", canta ele, enxertando um novo verso na letra de Roberto e Erasmo. Depois, emenda um pot-pourri de jovem guarda, deixando seu tecladista de língua de fora. Era praticamente um verso, um comando ("mi maior! si maior! lá maior!") e outro verso. Sai do palco aplaudidíssimo.

 
"A gente vai fazer outra viagem dia 27 de dezembro, mas devemos usar uma embarcação maior. Essa aqui já está pequena", diz Evanney, feliz com o resultado, ainda que o Rei não tenha aparecido na janela.Ao final, combina com os fãs que sairá da escuna primeiro e, promete a tal rosa, festejada pelas fãs. "Nos shows do Roberto a gente quase se rasga para pegar uma rosa, né? Quem tem unha grande se dá bem, porque já sai de casa armada", brinca uma fã, exibindo unhas de meter medo. Mas não foi preciso usar violência. Evanney abraçou todo mundo na saída. Dava realmente, até pelo teatro da situação, para se sentir um pouco mais próximo do Rei. "Queria que ele visse isso. Mas para mim já foi maravilhoso ter chegado até aqui", alegra-seo cover. 

 
POR CAUSA DELES: A chefe de cozinha Irce Brito Dantas leu na seção Cariocas da revista de Domingo, uma entrevista com Evanney, em 2008, na qual anunciava que faria um cruzeiro para os fãs. Procurou ocantor e disse que, se ele fizesse realmente o passeio, convidaria várias pessoas. "Cheguei a vender uns 50 convites. Poderia ter trazido mais gente, mas o espaço é pequeno". Já o representante comercial Silvio Brandão é amigo de Evanney antes da fama e também chamou a maior galera. Entre eles a advogada Isabel Brandão, carinhosamente chamada de Isaberta pelos amigos. "O Evanney é muito legal. Tem amigos que até falam: 'ih, lá vai você para o show do Roberto paraguaio...'. Nem ligo".

 
ROBERTA CARLA: A paixão de Evanney por seu ídolo o levou a colocar na filha esse nome. A gatinha Roberta Carla Soares tem 16 anos, está no terceiro ano do ensino médio e ajudou o pai no cruzeiro, distribuindo cupons e tirando fotos. Já conheceu o ídolo do pai e diz gostar de Roberto. "Mas gosto mesmo é da Beyoncé e da Madonna", diz ela, admitindo que não escapa de algumas brincadeiras por causa do nome.

 
ADRIANA: A cantora de I love you baby volta com um CD cheio de sucessos e inéditas em breve. E só reclama quando pergutam para ela algo sobre a época da jovem guarda. "Eu nunca fui da jovem guarda! Sou uma cantora romântica, comecei com o Carlos Imperial na época da Pilantragem", diz ela, que é amiga de Evanney e frequenta seus shows junto com o marido, o guitarrista Marcio Monteiro. Ah, lembra que ela tinha duas filhas gêmeas, Natanna e Tuanny, que eram da última formação da Turma do Balão Mágico? Elas têm hoje 23 anos e são advogadas. "Mas fazem backing vocal para mim às vezes", lembra a mãe.

domingo, 2 de dezembro de 2012

METAL NO RIO

Em 2009, quando fiz essa matéria, o Kiss estava para vir ao Rio. Ronnie James Dio ainda estava vivo - um show do Heaven And Hell, prosseguimento do Black Sabbath com o alegado criador do sinal "lml" estava por acontecer em terras cariocas. E os produtores defendiam que o Rio, apesar de o Iron Maiden ter deixado de passar por aqui um ano antes - alegando conflitos de agenda - ainda era uma terra prometida para os fãs de heavy metal. Será que ainda é assim?





PRODUTORES CARIOCAS DEFENDEM QUE O RIO É O PARAÍSO PERDIDO DO HEAVY METAL

Publicado no Jornal do Brasil em 19 de fevereiro de 2009


Em março do ano passado, o Iron Maiden trouxe para o Brasil uma parte de sua turnê Somewhere back in time, que recordava os tempos áureos de discos como The number of the beast (1982) e Powerslave (1984). Só que, por problemas de agenda, o Rio de Janeiro ficou de fora.


Agora, não apenas o Iron, mas o Kiss e até o Heaven and Hell, que inclui quatro músicos que passaram pelo monolito metálico Black Sabbath (os fundadores Tony Iommi e Geezer Butler, além de Vinnie Appice na bateria e Ronnie James Dio no vocal) passam pelo Rio -respectivamente nos dias 14 de março, 8 de abril (ambos na Praça da Apoteose) e 17 de maio (no Citibank Hall, na Barra). Fala-se também, sem confirmação, de shows do AC/DC, no segundo semestre.


Em tempos de crise, muitos empresários defendem que o Rio, primeira cidade brasileira a agendar grandes shows de heavy metal, retomou a função de paraíso perdido do gênero. "O Rio tem tudo a ver com o heavy metal. Foi uma chiadeira geral quando o Iron não veio aqui em 2008", recorda Bernardo Amaral, diretor da empresa Sale, que leva a banda de Bruce Dickinson à cidade.


"Bandas como o Iron e o Kiss sempre se interessaram pelo Brasil e pela América do Sul de forma geral, mas quando entra o nome do Rio o interesse aumenta. Inclusive pelo histórico das edições do Rock In Rio, do Hollywood Rock e dos shows na Praia de Copacabana", completa o diretor.


Alexandre Faria, da Time 4 Fun, que traz o Kiss, disse que, por trás da vinda da banda -que aporta no Rio com a turnê comemorativa de 35 anos de carreira, Kiss alive/35 - está um amor histórico pela cidade. "Eles até hoje não esquecem do show que deram em 1983 no Maracanã. A ligação emocional da banda com o Rio é forte. Tanto que estão trazendo o show completo, com tudo a que temos direito", afirma Faria, também responsável por trazer o Heaven and Hell.


"Será a oportunidade de assistir a uma das bandas criadoras do heavy metal, pois o núcleo básico do Black Sabbath estará lá, com os maiores sucessos do grupo. E é um show que transcende o metal. Assim como acontece com o do Kiss, que atinge fãs de hard rock e de rock progressivo", diz Faria.


Amaral frisa que só há um único detalhe faltando para que o Rio se estabeleça como um epicentro metaleiro (ou pelo menos roqueiro). "Não temos uma rádio dedicada ao rock no dial carioca", afirma ele, que mantém contato direto com os fãs das bandas que traz ao Rio. "Eles oferecem até material antigo para a gente, tudo das turnês passadas na cidade".


O produtor Luiz Claudio Maradona, que costuma organizar caravanas para shows, é outro a repetir a velha máxima de que trata-se de um mercado sustentado por fãs fiéis, o que atenua a crise. "O fã de metal destaca-se por isso. Ele compra tudo: camiseta, CD, DVD. No Rio, acho que o Iron e o Kiss vão juntar cerca de 40 mil admiradores cada um. O Heaven and Hell também deve encher o Citibank Hall", afirma.


Maradona também diz que os shows no Rio estão servindo para movimentar o mercado de fora do estado. "Há gente de todo o Brasil depositando dinheiro na minha conta para que eu compre ingressos para o show do Kiss. Estão desesperados para ver a banda. Para o carioca, que não os vê desde 1983, então, o desespero é ainda maior".


Já Faria diz apostar numa fidelidade que passa de pai para filho, dos headbangers veteranos (que viram bandas como Kiss e Iron Maiden no Rio, nos anos 80) para suas descendências.


"Nas apresentações dessas bandas, comparecem de duas a três gerações. Shows do Kiss ou do Iron são um programa de família, também por causa das aparições recentes do Gene Simmons (baixista do Kiss) em reality shows (Gene Simmons family jewels, do canal pago A&E)".

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

O ROCK DO CAETANO


Caetano Veloso lança disco novo, Abraçaço. Segue aí um textinho que fiz em 2007 sobre o disco , o primeiro disco dessa série que rendeu comentários do tipo "isso é rock ou não é?". Saiu acho que no meu antigo blog, mas depois foi publicado pelo site Galeria Musical.


"CÊ" - CAETANO VELOSO (Universal)


O modus operandi de Caetano Veloso causa mais discussão do que sua própria música - como se o discurso que está por trás de seus discos falasse mais alto que seus próprios discos. Traduzindo para os leitores: Caetano quer mesmo é chamar atenção. Quer que a imprensa fique discutindo dias e dias a fio o seu último lançamento. A música fica em segundo plano. Às vezes, mesmo assim, a coisa dá certo - e ele passa por intelectual, coisa que ele é. Às vezes, não acontece nada disso.

, o (perdi a conta)º disco do cantor baiano, já está chamando a atenção por suscitar discussões por aí afora, sempre com um único tom: isso é rock? Pois é, vamos aos fatos. Caetano, um cantor e compositor que tem passado os últimos tempos em estado de suspensão (Circuladô vivo, disco duplo ao vivo de 1992, foi seu último lançamento que realmente prestou - e nem era um disco de inéditas) resolveu - vá lá - pelo menos mostrar que não está tão morto assim. E isso em todos os sentidos. Após acabar seu casamento de vários anos com a empresária Paula Lavigne, ele dediciu recrutar os amigos do filho Moreno Veloso - já vinha trabalhando com alguns deles, aliás - e tentou mostrar que vem se atualizando musicalmente. A coluna Gente Boa, do jornal O Globo, já andou denunciando (opa!) que o baiano chegou a comprar discos do Franz Ferdinand, pelo menos até dois minutos atrás, adorava.

Diga-se de passagem, Caetano nunca foi muito feliz na aproximação com o conceito rock, em momento nenhum de sua carreira. O Tropicalismo tinha muito de rock - por intermédio das guitarras de Lanny Gordin (artífice da sujeira na guitarra, no período) e Sérgio Dias, dos Mutantes. Mas só isso. O par de discos de Caetano lançados em 1968 e 1969 cheira a MPB. Gilberto Gil, até por suas poucas limitações técnicas e por sua disciplina bem mais rígida ao conhecer e estudar música, sempre lidou bem melhor que Caetano com os signos pop. Dois momentos em que Caetano se roçou no rock devem estar frescos na memória de muita gente: 1) o disco Velô, de 1983, que ele falou que era "meu álbum mais rocky" e trazia a equivocada e quilométrica Podres poderes - com instrumentação providenciada por músicos do vnaguardista paulistano Arrigo Barnabé; 2) o dia em que ele, aboletado na cadeira de entrevistado de João Gordo, no Gordo A Go-Go da MTV , deu pancadinhas na mesa e bradou: "SE HOJE EXISTE SEPULTURA AGRADEÇAM A MIM!!! A MIM!!". Lamentável.

Dessa vez, Caetano quis chamar MESMO a atenção. Da imprensa, ao posar de "apenas mais um membro da galera" (a galera: o guitarrista Pedro Sá, o baixista Ricardo Dias Gomes e o baterista Marcelo Callado, além do filho Moreno, que produziu o CD). Da ex-esposa, ao adotar um discurso irônico em relação ao universo feminino (Homem), ao introduzir espetadas nas letras ("você não vai me reconhecer quando eu passar por você", em Outro, aquela em que ele fala que está "feliz e mau como um p** duro"), etc. Dos críticos de plantão, ao inserir gírias de gosto duvidoso (o "você foi mór rata comigo" de Rockz) e misturar retóricas quase cinema-novistas (O herói) com discursos sem sentido ou adolescentes - na mesma faixa, Caetano faz uma defesa da luta social e racial que soa como se Chorão, do Charlie Brown Jr., tivesse resolvido ler as obras completas de Sérgio Buarque de Hollanda. É o tal "discurso da incoerência" ao qual já vi até um conhecido produtor de rock brasileiro se referindo - de acordo com a teoria do tal produtor (que deve estar certo), se mantém no rock nacional quem ainda alude a uma certa incoerência, a uma certa "liberdade". Caetano está aí desde 1966 fazendo mais ou menos isso. O duro seria explicar a ele que existem outros caminhos.

, longe de qualquer discussão sobre "isso é rock ou não é?", é um bom disco. Caetano conseguiu, como talvez nunca tenha aventado, se aproximar muito bem do conceito rock - seja na capa, uma citação barata de Waiting for the sirens call, do New Order, seja em Rocks, que (vá lá), até insere Pixies no caldeirão de sonoridades do cantor, graças a palhetadas e conduções de baixo-bateria que remetem a Gouge away, Debaser e outros clássicos da banda de indie rock - mas, claro, sem metade do peso do original. Minhas lágrimas tem o mesmo lado estradeiro e nostálgico que pode ser encontrado em bandas como Black Rebel Motorcycle Club, Raveonettes e os próprios Pixies. Em outros momentos, o lado roqueiro se despede e a baianidade, no que isso tem de bom e de ruim, toma conta, em músicas como Musa híbrida, canção na qual Caetano mostra a mesma "mão" para compor que já apresentara em Não enche, do Livro. E isso não é bem um elogio.

O lado experimental de outras investidas de Caetano surge forte em Wally Salomão, música em homenagem ao poeta baiano, morto em 2003 - uma condução marcial, percussiva,que já houve quem comparasse com os esquisitões do Ween, mas que tem a ver mesmo é com Noites do norte. Tem ainda o amor/ódio da boa Não me arrependo, outra alfinetada em Paula Lavigne, que soa como molecagem, sentimentalismo barato, mas com ótimos versos - "não, nada irá nesse mundo apagar o desenho que temos aqui/nem o maior dos seus erros, meus erros, remorsos, o farão sumir". De qualquer jeito, um sentimento que, para quem quer demonstrar renovação e juventude, soa mais como rancor bobo, falta de noção. Daqui a pouco só falta algum gaiato falar em MPBEmo. E olha que não é difícil. Até lá resta falar que merece uma boa audição. E uma boa zoação, pra não perder o hábito.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

PÓS-PUNK ANTES DO PUNK (?)

Adoro histórias de gente que era a pessoa errada na hora errada - ou a pessoa certa na hora errada, ou a  errada na hora certa, ou o que mais for possível imaginar. Foi o que aconteceu com uma certa banda de Detroit, mesma terra do Black Merda (sobre o qual você já leu aqui) que caiu no meu colo, o Death. Três negões que tentavam fazer punk rock e pós-punk com energia inaudita em 1973 e que ficaram inéditos até 2009 - quando os entrevistei para o glorioso Jornal do Brasil. Curta aí!

O PRÉ-PUNK QUE FICOU ESQUECIDO EM DETROIT
Publicado no Jornal do Brasil em 14 de março de 2009



Quando os irmãos negros Bobby (baixo e vocais), Dannis (bateria) e David Hackney (guitarra, morto em 2000 de câncer de pulmão) iniciaram a banda Death, em 1974, em Detroit, não havia punk rock. Havia o que os músicos da região chamavam de hard-drivin' rock'n'roll, o som pesado e acelerado feito na cidade que deu origem aos pré-punks Iggy Pop e MC5. Era o que o trio pensava fazer quando gravou, naquele ano, o engavetado ... For the whole world to see, que sai só agora em 2009 em CD, vinil e Mp3 pelo selo independente Drag City, de Chicago. E que revela uma sonoridade que, antes de lembrar seus conterrâneos, beira o hardcore.

"Nos víamos como uma banda de rock'n'roll. Não estávamos querendo inventar uma nova denominação para o rock", diz o baixista Bobby ao Jornal do Brasil, de New England, revelando que o material do disco esteve parado por anos nas casas dos músicos, após saírem de Detroit, nos anos 70. "Meu filho, também músico, descobriu que havia curiosidade em torno da gente e nos chamou a atenção".

A história da banda é peculiar. Primeiramente influenciados pelos Beatles, graças ao pai (que mostrou a banda aos filhos quando ela se apresentava no Ed Sullivan Show, em 1964), os rapazes começaram fazendo soul e funk. Passaram a ensaiar juntos mais a sério em 1971. Mas, em 1973, após assistirem aos Stooges no Michigan Palace, adotaram o nome Death e transmutaram-se em banda de rock pesado, com letras ácidas e políticas. Canções que só agora saem dos porões dos músicos, como You're a prisioner, Freakin' out e Where do we go from here vieram dessa transmutação, influenciada também por rockstars locais como Alice Cooper, Grand Funk Railroad e Ted Nugent. A curiosa Let the world turn, por sua vez, revela um estranho lado progressivo do trio.

"Também gostávamos de Pink Floyd, King Crimson e do Emerson, Lake & Palmer de álbuns como Brain salad surgery. David compôs essa música pensando numa espécie de rock-concerto", recorda.

Mesmo com a guinada para o punk, o material de ... For the whole world to see foi produzido por um nome conhecido da cena soul de Detroit, Don Davis, para sua gravadora Groovesville Productions. Originalmente, era uma demo que seria mostrada para as grandes gravadoras. E que quase garantiu a entrada na Columbia Records.

"A gravadora gostou do que ouviu, mas não aprovou o nome da banda. Não quisemos trocá-lo. Lembro de David ouvindo isso e falando: Hell! No!", lembra Bobby que, com o Death, lançou um single independente em 1976, cujas músicas também estão no CD, Keep on knocking e Politicians in my eyes.

Produtor responsável por levar o material do Death para a Drag City, Robert Manus pergunta-se o que a banda estaria fazendo hoje se tivesse feito um lançamento maior em 1974.

"O que mais chama a atenção é que eles estavam levando o rock para outro nível e não sabiam disso", afirma Manus. "A rapidez é a chave para entender o som deles."

Mesmo após o Death, as mutações sonoras continuaram fazendo parte da vida dos músicos. Bobby, Dannis e David chegaram a montar uma banda de rock gospel, The 4Th Movement, em 1977. Em 1981 a cozinha do trio deu origem ao grupo de reggae Lambsbread. Bobby e Dannis começam a pensar numa turnê e mantém um endereço no MySpace (www.myspace.com/deathprotopunk).

"Chegamos a pensar que nosso som ficaria esquecido para sempre. Mas eu e meu irmão David guardávamos tudo o que já havíamos gravado. Ele sempre disse que o mundo iria querer conhecer nossa música. E estava certo".

Nota de atualização: Cagada, ela existe. Na semana em que sugeri essa pauta, não achava nem que ela fosse passar. Mas aprovaram e fiz. Na mesma sexta-feira em que fechávamos a edição de domingo, na qual ela saiu, descobriram um detalhe curioso: a agência de notícias que assinávamos liberaria para o domingo uma matéria sobre essa banda. E eu mal sabia disso. Pegou bem.

Sobre o Death, a saga da banda não acabou aí. Em janeiro de 2011 saiu mais um disco, com demos até anteriores às de ...
For the whole world to see, Spiritual, mental, physical, também pela Drag City. You´re a prisioner, uma das músicas de ...For the world, entrou em 2011 para a trilha do filme O mafioso, de Jonathan Hensleigh.

Curta um papinho com eles no site
Suicide Girls (epa, nem sabia que lá tinha matéria de música). Leia aqui.

domingo, 25 de novembro de 2012

IH, Ó O CARA, AÍ


Quem curte música hoje, do alto de um monte de MP3 baixados e nunca nem ouvidos, não iria entender nada se vivesse nos anos 70.  O Alex Malheiros, baixista do Azymuth - banda-residente do estúdio da Philips (hoje Universal), que gravou com Hyldon, Tim Maia, Odair José, Raul Seixas, Rita Lee e todo o mundo - me disse que as pessoas tinham até dia certo para comprar discos: terça-feira. Vendia-se de tudo e lançava-se lançava de tudo. Quem estava fazendo sucesso na mídia, em algum momento ia se meter com música - e cinema, e livros. Cinema e livros continuam aí. Discos não representam mais a mesma renda de antes, com raras exceções. Fato.

Na época, gravadoras pensavam um pouco mais à frente, a ponto de contratar artistas em baixa para vender na alta. Nem todo mundo vendia disco, mas quase todo mundo fazia história. Havia quem chegasse a um milhão de cópias, mas com bem menos jabá e sem artimanhas (típicas dos anos 90) como baixar o preço pela metade. Esse clube do milhão incluía nomes como Maria Bethânia (em alguns momentos) e Wilson Simonal. Incluiu Odair José e Paulo Sérgio também e, nos anos 80, Ritchie, Xuxa e RPM. Mas a história convencionou deixar Roberto Carlos solitário no lance - e qualquer artista que começasse a bombar poderia ver-se diante da responsabilidade de vender "tantos discos quanto Roberto Carlos". Os Secos & Molhados quase conseguiram. 

Agora lá vem de novo Roberto Carlos vendendo um milhão de cópias. O portal da ABPD ainda não registra os números. Na verdade, o milhão nunca mais deixou de acompanhar o Rei, que ganhou disco de diamante também na década passada, com álbuns como Acústico MTV (2001) e Pra sempre (2003). Vender um milhão também não é algo estranho para muita gente - Paula Fernandes, que foi tocada (no bom sentido) pela fama do Rei, ultrapassou essa marca em 2011. Artistas gospel estão acostumados com esse tipo de cifra. Chamou a atenção o fato de que tudo veio graças a um EP, um compactão duplo, formato que, pelo visto, vai voltar com força total e preços diminutos. Sandy acaba de lançar um EP puxado pelo hit Aquela dos 30 - uma música até bem legal, vá lá. Justin Bieber testou sua entrada no mercado com outro do tipo, My world. 

No caso do Roberto, são apenas R$ 9,90 - nas Lojas Americanas, pelo menos - para você levar para casa o mais novo hit dele, Esse cara sou eu, e três outras canções - entre elas o funk melody Furdúncio. Possivelmente todas as quatro estarão no tal disco de inéditas que o Rei ainda não fez. Um milhão de pessoas já se adiantou e adquiriu as músicas, entre fãs e não-fãs (o mercado de singles, ativo no Brasil até 1985, tinha dessas coisas: você pode nunca mais comprar um álbum de determinado artista, mas comprava feliz um single de uma música que estava bombando, como quem baixa hoje uma canção no iTunes, passa para o iPod e esquece da vida - Gilberto Gil e Caetano Veloso, por exemplo, eram bons vendedores de compactos mas vendiam poucos LPs).

A indústria de shows está tendo que aprender rapidamente algumas coisas aqui no Brasil, depois da baixa procura pela apresentação da Lady Gaga. Talvez o novo milhão do Roberto, já que chamou tanto a atenção, ajude o mercado fonográfico a compreender algumas coisas importantes. A primeira delas é a de que, sim, CD é caro. Ainda mais em se tratando dos CDs que chegam às lojas hoje, com 12 canções e, muitas vezes, quatro músicas de verdade. 

Uma equação diabólica tomou conta do mercado a partir dos anos 00, década em que começaram a sair discos bem menos importantes e artistas com bem menos compromisso com seu público na hora de produzir álbuns cheios. É simples: de um lado, um público que baixa canções e não compra discos; do outro, um artista que pensa "ah, foda-se, ninguém compra mais discos". No geral, não tem nada mais "direto ao consumidor" do que R$ 9,90 por um disco. Ou três minutos de música para alguém cantar. E quanto mais alguéns cantando, melhor. Mais: um simples capricho de um dos raros espécimes do mercado que têm ainda moral para fazer exigências fez com que o bom e velho single retornasse ao mercado da maneira que deveria - e não embalado em projetos oportunistas, como já foi feito. E voltou com vendas expressivas. Outra lição.

Tem mais uma terceira lição para ser aprendida aí. Ouça a música aqui.

Esse cara sou eu não é tão boa assim. É uma canção comunicativa, que fica bem numa trilha de novela, e orna bem na obra de um cara que já compôs bizarrices como Mulher pequena - e recorre ao velho truque de ter uma frase com "eu" para todo mundo se identificar. Cumpre o papel, e basta. Só que tem um detalhe, e quem acompanha o circo pop sabe bem disso: no Brasil, de uns tempos para cá, não se faz UMA letra de música boa de verdade. Em setor algum. Ai se eu te pego, de Michel Teló, não é e nunca será uma música boa. Quem curte axé, pagode e sertanejo, de modo geral, não quer ou não precisa de nada muito diferente ou original. Em MPB, tem exceções. Em rock nacional, dá vergonha - ainda mais no meio independente. Qualidade pode ser ilusão de ótica, sim - depende das credenciais de quem chega junto, depende de se o prato servido é pouca coisa mais atraente do que o arroz-e-feijão que o espírito do tempo exige.

Não é uma música tão boa assim, não é uma letra digna do melhor que Roberto já fez, com ou sem Erasmo. Mas é bem melhor do que quase tudo o que toca no rádio atualmente. E é o Roberto Carlos - e ele virou tema de novela, toca no rádio, virou também meme do Facebook e fez você repetir "esse cara sou eu".

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

TAD. E NÃO T.A.D.


Você é um hipster musical dos dias de hoje? Sorte sua: se você um dia adquire um álbum só por modinha - e se arrepende depois - basta deletá-lo do seu HD, já que provavelmente você o baixou. Ou sequer baixou. Ouviu pelo YouTube.

Nos anos 80 era pouca coisa mais complicado. Ou você comprava discos ou gravava em fita K7, ou fazia a cópia da cópia da cópia das fitas dos amigos. Perdia-se tempo gravando fitas (muito tempo, aliás).


Em 1987, um selo chamado Stilleto associou-se à gravadora Eldorado e fez a festa do rebanho da época. Se você curtia música no anos 80 e tem entre 35 e 45 anos, lembra. Discos clássicos do Joy Division e do Fall chegaram às lojas do Brasil, após anos de ineditismo. Mas houve quem adquirisse montes de bolachas só pelo prazer da novidade: tem quem defenda até hoje que o pós-punk apagadinho do A Certain Ratio é um clássico. Ou o pop do Microdisney. Ou o pós-punk chato do Durutti Column. Quem comprou álbuns às cegas deve ter tentado cortar os pulsos ao pôr no toca-discos o álbum do grupo de jazz-pop Kalima, Night time shadows, lançado no mesmo pacote da Stilleto: era praticamente bossa nova de gringo, com atrativo zero para quem vibrava com a possibilidade de ouvir Dead Can Dance, Throwing Muses e outros grupos em vinil nacional.


Nos anos 90, era a mesma coisa, talvez até um pouco mais complexo. Só era mais fácil comprar os discos, já que em 1994 o real e o dólar parearam e até as Sendas e a Mesbla vendiam importados. Tinha grunge, rock alternativo anos 90, brit-pop... e tem quem até hoje defenda que bandas irrisórias como Seaweed e Gas Huffer eram boas, só porque mandaram importar CDs. Toda vez que olho minha estante, por exemplo, me pergunto o que deu em mim para comprar três (eu disse TRÊS) CDs dos Presidents Of The Usa, banda que a rigor lançou só um disco verdadeiramente bom e um hit que ocupa lugar no espaço, Lump (esse daqui). Talvez fosse o excesso de tempo disponível para ouvir música.

Essa introdução toda é só para perguntar: lembra do Tad? Tad, e não T.A.D, como fez questão de afirmar uma matéria da Bizz na época, 1991 ou 1992. Na minha estante, esquecido num canto, figura Inhaler (1993), raro disco do cara lançado por uma grande gravadora (Warner) e por acaso, publicado no Brasil. Disco que ouvi, arquivei (nao curti na época) mas fui redescobrir outro dia. Mas você já procurou saber aonde estava aquela banda que foi ventilada pela revista de música que você lia nos anos 80/90 e da qual nunca mais ouviu falar? Pois é, Tad Doyle, cantor e compositor do grupo, ainda vive e trabalha, e paga suas contas com música. Olha aí o site dele.


O Tad, a banda, começou com o músico tocando quase todos os instrumentos ao lado do produtor Jack Endino (Nirvana, Titãs), que comandou os trabalhos em suas primeiras demos em 1987. O grupo fechou as portas em 1999 ("para proteger o legado", diz o site) e em 2001 Tad Doyle já estava em outro projeto, Hog Molly. Hoje faz barulho, muito barulho, com uma banda chamada Brothers Of The Sonic Cloth, que lançou recentemente um split single com uma banda de stoner rock chamada Mico De Noche. Tad Doyle hoje tem esse visu Papai Noel aí, por sinal.




No site, ele oferece também os serviços de seu estúdio Witch Ape, iniciativa sua e de sua mulher. Não é pouca porcaria, não: Tad revela ter estudado jazz e música clássica na universidade e vende seu peixe como produtor e engenheiro de som renomado, além de "ter estado dos dois lados do processo, como músico e produtor".

Outra banda que você possivelmente deve ter um vinil guardado é o já citado A Certain Ratio. Eles também existem, têm um site, dão shows e recentementre se apresentaram no Factory Manchester, que agenda shows de bandas com o espírito do selo, ou de grupos que já pertenceram ao catálogo da gravadora Factory - o The Fall dá as caras por lá no domingo (25). Só conferir .

A lista não tem fim. No futuro, quem sabe, alguém esteja querendo saber o que o Tame Impala anda fazendo. Ou o Dirty Projectors. Ou o OK Go. Ou mais um monte de bandas que volta e meia você ouve falar por aí. Enquanto isso, vá reaprendendo o maior hit do A Certain Ratio. Isso era bem legal.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

MORRER É RUIM (DUH)


Não tem nada mais bizarro do que morrer de uma forma bizarra - como naquela famosa lenda sobre a Mama Cass, vocalista do The Mamas & The Papas, que afirmava ter a cantora morrido engasgada com um sanduíche (na verdade, ela saiu de cena por causa de um enfarte do miocárdio). Ou como Keith Relf, vocalista dos Yardbirds, que teria morrido eletrocutado ao tocar guitarra em casa (outra lenda dá conta de algo mais maluco ainda: de que ele estaria tocando guitarra, com o instrumento devidamente plugado na parede, ao relaxar numa banheira cheia d'água).

Em 2010 foi a vez do celista da Electric Light Orchestra, Mike Edwards, partir de forma louca. Ele dirigia sua van em Devon, Inglaterra, quando um pacote de feno pesando 600 kg rolou por uma colina e simplesmente atingiu seu carro. Inimaginável - deu até para lembrar daquele personagem do Asterix que tinha medo de que o céu caísse sobre sua cabeça. A novidade é que parece que agora pegaram dois infelizes como culpados, diz a Classic Rock Magazine (leia aqui).

Foi buscando na internet textos sobre o álbum Pacific ocean blue (1977), único álbum solo lançado pelo falecido baterista dos Beach Boys Dennis Wilson, que me descobri o último a saber de uma notícia bem interessante: em 2013 deve sair - as filmagens foram bastante adiadas - um longa sobre a vida de Wilson, The drummer. 

Aaron Eckhart faz o papel principal e Vera Farmiga faz a cantora-compositora do Fleetwood Mac, Christine MacVie, com quem Wilson teve um relacionamento pra lá de complexo. Nota: Wilson foi outro roqueiro a morrer de forma bizarra. Era o único beach boy que surfava e morreu afogado em 1983, após beber o dia inteiro e resolver dar um mergulho. O filme foca nos seis últimos anos de vida de Wilson, então possivelmente dá-lhe relatos deprês - ele vivia entrando e saindo de clínicas de reabilitação nesse período. 

Provavelmente, só uma biopic do líder da banda, Brian Wilson,  traria informações relevantes a respeito dos mitos e maluquices que rondavam os Beach Boys em seus períodos mais estranhos. Como interessado em qualquer bizarrice que diga respeito aos anos 60 e 70, adoraria ver na tela a época em que os Beach Boys pareciam ter virado Reis Midas ao contrário: estavam fora de moda, lançando discos malucos ou simplesmente fracos, metidos em tretas sombrias (Dennis Wilson hospedou ninguém menos que o assassino serial Charles Manson e suas pupilas em sua mansão e, sem coragem de expulsá-los, fugiu da própria residência e parou de pagar o aluguel). Tem um doc bem interessante sobre o grupo, An american dream (que até saiu em DVD no Brasil), por outro lado.

Para conhecer mais sobre Dennis Wilson, tem também esse doc aqui (em inglês, e em várias partes) produzido e exibido pela BBC. Vale assistir.